Interação Estratégica e Concursos Públicos: Uma Etnografia do Concurso da
Magistratura Francesa
– Isto para um concurso é... é terrível de dizer porque... é
estratégia do início ao fim...
– É! Estratégia!
– Tem que ser esperto, mais que inteligente...
– Mas é verdade...
– E é uma pena!
– É um jogo de antecipação, eles sabem o que eles querem e como eles
querem. (Diálogo entre duas jovens magistradas francesas em um de
meus grupos focais realizados naÉcole Nationale de la Magistrature,
em 2008).
INTRODUÇÃO
Cada vez mais no Brasil, e particularmente entre os jovens juristas, a opção
pelos concursos públicos como pilar de inserção profissional vem ganhando
vulto. Como via de acesso quase exclusiva às carreiras de Estado, e notadamente
às carreiras jurídicas, a preparação e a passagem por concursos públicos é
etapa obrigatória e decisiva da vida profissional de um número crescente de
diplomados em Direito.
No entanto, o concurso público é raramente apreendido como um objeto pela
sociologia das profissões jurídicas, que ainda se fia às duas abordagens
clássicas, quais sejam: (1) o aprendizado profissional nas faculdades de
Direito; e (2) a formação profissional e a dinâmica das carreiras jurídicas em
si. Localizado entre estes dois momentos da trajetória profissional de muitos
juristas está o período compreendido entre sua formatura e sua posse em um
cargo público.
Já repertoriei as publicações sobre este tema na literatura francófona sobre a
magistratura (Fontainha,_2014), e constatei que existe um verdadeiro “ponto
cego” no tocante ao recrutamento dos juízes, ressalvada a pesquisa de Fillon,
Bonichi_e_Lecompte_(2008), bem como as teses de doutorado de Oger_(2002) e
Billand_(2008). Muito se produz sobre o ensino do Direito, sobre a Escola
Nacional da Magistratura e sobre o trabalho em jurisdição, sem, entretanto,
quase nenhuma dedicação a este momento crucial da vida profissional. Apostando
justamente no poder de explicação que o aprofundamento do discurso científico
sobre os concursos públicos pode trazer à sociologia das profissões jurídicas,
este artigo pretende consolidar e propor um quadro de análise baseado em uma
Teoria dos Jogos, tal como a organizada por Erving Goffman.
É fora da sociologia das profissões e da sociologia do Direito que se encontra
o debate sobre processos de seleção social, em particular das seleções segundo
métodos e critérios escolares (dinâmicas nas quais a performance dos
selecionados é avaliada por meio de provas escritas e/ou orais por
selecionadores). Este debate, objeto da sociologia da Educação (Van_Haecht,
2006;Duret,_2009), tem sido organizado em torno de dois referenciais: o
determinista, paradigma dominante, e o construtivista. A visão determinista,
projeto ambicioso e complexo, é baseada numa sociologia holística, em que a
excelência individual é emissária da dominação e o fracasso é produto de
injustiças. A reprodução como teoria do sistema de ensino e de seleção social
foi elaborada por Bourdieu e Passeron, inicialmente no livro Les Héritiers
(1964), e posteriormente em La Réprodution (1970), e é em realidade um olhar
sobre a escola na sociedade de classes bem mais desenvolvido que o dos
marxistas.
Este artigo buscará propor um quadro analítico para os concursos públicos a
partir da segunda tradição deste debate, motivo pelo qual não se estenderá
acerca da teoria da reprodução. Num primeiro momento, ele mostrará como o
construtivismo avançou em direção à compreensão dos processos de competição de
atores, notadamente as competições escolares. Em seguida, analisará a recepção
da Teoria dos Jogos pela sociologia, após ter nascido na Matemática e conhecido
grande uso na Economia. Finalmente, ele construirá progressivamente o olhar
goffmaniano sobre as dinâmicas interacionais, começando pelas interações
cotidianas (metáfora do teatro), passando pelas interações focalizadas e
desembocando nas interações estratégicas (metáfora do jogo). Por fim, será
trazida uma etnografia da prova oral de cultura geral da magistratura francesa,
em que as categorias teóricas trabalhadas poderão ser aplicadas através da
descrição densa de quadros interacionais.
A EMERGÊNCIA DA COMPETIÇÃO DE ATORES NO CONSTRUTIVISMO
Desde os anos 1980, os sociólogos franceses vêm sendo tocados por dois
movimentos simultâneos: o abandono do marxismo e a adesão à sociologia
interacionista americana, notadamente a produzida pela segunda geração da
Escola de Chicago, formada por Herbert Blumer e Everett Hughes e conhecida por
suas críticas ao determinismo e ao funcionalismo. O retorno do ator e a
perspectiva atomista ganham lugar na sociologia francesa, o pluralismo
interpretativo avança de encontro às teorias holísticas e a dimensão empírica
ganha importância considerável. Florent Champy explica esta conversão na
sociologia das profissões1:
Em primeiro lugar, o desgaste do paradigma marxista obrigou certos
pesquisadores a encontrar novas orientações de pesquisa. Além disso,
o recuo da influência e do crédito do marxismo, por muito tempo
importante na sociologia francesa, se fez acompanhar de uma
desconfiança em relação às “grandes teorias”, tornando muito atrativa
a empiria e a descrição da diversidade de situações, que é
constitutiva […] do interacionismo. […] Por fim, a sociologia
interacionista comporta um último atrativo para os sociólogos que,
ainda que não venham do marxismo, são majoritariamente de esquerda:
sua dimensão crítica (2009:29).
O importante aqui é a compreensão de como os autores desta sociologia crítica –
da qual o interacionismo simbólico é a fonte – podem contribuir para a
compreensão de processos como os concursos públicos.
A primeira geração da Escola de Chicago2, impulsionada por diversos fatores,
foi, após a escola parisiense de Émile Durkheim, a maior referência na produção
sociológica no século passado. No entanto, a maior contribuição da Escola de
Chicago para a sociologia é talvez a relação que sua produção guarda com a
pesquisa de campo, o que transformou profundamente a relação entre o
pesquisador e seu “objeto”. Considerada a primeira grande obra produzida por
aquela geração, The Polish Peasant in Europe and America de Thomas_e_Znaniecki_
(1920), já trazia uma longa nota metodológica (120 páginas) e uma concepção
avançada sobre dados primários (first-hand data). Segundo os autores:
Temos que nos colocar na posição do sujeito que tenta achar seu
caminho no mundo, e temos que lembrar, em primeiro lugar, que o
ambiente que o influencia e ao qual ele se adapta é o seu mundo, e
não o mundo objetivo da ciência – é a natureza e a sociedade assim
como ele as vê, não como os cientistas as veem (ibidem, vol. 2:1846-
1847).
O indivíduo aparece então como fonte de conhecimento sociológico, não mais como
objeto de forças e determinações sociais. Estudar o comportamento dos
indivíduos em comunidade é tornar visível a sociedade tal como ela é vivida
pelos seus membros.
Outra enorme contribuição, oriunda da relação entre a cidade de Chicago e sua
Universidade, é a noção de “laboratório” em sociologia, que, segundo Burgess,
era a própria cidade (1929:47). Testemunha de um enorme crescimento entre 1840
e 1940 e de uma explosão de diversidade, a cidade de Chicago torna-se um
laboratório de sociologia. Uma parte desta tendência empírica é devida a Park,
que graças à sua experiência anterior como jornalista, cria na proximidade
física entre o sociólogo e seu objeto de estudo um imperativo de trabalho.
No livro que ambos, Park e Burgess, escreveram, Introduction to the Science of
Sociology, conhecido nos Estados Unidos como green bible, eles expõem sua
concepção sobre o lugar da empiria no conjunto da produção científica:
Fatos não foram coletados para verificar as teorias sociais. Os
problemas sociais foram definidos em termos do senso comum, e os
fatos foram recolhidos, na maioria das vezes, para apoiar esta ou
aquela doutrina, não para testá-la. Em muito poucos casos pesquisas
foram feitas desinteressadamente, para determinar a validade de uma
hipótese (1921:44).
Esta geração substitui o primado da teoria pelo da empiria, fazendo nascer a
sociologia conhecida como interacionismo simbólico. Ela reivindicava seu
caráter crítico pela oposição ao determinismo e ao funcionalismo, podendo ser
explicada a partir de quatro conceitos centrais:
Estes quatro conceitos centrais são: (1) as pessoas, individual e
coletivamente, estão preparadas para agir em função dos significados
dos objetos que compõem o seu mundo, (2) a associação de pessoas está
disposta, necessariamente, na forma de um processo no qual elas fazem
indicações umas às outras, interpretando as indicações uns dos
outros, (3) atos sociais, individuais ou coletivos, são construídos
através de um processo em que a observação dos atores interpreta e
avalia as situações confrontando-as, e (4) a complexa interligação
dos atos que compõem a organização, as instituições, a divisão do
trabalho e as redes de interdependência, se move e não implica temas
estáticos (Blumer,_1969:50).
Esta corrente pode ser qualificada de radical na medida em que reconhece não
apenas a autonomia de ação do indivíduo, mas igualmente sua criatividade, visto
que as funções, os sentidos e os objetivos das múltiplas ações mudam no curso
das interações e são permanente e reflexivamente renegociados ao longo do
tempo. Poder-se-ia dizer se tratar de uma teoria ancorada no mundo empírico,
primeiro porque se trata de um produto de pesquisas efetuadas; segundo, porque
apenas sua completude por dados primários lhe acorda sentido.
Goffman foi um autor que decidiu levar a interação face a face ao estatuto de
categoria fundamental da Sociologia. Seu trabalho mais conhecido, The
Presentation of Self in Everyday Life, utiliza a metáfora de uma representação
teatral para explicar o comportamento social quotidiano, e a maneira como as
pessoas interagem umas com as outras. Em Goffman o ser não é importante, pois o
jogo de expressões é tão complexo que o que compartilhamos justamente são as
técnicas de controle e veiculação de informações pessoais e sociais. Nas
palavras do autor:
Um personagem encenado em um teatro não é algo de real, nem obedece
ao mesmo tipo de consequências reais como faz o personagem
completamente artificial encenado por um homem de confiança, porém a
encenação bem-sucedida de ambos estes falsos personagens envolve o
uso de técnicas reais – as mesmas técnicas pelas quais pessoas comuns
sustentam suas situações sociais reais (Goffman,_1959:255).
É importante perceber que no vocabulário de Goffman não há apenas o ator
(actor), mas também o receptor (recipient), numa dialética em que cada
participante da interação é ator e receptor a seu turno, e na qual as trocas
informacionais podem se tornar densas. O processo cognitivo que subjaz a esta
dinâmica é o de avaliação das expectativas normativas do outro e de realização
prática de obrigações, construindo um rito interacional comportando fluxos de
golpes e contragolpes bastante complexos. Partindo daqui, uma sociologia do
aprendizado aplicada à competição objetiva pode se desenvolver.
Para Goffman, a ação individual e a apresentação de si ganham uma dimensão
estratégica. Para ilustrar este propósito, evocarei a noção de mobilidade
social como questão maior acerca da competição escolar. O sucesso num concurso
ou numa prova não é necessariamente uma vitória; ela pode ser, ao contrário, um
sinal de derrota (Goffman, 1952:463). No olhar goffmaniano, portanto, tornar-se
um magistrado ou um promotor de justiça não é necessariamente uma vitória
pessoal ou social, uma vez que a conquista desta posição deve ser relativizada
pela posição já ocupada e/ou almejada por cada um. Assim, as motivações e os
sentimentos pessoais contam unicamente na medida em que são objetivados sob a
forma de estratégias e técnicas de gerenciamento de informações pessoais e
sociais. Por exemplo, um candidato que tenta encobrir ou fazer passar
despercebido um traço desviante seu (um estigma) aos olhos da banca avaliadora
(Goffman,_1963:130). A primeira questão levantada por esta corrente que toca os
concursos é o comportamento desviante. Considerando que vivemos num emaranhado
de normas sociais – certo, que retocamos e renegociamos a cada momento –, o
comportamento desviante traz a questão da simetria entre indivíduos e grupos
sociais. O universo dos candidatos não é o mesmo dos membros da banca
examinadora, e estes dois grupos não possuem igualdade de condições na produção
das regras da competição, como afirma Becker no seu livro consagrado aos
outsiders: “As diferenças na capacidade de criar regras e aplicá-las a outras
pessoas são, essencialmente, os diferenciais de poder (legal ou extralegal).
Esses grupos, cuja posição social lhes dá armas e poder, são mais capazes de
impor as suas regras” (ibidem:18).
Para avançar sobre o tema, passarei à contribuição de Garfinkel, fundador da
etnometodologia, que mesmo sem pertencer à Escola de Chicago, com ela partilha
muitos referenciais teóricos e metodológicos. No seu vocabulário, os atores
tornam-se membros, na medida em que partilham os mesmos conhecimentos e as
mesmas práticas quando de um determinado contexto. Assim, a normatividade dá
espaço à interpretação e três conceitos analíticos fundamentais aparecem: a
indexicalidade (ligação entre uma forma linguística e um contexto), a
reflexividade (dialética entre descrever e constituir uma situação) e a
descritibilidade (pensar o mundo como observável e descritível). Para
Garfinkel, os principais imperativos da pesquisa empírica são a observação
direta, a descrição densa e a imersão duradoura do pesquisador nos contextos
sociais rotineiros (vendo os fatos sociais como realizações práticas). Do lado
do account, um dos conceitos fundamentais da etnometodologia é a Sociologia
leiga (lay Sociology), que o autor opõe à sociologia profissional (Garfinkel,
1967:75).
Assim, é reconhecida aos indivíduos, além da autonomia e da criatividade, a
capacidade de elaboração sociológica, em que a relação de cada um com os
diferentes grupos produz fortes referências cognitivas e o senso comum cresce
em importância, tornando-se um critério fundamental de análise da sociedade.
Para o autor, então, a figura de um indivíduo marcado pelo desconhecimento
sobre as condições de produção de sua vida em coletividade é inexistente: não
há um idiota cultural (judgemental dope).
Coulon e Dupret, dois etnometodólogos franceses, utilizam esta noção como ponto
forte da difusão do pensamento de Garfinkel na França (Coulon,_1993:648;
Dupret,_2001:441). Esta tradição elegeu a educação como um dos seus temas
centrais, também orientada pela crítica ao determinismo e ao funcionalismo, que
se manifestavam na França através da teoria da reprodução, mas que nos Estados
Unidos se tratava de uma corrente otimista (a escola como lugar da pura seleção
meritocrática). Um dos primeiros trabalhos que marcam esta crítica é The
Educational Decision-Makers, de Cicourel_e_Kitsuse_(1963), no qual são
relativizadas categorias comumente utilizadas para explicar a seleção escolar,
como o mérito, o dom, a vocação e a competência técnica e científica (Filloux,
1994).
A rejeição dos atributos românticos da Escola não concilia deterministas e
interacionistas, ao contrário. Mehan, em seu artigo intitulado “Structuring
School Structure” se opõe claramente à noção de estrutura em prol da
deatividades estruturantes: a seleção não é determinada por critérios
(pré)estabelecidos, mas através (e ao curso) da interação dos professores e
alunos (Mehan,_1978:36apudCoulon,_1994:69).
Esta abordagem mostra outra distinção entre o determinismo e o interacionismo
acerca da noção de competência. Baseada na dimensão relacional, a competência
social é a capacidade de mobilização de um capital (cultural, social,
econômico, jurídico ou simbólico) na perseguição de um objetivo. Porém, se o
referencial se desloca em direção às interações, a competência se torna
estratégica e incorpora um fator cognitivo (social, não psicológico): a
realização prática, como afirma Mehan no seu artigo “The Competent Student”:
Esmiuçando esses pontos de vista, obtém-se uma concepção de
competência como sendo as ferramentas exigidas, habilidades, e
conhecimentos necessários para uma participação em uma determinada
comunidade. [...] A competência para a participação na interação não
é uma consideração subjetivista. É uma consideração social. A
competência interacional não está a ser equacionada com habilidades
subjacentes ou reduzida ao nível de uma pessoa individual. [...] As
pessoas têm de mostrar o que sabem. [...] A competência, então, é
congregada por pessoas que se relacionam umas com as outras. (1979:3-
4)
Garfinkel já afirmou, de forma jocosa, que não se deve procurar respostas na
cabeça das pessoas, pois lá só há massa cinzenta (1963). A competência não é o
produto de uma acumulação de conhecimentos ou de quaisquer outros atributos
meramente intelectuais, é necessária sua realização prática e contextual. Não
se trata de pensamento e ação, mas do pensamento em ação (Goffman, 1979). No
caso dos concursos públicos, o conhecimento pretensiosamente avaliado seria o
conhecimento jurídico, e para tanto contamos com avaliadores profissionais,
baremas, provas com programas e gabaritos. No entanto, o domínio da dimensão
estratégica tácita – esta que tentaremos demonstrar como determinante na
competição – das regras dos concursos é ao menos tão importante quanto conhecer
as leis, doutrinas e tendências jurisprudenciais (ibidem:27).
É necessário sublinhar que a dimensão tácita não evoca o referencial do falso
conhecimento ou da ignorância (méconnaissance). Sua dimensão interacional é
conhecida de todos, podendo até mesmo – e no caso dos concursos públicos para
as carreiras jurídicas no Brasil minha hipótese é que o são – ser objeto de
elaborações estratégicas finas, por vezes mesmo conferindo o sentido prático do
processo de seleção. Ela é tácita na medida em que não é objetivada de início
(tomada como fato objetivo), pelos programas das disciplinas, gabaritos e
baremas, tampouco utilizada para justificar uma resposta (pelos candidatos) ou
ainda para legitimar uma nota atribuída (pelos avaliadores). Esta problemática
é o cerne da crítica de Mehan ao sistema de ensino americano (Coulon,_1994:87).
Berger_e_Luckmann_(1996:18), contribuem para este debate na medida em que
unificam teoricamente a objetividade de Durkheim e a subjetividade de Weber,
explicando que a realidade social é construída a partir da interpenetração
entre uma facticidade objetiva e umsentido subjetivo. Este movimento, dentro do
qual o sentido subjetivo se torna uma facticidade objetiva, segundo os autores,
possui três tempos dialéticos: a exteriorização (a projeção humana no mundo), a
objetivação (os produtos da projeção retornam aos seus criadores como dados
externos) e a interiorização (a reapropriação destas realidades exteriores).
Assim, a descontinuidade e a produção e reprodução dinâmica da simetria entre
subjetividade e objetividade fazem aparecer a questão da distribuição social do
conhecimento (ibidem:46).
Ao que toca o propósito deste artigo, a noção de distribuição e uso dos
recursos cognitivos os converte em verdadeiras ferramentas cognitivas (Van
Haecht,_2006). De uma forma geral, busquei na sociologia interacionista a ideia
fundamental de explorar nos processos deobjetivação a fonte para compreender a
dinâmica de seleção nos concursos públicos, ficando claro que estes processos
se dão em paralelo às regras oficiais e explícitas dos concursos. De início, a
seleção deve ser encarada como produto da interação de candidatos com uma
banca. A proposta é a investigação dos processos pelos quais os candidatos
apreendem as fórmulas que consideram potencializadoras de suas chances de
sucesso, para elaborar, testar e aprimorar uma prestação quando das provas
(processos de elaboração estratégica). Igualmente, a atuação da banca deve ser
vista como a realização de um trabalho prático, no qual a avaliação dos
candidatos é feita de maneira desestruturada, mas consciente, e é centrada no
exame de pertinência e competência dos processos de objetivação (estratégias)
realizados por eles. Passamos agora à construção da noção dejogo.
GOFFMAN E A METÁFORA DO TEATRO
Aquilo que conhecemos hoje como Teoria dos Jogos não passa da denominação
generalista de uma corrente, originária de certos matemáticos, que ao longo do
século passado cresceu incrivelmente, tanto em número de usuários quanto
através das áreas do conhecimento3. Sem a ambição de restituir a integridade de
sua criação e desenvolvimento, é necessário ao menos dizer que neste artigo,
quando falo de Teoria dos Jogos, me refiro a um uso particular que dela fazem
alguns autores, sobretudo Goffman.
É nos anos 1950 que a Teoria dos Jogos chega na sociologia, com a publicação do
artigo de Jessie Bernard, “The Theory of Games of Strategy as a Modern
Sociology of Conflict” no American Journal of Sociology, em 1954, e a
publicação de Games and Decisions, de Robert Luce e Howard Raiffa, em 1957, sob
a direção de Lazarsfeld. Um balanço do uso sociológico da Teoria dos Jogos
entre 1950 e 2000 foi feito por Swedberg_(2001:309), que classifica seis
diferentes abordagens, comparando-as e identificando suas principais temáticas.
Uma destas seis abordagens – a que concerne este trabalho – consiste na
utilização dos jogos como uma metáfora, em que o vocabulário da Teoria dos
Jogos (jogo, jogador, estratégia...) é empregado de maneira não técnica por
autores como Elias, Crozier, Thoenig, Burawoy, e também Goffman. Este último o
faz no intuito de melhor compreender as interações estratégicas.
Muito mais conhecido pelas suas pesquisas e seus conceitos em torno de outra
fonte metafórica – o teatro –, Goffman consagrou a maior parte dos seus
trabalhos ao comportamento quotidiano das pessoas em coletividade. É em torno
da noção de realidade social como dramatização que ele constrói o fundamento de
seu interacionismo. No entanto, quatro de seus trabalhos4 foram dedicados à
compreensão de um outro tipo de situações sociais: aquelas nas quais o risco e
a consequencialidade estão fortemente presentes. Assim, para construir o quadro
compreensivo com o qual pretendo analisar situações como a seleção por
concursos públicos, é necessário acompanhar Goffman progressivamente, de início
através das interações quotidianas, passando pelas interações focalizadas,
para, enfim, chegarmos às interações estratégicas.
Quando fala de seu quadro analítico, Goffman faz mais que justificar a adoção
de uma fonte lexical de denominação. Ele compara o mundo social a um palco,
afirmando o caráter performativo da vida cotidiana, em que as pessoas encontram
os mesmos problemas que os atores quando estão em cena (1974:124-155). A
apresentação de si na vida cotidiana é o tema que nos permite resumir
grosseiramente a obra deste autor. A compreensão da realidade social como fruto
de um processo no qual somos ato e receptor ao mesmo tempo (e ao curso das
interações) implica, de um lado, um movimento cognitivo de apreensão
informacional de expectativas, e de outro, o cumprimento prático de obrigações.
Não devemos imaginar que por atribuir importância ao aspecto ritual da
interação humana o autor nega as relações de poder. Neste tocante, o autor
distingue duas classes de regras de conduta: simétricas e assimétricas
(Goffman,_1967:52-53). As regras simétricas vinculam os indivíduos partícipes
da interação às mesmas expectativas e obrigações, enquanto as assimétricas os
vinculam a expectativas e obrigações diferentes. Ele mesmo nos fornece um bom
exemplo de objetivação de relação de poder a partir da assimetria observada nas
interações de médicos com enfermeiras quando de sua pesquisa realizada num
hospital psiquiátrico (Goffman,_1961a). Ele conta que observou os médicos dando
ordens e instruções às enfermeiras, mas nunca o contrário; assim como viu
comumente enfermeiras se levantando quando da entrada de um médico no cômodo,
mas o contrário jamais se deu. Esta noção também nos é bastante útil para
entender a relação existente entre os membros da banca avaliadora e os
candidatos aos concursos em termos de assimetrias que objetivam relações de
poder. Dois propósitos são os pilares do interacionismo goffmaniano.
O primeiro é a noção segundo a qual os laços entre ator e receptor são os laços
da sociedade. Ele se inspira na ideia durkheimiana de que a personalidade
individual pode ser vista como uma fração do mana coletivo (Durkheim,_1960:343-
390), e que os ritos que são realizados para representar a coletividade social
podem, por vezes, ser realizados individualmente (Goffman,_1967:47). É isto que
permite o enfrentamento dos fenômenos sociais a partir da análise das
interações humanas.
O segundo é a noção de que estes laços entre os indivíduos são feitos de normas
que os vinculam uns aos outros, regras de conduta que possuem uma dupla força.
O caráter direto destas normas tem a força de uma obrigação, estabelecendo de
que forma um indivíduo é moralmente obrigado a se comportar em relação aos
outros, e o caráter indireto dessas normas possui a força de uma expectativa,
estabelecendo como os outros são moralmente obrigados a se comportar em relação
a ele (ibidem:49).
Estes dois pressupostos teóricos trazem uma implicação metodológica
extremamente importante para este trabalho, baseada numa distinção de
inspiração durkheimiana5 entre regras substantivas e regras cerimoniais. As
regras substantivas são aquelas que instituem expectativas e obrigações acerca
de objetos importantes em si, e as regras cerimoniais são aquelas que instituem
expectativas e obrigações sentidas como secundárias (ibidem:53-54). Daremos um
exemplo que ilustra a distinção, provindo exatamente do tema deste artigo e da
minha experiência em campo. Segundo uma norma substantiva, um candidato que se
apresenta perante uma banca quando de um exame oral não deve, durante a
arguição, evocar suas origens sociais ou mesmo seus laços de parentesco ou
relacionais tentando, com isto, se favorecer, e, segundo uma norma cerimonial,
ele deve apresentar-se bem trajado, de paletó e gravata. A aparente futilidade
da segunda norma esconde o fato de que ela impõe ao candidato referências para
a ação e restrições ao quadro interativo tão severas quanto a primeira. Mesmo
se a primeira norma descrita serve para proteger a impessoalidade imposta às
seleções por concurso público, a segunda não deve ser considerada como menos
importante, pois ela tende a proteger igualmente um valor ligado à sacralização
do indivíduo: o respeito aos ritos de interação. O candidato também será
julgado pela sua capacidade de corresponder de forma pertinente e competente às
expectativas que a banca coloca sobre ele e, em o fazendo, dá sentido à
seleção, permitindo e instrumentalizando a objetivação do trabalho de seleção.
Entretanto, as implicações metodológicas vão além desta distinção. Uma vez que
o autor considera que os laços que unem ator e receptor são os laços da
sociedade, e que os ritos coletivos podem ser reproduzidos individualmente, a
compreensão da realidade social pode ser feita a partir da análise das relações
mais superficiais, rotineiras e cotidianas que cada um mantém com os demais. Em
outras palavras, ao tentar explicar o fato social através das interações
humanas, é metodologicamente vantajosa a valorização das interações baseadas em
normas cerimoniais, gestos e expressões aparentemente vazios, que são, na
verdade, repletos de significado e de mais fácil acesso, uma vez que as
oportunidades de ver afirmada a ordem moral são relativamente mais raras dado
ao operacional necessário à efetivação das normas substantivas. O autor evoca
ao menos três razões que justificam essa vantagem metodológica: os ritos
baseados em normas cerimoniais são mais breves, eles não têm implicações
substantivas, e podem ser repetidos indefinidamente em cada interação (Goffman,
1967:90-95).
Goffman distingue dois elementos fundamentais da atividade cerimonial: a
deferência (deference) e a conduta (demeanor). Por deferência (1967:56-77), o
autor entende o componente da atividade que é um símbolo que em si confirma a
relação do ator com o receptor. Para melhor compreensão deste conceito, Goffman
se inspira na distinção que faz Durkheim entre cultos positivos e cultos
negativos (Durkheim,_1960:427) para dividir os rituais deferenciais em rituais
de apresentação (presentation rituals) e rituais de esquiva (avoidance
rituals). Os rituais de esquiva (negativos) são todos aqueles que dizem
respeito à manutenção da distância, o tabu contra o ato de tocar, a discrição,
enfim, a preservação daesfera ideal de que falava Simmel_(1950:321).
Exemplos de rituais de esquiva poderiam ser os pequenos gestos e respostas
ligeiramente “atravessadas” que podemos dar aos outros quando queremos
demonstrar falta de tempo, paciência ou humor, ou quando não temos vontade de
interagir. Os rituais de apresentação (positivos) mostram de que maneira o ator
vê o receptor e indicam como ele vai tratá-lo ao curso da interação. Exemplos
de rituais de apresentação são cumprimentos, convites, elogios, e outros
pequenos gestos que exprimem ao menos o desejo e a disposição de manter o rito
de interação.
Por sua vez, a conduta é o componente da atividade cerimonial que se manifesta
através da maneira de se portar, de se vestir e de postar (Goffman,_1967:77-
81). O comportamento é o vetor da boa (ou da má) impressão que alguém pode
causar quando na presença imediata de outros. Assim, “se portar bem” é uma
questão de exercício do caráter ou da competência que chamamos, por vezes, de
“sociabilidade”, ou de “socialização”. É através do comportamento que cada um
cria uma imagem de si. Uma nota interessante a este propósito é referente à
ajuda profissional que por vezes é engajada para a potencialização do
comportamento: cabeleireiros, conselheiros de moda, enfermeiras que preparam os
pacientes e guardas que arrumam os presidiários nos dias de visita... Eu mesmo
já tive a oportunidade de constatar que muitos candidatos e dirigentes de
institutos de preparação ao concurso da magistratura francesa fazem uso de
profissionais de coaching, especializados na assessoria para recrutamentos no
setor privado (Fontainha, 2011:283-289). Dito isto, podemos continuar a compor
o “palco”.
A primeira noção a desenvolver é a de face. Num mundo onde as pessoas vivem
múltiplos encontros sociais, a face de alguém apenas pode ser o produto de um
complexo arranjo de impressões. Uma face, então, é o conjunto de valores e de
atributos sociais valorizantes que reivindicamos efetivamente quando de cada
contexto interacional de que fazemos parte. Ou, ainda nas palavras de Goffman:
O termo face pode ser definido como o valor social positivo que uma
pessoa reivindica efetivamente para si mesmo por meio da direção que
outros assumem que ele tomou durante um contato particular. Face é
uma imagem de si delineada em termos de atributos sociais aprovados –
mesmo que a imagem que os outros possam compartilhar, seja a de uma
pessoa que faz uma boa exibição de sua profissão ou religião,
tornando uma boa exibição para si mesmo (1967:5).
Assim, dependendo do contexto no qual nos encontramos, dependendo dos
interesses que queremos realizar, segundo as vontades e desejos que nos guiam,
reivindicamos umaface. E é justamente este processo de formação de um “eu”
polivalente na interação que é necessário para distinguir a identidade real da
virtual, e a identidade pessoal da social.
A identidade virtual se refere às pressuposições feitas a respeito da “face” de
alguém, possuindo potencialmente um caráter retrospectivo, uma vez que existem
categorias e atributos que compõem a identidade real, e que podem ser
efetivamente apreendidos e verificados (Goffman,_1963:2-3). A dinâmica que se
desenvolve quando da presença imediata de ator e receptor é a capacidade do
primeiro de construir para si um conjunto informacional e de mostrá-lo, assim
como a capacidade do segundo de verificar e de procurar limites e nuances (ou
mesmo imposturas) destas informações. Por sua vez, estas fontes informacionais
são tanto sociais (um pingente da estrela de Davi significa uma verdadeira
pertença à comunidade judaica?) quanto pessoais (uma aliança no dedo significa
um verdadeiro casamento?). A dramatização das relações entre os indivíduos
começa com a precarização do si, ao menos se considerarmos que oser em si ou o
ser em si mesmo não existem, e em seu lugar temos o ser como objeto permanente
de construção e verificação, evidentemente variando em função de cada contexto
interacional. É neste ponto que a questão do controle informacional ganha
relevo e pertinência. É necessário passar ao último conceito que forma a
perspectiva do teatro: as expectativas normativas.
No tocante à questão da identidade e da informação, mesmo quando iniciamos uma
interação com uma pessoa que não conhecemos ela não é para nós uma “folha em
branco” que será preenchida ao longo deste ritual. Todas as expectativas que um
ator porta acerca de um receptor antes de conhecê-lo chamamos expectativas
normativas. Na sua dimensão mais larga (aquela que se aproxima do julgamento,
positivo ou negativo), as pessoas compartilham um conjunto de expectativas
normativas, oriundas do conhecimento adquirido da vida em comunidade.
Evidentemente, um contexto comunitário é ancorado num contexto cognitivo, o que
significa que uma mudança de rede interativa implica uma mudança de pertença a
uma comunidade de expectativas normativas. É como transformar o “para tornar-se
funcionário público, é necessário conhecer o Direito” em “para se tornar
funcionário público, é necessário conhecer a banca examinadora”. Ainda que as
duas ideias não estejam ancoradas na realidade objetiva, elas se farão reais
nas suas consequências, na medida em que servirão de referência para a
orientação (ferramenta cognitiva) de ao menos o início de uma interação. Na sua
dimensão mais estrita, as expectativas normativas são veiculadas através de
marcas de identidade (identity tags), ou “etiquetas” que um ator pode perceber
vinculadas ao receptor antes mesmo de conhecê-lo.
A todo momento na vida cotidiana lidamos com questões e dilemas envolvendo
dinâmicas interacionais, em que a administração de informações cumpre um papel
essencial. É vivendo em permanência estes dilemas e questões que praticamos e
aprimoramos nossos meios de sucesso social, que são absolutamente ligados ao
ato de interagir, não tendo qualquer relação com o “capital”, tampouco com o
que quer que seja exterior ou precedente ao dado contexto interacional. É o que
chamamos anteriormente “competência interacional” e que Simmel chama de “arte
da sociabilidade” (Simmel, 1950:45-46).
A compreensão das categorias utilizadas por Goffman para analisar as interações
na vida cotidiana, urbana e secular é absolutamente indispensável caso
queiramos nos valer de seu interacionismo como ferramenta explicativa de outros
tipos de interação, muito menos rotinizadas, nas quais a arte da sociabilidade
dá lugar a uma verdadeira competência estratégica.
DAS INTERAÇÕES COTIDIANAS ÀS INTERAÇÕES FOCALIZADAS
Até aqui tratamos dos termos gerais e básicos do interacionismo de Goffman
voltado à compreensão da vida cotidiana. O autor centra sua abordagem em
situações que poderíamos qualificar de pouco institucionalizadas do ponto de
vista cerimonial. Quando da presença imediata de outros, basta que cada um de
nós recorra minimamente às suas expectativas normativas para saber como se
portar de forma pertinente e competente.
No entanto, o enquadramento necessário para a análise das interações de
candidatos com uma banca examinadora nada tem de cotidiano. Aqui tratamos de um
outro tipo de situação social, que possui como diferença fundamental, em
relação ao cotidiano, a institucionalização de suas propriedades cerimoniais.
Goffman_(1961:7) distingue as interações, sob este critério, entre focalizadas
e não focalizadas.
As interações focalizadas, mais identificadas com o tipo de situação que se
quer analisar aqui, possuem certas propriedades que lhes conferem um estatuto –
e uma abordagem, portanto – particular: “Exemplos de tais propriedades incluem
constrangimento, manutenção da pose, capacidade de comunicação verbal dirigida,
a adesão a um código que observa a tomada e concessão do papel de orador, e a
alocação de uma posição espacial” (Goffman,_1961:11). O autor assinala que a
participação nas interações focalizadas – que ele chama também de encontros
(encounters) – é fundada na adesão a um código essencialmente cerimonial:
regras que organizam constrangimentos de discrição e postura, de comunicação
verbal e posicionamento espacial.
No que nos interessa, as normas – mesmo, e sobretudo, as normas cerimoniais –
são compostas de expectativas e obrigações, e é aqui que a metáfora do jogo
começa a ganhar sentido. Num concurso público, como num jogo de cartas6, o
domínio das regras e a perícia em transformá-las em meios de sucesso são os
fatores decisivos para determinar o vencedor: “Eu volto ao pressuposto de que,
como qualquer outro elemento da vida social, um encontro exibe uma regularidade
sancionada oriunda de obrigações cumpridas e de expectativas realizadas, e que
é aí que reside a sua estrutura” (Goffman,_1961:19). Nas palavras do autor, é a
correspondência às expectativas e o cumprimento das obrigações que estruturam
as interações focalizadas. Aqui podemos ver a primeira conversão da
sociabilidade em uma verdadeira competência estratégica.
No cotidiano, a perícia na correspondência às expectativas e o cumprimento das
obrigações contribui para o acúmulo reputacional e relacional, tornando-nos
“sociáveis”. No entanto, as questões em torno do desenrolar das interações
também são importantes aqui, e para distingui-las daquelas que enfrentamos
cotidianamente, a institucionalização das normas cerimoniais não é suficiente.
Um candidato que passa por um concurso público tem muito mais em jogo que a sua
reputação. Precisamos da incorporação de dois outros elementos para passar ao
quadro do jogo: o risco e a consequencialidade.
GOFFMAN E A METÁFORA DO JOGO
Os concursos representam concretamente o acesso aos cargos públicos e a tudo o
que eles trazem concretamente. A sociologia que tento mobilizar remete a dois
movimentos fundamentais: antecipação e adaptação. O cerne destes dois
movimentos não está ligado a um saber, ou mesmo a um savoir-faire, mas à
capacidade de apreender uma rede de expectativas e de se adaptar a ela (Gaïti_e
Sawiki,_1997:10).
Para construir sua noção de jogo como quadro analítico de certas situações
sociais, Goffman fala de “ação” num sentido não parsoniano, mas evocando o uso
corrente ordinário do termo. Nos Estados Unidos, o termo action é comumente
empregado para designar situações arriscadas ou até mesmo perigosas. Em
oposição aos momentos em que nós “matamos tempo”, o autor quer desenvolver uma
abordagem sobre as situações envolvendo risco e consequencialidade (fatefulness
econsequentiality). Por risco devemos entender que a ação perpetrada pode
acarretar em desdobramentos que se dividem, grosseiramente, em desejáveis e
indesejáveis, e que podem ser relativamente previsíveis quando da decisão da
escolha do curso de ação pelo jogador. Na situação que se pretende analisar –
um concurso público – dois são os desdobramentos possíveis: passar ou não
passar. Entretanto, para que se configure um jogo, não é necessário apenas
haver o risco de ganhar ou perder, mas é necessário que igualmente o que se
ganha ou o que se perde seja, em alguma medida, considerado importante para os
jogadores. É o que Goffman chama de consequencialidade, o peso do resultado
negativo ou positivo para aquele que assumiu o risco. Num concurso público, a
possibilidade de acesso ao cargo desejado e a seus benefícios representa o
segundo elemento da situação.
Podemos imaginar algumas consequências quando de nosso envolvimento num jogo.
Na maioria das vezes – incluindo a situação que se quer analisar aqui –,
participar do jogo é uma questão de escolha, diferentemente do teatro, na
medida em que não se escolhe um engajamento num cotidiano.
Em primeiro plano, é necessário estimar qual o valor que cada jogador atribui
ao sucesso, assim como o valor que cada jogador estima perder no caso do
fracasso. Em segundo plano, cada jogador avalia suas chances, quer dizer, a
relação entre os meios de sucesso que cada um estima possuir e o grau de risco
que cada um estima assumir. Passar num concurso público não é uma verdadeira
questão para qualquer pessoa, e mesmo para muitos que gostariam de se tornar
funcionários públicos a objetivação desta vontade não acontece em virtude da
não adoção deste curso de ação. Nosso universo de jogadores é, então, composto
por todos aqueles que desejam se tornar funcionários públicos e que objetivam
esta vontade através da elaboração e realização de uma estratégia de sucesso.
Um desdobramento destas situações que concerne a este trabalho toca a questão
do controle físico e emocional diante de uma situação de stress. Temos o hábito
de associar a manutenção do autocontrole – sobretudo face ao perigo – como
traço de alta qualidade moral, como a medida dos homens segundo Hemingway: a
capacidade de ser gracioso sob pressão. As implicações físicas da manutenção da
postura sob stress são ligadas à capacidade de um minucioso controle muscular.
Com efeito, o impacto da situação pode fazer o jogador se trair por alguns
gestos, expressões faciais, maneiras de falar ou de escrever... No limite, o
que pode acontecer é um bloqueio físico ou psicológico, ou mesmo um colapso,
ocasionando a perda dos sentidos. Goffman mesmo dá alguns exemplos
interessantes: os surfistas e os toureiros possuem por princípio de atividade a
manutenção da pose diante de condições adversas, certos políticos têm por
principal competência a serenidade discursiva mesmo enfrentando uma plateia
crítica, e, enfim, as provas escolares, que têm por principal escopo o teste
das capacidades dos alunos de cumprir duras tarefas em tempo controlado
(Goffman,_1967:214-238). Quando fiz uma etnografia das provas orais do concurso
da magistratura francesa em 2007 e 2008, pude perceber como se objetivam
ostress e o nervosismo dos candidatos através de gestos ou pequenas alterações
na fala. Pude mesmo acompanhar a candidata que durante o tempo de preparação da
prova oral de Cultura Geral (última prova do concurso) perdeu os sentidos e foi
retirada de ambulância (Fontainha, 2011:322).
Entretanto, é em torno da informação que nosso jogo ganha a maior parte do seu
sentido. Voltando ao teatro, a permanente troca informacional entre ator e
receptor no cotidiano constrói pouco a pouco, o próprio sentido da interação. A
questão que se deve colocar é relativa à eventual capacidade de adquirir, de
controlar e de encobrir estas informações ou, nas palavras de Goffman: “Neste
artigo, quero explorar uma capacidade humana geral, em termos das concepções
que temos de seus limites físicos e sociais: a capacidade individual de
adquirir, revelar e ocultar informações” (1969:4). Nas situações que se quer
examinar, temos, de um lado, uma banca que quer adquirir informações capazes de
serem traduzidas em uma nota, e, de outro lado, candidatos com o interesse de
veicular as informações que julgam mais benéficas para a produção desta nota.
Temos, então, um observador dependente daquilo que ele pode apreender de um
objeto; encontramo-nos numa avaliação na qual a informação se torna estratégica
e jogos de expressão se realizam (ibidem:10-11).
Neste ponto é interessante notar que a apreensão que Goffman faz do vocabulário
do jogo em substituição ao do teatro não é meramente ilustrativa, mas
analítica. Ele passa a utilizar o termo observador e objeto no lugar de ator e
receptor, eexpressão no lugar de informação. Esta inversão lexical reforça uma
diferença fundamental entre o teatro e o jogo: a expressão é a informação
disponibilizada pelos participantes, provocando duas consequências
fundamentais: de início, a informação disponível aos participantes do jogo é
submetida à interpretação contextual segundo as normas que constituem o sentido
do jogo e, em seguida, a aquisição desta informação obedece a um processo
complexo de movimentos e contra movimentos entre observador e objeto.
Sobre a interpretação contextual é necessário dizer que em todos os jogos
existem situações que são plenamente compreensíveis a todos aqueles que, ao
menos, conhecem a especificidade cerimonial que estrutura o sentido próprio do
jogo. Então, para os participantes, ou mesmo observadores, que sabem do que se
trata, uma expressão é interpretada como um movimento numa sequência
estratégica, para além de um simples gesto comportamental. O exemplo do bridge,
de Garfinkel, ilustra bem este propósito:
Para ilustrar, os jogadores de bridge não respondem às ações uns dos
outros como atos comportamentais. Eles não tratam o fato de que o
outro jogador retira uma carta de sua mão e a coloca sobre a mesa
como o evento “colocando abaixo um papel cartonado” ou “efetuando a
tradução da posição de uma carta”, mas sim através da tradução da
posição da carta do jogador sinaliza que “ele tem como jogada o ás de
espadas como primeira carta do truque”. Do ponto de vista dos
jogadores a pergunta “o que pode acontecer” é para ele corretamente
decidida nos termos dessas regras. (1963:194 apudGoffman,_1961:26)
Sobre o modelo “observador/objeto” é necessário sublinhar que, em geral, as
tarefas do jogo são divididas entre aqueles que buscam e aqueles que fabricam
ou escondem expressões. Em suma, o papel do observador no jogo é desvendar a
informação desejada sobre o objeto que, por sua vez, tem por papel a fabricação
e a manutenção da expressão que lhe é mais favorável. Entretanto, esta divisão
de tarefas não é arbitrária, mas caminha no mesmo sentido dialético e reflexivo
do fluxo de informações que circula entre ator e receptor. O observador (a
banca examinadora) também pode se tornar o alvo de apreciações, e o objeto (o
candidato), um caçador de expressões. Já pude constatar como os candidatos à
magistratura francesa se preparam em função de uma banca, buscando informações
sobre a vida profissional e os centros de interesse dos membros da mesma
(Fontainha, 2011:277-283 e 304-312). Assim, a grande questão aqui é: o desejo
de agregar o melhor valor de face possível, mesmo na hipótese da rejeição do
valor de face e da busca de expressões imunes à fabricação e à dissimulação. A
engenharia de expressão consiste, aqui, na veiculação da expressão pertinente
pelo objeto e na busca de fraquezas desta pertinência pelo observador.
Mas quais são as fontes de informação com as quais podemos contar para acessar
a expressão? Qualquer fonte pode ser utilizada e, normalmente, as pesquisas
empíricas surpreendem os observadores desavisados7, mas Goffman_(1969:20-28)
lista quatro delas, incontornáveis para este trabalho. A primeira é a expressão
psicológica: expressões faciais, mãos trêmulas, pequenas gagueiras, enfim, todo
sinal físico que pode indicar a objetivação da incerteza, da insegurança, ou,
em suma, o medo da descoberta da descontinuidade entre o ser real e o ser
reivindicado. A segunda é o comportamento: os dados de padrão comportamental
que podem distinguir alguém da pessoa que ele reivindica ser, como a idade, o
sexo, a origem geográfica ou social, o sotaque etc. A terceira é a correção
cênica: pequenas correções e atualizações que podemos realizar para restaurar a
ordem da interação, como breves cumprimentos, saudações, desculpas ou pequenas
pausas.
A quarta, e mais potente, é a “etiqueta” de identidade: sinais oficialmente
reconhecidos que ligam um indivíduo à sua biografia. Aqui os exemplos podem ser
numerosos. Goffman_(1969:96) utiliza o recurso que o psiquiatra faz ao dossiê
do novo paciente antes da consulta. Já tive a oportunidade de demonstrar o uso
estratégico que os candidatos ao concurso da magistratura francesa fazem de
seus dossiês de candidatura (Fontainha, 2010:117-138). A partir da análise de
750 dossiês, pude observar que apenas os diplomas com menções valorosas eram
enviados junto com a documentação obrigatória. Alguns deles encaminhavam o
curriculum vitae, e até mesmo boletins do ensino secundário com comentários
elogiosos de professores. Igualmente, nos inquéritos de moralidade não era raro
encontrar a transcrição feita pela polícia de depoimentos triunfalistas sobre a
vontade de passar no concurso e de ser magistrado, e dos esforços despendidos
para tanto.
Na verdade, cada um de nós é cercado de “etiquetas”: uma carteira de
identidade, um boletim escolar, uma certidão de casamento, sem contar tudo
aquilo que pode ser achado por meio de ferramentas como a internet.
Para prosseguir na qualificação de nosso jogo é necessário distinguir os
movimentos mais frequentes. O movimento involuntário (unwitting move) é aquele
em que o objeto age sem se orientar pelo observador, o que significa dizer que
se trata de um movimento praticamente fora do jogo. O movimento ingênuo (naive
move) ocorre quando o observador toma o objeto tal como ele se reivindica, ou o
“compra” por seu valor de face. Porém, o movimento mais importante do jogo é o
movimento de controle (control move): é o esforço intencional do objeto para
impressionar um observador, ou a ação consciente deste para desestabilizar
aquele.
O movimento de controle, quando usado pelo objeto, se chama movimento de
cobertura (covering move), e consiste na utilização de qualquer recurso
estratégico para se reivindicar expressões valorizantes e esconder expressões
desvalorizantes. Todo esforço de responder a uma questão sobre um tema que
dominamos pouco, toda tentativa de esconder um diploma medíocre, ou mesmo um
sorriso dado num momento de desespero, são exemplos de movimentos de cobertura.
Por outro lado, todo ato do observador tendente a desconstruir os movimentos de
cobertura chama-se movimento de descoberta (uncovering move). Toda verificação,
toda tentativa de desestabilizar um candidato, toda questão que chamamos
correntemente de “pegadinha”, são exemplos de movimentos de descoberta.
Vejamos, então, como Goffman descreve a “pegadinha” (trick question): uma
pergunta à qual a resposta parece, mas não é, aquela que poderia ser imaginada
pelo objeto que não sabe a resposta, mas que gostaria de dar a impressão de que
sabe (Goffman,_1969:18).
O caráter negativo do jogo não é o único, tampouco o mais importante. Os
esforços para impressionar um observador ou para desestabilizar um objeto são
apenas uma dimensão dele. Na verdade, o crédito não é unicamente ligado à
capacidade de se manter um valor de face que nem sempre é estável. O maior
crédito que podemos mobilizar neste jogo é relativo às declarações (avowals).
Todo engajamento, toda assunção de riscos, toda escolha irretratável de um
curso de ação é tomado como um movimento de jogo (Goffman,_1969:113).
Assim, as declarações, enquanto elementos fortes de objetivação de um
engajamento estratégico, representam mais do que a palavra de um jogador, pois
é necessário que este, a partir das evidências motivadas pelas regras do jogo,
indique de maneira irreversível sua escolha por um curso de ação que permita ao
observador o teste de sua estabilidade. Nas provas jurídicas, sobretudo as
orais, não é incomum a provocação dos candidatos para que se posicionem em
favor de uma das correntes doutrinárias envolvendo uma questão. Ao declarar
adesão a uma das correntes, o jogo se institui e o candidato será avaliado pela
sua capacidade de manter a estabilidade da linha de ação que escolheu. Ao
tentar se esquivar ou não declarar adesão a nenhuma das correntes, o candidato,
tentando escapar da declaração, não fornece aos examinadores critérios claros
pelos quais ele poderá ser julgado. Desta forma, não declarando, não assumindo
riscos, não marcando na sua performance uma postulação de ação estável, ele
comete o maior dos erros de um jogador: a quebra da ordem ritual que estrutura
um jogo. É desta maneira que banca e candidatos construirão a lógica da seleção
ao curso da mesma.
Duas últimas considerações nos faltam acerca da metáfora do jogo. A primeira é
referente ao seu caráter derivativo: é evidente que o jogo herda as categorias
fundamentais do teatro. Assim sendo, o quadro incorpora um aspecto
constrangedor para esta abordagem: o foco no imediatismo das interações face a
face entre ator e receptor. No entanto, quando se trata de um jogo,
observadores e objetos interagem também por intermédio de outros veículos, como
cartas, documentos, e-mails etc. Isto por duas razões básicas: de início, o
acesso à expressão não se dá unicamente quando da presença imediata; em
seguida, várias situações – para além dos momentos em que observador e objeto
se encontram face a face – podem compor o todo social de um jogo. Afirma
Goffman:
Qualquer contato que um grupo tenha com um indivíduo, quer face a
face ou mediado por dispositivos como os e-mails, vai dar o acesso da
expressão a terceiros. Imediatismo, então, não determina o limite
analítico para o estudo da expressão (1969:5).
Em se tratando de concursos públicos, devemos tomar a prova escrita como o
veículo de expressão por excelência entre candidatos e a banca examinadora.
A última consideração a ser feita concerne à evidente presença de uma banca
examinadora no jogo. À diferença de vários jogos em que os adversários se
afrontam diretamente, lidamos aqui com um comitê de peritos que tem por tarefa
a avaliação individual das performances de cada candidato. Não se trata de
pessoas encarregadas da aplicação de um barema de avaliação (como a banca da
patinação artística), ou da verificação permanente da aplicação de regras
escritas (como o juiz de futebol). Nos concursos públicos, cada candidato terá
sua performance individual objetivada numa linguagem acadêmica sob a forma de
uma nota para, após, ser formada uma ordem comparativa. Sobre o poder de
intervenção dos observadores sobre a competição entre objetos, afirma Goffman:
Além disto, na maioria das decisões proferidas pelos juízes a
aplicação de uma compensação não se baseia em pura coerção, como
acontece quando a natureza chama a entrar em sintonia com as questões
da vida e da morte. Outros fatores estão envolvidos: o sentimento de
que os juízes são sagrados e seu mundo não deve ser abertamente
desafiado, a capacidade dos juízes de infligir penas extras de um
tipo mais acentuado tal que o seu julgamento deva ser rejeitado, e as
penas ainda mais acentuadas se esta, por sua vez, for rejeitada, e
assim por diante, eventualmente culminando presumivelmente em
decisões aplicadas fisicamente. Em muitos casos, então, o perdedor de
um jogo está em uma posição de declínio, pelo menos temporariamente,
e aceitar cooperativamente o julgamento contra ele pode valer a pena
enquanto ele faz isso. (1969:117-118)
Miaille, quando de seu artigo sobre as predisposições ao corporativismo na
seleção dos magistrados franceses (2005:218-245), usou a revalorização de sua
experiência na banca do concurso como fonte de dados, muito embora tenha se
valido sobretudo do conceito de capital simbólico de Bourdieu para analisar a
medição do desempenho dos candidatos por ele e por seus colegas examinadores.
Já investiguei as interações no seio mesmo da banca examinadora do concurso da
magistratura francesa (Fontainha,_2009:55-67) e pude constatar que a competição
profissional entre professores de Direito e magistrados – com a forte primazia
acadêmica naquele país – tem nítidas implicações na dinâmica das provas,
sobretudo das provas orais.
A TEORIA EM AÇÃO: O “GRANDE ORAL” DO CONCURSO DA MAGISTRATURA FRANCESA
Como observa Joseph, o situacionismo metodológico é ferramenta essencial do
interacionismo goffmaniano (2000:89-91). Ainda que se possa discutir a natureza
do termo “microssociologia”, não se pode negar a importância da descrição densa
de quadros interacionais como a principal fonte de dados em estudos como este.
Assim, este artigo prossegue exibindo uma etnografia realizada por mim nos anos
de 2007 e 2008 em Paris, durante a mais “temível” das etapas do concurso da
magistratura francesa: a prova oral de Cultura Geral, também conhecida como
“Grande Oral”, ou, na forma nativa, Le Grand O. Entendamos um pouco melhor a
arquitetura deste concurso, e como o “Grande Oral” se encaixa nela, antes de
partirmos para os dados propriamente ditos8.
Nosso foco aqui será a segunda parte da prova, em que candidatos e banca
examinadora interagem por 15 minutos. Esta parte se segue à apresentação de 15
minutos feita pelo candidato sobre um tema ou um texto curto que ele mesmo
sorteia de uma lista, após uma hora de preparação. Durante a apresentação do
candidato, o turno de fala não é uma questão: o candidato fala sozinho e o
presidente da banca apenas o interrompe na eventualidade de ultrapassagem dos
15 minutos. Na segunda parte, a interação dos candidatos com a banca torna-se
muito dinâmica. No entanto, a atividade não é esperada dos candidatos, apenas a
reatividade. É papel da banca fazer perguntas.
Na etnografia apresentada a seguir, reagruparei as situações mais distintivas
da demonstração pretendida. Os candidatos observados serão representados comoC1
até C31, e os membros da banca pela letraJ seguida do seu último sobrenome.
Estes 31 candidatos fizeram suas provas nos dias 20 e 21 de novembro, 4 e 5 de
dezembro de 2007, e 13, 14 e 15 de outubro de 2008. Em três formações
diferentes, atuaram como jurados: Sra. Ambroise-Casterot (professora de Direito
da Universidade de Nice); Sr. Varinard (professor de Direito da Universidade de
Lyon 3); Sr. Charruault (magistrado da Corte de Cassação – presidente da
banca); Sra. Bellivier (professora de Direito da Universidade de Paris X); Sr.
Dillange, substituto do Procurador-Geral da Corte de Apelação de Paris); Sr.
Legeais (professor de Direito da Universidade de Nice); Sr. Dauchy (professor
de Direito da Universidade de Lille II); Sr. Chabanol, conselheiro de Estado; e
Sra. Crédeville (magistrada da Corte de Cassação – presidente da banca).
A etapa interativa do “grande oral” começava sempre por uma frase-gatilho dita
pelo presidente com o objetivo de agradecer a apresentação do(a) candidato(a) e
marcar a transição, como: “muito obrigado, senhorita, agora passemos às
perguntas”. Em seguida o presidente da banca passava a palavra para cada jurado
ou para si mesmo, que faziam perguntas.
Entretanto, mesmo tão institucionalizado o turno de fala, não era rara uma
espécie de cooperação entre os jurados ao longo de uma mesma linha de
questionamento ao candidato. Por razões propriamente interacionais que veremos
a seguir, os jurados tinham por hábito, a todo tempo, se interromper e cruzar
perguntas pertinentes à linha de questionamento desenvolvida. Assim, esta etapa
da prova é marcada por golpes e contragolpes, na lógica de provocação-reação.
Do ponto de vista cerimonial, a posição dos jurados não é fácil. Imaginação e
raciocínio rápido são necessários para realizar a tarefa de forma pertinente,
uma vez que a continuidade do exercício é de sua responsabilidade.
Dois são os meios observados de garantir a perícia na fluidez da prova: o
recurso a temas permanentes e a colaboração entre jurados. O primeiro,
geralmente tratado pelo termo “xodó”9 de cada jurado, constitui um forte
elemento de realização interacional: é o recurso a temas conhecidos de cada um,
o que impede silêncios ou “bloqueios” da parte dos que devem provocar a
continuidade da interação. Os exemplos mais marcantes da aplicação desta
técnica foram: a utilização da história russa pela Sra. Ambroise-Casterot, a
referência ao trintenário da morte de Elvis Presley pelo Sr. Charruault, e as
perguntas sobre a obra de Ingmar Bergman feitas pela Sra. Bellivier.
Quanto à colaboração entre os jurados, uma vez que as perguntas são curtas e
rápidas, os responsáveis pela continuidade do exercício reenquadram
permanentemente a pertinência contextual da interação, fazendo de tudo o que é
dito uma referência sólida para a pergunta seguinte. Sublinho que a referência
pode vir da resposta do candidato ou da pergunta de outro jurado.
O “bom” emprego da colaboração será objeto de várias análises a seguir. Por
ora, consideremos o uso de outras técnicas de descreditamento dos candidatos. O
contexto deste exercício chama o quadro compreensivo da alternância entre
golpes de controle e golpes de descoberta. Várias eram as técnicas mediante as
quais se tentava buscar a impertinência ou insuficiência da resposta do
candidato. Por vezes o descreditamento toma formas mais coletivas e evidentes.
Não me refiro às vezes em que o candidato faz uma piada bem colocada, mas de
situações nas quais o riso coletivo dos jurados desestabilizava e descreditava
o candidato:
JChabanol – Quantas vítimas em Hiroshima?
C25 – Não sei, todo mundo? [gargalhadas dos jurados]
Aqui é necessário tratar de outra técnica: a do “não sei”. Não era raro o uso
desta expressão antes de uma resposta que o candidato considerasse inadequada,
na tentativa de minimizar seu peso descreditante. O uso desta técnica por parte
dos candidatos é delicado; no caso citado, não ajudou. O riso coletivo pode,
por vezes, ser provocado por um dos jurados, como no caso abaixo:
JCasterot – Então, dizemos “magra” ou “fina”10?
C11 – São dois lados da mesma moeda.
JCharruault – Então, magra de frente e fina de costas? [todos os
jurados riem] Diga, de todas as mulheres não retocadas porphotoshop,
qual é a mais bonita?
C11 – Brigitte Bardot.
JCharrualt – Hum, voilà...
É necessário notar que não há nenhuma implicação substantiva na piada. A
distorção da metáfora do candidato produz, ao contrário, o endurecimento das
condições de interação. O riso coletivo pode mesmo ser provocado entre jurados:
JDauchy – É necessário pregar o atestado de saúde na porta dos
gabinetes dos juízes?
JCrédeville – Ao menos o da saúde mental... [todos os jurados riem]
C27 – Não, me parece excessivo...
JDauchy – Você está dizendo que uma decisão política é mais
importante que uma decisão jurídica?
C27 – Não, eu não disse isso...
JDauchy – Você não tem medo de assédio num meio tão feminino? (o
candidato era homem)
C27 – Curiosamente, não [todos os jurados riem]
JDauchy – Por que “curiosamente”?
C27 – Não sei, é minha experiência pessoal.
Para além dos risos coletivos, a maneira mais simples de descreditar um
candidato é o anúncio direto e claro do seu erro:
JDauchy – Como traduzimos “law”?
C17 – “Lei”?
JDauchy – Não, “Direito”!
Situações como a do exemplo acima ocorriam com frequência. A palavra “não” era
assim empregada para anunciar publicamente o descreditamento, ou, ainda, para
afirmar o uso excessivo ou impertinente da técnica do “eu não sei”:
JCharruault – Onde morreu Elvis Presley?
C12 – Eu não sei.
JBellivier – Memphis. Quem mais morreu em Memphis?
C12 – Eu não sei.
JBellivier – Martin Luther King, conhece?
C12 – Ah, sim...
JBellivier – Esqueçamos o “king”. Quem foi Martinho Lutero?
C12 – Eu não sei.
JVarinard – Não, não...
A intervenção do Sr. Varinard exprime uma das regras claras deste “jogo”: o
limite do uso da técnica do “eu não sei” é a expectativa normativa mínima da
banca. No caso acima, era legítimo o uso da técnica nas demais perguntas, mas
não foi tolerada quando se perguntou quem foi Lutero.
Quase toda expressão utilizada pelos candidatos que pudesse ser utilizada como
símbolo descreditante pelos jurados entrava no jogo, na maioria das vezes, sem
nenhuma implicação substantiva. C31, na sua exposição oral, utilizou o artigo
definido “o” para designar a SFIO, e durante a conversação, depois:
JChabanol – O que é SFIO?
C31 – Sessão Francesa da Internacional Operária.
JChabanol – Então porque “o” SFIO?
C31 – Perdão, a SFIO.
JChabanol – Fale-nos dela.
C31 – (…) então Léon Blum, após Jean Jaurès (…) então o SFIO...
JChabanol – Ah!
C31 – Perdão, a SFIO...
Aqui fica claro que qualquer conhecimento substantivo em torno da SFIO é
irrelevante para os golpes de descoberta desferidos pelo jurado. Quando está a
serviço do descreditamento de um candidato, a colaboração entre os jurados pode
tomar reflexivamente uma capacidade de adaptação contextual sofisticada:
JBellivier – Quem é o maior antropólogo francês?
C26 – Claude Lévi-Strauss.
JBellivier – Ele é vivo?
C26 – Não.
JBellivier – Sim, ele fez 100 anos este ano, mas está vivo.
JDauchy – O juiz deve ser um pouco antropólogo?
C26 – Hum...
JDauchy – O juiz deve explicar sua decisão?
C26 – Não.
JChabanol e JDillange – Perdão!?! [os dois juntos]
C26 – Não... eu tinha pensado na prestação pública de contas...
JCrédeville – Existem decisões não justificadas?
C26 – Sim, as proferidas em Cassação [todos os jurados riem, olhando
para a Sra. Crédeville, juíza em cassação]
JCrédeville – Eu tinha pensado no Júri...
Um último ponto a observar nos golpes de descoberta é o uso recorrente da
ironia, que provoca um efeito devastador na moral do candidato. Por ironia me
refiro ao que é dito, mas se querendo afirmar justamente o contrário, buscando
o efeito contextual de confrontar o candidato com uma grave reprovação por
parte do jurado:
C1 – Os Direitos Humanos não são completamente respeitados na China
[risos].
JCharruault – Os Direitos Humanos não são com-ple-ta-men-te
respeitados na China, tá bom! [acentuando fortemente a palavra
“completamente”].
C1 – Não, não... quero dizer que os Direitos Humanos não são
respeitados na China.
Outra técnica de inquirição consiste na alimentação das expectativas
normativas legitimadas por expressões pessoais ou sociais dos
candidatos. Não estou falando da pertença de classe, étnica ou
religiosa. As expressões simbólicas mais evocadas eram o nome, o
sobrenome e, às vezes, o endereço, impressos na capa do dossiê de
candidatura, que ficava em cima da mesa da banca examinadora.
Após ler o dossiê de C23, o Sr. Dauchy pergunta: “Lille ou Aix? Norte ou Sul?”.
Por vezes este uso pode ser mais direto:
JVarinard – Você é filha de viticultor, fale-nos do movimento dos
viticultores de 1950.
C4 – O senhor quer dizer de 1905?
JVarinard – Não, 1950!
Aqui a expressão evocada visa adicionar à pergunta do jurado uma expectativa
normativa legítima de obrigatoriedade de pertinência da resposta. Efetivamente,
a referência ao nome ou sobrenome era feita de forma bem direta:
JCharruault – Você tem um homônimo célebre?
C1 – Sim, um pintor, mas eu não conheço seus quadros.
A resposta demonstra claramente a compreensão do sentido da pergunta, ela é
pertinente. No entanto, ela seria marcada pela competência estratégica se, em
conhecendo a possibilidade do uso desta homonímia pelo jurado (uma regra do
“jogo”), o candidato se antecipasse e preparasse uma ficha sobre o pintor em
questão, como fizeram vários outros candidatos:
JCharruault – Você se chama “Eurídice”, o que você sabe de “Orfeu”?
C24 – [Não consegui anotar exatamente o que foi dito, mas a candidata
resumiu a lenda grega].
JCharruault – A estória de Orfeu inspirou músicos?
C24 – Sim, Monteverdi primeiro, em seguida Glück, e depois Offenbach.
Desta forma, pretendo demonstrar empiricamente o que chamo de ferramenta
cognitiva, competência interacional e realização estratégica. Para além de uma
invenção acadêmica para explicar dinâmicas de concursos, a etnografia permite
uma melhor compreensão das invenções dos atores destes processos para tornar o
mundo mais compreensível e seus interesses mais realizáveis, ou, ainda, como se
põem em marcha invenções teóricas de sistemas de interpretação não acadêmicos
(Parnell,_2002:34).
Uma situação parecida ocorreu com a candidata chamada “Elsa”:
JChabanol – Se, saindo daqui... câmeras... microfones... “como foi o
Grande Oral?”
C29 – Hum... não sei, é difícil...
JChabanol – Nada? Nada além de “olhem meus belos olhos”?
C29 – Hum...
JChabanol – Por que eu faço referência aos seus olhos?
C29 – Talvez graças ao “Olhos de Elsa”, um poema...
JChabanol – Você conhece este poema... uma parte talvez?
C29 – [ela declamou uma boa parte do poema de Louis Aragon].
Passo a outro aspecto do Grande Oral: o descreditamento da técnica do “eu não
sei” pelo uso de “pistas”. Uma pista é uma ferramenta interacional poderosa,
pois restabelece a pertinência da pergunta e, sobretudo, devolve o turno de
fala ao candidato. Outra dimensão da pista é o jogo de adivinhação, em que o
candidato é provocado a responder, mantendo a interação até que a satisfação do
jurado, pela adequação ou inadequação da resposta ocorra. Uma das grandes
competências no grande oral é a capacidade de adaptação contextual, pois por
vezes os jogos de adivinhação reenviam a outros universos contextuais, como na
situação a seguir:
JCasterot – Qual Tzar foi morto em 1917?
C19 – Eu não sei...
JCasterot – Vamos festejá-lo amanhã.
C19 – Alexandre?
JCasterot – Amanhã é dia de São Alexandre?
C19 – Ah, não... Nicolau!
Em outra situação, o uso do desvio contextual e da pista serviu apenas para
confirmar a insatisfação do jurado diante da técnica do “eu não sei” usada
quando de uma pergunta cuja resposta o candidato era obrigado a conhecer:
JDauchy – Quando começa a História?
C19 – Eu não sei.
JDauchy – O que tem antes da História?
C19 – Eu não sei.
JDauchy – AN-TES da HIS-TÓ-RIA...
C19 – A pré-História?
No diálogo abaixo, pude perceber a colaboração direta entre jurados, o emprego
da pista e, da parte do candidato, a manutenção dos seus avowalsiniciais:
JCasterot – Quem compunha para Sergio Leone?
C20 – Ennio Morricone.
JCasterot – E para Star Wars?
C20 – John Williams.
JDillange – Um outro compositor do cinema italiano?
C20 – Hum...
JLegeais – Trabalhou muito com Fellini...
JCharruault – Um certo Nino...
C20 – Hum...
JCharruault – Nino Rota, conhece?
C20 – Não.
Outra técnica muito utilizada é a dos avowals. Jurados e candidatos a utilizam
mutuamente e reconhecem sua pertinência contextual. É evidente que os jurados
querem que os candidatos a utilizem para vincular suas respostas, e os
candidatos a utilizam para se engajar ou se desengajar em determinados temas.
Vejamos abaixo:
JCasterot – O que você acha da música eletrônica?
C4 – Eu não conheço música eletrônica.
Um observador ingênuo diria que o candidato respondeu de forma impertinente. No
entanto, esta é uma maneira competente de se desengajar de um tema que
eventualmente não é de seu conhecimento. A jurada, por sua vez, deve seguir
outra linha de inquirição ou manter esta, mas sem poder exigir do candidato
legitimamente respostas pertinentes. Vejamos a seguir uma situação em que
jurado e candidato usam a técnica:
JCharruault – Se você pudesse escolher um ano para viver na França,
qual seria?
C1 – O ano da liberação do aborto.
Igualmente, um olhar desavisado trataria a resposta como impertinente, uma vez
que a pergunta deveria ser satisfeita com um ano expresso em numeral. No
entanto, ciente das regras do jogo, o candidato pertinentemente pula uma etapa
do rito de interação e já lança seu avowal, o tema que se engaja a tratar com
competência pelo restante da interação. Muito embora cada etapa interativa
ocorra muito rápido, os atores envolvidos estão plenamente cientes do processo,
apenas não o organizam e descrevem como eu o faço.
Por vezes, a técnica do avowal pode servir simplesmente como uma armadilha para
o candidato para esconder a necessidade do jurado de mudar seu tema, uma vez
que é dele a obrigação de dar impulso à interação. Não basta imaginar que as
estratégias dos candidatos são de conhecimento dos jurados, o contrário também
ocorre. Assim, a técnica do avowal é muito utilizada para montar uma linha de
inquirição que pode constituir uma armadilha. Porém, pode ocorrer que os
candidatos caiam nesta armadilha voluntariamente, quiçá alegremente, sobretudo
dependendo da maneira que se cai nesta armadilha.
Uma outra situação mostra a importância da técnica do avowal, mas desta vez
vários jurados a utilizarão para intervir em colaboração. Assim, a pertinência
da técnica é sua capacidade de criar pontos estáveis de interação, e seu
caráter estratégico está no fato de criar uma expectativa legítima:
JDillange – Você mencionou o cinema... qual o outro grande filme
sobre o autismo?
C24 – Rain Man.
JDauchy – Se você organizasse um canal para os juízes, você mostraria
o quê?
C24 – A vida no subúrbio, nos bairros pobres.
JDillange – Os juízes estão à margem de tudo isso?
C24 – Não, mas um filme como “Entre les Murs”...
JDauchy – Este filme fala de subúrbios?
C24 – Não, de Paris...
JDauchy – E as altas finanças? Os juízes não julgam só a miséria...
C24 – Hum... [o candidato concorda com a cabeça]
JDauchy – Você é contra a presença de um psicólogo no Grande Oral?
C24 – Sim, pois há jeito melhor de avaliar a psicologia de alguém...
JDauchy – Por quê?
C24 – É muito pouco tempo os 30 minutos do Grande Oral.
JDauchy – E por quanto tempo um psicólogo... 1 dia, 2 dias?
JDillange – Em quanto tempo um psicólogo avalia um juiz de instância?
C24 – 10 minutos?
JBellivier – Você crê que se possa avaliar a psicologia de alguém em
10 minutos?
JBellivier – Se você fosse se engajar numa grande causa?
C28 – Hum... grande causa... Os Direitos Humanos na China?
JBellivier – Quais direitos?
C28 – A liberdade de expressão, por exemplo.
JBellivier – Qual personagem histórico você gostaria de ter sido?
C28 – Hum... [o candidato olha para cima e coça a cabeça]
JBellivier – Joana d’Arc? Gandhi?
C28 – Joana d’Arc não... Gandhi talvez...
JCrédeville – Elisabeth Primeira?
JDauchy – Carla Bruni?
C28 – Carla Bruni de jeito nenhum...
JBellivier – Por quê? Ela canta, é bonita, é mulher do presidente...
C28 – O estatuto de mulher do presidente não me agrada...
JDillange – E o de presidente?
C28 – Tampouco...
JChabanol – E o de ministra da Justiça?
JCrédeville – Se você quer ser juíza...
Em outra situação, as técnicas do avowal e da pista dão a dimensão estratégica
e cognitiva do exercício:
JCharruault – Qual seu estilo musical preferido?
C20 – O rock-folk americano.
JCharruault – Qual personalidade do rock morreu em Memphis?
C20 – O King, Elvis, há 30 anos.
JCharruault – Quais outras figuras morreram em Memphis?
C20 – Eu não sei...
JCharruault – Um outro King...
C20 – B. B. King?
JCasterot – Saia do tema musical.
C20 – Hum...
JDauchy – “Eu tenho um sonho”...
C20 – Ah, Martin Luther King!
Enfim, o último extrato que utilizarei mostrará o uso de diversas técnicas por
jurados e candidatos, deixando claro a que ponto as realizações estratégicas
podem ser postas em prática numa fração de segundo, e como são extremamente
ligadas às particularidades do contexto:
JDauchy – Qual o uniforme dos candidatos aqui?Tailleur e saia pretos?
C32 – Bom, eu diria que sim para me beneficiar, mas não há um
uniforme, os candidatos tentam seguir um padrão.
JDauchy – E quem estabelece este padrão?
C32 – O costume.
JDauchy – Voltando aos estádios, “Maracanã” te diz alguma coisa?
C32 – Ah, não...
JDauchy – No país do futebol...
C32 – Brasil?
JDauchy – Por que você disse Brasil?
C32 – Porque, para alguém como eu, que ignoro o assunto, é o que vejo
na televisão...
JDauchy – O maior jogador brasileiro?
C32 – Eu não sei... Ronaldinho?
JDauchy – De todos os tempos?
C32 – Maradona? [todos riem, inclusive a candidata].Voilà, isto
confirma o que eu disse: não entendo nada do assunto.
JDauchy – Tá bom. Em que cidade fica oMaracanã?
C32 – Eu não sei...
JDauchy – Que cidades brasileiras você conhece?
C32 – São Paulo...
JBellivier – Esta é a maior, mas há outra mais conhecida...
JDillange – “Eu vou pra”... [cantarolando a canção de Claude
François]
C32 – Rio!
JDauchy – Voilà, me diga qual a praia mais conhecida no Rio.
C32 – Eu não sei.
JDillange – Petrópolis, te diz alguma coisa?
C32 – Ah, não...
JBellivier – E “Metrópolis”?
Espero ter demonstrado como algumas categorias que relacionei se apresentam em
contexto e em ação através da observação etnográfica, bem como sua adequação
analítica. Uma vez mostradas através de um situacionismo metodológico, a
reflexividade adiciona o último elemento compreensivo ao que chamo ferramenta
cognitiva, competência interacional e realização estratégica.
Outros pesquisadores se interessaram por exercícios muito semelhantes ao grande
oral, porém se valendo de abordagens bastante diferentes. Bourdieu, comparando
o grande oral da Escola Nacional de Administração ao da Escola Normal Superior,
diz que o primeiro
oscila entre a entrevista oficial, a conversa de coquetel ou a
reunião de comissão administrativa, e a prova oral da Escola Normal,
um tipo de prova escrita pronunciada oralmente, como uma lição,
demandando mais virtudes de clareza e convicção que margem de manobra
e presença de espírito (Bourdieu,_1989apudMiaille,_2005:237).
Miaille vê a submissão à ordem, o equilíbrio e a conciliação, a história e a
cultura das civilizações e a negação da autoridade na representação do ofício
como as manifestações corporativas dos candidatos ao concurso da magistratura
francesa ENM (2005:252-269). Billand, por sua vez, após observar as provas
orais do concurso da administração pública local na França, afirma que a prova
se situa entre exigências burocráticas, gerenciais e locais (2010).
Muitos observadores tomam o que é dito e feito pelos atores (ou agentes)
observados na expressão semântica que pode ser extraída; o sentido da ação ou
do discurso encontra-se no universo significativo de uma visão de mundo ou,
ainda, num conjunto de representações.
Minha abordagem é bem diferente: o sentido do que é dito e feito é buscado na
especificidade do contexto e reflete um estado interacional. Busco, assim, o
sentido das ações dos atores na sua common sense knowledge (Heritage,_1984:
144), na sua dimensãoindexical. O sentido das palavras e dos gestos não pode
ser compreendido senão dentro da complexa rede de expectativas, obrigações e
realizações práticas. É esta postura que chamo de “deixar o campo falar”, que
pode soar como apologia ao empirismo, mas que procura, sobretudo, evitar, como
disse Cicourel, a postura de pressupor instâncias óbvias da ordem social,
chamando-as “problemas sociais” ou “dinâmicas” dos “sistemas sociais”, ou,
ainda, “variáveis” (Cicourel,_1995:3-4).
CONSIDERAÇÕES FINAIS: UM MODELO SOCIOLÓGICO PARA COMPREENDER OS CONCURSOS
PÚBLICOS?
À diferença de autores que utilizam a Teoria dos Jogos para desenvolver um
modelo teórico e aplicá-lo em “casos concretos” ou em “situações reais”, meu
esforço aqui consiste na reunião de algumas ferramentas conceituais capazes de
amplificar um poder de explicação sobre a dinâmica social das seleções por
concurso público. A escolha pela abordagem goffmaniana não se deu por acaso:
trata-se de um conjunto teórico que não encontra sentido sem o preenchimento
com dados empíricos. Quando Goffman decide construir suas categorias a partir
do senso comum – eu diria do saber prático, como tomar a noção de action num
sentido não parsoniano – para estruturar sua Teoria dos Jogos, ele fornece ao
pesquisador que a usa uma liberdade criativa enorme. Como na tradição de
Chicago, uma Teoria dos Jogos, vinda ela mesma da empiria, não pode ser
antecipada ou anterior aos problemas práticos, porque são estes que impõem às
teorias a sua compreensão, e não o contrário.
Por fim, cumpre sistematizar o uso desta Teoria dos Jogos para compreensão de
concursos públicos em torno dos seguintes eixos:
1. Abordar a seleção por concursos públicos como uma dinâmica e como um
processo pede a compreensão do quadro interacional dos candidatos com a
banca examinadora.
2. Toda eventual relação de poder entre jurado e candidato deve ser descrita
em termos de assimetria interacional.
3. É preciso admitir a hipótese da eventual descoberta do resultado de um
concurso como um momento meramente revelador, sem qualquer risco ou
consequencialidade.
4. É necessário compreender a população de candidatos a um concurso público
como a totalidade daqueles que desejam ingressar na carreira e que se
julgam capazes de consegui-lo, o que se traduz empiricamente pelo
engajamento em ao menos um dos atos interacionais que compõem o concurso.
5. Um concurso público não compreende apenas a análise do cumprimento de
obrigações através de realizações estratégicas, mas também o momento em
que as mesmas são elaboradas através do trabalho de antecipação de
expectativas.
6. A opção metodológica pela valorização das normas cerimoniais deve
desembocar num protocolo de pesquisas adaptado à valorização da
deferência e da conduta como fontes de expressão e da objetivação das
regras formais que enquadram a seleção.
7. A distinção entre identidade real e identidade virtual é a única maneira
de tratar a noção de “candidato-modelo”.
8. Por outro lado, este “candidato-modelo” se encontra numa reflexividade
contextual: inicialmente, nas expectativas normativas da banca, em
seguida no que os candidatos conhecem destas expectativas, e, enfim, na
junção da realização estratégica dos candidatos a partir deste
conhecimento com o julgamento destas estratégias, caso a caso.
9. Assim, a competência interacional (ou estratégica) é a capacidade de
exprimir declarações sustentáveis pela identidade real ou a capacidade de
realizar competentes movimentos de cobertura ancorados na identidade
virtual, assim como a perícia para distinguir qual destes dois meios é o
mais adequado e quando o é.
10. Por fim, é necessário um protocolo de pesquisas que leve em conta os
elementos essenciais da expressão: as fontes de informação pessoal e
social, a busca de toda fonte documental que serve de “etiqueta” de
identidade, bem como a observação das interações diretas nas quais
poderiam ser encontradas expressões psicológicas, comportamentais ou
cênicas.
Dito isto, é necessário estabelecer uma fronteira: por um lado, este quadro é
voltado para a compreensão de como são selecionados os funcionários públicos e,
por outro, trata-se de uma proposta que só ganha completude pelo seu
preenchimento com dados empíricos colhidos em processos de seleção. A única
certeza é a de que o quadro ou modelo adotado deve ser soft o suficiente para
deixar o campo falar e, assim o fazendo, ele não terá a serventia de confirmar
ou negar determinada postura teórica ou metodológica adotada, mas será a fonte
de toda a descoberta.
Por fim, é importante localizar os horizontes que esta proposta de pesquisa
pretende explorar no seio da sociologia do Direito. Subárea tanto da sociologia
como do Direito, compõe um campo de estudos pouco homogêneo, sendo o foco na
justiça e nos tribunais seu principal elemento de amálgama. Mesmo diante de um
quadro difícil de descrever, pode-se afirmar que há pouco ou nenhum espaço para
abordagens construtivistas ou interacionistas. Ressalvados alguns estudos em
antropologia do Direito, até então no Brasil as análises finas sobre as
práticas cotidianas dos juristas se encontram negligenciadas. Esta deficiência
deve ser superada a bem da subárea, que até então tem oferecido quadros
filosóficos, essencialmente teóricos, funcionalistas ou deterministas para a
análise do fenômeno jurídico. Não nego a importância da teoria, a existência de
determinantes estruturais, ou a força explicativa das variáveis “duras” e das
noções de “campo”, “função” e “estatuto”. Entretanto, ainda que tardia, é
chegada a hora da abertura da sociologia do Direito a abordagens focadas em
conhecimentos finos sobre os contextos nativos, os ritos de interação e as
situações onde a ação concreta dos indivíduos produz cotidianamente o Direito
na sociedade.