Comportamentos sexuais de risco em estudantes do ensino superior público da
cidade de Bragança
O instinto sexual é algo que, desde os insectos ao ser humano, aparece de uma
maneira extremamente forte, levando a certos comportamentos e gastando energias
que só se justificam biologicamente porque tornam possível algo fundamental à
vida, nomeadamente, a propagação da espécie.
Actualmente, graças às técnicas, altamente eficazes, de contracepção e também
de concepção ou reprodução assistida que surgiram nos últimos 50 anos, o sexo e
reprodução já não andam, necessariamente, juntos. O relacionamento sexual tem
assim, na nossa espécie, além da função reprodutiva, dois papéis
importantíssimos, designadamente, a satisfação de um instinto básico, tal como
existe nos outros animais e, sobretudo, a criação de laços fortes entre duas
pessoas que buscam o prazer mútuo.
Os jovens iniciam a sua vida sexual cada vez mais cedo (Nodin, 2001), pelo que
a elaboração de estudos na área dos comportamentos sexuais têm sido
considerados prioritários (Reis & Matos, 2008). Para um adolescente bem
orientado, principalmente, quando a iniciação sexual acontece com um parceiro
da mesma idade, isso não traz grandes problemas, mas sem a orientação
necessária, a sexualidade precoce pode causar prejuízos físicos e emocionais,
além de aumentar os riscos de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e de
uma gravidez indesejada (Alves & Lopes, 2008). Ao negligenciarem a prática
da contracepção e de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis,
adolescentes e jovens podem expor-se ao VIH/SIDA e às demais doenças
sexualmente transmissíveis, bem como a uma gravidez não planeada (Júnior et
al., 2007).
Na literatura, as características dos jovens, frequentemente associadas ao
comportamento sexual de risco são, o uso de drogas ilícitas, o consumo de
álcool, a baixa idade das primeiras relações sexuais, a variabilidade de
parceiros, o não uso de preservativo, o desempenho escolar, o historial de
abuso sexual, o sexo, o nível socioeconómico, o nível de escolaridade, a idade,
a idade dos pais e o estado civil dos mesmos. Ao investigar algumas destas
variáveis, Poulin e Graham (2001) verificaram que, dos jovens que já haviam
iniciado a sua vida sexual, 6,4% relataram múltiplos parceiros e 57,3%
confirmaram o uso inconsistente de preservativo. Além disso, 37,6% dos
adolescentes que haviam mantido relações sexuais nos últimos 12 meses referiram
tê-lo feito de forma não planeada sob a influência de álcool ou outra droga.
As DSTs desde sempre afectaram a Humanidade. Frequentemente causadoras de
epidemias mais ou menos graves, responsáveis por muitas mortes, estas foram e
são também um factor determinante de doenças crónicas de vários sectores do
organismo, de infertilidade, impotência e frigidez.
Hoje em dia, a SIDA e a Hepatite B tornaram-se as mais ameaçadoras doenças que
o sexo pode transmitir. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), metade
das novas infecções por SIDA surgem em pessoas menores de 24 anos, sendo que a
maioria se infecta pela relação sexual. A Clamydia, Gonorreia, Herpes, Papiloma
Vírus Humano (PHV) e Pediculose púbica são também doenças sexualmente
transmissíveis frequentes (Rocha et al., 2007).
As DSTs são transmitidas tanto pelas práticas heterossexuais, como pelas
homossexuais. Elas podem ser transferidas para outras pessoas durante a relação
sexual anal, oral ou vaginal. Algumas práticas sexuais, como uma relação anal,
apresentam um risco maior de transmissão de certas doenças que outras práticas
sexuais. Algumas DSTs podem também ser transmitidas pelo contacto directo, não
sexual, com tecidos ou fluidos infectados. Um modo comum de transmissão não
sexual é por meio do contacto com sangue infectado. Por exemplo, o compartilhar
de agulhas com o uso de drogas endovenosas é a principal causa da transmissão
do VIH e da Hepatite B. Outros meios de transmissão não sexual incluem,
transfusões de sangue e hemoderivados contaminados; por meio da placenta, da
mãe para o feto e, raramente, por meio do leite materno.
Determinados comportamentos aumentam o risco de contrair uma DST, tais como: a
existência de vários parceiros sexuais (ou alteração de parceiros sexuais) com
um histórico pessoal de qualquer DST; a existência de um parceiro com um
histórico de qualquer DST ou com um histórico desconhecido e que consome drogas
endovenosas; a existência de parceiros bissexuais ou homossexuais; a prática de
relações sexuais anais; a prática de relações sexuais sem protecção; e, o
consumo de qualquer substância que altere o estado do indivíduo, numa situação
em que o sexo pode ocorrer. A este propósito, Hamburg (1999) e Brook et al.
(2006) defendem que o consumo de álcool e de outras substâncias estão na base
de determinados comportamentos sexuais de risco, designadamente, acidentes
rodoviários, violência, entre outros. Vários estudos mencionam que a
desinibição e a crença de que o consumo de álcool aumenta o prazer sexual fazem
com que as bebidas alcoólicas sejam, facilmente, consumidas antes ou durante os
actos sexuais. Estes factores têm sido destacados por vários investigadores
como apresentando correlações ou associações com o aparecimento de infecções,
designadamente, as DSTs, o HIV e a SIDA (Cardoso et al., 2008; Stoner, 2007)
Para diminuir o risco de transmissão ou de contracção de DST's, as pessoas
devem optar por comportamentos seguros tais como o uso de preservativo durante
a relação sexual. Taquette et al. (2004) verificaram que o uso infrequente do
preservativo foi a principal variável associada à presença de DSTs. Outras
práticas podem também ser consideradas tais como a abstinência, considerada por
muitos, como a resposta absoluta para a prevenção de DSTs, contudo, pouco
praticada e, na maioria dos casos, indesejável; um relacionamento sexual
monogâmico com um indivíduo que se sabe estar livre de qualquer DST e, o
aconselhamento, antes da gravidez, a mulheres com DSTs sobre o risco para o
bebé.
Os estudos destinados à criação de intervenções para a prevenção de DSTs têm-se
deparado com vários desafios nas últimas décadas. O conhecimento detalhado e
sistemático dos comportamentos sexuais de risco é um dos aspectos fundamentais
para o desenvolvimento de pesquisas que visam a criação de programas eficazes
para a prevenção de DSTs (Reis & Matos, 2008).
O estilo de vida, caracterizado por um conjunto de comportamentos diários,
representa um dos principais moduladores dos níveis de saúde e qualidade de
vida das pessoas. Entre estes comportamentos, aqueles que podem afectar a saúde
tais como o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, o fumo, os hábitos
alimentares inadequados, os níveis insuficientes de actividade física, o uso de
drogas ilícitas e os comportamentos sexuais, têm sido frequentemente
investigados em adolescentes (Júnior & Lopes, 2004) e em jovens
universitários (Alvarez & Nogueira, 2008; Gonzalez & Ribeiro, 2004;
Reis & Matos, 2008). Tal facto justifica-se, segundo a OMS, por ser na
adolescência e na fase adulta jovem que se concentra metade das infecções por
VIH em todo o mundo (Nogueira et al., 2008).
O presente artigo tem como objectivos a identificação e a caracterização de
comportamentos sexuais de risco nos alunos que frequentam o ensino superior
público em Bragança. Estas informações serão úteis na medida em que podem
contribuir para a definição de políticas de saúde adequadas à redução desses
comportamentos de risco.
MÉTODO
Participantes
Na opinião de Cohen et al. (2000), para um nível de confiança de 95% e tendo em
conta a população objecto deste estudo, a amostra afigura-se representativa se
for constituída por pelo menos 347 indivíduos. A amostra, constituída por 367
indivíduos, foi seleccionada de forma aleatória a partir de um universo de 4168
estudantes que frequentam o ensino superior público em Bragança.
Foram excluídos deste estudo, os alunos inscritos em Cursos de Especialização
Tecnológica (CET's), Mestrados, Pós-Graduações e a licenciatura em Enfermagem
com entrada no de 2º Semestre. Foram também excluídos questionários que não
estavam devidamente preenchidos.
Material
Para Gil (1999), a construção de um questionário consiste em traduzir os
objectivos da pesquisa em questões específicas. Dado o grande número de pessoas
interrogadas e o posterior tratamento das informações, foram valorizadas neste
trabalho as perguntas do tipo fechado. O questionário foi estruturado em três
partes. A primeira incluía questões do foro individual, pessoal, geográfico,
académico, designadamente, o sexo, a idade, a região de proveniência; a área
científica do curso, o ano que frequentam e o local de residência em tempo de
aulas. Com excepção da idade, todas as outras variáveis eram qualitativas sendo
medidas com recurso a escalas nominais. A segunda parte envolvia afirmações
referentes a comportamentos sexuais acerca, nomeadamente, do inicio da vida
sexual, da idade da primeira relação sexual, do número de parceiros sexuais,
dos motivos que levam ao uso ou não uso do preservativo, dos métodos
anticoncepcionais que previnem as DSTs. Com excepção da idade da primeira
relação sexual e o número de parceiros sexuais, estas variáveis são
qualitativas e medidas de acordo com escalas nominais. Finalmente, a terceira
parte continha afirmações que permitiram avaliar o conhecimento dos inquiridos
relativamente às DSTs. A estas questões, os inquiridos tinham de atribuir uma
classificação que variava de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente).
Estas variáveis eram, igualmente, de natureza qualitativa mas, agora, medidas
com recurso a uma escala ordinal.
Procedimento
O estudo, de carácter transversal, foi desenvolvido com base num questionário
administrado directamente aos estudantes, embora os investigadores estivessem
presentes para o esclarecimento de qualquer dúvida que pudesse surgir. Ao serem
contactados, na biblioteca ou na sala de aula, os participantes foram
informados acerca do estudo e foi-lhes explicado o carácter voluntário da sua
participação. Igualmente, foi solicitado a cada participante, individualmente,
que respondesse ao questionário, em conformidade com os critérios éticos
utilizados em pesquisas com seres humanos. Desta forma, para proteger o
anonimato dos participantes não foi colocada no questionário qualquer questão
relativa à sua identidade. A confidencialidade dos dados foi-lhes, também,
garantida.
Os dados foram recolhidos no ano lectivo de 20082009. Após a recepção dos
questionários, estes foram conferidos, numerados sequencialmente e introduzidos
manualmente numa base de dados construída, para o efeito, no SPSS 16.0
(Statistical Package for Social Sciences). Posteriormente, procedeu-se ao
tratamento estatístico dos dados e à análise dos resultados. Para caracterizar
o perfil do grupo de alunos inquiridos, apresentou-se uma análise exploratória
com o cálculo de medidas descritivas (média, mediana e desvio-padrão) e a
construção de tabelas de frequências e gráficos.
O presente estudo compara homens e mulheres quanto à idade da primeira relação
sexual, ao número de parceiros sexuais nos últimos 12 meses e ao nível de
conhecimento sobre as DSTs. Para esta análise foi utilizado o teste paramétrico
T Student para amostras independentes uma vez que as variáveis tinham
distribuição normal, aferida através do teste de Kolmogorov Smirnov com a
correcção de Lilliefors (Maroco, 2007). Por outro lado, para comparar o nível
de conhecimento sobre as DST`s tendo em conta o sexo e as classes etárias
recorreu-se à alternativa não paramétrica, ou seja, ao teste de Mann Whitney
Wilcoxon por não se verificar a normalidade dos dados. Os testes estatísticos
foram calculados considerando-se um nível de confiança de 95%.
RESULTADOS
Caracterização da amostra
Nesta investigação participaram 367 jovens inscritos no ensino superior público
Brigantino. A maioria dos respondentes são do sexo feminino (68,2%), uma grande
parte frequenta o 2º ano (44,9%) e possui, em média, 21 anos, sendo que esta
varia entre os 17 e os 45 anos. A esmagadora maioria é proveniente da região
Norte (84,2%) e, em tempo de aulas, reside num quarto ou apartamento arrendado
(71,9%) (ver tabela 1).
Tabela 1
Dados socais, geográficos e académicos
dos inquiridos
Sexualidade e relações sexuais
Dos inquiridos, 76% já tiveram relações sexuais (ver figura 1). Em média, os
respondentes iniciaram a sua vida sexual aos 17,5 anos (DP= 1,72). A idade
mínima registada foi de 13 anos e a máxima foi de 26 anos.
Figura 1
Início da vida sexual e orientação sexual do
inquirido
Quanto ao inicio da vida sexual, os resultados revelaram uma iniciação mais
precoce para o sexo masculino com uma média de 16,63 anos enquanto a média
registada para o sexo feminino foi de 17,96 anos. Para verificar se existem
diferenças, estatisticamente, significativas entre as médias referidas
testaram-se as hipóteses (H0: Masculino= µFeminino; H1: µMasculino≠µFeminino)
usando, para o efeito, o teste TStudent. Uma vez que a estatística do teste é
igual a 5,59 à qual corresponde um p-value = 0 < α= 5%, rejeita-se a hipótese
nula (H0). Conclui-se, por isso, as médias são, estatisticamente, diferentes.
Quanto às questões ligadas à sexualidade verificou-se estar na presença de
jovens com uma orientação sexual, maioritariamente, heterossexual (96,8%) como
pode ver-se na figura 1.
Comportamentos de risco e vida sexual
Do total de inquiridos, 279 já iniciaram a sua vida sexual e destes, 113
(40,5%) tiveram relações sexuais sob o efeito de álcool e 22 (7,8%) tiveram
relações sexuais sob o efeito de drogas. Por outro lado, 135 respondentes
(48,4%) já tiveram relações sexuais sem estarem protegidos e 10 (3,6%) afirmam
nunca ter usado preservativo. Dos jovens que iniciaram a sua vida sexual, 9
(3,4%) pagaram para terem relações sexuais e 3 (1,1%) foram pagos. Uma
percentagem elevada, 64,5% (180), refere nunca ter feito um teste às DST's,
incluindo o VIH. Contudo, e, atendendo aos últimos 12 meses, apenas 254
inquiridos se mantiveram sexualmente activos, sendo a média global de parceiros
de 1,4. Tendo em conta o sexo dos inquiridos, registaram-se médias de 1,85 e
1,09 para os sexos masculino e feminino, respectivamente. Para verificar se
existem diferenças, estatisticamente, significativas entre estas médias testou-
se a hipótese nula de que o número médio de parceiros sexuais é igual,
independentemente, do sexo do inquirido (H0: µMasculino= µFeminino) contra a
hipótese alternativa (H1: µMasculino> µFeminino) usando, novamente, o teste
TStudent. Os resultados do teste levam à rejeição da hipótese nula concluindo-
se que existiam diferenças, estatisticamente, significativas (t = -3,913; p-
value = 0). Assim, ao nível de significância de 5%, pode afirmar-se que os
respondentes do sexo masculino têm um número de parceiros superior ao dos
respondentes do sexo feminino.
Motivos da não utilização de preservativos
Do total de jovens que já iniciaram a sua vida sexual, 54,5% não usam
preservativo porque confiam no parceiro ou porque praticam sexo com o mesmo
companheiro (54,4%), 24,3% referem não ter usado preservativo por não quererem
ou não gostarem; 24,4% não usaram porque não tinham, no momento do acto sexual,
disponibilidade de preservativos, 10% estavam demasiado excitados, 7,9%
esqueceram-se de usar, 4,3% não usaram porque estavam sob o efeito do álcool ou
drogas ilícitas e 3,9% por não estarem à vontade para perguntar ao parceiro
sexual se o poderiam usar.
Abordagem às DSTs
No que diz respeito à abordagem e às fontes de informação sobre as DSTs, a
maioria dos inquiridos afirma ter tido contacto com este tipo de informação
entre 3 a 4 vezes, sendo que 98,2% ouviu falar ou leu sobre o assunto, 97,5%
referem ter obtido mais informação através dos colegas, amigos ou conhecidos,
89,6% discutiu o assunto com o parceiro sexual, 88,5% dos respondentes
abordaram esta temática na sala de aula com professores e 79,2% conversaram
sobre o tema com familiares próximos (ver tabela 2).
Tabela 2
Fontes de informação sobre as
DSTs (N=279)
Fonte informação Sim Não NR
% % %
Familiares 79.2 17.6 3.2
Revistas. Media 98.2 0.4 1.4
Colegas, amigos e 97.5 1.1 1.4
conhecidos
Sala de aula 88.5 9 2.5
Parceiro sexual 89.6 7.5 8
Métodos contraceptivos que previnem as DSTs
Em relação aos métodos contraceptivos (ver tabela 3), a maioria dos inquiridos
considera que o preservativo é o único que previne as DSTs (98%). No entanto,
uma percentagem reduzida afirma que o diafragma (14,8%), o dispositivo
intrauterino (5,4%), a pílula (3,4%), o espermicida (2%) e o coito interrompido
(1%) podem também ser uma forma de prevenção das DST`s.
Tabela 3
Opinião dos inquiridos sobre os métodos que
previnem as DSTs (N=279)
Conhecimento sobre as DSTs
Para avaliar o conhecimento dos inquiridos sobre as DSTs, foram colocadas
várias afirmações às quais os respondentes tinham de atribuir uma classificação
que variava de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). Para
verificar se existem diferenças, estatisticamente, significativas entre as
médias das afirmações referidas tendo em conta o sexo e a classe etária
testaram-se as seguintes hipóteses: H0: µMasculino= µFeminino contra H1:
µMasculino≠µFeminino H0: µ17 a 22 = µ≥23 contra H1: µ17 a 22 ≠µ≥23.
Os resultados do teste de Kolmogorov Smirnov revelaram que os dados não eram
normais o que inviabilizou o uso do teste de T Student. Em alternativa, usou-se
o teste de Mann Whitney Wilcoxon. A comparação entre géneros mostrou existirem
diferenças, estatisticamente, significativas (ver tabela 4), concluindo-se que
mulheres e homens não apresentam igual nível de conhecimento nos itens, a
única prevenção da SIDA é não ter relações sexuais com portadores (p-value =
0,008), Algumas formas de contágio da SIDA podem ser picadas de insectos,
contactos sociais e profissionais, utilizar casas de banho públicas, beijar,
abraçar, tocar, partilhar roupa, utilizar os mesmos talheres, tomar banho(p-
value = 0,020), O contágio da sífilis é feito apenas por contacto sexual (p-
value = 0,011), a candidíase é provocada por um fungo (p-value = 0,001), a
única prevenção da candidíase é a abstinência sexual logo após o aparecimento
da infecção e durante o tratamento (p-value = 0,047), a gonorreia transmitese
por contacto sexual directo (p-value = 0,022) e as pessoas infectadas pelo
vírus da SIDA ficam vulneráveis a outras infecções (p-value = 0,023).
Tabela 4
Teste de Mann Whitney para comparar o conhecimento sobre as
DST`s entre géneros (N=279)
Relativamente à estrutura etária, verificou-se que, na generalidade, são os
inquiridos com idade igual ou superior a 23 anos que têm maior conhecimento
sobre as DSTs (ver tabela 5). Contudo, só se verifiquem diferenças,
estatisticamente, significativas nos itens o uso do preservativo é muito
eficaz para evitar a gonorreia (p-value = 0,021), a hepatite B transmite-se
pelo sangue e pela saliva (p-value = 0,002), a hepatite B pode transmitir-se
ao feto pela mãe através do sémen e secreções vaginais, suor, lágrimas (p-
value = 0,026), a SIDA deteriora o sistema imunitário da pessoa (p-value =
0,002), as pessoas infectadas pelo Vírus da SIDA ficam vulneráveis a outras
infecções (p-value = 0,026) e um indivíduo que reduza o número de parceiros
sexuais está mais protegido (p-value = 0,041).
Tabela 5
Teste de MannWhitney para
comparar o conhecimento sobre
as DSTs entre classes etárias
(N=279)
DISCUSSÃO
Do total de inquiridos, 279 inquiridos já iniciaram a sua vida sexual e destes,
113 (40,5%) tiveram relações sexuais sob o efeito de álcool e 22 (7,8%) tiveram
relações sexuais sob o efeito de drogas. Por outro lado, 135 respondentes
(48,4%) já tiveram relações sexuais sem estarem protegidos e 10 (3,6%) afirmam
nunca ter usado preservativo. Dos jovens que iniciaram a sua vida sexual, 9
(3,4%) pagaram para terem relações sexuais e 3 (1,1%) foram pagos. Uma
percentagem elevada, 64,5% (180), refere nunca ter feito um teste às DST's,
incluindo o VIH. Na opinião de Lomba et al., (2008), esta é uma atitude débil
da percepção de risco perante os comportamentos sexuais adoptados. Os
inquiridos iniciaram a sua vida sexual com uma idade média de 17,5 anos e o
desvio padrão é de 1,6. Idênticos resultados foram encontrados num estudo
realizado por Antunes et al. (2007) em que a idade de início da vida sexual
oscilou entre os 18 e os 22 anos, com média igual a 16,4 e desvio padrão de 2,1
anos. Também de acordo com um estudo feito por Souza et al. (2007), a idade
média da primeira relação sexual foi de 16,4 anos. Giraldo (2006) observou que
a idade média da primeira relação sexual nas adolescentes foi igual a 15,5
anos, embora, 17,2% tenham iniciado a actividade sexual mais precocemente. O
presente estudo corrobora uma pesquisa realizada pela UNESCO em 2002 em que foi
verificado que os jovens do sexo masculino se iniciaram, sexualmente, mais cedo
(Azevedo et al., 2006). Os mesmos resultados tinham sido obtidos num estudo
elaborado por Reis e Matos (2008) em contexto universitário. Na opinião destes
autores a grande maioria dos jovens europeus, particularmente, os portugueses
iniciam cada vez mais cedo a sua vida sexual. Esta mudança é visível sobretudo
nas raparigas uma vez que em relação aos rapazes a idade média da primeira
relação sexual tem-se mantido estável.
Do total de inquiridos a maioria descreveu-se como heterossexual (99,4%).
Semelhantes resultados foram observados por Barbosa et al. (2006) e Alvarez e
Nogueira (2008).
Verificou-se existirem diferenças, estatisticamente, significativas entre os
géneros no que diz respeito ao número de parceiros nos últimos 12 meses. Em
média, os respondentes do sexo masculino têm um número de parceiros superior
quando comparados com os respondentes do sexo feminino. Estes resultados
corroboram os encontrados por Gaspar et al. (2006) no qual concluíram que a
sexualidade é vivida de forma diferente consoante o sexo. O facto de um rapaz
ter mais do que uma parceira é encarado de forma natural enquanto uma rapariga
que tenha mais do que um parceiro é avaliada de modo depreciativo, até pelas
próprias mulheres.
Nesta investigação a maioria dos estudantes apresenta vida sexual activa e
refere que o uso do preservativo é o único método contraceptivo de prevenção de
DSTs (98%). Contudo, 54,5% não usam preservativo porque confiam no parceiro ou
porque praticam sexo com o mesmo companheiro (54,4%), 24,3% referem não ter
usado preservativo por não querer ou não gostar; 24,4% não usaram porque não
tinham, no momento do acto sexual, disponibilidade de preservativos, 10%
estavam demasiados excitados, 7,9% esqueceram-se de o usar, 4,3% não usaram
porque estavam sob o efeito do álcool ou de drogas ilícitas. De acordo com um
estudo efectuado por Ribeiro (2005), 60% dos estudantes tinham relações sexuais
sem protecção e, destes 59% faziam-no sob influência do álcool. Um estudo
desenvolvido pela UNESCO em 2000 verificou que a confiança no parceiro,
principalmente, por parte das mulheres, é destacada como uma das razões mais
comuns para que se deixe de lado o comportamento preventivo (Azevedo et al.,
2006). Na opinião de Pimentel et al. (2008), o mito do amor romântico também
exerce influência no comportamento preventivo, uma vez que a fidelidade e a
confiança no parceiro fixo tornam a mulher ainda mais vulnerável. Ribeiro
(2005) constatou que os estudantes, normalmente, usam preservativo, no entanto,
com parceiros fixos, negligenciam a sua utilização. De acordo com este perfil,
o preservativo serve para ser usado em relações casuais e, especialmente, no
início dos relacionamentos.
Quanto à abordagem e às fontes de informação sobre as DSTs destacam-se por
ordem de preferência as revistas e os media (98,2%), as conversas com colegas,
amigos ou conhecidos (97,5%), conversas com o parceiro sexual (89,6%),
abordagem desta temática na sala de aula (88,5%) e as conversas com familiares
(79,2%). Na opinião de Marques et al. (2006) os jovens recebem informações
limitadas e inadequadas, provenientes de amigos, de pessoas pouco preparadas
para esta função. Por outro lado, Souza et al. (2007) concluíram que a maioria
dos jovens obtém conhecimento acerca desta temática por meios, como a escola,
os pais, a televisão, os profissionais de saúde e a pesquisa em livros,
revistas e internet.
Por fim, e em relação aos métodos contraceptivos, a maioria dos inquiridos
considera que o preservativo é o único que previne as DSTs (98%). No entanto,
uma percentagem reduzida afirma que o diafragma (14,8%), o dispositivo
intrauterino (5,4%), a pílula (3,4%), o espermicida (2%) e o coito interrompido
(1%) podem também ser uma forma de prevenção das DSTs. Estes resultados
demonstram que a maioria dos participantes possui conhecimento mas apresenta
uma atitude pouco positiva face ao uso dos métodos contraceptivos,
nomeadamente, no que diz respeito ao uso do preservativo (Reis et al., 2007)
uma vez que, 3,6% nunca usou preservativo. Ribeiro (2005) destaca na sua
pesquisa que, embora 80% dos estudantes entrevistados tenham conhecimento
quanto à função do preservativo na prevenção das DSTs, apenas 35% das mulheres
e 20% dos homens afirmam usá-lo em todas as relações sexuais.