Narrando o(s) Índico(s): Reflexões em torno das geografias transnacionais do
imaginário'
A historical study centred on a stretch of water has all the charms but
undoubtedly all the dangers of a new departure.
Fernand Braudel
The ethico- political task of the humanities has always been the
rearrangement of desires.
Gayatri Spivak
No Prefácio ao ensaio Indian Ocean Studies: Cultural, Social, and Political
Perspectives (Moorthy & Jamal, 2010), o historiador Michael Pearson,
salientando algumas das vertentes e dos desenvolvimentos mais relevantes do
campo de estudo sobre o Oceano Índico ' Indian Ocean Studies ', convoca duas
problemáticas, a meu ver cruciais, e que se prendem, em primeiro lugar, com a
marginalidade deste campo de estudos dentro da reflexão histórica
contemporânea, evidenciando, em segundo lugar, a importância dos Estudos do
Índico para a criação de categorias e paradigmas críticos e epistemológicos
alternativos aos que pautam a análise histórica e, logo, social e cultural. No
que concerne o primeiro aspecto, convocando o debate historiográfico que
caracteriza os chamados Estudos Marítimos no seio da historiografia
contemporânea mainstream, Pearson afirma:
A recent discussion in the very prestigious and widely read American
Historical Review was guilty of a major sin of omission. A long
introduction by Karen Wigen was followed by analyses of the
Mediterranean, the Atlantic, and the Pacific. Curious indeed that the
Indian Ocean was ignored. Could the reason for this be that for most
of its history the Indian Ocean was crossed and used by people from
its littorals, not by Europeans, while the three examples chosen by
Wigen were all dominated by Europeans for most or all of their
histories? This complaint about a Eurocentric approach applies to an
extent to a very recent book, Seascapes, where again the Indian Ocean
is largely absent and European-and American-controlled oceans and
subjects are privileged. Indeed this Eurocentric bias goes back a
long way. Braudel's study of the Mediterranean was notoriously weak
on the southern, Islamic, shore of the sea. Even before this, early
in the twentieth century, many European authorities considered the
Indian Ocean to be only a half ocean as it did not extend far into
the Northern Hemisphere! Despite this neglect from the American
academic mainstream, historical studies of the Indian Ocean are in
fact flourishing. (Pearson, 2010: xv)
A questão salientada pelo estudioso relativamente à ausência do Oceano Índico
no debate historiográfico contemporâneo é posta em relação com a marginalidade
da presença europeia neste Oceano, apontando de imediato para uma questão
ideológica e conceptual relevante que convoca um conjunto de problematizações
significativas no que concerne os objectos de estudo do campo disciplinar
historiográfico, destacando a perspectiva eurocêntrica como possível razão
desta aparente subalternização do Índico.
Por outras palavras, recorrendo à definição proposta por Dipesh Chakrabarty,
pode-se evidenciar como a provincialização da Europa (2000) que o espaço-
tempo do Oceano Índico opera, torna-se, porventura, uma das razões pelas quais
este campo de estudo não parece beneficiar da mesma difusão que caracteriza,
por exemplo, os estudos sobre o Atlântico.[1] Este aspecto pode ser também
salientado dentro de uma perspectiva mais situada tal como aquela dos estudos
historiográficos, culturais e políticos que dizem respeito à história marítima
e colonial portuguesa, onde o estudo do Atlântico, nas suas diversas
articulações, se destaca quantitativamente relativamente, por exemplo, aos
estudos sobre o Índico.[2] Esta situação, cujas razões são de variada natureza,
apontando para uma ampla e aprofundada problematização que não é possível
desenvolver no âmbito da reflexão que me proponho apresentar neste texto,
torna-se evidente observando, por exemplo, a produção teórica desenvolvida em
torno do que vem sendo definido como Atlântico Sul, e os variadíssimos estudos
que se fundamentam na triangulação entre a costa ocidental africana, o Brasil e
Portugal, configurando o Oceano Atlântico ' e a sua região meridional ' como
uma categoria analítica de evidente interesse para uma análise histórica,
antropológica, política e cultural sobretudo em contexto português e
brasileiro. Por outro lado, tendo em conta a especificidade da relação entre
Portugal e o Oceano Índico, quer no período pré-moderno quer nas épocas
sucessivas[3], os estudos do Índico deveriam representar uma perspectivação
crítica matricial, merecendo, como tal, uma mais ampla e aprofundada abordagem
conceptual e analítica.[4]
Voltando ao texto de Michael Pearson, uma segunda questão significativa
salientada pelo estudioso prende-se com as potencialidades críticas que os
Estudos do Índico possuem no que concerne o surgir de novas categorias
analíticas e paradigmas críticos.
The question then is whether studies of oceans can generate new and
distinctive paradigms, or if they will merely add a little to
existing land-based models. It could be that a cultural studies
approach to the sea will contribute to the first, very ambitious,
possibility. (Pearson, 2010: xvi)
Segundo esta perspectiva, a importância do Índico não reside apenas na sua
especificidade enquanto objecto de estudo, mas sim na renovação conceptual e
epistemológica que deste pode surgir, proporcionando uma revisão crucial das
categorias analíticas que pautam a disciplina historiográfica, bem como as
abordagens que se situam no âmbito dos estudos sociais, políticos ou culturais.
A este propósito, os estudos culturais e literários dentro do campo dos Estudos
do Índico possuem uma dimensão inédita e inovadora (Pearson, 2011),
destacando-se como abordagens matriciais no que concerne o surgir de aparatos
conceptuais e críticos alternativos. Aliás, neste sentido, afirma ainda
Pearson:
Literary studies, really combined with cultural studies tendencies,
have only just begun to appear. Yet this area will undoubtedly
flourish soon, inspired possibly by several important collections
which only deal in part with our ocean. (Pearson, 2011: 80)
E com efeito, passando em resenha aquela que pode ser considerada como a