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EuPTHUHu0807-89672013000300008

National varietyEu
Year2013
SourceScielo

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Narrando o(s) Índico(s): Reflexões em torno das ‘geografias transnacionais do imaginário'

A historical study centred on a stretch of water has all the charms but undoubtedly all the dangers of a new departure.

Fernand Braudel The ethico- political task of the humanities has always been the rearrangement of desires.

Gayatri Spivak No Prefácio ao ensaio Indian Ocean Studies: Cultural, Social, and Political Perspectives (Moorthy & Jamal, 2010), o historiador Michael Pearson, salientando algumas das vertentes e dos desenvolvimentos mais relevantes do campo de estudo sobre o Oceano Índico ' Indian Ocean Studies ', convoca duas problemáticas, a meu ver cruciais, e que se prendem, em primeiro lugar, com a marginalidade deste campo de estudos dentro da reflexão histórica contemporânea, evidenciando, em segundo lugar, a importância dos Estudos do Índico para a criação de categorias e paradigmas críticos e epistemológicos alternativos aos que pautam a análise histórica e, logo, social e cultural. No que concerne o primeiro aspecto, convocando o debate historiográfico que caracteriza os chamados Estudos Marítimos no seio da historiografia contemporânea mainstream, Pearson afirma:

A recent discussion in the very prestigious and widely read American Historical Review was guilty of a major sin of omission. A long introduction by Karen Wigen was followed by analyses of the Mediterranean, the Atlantic, and the Pacific. Curious indeed that the Indian Ocean was ignored. Could the reason for this be that for most of its history the Indian Ocean was crossed and used by people from its littorals, not by Europeans, while the three examples chosen by Wigen were all dominated by Europeans for most or all of their histories? This complaint about a Eurocentric approach applies to an extent to a very recent book, Seascapes, where again the Indian Ocean is largely absent and European-and American-controlled oceans and subjects are privileged. Indeed this Eurocentric bias goes back a long way. Braudel's study of the Mediterranean was notoriously weak on the southern, Islamic, shore of the sea. Even before this, early in the twentieth century, many European authorities considered the Indian Ocean to be only a half ocean as it did not extend far into the Northern Hemisphere! Despite this neglect from the American academic mainstream, historical studies of the Indian Ocean are in fact flourishing. (Pearson, 2010: xv)

A questão salientada pelo estudioso relativamente à ausência do Oceano Índico no debate historiográfico contemporâneo é posta em relação com a marginalidade da presença europeia neste Oceano, apontando de imediato para uma questão ideológica e conceptual relevante que convoca um conjunto de problematizações significativas no que concerne os objectos de estudo do campo disciplinar historiográfico, destacando a perspectiva eurocêntrica como possível razão desta aparente subalternização do Índico.

Por outras palavras, recorrendo à definição proposta por Dipesh Chakrabarty, pode-se evidenciar como a provincialização da Europa (2000) que o espaço- tempo do Oceano Índico opera, torna-se, porventura, uma das razões pelas quais este campo de estudo não parece beneficiar da mesma difusão que caracteriza, por exemplo, os estudos sobre o Atlântico.[1] Este aspecto pode ser também salientado dentro de uma perspectiva mais situada tal como aquela dos estudos historiográficos, culturais e políticos que dizem respeito à história marítima e colonial portuguesa, onde o estudo do Atlântico, nas suas diversas articulações, se destaca quantitativamente relativamente, por exemplo, aos estudos sobre o Índico.[2] Esta situação, cujas razões são de variada natureza, apontando para uma ampla e aprofundada problematização que não é possível desenvolver no âmbito da reflexão que me proponho apresentar neste texto, torna-se evidente observando, por exemplo, a produção teórica desenvolvida em torno do que vem sendo definido como Atlântico Sul, e os variadíssimos estudos que se fundamentam na triangulação entre a costa ocidental africana, o Brasil e Portugal, configurando o Oceano Atlântico ' e a sua região meridional ' como uma categoria analítica de evidente interesse para uma análise histórica, antropológica, política e cultural sobretudo em contexto português e brasileiro. Por outro lado, tendo em conta a especificidade da relação entre Portugal e o Oceano Índico, quer no período pré-moderno quer nas épocas sucessivas[3], os estudos do Índico deveriam representar uma perspectivação crítica matricial, merecendo, como tal, uma mais ampla e aprofundada abordagem conceptual e analítica.[4] Voltando ao texto de Michael Pearson, uma segunda questão significativa salientada pelo estudioso prende-se com as potencialidades críticas que os Estudos do Índico possuem no que concerne o surgir de novas categorias analíticas e paradigmas críticos.

The question then is whether studies of oceans can generate new and distinctive paradigms, or if they will merely add a little to existing land-based models. It could be that a cultural studies approach to the sea will contribute to the first, very ambitious, possibility. (Pearson, 2010: xvi)

Segundo esta perspectiva, a importância do Índico não reside apenas na sua especificidade enquanto objecto de estudo, mas sim na renovação conceptual e epistemológica que deste pode surgir, proporcionando uma revisão crucial das categorias analíticas que pautam a disciplina historiográfica, bem como as abordagens que se situam no âmbito dos estudos sociais, políticos ou culturais.

A este propósito, os estudos culturais e literários dentro do campo dos Estudos do Índico possuem uma dimensão inédita e inovadora (Pearson, 2011), destacando-se como abordagens matriciais no que concerne o surgir de aparatos conceptuais e críticos alternativos. Aliás, neste sentido, afirma ainda Pearson:

Literary studies, really combined with cultural studies tendencies, have only just begun to appear. Yet this area will undoubtedly flourish soon, inspired possibly by several important collections which only deal in part with our ocean. (Pearson, 2011: 80)

E com efeito, passando em resenha aquela que pode ser considerada como a


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