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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732015000200006

variedadeEu
ano2015
fonteScielo

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Resposta hipertensiva ao esforço: um problema silencioso

Introdução Oexercício é uma medida conhecida de prevenção primária de hipertensão arterial (HTA).1 Na realidade, os atletas e os indivíduos fisicamente ativos são habitualmente considerados protegidos de doença cardiovascular e de hipertensão pela manutenção de uma boa condição física.2 De facto, a prevalência de hipertensão calcula-se ser cerca de 50% inferior à da população geral nestes dois grupos de indivíduos. No entanto, o risco da doença está aumentado na raça negra, nos idosos, obesos e indivíduos com história familiar de hipertensão.1-2 Em pessoas assintomáticas e normotensas, uma resposta tensional exagerada com o esforço associa-se a um risco aumentado de HTA futura, bem como a repercussões negativas a nível cardiovascular.1-15 É objetivo deste trabalho a sensibilização dos profissionais de saúde para o problema da hipertensão arterial de esforço e respetiva necessidade de deteção precoce, de maneira a rastrear e controlar o risco cardiovascular destes doentes.

Descrição de caso Caracterização do utente: JFR, género masculino, caucasiano, 33 anos de idade, gestor, casado e com um filho (família nuclear na fase II do ciclo de Duvall), natural e residente no Porto.

Apresenta antecedentes pessoais de duas fraturas desportivas (escafoide esquerdo e 3.o metacarpo esquerdo) e é ex-atleta de alta competição (praticante de natação pura durante 12 anos, entre os 10 e os 22 anos de idade). Desconhece alergias e nega medicação habitual. É fumador desde os 16 anos (cinco UMA) e refere um consumo esporádico de álcool. Tem uma alimentação equilibrada, sem restrições. Pratica atualmente (e desde 10 anos) exercício físico regular de intensidade moderada a alta (futebol, corrida, bicicleta e natação). A história familiar revelou mãe de 62 anos com antecedentes de hipertensão arterial, excesso de peso, psoríase e osteoporose e pai de 61 anos com obesidade central, neoplasia maligna do cólon aos 51 anos e sarcoma de kaposi endémico aos 60 anos (Figura_1).

Caso: A 15 de fevereiro de 2010, JFR, à data com 33 anos, recorreu ao médico assistente solicitando análises de rotina, apesar de assintomático. A sua última avaliação médica tinha sido aos 26 anos. Ao exame objetivo apresentava uma pressão arterial normal-alta (139/81mmHg) e excesso de peso (peso de 100kg, IMC de 28,9kg/m2). A restante avaliação física não apresentava alterações, nomeadamente a auscultação cardíaca e pulmonar revelaram-se normais, pulsos arteriais sem alterações, palpáveis e simétricos e não apresentava sopros abdominais ou outros. Foram identificados, como problemas, o abuso do tabaco, o excesso de peso e a pressão arterial (PA) elevada, sendo solicitados exames auxiliares de diagnóstico: hemograma, glicose, creatinina, urina tipo II, colesterol total, colesterol HDL, triglicerídeos e eletrocardiograma. Foi solicitada automonitorização da pressão arterial em ambulatório uma vez por semana durante oito semanas e aconselhadas medidas higiénico-dietéticas, com vista à perda ponderal, bem como diminuição de ingestão salina e de gorduras saturadas. Foi realizada uma intervenção breve em relação aos hábitos tabágicos, não estando o doente motivado para deixar de fumar.

Passados cerca de dois meses recorreu a consulta de cardiologia particular por alterações no eletrocardiograma (ECG) (bradicardia sinusal - 50bpm; hipertrofia ventricular esquerda por critérios de voltagem e alterações da repolarização ventricular compatíveis com sobrecarga e/ou isquemia) (Figura_2). Realizou ecocardiograma que mostrou dilatação ligeira da aurícula esquerda (44mm) (sem referência no relatório a correção à superfície corporal), ligeira hipertrofia septal (13mm), () com espessura normal das restantes paredes ventriculares; ausência de sinais indiretos de hipertensão pulmonar e boa função bi- ventricular sistólica (a fração de encurtamento não é mencionada no relatório). As alterações foram interpretadas pelo médico cardiologista como coração de atleta.

mais de um ano depois (05.05.2011 - 34 anos) voltou novamente à consulta de MGF com os mesmos exames auxiliares de diagnóstico. Manteve-se assintomático desde a última consulta e a avaliação clínica revelou perda ponderal ligeira, sem outras alterações (peso de 94,8kg, IMC de 27,4kg/m2, PA 140/80mmHg).

Analiticamente foi diagnosticada hipercolesterolemia (colesterol total 261mg/ dL, colesterol HDL 55mg/dL e colesterol LDL 176mg/dL, com índice CT/HDL de 4,7) e a automonitorização da pressão arterial em ambulatório não mostrou alterações (média <135/85mmHg).

Considerando as alterações dos exames auxiliares de diagnóstico e a idade do doente, optou-se por repetir o ECG e ecocardiograma para reavaliação da evolução, após um ano, da hipertrofia septal anteriormente detetada e solicitar a monitorização ambulatória da pressão arterial (MAPA) de 24h. Foi ainda reforçado o aconselhamento dietético, nomeadamente em relação à redução do consumo de gorduras saturadas e carnes vermelhas, mantendo-se sem terapêutica hipolipemiante dado o baixo risco cardiovascular.

Após seis meses mantinha o mesmo IMC e valores sobreponíveis de pressão arterial (peso de 93kg, IMC 26,9kg/m2, PA 132/80mmHg). O ECG e ecocardiograma mantinham as alterações prévias (Figura_3 e 4). A MAPA de 24h (21.11.2011) não revelou alterações relevantes, não havendo critérios de hipertensão arterial.

Considerando a persistência das alterações, não se tendo detetado motivo para as mesmas, a idade do doente, assim como a existência de fatores de risco cardiovascular (hipercolesterolemia, excesso de peso, hábitos tabágicos e história familiar de hipertensão arterial) e a prática desportiva moderada a intensa, foi solicitada uma prova de esforço (28.11.2011) que revelou ...

resposta hipertensiva ao esforço com necessidade de interrupção da mesma por PAS > 250mmHg (PA 252/89mmHg ao minuto - estadio 2 do protocolo de Bruce).

Prova negativa para isquemia do miocárdio. Neste contexto foi decidido iniciar terapêutica farmacológica com Ramipril 5mg/dia. Posteriormente, foi feita reavaliação sob terapêutica anti-hipertensora com PA máxima de 176/70mmHg no pico do esforço: prova de esforço máxima interrompida por fadiga muscular aos 12:30 minutos (estadio 4 do protocolo de Bruce). Frequência cardíaca máxima atingida de 161bpm (87% da FC teórica máxima prevista). Não referiu sintomas.

Capacidade de esforço normal (12.6 METS - 100% capacidade teórica prevista).

Resposta tensional ao esforço normal. Pseudo-normalização do segmento ST e da onda T. Prova de esforço normal (Figura_5).

Comentário Este caso salienta a importância da suspeição clínica num contexto menos frequente, onde os resultados dos exames complementares de diagnóstico apresentam alterações não enquadráveis num indivíduo aparentemente saudável.

A hipertensão arterial começa frequentemente na idade adulta, aumentando a sua prevalência com o avançar da idade.10 A prova de esforço, tradicionalmente utilizada para o diagnóstico de doença coronária, não se esgota no rastreio ou follow-up da cardiopatia isquémica, tendo outras indicações, como a avaliação do perfil tensional ou a avaliação do comportamento de arritmias, sendo estas indicações muitas vezes esquecidas na rotina do dia-a-dia; é neste contexto que se justifica a avaliação da resposta cardiovascular ao exercício, em particular nos desportistas com 35 ou mais anos de idade.11 É um teste essencial para identificar indivíduos com respostas anormais, nomeadamente respostas hipertensivas ao esforço, eventualmente percursoras de hipertensão arterial,12 permitindo modificar a estratificação do risco cardiovascular (CV) e diminuindo a probabilidade de morte súbita/eventos cardiovasculares.

A prova de esforço é um exame não invasivo, seguro, pouco dispendioso, de fácil acesso e fácil execução, sendo essencial para identificar indivíduos com respostas anormais e, portanto, um teste de estratificação de risco e predição de futuros eventos CV. Vários estudos demonstraram que o aumento excessivo dos valores da pressão arterial, em resposta ao exercício, pode ser um fator preditivo do desenvolvimento futuro de HTA com consequente aumento do risco CV.1-16 Esta resposta hipertensiva ao esforço parece ser explicada por uma falência nos mecanismos fisiológicos de adaptação ao esforço, nomeadamente por alterações da vasoregulação com incapacidade de reduzir a resistência vascular periférica como resultado de alterações vasculares iniciais que antecedem o estabelecimento da HTA.4,12,14-16 A identificação deste problema permite, assim, uma intervenção precoce, preventiva e eficaz na história natural da doença, sendo recomendada, como primeira opção terapêutica, o uso de um inibidor da enzima de conversão da angiotensina ou um antagonista dos canais de cálcio não dihidropiridínico.1- 2,16


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