Pêlos na língua: um caso de língua pilosa negra
Introdução
O diagnóstico e o tratamento de algumas situações dermatológicas,
principalmente as menos observadas, representam frequentemente um desafio para
os médicos com especialidades mais generalistas. Focando a área da cavidade
oral, as patologias podem abranger um amplo leque de diferentes e heterogéneas
situações, tornando difícil não só o diagnóstico como um encaminhamento
adequado.1
Descrição do Caso
Utente do sexo masculino, 42 anos, caucasiano, casado, natural e residente no
Concelho de Cascais. Insere-se numa família nuclear, na fase IV do ciclo de
Vida Familiar de Duvall e com uma classificação Graffar média. É guitarrista
numa banda.
Como problemas activos salienta-se o tabagismo (36 UMA, durante 18 anos), o
consumo de cannabis e a existência de dois lipomas na região escapular
esquerda.
No início de 2012 procedeu a uma alteração dos seus hábitos de vida diária (por
auto-iniciativa), nomeadamente: diminuição do consumo de fritos e comidas pré-
processadas e aumento do exercício físico semanal, culminando numa perda de
peso de 8 kg (IMC passou de 27 para 24); cessou por completo o consumo de
álcool, substituindo-o por doses diárias superiores a dois litros de sumos de
frutas variadas; diminuição do consumo de tabaco e aumento do consumo de
cannabis, que passou a ser quase diário. Estas alterações dos seus hábitos eram
conhecidas pela esposa.
O utente veio a uma consulta de urgência por apresentar queixas com quatro
semanas de evolução de glossodinia, disgeusia e halitose. A sintomatologia ter-
se-ia iniciado cerca de cinco meses após as alterações do estilo de vida.
Negava outros sintomas ou sinais associados, nomeadamente dor, náuseas,
vómitos, febre, odinofagia ou alterações do olfacto, assim como negava o
consumo de medicamentos com ou sem receita médica ou de produtos de ervanária.
O exame objectivo era normal, com excepção de uma mancha na linha média e
região dorsal da língua, com projecções semelhantes a pêlos, de coloração
acastanhada, não destacáveis com a espátula (Fig._1).
Ainda que tenha sido o primeiro caso que observei, o facto de já ter lido sobre
uma patologia com estas características permitiu-me estabelecer de imediato o
diagnóstico de língua pilosa negra. Após uma breve pesquisa e revisão em sites
de medicina baseada na evidência e atlas na área da Dermatologia, estabeleceu-
se um plano terapêutico em conjunto com o utente. Foi-lhe indicado um reforço
da higiene bucal e cessação do consumo de tabaco e cannabis, tendo a situação
resolvido após duas semanas (apesar de apenas ter existido uma diminuição e não
cessação dos consumos).
Comentário
A língua vilosa (ou pilosa) negra é uma condição benigna, caracterizada pela
deficiente descamação e subsequente hipertrofia, alongamento e pigmentação das
papilas filiformes, tornando-se semelhantes a vilosidades.2 Apesar do que o
nome poderá induzir, as vilosidades podem adquirir uma tonalidade amarela,
verde, castanha ou preta.1 Geralmente afecta a região dorsal da língua onde
predominam as papilas filiformes, sendo pouco frequente a manifestação de
sintomas. Quando existem queixas, estas são de glossopirose, glossodinia,
disgeusia, halitose e eventualmente náuseas.3,4,5
Apesar da etiologia definitiva desta situação clínica ainda estar por
esclarecer, existem múltiplos factores que predispõem à sua ocorrência,
nomeadamente: má higiene bucal, consumo de tabaco ou álcool, consumo de café ou
chá, infecção por HIV, status pós-radioterapia ou infecção por candida
albicans.3 Esta doença também tem estado frequentemente associada ao uso de
antibióticos (tetraciclinas, amoxicilina, linezolida), medicação psicotrópica
(antidepressivos tricíclicos, olanzapina, benzodiazepinas, fluoxetina,
fenotiazinas), inibidores da bomba de protões, ferro ou anti-sépticos orais.1,4
Existem casos descritos a partir dos dois meses de idade, no entanto a
frequência tende a aumentar com a idade, sendo mais comum em idosos com défices
de peças dentárias, má higiene oral e com dieta restrita a alimentos pastosos
ou liquídos.3
O diagnóstico desta patologia é essencialmente clínico. Deve efectuar-se o
diagnóstico diferencial com algumas doenças que podem provocar o escurecimento
da língua, nomeadamente a Doença de Addison, Síndrome de Peutz-Jeghers,
Melanoma, Hemocromatose, reacções tóxicas a metais e Síndrome de Laugier-
Hunziker. Ponderar eventualmente o diagnóstico de líquen plano, leucoplasias da
mucosa oral, anemia perniciosa ou esclerodermia. Deverá obviamente excluir-se
em primeiro lugar a presença de restos alimentares.1,4
O tratamento consiste numa correcta higiene bucal e na cessação da situação
potencialmente desencadeante, resolvendo a grande maioria dos casos. A higiene
bucal pressupõe um fricção recorrendo ao uso de escova e pasta de dentes, cerca
de duas a três vezes por dia, com o objectivo de remover a queratina em
excesso.1,4 Existem alguns casos descritos de melhorias com o uso de
queratolíticos, retinóides ou antifúngicos tópicos, assim como com o uso de
iogurtes ricos em Lactobacillus acidophilus, no entanto são casos isolados e
fica a dúvida sobre o seu benefício para além da higiene instituída. Em última
instância, e na falha do tratamento não invasivo, poderá recorrer-se a uma
abrasão cirúrgica superficial da mucosa.4