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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732013000400008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN2182-5173
ano2013
Issue0004
Article number00008

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Pêlos na língua: um caso de língua pilosa negra

Introdução O diagnóstico e o tratamento de algumas situações dermatológicas, principalmente as menos observadas, representam frequentemente um desafio para os médicos com especialidades mais generalistas. Focando a área da cavidade oral, as patologias podem abranger um amplo leque de diferentes e heterogéneas situações, tornando difícil não o diagnóstico como um encaminhamento adequado.1 Descrição do Caso Utente do sexo masculino, 42 anos, caucasiano, casado, natural e residente no Concelho de Cascais. Insere-se numa família nuclear, na fase IV do ciclo de Vida Familiar de Duvall e com uma classificação Graffar média. É guitarrista numa banda.

Como problemas activos salienta-se o tabagismo (36 UMA, durante 18 anos), o consumo de cannabis e a existência de dois lipomas na região escapular esquerda.

No início de 2012 procedeu a uma alteração dos seus hábitos de vida diária (por auto-iniciativa), nomeadamente: diminuição do consumo de fritos e comidas pré- processadas e aumento do exercício físico semanal, culminando numa perda de peso de 8 kg (IMC passou de 27 para 24); cessou por completo o consumo de álcool, substituindo-o por doses diárias superiores a dois litros de sumos de frutas variadas; diminuição do consumo de tabaco e aumento do consumo de cannabis, que passou a ser quase diário. Estas alterações dos seus hábitos eram conhecidas pela esposa.

O utente veio a uma consulta de urgência por apresentar queixas com quatro semanas de evolução de glossodinia, disgeusia e halitose. A sintomatologia ter- se-ia iniciado cerca de cinco meses após as alterações do estilo de vida.

Negava outros sintomas ou sinais associados, nomeadamente dor, náuseas, vómitos, febre, odinofagia ou alterações do olfacto, assim como negava o consumo de medicamentos com ou sem receita médica ou de produtos de ervanária.

O exame objectivo era normal, com excepção de uma mancha na linha média e região dorsal da língua, com projecções semelhantes a pêlos, de coloração acastanhada, não destacáveis com a espátula (Fig._1).

Ainda que tenha sido o primeiro caso que observei, o facto de ter lido sobre uma patologia com estas características permitiu-me estabelecer de imediato o diagnóstico de língua pilosa negra. Após uma breve pesquisa e revisão em sites de medicina baseada na evidência e atlas na área da Dermatologia, estabeleceu- se um plano terapêutico em conjunto com o utente. Foi-lhe indicado um reforço da higiene bucal e cessação do consumo de tabaco e cannabis, tendo a situação resolvido após duas semanas (apesar de apenas ter existido uma diminuição e não cessação dos consumos).

Comentário A língua vilosa (ou pilosa) negra é uma condição benigna, caracterizada pela deficiente descamação e subsequente hipertrofia, alongamento e pigmentação das papilas filiformes, tornando-se semelhantes a vilosidades.2 Apesar do que o nome poderá induzir, as vilosidades podem adquirir uma tonalidade amarela, verde, castanha ou preta.1 Geralmente afecta a região dorsal da língua onde predominam as papilas filiformes, sendo pouco frequente a manifestação de sintomas. Quando existem queixas, estas são de glossopirose, glossodinia, disgeusia, halitose e eventualmente náuseas.3,4,5 Apesar da etiologia definitiva desta situação clínica ainda estar por esclarecer, existem múltiplos factores que predispõem à sua ocorrência, nomeadamente: higiene bucal, consumo de tabaco ou álcool, consumo de café ou chá, infecção por HIV, status pós-radioterapia ou infecção por candida albicans.3 Esta doença também tem estado frequentemente associada ao uso de antibióticos (tetraciclinas, amoxicilina, linezolida), medicação psicotrópica (antidepressivos tricíclicos, olanzapina, benzodiazepinas, fluoxetina, fenotiazinas), inibidores da bomba de protões, ferro ou anti-sépticos orais.1,4 Existem casos descritos a partir dos dois meses de idade, no entanto a frequência tende a aumentar com a idade, sendo mais comum em idosos com défices de peças dentárias, higiene oral e com dieta restrita a alimentos pastosos ou liquídos.3 O diagnóstico desta patologia é essencialmente clínico. Deve efectuar-se o diagnóstico diferencial com algumas doenças que podem provocar o escurecimento da língua, nomeadamente a Doença de Addison, Síndrome de Peutz-Jeghers, Melanoma, Hemocromatose, reacções tóxicas a metais e Síndrome de Laugier- Hunziker. Ponderar eventualmente o diagnóstico de líquen plano, leucoplasias da mucosa oral, anemia perniciosa ou esclerodermia. Deverá obviamente excluir-se em primeiro lugar a presença de restos alimentares.1,4 O tratamento consiste numa correcta higiene bucal e na cessação da situação potencialmente desencadeante, resolvendo a grande maioria dos casos. A higiene bucal pressupõe um fricção recorrendo ao uso de escova e pasta de dentes, cerca de duas a três vezes por dia, com o objectivo de remover a queratina em excesso.1,4 Existem alguns casos descritos de melhorias com o uso de queratolíticos, retinóides ou antifúngicos tópicos, assim como com o uso de iogurtes ricos em Lactobacillus acidophilus, no entanto são casos isolados e fica a dúvida sobre o seu benefício para além da higiene instituída. Em última instância, e na falha do tratamento não invasivo, poderá recorrer-se a uma abrasão cirúrgica superficial da mucosa.4


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