Deformidades da Coluna no Adolescente
INTRODUÇÃO
A coluna vertebral tem curvaturas fisiológicas, como sejam a lordose cervical,
cifose dorsal, lordose lombar e cifose sacrococcigea, fundamentais para o
ortostatismo e marcha humana. São consideradas curvaturas patológicas com
importância clínica a escoliose no plano frontal e a hipercifose no plano
sagital.
A hipercifose dorsal ou dorsolombar é causa de deformidade da coluna, mas
também de dorsolombalgia e patologia respiratória em alguns casos. O seu
diagnóstico é clínico, complementado com exame radiográfico e o seu tratamento é
habitualmente direccionado para reeducação postural, reforço muscular, ortótese
em determinados casos e intervenção cirúrgica apenas em casos excepcionais.
A escoliose é sempre patológica, embora só uma curvatura superior a 10º na
avaliação radiográfica seja considerada escoliose segundo a Scoliosis Research
Society.(3) Pode ser idiopática ou secundária a diversas doenças ou síndromes,
embora a escoliose idiopática do adolescente seja a escoliose mais frequente na
população, com uma prevalência de 2 a 4%(4,5,6) e atinge predominantemente o
sexo feminino, com uma relação que pode atingir 10/1(7,8)O diagnóstico clínico
é fundamental, em especial com o teste de Adams, complementado com estudo
radiográfico em chassis extralongo, só raramente se solicitando outros. O seu
tratamento varia desde a simples vigilância, estímulo de actividade física, ao
uso de ortóteses e, em casos graves à correcção cirúrgica. Embora no tratamento
cirúrgico da escoliose se contemplem problemas mecânicos, respiratórios e
neurológicos, o principal motivo de preocupação do adolescente que dela padece
é a deformidade estética com perturbação da sua imagem corporal e sofrimento
psicossocial.
Cifose
A cifose dorsal é fisiológica e constituída por uma curvatura harmoniosa. Só a
hipercifose é anormal, podendo esta ser postural, que é redutível e não tem
alterações anatómicas vertebrais ou constitucional. A hipercifose
constitucional é rígida ou parcialmente redutível e tem alterações vertebrais
com várias causas, tais como congénitas, pós-traumáticas, infecciosas,
tumorais, mas, a mais comum e que afecta cerca de 1% da população, predomina no
sexo masculino e tem incidência familiar é a cifose juvenil, ou cifose familiar
ou doença de Scheuermann.(1) Caracteriza-se por uma cifose dorsal excessiva, de
incidência familiar, manifestando-se por uma deformidade irredutível, causando
por vezes dosolombalgia e apresentando no exame radiográfico acunhamento dos
corpos vertebrais envolvidos com irregularidades das plataformas vertebrais e
osteoporose difusa (Figura 1).
Figura 1 - Doença de Scheuermann
O seu tratamento depende da gravidade da deformidade, podendo consistir no uso
de colete de Milwaukee nos casos moderados e em adolescentes ainda
esqueleticamente imaturos (Figura 2).
Figura 2 - Colete de Milwaukee
O tratamento cirúrgico (2) reserva-se para casos graves, em adolescentes
maduros em termos esqueléticos e consiste na instrumentação e artrodese
vertebral por via posterior, com tempo prévio de libertação por via anterior
(Figura 3).
Figura 3 - RX pré e pos-operatório de Doença de Scheuermann
Escoliose
A escoliose é definida como uma curvatura lateral da coluna vertebral no plano
frontal, mas na realidade é uma deformidade complexa e tridimensional não só
da coluna mas também de todo o tronco e inclusive com alterações noutras partes
do corpo (Figura 4).
Figura 4 - Escoliose em espécime humano exumado
Quando a curvatura lateral da coluna vertebral é redutível, não estruturada e
secundária a contracturas musculares ou dismetria dos membros inferiores,
chamamos atitude escoliótica.
O diagnóstico da escoliose idiopática do adolescente é clínico e deve incluir
a observação do adolescente de pé, em flexão anterior do tronco com a designada
manobra ou teste de Adams (Figura 5), que realça a deformidade paravertebral ou
gibosidade característica da escoliose verdadeira ou estruturada, com rotação
vertebral. Por definição a escoliose idiopática do adolescente não tem causa
atribuída e poderá manter-se estável ou ser progressiva, ou seja agravar-se com
o crescimento e até ao final deste.
Figura 5 - Teste de Adams
A título complementar deve ser executado estudo radiográfico em chassis
extralongo, cujo dado mais importante é a medição do ângulo de Cobb(9) que dará
uma medida da gravidade da, ou das curvas escolióticas (Figura 6) e o índice de
Risser(8)na crista ilíaca, como dado relativo à maturidade esquelética do
adolescente.
Figura 6 - Ângulo de Cobb
As curvas escolióticas podem ser quanto à sua localização dorsais,
dorsolombares, lombares e quanto ao número únicas, duplas e por vezes triplas.
Nas escolioses idiopáticas geralmente não há dor, o que explica a detecção
ocasional pela Família, pelo seu Pediatra ou Médico Assistente ou em exame
radiográfico de tórax para estudo de patologia respiratória. Nas escolioses
idiopáticas do adolescente as curvas dorsais são habitualmente de convexidade
direita.(6,11) Perante uma escoliose dolorosa ou de localização atípica, como o
caso duma curva dorsal de convexidade esquerda é fundamental o despiste de
patologia intra ou extramedular do tipo seringomielia ou tumoral, nomeadamente
com ressonância magnética nuclear.
O tratamento varia desde a simples vigilância clínica, prática de actividade
física, fisioterapia, até ao uso de ortóteses ou cirurgia correctora. Na
Medicina baseada na evidência provou-se que os coletes (Figura 7) são a único
método de tratamento conservador efectivo(12,13,14,15)e, tem como objectivo a
correcção da deformidade ou evitar a sua progressão numa fase precoce, evitando
o tratamento cirúrgico. Estão indicados em escolioses com ângulo de Cobb
superior a 25º e têm efeitos indesejáveis quer físicos quer psicológicos.
(14,16,17)
Figura 7 - Colete termomoldado para correcção de escoliose
O tratamento cirúrgico é o único método de tratamento efectivo de escolioses
graves. Está indicado em escolioses com deformidade sérias e visa não só
restabelecer a anatomia e biomecânica da coluna vertebral mas essencialmente
resolver o aspecto inestético, que é, sem dúvida, a vontade do adolescente
extraordinariamente perturbado em termos psíquicos e sociais com a alteração da
imagem corporal que a escoliose provoca.
As técnicas cirúrgicas por nós utilizadas são variadas e dependem da ou das
curvas escolióticas, sua localização, valor angular e rigidez. Nas curvas
dorsais únicas, duplas ou triplas realizamos a instrumentação e artrodese
posterior (Figura 8) e nas curvas dorsolombares ou lombares a instrumentação e
artrodese anterior (Figura 9).
Figura 8 - Instrumentação e artrodese posterior de escoliose dorsal (pré e pós-
operatório, vista posterior e com teste de Adams)
Figura 9 - Instrumentação e artrodese anterior de escoliose lombar (pré e pós-
operatório, vista posterior e lateral)
O tratamento cirúrgico é tecnicamente muito exigente, executado em Centros de
referência especializados e dotadas de meios técnicos e humanos para o efeito
e, não está isento de riscos e complicações.(14,18)
CONCLUSÃO
As deformidades da coluna vertebral, sobretudo a escoliose idiopática que
afecta de forma especial o sexo feminino, contribuem para uma preocupante
deterioração da imagem corporal, nesta fase muito especial, que é a
adolescência.
Felizmente que o conhecimento médico actual consegue satisfazer os anseios dos
adolescentes que padecem de deformidades da coluna vertebral, resolvendo com
segurança e com bons resultados este problema sério da adolescência