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Representação em texto

BrBRCVHe0034-71672011000200028

variedadeBr
ano2011
fonteScielo

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Elaboração de um instrumento de coleta de dados para pesquisa com idosos

INTRODUÇÃO O curso de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC) tem como objetivo oferecer ao corpo discente atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Com o intuito de estudar o processo de envelhecimento, foi organizado no ano de 2002 o grupo de pesquisa "Ações integradas em saúde do idoso: aspectos sócio- culturais, político-econômicos e biológico-funcionais", vinculado ao Grupo de Pesquisa, Políticas e Práticas de Saúde (GRUPPS). Naquela oportunidade o aquele contava com apenas uma bolsista de iniciação cientifica e uma voluntária.

Com o tempo, o grupo foi-se consolidando, com a participação de alunos de graduação e pós-graduação (Mestrado e Doutorado), bem como de enfermeiros que atuam na saúde do idoso ou que tenham interesse pela temática.

A prática da pesquisa na graduação é defendida por alguns autores, os quais salientam a importância da pesquisa na formação de um profissional para que tenha maior senso crítico, criatividade e raciocínio científico(1).

Esse relato de experiência é fruto da participação dos acadêmicos na pesquisa "A família com idosos: avaliação da estrutura, desenvolvimento e funcionalidade para atendimento das demandas do idoso", que teve o apoio financeiro do Programa de Bolsas de Iniciação Científica/UFC (PIBIC/UFC).

Os objetivos deste estudo foram caracterizar a estrutura interna das famílias com idosos, no que tange ao número de membros, sexo, faixa etária, estado civil, escolaridade, parentesco com o idoso e renda; bem como caracterizar tais famílias quanto à estrutura externa, ou seja, a família extensa e os sistemas mais amplos.

Para atingir os objetivos do estudo, os acadêmicos tiveram que desenvolver um instrumento de coleta de dados tendo como base o Modelo Calgary de Avaliação da Família (MCAF)(2), sendo este um dos seus primeiros desafios.

Deste modo, este artigo visa a relatar a experiência de graduandos do curso de enfermagem da UFC de elaborar um instrumento de pesquisa direcionado para a avaliação das famílias com idosos.

A EXPERIÊNCIA Aproximação com a temática A disciplina Enfermagem no Processo de Cuidar do Idoso pertence à matiz curricular do Curso de Graduação da UFC sendo ofertada para os discentes que se encontram no oitavo semestre.

Ao ingressar no grupo de pesquisa, os alunos deparam-se com determinados temas nunca vistos antes, tais como: processo de envelhecimento, políticas publicas relacionadas à saúde do idoso, doenças crônico-degenerativas, cuidador, institucionalização, sendo necessário primeiramente um contato com a temática.

Para suprir esta necessidade, são discutidos textos que envolvam tais temáticas, no horário da reunião do grupo. São discutidos ainda referenciais a cerca da metodologia cientifica.

Acredita-se que com esta metodologia é possível oportunizar a reflexão crítica e proporcionar um conhecimento que permita a compreensão das diversas esferas articuladas na realidade, abrindo a possibilidade para sua transformação e permitindo visualizar o conhecimento, enquanto processo de desvendamento do mundo(3).

A partir deste contato com a temática, os participantes do grupo, sejam eles bolsistas ou voluntários, são incentivados a participar de todas as atividades desenvolvidas, tais como: revisão de literatura nas bases de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), desenvolvimento dos instrumentos de coleta de dados da pesquisa, validação da entrevista semi-estruturada, coleta de dados, elaboração do banco de dados e análise dos resultados e elaboração de resumo, pôsteres e artigos científicos.

Contato com o referencial teórico Para o desenvolvimento da pesquisa em questão era necessário aprofundar-se no referencial teórico da pesquisa.

O instrumento de pesquisa foi estruturado de acordo com o MCAF, que é um método de avaliação e intervenção na família. Este foi elaborado por enfermeiras, tendo como foco a família em seu conjunto. Possui fundamentos teóricos que incluem sistemas, cibernética, comunicação e mudança.

O modelo orienta-se pelo pressuposto de que a família funciona como um sistema; que seus membros se inter-relacionam; que compromissos e vínculos que indicam obrigações futuras e que é responsabilidade da família, dentre outras, a proteção de seus membros(2).

A família, compreendida em seu conjunto, é avaliada quanto à sua estrutura interna (sistema familiar) e externa (família extensa e sistemas mais amplos), com os quais a família se relaciona.

As etapas de desenvolvimento da família fundamentam-se na constatação de que a família nasce quando o casal se forma e passa por tarefas peculiares a cada estágio. A funcionalidade da família é vista sob o prisma de sua instrumentalidade para satisfação das necessidades cotidianas, nas atividades de vida diária, bem como na avaliação de seus processos comunicativos, solução de problemas, desempenho de papéis e crenças.

Ao utilizarmos este referencial esperávamos que o mesmo deveria contemplar os principais aspectos relativos à estrutura, desenvolvimento e funcionalidade das famílias com idosos a serem entrevistadas, que constituíam a amostra da pesquisa em questão.

Considerando-se a complexidade em contemplar todos os aspectos ora citados e tentando evitar que se tornasse muito extenso, optou-se por perguntas objetivas para a composição do instrumento, visando a simplificar sua estrutura e facilitar as respostas por parte dos entrevistados. Destaca-se a proposta central do instrumento: fornecer informações precisas sobre as características dos sujeitos da pesquisa(4).

Construção do Instrumento de Coleta de dados Após várias reuniões de discussão acerca do instrumento, foi realizado um teste piloto com 20 famílias, residentes em um dos bairros de realização da pesquisa, entre os meses de setembro e outubro de 2008. O teste possibilitou encontrar algumas falhas relativas à clareza e objetividade das questões, o que dificultaria sua aplicação, e, portanto, poderia influenciar na fidedignidade dos dados coletados. Além disso, percebeu-se a necessidade de reestruturar algumas perguntas, fazendo com que se adequassem melhor à obtenção das informações buscadas. Assim, o instrumento foi posteriormente readaptado, com o intuito de atender melhor aos objetivos da pesquisa.

Em sequência às modificações realizadas, promoveu-se, no mês de outubro de 2008, um treinamento prévio à sua aplicação, com todas as pessoas que participariam da coleta de dados, de forma a garantir a familiaridade com o instrumento. Para essa ocasião, construiu-se um roteiro explicativo referente às diferentes questões do instrumento, de forma a extinguir as possíveis dúvidas quanto às mesmas, possibilitando a perfeita compreensão e consequente eficácia do mesmo por parte de todos os envolvidos.

Posterior a esta etapa, finalmente procedeu-se à coleta dos dados com 218 famílias com idosos, o que ocorreu no período de outubro de 2008 a janeiro de 2009. Para ser incluída  na pesquisa, pelo menos um idoso deveria co-residir com a família. A entrevista foi realizada com o responsável pelo cuidado da família.

O instrumento elaborado para o levantamento de dados da referente pesquisa constituiu-se sob a forma de um questionário, composto de perguntas fechadas.

Aborda aspectos como estrutura e desenvolvimento familiar, contendo, no seu final, um espaço destinado ao relato de impressões do entrevistador ou outros registros que se fizerem necessários.

Avaliação da estrutura familiar A primeira categoria de perguntas objetivou descrever quem são os membros da família. Foram considerados como tal "quem a família diz que é", ultrapassando assim um conceito restrito aos laços de consanguinidade, adoção e matrimônio (2), o que permite perceber as diferentes estruturas e modalidades que a família assumiu no contexto atual. Destes aspectos compõe-se a estrutura interna da família(2). Para estruturar os dados, construiu-se um quadro para preenchimento de informações relativas aos membros componentes da família entrevistada, tais como nome, sexo, idade, escolaridade, estado civil, parentesco com o idoso, ocupação e renda.

Nesse contexto, buscou-se analisar a composição familiar, ordem de nascimento, gênero, subsistemas e limites, estes referindo-se às regras familiares para definir quem e como participa do sistema familiar.

A estrutura externa, utilizando-se o mesmo referencial teórico, inclui a família extensa e sistemas mais amplos. A primeira refere-se à família de origem, família de procriação, atual geração e os membros de família adotiva e seus vínculos e relacionamentos. Para investigar essa organização, foram feitas perguntas direcionadas para conhecer quem ajuda nos casos de necessidade, em quais ocasiões a família pede ajuda ou presta ajuda e o tipo de ajuda solicitada(2).

Os sistemas mais amplos dizem respeito a instituições sociais e a pessoas com relações significativas com a família. A fim de saber que rede de apoio é mais expressiva para as famílias, interrogou-se sobre quais os profissionais que colaboram com a família, quais os serviços comunitários que a família utiliza.

Ainda neste pensamento, questionaram-se aspectos de uma subcategoria, o ambiente, que pode abranger a comunidade, a vizinhança e o lar. Para atender a esta questão, indagou-se como classifica o ambiente onde mora, dentre outras questões(2).

Avaliação do desenvolvimento familiar "O desenvolvimento familiar diz respeito ao processo de mudanças estruturais progressivas através do tempo", considerando uma visão longitudinal do ciclo de vida familiar(5). Para análise do mesmo, a família foi classificada nos seguintes estágios: formação de um novo casal, família com filhos pequenos, família com adolescentes, encaminhando os filhos para a saída de casa e família no fim da vida idosos ou viuvez.

A  análise do desenvolvimento da família foi feita através da teoria de Evelyn Duvall, que divide em estágios o desenvolvimento familiar(6). O foco principal da teoria são as mudanças significativas e padronizadas (ou pontos de transição críticos) vivenciadas pelas famílias, enquanto se movem através dos estágios da vida familiar. A família passa a ser percebida como grupo social formado por indivíduos que interagem entre si, compondo uma unidade semipermeável, ocupando posições, desempenhando papéis sociais, criando normas para o viver em conjunto, construindo uma trajetória de vida e sujeito a regras e expectativas da sociedade em que se insere(7).

O conhecimento relativo aos aspectos de desenvolvimento das famílias é de grande importância. Uma vez que é responsabilidade da família proporcionar os meios para a satisfação das necessidades de seus membros componentes, considera-se que a realização das tarefas de desenvolvimento da família é essencial para o seu funcionamento satisfatório(8).

Nesta sessão foram incluídas questões como quem participa da criação dos filhos, quem é responsável pelas atividades de vida diária e quem assume a tarefa de cuidar dos idosos da família, com o propósito de se obter informações sobre que tarefas os membros da família exercem para o ajuste a cada etapa do desenvolvimento e como os vínculos são mantidos ou restabelecidos na família frente às demandas de cada estágio.

Avaliação da funcionalidade familiar No estudo da família, estão implícitos os conceitos de papéis e funções(5). A partir destes, pode-se avaliar a dinâmica familiar, ou funcionalidade, considerando-se a interpessoalidade cotidiana entre os membros da família.

Para essa avaliação elaboraram-se diversas questões destinadas a explorar como a família vivencia o cotidiano e suas tarefas de atividade de vida e como se a comunicação entre seus membros, nos aspectos de solução de problemas, exercício de poder e influência, e crenças, relativas às relações familiares, desempenho de papéis, processo saúde-doença e opiniões acerca do significado da família e do indivíduo idoso na sociedade.

Após a primeira utilização prática do instrumento, algumas alterações foram realizadas. O tópico estado civil foi acrescentado ao quadro de avaliação da estrutura interna, o que se justifica pelo fato de o cuidador ser, geralmente, do sexo feminino, desempenhando, muitas vezes, o papel de mãe, esposa e cuidadora, concomitantemente, e sendo responsável pelas atividades domésticas, além de cuidar do idoso,  o que gera sobrecarga(9-11). A pergunta sobre pais vivos e membros mais próximos foram especificadas ao casal ou pessoa que constituía o núcleo da família. Na avaliação do desenvolvimento, a pergunta "Quem é o responsável pelo cuidado da casa?" foi substituída por "Quem é o responsável pelas atividades de vida da família?", tornando-se assim mais abrangente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Após passarmos por essa etapa de construção e aprimoramento deste instrumento, observamos o quanto este permitiu a nossa inserção, enquanto estudantes da graduação, na pesquisa: um processo de aprendizagem investigativo que, diferentemente dos clássicos, caracterizados pelo repasse de conteúdo, constitui-se num processo que instiga a reflexão crítica e nos a oportunidade de buscar conhecimentos e de saber utilizá-los; faz-nos cientes de que não necessitamos ter domínio de todas as informações, mas de que precisamos expor dúvidas para, a partir delas, buscar respostas e soluções (alternativas).

A elaboração do instrumento capacitou-nos a compreender a multidimensionalidade desse complexo sistema que é a família com idosos, instigando-nos a repensar a assistência de enfermagem à família e dando-nos embasamento para organizar as condições necessárias à realização do cuidado.

Esta foi uma experiência ímpar, por oportunizar a participação dos estudantes em uma pesquisa de grande relevância para a enfermagem no cuidado à família com idoso. Como integrantes do processo de elaboração de um instrumento de coleta de dados, ao lado de profissionais enfermeiros experientes, adquiriu-se mais maturidade em iniciação à pesquisa, através de leituras direcionadas e discussões que envolveram todo o grupo.

Ao aplicar-se o instrumento, este mostrou-se adequado para a coleta de dados em famílias com idosos nas áreas de abrangência da ESF, o que possibilita a informatização da prática de enfermagem gerontológica e melhor qualidade de assistência a essa população.


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