Elaboração de um instrumento de coleta de dados para pesquisa com idosos
INTRODUÇÃO
O curso de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC) tem como objetivo
oferecer ao corpo discente atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Com o intuito de estudar o processo de envelhecimento, foi organizado no ano de
2002 o grupo de pesquisa "Ações integradas em saúde do idoso: aspectos sócio-
culturais, político-econômicos e biológico-funcionais", vinculado ao Grupo de
Pesquisa, Políticas e Práticas de Saúde (GRUPPS). Naquela oportunidade o aquele
contava com apenas uma bolsista de iniciação cientifica e uma voluntária.
Com o tempo, o grupo foi-se consolidando, com a participação de alunos de
graduação e pós-graduação (Mestrado e Doutorado), bem como de enfermeiros que
atuam na saúde do idoso ou que tenham interesse pela temática.
A prática da pesquisa na graduação é defendida por alguns autores, os quais
salientam a importância da pesquisa na formação de um profissional para que
tenha maior senso crítico, criatividade e raciocínio científico(1).
Esse relato de experiência é fruto da participação dos acadêmicos na pesquisa
"A família com idosos: avaliação da estrutura, desenvolvimento e funcionalidade
para atendimento das demandas do idoso", que teve o apoio financeiro do
Programa de Bolsas de Iniciação Científica/UFC (PIBIC/UFC).
Os objetivos deste estudo foram caracterizar a estrutura interna das famílias
com idosos, no que tange ao número de membros, sexo, faixa etária, estado
civil, escolaridade, parentesco com o idoso e renda; bem como caracterizar tais
famílias quanto à estrutura externa, ou seja, a família extensa e os sistemas
mais amplos.
Para atingir os objetivos do estudo, os acadêmicos tiveram que desenvolver um
instrumento de coleta de dados tendo como base o Modelo Calgary de Avaliação da
Família (MCAF)(2), sendo este um dos seus primeiros desafios.
Deste modo, este artigo visa a relatar a experiência de graduandos do curso de
enfermagem da UFC de elaborar um instrumento de pesquisa direcionado para a
avaliação das famílias com idosos.
A EXPERIÊNCIA
Aproximação com a temática
A disciplina Enfermagem no Processo de Cuidar do Idoso pertence à matiz
curricular do Curso de Graduação da UFC sendo ofertada para os discentes que se
encontram no oitavo semestre.
Ao ingressar no grupo de pesquisa, os alunos deparam-se com determinados temas
nunca vistos antes, tais como: processo de envelhecimento, políticas publicas
relacionadas à saúde do idoso, doenças crônico-degenerativas, cuidador,
institucionalização, sendo necessário primeiramente um contato com a temática.
Para suprir esta necessidade, são discutidos textos que envolvam tais
temáticas, no horário da reunião do grupo. São discutidos ainda referenciais a
cerca da metodologia cientifica.
Acredita-se que com esta metodologia é possível oportunizar a reflexão crítica
e proporcionar um conhecimento que permita a compreensão das diversas esferas
articuladas na realidade, abrindo a possibilidade para sua transformação e
permitindo visualizar o conhecimento, enquanto processo de desvendamento do
mundo(3).
A partir deste contato com a temática, os participantes do grupo, sejam eles
bolsistas ou voluntários, são incentivados a participar de todas as atividades
desenvolvidas, tais como: revisão de literatura nas bases de dados da
Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), desenvolvimento dos instrumentos de coleta
de dados da pesquisa, validação da entrevista semi-estruturada, coleta de
dados, elaboração do banco de dados e análise dos resultados e elaboração de
resumo, pôsteres e artigos científicos.
Contato com o referencial teórico
Para o desenvolvimento da pesquisa em questão era necessário aprofundar-se no
referencial teórico da pesquisa.
O instrumento de pesquisa foi estruturado de acordo com o MCAF, que é um método
de avaliação e intervenção na família. Este foi elaborado por enfermeiras,
tendo como foco a família em seu conjunto. Possui fundamentos teóricos que
incluem sistemas, cibernética, comunicação e mudança.
O modelo orienta-se pelo pressuposto de que a família funciona como um sistema;
que seus membros se inter-relacionam; que há compromissos e vínculos que
indicam obrigações futuras e que é responsabilidade da família, dentre outras,
a proteção de seus membros(2).
A família, compreendida em seu conjunto, é avaliada quanto à sua estrutura
interna (sistema familiar) e externa (família extensa e sistemas mais amplos),
com os quais a família se relaciona.
As etapas de desenvolvimento da família fundamentam-se na constatação de que a
família nasce quando o casal se forma e passa por tarefas peculiares a cada
estágio. A funcionalidade da família é vista sob o prisma de sua
instrumentalidade para satisfação das necessidades cotidianas, nas atividades
de vida diária, bem como na avaliação de seus processos comunicativos, solução
de problemas, desempenho de papéis e crenças.
Ao utilizarmos este referencial esperávamos que o mesmo deveria contemplar os
principais aspectos relativos à estrutura, desenvolvimento e funcionalidade das
famílias com idosos a serem entrevistadas, que constituíam a amostra da
pesquisa em questão.
Considerando-se a complexidade em contemplar todos os aspectos ora citados e
tentando evitar que se tornasse muito extenso, optou-se por perguntas objetivas
para a composição do instrumento, visando a simplificar sua estrutura e
facilitar as respostas por parte dos entrevistados. Destaca-se a proposta
central do instrumento: fornecer informações precisas sobre as características
dos sujeitos da pesquisa(4).
Construção do Instrumento de Coleta de dados
Após várias reuniões de discussão acerca do instrumento, foi realizado um teste
piloto com 20 famílias, residentes em um dos bairros de realização da pesquisa,
entre os meses de setembro e outubro de 2008. O teste possibilitou encontrar
algumas falhas relativas à clareza e objetividade das questões, o que
dificultaria sua aplicação, e, portanto, poderia influenciar na fidedignidade
dos dados coletados. Além disso, percebeu-se a necessidade de reestruturar
algumas perguntas, fazendo com que se adequassem melhor à obtenção das
informações buscadas. Assim, o instrumento foi posteriormente readaptado, com o
intuito de atender melhor aos objetivos da pesquisa.
Em sequência às modificações realizadas, promoveu-se, no mês de outubro de
2008, um treinamento prévio à sua aplicação, com todas as pessoas que
participariam da coleta de dados, de forma a garantir a familiaridade com o
instrumento. Para essa ocasião, construiu-se um roteiro explicativo referente
às diferentes questões do instrumento, de forma a extinguir as possíveis
dúvidas quanto às mesmas, possibilitando a perfeita compreensão e consequente
eficácia do mesmo por parte de todos os envolvidos.
Posterior a esta etapa, finalmente procedeu-se à coleta dos dados com
218 famílias com idosos, o que ocorreu no período de outubro de 2008 a janeiro
de 2009. Para ser incluída na pesquisa, pelo menos um idoso deveria co-residir
com a família. A entrevista foi realizada com o responsável pelo cuidado da
família.
O instrumento elaborado para o levantamento de dados da referente pesquisa
constituiu-se sob a forma de um questionário, composto de perguntas fechadas.
Aborda aspectos como estrutura e desenvolvimento familiar, contendo, no seu
final, um espaço destinado ao relato de impressões do entrevistador ou outros
registros que se fizerem necessários.
Avaliação da estrutura familiar
A primeira categoria de perguntas objetivou descrever quem são os membros da
família. Foram considerados como tal "quem a família diz que é", ultrapassando
assim um conceito restrito aos laços de consanguinidade, adoção e matrimônio
(2), o que permite perceber as diferentes estruturas e modalidades que a
família assumiu no contexto atual. Destes aspectos compõe-se a estrutura
interna da família(2). Para estruturar os dados, construiu-se um quadro para
preenchimento de informações relativas aos membros componentes da família
entrevistada, tais como nome, sexo, idade, escolaridade, estado civil,
parentesco com o idoso, ocupação e renda.
Nesse contexto, buscou-se analisar a composição familiar, ordem de nascimento,
gênero, subsistemas e limites, estes referindo-se às regras familiares para
definir quem e como participa do sistema familiar.
A estrutura externa, utilizando-se o mesmo referencial teórico, inclui a
família extensa e sistemas mais amplos. A primeira refere-se à família de
origem, família de procriação, atual geração e os membros de família adotiva e
seus vínculos e relacionamentos. Para investigar essa organização, foram feitas
perguntas direcionadas para conhecer quem ajuda nos casos de necessidade, em
quais ocasiões a família pede ajuda ou presta ajuda e o tipo de ajuda
solicitada(2).
Os sistemas mais amplos dizem respeito a instituições sociais e a pessoas com
relações significativas com a família. A fim de saber que rede de apoio é mais
expressiva para as famílias, interrogou-se sobre quais os profissionais que
colaboram com a família, quais os serviços comunitários que a família utiliza.
Ainda neste pensamento, questionaram-se aspectos de uma subcategoria, o
ambiente, que pode abranger a comunidade, a vizinhança e o lar. Para atender a
esta questão, indagou-se como classifica o ambiente onde mora, dentre outras
questões(2).
Avaliação do desenvolvimento familiar
"O desenvolvimento familiar diz respeito ao processo de mudanças estruturais
progressivas através do tempo", considerando uma visão longitudinal do ciclo de
vida familiar(5). Para análise do mesmo, a família foi classificada nos
seguintes estágios: formação de um novo casal, família com filhos pequenos,
família com adolescentes, encaminhando os filhos para a saída de casa e família
no fim da vida só idosos ou viuvez.
A análise do desenvolvimento da família foi feita através da teoria de Evelyn
Duvall, que divide em estágios o desenvolvimento familiar(6). O foco principal
da teoria são as mudanças significativas e padronizadas (ou pontos de transição
críticos) vivenciadas pelas famílias, enquanto se movem através dos estágios da
vida familiar. A família passa a ser percebida como grupo social formado por
indivíduos que interagem entre si, compondo uma unidade semipermeável, ocupando
posições, desempenhando papéis sociais, criando normas para o viver em
conjunto, construindo uma trajetória de vida e sujeito a regras e expectativas
da sociedade em que se insere(7).
O conhecimento relativo aos aspectos de desenvolvimento das famílias é de
grande importância. Uma vez que é responsabilidade da família proporcionar os
meios para a satisfação das necessidades de seus membros componentes,
considera-se que a realização das tarefas de desenvolvimento da família é
essencial para o seu funcionamento satisfatório(8).
Nesta sessão foram incluídas questões como quem participa da criação dos
filhos, quem é responsável pelas atividades de vida diária e quem assume a
tarefa de cuidar dos idosos da família, com o propósito de se obter informações
sobre que tarefas os membros da família exercem para o ajuste a cada etapa do
desenvolvimento e como os vínculos são mantidos ou restabelecidos na família
frente às demandas de cada estágio.
Avaliação da funcionalidade familiar
No estudo da família, estão implícitos os conceitos de papéis e funções(5). A
partir destes, pode-se avaliar a dinâmica familiar, ou funcionalidade,
considerando-se a interpessoalidade cotidiana entre os membros da família.
Para essa avaliação elaboraram-se diversas questões destinadas a explorar como
a família vivencia o cotidiano e suas tarefas de atividade de vida e como se dá
a comunicação entre seus membros, nos aspectos de solução de problemas,
exercício de poder e influência, e crenças, relativas às relações familiares,
desempenho de papéis, processo saúde-doença e opiniões acerca do significado da
família e do indivíduo idoso na sociedade.
Após a primeira utilização prática do instrumento, algumas alterações foram
realizadas. O tópico estado civil foi acrescentado ao quadro de avaliação da
estrutura interna, o que se justifica pelo fato de o cuidador ser, geralmente,
do sexo feminino, desempenhando, muitas vezes, o papel de mãe, esposa e
cuidadora, concomitantemente, e sendo responsável pelas atividades domésticas,
além de cuidar do idoso, o que gera sobrecarga(9-11). A pergunta sobre pais
vivos e membros mais próximos foram especificadas ao casal ou pessoa que
constituía o núcleo da família. Na avaliação do desenvolvimento, a pergunta
"Quem é o responsável pelo cuidado da casa?" foi substituída por "Quem é o
responsável pelas atividades de vida da família?", tornando-se assim mais
abrangente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após passarmos por essa etapa de construção e aprimoramento deste instrumento,
observamos o quanto este permitiu a nossa inserção, enquanto estudantes da
graduação, na pesquisa: um processo de aprendizagem investigativo que,
diferentemente dos clássicos, caracterizados pelo repasse de conteúdo,
constitui-se num processo que instiga a reflexão crítica e nos dá a
oportunidade de buscar conhecimentos e de saber utilizá-los; faz-nos cientes de
que não necessitamos ter domínio de todas as informações, mas de que precisamos
expor dúvidas para, a partir delas, buscar respostas e soluções (alternativas).
A elaboração do instrumento capacitou-nos a compreender a multidimensionalidade
desse complexo sistema que é a família com idosos, instigando-nos a repensar a
assistência de enfermagem à família e dando-nos embasamento para organizar as
condições necessárias à realização do cuidado.
Esta foi uma experiência ímpar, por oportunizar a participação dos estudantes
em uma pesquisa de grande relevância para a enfermagem no cuidado à família com
idoso. Como integrantes do processo de elaboração de um instrumento de coleta
de dados, ao lado de profissionais enfermeiros experientes, adquiriu-se mais
maturidade em iniciação à pesquisa, através de leituras direcionadas e
discussões que envolveram todo o grupo.
Ao aplicar-se o instrumento, este mostrou-se adequado para a coleta de dados em
famílias com idosos nas áreas de abrangência da ESF, o que possibilita a
informatização da prática de enfermagem gerontológica e melhor qualidade de
assistência a essa população.