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Representação em texto

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ano2011
fonteScielo

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Perspectivas filosóficas do uso da tecnologia no cuidado de enfermagem em terapia intensiva

INTRODUÇÃO O desenvolvimento e as transformações históricas experimentadas pelas sociedades contam entre as suas causas e efeitos os desenvolvimentos da tecnociência(1). O contexto do cuidado à enfermagem/saúde vem sendo sistematicamente influenciado por estas mudanças produzidas no âmbito da tecnologia o que tem gerado diversas inquietações e indagações acerca dos benefícios, riscos e das relações construídas entre trabalhadores, doentes e a utilização de tecnologias como instrumentos imprescindíveis ao cuidado de enfermagem/saúde. Principalmente nas unidades de terapia intensiva, o cuidado ao doente crítico envolve a utilização de um arsenal tecnológico específico e que exige, especialmente dos enfermeiros, conhecimentos e habilidades tanto no que se refere à operacionalização de máquinas quanto a sua adequação às necessidades de quem depende dela.

Porém, observa-se que, diversas vezes, a apropriação do conhecimento do enfermeiro nesta área não contempla reflexões que considerem que o cuidado ao doente em terapia intensiva inclui inevitavelmente, também, o cuidado com as máquinas. Esse cuidado, além de contemplar a manutenção do estado de seu funcionamento precisa, principalmente, envolver as relações que se estabelecem entre elas, o enfermeiro, o doente e o ambiente de cuidado. Essa função relacional, quando bem trabalhada, por meio dos conhecimentos do enfermeiro junto ao doente torna a situação mais aceitável e com maior probabilidade de efeitos terapêuticos satisfatórios.

As reflexões deste artigo emergiram de conhecimentos construídos e produzidos na disciplina de Filosofia da Ciência, da Saúde e da Enfermagem do Curso de Doutorado em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Busca-se refletir sobre o uso da tecnologia no cuidado de enfermagem ao doente crítico em terapia intensiva.

A FILOSOFIA DA TECNOLOGIA E A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM ENFERMAGEM O desenvolvimento tecnológico tem sido uma busca constante do ser humano, desde os tempos mais remotos, e que, sistematicamente, vem determinando não a sua sobrevivência na Terra como também a sua capacidade de dominação e transformação. A descoberta do fogo, a invenção da roda até os instrumentos tecnológicos mais avançados, que facilitam a vida humana na atualidade, exemplificam esta evolução tecnológica pretendida e conquistada.

A ciência contribui, inegavelmente, para que o desenvolvimento tecnológico aconteça, sendo a Revolução Científica ocorrida nos séculos XVI e XVII o marco mais importante destas transformações, pois a visão do mundo medieval, que se baseava na filosofia aristotélica e na teologia cristã, mudou consideravelmente. A ideia de um universo orgânico, vivo e espiritual foi substituído pela noção de mundo como uma máquina e a máquina do mundo tornou-se a metáfora dominante da era moderna. Essas mudanças sensíveis foram realizadas pelas novas descobertas da Física, Astronomia e Matemática e associadas aos nomes de Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon e Newton(2).

O paradigma dominante pautado no domínio das ciências naturais firmou-se como sendo todo o conhecimento advindo de princípios epistemológicos com regras metodológicas. Salienta-se, então, o desenvolvimento da Matemática como sendo o pilar da lógica da ciência moderna, ou seja, possuía relevância científica o que poderia ser quantificado, produzindo um rompimento importante entre ciência e senso comum(3). Assim, o pensamento científico moderno baseia-se na ideia de demonstração e prova e, nesse sentido, a ciência pauta-se no uso de instrumentos tecnológicos e não simplesmente aparelhos técnicos. Desse modo: Os instrumentos técnicos são prolongamentos de capacidades do corpo humano e destinam-se a aumentá-las na relação de nosso corpo com o mundo. Os instrumentos tecnológicos são ciências cristalizadas em objetos materiais, nada possuem em comum com as capacidades e aptidões do corpo humano [...] A tecnologia confere à ciência precisão e controle dos resultados(4)...

A associação entre tecnologia e ciências da saúde nasce em um momento histórico caracterizado por profundas transformações econômicas e sociais, além de mudanças epistemológicas. A Revolução Industrial e a Segunda Guerra Mundial uniram ciência e tecnologia, passando-se ao uso de equipamentos cada vez mais sofisticados, em diversas áreas do conhecimento.

Especialmente no século XX, o conhecimento detalhado das funções biológicas em níveis celulares e moleculares e o desenvolvimento de antibióticos alavancaram áreas da Medicina como a cirurgia e a anestesiologia, através da utilização de novas tecnologias que oportunizaram manter os processos fisiológicos normais, mesmo durante prolongadas intervenções cirúrgicas(5).

Dessa forma, todo o avanço científico e tecnológico promoveu a ascensão e desenvolvimento de diversos campos do conhecimento, o que também produziu e vem produzindo diversas indagações sobre as reais contribuições dessas transformações para a conquista da felicidade humana. Assim, faz-se necessário que ocorra a aproximação entre as concepções do que hoje significa ciência com os questionamentos e princípios das condições e contextos sociais, onde estas transformações operam, de forma a produzirem reflexão epistemológica. Nesta perspectiva, a filosofia da tecnologia busca interpretar os fenômenos contemporâneos à luz da praxis, abordando os desafios que enfatizam reflexões filosóficas e críticas à tecnologia, visualizando-a como mais do que um instrumento fim em si mesmo ou um instrumento neutro(6).

A exclusão da neutralidade da técnica - entendida aqui tanto como universo dos meios (tecnologias) quanto a racionalidade que orienta o seu emprego - baseia- se na ideia de que ela cria um mundo com determinadas características que o ser humano não pode deixar de habitar e que, ao habitá-lo, assume hábitos que, inevitavelmente, os transforma(7). Essas transformações operadas pela tecnologia podem ser (re)pensadas e fundamentadas à luz da filosofia, na busca por compreender os imperativos morais e éticos que envolvem o seu uso e o seu potencial de influenciar na vida humana.

Especialmente na área da saúde, a filosofia da tecnologia pode auxiliar enfermeiros e outros profissionais a abordar questões relacionadas a direitos individuais, decisões sobre meios e fins e esclarecimento de valores(6). A Bioética, nascida na década de 1970, vem se preocupando com o avanço tecnológico, sua influência sobre a qualidade de vida das pessoas e os riscos que podem influenciar a continuidade da vida na Terra, concebida como valor pelos quais todos os seres humanos são responsáveis(8).

A tecnologia e suas interfaces com a Enfermagem, às vezes, distanciam-se da premente necessidade de reflexão, apesar de testemunhar desenvolvimentos significativos na tecnologia e na ciência. Mas, torna-se importante reconhecer que os enfermeiros sempre usaram ferramentas e técnicas para alcançar metas válidas. O rápido crescimento da tecnociência e delegação de tarefas para esses profissionais incentivaram a introdução de tecnologias sofisticadas, tornando- as objeto de reflexão com o desenvolvimento das teorias de enfermagem, na década de 60(6).

Emerge, assim, a necessidade de (re)examinar as relações entre a enfermagem e a tecnologia, não apenas na perspectiva de uma ação instrumental, mas, também, sob a ótica das humanidades que enfatizam a sociedade, as culturas e a experiência humana, exigindo um tipo de pensamento tecnológico que procura examinar a ambivalência, em relação à tecnologia, com referência específica à sua manifestação como uma força objetiva e material e como uma entidade socialmente construída(6). O cuidado de enfermagem está intimamente interligado à tecnologia, tendo em vista que os profissionais da enfermagem estão comprometidos com princípios, leis e teorias e a tecnologia representa esse conhecimento científico e sua própria transformação(9).

Diante do exposto, se faz necessário pensar nestas interconexões entre o cuidado de enfermagem/saúde e a tecnologia. Especialmente, em situações críticas da vida, como aquelas experimentadas nos ambientes de terapia intensiva, buscando-se compreender que não acontecem de forma isolada, mas interdependentes e interconectados.

O cuidado de enfermagem em terapia intensiva: (re)pensando as tecnologias duras como um "estar com" a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) constitui-se em um ambiente destinado ao tratamento de doentes graves, críticos, que necessitam de cuidados complexos e monitoramento contínuo. Este ambiente, cada vez mais repleto de aparatos tecnológicos, vem permitindo aos trabalhadores de saúde maior controle das situações de risco, rapidez nas tomadas de decisões e agilidade no desempenho de ações mais efetivas em situações críticas.

Dessa forma, a UTI representa o local onde se acentua o uso da tecnologia e, também, as implicações que dele decorrem, mas que, inegavelmente, oferece melhores condições para quem trabalha e aumento da qualidade da assistência para aqueles que são cuidados.

O uso das tecnologias na área da saúde, em especial pelo enfermeiro, necessita ser expandido, não significando apenas a incorporação de equipamentos no cuidado. As tecnologias podem ser classificadas em três dimensões: a - Tecnologias leves, aquelas de caráter relacional baseada na comunicação e no acolhimento e que acontece no momento de encontro com o ser cuidado e objetiva o estabelecimento de vínculos e a autonomização; b - Tecnologias leves-duras referem-se aos saberes estruturados que operam na área da saúde como a epidemiologia, a clínica, dentre outras; c - Tecnologias duras, representadas pelos equipamentos e máquinas, material concreto utilizado no ato de cuidado em saúde(10) e na enfermagem.

Nesta perspectiva, o cuidado de enfermagem permeia e busca a harmonização entre estas três dimensões da tecnologia, porém, sabe-se que, na atenção ao doente crítico, o uso das tecnologias duras é determinante para a qualidade do cuidado, exigindo conhecimento técnico especializado, por parte de todos os cuidadores envolvidos. Neste sentido, não se pretende negar as demais dimensões tecnológicas, mas compreender que o nível de exigência, em termos de cuidados de saúde, determina o seu maior ou menor uso.

A compreensão do cuidado de enfermagem como um constructo complexo, com diferentes dimensões, permite refletir que ele é humano, ainda que tenha que se apropriar de tecnologias duras, ou seja, de máquinas para ser realizado(11). O discurso de humanização, que permeia as ações em saúde, tem relegado à terapia intensiva e, consequentemente, aos profissionais que nela atuam, um rótulo de frieza e imparcialidade, considerando serem incapazes de demonstrarem afeto pelo doente e pela família(12), como se todos que operam os cuidados nessa área, o fazem sob a ótica das máquinas e não do ser humano que esta sendo cuidado.

Indiscutivelmente, as máquinas constituem a alma, ou seja, a "espinha dorsal" das unidades de terapia intensiva(11), pois são elas que garantem o suporte avançado de vida pretendido ao doente em estado crítico e, portanto, é impossível pensar nessas unidades sem os devidos aparatos tecnológicos ou tecnologias duras. Diante do exposto, cabe aos profissionais de saúde, em especial aos enfermeiros, refletirem: como as tecnologias duras podem representar um estar com o doente crítico? Talvez, uma das respostas mais apropriadas a esta indagação seja abandonar a ideia de que, quando se cuida da máquina, se abandona ou deixa-se de ver quem, de certa forma, depende dela, ou seja, cuidar de máquinas não é um discurso teórico-prático tão absurdo, pois, se elas, em muitos casos, mantêm o cliente vivo, isso é possível porque direta ou indiretamente cuidamos delas também. Programar as máquinas, bem como ajustar seus parâmetros e alarmes e supervisionar seu funcionamento são para nós exemplos de cuidado para com elas e com os clientes que delas se beneficiam (11).

Pensar o impacto das tecnologias duras na prática de enfermagem necessita compreender que é essencial um equilíbrio entre estas tecnologias e a atuação verdadeira do enfermeiro, assegurando o papel desses profissionais no cuidado ao doente crítico. Assim, o que determina se uma tecnologia desumaniza o cuidado de enfermagem não é a tecnologia por si , mas, principalmente, sua forma de influenciar os indivíduos e os significados atribuídos às definições do que é humano, dentro de cada cultura.

O cuidado humano é uma realidade construída socialmente, assim como a tecnologia(13). Dessa forma, se cuidado e tecnologia são socialmente construídos, é necessário que o enfermeiro: estabeleça novas relações entre estas instâncias; busque a harmonização entre o cuidado com a tecnologia dura e com o doente crítico; visualize o humano, através da máquina, porém, sem perder a dimensão de que esta tecnologia não possui senso crítico e que, em diversas vezes, ela pode não estar desvelando o que verdadeiramente está acontecendo com o doente/ser humano.

É preciso entender que os aparatos tecnológicos na terapia intensiva constituem-se, diversas vezes, em meios de comunicação entre o doente crítico e a equipe de saúde e com a família, pois, por meio deles, é que se identificam situações de risco, sendo, também, uma forma da família reconhecer, principalmente por meio da monitorização contínua, a evolução dos sinais vitais que o doente apresenta.

A tecnologia dura não se opõe ao contato humano. É um agente e um objeto desse encontro. Ela pode humanizar até os ambientes mais tecnologizados(13) como a terapia intensiva, desde que visualizada como algo que permeia o humano, em momentos singulares e críticos.

Dessa forma, a máquina constitui-se na extensão do próprio ser humano e, mesmo sem fazer parte de sua essência, é ela que, em muitos momentos, determina sua própria existência. Assim, cuidado e tecnologia dura se aproximam, inevitavelmente, permitindo que as ações de enfermagem tidas como um trabalho vivo em ato, sistematizadas e pautadas em conhecimento científico voltem-se para a manutenção da vida das pessoas, proporcionando conforto e bem-estar, contribuindo para a recuperação da saúde ou para uma morte digna e tranquila (9).

Nesta perspectiva, considera-se que as habilidades a serem desenvolvidas pelo enfermeiro no cuidado ao doente crítico, dependente de tecnologias duras, inclui não o uso de equipamentos, mas sua regulagem e a desinfecção adequada, dentre outros, além da implantação de protocolos que otimizem e contribuam na relação custo-eficiência e que, principalmente, contemplem um cuidado de enfermagem humanizado(14). Assim, a tecnologia deve e precisa estar a serviço da humanidade e presente, especialmente, no ambiente da terapia intensiva. Portanto, carece de ser dominada pelos trabalhadores da saúde, em especial os enfermeiros, como garantia de seu uso seguro e eficaz, sem gerar estresse para quem depende dela ou para quem a opera, possibilitando que os valores humanitários sobreponham-se às práticas essencialmente tecnicistas(15).

Assim, a filosofia da tecnologia pode constituir-se em um elemento essencial a esta reflexão, pois permite analisar tanto os desafios cada vez mais presentes no cuidado em saúde quanto aqueles desafios relacionados a questões de vida e morte, crenças, ideias e práticas em constante mudança. Neste sentido, a reflexão filosófica, acerca do uso da tecnologia, especialmente na terapia intensiva, busca encontrar o equilíbrio entre perspectivas utópicas e não irreais, que caracterizam grande parte da literatura de enfermagem. Ou seja, análises mais particulares, específicas e refinadas são exigidas, que dependam menos de generalizações sobre a desumanização, alienação ou celebração acrítica da tecnologia, contemplando, então, um pensamento crítico que envolva relações específicas entre as tecnologias e os cuidados de enfermagem e práticas do cuidado em saúde(6).

O enfermeiro, ao reconhecer o mundo material, que no cuidado de enfermagem em terapia intensiva acontece em interface com as tecnologias duras, avançará significativamente rumo ao conhecimento científico que delas decorrem, o que lhe permitirá, status de igualdade na equipe de saúde, ao discutir tanto as indicações e contra-indicações quanto o mau uso das tecnologias, visualizando possíveis intercorrências com muito mais propriedade, o que implicará aumento da qualidade do cuidado ao doente crítico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Espera-se que com estas reflexões possam-se minimizar as arestas que permeiam os ambientes tecnologizados como o da terapia intensiva e as concepções de cuidado de enfermagem que, necessariamente, neste campo do cuidado em saúde, envolve o uso de máquinas e equipamentos que oferecem suporte avançado à vida.

A instrumentalização do enfermeiro com conhecimentos específicos, acerca da utilização, riscos e benefícios do uso das tecnologias duras, no cuidado de enfermagem ao doente crítico, constituem-se em elementos essenciais que determinam não um cuidado de qualidade e isento de riscos evitáveis, mas, principalmente, mais humanizado.

Assim como o toque, o apoio emocional, dentre outros elementos essenciais no trabalho vivo em ato do enfermeiro em terapia intensiva, o conhecimento da melhor utilização dos aparatos tecnológicos determinam, também, ações mais humanizadas com aquele ser humano que depende de tecnologias duras para continuar vivendo. O desafio maior instigado nestas reflexões é mobilizar, nos trabalhadores da saúde, em especial nos enfermeiros, a necessidade de tecnologia e cuidado serem construídos socialmente como instâncias que se complementam e se interligam com o mesmo objetivo de defesa da vida, independentemente do desfecho final.


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