Perspectivas filosóficas do uso da tecnologia no cuidado de enfermagem em
terapia intensiva
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento e as transformações históricas experimentadas pelas
sociedades contam entre as suas causas e efeitos os desenvolvimentos da
tecnociência(1). O contexto do cuidado à enfermagem/saúde vem sendo
sistematicamente influenciado por estas mudanças produzidas no âmbito da
tecnologia o que tem gerado diversas inquietações e indagações acerca dos
benefícios, riscos e das relações construídas entre trabalhadores, doentes e a
utilização de tecnologias como instrumentos imprescindíveis ao cuidado de
enfermagem/saúde. Principalmente nas unidades de terapia intensiva, o cuidado
ao doente crítico envolve a utilização de um arsenal tecnológico específico e
que exige, especialmente dos enfermeiros, conhecimentos e habilidades tanto no
que se refere à operacionalização de máquinas quanto a sua adequação às
necessidades de quem depende dela.
Porém, observa-se que, diversas vezes, a apropriação do conhecimento do
enfermeiro nesta área não contempla reflexões que considerem que o cuidado ao
doente em terapia intensiva inclui inevitavelmente, também, o cuidado com as
máquinas. Esse cuidado, além de contemplar a manutenção do estado de seu
funcionamento precisa, principalmente, envolver as relações que se estabelecem
entre elas, o enfermeiro, o doente e o ambiente de cuidado. Essa função
relacional, quando bem trabalhada, por meio dos conhecimentos do enfermeiro
junto ao doente torna a situação mais aceitável e com maior probabilidade de
efeitos terapêuticos satisfatórios.
As reflexões deste artigo emergiram de conhecimentos construídos e produzidos
na disciplina de Filosofia da Ciência, da Saúde e da Enfermagem do Curso de
Doutorado em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Busca-se
refletir sobre o uso da tecnologia no cuidado de enfermagem ao doente crítico
em terapia intensiva.
A FILOSOFIA DA TECNOLOGIA E A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM ENFERMAGEM
O desenvolvimento tecnológico tem sido uma busca constante do ser humano, desde
os tempos mais remotos, e que, sistematicamente, vem determinando não só a sua
sobrevivência na Terra como também a sua capacidade de dominação e
transformação. A descoberta do fogo, a invenção da roda até os instrumentos
tecnológicos mais avançados, que facilitam a vida humana na atualidade,
exemplificam esta evolução tecnológica pretendida e conquistada.
A ciência contribui, inegavelmente, para que o desenvolvimento tecnológico
aconteça, sendo a Revolução Científica ocorrida nos séculos XVI e XVII o marco
mais importante destas transformações, pois a visão do mundo medieval, que se
baseava na filosofia aristotélica e na teologia cristã, mudou
consideravelmente. A ideia de um universo orgânico, vivo e espiritual foi
substituído pela noção de mundo como uma máquina e a máquina do mundo tornou-se
a metáfora dominante da era moderna. Essas mudanças sensíveis foram realizadas
pelas novas descobertas da Física, Astronomia e Matemática e associadas aos
nomes de Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon e Newton(2).
O paradigma dominante pautado no domínio das ciências naturais firmou-se como
sendo todo o conhecimento advindo de princípios epistemológicos com regras
metodológicas. Salienta-se, então, o desenvolvimento da Matemática como sendo o
pilar da lógica da ciência moderna, ou seja, só possuía relevância científica o
que poderia ser quantificado, produzindo um rompimento importante entre ciência
e senso comum(3). Assim, o pensamento científico moderno baseia-se na ideia de
demonstração e prova e, nesse sentido, a ciência pauta-se no uso de
instrumentos tecnológicos e não simplesmente aparelhos técnicos. Desse modo:
Os instrumentos técnicos são prolongamentos de capacidades do corpo humano e
destinam-se a aumentá-las na relação de nosso corpo com o mundo. Os
instrumentos tecnológicos são ciências cristalizadas em objetos materiais, nada
possuem em comum com as capacidades e aptidões do corpo humano [...] A
tecnologia confere à ciência precisão e controle dos resultados(4)...
A associação entre tecnologia e ciências da saúde nasce em um momento histórico
caracterizado por profundas transformações econômicas e sociais, além de
mudanças epistemológicas. A Revolução Industrial e a Segunda Guerra Mundial
uniram ciência e tecnologia, passando-se ao uso de equipamentos cada vez mais
sofisticados, em diversas áreas do conhecimento.
Especialmente no século XX, o conhecimento detalhado das funções biológicas em
níveis celulares e moleculares e o desenvolvimento de antibióticos alavancaram
áreas da Medicina como a cirurgia e a anestesiologia, através da utilização de
novas tecnologias que oportunizaram manter os processos fisiológicos normais,
mesmo durante prolongadas intervenções cirúrgicas(5).
Dessa forma, todo o avanço científico e tecnológico promoveu a ascensão e
desenvolvimento de diversos campos do conhecimento, o que também produziu e vem
produzindo diversas indagações sobre as reais contribuições dessas
transformações para a conquista da felicidade humana. Assim, faz-se necessário
que ocorra a aproximação entre as concepções do que hoje significa ciência com
os questionamentos e princípios das condições e contextos sociais, onde estas
transformações operam, de forma a produzirem reflexão epistemológica. Nesta
perspectiva, a filosofia da tecnologia busca interpretar os fenômenos
contemporâneos à luz da praxis, abordando os desafios que enfatizam reflexões
filosóficas e críticas à tecnologia, visualizando-a como mais do que um
instrumento fim em si mesmo ou um instrumento neutro(6).
A exclusão da neutralidade da técnica - entendida aqui tanto como universo dos
meios (tecnologias) quanto a racionalidade que orienta o seu emprego - baseia-
se na ideia de que ela cria um mundo com determinadas características que o ser
humano não pode deixar de habitar e que, ao habitá-lo, assume hábitos que,
inevitavelmente, os transforma(7). Essas transformações operadas pela
tecnologia podem ser (re)pensadas e fundamentadas à luz da filosofia, na busca
por compreender os imperativos morais e éticos que envolvem o seu uso e o seu
potencial de influenciar na vida humana.
Especialmente na área da saúde, a filosofia da tecnologia pode auxiliar
enfermeiros e outros profissionais a abordar questões relacionadas a direitos
individuais, decisões sobre meios e fins e esclarecimento de valores(6). A
Bioética, nascida na década de 1970, vem se preocupando com o avanço
tecnológico, sua influência sobre a qualidade de vida das pessoas e os riscos
que podem influenciar a continuidade da vida na Terra, concebida como valor
pelos quais todos os seres humanos são responsáveis(8).
A tecnologia e suas interfaces com a Enfermagem, às vezes, distanciam-se da
premente necessidade de reflexão, apesar de testemunhar desenvolvimentos
significativos na tecnologia e na ciência. Mas, torna-se importante reconhecer
que os enfermeiros sempre usaram ferramentas e técnicas para alcançar metas
válidas. O rápido crescimento da tecnociência e delegação de tarefas para esses
profissionais incentivaram a introdução de tecnologias sofisticadas, tornando-
as objeto de reflexão com o desenvolvimento das teorias de enfermagem, na
década de 60(6).
Emerge, assim, a necessidade de (re)examinar as relações entre a enfermagem e a
tecnologia, não apenas na perspectiva de uma ação instrumental, mas, também,
sob a ótica das humanidades que enfatizam a sociedade, as culturas e a
experiência humana, exigindo um tipo de pensamento tecnológico que procura
examinar a ambivalência, em relação à tecnologia, com referência específica à
sua manifestação como uma força objetiva e material e como uma entidade
socialmente construída(6). O cuidado de enfermagem está intimamente interligado
à tecnologia, tendo em vista que os profissionais da enfermagem estão
comprometidos com princípios, leis e teorias e a tecnologia representa esse
conhecimento científico e sua própria transformação(9).
Diante do exposto, se faz necessário pensar nestas interconexões entre o
cuidado de enfermagem/saúde e a tecnologia. Especialmente, em situações
críticas da vida, como aquelas experimentadas nos ambientes de terapia
intensiva, buscando-se compreender que não acontecem de forma isolada, mas
interdependentes e interconectados.
O cuidado de enfermagem em terapia intensiva: (re)pensando as tecnologias duras
como um "estar com" a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) constitui-se em um
ambiente destinado ao tratamento de doentes graves, críticos, que necessitam de
cuidados complexos e monitoramento contínuo. Este ambiente, cada vez mais
repleto de aparatos tecnológicos, vem permitindo aos trabalhadores de saúde
maior controle das situações de risco, rapidez nas tomadas de decisões e
agilidade no desempenho de ações mais efetivas em situações críticas.
Dessa forma, a UTI representa o local onde se acentua o uso da tecnologia e,
também, as implicações que dele decorrem, mas que, inegavelmente, oferece
melhores condições para quem trabalha e aumento da qualidade da assistência
para aqueles que são cuidados.
O uso das tecnologias na área da saúde, em especial pelo enfermeiro, necessita
ser expandido, não significando apenas a incorporação de equipamentos no
cuidado. As tecnologias podem ser classificadas em três dimensões: a -
Tecnologias leves, aquelas de caráter relacional baseada na comunicação e no
acolhimento e que acontece no momento de encontro com o ser cuidado e objetiva
o estabelecimento de vínculos e a autonomização; b - Tecnologias leves-duras
referem-se aos saberes estruturados que operam na área da saúde como a
epidemiologia, a clínica, dentre outras; c - Tecnologias duras, representadas
pelos equipamentos e máquinas, material concreto utilizado no ato de cuidado em
saúde(10) e na enfermagem.
Nesta perspectiva, o cuidado de enfermagem permeia e busca a harmonização entre
estas três dimensões da tecnologia, porém, sabe-se que, na atenção ao doente
crítico, o uso das tecnologias duras é determinante para a qualidade do
cuidado, exigindo conhecimento técnico especializado, por parte de todos os
cuidadores envolvidos. Neste sentido, não se pretende negar as demais dimensões
tecnológicas, mas compreender que o nível de exigência, em termos de cuidados
de saúde, determina o seu maior ou menor uso.
A compreensão do cuidado de enfermagem como um constructo complexo, com
diferentes dimensões, permite refletir que ele é humano, ainda que tenha que se
apropriar de tecnologias duras, ou seja, de máquinas para ser realizado(11). O
discurso de humanização, que permeia as ações em saúde, tem relegado à terapia
intensiva e, consequentemente, aos profissionais que nela atuam, um rótulo de
frieza e imparcialidade, considerando serem incapazes de demonstrarem afeto
pelo doente e pela família(12), como se todos que operam os cuidados nessa
área, o fazem sob a ótica das máquinas e não do ser humano que esta sendo
cuidado.
Indiscutivelmente, as máquinas constituem a alma, ou seja, a "espinha dorsal"
das unidades de terapia intensiva(11), pois são elas que garantem o suporte
avançado de vida pretendido ao doente em estado crítico e, portanto, é
impossível pensar nessas unidades sem os devidos aparatos tecnológicos ou
tecnologias duras. Diante do exposto, cabe aos profissionais de saúde, em
especial aos enfermeiros, refletirem: como as tecnologias duras podem
representar um estar com o doente crítico? Talvez, uma das respostas mais
apropriadas a esta indagação seja abandonar a ideia de que, quando se cuida da
máquina, se abandona ou deixa-se de ver quem, de certa forma, depende dela, ou
seja, cuidar de máquinas não é um discurso teórico-prático tão absurdo, pois,
se elas, em muitos casos, mantêm o cliente vivo, isso só é possível porque
direta ou indiretamente cuidamos delas também. Programar as máquinas, bem como
ajustar seus parâmetros e alarmes e supervisionar seu funcionamento são para
nós exemplos de cuidado para com elas e com os clientes que delas se beneficiam
(11).
Pensar o impacto das tecnologias duras na prática de enfermagem necessita
compreender que é essencial um equilíbrio entre estas tecnologias e a atuação
verdadeira do enfermeiro, assegurando o papel desses profissionais no cuidado
ao doente crítico. Assim, o que determina se uma tecnologia desumaniza o
cuidado de enfermagem não é a tecnologia por si só, mas, principalmente, sua
forma de influenciar os indivíduos e os significados atribuídos às definições
do que é humano, dentro de cada cultura.
O cuidado humano é uma realidade construída socialmente, assim como a
tecnologia(13). Dessa forma, se cuidado e tecnologia são socialmente
construídos, é necessário que o enfermeiro: estabeleça novas relações entre
estas instâncias; busque a harmonização entre o cuidado com a tecnologia dura e
com o doente crítico; visualize o humano, através da máquina, porém, sem perder
a dimensão de que esta tecnologia não possui senso crítico e que, em diversas
vezes, ela pode não estar desvelando o que verdadeiramente está acontecendo com
o doente/ser humano.
É preciso entender que os aparatos tecnológicos na terapia intensiva
constituem-se, diversas vezes, em meios de comunicação entre o doente crítico e
a equipe de saúde e com a família, pois, por meio deles, é que se identificam
situações de risco, sendo, também, uma forma da família reconhecer,
principalmente por meio da monitorização contínua, a evolução dos sinais vitais
que o doente apresenta.
A tecnologia dura não se opõe ao contato humano. É um agente e um objeto desse
encontro. Ela pode humanizar até os ambientes mais tecnologizados(13) como a
terapia intensiva, desde que visualizada como algo que permeia o humano, em
momentos singulares e críticos.
Dessa forma, a máquina constitui-se na extensão do próprio ser humano e, mesmo
sem fazer parte de sua essência, é ela que, em muitos momentos, determina sua
própria existência. Assim, cuidado e tecnologia dura se aproximam,
inevitavelmente, permitindo que as ações de enfermagem tidas como um trabalho
vivo em ato, sistematizadas e pautadas em conhecimento científico voltem-se
para a manutenção da vida das pessoas, proporcionando conforto e bem-estar,
contribuindo para a recuperação da saúde ou para uma morte digna e tranquila
(9).
Nesta perspectiva, considera-se que as habilidades a serem desenvolvidas pelo
enfermeiro no cuidado ao doente crítico, dependente de tecnologias duras,
inclui não só o uso de equipamentos, mas sua regulagem e a desinfecção
adequada, dentre outros, além da implantação de protocolos que otimizem e
contribuam na relação custo-eficiência e que, principalmente, contemplem um
cuidado de enfermagem humanizado(14). Assim, a tecnologia deve e precisa estar
a serviço da humanidade e presente, especialmente, no ambiente da terapia
intensiva. Portanto, carece de ser dominada pelos trabalhadores da saúde, em
especial os enfermeiros, como garantia de seu uso seguro e eficaz, sem gerar
estresse para quem depende dela ou para quem a opera, possibilitando que os
valores humanitários sobreponham-se às práticas essencialmente tecnicistas(15).
Assim, a filosofia da tecnologia pode constituir-se em um elemento essencial a
esta reflexão, pois permite analisar tanto os desafios cada vez mais presentes
no cuidado em saúde quanto aqueles desafios relacionados a questões de vida e
morte, crenças, ideias e práticas em constante mudança. Neste sentido, a
reflexão filosófica, acerca do uso da tecnologia, especialmente na terapia
intensiva, busca encontrar o equilíbrio entre perspectivas utópicas e não
irreais, que caracterizam grande parte da literatura de enfermagem. Ou seja,
análises mais particulares, específicas e refinadas são exigidas, que dependam
menos de generalizações sobre a desumanização, alienação ou celebração acrítica
da tecnologia, contemplando, então, um pensamento crítico que envolva relações
específicas entre as tecnologias e os cuidados de enfermagem e práticas do
cuidado em saúde(6).
O enfermeiro, ao reconhecer o mundo material, que no cuidado de enfermagem em
terapia intensiva acontece em interface com as tecnologias duras, avançará
significativamente rumo ao conhecimento científico que delas decorrem, o que
lhe permitirá, status de igualdade na equipe de saúde, ao discutir tanto as
indicações e contra-indicações quanto o mau uso das tecnologias, visualizando
possíveis intercorrências com muito mais propriedade, o que implicará aumento
da qualidade do cuidado ao doente crítico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Espera-se que com estas reflexões possam-se minimizar as arestas que permeiam
os ambientes tecnologizados como o da terapia intensiva e as concepções de
cuidado de enfermagem que, necessariamente, neste campo do cuidado em saúde,
envolve o uso de máquinas e equipamentos que oferecem suporte avançado à vida.
A instrumentalização do enfermeiro com conhecimentos específicos, acerca da
utilização, riscos e benefícios do uso das tecnologias duras, no cuidado de
enfermagem ao doente crítico, constituem-se em elementos essenciais que
determinam não só um cuidado de qualidade e isento de riscos evitáveis, mas,
principalmente, mais humanizado.
Assim como o toque, o apoio emocional, dentre outros elementos essenciais no
trabalho vivo em ato do enfermeiro em terapia intensiva, o conhecimento da
melhor utilização dos aparatos tecnológicos determinam, também, ações mais
humanizadas com aquele ser humano que depende de tecnologias duras para
continuar vivendo. O desafio maior instigado nestas reflexões é mobilizar, nos
trabalhadores da saúde, em especial nos enfermeiros, a necessidade de
tecnologia e cuidado serem construídos socialmente como instâncias que se
complementam e se interligam com o mesmo objetivo de defesa da vida,
independentemente do desfecho final.