Disgeusia: a propósito de um caso clínico
Introdução
Alterações na função gustativa, quer transitórias quer permanentes, podem ter
consequências importantes para o quotidiano dos indivíduos, estando
relacionadas com alterações ponderais e quadros depressivos.1-2 Atualmente são
descritos cinco tipos de sensações gustativas: o doce, o amargo, o salgado, o
ácido e o umami. A informação gustativa é transmitida superiormente, não só,
mas significativamente através do nervo glossofaríngeo.
A amigdalectomia é, na atualidade, a cirurgia mais frequente do foro
otorrinolaringológico, nos EUA, Europa e Japão. Está mais frequentemente
indicada em doentes com amigdalites de repetição (sete episódios por ano ou
cinco episódios em dois anos consecutivos), amigdalite crónica não responsiva
ao tratamento médico e abcessos peri-amigdalinos com complicações. Apesar de
ser considerada um procedimento de baixa complexidade, tem associados riscos e
complicações como qualquer cirurgia. A hemorragia, odinofagia, infeção, danos
dentários, otalgia, náuseas e vómitos são os mais comuns. A alteração do gosto,
por seu lado, encontra-se entre os menos reportados. Sendo parca a incidência
descrita na literatura, as alterações gustativas no período pós cirúrgico pode
atingir os 8%; no entanto, menos de 1% permanece a longo prazo. Esta pode ser
temporária ou definitiva, parcial (hipogeusia) ou total (ageusia) ou gosto
fantasma que está presente na ausência de estímulo gustativo (fantogeusia/
alucinações gustativas).3-5
A avaliação da alteração gustativa pode ser feita por vários métodos, incluindo
a eletrogustometria e a gustometria química por tiras teste.6
Descrição do caso
Doente do sexo feminino, 38 anos, com história pessoal de β-talassémia minor,
pré-eclampsia com edema cerebral e amigdalite crónica bilateral. Realiza ami-
gdalectomia por lâmina fria e eletrocauterização de pontos hemorrágicos da loca
amigdalina. Não foram relatadas complicações cirúrgicas. Duas semanas após
cirurgia, na consulta de seguimento pós-cirurgia em ORL, refere alteração do
gosto caracterizada pela não discriminação dos gostos, parecendo-lhe tudo
amargo.
Seis meses após início do quadro, em nova consulta de seguimento hospitalar,
efetuou-se avaliação gustométrica por tiras teste.
A gustometria química por tiras teste baseia-se na aplicação de tiras teste
impregnadas com cada um dos quatro gostos (ácido, amargo, doce, salgado) em
quatro diferentes concentrações padronizadas. Este protocolo de avaliação não
contempla o umami por não terem obtido resultados com a população teste. As
tiras são colocadas no lado direito e/ou esquerdo da língua, no terço anterior
da língua em extensão, somando um total de 32 testes. Com a língua ainda em
extensão, o doente tem de identificar o gosto da tira teste, escolhendo um dos
quatro gostos obrigatoriamente.2
Aplicando o protocolo de gustometria com tiras teste,1 obtivemos as alterações
descritas no Quadro_I.
A doente apresentava alterações na discriminação gustativa, em que para todos
os gostos confundia o gosto testado pelo amargo, com predomínio nas tiras de
baixa concentração. De notar que em cinco das oito tiras controlo foi referido
o gosto amargo. A doente fez reabilitação gustativa, em que diariamente provava
os quatro tipos de gosto em causa, fazendo associação mental com a sensorial.
Repetiu-se a avaliação gustométrica 10 meses após cirurgia (Quadro_II).
A disgeusia mantém-se, embora seletivamente para o salgado – amargo. Refere
ainda que a família se queixa que ela abusa muito do sal quando cozinha, o que
vai ao encontro aos resultados encontrados na gustometria, visto só conseguir
discriminar o salgado para concentrações elevadas.
Atualmente não há tratamento para a disgeusia secundária a cirurgia. Os casos
reportados na literatura observaram uma evolução benigna, sem contudo
diferenciarem as várias qualidades de gosto. Esta doente teve uma evolução
benigna em menos de dois anos. De facto, comparando este relato de caso com
outros semelhantes existentes, verificamos uma melhoria significativa em menos
tempo que os habituais dois anos. Este facto pode ser atribuído à reabilitação
gustativa diária iniciada em consulta de seguimento em ORL e posteriormente
feita pela doente em casa. A doente fez provas gustativas várias vezes por dia,
juntamente com associação mental com a perceção sensorial. Durante todo o
processo de recuperação, embora soubesse dos riscos cirúrgicos, a doente nunca
pensou que a sua alteração do paladar pudesse ter um impacto tão grande na sua
vida. E reconhece que, quando se deparou com esta dificuldade, foi difícil
aceitar a sua condição, particularmente pelo facto de a mesma poder ser
definitiva.
Comentário
A digeusia é uma complicação rara da amigdalectomia, mas de elevada importância
para o doente.
Muitos são os fatores que podem causar disgeusia num doente; podem ser fatores
locais, sistémicos ou fármacos, como é representado no Quadro_III.
O ramo lingual do nervo glossofaríngeo dista 2-4mm do pólo inferior da amígdala
palatina7 e, em 21,5% dos casos, este está fortemente aderente à cápsula
amigdalina.3,7 Este é um dos responsáveis pela transmissão sensorial gustativa,
juntamente com o nervo da corda do tímpano e grande petroso superficial.8
A amigdalectomia pode afetar este ramo, direta (laceração, descontinuação) ou
indiretamente (dano térmico por cauterização, compressão), afetando a perceção
gustativa do doente.4,7
Atualmente não há guidelines baseadas na evidência para o diagnóstico. No
entanto, importa não esquecer que é importante esclarecer a causa da alteração
do gosto, pois podemos estar perante uma doença sistémica potencialmente
tratável ou precocemente diagnosticável. Devemos ter consciência de que o gosto
alterado do doente influenciará a sua qualidade de vida e o seu dia-a-dia,
podendo culminar em distúrbios alimentares/nutricionais e mesmo do foro
psiquiátrico.3,5,7
Os casos de disgeusia pós amigdalectomia estão subreportados. Apresentam uma
evolução relativamente rápida (disgeusia de curta duração) com recuperação
completa em poucas semanas e sem tratamento. Há, no entanto, uma pequena
percentagem de casos que mantém a sua alteração gustativa até dois anos após
cirurgia.8 Este é um desses raros casos de disgeusia de longa duração.
Nos cuidados de saúde primários, as queixas de alterações gustativas são
queixas vagas e sem relação aparentemente lógica com outras patologias, pelo
que são facilmente negligenciadas na consulta. Este é um problema para o qual
os médicos de família estão pouco alertados, dada a reduzida produção na
literatura acerca deste tema, nomeadamente os relatos de caso. É importante a
descrição destas situações. Atualmente não existem dados relativos à
incidência/prevalência das alterações do paladar em cuidados de saúde primários
em Portugal.
A maioria das alterações gustativas tem uma evolução benigna. No entanto, a
avaliação do doente não deve ser descuidada, nem tão pouco desvalorizadas as
suas queixas.8 Cabe-nos a nós estar atentos e ter um papel ativo na
valorização, avaliação, orientação e tratamento das alterações do paladar,
entre elas a disgeusia.