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EuPTCVHe2182-51732015000400007

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN2182-5173
Year2015
Issue0004
Article number00007

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Disgeusia: a propósito de um caso clínico

Introdução Alterações na função gustativa, quer transitórias quer permanentes, podem ter consequências importantes para o quotidiano dos indivíduos, estando relacionadas com alterações ponderais e quadros depressivos.1-2 Atualmente são descritos cinco tipos de sensações gustativas: o doce, o amargo, o salgado, o ácido e o umami. A informação gustativa é transmitida superiormente, não , mas significativamente através do nervo glossofaríngeo.

A amigdalectomia é, na atualidade, a cirurgia mais frequente do foro otorrinolaringológico, nos EUA, Europa e Japão. Está mais frequentemente indicada em doentes com amigdalites de repetição (sete episódios por ano ou cinco episódios em dois anos consecutivos), amigdalite crónica não responsiva ao tratamento médico e abcessos peri-amigdalinos com complicações. Apesar de ser considerada um procedimento de baixa complexidade, tem associados riscos e complicações como qualquer cirurgia. A hemorragia, odinofagia, infeção, danos dentários, otalgia, náuseas e vómitos são os mais comuns. A alteração do gosto, por seu lado, encontra-se entre os menos reportados. Sendo parca a incidência descrita na literatura, as alterações gustativas no período pós cirúrgico pode atingir os 8%; no entanto, menos de 1% permanece a longo prazo. Esta pode ser temporária ou definitiva, parcial (hipogeusia) ou total (ageusia) ou gosto fantasma que está presente na ausência de estímulo gustativo (fantogeusia/ alucinações gustativas).3-5 A avaliação da alteração gustativa pode ser feita por vários métodos, incluindo a eletrogustometria e a gustometria química por tiras teste.6 Descrição do caso Doente do sexo feminino, 38 anos, com história pessoal de β-talassémia minor, pré-eclampsia com edema cerebral e amigdalite crónica bilateral. Realiza ami- gdalectomia por lâmina fria e eletrocauterização de pontos hemorrágicos da loca amigdalina. Não foram relatadas complicações cirúrgicas. Duas semanas após cirurgia, na consulta de seguimento pós-cirurgia em ORL, refere alteração do gosto caracterizada pela não discriminação dos gostos, parecendo-lhe tudo amargo.

Seis meses após início do quadro, em nova consulta de seguimento hospitalar, efetuou-se avaliação gustométrica por tiras teste.

A gustometria química por tiras teste baseia-se na aplicação de tiras teste impregnadas com cada um dos quatro gostos (ácido, amargo, doce, salgado) em quatro diferentes concentrações padronizadas. Este protocolo de avaliação não contempla o umami por não terem obtido resultados com a população teste. As tiras são colocadas no lado direito e/ou esquerdo da língua, no terço anterior da língua em extensão, somando um total de 32 testes. Com a língua ainda em extensão, o doente tem de identificar o gosto da tira teste, escolhendo um dos quatro gostos obrigatoriamente.2 Aplicando o protocolo de gustometria com tiras teste,1 obtivemos as alterações descritas no Quadro_I.

A doente apresentava alterações na discriminação gustativa, em que para todos os gostos confundia o gosto testado pelo amargo, com predomínio nas tiras de baixa concentração. De notar que em cinco das oito tiras controlo foi referido o gosto amargo. A doente fez reabilitação gustativa, em que diariamente provava os quatro tipos de gosto em causa, fazendo associação mental com a sensorial.

Repetiu-se a avaliação gustométrica 10 meses após cirurgia (Quadro_II).

A disgeusia mantém-se, embora seletivamente para o salgado amargo. Refere ainda que a família se queixa que ela abusa muito do sal quando cozinha, o que vai ao encontro aos resultados encontrados na gustometria, visto conseguir discriminar o salgado para concentrações elevadas.

Atualmente não tratamento para a disgeusia secundária a cirurgia. Os casos reportados na literatura observaram uma evolução benigna, sem contudo diferenciarem as várias qualidades de gosto. Esta doente teve uma evolução benigna em menos de dois anos. De facto, comparando este relato de caso com outros semelhantes existentes, verificamos uma melhoria significativa em menos tempo que os habituais dois anos. Este facto pode ser atribuído à reabilitação gustativa diária iniciada em consulta de seguimento em ORL e posteriormente feita pela doente em casa. A doente fez provas gustativas várias vezes por dia, juntamente com associação mental com a perceção sensorial. Durante todo o processo de recuperação, embora soubesse dos riscos cirúrgicos, a doente nunca pensou que a sua alteração do paladar pudesse ter um impacto tão grande na sua vida. E reconhece que, quando se deparou com esta dificuldade, foi difícil aceitar a sua condição, particularmente pelo facto de a mesma poder ser definitiva.

Comentário A digeusia é uma complicação rara da amigdalectomia, mas de elevada importância para o doente.

Muitos são os fatores que podem causar disgeusia num doente; podem ser fatores locais, sistémicos ou fármacos, como é representado no Quadro_III.

O ramo lingual do nervo glossofaríngeo dista 2-4mm do pólo inferior da amígdala palatina7 e, em 21,5% dos casos, este está fortemente aderente à cápsula amigdalina.3,7 Este é um dos responsáveis pela transmissão sensorial gustativa, juntamente com o nervo da corda do tímpano e grande petroso superficial.8 A amigdalectomia pode afetar este ramo, direta (laceração, descontinuação) ou indiretamente (dano térmico por cauterização, compressão), afetando a perceção gustativa do doente.4,7 Atualmente não guidelines baseadas na evidência para o diagnóstico. No entanto, importa não esquecer que é importante esclarecer a causa da alteração do gosto, pois podemos estar perante uma doença sistémica potencialmente tratável ou precocemente diagnosticável. Devemos ter consciência de que o gosto alterado do doente influenciará a sua qualidade de vida e o seu dia-a-dia, podendo culminar em distúrbios alimentares/nutricionais e mesmo do foro psiquiátrico.3,5,7 Os casos de disgeusia pós amigdalectomia estão subreportados. Apresentam uma evolução relativamente rápida (disgeusia de curta duração) com recuperação completa em poucas semanas e sem tratamento. , no entanto, uma pequena percentagem de casos que mantém a sua alteração gustativa até dois anos após cirurgia.8 Este é um desses raros casos de disgeusia de longa duração.

Nos cuidados de saúde primários, as queixas de alterações gustativas são queixas vagas e sem relação aparentemente lógica com outras patologias, pelo que são facilmente negligenciadas na consulta. Este é um problema para o qual os médicos de família estão pouco alertados, dada a reduzida produção na literatura acerca deste tema, nomeadamente os relatos de caso. É importante a descrição destas situações. Atualmente não existem dados relativos à incidência/prevalência das alterações do paladar em cuidados de saúde primários em Portugal.

A maioria das alterações gustativas tem uma evolução benigna. No entanto, a avaliação do doente não deve ser descuidada, nem tão pouco desvalorizadas as suas queixas.8 Cabe-nos a nós estar atentos e ter um papel ativo na valorização, avaliação, orientação e tratamento das alterações do paladar, entre elas a disgeusia.


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