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EuPTCVHe1646-706X2015000400008

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-706X
Year2015
Issue0004
Article number00008

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Enfarte e abcesso esplénico maciço após tratamento endovascular de aneurisma da artéria esplénica

Introdução Os aneurismas da artéria esplénica são raros e a melhor forma de tratamento é controversa. A abordagem conservadora parece segura nos aneurismas < 2 cm.

Quando é decidido intervir, a abordagem endovascular mostra resultados de eficácia e segurança superiores à cirurgia convencional. No entanto, o número de complicações tardias parece superior após tratamento endovascular. Dentro das complicações após procedimento estão o enfarte e abcesso esplénico que, apesar de não ter mortalidade associada descrita, leva a reinternamentos, reintervenções e a um aumento significativo da morbilidade do paciente.

Objetivo Apresentação de um caso clínico de tratamento endovascular de aneurisma da artéria esplénica complicado de enfarte e abcesso esplénico.

Caso clínico Homem, 68 anos, com antecedentes de hipertensão arterial e doença renal crónica. Enviado à consulta de cirurgia vascular por aneurisma da artéria esplénica com 25 mm de diâmetro (fig._1), assintomático, detetado por tomografia computorizada (TC) (realizada durante investigação de doença renal). Pelo diâmetro do aneurisma e pelo risco de rotura associado, foi proposto para tratamento endovascular do aneurisma.

Admitido eletivamente no internamento de cirurgia vascular, foi submetido a embolização com coils (Retracta, COOK®)do saco aneurismático (8*100 mm) e da artéria aferente (3 × 7*50 mm), após tentativa não conseguida de colocação de endoprótese, por impossibilidade de ancoragem do fio guia na artéria eferente.

Após embolização, o controlo angiográfico final demonstrou exclusão do saco aneurismático. (fig._2)

No 3.◦dia de pós-operatório iniciou hipertermia de 37,4◦, atingindo máximo de 38◦, associada a dor no flanco esquerdo, sem sinais de irritação peritoneal.

Instituiu-se antibioterapia empírica com amoxicilina/clavulanato, e realizou TC que documentou embolização da artéria esplénica, a cerca de 4 cm a montante do aneurisma, com coilsno seu lúmen e trombose da artéria esplénica a jusante do aneurisma com sinais de enfarte esplénico (fig._3). Foi instituída escalada de antibiótico para piperacilina/tazobactam, fluidoterapia e vigilância clínica.

Colheu sangue periférico para hemoculturas, cujo resultado foi negativo. Após 7 dias de antibiótico em regime de internamento, teve alta, assintomático e com indicação para vacinação antipneumocócica, antimeningocócica e anti-Haemophilus tipo b.

Três meses após o procedimento, período em que se manteve assintomático, deu entrada no serviço de urgência por dispneia e febre. Analiticamente, apresentava leucocitose de 28.300 e PCR 149. Realizou TC que documentou volumoso abcesso esplénico, de 15,6 mm por 24,7 mm (fig._4).

Procedeu-se a drenagem percutânea de abcesso esplênico com saída de 1.100 ml de líquido purulento (fig._5), com colocação de dreno 8 Fr por técnica de Seldingere iniciou antibioterapia com piperacilina/tazobactam, à qual se adicionou mais tarde vancomicina, de acordo com a sensibilidade do micro- organismo isolado (Staphylococcus epidermidis).

Documentou-se melhoria clínica e analítica imediatamente após colocação de dreno.

Durante o internamento evoluiu com regressão lenta, mas progressiva, da coleção e, 49 dias depois da admissão, após constatação ecográfica de coleção de aspeto residual, foi removido o dreno. No entanto, o doente não tolerou esta interrupção da drenagem e registou-se novo aumento dos parâmetros inflamatórios, tendo sido necessária colocação de novo dreno. Apesar da estabilidade clínica e analítica do doente com a drenagem percutânea, face à perpetuação do caso, ao 62.◦dia de internamento foi submetido a esplenectomia e drenagem cirúrgica do abcesso. A microbiologia do pus revelou Pseudomonas aeruginosaapenas sensível ao imipenem e colistina, exigindo novo ajuste na antibioterapia. Como intercorrência pós-operatória, documentou-se a presença de uma fístula pancreática, pelo que iniciou nutrição parentérica total. Duas semanas após esplenectomia, foi registado novo aumento dos parâmetros inflamatórios e repetiu controlo imagiológico com documentação de crescimento do abcesso esplénico.

Nova amostra do líquido drenado foi enviada para análise microbiológica com isolamento de novo micro-organismo (Proteus mirabilis)mas sem necessidade de reajustar antibioterapia. A TC de controlo mostrou então: abcesso esplénico 62 x 27 mm, presença de tecido esplénico persistente, globosidade da cauda pancreática e aneurisma trombosado da artéria esplénica (fig._6).

Uma nova tentativa conservadora de drenar o abcesso foi feita com a construção de sistema de lavagem por 2 cateteres, após troca over-the-wiredo dreno Blake30 F, para Readyvac12F e Pigtail12 F.

No entanto, o abcesso manteve-se constante e os parâmetros inflamatórios sempre aumentados. Rediscutido com cirurgia geral, foi protelada nova intervenção cirúrgica por possível iatrogenia intraoperatória, dada a complexidade anatómica das estruturas que envolviam o abcesso.

O caso arrastou-se por mais 2 meses de internamento. Como intercorrências, o isolamento de Candida glabrataem sangue periférico, com necessidade de instituição de fluconazol, mais tarde substituída por micafungina, e a necessidade de transferência do doente para a unidade de cuidados intermédios por disfunção cardíaca, respiratória e renal associada a sépsis grave. Após estabilização clínica e analítica, e com a documentação imagiológica de diminuição do abcesso, doente foi submetido colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, por suspeita do abcesso estar a ser alimentado por fístula pancreática. Durante o procedimento, foi decidida a colocação de uma prótese reta 5 Fr com 5 cm de comprimento no ducto de Wirsung; procedimento decorreu sem intercorrências. Procedeu-se, mais tarde, ao encerramento do orifício externo da drenagem e interrompeu-se a antibioterapia. Última TC de controlo evidenciou: ausência de formações expansivas em topografia subfrénica esquerda, de conteúdo espontaneamente hipodenso ou com bolhas gasosas, sugestivas de abcesso (fig._7).

Manteve-se o doente 5 dias em vigilância, sem que os parâmetros inflamatórios aumentassem.

Após 142 dias de internamento, o doente teve alta, com bom estado clínico e estabilidade analítica. foi revisto 2 vezes em consulta externa num espaço de um mês, sem alteração do estado geral.

Discussão/conclusão Os aneurismas da artéria esplénica representam 60% de todos os aneurismas viscerais1e têm uma prevalência descrita de 0,8% em arteriografias e 0,04-0,10% em autópsias2. O seu risco de rotura é considerado elevado, estando descrito um risco de rotura 2-10% e uma mortalidade associada superior a 36%3.

As atuais indicações para o tratamento eletivo de aneurismas da artéria esplénica são a existência de sintomatologia associada (dor epigástrica, dor lombar ou dor no quadrante abdominal superior esquerdo), sexo feminino em idade fértil, hipertensão portal, transplante hepático previsto e aneurismas com diâmetro superior a 2,5 cm2. O tratamento conservador é considerado seguro para diâmetros inferiores, com 2 estudos a mostrar taxas de rotura de 0% em aneurismas < 2,17 cm e < 2,0 cm, respetivamente4,5. O aumento de fluxo sanguíneo na artéria esplénica durante a gravidez, na hipertensão portal e após transplante hepático aumentam o risco de formação e de risco de rotura dos aneurismas esplénicos6. Relativamente à indicação terapêutica em grávidas e mulheres em idade fértil, foi recentemente questionada por Nanez que, num estudo retrospetivo de 5 anos num dos hospitais com maior taxa de natalidade nos EUA, não identificou nenhum caso de rotura de aneurisma da artéria esplénica em grávidas7.

Relativamente à segurança da cirurgia endovascular face à clássica, uma revisão sistemática de todos os estudos que comparavam os resultados após terapêutica endovascular e cirurgia aberta mostrou taxas de mortalidade perioperatória inferior no grupo endovascular, mas maiores taxas de complicação tardia e de reintervenção, descritas na tabela_18.

Uma outra revisão da literatura, distinguindo tratamento eletivo e em rotura de aneurismas viscerais, mostrou uma mortalidade de 7,1% (18/353) no pós- operatório de cirurgia aberta (eletivos e em rotura) e de 3,6% (10/276) após terapia endovascular, sendo que no tratamento eletivo, esta diferença é de 2,38% (6/252) vs. 0% (0/163). Nenhum estudo revisto mostrou benefício da cirurgia endovascular relativamente às complicações pós-operatórias5.

Entre as raras complicações descritas da técnica endovascular estão: falência técnica em cateterizar a artéria aferente, trombose arterial ou embólica com enfarte esplénico e abcesso, migração de coils, recidiva de aneurisma e hematoma, e falso aneurisma no local de punção arterial.

Cochennec et al., num estudo retrospetivo de 10 anos comparando abordagem endovascular e cirúrgica de aneurismas viscerais, registaram uma menor taxa de complicações pós-operatórias após tratamento endovascular: 6,7% (1/15) vs.

23,5% (4/17); mas esta diferença não foi estatisticamente significativa (p = 0,34). A complicação após tratamento endovascular consistiu em síndrome de pós- embolização severo, com múltiplos enfartes esplénicos, tendo exigido readmissão para controlo da dor. Dos aneurismas eletivos não foi registada nenhuma rotura ou mortalidade em qualquer um dos procedimentos durante o período de follow-up (média 15,6 meses). Uma morte foi registada após embolização de aneurisma esplénico infetado em rotura (morte por choque séptico, uma semana após o procedimento). O tempo de internamento foi significativamente inferior no tratamento endovascular (4 dias vs. 17 dias, p < 0,001). Dos 17 aneurismas seguidos conservadoramente por diâmetro inferior a 2 cm, não houve registo de nenhuma complicação ou rotura5.

A taxa de enfarte esplénico após embolização de aneurisma da artéria esplénica pode atingir os 44%, como foi descrito por Yamamoto et al., com a descrição de enfarte esplénico parcial em 7 dos 16 doentes submetidos a embolização de aneurisma esplénico com coils9. No caso de embolização da artéria esplénica proximal, esta taxa sobe aos 63%10.

Apesar de frequentes, a maioria dos enfartes esplénicos resolve sem sequelas, com taxas descritas de evolução para abcesso de apenas 1,9%9. O tratamento inicial de enfarte esplénico consiste em hidratação, analgesia e monitorização, com resolução habitual dos sintomas em 714 dias. O tratamento cirúrgico está apenas indicado quando persistência dos sintomas ou complicações (abcesso, hemorragia, pseudoquisto esplénico)11.

O diagnóstico de abcesso esplénico obriga à instituição imediata de antibioterapia de largo espectro (que deverá depois ser dirigida de acordo com os isolamentos microbiológicos do abcesso) e o seu tratamento atual assenta em 2 opções terapêuticas: esplenectomia, modalidade histórica e considerada gold standard, e drenagem percutânea guiada por ecografia ou por TC. Esta última abordagem tem ganho maior ênfase nos últimos anos, dada a menor morbimortalidade a curto-prazo e a preservação do baço, com taxas de sucesso entre 50-90%. A incapacidade em obter uma drenagem eficaz ou melhoria clínica do doente é indicação para tratamento cirúrgico definitivo. A duração da antibioterapia não foi, ainda, estabelecida. Em casos de drenagem percutânea, a duração da antibioterapia deve ser adaptada à evolução clínica do paciente, incluindo a resolução do abcesso por exame imagiológico. Em caso de esplenectomia e erradicação confirmada do foco de infeção, pode ser possível uma interrupção mais breve da antibioterapia12.

Embora a taxa de enfarte e abcesso esplénico esteja descrita como rara, não deve ser desprezível a morbilidade a que ela está associada. Este caso é disso paradigma.

Responsabilidades éticas Proteção de pessoas e animais.Os autores declaram que para esta investigação não se realizaram experiências em seres humanos e/ou animais.

Confidencialidade dos dados.Os autores declaram que não aparecem dados de pacientes neste artigo.

Direito à privacidade e consentimento escrito.Os autores declaram que não aparecem dados de pacientes neste artigo.

Conflito de interesses Os autores declaram não haver conflito de interesses.


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