Avaliação de prejusízos causados pela Mosca-da-Azeitona, Bactrocera (daculus)
Oleae, na ilha Terceira, Açores
INTRODUÇÃO
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE, 2009), em 2007, a
cultura da oliveira ocupava a área de 379.616 ha em Portugal, destinada à
produção de azeite, registando a produção de 203.968 t. Desta área, 11.219 ha
produziram 8277 t de azeitona de mesa.
O Porto Martins é a única zona de Ilha Terceira com oliveiras. Esta área de
produção situa-se a Sudeste da Ilha. A produção destina-se, apenas, a azeitona
de mesa (Lopes et al ., 2009).
A mosca-da-azeitona (B. oleae ) é umas das principais pragas da oliveira em
Portugal, sendo considerada também um dos principais inimigos desta cultura na
Ilha Terceira. Esta praga tem quatro fases do seu desenvolvimento pós-
embrionário: ovo, larva (L1, L2, L3), pupa e adulto. A larva e o adulto causam
os mais elevados prejuízos, através do consumo de parte da polpa e da queda
prematura dos frutos (Bento, 1997; Bento et al ., 1997; Figueiredo, 2003; Lopes
et al. , 2008; 2009; 2010; Torres, 2007).
Em 2002, foi realizado o 1º estudo sobre os problemas fitossanitários da
oliveira, cuja produção se destinava unicamente a azeitona-de-mesa. As pragas
identificadas foram: mosca-da-azeitona, Bactrocera oleae (Gmelin), traça-da-
oliveira, Prays oleae (Bern.), algumas cochonilhas e tripes. Também foi
efetuado o levantamento da fauna auxiliar presente (Figueiredo, 2003). Em Junho
de 2008, detetou-se nova praga, o algodão-da-oliveira Euphyllura olivina
(Costa) (Homoptera: Psyllidae) e fez-se o levantamento da sua dispersão e
incidência (Lopes et al., 2008; 2009; 2010).
Em 2002 e 2008,B. oleae foia praga com maior densidade populacional e com maior
impacto através dos prejuízos causados nos frutos, que atingiram, nesses anos,
perto de 70% da produção. Entre 2008 e 2010, em novos estudos da mosca-da-
azeitona, procedeu-se à colocação de armadilhas para a monitorização dos
adultos (Lopes et al., 2008; 2009; 2010).
A monitorização de B. oleae é uma importante ferramenta para os produtores da
Ilha, pois pode evitar decréscimos de produção uma vez que se ficam a conhecer
melhor as flutuações das populações de adultos desta praga.
Os objectivos deste trabalho foram: (1) determinar a evolução populacional dos
adultos de B. oleae ; (2) avaliar os prejuízos da praga nas azeitonas, de forma
a poder ajudar os produtores no seu combate.
MATERIAL E MÉTODOS
Na zona de maior produção de azeitona de mesa, da Ilha Terceira, em Porto
Martins, foram selecionadas, entre Julho e Outubro de 2010, 2 parcelas , uma
sujeita a 6 tratamentos inseticidas para o combate à mosca-da-azeitona e outra
parcela não sujeita a qualquer intervenção química.
A monitorização dos adultos desta praga-chave foi realizada através de
armadilhas denominadas de copo-mosqueiro (Figura_1A) com difosfato de amónio
(em cristais, diluídos em água a 5%), atrativo alimentar para os machos e
sobretudo as fêmeas de B. oleae . Em cada parcela, foi também colocada outra
armadilha constituída por uma simples garrafa de água (Figura_1B) (mais
económica do que a outra) contendo a mesma formulação e a mesma quantidade de
atrativo. A observação destas armadilhas foi realizada mensalmente, registando-
se as capturas dos adultos.
Para a avaliação dos prejuízos causados pela fêmea de B. oleae , na altura da
colheita, na última semana de Setembro foram, recolhidas 3 amostras de 100
azeitonas, a partir de 3 árvores por parcela, escolhidas aleatoriamente em cada
uma das duas parcelas (tratada e não tratada), e determinou-se, em laboratório,
a intensidade de ataque.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Monitorização dos adultos
Na evolução populacional dos adultos de B. oleae , ocorreram dois picos, um de
menor intensidade, em Agosto de 2010, com 254 adultos, e outro maior, em
Outubro, com 888 adultos (Quadro_1, Figura_2).
Em Outubro, ocorreram os picos de maior abundância populacional (502 e 386
adultos) de B. oleae (Figura_2), coincidentes com a completa maturação da
azeitona. Uma vez que, atualmente, é gratuitamente fornecido, pelos serviços
oficiais a todos os produtores de azeitona, o atrativo alimentar utilizado na
monitorização (difostato de amónio) foi importante estudar e encontrar formas
mais económicas de fazer esta monitorização, recorrendo à utilização de
armadilhas comerciais (Tephri) (Figura_1A) ou a outras, menos dispendiosas,
como a reutilização de garrafas de água (Figura_1B).
Tratamentos com inseticidas
A realidade atual foi bem evidenciada, em 2010, por grande parte dos produtores
ainda adoptarem calendários de tratamentos com numerosas aplicações, quase
quinzenais, de inseticidas, com 6 aplicações, de dimetoato, 5 vezes isolado, e,
em 13/9, em mistura com deltametrina, Além da ilegalidade, pois só é permitida
1 aplicação de dimetoato, as características toxicológicas e ecotoxocológicas
dos 2 pesticidas evidenciam os graves riscos para a saúde humana e animal e
para o ambiente, agravados
Avaliação da intensidade de ataque
Os prejuízos, correspondentes à intensidade de ataque, pela mosca da azeitona,
por ser azeitona de mesa, na parcela tratada, foram de 1%, enquanto, na parcela
sem tratamentos, atingiram 66% das azeitonas com larvas (Quadro_3)
Na parcela alvo de aplicação de 6 tratamentos inseticidas, apenas 1% das
azeitonas possuíam larvas da mosca da azeitona no seu interior e na parcela não
tratada a intensidade de ataque de B. oleae foi 66%, em 2010, (Quadro_3), ainda
inferior à registada, 83% e 100%, em 2008 (Lopes et al., 2009; 2010).
O tipo de informação retirada, quer da monitorização dos adultos de B. oleae ,
quer da avaliação dos prejuízos e também a partir das 6 aplicações de
inseticidas, deverá contribuir decisivamente para a diminuição, ao longo dos
anos, da população desta praga e aumentar, assim, a produção nesta pequena e
exclusiva zona de produção de azeitona da ilha Terceira, assegurando a provisão
em termos de autoconsumo.
É importante insistir no facto das 6 aplicações realizadas com dimetoato
denotarem o total desrespeito pelas normas em vigor e as muito graves
consequências do uso excessivo e ilegal deste pesticida, sem que exista, por
parte dos Serviços oficiais qualquer tipo de fiscalização que impeça este
excessivo e inapropriado número de aplicações do mesmo inseticida e, por isso,
devem ser tomadas medidas que viabilizem a indispensável defesa da saúde humana
e animal e do ambiente.
Será importante, por isso, estudar, através da análise de resíduos de
inseticidas à altura da colheita e à saída da salmoura, trabalho até agora
nunca realizado, mas urgente de fazer para salvaguarda do consumidor das já
célebres azeitonas do Porto Martim, Ilha Terceira, Açores.
CONCLUSÕES
• A monitorização dos adultos da mosca da azeitona, em 2010, evidenciou dois
picos populacionais importantes desta praga, o maior em Outubro e o menor em
Agosto, nas condições da Ilha Terceira (Quadro_1, Figura_2).
• As garrafas de água reutilizadas com atrativo alimentar no seu interior
(difosfato de amónio), que proporcionam evidente economia, podem substituir
as armadilhas Tephri (Figura_1A e 1B).
• A intensidade de ataque da praga e os consequentes prejuízos, registados
nas parcelas não tratadas, atingiram 66%, com importante e grave impacto
desta praga na já diminuta produção local de azeitona de mesa (Quadro_3).
• É muito importante referir que, durante a época de 2010, foram realizadas 6
aplicações com dimetoato. Situação ilegal e que decerto originou muito graves
consequências derivadas do seu uso excessivo, pelo que, devem ser tomadas
medidas urgentes de informação e esclarecimento aos produtores e de
fiscalização com aplicação de sanções para assegurar a defesa da saúde humana
e animal e do ambiente (Quadro_2).