O intelectual engagé dos movimentos sociais
Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? O que esperamos? O que nos espera?
(Ernst Bloch, 1959, Prefácio de Princípio Esperança)
O vocábulo alemão Unsicherheit — instabilidade, incerteza, contigência — é, do
ponto de vista sociológico, pertinente para definir as inquietações do sujeito
moderno face às múltiplas perplexidades e riscos da sociedade global (Beck,
1992 [1986]; Giddens, 2000). A imposição mecânica dos imperativos sistémicos e
a crescente colonização pela visão monolítica da globalização do capital e das
finanças na(s) esfera(s) do mundo da vida (Lebenswelt) (Habermas, 1981) — fruto
do “consenso de Washington” que liberalizou o mercado a meados dos anos 80 —
contribuíram para uma nova era de incerteza e risco social. Tal
“dessocialização da economia” acionou, de acordo com Boaventura de Sousa Santos
(2005 [2001]: 40), a metamorfose do cidadão em homo consumericus, com a qual “o
critério de inclusão deix[ou] de ser o direito para passar a ser solvência”.
Porém, neste contexto, onde o fundamentalismo do mercado (J. Stiglitz) tende a
prevalecer sobre as esferas do mundo social, um discurso de rutura e novas
forças de ação cívica florescem num quadro de resistência alternativo, pois
agora à escala mundial. Estes movimentos globais são essencialmente produto da
desterritorialização (Held e outros, 1999), da nova sociedade em rede
(Castells, 1999) e de um projeto comum de atores plurais que definem as suas
causas como globais e organizam campanhas de protesto que atingem mais de uma
nação e/ou organizações governamentais e não governamentais internacionais.
[1] Os sujeitos coletivos dos movimentos globais (McDonald, 2006; Wieviorka,
2010), em oposição aos protagonistas dos movimentos sociais de meados dos anos
60 e 70, deixam de ter um estado-nação como referência. Deste modo, há que
reconhecer que a morfologia das novas lutas sociais, embora arquitetada por uma
nebulosa massa de atores globais (Wieviorka, 2010), tem vindo a contribuir para
uma ação diferente de resistência conjunta não institucional e para reforçar a
criação de uma nova Öffentlichkeit (esfera pública).
Tendo conhecimento da vasta literatura disponível sobre os movimentos sociais
(Tilly, 1978; Melucci, 1988; Touraine, 1989; Kriesi, 1995; Snow, Soule e
Kriesi, 2004; Della Porta e Caiani, 2009), este artigo não pretende, todavia,
uma análise exaustiva sobre a sua complexidade teórica e até mesmo conceptual,
[2] mas tem como objetivo central refletir, à luz da sociologia dos
intelectuais, sobre a intervenção e engagement dos intelectuais da
contemporaneidade nos movimentos sociais.
Segundo McAdam, McCarthy e Zald (1999 [1996]: 22-23), os especialistas em
movimentos sociais destacam três grupos de fatores que explicam o seu
surgimento e desenvolvimento: (1) a estrutura de oportunidades políticas e as
constrições que os movimentos sociais têm de enfrentar; (2) as formas de
organização (formais e informais) e a disposição dos contestatários; e (3) os
processos coletivos de interpretação, atribuição e construção social que
medeiam entre a oportunidade e a ação. Aquando desta análise, mesmo que breve,
sobre os movimentos sociais há que destacar as diferenças substantivas entre
três grandes ondas de mobilização: o movimento operário (centrado numa luta de
classes); os novos movimentos sociais (centrados no sujeito); e novos
movimentos globais (centrados em dilemas que abarcam os cidadãos a nível
planetário).[3]
Para M. Wieviorka (2010: 111), os novos movimentos sociais (NMS) resultam da
transição entre o movimento operário de ontem e os novos movimentos globais
(NMG) de hoje, entre a sociedade industrial e a sociedade em rede. Neste
sentido, enquanto nos movimentos de cariz clássico, “impregnados de
materialismo ontológico e realismo epistemológico”, dominava uma aspiração
revolucionária para uma mudança radical (Alexander, 1998), os NMS, paradigma
dos filhos do welfarestate ou, nas palavras irónicas de Jean-Luc Godard, dos
“filhos de Marx e da Coca-Cola”, não se centram na redistribuição da riqueza,
mas sim na liberdade individual, no reconhecimento de estilos e preferências
identitárias. A. Touraine destaca ainda que esta mutação no objeto de
resistência foi fruto de uma mudança de paradigma.[4] Noutras palavras,
enquanto que com o movimento operário emerge o sujeito social, com os “novos
movimentos sociais” nasce o sujeito cultural.
Os múltiplos movimentos da modernidade pós-industrial — movimentos ecológicos,
pacifistas, estudantis, feministas, homossexuais, civis, antinucleares,
regionalistas — interessaram-se sobretudo pela subjetividade dos atores,
pessoal e coletiva (Wieviorka, 2010). Como resultado, Stuart Hall (2003)
salienta que todos estes movimentos, para além de constituírem “o nascimento
histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade — uma
identidade para cada movimento” (ibid.: 45) —, refletem igualmente “[…] o
enfraquecimento ou o fim da classe política e das organizações políticas de
massa com ela associadas, bem como sua fragmentação em vários e separados
movimentos sociais” (ibid.: 44). Não obstante, uma panóplia de cientistas
sociais assume que este avanço excessivo das subjetividades contribuiu para um
atrofiamento e esvaziamento da esfera pública: enquanto que Z. Bauman (2000
[1999]: 71) ataca o excessivo hedonismo impulsionado pelo culto do eu que deu
origem a uma agenda pública que se afigura com uma “colcha de retalhos de
anseios pessoais”, Offe (apud Bauman 2000 [1999]: 113) mantém que estes NMS
“estão longe de ter desenvolvido um esboço mesmo de programa para a
transformação social com o mesmo grau de consistência e abrangência dos
movimentos sociopolíticos anteriores”.
Trinta anos mais tarde, com um quadro social, económico e político
completamente distinto do dos NMS, surgem os movimentos globais. Já que “[…]
estamos num período transicional no que respeita a três dimensões principais:
transição no sistema de hierarquias e desigualdades do sistema mundial;
transição no formato institucional e na complementaridade entre instituições;
transição na escala e na configuração dos conflitos sociais e políticos”
(Santos, 2005 [2001]: 62) —, encontramos um cenário inédito de estratégia de
mobilização, ação e resistência.
Ora, e face à vulnerabilidade do sistema político em relação ao domínio do jugo
financeiro, de um mercado sem âncoras e da, até então, atomização social, é
evidente o esforço dos cidadãos em repolitizar a esfera pública e de re-
humanizar a vida quotidiana. Após a manifestação em Seattle (1999),[5] a luta
dos movimentos globais, ou altermundialistas, distingue-se: (1) pelas suas
redes de movimentos articulados globalmente; (2) pela criação de fóruns sociais
(como por exemplo o Fórum Social Mundial[6] e o Fórum Social Europeu) que
promovem a globalização por debaixo; (3) pela autorreflexividade dos seus
atores “glocais”; (4) pela possibilidade de criar alternativas democráticas ao
neoliberalismo e à crescente iniquidade na distribuição da riqueza e do poder;
e, finalmente (5) pela construção de uma esfera pública transnacional e
cosmopolita.[7] Na verdade, e conforme sugere M. Wieviorka (2010: 115),
[os] movimentos globais não se apresentam, ou não se apresentam somente, sob o
ângulo da luta contra a dominação clássica, o seu maior estímulo não é combater
as lógicas de exploração. Têm sobretudo sede de construir um outro mundo e de
acabar com diversas formas de desprezo e de ignorância que os deixam à parte. É
talvez o que explica que tenham dificuldade, quiçá ainda mais do que os “novos
movimentos sociais” dos anos setenta, em definir um adversário social.
Tal caráter emancipatório destas lutas progressistas destaca o espírito
cosmopolita de uma globalização “de baixo para cima”. A reciprocidade entre
resistências locais e transnacionais tornou-se, deste modo, um aspeto
fundamental para os atores sociais definirem a sua ação, para se sintonizarem
com outros indivíduos e conceberem uma noção de coletividade. Segundo A.
Touraine (2005: 37):
O movimento altermundialista ocupa hoje um lugar tão importante como o
socialismo nas primeiras décadas da sociedade industrial. Um e outro lutaram e
lutam sobretudo contra a direção capitalista da economia e da sociedade. Um e
outro, por conseguinte, atacaram e atacam um modo de desenvolvimento mais do
que um tipo de sociedade definido por formas de produção, de organização e de
autoridade. O movimento altermundialista exige uma gestão democrática das
grandes transformações históricas.
Com o início da crise financeira e económica, atribuiu-se uma importância
particular ao crescimento expressivo de fóruns e movimentos de sujeitos que se
organizam globalmente por redes. I. Scherer-Warren (2006: 115) afirma que estas
redes
[…] por serem multiformes, aproximam atores sociais diversificados — dos níveis
locais aos mais globais, de diferentes tipos de organizações —, e possibilitam
o diálogo da diversidade de interesses e valores. Ainda que esse diálogo não
seja isento de conflitos, o encontro e o confronto das reivindicações e lutas
referentes a diversos aspetos da cidadania vêm permitindo aos movimentos
sociais passarem da defesa de um sujeito identitário único à defesa de um
sujeito plural.
Muito genericamente, e em jeito de exemplo desta configuração de atores e
sociedade em rede, a 15 de maio de 2011 o movimento dos “Indignados” —
inspirado na obra de cariz panfletário de Stéphane Hessel, Indignez-vous!
(2010), e no slogan “criar é resistir, resistir é criar” — mobiliza-se em rede
como sujeito plural e sai em massa para as ruas: em Madrid aglomerou 50 mil
pessoas. Em agosto e setembro, os “Indignados” manifestam-se em Paris. No dia
15 de outubro, Nova Iorque é surpreendida com um movimento com características
semelhantes — “Occupy Wall Street” — e o dia fica rotulado como o “World
Revolution Day”.
Curiosamente, o ressurgir dos movimentos sociais de finais dos anos 90 fez
reaparecer a figura do intelectual engagé. Porém, esta nova relação dialógica
entre ativistas e intelectuais veio a pôr em causa o conceito de intelectual
“pós-moderno”. É de salientar que no período entre os NMS e os NMG a figura do
intelectual sofreu várias interpretações e críticas. Ora, com a morte de J. -P.
Sartre, o “intelectual total” que, através da imaginação democrática, de um
vasto repertório de ideias, avaliações, capacidades e lógicas, divulgava e
defendia os valores universais pulveriza-se, com a substituição de
metanarrativas pelas microideologias, pelos discursos fragmentários,
descontínuos e dispersos (Lyotard, 2000 [1979]) que brotam nos anos 60 e 70. O
fim das grandes ideologias contribuiu, por um lado, para o fim do intelectual
legislador e, por outro, para a ascensão do intelectual especialista (Foucault,
2000), ou do intelectual intérprete que traduz diferentes repertórios, códigos
e tradições (Bauman, 1987). Noutras palavras, na era do pós-modernismo, em que
“[…] as grandiosas narrativas foram substituídas por situações locais e jogos
linguísticos, […] os intelectuais pós-modernos enaltecem a competência, e não
os valores universais como a verdade ou a liberdade” (Said, 2000 [1993]: 32).
De facto, a voz do intelectual comprometido só retoma a sua ressonância pública
com o despertar das crises e riscos globais da última década. Agora, e
parafraseando E. Said (ibid.: 49), a sua tarefa é “universalizar, clara e
inequivocamente, a crise, dar uma maior abrangência humana ao que uma dada raça
ou nação sofreu, associar essa experiência aos sofrimentos dos outros”. Esta
dimensão autónoma e cosmopolita do intelectual vem, assim, marcar a rutura
tanto com os argumentos de J. Benda (2003 [1927]), N. Chomsky (1967) e R.
Jacoby (1990 [1987]) que proclamavam a traição do intelectual, como com a visão
de Fuller (2004) que anunciava mesmo o seu fim. Aliás, o trabalho de
reconstrução do objeto na sociologia dos intelectuais deverá apoiar-se na
proposta de Fleck, Hess e Lyon (2009: 1) que, ao rejeitarem o diagnóstico do
declínio dos intelectuais, propõem uma análise sobre a sua transformação:
Ao longo dos anos, novos grupos de intelectuais ocuparam a arena pública,
enquanto outros desapareciam […] o/a intelectual do século XXI é muito
diferente nas suas aspirações e modo de funcionar quando comparado/a com o que
era o tipo emergente desde há mais de uma centena de anos.
É sabido que desde o Affaire Dreyfus em 1894, o papel e representação do
intelectual tem sido alvo de grande discussão (de J. Benda a A. Gramsci, de C.
W. Mills a P. Bourdieu, de K. Mannheim a Z. Bauman, de N. Bobbio a N. Chomsky e
a E. Said). Contudo, o papel dos intelectuais dos movimentos sociais do século
XXI já não se enquadra nem na visão do intelectual clássico, carismático e
comprometido com os valores universais, nem na representação restrita do
especialista defendida por M. Foucault. Parece-nos, assim, que o contributo de
P. Bourdieu — que concebeu o conceito de “campo” de forma a quebrar com a visão
dos intelectuais como atores desinteressados que prestam homenagem somente ao
mundo das ideias[8] — é um dos que melhor demarca as novas formas de
resistência e luta dos intelectuais do movimento. Como resposta à questão “Os
intelectuais estão fora do jogo?”, Bourdieu (1983: 70) sustenta que
[…] é importante que o espaço onde é produzido o discurso sobre o mundo social
continue a funcionar como um campo de luta onde o polo dominante não esmague o
polo dominado, a ortodoxia não esmague a heresia. Porque neste domínio,
enquanto houver luta, haverá história, isto é, esperança.
Consciente da relevância dos intelectuais no mundo contemporâneo, este
sociólogo assume em Contrafogos 2(2001: 23-24) que estes são “indispensáveis à
luta social” e faz um apelo aos “intelectuais específicos” para que se reúnam
num verdadeiro intelectual coletivo, autónomo, capaz de se aliar aos movimentos
sociais. Segundo Bourdieu (2001: 25)
[…] o intelectual coletivo […] pode organizar ou orquestrar a busca coletiva de
novas formas de ação política, de novas maneiras de mobilizar e de fazer
trabalhar em conjunto as pessoas mobilizadas, novas maneiras de elaborar
projetos e de os realizar em comum. Pode desempenhar um papel de parteiro,
assistindo a dinâmica dos grupos em trabalho no seu esforço por exprimirem, e
no mesmo ato descobrirem, aquilo que são e aquilo em que poderiam ou deveriam
tornar-se, e contribuindo para a recoleção e para a acumulação do imenso saber
social sobre o mundo social do qual este preenche. Poderia assim ajudar as
vítimas da política neoliberal a descobrirem os efeitos diversamente refratados
de uma mesma causa nos acontecimentos e nas experiências na aparência
radicalmente diferentes, sobretudo para aqueles que os vivem, que se encontram
associados aos diferentes universos sociais […] de uma nação ou de nações
diferentes.
Assim, o intelectual coletivo do século XXI deve assumir-se como um contrapoder
e, nas palavras de Fernando Savater (El País, 25/2/2012), deve tomar a seu
cargo o esclarecimento de temas políticos e sociais no espaço público:
Os intelectuais são escritores, professores e artistas que querem fazer-se
ouvir fora das suas áreas de trabalho sobre questões políticas e sociais.
Deveriam trazer a debate público argumentos ou propostas que transcendessem as
cautelas do pragmatismo político habitual, para assim enriquecerem a
compreensão e não a confusão ou a simplificação desses temas. (Savater, 2012)
O intelectual deve, deste modo, estar envolvido numa potencial mudança
qualitativa e instigar — numa época de crise, de angústia, de desespero e de
incerteza — reflexão, recapitulação sobre o estado das coisas. Pois um momento
de crise, assevera Z. Bauman (2000 [1999]: 146), é também um “momento de
reprodução e autorrenovação”. É, geralmente, um momento em que novos laços de
solidariedade e reciprocidade tendem a florescer e a luta social tende a ser
reconhecida como extensão da democracia.
A consolidação da crise global, aliada ao inconformismo social e ao
reaparecimento da voz do intelectual na esfera pública, deu origem a um novo
espaço dialógico e de convergência entre uma grande variedade de resistentes
revoltados com o poder da nobreza financeira mundial que domina todas as
esferas do mundo da vida, com as assimetrias sociais e com a fragilidade
política que está, simultaneamente, sobrecarregada de problemas e demasiado
vazia de pensamento (Morin e Nair, 1997: 22).[9] Ante este panorama de
injustiça social, o intelectual deve assim ser capaz de agir, pois compreender
não é suficiente.[10] Para além de ter de adequar o seu discurso à
heterogeneidade de repertórios socioculturais que transpiram na democracia das
ruas e de costurar alianças sociais que transcendem as barreiras nacionais,
deve também ter a capacidade de projetar as vozes do movimento na agenda
pública e mediática e na arena política. Para J. Alexander (1998),
[…] a ambição de um movimento social deve ser, porém, a de recolocar demandas
específicas, tirá-las de instituições particulares para o interior da própria
sociedade civil. Quando os “intelectuais do movimento” são bem-sucedidos nessa
tarefa, os movimentos iniciam uma conversação com a sociedade e atraem a
atenção dos seus membros para uma compreensão mais global de sua causa. Quando
isso acontece, o problema e o grupo que o aciona entram definitivamente na vida
pública.
É importante realçar a ação de um grupo de intelectuais que, ao longo da última
década, tem vindo a explorar a esfera pública transnacional a partir de locais
privilegiados de resistência, nomeadamente, através da imprensa internacional —
Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Zeit, El País, The Guardian, The New York
Times, entre outros. Nestas circunstâncias, e considerando a velocidade dos
novos fluxos de informação, os intelectuais conseguem, com muito mais
facilidade, dinamizar o conflito e, inclusive, globalizá-lo.[11] Segundo N.
Bobbio (1997: 93-94):
Os meios com os quais os intelectuais podem tornar conhecidas e fazer valer as
suas próprias ideias […] são enormes. Nenhuma comparação possível entre o tempo
em que Sócrates se entretinha com os amigos, os discípulos ou os alunos, em um
diálogo íntimo, e o nosso tempo, no qual um artigo publicado em qualquer jornal
pode ser lido imediatamente por milhares de pessoas ou uma aparição na
televisão pode ser vista por milhões. Nosso auditório dilatou-se
desmesuradamente. De limitado a uma região, a um território, a uma cidade,
tornou-se nacional […] De nacional, torna-se, em alguns casos, quase
internacional, graças à rapidez das traduções e à rapidez das comunicações.
J. Habermas e J. Derrida souberam tirar proveito destes mecanismos mediáticos
com o intuito de provocar uma maior consciencialização dos cidadãos, neste caso
europeus. Daí podermos afirmar que um dos momentos mais marcantes de
resistência na Europa do século XXI ocorre em 31 maio de 2003, quando J.
Habermas com a coassinatura de J. Derrida publica o artigo “February 15, or
what binds Europeans together: a plea for a common foreign policy, beginning in
the core of Europe” no FrankfurterAllgemeine Zeitung, contra o pragmatismo
político dos governantes europeus e contra a invasão do Iraque pelos EUA. Esta
intervenção pública ocorre após milhões de europeus se terem manifestado em
massa contra a hegemonia norte-americana. Como consequência, um grupo de
intelectuais europeus — Umberto Eco (italiano), Adolf Muschg (suíço), Gianni
Vattimo (italiano), Fernando Savater (espanhol) — solidariza-se com esta
revitalização da esfera pública e aceita o desafio de avançar publicamente
juízos críticos.
Entretanto, há que destacar dois outros episódios vitais, nos quais os
intelectuais dinamizaram, via meios de comunicação, uma discussão acesa sobre
as posições políticas que têm vindo a arrastar a Europa para a desintegração:
(1) a publicação do artigo “Rendons l’Europe plus démocratique!” de J. Habermas
(2011), publicado no Le Monde (25 de outubro), que denuncia a rutura entre o
povo europeu e nomeia as falhas de uma Europa economicamente moribunda e
politicamente frágil; e (2) o recente manifesto “Wir sind Europa”, encabeçado
por Ulrich Beck e Daniel Cohn-Bendit (2012 — 5 de maio), o qual censura a
Europa das elites e dos tecnocratas, invoca a autorreflexividade, a liberdade,
a dignidade e a emancipação dos sujeitos modernos e apela à reconstrução da
Europa a partir de baixo.[12]
De facto, podemos aferir que o advento do poder da cultura, e dos intelectuais
em particular, tem vindo a confrontar, de forma criativa e democrática, a
cultura do poder económico e político (Goldfarb, 2012).[13] Segundo, B. Misztal
(2007: 4), o compromisso e a participação cívica dos intelectuais no espaço
público têm vindo a expandir a imaginação democrática, impulsionando uma maior
sensibilidade cívica dos cidadãos e líderes. Aliás, na sua obra Intellectuals
and the Public Good,Misztal confirma que as ações dos intelectuais com
qualidades específicas — como coragem e criatividade — foram determinantes na
criação do projeto democrático. Conseguimos também identificar no estudo, de
cariz misto (quantitativo e qualitativo), de Charles Kurzman e Erin Leahey
(2004), que as ondas de democratização no século XX estão diretamente
relacionadas com a intervenção dos intelectuais: os autores concluem que os
países não democráticos do final do século passado que evidenciavam um maior
ratio de intelectuais na população experimentaram um processo de democratização
consideravelmente mais acelerado do que os países com menor ratio de
intelectuais na população. Contudo, esta relação próxima entre intelectuais e
valores democráticos já havia sido colocada em evidência por N. Bobbio (1997:
58-59) em Os Intelectuais e o Poder:
A comunidade dos intelectuais, que é por excelência uma comunidade fora das
pátrias, uma comunidade cosmopolita, parece particularmente adequada para
intervir no debate sobre esses grandes temas. Quais são esses temas? Creio que
são substancialmente dois: a opressão — entendendo como expressão todas as
violações dos direitos do homem, à defesa de alguns dos quais (liberdade
pessoal, liberdade de pensamento, de imprensa, de religião) os homens de
cultura são particularmente sensíveis; e a guerra — entendendo-se na aceção
mais ampla para compreender assim as guerras insurrecionais, revolucionárias,
civis, de liberdade, etc. Tanto um como outro tema podem se resolver no único
grande problema da violência na história, diante do qual o intelectual se ergue
como portador das exigências da razão, da verdade, da liberdade, da tolerância,
da compreensão, do amor, da piedade.
Este compromisso contra a injustiça e opressão social é claramente visível no
envolvimento de um grupo de intelectuais no recente movimento norte-americano
“Occupy”. A 16 de outubro de 2011, Dan Berrett destaca no The Chronicleas
raízes académicas e o envolvimento de intelectuais no movimento “Occupy”
(Cornel West, Slavoj Zizek, o francês Fox Piven). A reportagem realça o
discurso do Nobel da economia Joseph Stigglitz, que aquando da sua visita ao
“Occupy Wall Street” afirmou: “Estamos a suportar os custos das suas más ações.
Temos um sistema em que se socializam as perdas e se privatizam os ganhos. Isto
não é capitalismo; não é economia de mercado. Isto é uma economia distorcida.”
[14] Entretanto, outros membros reconhecidos da academia americana intervieram
no movimento como forma de o legitimar, tanto através de intervenções pessoais
— Michael Hardt,[15] Jeffrey D. Sachs,[16] Lawrence Lessig[17] — como através
de uma petição de mais 200 membros da Universidade de Columbia que apadrinham o
”Occupy Wall Street". Uma das intervenções mais carismáticas foi a do
filósofo Slavoj Zizek, que apelou a um sentido de responsabilidade social
contínuo, que vá para além do delírio do momento.[18]
À luz da reflexão aqui proposta, podemos concluir que os intelectuais do século
XXI retomaram o seu “efeito desestabilizador” e ganharam notoriedade nas ondas
de contestação social. Parece-nos então que a intervenção social, cívica e
política dos agentes do campo cultural da última década já não se ajusta à
proposta de Z. Bauman (1987), pois os intelectuais, com “a sua centelha de
imaginação na conceção de alternativas, e uma pitada de coragem necessária para
polarizar, provocar e escrever panfletos” (Habermas, 2009), têm produzido
juízos críticos, instigado cada vez mais o debate público, que até então
parecia adormecido por uma “visão do mundo” consensual, e têm participado
ativamente em movimentos sociais. Em suma, e reproduzindo as palavras de S.
Nair, tanto os intelectuais, como os cidadãos em geral, terão de recuperar “[…]
a insolência salvadora da luta pela liberdade, pela igualdade e pela
solidariedade. Certamente que isto não é a solução para o atual impasse. Mas é
a única via realmente humana para sair dele.” (Morin e Nair, 1997: 257)