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EuPTHUHu0873-65292013000300004

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolHumanities
Great areaHuman Sciences
ISSN0873-6529
Year2013
Issue0003
Article number00004

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O intelectual engagé dos movimentos sociais

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? O que esperamos? O que nos espera? (Ernst Bloch, 1959, Prefácio de Princípio Esperança) O vocábulo alemão Unsicherheit instabilidade, incerteza, contigência é, do ponto de vista sociológico, pertinente para definir as inquietações do sujeito moderno face às múltiplas perplexidades e riscos da sociedade global (Beck, 1992 [1986]; Giddens, 2000). A imposição mecânica dos imperativos sistémicos e a crescente colonização pela visão monolítica da globalização do capital e das finanças na(s) esfera(s) do mundo da vida (Lebenswelt) (Habermas, 1981) fruto do consenso de Washington que liberalizou o mercado a meados dos anos 80 contribuíram para uma nova era de incerteza e risco social. Tal dessocialização da economia acionou, de acordo com Boaventura de Sousa Santos (2005 [2001]: 40), a metamorfose do cidadão em homo consumericus, com a qual o critério de inclusão deix[ou] de ser o direito para passar a ser solvência.

Porém, neste contexto, onde o fundamentalismo do mercado (J. Stiglitz) tende a prevalecer sobre as esferas do mundo social, um discurso de rutura e novas forças de ação cívica florescem num quadro de resistência alternativo, pois agora à escala mundial. Estes movimentos globais são essencialmente produto da desterritorialização (Held e outros, 1999), da nova sociedade em rede (Castells, 1999) e de um projeto comum de atores plurais que definem as suas causas como globais e organizam campanhas de protesto que atingem mais de uma nação e/ou organizações governamentais e não governamentais internacionais.

[1] Os sujeitos coletivos dos movimentos globais (McDonald, 2006; Wieviorka, 2010), em oposição aos protagonistas dos movimentos sociais de meados dos anos 60 e 70, deixam de ter um estado-nação como referência. Deste modo, que reconhecer que a morfologia das novas lutas sociais, embora arquitetada por uma nebulosa massa de atores globais (Wieviorka, 2010), tem vindo a contribuir para uma ação diferente de resistência conjunta não institucional e para reforçar a criação de uma nova Öffentlichkeit (esfera pública).

Tendo conhecimento da vasta literatura disponível sobre os movimentos sociais (Tilly, 1978; Melucci, 1988; Touraine, 1989; Kriesi, 1995; Snow, Soule e Kriesi, 2004; Della Porta e Caiani, 2009), este artigo não pretende, todavia, uma análise exaustiva sobre a sua complexidade teórica e até mesmo conceptual, [2] mas tem como objetivo central refletir, à luz da sociologia dos intelectuais, sobre a intervenção e engagement dos intelectuais da contemporaneidade nos movimentos sociais.

Segundo McAdam, McCarthy e Zald (1999 [1996]: 22-23), os especialistas em movimentos sociais destacam três grupos de fatores que explicam o seu surgimento e desenvolvimento: (1) a estrutura de oportunidades políticas e as constrições que os movimentos sociais têm de enfrentar; (2) as formas de organização (formais e informais) e a disposição dos contestatários; e (3) os processos coletivos de interpretação, atribuição e construção social que medeiam entre a oportunidade e a ação. Aquando desta análise, mesmo que breve, sobre os movimentos sociais que destacar as diferenças substantivas entre três grandes ondas de mobilização: o movimento operário (centrado numa luta de classes); os novos movimentos sociais (centrados no sujeito); e novos movimentos globais (centrados em dilemas que abarcam os cidadãos a nível planetário).[3] Para M. Wieviorka (2010: 111), os novos movimentos sociais (NMS) resultam da transição entre o movimento operário de ontem e os novos movimentos globais (NMG) de hoje, entre a sociedade industrial e a sociedade em rede. Neste sentido, enquanto nos movimentos de cariz clássico, impregnados de materialismo ontológico e realismo epistemológico, dominava uma aspiração revolucionária para uma mudança radical (Alexander, 1998), os NMS, paradigma dos filhos do welfarestate ou, nas palavras irónicas de Jean-Luc Godard, dos filhos de Marx e da Coca-Cola, não se centram na redistribuição da riqueza, mas sim na liberdade individual, no reconhecimento de estilos e preferências identitárias. A. Touraine destaca ainda que esta mutação no objeto de resistência foi fruto de uma mudança de paradigma.[4] Noutras palavras, enquanto que com o movimento operário emerge o sujeito social, com os novos movimentos sociais nasce o sujeito cultural.

Os múltiplos movimentos da modernidade pós-industrial movimentos ecológicos, pacifistas, estudantis, feministas, homossexuais, civis, antinucleares, regionalistas interessaram-se sobretudo pela subjetividade dos atores, pessoal e coletiva (Wieviorka, 2010). Como resultado, Stuart Hall (2003) salienta que todos estes movimentos, para além de constituírem o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade uma identidade para cada movimento (ibid.: 45) , refletem igualmente [] o enfraquecimento ou o fim da classe política e das organizações políticas de massa com ela associadas, bem como sua fragmentação em vários e separados movimentos sociais (ibid.: 44). Não obstante, uma panóplia de cientistas sociais assume que este avanço excessivo das subjetividades contribuiu para um atrofiamento e esvaziamento da esfera pública: enquanto que Z. Bauman (2000 [1999]: 71) ataca o excessivo hedonismo impulsionado pelo culto do eu que deu origem a uma agenda pública que se afigura com uma colcha de retalhos de anseios pessoais, Offe (apud Bauman 2000 [1999]: 113) mantém que estes NMS estão longe de ter desenvolvido um esboço mesmo de programa para a transformação social com o mesmo grau de consistência e abrangência dos movimentos sociopolíticos anteriores.

Trinta anos mais tarde, com um quadro social, económico e político completamente distinto do dos NMS, surgem os movimentos globais. que [] estamos num período transicional no que respeita a três dimensões principais: transição no sistema de hierarquias e desigualdades do sistema mundial; transição no formato institucional e na complementaridade entre instituições; transição na escala e na configuração dos conflitos sociais e políticos (Santos, 2005 [2001]: 62) , encontramos um cenário inédito de estratégia de mobilização, ação e resistência.

Ora, e face à vulnerabilidade do sistema político em relação ao domínio do jugo financeiro, de um mercado sem âncoras e da, até então, atomização social, é evidente o esforço dos cidadãos em repolitizar a esfera pública e de re- humanizar a vida quotidiana. Após a manifestação em Seattle (1999),[5] a luta dos movimentos globais, ou altermundialistas, distingue-se: (1) pelas suas redes de movimentos articulados globalmente; (2) pela criação de fóruns sociais (como por exemplo o Fórum Social Mundial[6] e o Fórum Social Europeu) que promovem a globalização por debaixo; (3) pela autorreflexividade dos seus atores glocais; (4) pela possibilidade de criar alternativas democráticas ao neoliberalismo e à crescente iniquidade na distribuição da riqueza e do poder; e, finalmente (5) pela construção de uma esfera pública transnacional e cosmopolita.[7] Na verdade, e conforme sugere M. Wieviorka (2010: 115),  [os] movimentos globais não se apresentam, ou não se apresentam somente, sob o ângulo da luta contra a dominação clássica, o seu maior estímulo não é combater as lógicas de exploração. Têm sobretudo sede de construir um outro mundo e de acabar com diversas formas de desprezo e de ignorância que os deixam à parte. É talvez o que explica que tenham dificuldade, quiçá ainda mais do que os novos movimentos sociais dos anos setenta, em definir um adversário social.

Tal caráter emancipatório destas lutas progressistas destaca o espírito cosmopolita de uma globalização de baixo para cima. A reciprocidade entre resistências locais e transnacionais tornou-se, deste modo, um aspeto fundamental para os atores sociais definirem a sua ação, para se sintonizarem com outros indivíduos e conceberem uma noção de coletividade. Segundo A.

Touraine (2005: 37): O movimento altermundialista ocupa hoje um lugar tão importante como o socialismo nas primeiras décadas da sociedade industrial. Um e outro lutaram e lutam sobretudo contra a direção capitalista da economia e da sociedade. Um e outro, por conseguinte, atacaram e atacam um modo de desenvolvimento mais do que um tipo de sociedade definido por formas de produção, de organização e de autoridade. O movimento altermundialista exige uma gestão democrática das grandes transformações históricas.

Com o início da crise financeira e económica, atribuiu-se uma importância particular ao crescimento expressivo de fóruns e movimentos de sujeitos que se organizam globalmente por redes. I. Scherer-Warren (2006: 115) afirma que estas redes [] por serem multiformes, aproximam atores sociais diversificados dos níveis locais aos mais globais, de diferentes tipos de organizações , e possibilitam o diálogo da diversidade de interesses e valores. Ainda que esse diálogo não seja isento de conflitos, o encontro e o confronto das reivindicações e lutas referentes a diversos aspetos da cidadania vêm permitindo aos movimentos sociais passarem da defesa de um sujeito identitário único à defesa de um sujeito plural.

Muito genericamente, e em jeito de exemplo desta configuração de atores e sociedade em rede, a 15 de maio de 2011 o movimento dos Indignados inspirado na obra de cariz panfletário de Stéphane Hessel, Indignez-vous! (2010), e no slogan criar é resistir, resistir é criar mobiliza-se em rede como sujeito plural e sai em massa para as ruas: em Madrid aglomerou 50 mil pessoas. Em agosto e setembro, os Indignados manifestam-se em Paris. No dia 15 de outubro, Nova Iorque é surpreendida com um movimento com características semelhantes Occupy Wall Street e o dia fica rotulado como o World Revolution Day.

Curiosamente, o ressurgir dos movimentos sociais de finais dos anos 90 fez reaparecer a figura do intelectual engagé. Porém, esta nova relação dialógica entre ativistas e intelectuais veio a pôr em causa o conceito de intelectual pós-moderno. É de salientar que no período entre os NMS e os NMG a figura do intelectual sofreu várias interpretações e críticas. Ora, com a morte de J. -P.

Sartre, o intelectual total que, através da imaginação democrática, de um vasto repertório de ideias, avaliações, capacidades e lógicas, divulgava e defendia os valores universais pulveriza-se, com a substituição de metanarrativas pelas microideologias, pelos discursos fragmentários, descontínuos e dispersos (Lyotard, 2000 [1979]) que brotam nos anos 60 e 70. O fim das grandes ideologias contribuiu, por um lado, para o fim do intelectual legislador e, por outro, para a ascensão do intelectual especialista (Foucault, 2000), ou do intelectual intérprete que traduz diferentes repertórios, códigos e tradições (Bauman, 1987). Noutras palavras, na era do pós-modernismo, em que [] as grandiosas narrativas foram substituídas por situações locais e jogos linguísticos, [] os intelectuais pós-modernos enaltecem a competência, e não os valores universais como a verdade ou a liberdade (Said, 2000 [1993]: 32).

De facto, a voz do intelectual comprometido retoma a sua ressonância pública com o despertar das crises e riscos globais da última década. Agora, e parafraseando E. Said (ibid.: 49), a sua tarefa é universalizar, clara e inequivocamente, a crise, dar uma maior abrangência humana ao que uma dada raça ou nação sofreu, associar essa experiência aos sofrimentos dos outros. Esta dimensão autónoma e cosmopolita do intelectual vem, assim, marcar a rutura tanto com os argumentos de J. Benda (2003 [1927]), N. Chomsky (1967) e R.

Jacoby (1990 [1987]) que proclamavam a traição do intelectual, como com a visão de Fuller (2004) que anunciava mesmo o seu fim. Aliás, o trabalho de reconstrução do objeto na sociologia dos intelectuais deverá apoiar-se na proposta de Fleck, Hess e Lyon (2009: 1) que, ao rejeitarem o diagnóstico do declínio dos intelectuais, propõem uma análise sobre a sua transformação: Ao longo dos anos, novos grupos de intelectuais ocuparam a arena pública, enquanto outros desapareciam [] o/a intelectual do século XXI é muito diferente nas suas aspirações e modo de funcionar quando comparado/a com o que era o tipo emergente desde mais de uma centena de anos.

É sabido que desde o Affaire Dreyfus em 1894, o papel e representação do intelectual tem sido alvo de grande discussão (de J. Benda a A. Gramsci, de C.

W. Mills a P. Bourdieu, de K. Mannheim a Z. Bauman, de N. Bobbio a N. Chomsky e a E. Said). Contudo, o papel dos intelectuais dos movimentos sociais do século XXI não se enquadra nem na visão do intelectual clássico, carismático e comprometido com os valores universais, nem na representação restrita do especialista defendida por M. Foucault. Parece-nos, assim, que o contributo de P. Bourdieu que concebeu o conceito de campo de forma a quebrar com a visão dos intelectuais como atores desinteressados que prestam homenagem somente ao mundo das ideias[8] é um dos que melhor demarca as novas formas de resistência e luta dos intelectuais do movimento. Como resposta à questão Os intelectuais estão fora do jogo?, Bourdieu (1983: 70) sustenta que  [] é importante que o espaço onde é produzido o discurso sobre o mundo social continue a funcionar como um campo de luta onde o polo dominante não esmague o polo dominado, a ortodoxia não esmague a heresia. Porque neste domínio, enquanto houver luta, haverá história, isto é, esperança.

Consciente da relevância dos intelectuais no mundo contemporâneo, este sociólogo assume em Contrafogos 2(2001: 23-24) que estes são indispensáveis à luta social e faz um apelo aos intelectuais específicos para que se reúnam num verdadeiro intelectual coletivo, autónomo, capaz de se aliar aos movimentos sociais. Segundo Bourdieu (2001: 25) [] o intelectual coletivo [] pode organizar ou orquestrar a busca coletiva de novas formas de ação política, de novas maneiras de mobilizar e de fazer trabalhar em conjunto as pessoas mobilizadas, novas maneiras de elaborar projetos e de os realizar em comum. Pode desempenhar um papel de parteiro, assistindo a dinâmica dos grupos em trabalho no seu esforço por exprimirem, e no mesmo ato descobrirem, aquilo que são e aquilo em que poderiam ou deveriam tornar-se, e contribuindo para a recoleção e para a acumulação do imenso saber social sobre o mundo social do qual este preenche. Poderia assim ajudar as vítimas da política neoliberal a descobrirem os efeitos diversamente refratados de uma mesma causa nos acontecimentos e nas experiências na aparência radicalmente diferentes, sobretudo para aqueles que os vivem, que se encontram associados aos diferentes universos sociais [] de uma nação ou de nações diferentes.

Assim, o intelectual coletivo do século XXI deve assumir-se como um contrapoder e, nas palavras de Fernando Savater (El País, 25/2/2012), deve tomar a seu cargo o esclarecimento de temas políticos e sociais no espaço público: Os intelectuais são escritores, professores e artistas que querem fazer-se ouvir fora das suas áreas de trabalho sobre questões políticas e sociais.

Deveriam trazer a debate público argumentos ou propostas que transcendessem as cautelas do pragmatismo político habitual, para assim enriquecerem a compreensão e não a confusão ou a simplificação desses temas. (Savater, 2012) O intelectual deve, deste modo, estar envolvido numa potencial mudança qualitativa e instigar numa época de crise, de angústia, de desespero e de incerteza reflexão, recapitulação sobre o estado das coisas. Pois um momento de crise, assevera Z. Bauman (2000 [1999]: 146), é também um momento de reprodução e autorrenovação. É, geralmente, um momento em que novos laços de solidariedade e reciprocidade tendem a florescer e a luta social tende a ser reconhecida como extensão da democracia.

A consolidação da crise global, aliada ao inconformismo social e ao reaparecimento da voz do intelectual na esfera pública, deu origem a um novo espaço dialógico e de convergência entre uma grande variedade de resistentes revoltados com o poder da nobreza financeira mundial que domina todas as esferas do mundo da vida, com as assimetrias sociais e com a fragilidade política que está, simultaneamente, sobrecarregada de problemas e demasiado vazia de pensamento (Morin e Nair, 1997: 22).[9] Ante este panorama de injustiça social, o intelectual deve assim ser capaz de agir, pois compreender não é suficiente.[10] Para além de ter de adequar o seu discurso à heterogeneidade de repertórios socioculturais que transpiram na democracia das ruas e de costurar alianças sociais que transcendem as barreiras nacionais, deve também ter a capacidade de projetar as vozes do movimento na agenda pública e mediática e na arena política. Para J. Alexander (1998), [] a ambição de um movimento social deve ser, porém, a de recolocar demandas específicas, tirá-las de instituições particulares para o interior da própria sociedade civil. Quando os intelectuais do movimento são bem-sucedidos nessa tarefa, os movimentos iniciam uma conversação com a sociedade e atraem a atenção dos seus membros para uma compreensão mais global de sua causa. Quando isso acontece, o problema e o grupo que o aciona entram definitivamente na vida pública.

É importante realçar a ação de um grupo de intelectuais que, ao longo da última década, tem vindo a explorar a esfera pública transnacional a partir de locais privilegiados de resistência, nomeadamente, através da imprensa internacional Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Zeit, El País, The Guardian, The New York Times, entre outros. Nestas circunstâncias, e considerando a velocidade dos novos fluxos de informação, os intelectuais conseguem, com muito mais facilidade, dinamizar o conflito e, inclusive, globalizá-lo.[11] Segundo N.

Bobbio (1997: 93-94): Os meios com os quais os intelectuais podem tornar conhecidas e fazer valer as suas próprias ideias [] são enormes. Nenhuma comparação possível entre o tempo em que Sócrates se entretinha com os amigos, os discípulos ou os alunos, em um diálogo íntimo, e o nosso tempo, no qual um artigo publicado em qualquer jornal pode ser lido imediatamente por milhares de pessoas ou uma aparição na televisão pode ser vista por milhões. Nosso auditório dilatou-se desmesuradamente. De limitado a uma região, a um território, a uma cidade, tornou-se nacional [] De nacional, torna-se, em alguns casos, quase internacional, graças à rapidez das traduções e à rapidez das comunicações.

J. Habermas e J. Derrida souberam tirar proveito destes mecanismos mediáticos com o intuito de provocar uma maior consciencialização dos cidadãos, neste caso europeus. Daí podermos afirmar que um dos momentos mais marcantes de resistência na Europa do século XXI ocorre em 31 maio de 2003, quando J.

Habermas com a coassinatura de J. Derrida publica o artigo February 15, or what binds Europeans together: a plea for a common foreign policy, beginning in the core of Europe no FrankfurterAllgemeine Zeitung, contra o pragmatismo político dos governantes europeus e contra a invasão do Iraque pelos EUA. Esta intervenção pública ocorre após milhões de europeus se terem manifestado em massa contra a hegemonia norte-americana. Como consequência, um grupo de intelectuais europeus Umberto Eco (italiano), Adolf Muschg (suíço), Gianni Vattimo (italiano), Fernando Savater (espanhol) solidariza-se com esta revitalização da esfera pública e aceita o desafio de avançar publicamente juízos críticos.

Entretanto, que destacar dois outros episódios vitais, nos quais os intelectuais dinamizaram, via meios de comunicação, uma discussão acesa sobre as posições políticas que têm vindo a arrastar a Europa para a desintegração: (1) a publicação do artigo Rendons l’Europe plus démocratique! de J. Habermas (2011), publicado no Le Monde (25 de outubro), que denuncia a rutura entre o povo europeu e nomeia as falhas de uma Europa economicamente moribunda e politicamente frágil; e (2) o recente manifesto Wir sind Europa, encabeçado por Ulrich Beck e Daniel Cohn-Bendit (2012 5 de maio), o qual censura a Europa das elites e dos tecnocratas, invoca a autorreflexividade, a liberdade, a dignidade e a emancipação dos sujeitos modernos e apela à reconstrução da Europa a partir de baixo.[12] De facto, podemos aferir que o advento do poder da cultura, e dos intelectuais em particular, tem vindo a confrontar, de forma criativa e democrática, a cultura do poder económico e político (Goldfarb, 2012).[13] Segundo, B. Misztal (2007: 4), o compromisso e a participação cívica dos intelectuais no espaço público têm vindo a expandir a imaginação democrática, impulsionando uma maior sensibilidade cívica dos cidadãos e líderes. Aliás, na sua obra Intellectuals and the Public Good,Misztal confirma que as ações dos intelectuais com qualidades específicas como coragem e criatividade foram determinantes na criação do projeto democrático. Conseguimos também identificar no estudo, de cariz misto (quantitativo e qualitativo), de Charles Kurzman e Erin Leahey (2004), que as ondas de democratização no século XX estão diretamente relacionadas com a intervenção dos intelectuais: os autores concluem que os países não democráticos do final do século passado que evidenciavam um maior ratio de intelectuais na população experimentaram um processo de democratização consideravelmente mais acelerado do que os países com menor ratio de intelectuais na população. Contudo, esta relação próxima entre intelectuais e valores democráticos havia sido colocada em evidência por N. Bobbio (1997: 58-59) em Os Intelectuais e o Poder: A comunidade dos intelectuais, que é por excelência uma comunidade fora das pátrias, uma comunidade cosmopolita, parece particularmente adequada para intervir no debate sobre esses grandes temas. Quais são esses temas? Creio que são substancialmente dois: a opressão entendendo como expressão todas as violações dos direitos do homem, à defesa de alguns dos quais (liberdade pessoal, liberdade de pensamento, de imprensa, de religião) os homens de cultura são particularmente sensíveis; e a guerra entendendo-se na aceção mais ampla para compreender assim as guerras insurrecionais, revolucionárias, civis, de liberdade, etc. Tanto um como outro tema podem se resolver no único grande problema da violência na história, diante do qual o intelectual se ergue como portador das exigências da razão, da verdade, da liberdade, da tolerância, da compreensão, do amor, da piedade.

Este compromisso contra a injustiça e opressão social é claramente visível no envolvimento de um grupo de intelectuais no recente movimento norte-americano Occupy. A 16 de outubro de 2011, Dan Berrett destaca no The Chronicleas raízes académicas e o envolvimento de intelectuais no movimento Occupy (Cornel West, Slavoj Zizek, o francês Fox Piven). A reportagem realça o discurso do Nobel da economia Joseph Stigglitz, que aquando da sua visita ao Occupy Wall Street afirmou: Estamos a suportar os custos das suas más ações.

Temos um sistema em que se socializam as perdas e se privatizam os ganhos. Isto não é capitalismo; não é economia de mercado. Isto é uma economia distorcida. [14] Entretanto, outros membros reconhecidos da academia americana intervieram no movimento como forma de o legitimar, tanto através de intervenções pessoais Michael Hardt,[15] Jeffrey D. Sachs,[16] Lawrence Lessig[17] como através de uma petição de mais 200 membros da Universidade de Columbia que apadrinham o Occupy Wall Street". Uma das intervenções mais carismáticas foi a do filósofo Slavoj Zizek, que apelou a um sentido de responsabilidade social contínuo, que para além do delírio do momento.[18] À luz da reflexão aqui proposta, podemos concluir que os intelectuais do século XXI retomaram o seu efeito desestabilizador e ganharam notoriedade nas ondas de contestação social. Parece-nos então que a intervenção social, cívica e política dos agentes do campo cultural da última década não se ajusta à proposta de Z. Bauman (1987), pois os intelectuais, com a sua centelha de imaginação na conceção de alternativas, e uma pitada de coragem necessária para polarizar, provocar e escrever panfletos (Habermas, 2009), têm produzido juízos críticos, instigado cada vez mais o debate público, que até então parecia adormecido por uma visão do mundo consensual, e têm participado ativamente em movimentos sociais. Em suma, e reproduzindo as palavras de S.

Nair, tanto os intelectuais, como os cidadãos em geral, terão de recuperar [] a insolência salvadora da luta pela liberdade, pela igualdade e pela solidariedade. Certamente que isto não é a solução para o atual impasse. Mas é a única via realmente humana para sair dele. (Morin e Nair, 1997: 257)


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