Quando as saquetas se confundem: ingestão de cloridrato de benzidamina
INTRODUÇÃO
O cloridrato de benzidamina é um anti-inflamatório não esteroide com
propriedade anti-inflamatória, analgésica, antipirética e antimicrobiana. Está
disponível sob diversas apresentações farmacológicas: solução para pulverização
bucal (Tantum Verde®, Flogoral®, Mebocaína Anti-Inflam®), solução vaginal (Ro
salgin®), pó para solução vaginal (Rosalgin®), pastilhas (Tantum Verde®,
Flogoral®, Mebocaína Anti-Inflam®), creme (Tantum®) e gel (Tantum®, Momen®) de
uso cutâneo. É utilizada para tratamento sintomático de condições orofaríngeas,
osteoarticulares e ginecológicas1.
A farmacocinética caracteriza-se por uma rápida absorção gastrointestinal após
a ingestão oral, sendo que aproximadamente 64% da dose é absorvida na primeira
hora, estando completa em 4 a 5 horas. A metabolização é hepática, com uma
semivida plasmática de aproximadamente 8 horas, sendo eliminada pelas fezes e
urina. A absorção a nível da pele e da mucosa oral e genital é baixa, sendo
inferior a 10% da dose de aplicação tópica2,3.
A intoxicação aguda com benzidamina está associada a agitação, ansiedade,
alterações visuais, alucinações e convulsão. Há casos em que após a ingestão de
doses elevadas de benzidamina apresentaram alterações como irritabilidade,
hiperactividade a estímulos externos, movimentos coreiformes dos membros, a que
se seguiu um estado de depressão, constituído por torpor e hipotonicidade4.
CASO CLÍNICO
Menino de 4 anos e 8 meses, seguido em consulta de pediatria por obstipação e
encoprese, medicado com macrogol em saquetas. Sem antecedentes familiares de
relevo e sem alergias medicamentosas conhecidas.
Trazido ao serviço de urgência por quadro neurológico caracterizado por
agitação psicomotora e alucinações visuais (cobras no corpo), com início uma
hora após a ingestão acidental de 500 mg de cloridrato de benzidamina
(Rosalgin® pó para solução vaginal) diluída em água (31,3 mg/Kg), ao invés de
ter sido administrado uma saqueta de macrogol.
Ao exame objetivo apresentava a via aérea permeável, ventilação espontânea,
saturação periférica de oxigénio de 98% em ar ambiente e auscultação
cardiopulmonar sem alterações. Estava corado, hidratado, hemodinamicamente
estável, apirético e normoglicémico. A nível neurológico apresentava ataxia,
tremor, abalos espasmódicos ocasionais, pupilas isocóricas e isorreativas,
reconhecendo a mãe e o seu próprio nome.
Contactado o Centro de Informação Antivenenos (CIAV), que confirmou que a
sintomatologia era compatível com a intoxicação por cloridrato de benzidamina.
Foi dada a informação que as alucinações seriam difíceis de controlar,
alertando para o facto de o diazepam não ser eficaz no controlo destas,
sugerindo a utilização de haloperidol.
Realizada lavagem gástrica com soro fisiológico, cerca de 2h após a ingestão, e
administrado carvão ativado, na dose de 1,25 g/Kg. A avaliação analítica
efetuada, que incluiu hemograma, gasometria, ionograma, funções hepática e
renal não revelou alterações. Dada a severidade das alucinações, foi
administrado haloperidol (2 doses de 0,02 mg/Kg).
Procedeu-se à transferência do doente para um hospital terciário, pela
possibilidade descrita na literatura5de poder ocorrer asfixia por espasmo da
musculatura respiratória. Permaneceu internado em observação, tendo realizado
fluidoterapia endovenosa e inibidor da bomba de protões. Evidenciou melhoria
das alucinações visuais, referindo a presença de pe quenos pontos luminosos até
9h após a ingestão. Cerca de 12h após a ingestão do fármaco repetiu avaliação
analítica que se manteve sem alterações. Teve alta ao 2º dia de internamento,
assintomático.
DISCUSSÃO
O mecanismo pelo qual ocorrem os efeitos alucinogénios ainda é desconhecido.
Por um lado, a presença de indazol pode explicar a ocorrência de alucinações
pela semelhança química com o componente indol presente na serotonina, levando
à ativação serotoninérgica dos recetores 5HT2A, dando origem a alucinações tal
como os alucinogéneos primários (dimetilamina no ácido lisérgico e
dimetiltriptamina)6. Por outro, a benzidamina em doses elevadas aumenta a
produção de dopamina a nível cerebral, acelerando a atividade do sistema
límbico. Consequentemente as experiências armazenadas na memória afetiva são
vivenciadas de maneira deformada, levando à perceção da realidade de forma
alterada4.
O tratamento da intoxicação por benzidamina é de suporte, com lavagem gástrica
até 60 minutos após a ingestão e ad ministração de carvão ativado. Recomenda-se
que se force a diurese e se alcalinize a urina, de forma a aumentar a sua
eliminação2. Não se conhece um antídoto específico. A utilização de diazepam
para controlo das alucinações parece ineficaz, não havendo suporte na
literatura para este fato. A nível nacional, a indicação para a utilização de
haloperidol é dada pelo CIAV e tem por base a informação recolhida ao longo dos
anos, sedimentada na experiência dos que se têm deparado com estes casos. De
2010 a 2014, o CIAV registou 36 casos de exposição/ intoxicação por ingestão de
benzidamina: 30 do sexo feminino, idade média de 26,7 anos (min. 2 e máx. 71) e
16 com idade inferior a 18 anos.
Nos últimos anos, o uso de benzidamina tem sido popular entre os adolescentes e
adultos jovens7. No Brasil, foi realizado um estudo sobre o uso recreativo de
benzidamina6. Os resultados observados identificaram o seu uso entre crianças e
adolescentes que se encontram na rua. A popularidade da benzidami na deve-se ao
seu baixo preço, fácil acesso e uso. Na internet8são obtidas informações
relativas às alucinações produzidas pelo fármaco, geralmente associando o
consumo de álcool6,9, bem como a duração, como se deve tomar e a descrição
pormenorizada dos efeitos. Estão descritos vários casos clínicos relacionados
com a ingestão acidental10, uso recreativo11e tentativa de suicídio2. De
referir, ainda, um caso em que as queixas psicóticas se mantiveram após a
descontinuação de benzida mina, não sendo claro se esta desencadeou um novo
processo psicótico ou despoletou uma psicose latente12.
Em Portugal trata-se de um fármaco de venda livre e de baixo custo, devendo
existir meios para monitorizar a comer cialização e utilização deste
medicamento, promovendo a sua farmacovigilância, de forma a assegurar o seu uso
seguro e racional.