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EuPTCVHe0872-07542015000400008

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
Year2015
Issue0004
Article number00008

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Quando as saquetas se confundem: ingestão de cloridrato de benzidamina

INTRODUÇÃO O cloridrato de benzidamina é um anti-inflamatório não esteroide com propriedade anti-inflamatória, analgésica, antipirética e antimicrobiana. Está disponível sob diversas apresentações farmacológicas: solução para pulverização bucal (Tantum Verde®, Flogoral®, Mebocaína Anti-Inflam®), solução vaginal (Ro salgin®), para solução vaginal (Rosalgin®), pastilhas (Tantum Verde®, Flogoral®, Mebocaína Anti-Inflam®), creme (Tantum®) e gel (Tantum®, Momen®) de uso cutâneo. É utilizada para tratamento sintomático de condições orofaríngeas, osteoarticulares e ginecológicas1.

A farmacocinética caracteriza-se por uma rápida absorção gastrointestinal após a ingestão oral, sendo que aproximadamente 64% da dose é absorvida na primeira hora, estando completa em 4 a 5 horas. A metabolização é hepática, com uma semivida plasmática de aproximadamente 8 horas, sendo eliminada pelas fezes e urina. A absorção a nível da pele e da mucosa oral e genital é baixa, sendo inferior a 10% da dose de aplicação tópica2,3.

A intoxicação aguda com benzidamina está associada a agitação, ansiedade, alterações visuais, alucinações e convulsão. casos em que após a ingestão de doses elevadas de benzidamina apresentaram alterações como irritabilidade, hiperactividade a estímulos externos, movimentos coreiformes dos membros, a que se seguiu um estado de depressão, constituído por torpor e hipotonicidade4.

CASO CLÍNICO Menino de 4 anos e 8 meses, seguido em consulta de pediatria por obstipação e encoprese, medicado com macrogol em saquetas. Sem antecedentes familiares de relevo e sem alergias medicamentosas conhecidas.

Trazido ao serviço de urgência por quadro neurológico caracterizado por agitação psicomotora e alucinações visuais (cobras no corpo), com início uma hora após a ingestão acidental de 500 mg de cloridrato de benzidamina (Rosalgin® para solução vaginal) diluída em água (31,3 mg/Kg), ao invés de ter sido administrado uma saqueta de macrogol.

Ao exame objetivo apresentava a via aérea permeável, ventilação espontânea, saturação periférica de oxigénio de 98% em ar ambiente e auscultação cardiopulmonar sem alterações. Estava corado, hidratado, hemodinamicamente estável, apirético e normoglicémico. A nível neurológico apresentava ataxia, tremor, abalos espasmódicos ocasionais, pupilas isocóricas e isorreativas, reconhecendo a mãe e o seu próprio nome.

Contactado o Centro de Informação Antivenenos (CIAV), que confirmou que a sintomatologia era compatível com a intoxicação por cloridrato de benzidamina.

Foi dada a informação que as alucinações seriam difíceis de controlar, alertando para o facto de o diazepam não ser eficaz no controlo destas, sugerindo a utilização de haloperidol.

Realizada lavagem gástrica com soro fisiológico, cerca de 2h após a ingestão, e administrado carvão ativado, na dose de 1,25 g/Kg. A avaliação analítica efetuada, que incluiu hemograma, gasometria, ionograma, funções hepática e renal não revelou alterações. Dada a severidade das alucinações, foi administrado haloperidol (2 doses de 0,02 mg/Kg).

Procedeu-se à transferência do doente para um hospital terciário, pela possibilidade descrita na literatura5de poder ocorrer asfixia por espasmo da musculatura respiratória. Permaneceu internado em observação, tendo realizado fluidoterapia endovenosa e inibidor da bomba de protões. Evidenciou melhoria das alucinações visuais, referindo a presença de pe quenos pontos luminosos até 9h após a ingestão. Cerca de 12h após a ingestão do fármaco repetiu avaliação analítica que se manteve sem alterações. Teve alta ao dia de internamento, assintomático.

DISCUSSÃO O mecanismo pelo qual ocorrem os efeitos alucinogénios ainda é desconhecido.

Por um lado, a presença de indazol pode explicar a ocorrência de alucinações pela semelhança química com o componente indol presente na serotonina, levando à ativação serotoninérgica dos recetores 5HT2A, dando origem a alucinações tal como os alucinogéneos primários (dimetilamina no ácido lisérgico e dimetiltriptamina)6. Por outro, a benzidamina em doses elevadas aumenta a produção de dopamina a nível cerebral, acelerando a atividade do sistema límbico. Consequentemente as experiências armazenadas na memória afetiva são vivenciadas de maneira deformada, levando à perceção da realidade de forma alterada4.

O tratamento da intoxicação por benzidamina é de suporte, com lavagem gástrica até 60 minutos após a ingestão e ad ministração de carvão ativado. Recomenda-se que se force a diurese e se alcalinize a urina, de forma a aumentar a sua eliminação2. Não se conhece um antídoto específico. A utilização de diazepam para controlo das alucinações parece ineficaz, não havendo suporte na literatura para este fato. A nível nacional, a indicação para a utilização de haloperidol é dada pelo CIAV e tem por base a informação recolhida ao longo dos anos, sedimentada na experiência dos que se têm deparado com estes casos. De 2010 a 2014, o CIAV registou 36 casos de exposição/ intoxicação por ingestão de benzidamina: 30 do sexo feminino, idade média de 26,7 anos (min. 2 e máx. 71) e 16 com idade inferior a 18 anos.

Nos últimos anos, o uso de benzidamina tem sido popular entre os adolescentes e adultos jovens7. No Brasil, foi realizado um estudo sobre o uso recreativo de benzidamina6. Os resultados observados identificaram o seu uso entre crianças e adolescentes que se encontram na rua. A popularidade da benzidami na deve-se ao seu baixo preço, fácil acesso e uso. Na internet8são obtidas informações relativas às alucinações produzidas pelo fármaco, geralmente associando o consumo de álcool6,9, bem como a duração, como se deve tomar e a descrição pormenorizada dos efeitos. Estão descritos vários casos clínicos relacionados com a ingestão acidental10, uso recreativo11e tentativa de suicídio2. De referir, ainda, um caso em que as queixas psicóticas se mantiveram após a descontinuação de benzida mina, não sendo claro se esta desencadeou um novo processo psicótico ou despoletou uma psicose latente12.

Em Portugal trata-se de um fármaco de venda livre e de baixo custo, devendo existir meios para monitorizar a comer cialização e utilização deste medicamento, promovendo a sua farmacovigilância, de forma a assegurar o seu uso seguro e racional.


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