Artigo recomendado
COMENTÁRIOS
O reconhecimento e orientação das situações de emergência psiquiátrica são uma
necessidade dos profissionais de saúde que trabalham nos serviços de urgência
de cuidados pediátricos.
Esta necessidade é fundamental, tendo em conta que os recursos em
pedopsiquiatria são limitados, e fazem-se habitualmente em articulação com
serviços que não existem no mesmo espaço físico hospitalar.
O alargamento recente da pediatria até aos 18 anos em todo o país veio também
aumentar o atendimento de adolescentes, faixa etária com maior incidência de
problemas de saúde mental e quadros psiquiátricos. Por outro lado, é
reconhecida a nível mundial, a tendência no aumento de procura de jovens com
problemas de saúde mental nos serviços de emergência1.
O aumento dos atendimentos na Unidade de Atendimento Urgente no Departamento de
Pedopsiquiatria do Centro Hospitalar do Porto é provavelmente uma consequência
do mesmo fenómeno2.
Os serviços de urgência pediátrica enfrentam dificuldades no atendimento deste
tipo de utentes pelas limitações de tempo e de espaço, pelas características
dos doentes (podem apresentar comportamentos disruptivos e agressivos) que
podem perturbar a rotina e o fluxo do trabalho e ainda pela falta de formação e
treino na identificação e tratamento das perturbações psiquiátricas; acresce
ainda que, um local sobrelotado, ruidoso e com estímulos perturbadores não é
facilitador para avaliar e tranquilizar jovens com estas problemáticas3.
São consideradas como situações urgentes, os verdadeiros quadros
psiquiátricos4, que podem manifestar-se de novo, ou sofrer uma recidiva:
quadros psicóticos
mania aguda
depressão
quadros de ansiedade (Perturbação de Pânico, Perturbação de Stress Pós-
Traumático).
Existem também problemas agudos de saúde mental, que se podem acompanhar ou não
de um distúrbio psiquiátrico, que se apresentam nos serviços de urgência e
requerem avaliação 4:
comportamentos suicidários
agressão e os comportamentos fora de controlo
conflitos pais-filhos
reações de ajustamento (morte de pessoa significativa ou rutura amorosa, por
ex.)
situações de abuso
ausência de lar.
A Associação Americana de Pediatria recomenda o aperfeiçoamento do rastreio dos
problemas de saúde mental nos serviços de emergência, através da utilização de
instrumentos estandardizados. Os autores do artigo propuseram-se então a criar
um instrumento que permitisse a recolha de informação relevante para a tomada
de decisão, breve, de fácil aplicação e não exigente do ponto de vista da
formação. Foi o que fizeram ao adaptar uma entrevista psicossocial para
adolescentes já conhecida ' a HEADS ' cuja mnemónica diz respeito a Home,
Education, Activities/peers, Drugs/alchool e Suicidality. Acrescentaram as
áreas Emotions/behaviors e Discharge/resources, dando então origem à sigla
HEADS-ED.
A HEADS-ED inclui 7 itens que abrangem domínios importantes da vida dos
adolescentes, incluindo o planeamento para a alta e um sistema de codificação
segundo a gravidade clínica de 0 a 2; 0 quando não há necessidade de ação, 1
quando a ação é necessária, mas não imediata e 2 quando a ação é requerida de
imediato. Os autores concluíram que este instrumento apresenta boas
características psicométricas:
uma pontuação > 5 (percentil 50) associava-se à avaliação psiquiátrica
uma pontuação > 7 (percentil 75) com um fator 2 no risco de suicídio,
associava-se a internamento psiquiátrico
Os jovens que apresentavam risco de suicídio e problemas com as emoções/
comportamento tinham maior probabilidade de precisar de intervenção imediata,
em comparação com os problemas relativos ao lar, escola, atividades/ pares e
álcool/drogas.
Os autores partem do pressuposto que os clínicos conhecem o questionário de
origem e que possuem as competências necessárias para interrogar o adolescente.
Um modelo muito próximo pode ser consultado a propósito da HEADSS (inclui o
item da sexualidade), com sugestões acerca da técnica de entrevista5
O questionário HEADS-ED pode ser pedido ao autor e pode servir como modelo para
a adaptação em serviços de urgência pediátricos no nosso país, tendo sido
obtida a autorização para utilização no Centro Hospitalar do Porto.