CONTROLO DE INFESTANTES EM TRIGO DE SEMENTEIRA
DIRECTA UTILIZANDO DOSES DE HERBICIDA E VOLUMES
DE CALDA REDUZIDOS
INTRODUÇÃO
A redução dos custos de produção, o
efeito negativo dos pesticidas no ambiente e
o risco de contaminação dos alimentos, tem
levado os agricultores em quase todo o mundo, à redução da aplicação destes produtos
químicos, nomeadamente dos herbicidas. Em
alguns países, tem havido mesmo, uma
pressão crescente no sentido de banir a utilização de muitos herbicidas (Matteson, 1995).
Na actualidade, o objectivo do maneio
de infestantes centra-se cada vez mais em
manter a comunidade infestante num nível
aceitável e não tanto, deixar a cultura totalmente livre de infestantes. Vários trabalhos
científicos mostram que um controlo bastante satisfatório de infestantes pode muitas
vezes ser conseguido, utilizando-se doses
de herbicida inferiores às recomendadas
pelos fabricantes dos produtos, mantendo
a produção potencial das culturas (Lundkvist, 1997; Fernandez-Quintanilla et al.,
1998; Navarrete et al., 2000; Zhang et al.,
2000; Boström & Fogelfors, 2002).
Zhang et al., (2000), com base em diferentes estudos, em várias culturas e diferentes
condições ambientais, encontraram variações
substanciais na eficiência do controlo das
infestantes, usando diferentes doses de herbicida. Em alguns estudos, em que usaram a
dose de herbicida recomendada, obtiveram
uma eficiência de apenas 20 a 40 %, enquanto
uma eficiência maior que 70 % foi conseguida
em 50 % dos estudos com doses de herbicidas de apenas 20 % em relação às doses
recomendadas. Os mesmos autores verificaram, também, que a eficiência no controlo
das infestantes tendeu a ser menor, e a variar
mais, para as doses inferiores às recomendadas, mas permaneceu dentro dos valores
de 60-100% em mais de 90% dos casos. Em
cereais, mais de 70% de controlo de infestantes foi mantido em mais de 90% dos casos,
para doses de herbicida entre 30 e 60% das
doses recomendadas.
A redução dos custos de produção, a
diminuição da erosão dos solos e o aumento
da fertilidade dos mesmos a médio e longo
prazo, consequência da melhoria da sua
estrutura, tem levado os agricultores em todo
o mundo, e também em Portugal, a adoptar
cada vez mais o sistema de sementeira
directa, particularmente na instalação de
cereais de Outono/Inverno. A utilização
deste sistema de mobilização do solo conduz
a uma alteração na distribuição das sementes
das infestantes no perfil do solo, tendendo
a acumular-se à superfície ou perto desta
(Streit et al., 2002). Deste modo, poder-se-á
esperar uma grande infestação após as
primeiras chuvas, infestantes essas que
serão controladas em pré-sementeira, não
sendo pois, de esperar a ocorrência de
grandes reinfestações quando a cultura já
estiver estabelecida. Gill & Arshad (1995) e
Jensen (1995) referem uma emergência tardia
reduzida de infestantes anuais com o
decréscimo da intensidade de mobilização
do solo e especialmente em solos não cultivados. Em sementeira directa, em que não
há distúrbio no solo e a superfície está coberta pelos resíduos das plantas, a densidade
de infestantes é reduzida quando comparada
com outros sistemas (Zanin et al., 1997; Streit
et al., 2002).
Assim, com a sementeira directa, a germinação menos escalonada das infestantes ao
longo do ciclo da cultura, poderá permitir o
seu controlo numa fase mais precoce do seu
desenvolvimento, quando se encontrem
mais sensíveis ao herbicida, o que, por sua
vez, não só possibilitará o uso de doses
reduzidas de herbicida, mas também de
volumes de calda menores, para garantir um
suficiente contacto com as folhas das
infestantes. Como foi demonstrado por O )
Donovan et al., (1985), a remoção precoce
das infestantes é importante para evitar
reduções de produção nas culturas.
Quer a Avena sterilis L. quer o Lolium rigidum G. são duas das infestantes mais problemáticas em pós-emergência nos cereais de
Outono/Inverno, principalmente no trigo e, nos
últimos anos, o herbicida diclofope-metilo +
fenoxaprope – p – etilo + mefenepir dietilo, tem
sido utilizado pelos agricultores portugueses
com resultados bastante satisfatórios quando
se aplica a dose mínima recomendada (2.5
lha-1) em interacção com volumes de água que
variam entre 350 e 600 lha-1.
O objectivo do presente trabalho foi o
de estudar a possibilidade da redução da
dose de um herbicida e do volume de calda
relativamente ao recomendado pelo fabricante, mantendo um controlo satisfatório das
infestantes gramíneas Avena sterilis L e
Lolium rigidum G. e consequentemente
mantendo a produção potencial da cultura
do trigo em sementeira directa.
MATERIAL E MÉTODOS
Os ensaios para estudar o efeito de três
doses de herbicida inferiores às recomendadas pelo fabricante no controlo da Avena
sterilis L. e do Lolium rigidum G., em interacção com três volumes de água também
inferiores aos recomendados, em dois estádios de desenvolvimento das infestantes,
foram levados a cabo nos anos agrícolas de
2002/2003, 2003/2004 e 2005/2006, numa
herdade privada do Concelho de Évora (Sul
de Portugal). Os ensaios realizaram-se em
três campos experimentais da mesma herdade, com características edáficas semelhantes. Os dados climáticos (temperatura e
precipitação) foram registados automaticamente numa estação meteorológica próxima
dos campos de ensaio. A precipitação
mensal e a temperatura média mensal em cada
ano são apresentadas noa Quadros 1 e 2. As
características físicas e químicas, do solo
nos locais dos ensaios, são apresentadas
no Quadro 3.
O herbicida utilizado é uma mistura de
250 gl-1 ou 22,73 % de diclofope - metilo + 20
g l-1 ou 1,82 (p/p) de fenoxaprope-p-etilo +
40 g l-1 ou 3,64 (p/p) de mefenepir - dietilo. É
um herbicida de contacto e translocação,
indicado para o combate em pós-emergência
da Avena sterilis, Phalaris minor, Phalaris
brachystachys, Phalaris paradoxa e do
Lolium rigidum na cultura do trigo, sendo
referenciado como muito eficaz no controlo
da Avena sterilis L. e do Lolium rigidum G.
A este herbicida juntou-se 15 g ha -1 de
sulfonilureia (Tribenurão – metilo 75%) para
o controlo das infestantes dicotiledóneas.
Os ensaios foram delineados em blocos
casualizados, estando os tratamentos em
combinação factorial. O número de repetições
era de quatro e cada talhão tinha uma área de
30m2 (3m x 10m) a que correspondeu uma área
total de cada ensaio de 1440m2. Os tratamentos
foram os seguintes:
Doses de herbicida: D0 – controlo; D1 –
1 l ha-1; D2 – 1.5 l ha-1 e D3 – 2 l ha-1.
Volumes de calda: V1 – 100 l ha-1; V2 –
200 l ha-1 e V3 – 300 l ha-1.
Épocas de tratamento: 1ª – início do
afilhamento das infestantes e 2ª – afilhamento completo das infestantes.
A cultura do trigo foi estabelecida através
de sementeira directa, de meados de Outubro
a meados de Novembro. A rotação praticada
era Ervilha forrageira Trigo Trigo. O
controlo de infestantes em pré-sementeira
foi efectuado através da aplicação de um
herbicida total, sistémico e não residual, no
caso o glifosato.
Os talhões foram pulverizados com um
equipamento próprio para ensaios, equipado
com bicos de fenda (110 o-12), quando
aproximadamente 90% das infestantes
estavam na fase do início do afilhamento (1ª
época de aplicação) e quando cerca de 90 %
das infestantes estavam na fase de afilhamento completo (2ª época de aplicação). As
pressões e as velocidades de avanço utilizadas foram função dos volumes de água
utilizados. As infestantes foram contadas
duas vezes em cada ano, mas não foram
removidas. A primeira contagem teve lugar
imediatamente antes do tratamento e a segunda contagem cerca de dois meses depois
do tratamento, em caixilhos de 50cm x 50cm
(um por talhão) colocados em todos os
talhões e na parte central destes.
A eficiência dos diferentes tratamentos
é expressa como a percentagem de infestantes controladas e pode ser calculada pela
seguinte expressão:
Ef = 100 – ((C2 - d)/C1)* 100
Onde Ef é a eficiência do tratamento (%),
C1 o número de infestantes por m2 contadas
antes do tratamento, C2 o número de infestantes por m2, contadas depois do tratamento
e d a diferença no número de infestantes por
m2 contadas nos talhões testemunha (reinfestação).
Na 1ª época de aplicação (início do
afilhamento das infestantes) o valor médio
de d foi de 16.5 plantas m-2 para a Avena e de
2.9 plantas m-2 para o Lolium. Na 2ª época de
aplicação (afilhamento completo das infestantes) o valor médio de d foi de 3 plantas m2
para a Avena e 1.5 plantas m-2 para o Lolium.
O trigo foi semeado com uma densidade
entre160 e 180 kg ha-1 e a fertilização em N, P
e K foi aplicada de acordo com as recomendações, para manter o nível de fertilidade.
Em cada um dos anos de ensaio, a área
colhida correspondeu a 15m2 da parte central
de cada talhão para evitar o efeito de bordadura, usando-se para tal, uma ceifeira debulhadora própria para ensaios. A produção
de grão por unidade de área foi determinada
directamente, depois da correcção da humidade. O tratamento estatístico consistiu na
análise de variância que se aplicou aos diferentes parâmetros estudados, sendo feita de
acordo com o delineamento experimental do
ensaio. A separação de médias foi efectuada
sempre que o teste F revelou uma probabilidade do erro justificar diferença, menor ou
igual a 5 % (p ≤ 5%), pelo teste de separação
múltipla de médias de Duncan. O programa
estatístico utilizado foi o MSTAT-C.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em relação à eficiência do controlo da
Avena sterilis L., apenas a dose de herbicida
revelou efeito significativo (Quadro 4). Em
termos médios, a dose D2 (1.5 l ha-1), que é
metade da dose máxima recomendada, não
diferiu significativamente da dose D3 (2 l ha-1),
e conduziu a níveis de eficiência de aproximadamente 95 %. Existiu uma sugestão de interacção entre a dose de herbicida e o volume
de calda, verificando-se que quanto menor a
dose, mais importante se tornou a redução
do volume de calda, sugerindo assim, que a
concentração afecta a eficiência do herbicida.
Existiu igualmente uma sugestão de interacção
entre a dose de herbicida e a época de aplicação, verificando-se que a antecipação da aplicação parece ser mais favorável para as doses
de herbicida mais reduzidas.
Relativamente à eficiência do controlo do
Lolium rigidum G. verificou-se um efeito
significativo da dose de herbicida e do volume
de calda aplicado (Quadro 5). O efeito da dose
foi idêntico ao verificado para o controlo da
Avena sterilis L., ou seja, a dose D2 não diferiu
significativamente da dose D3. O aumento do
volume de calda fez diminuir a eficiência do
herbicida, não havendo neste caso, nenhuma
sugestão de interacção entre os dois factores,
ou seja, a perda de eficiência resultante da
utilização do volume de calda mais elevado
(300 l ha-1) foi idêntica nas três doses de
herbicida testadas. Existe, à semelhança do
que se tinha verificado para a Avena sterilis L.,
uma sugestão de interacção entre a dose e a
época de aplicação, em que a antecipação desta
parece ser mais vantajosa nas doses mais
reduzidas.
No que respeita à produção de grão na
cultura, verificou-se um efeito significativo da
dose de herbicida, da época de aplicação e da
interacção entre estes dois factores (Quadro
6). Em termos médios, a dose D3, mais próxima
da recomendada pelo fabricante, conduziu a
um aumento significativo na produção da
cultura. No entanto, analisando a interacção
entre a dose de herbicida e a época de aplicação, verifica-se que para a 1ª época não existiram diferenças significativas da produção
entre as doses testadas. Assim, a antecipação
da época de aplicação não só permitiu aumentar, de forma significativa, a produção da cultura
como também permitiu reduzir a dose de
herbicida a utilizar. O aumento da produção de
grão terá resultado do facto de se ter libertado
a cultura da competição das infestantes numa
fase mais precoce do seu ciclo e, a possibilidade
da redução da dose, resultará da menor idade
das infestantes à data do tratamento.
Os resultados obtidos nestes ensaios
parecem estar de acordo com os conseguidos
por Lundkvist, (1997), Fernandez-Quintanilla
et al. (1998), Navarrete et al. (2000) e Zhang
et al. (2000), os quais demonstraram haver
um controlo bastante satisfatório de infestantes e consequentemente uma boa produção das culturas, mesmo utilizando-se
doses de herbicida inferiores às recomendadas pelos fabricantes dos produtos.
Também O’Donovan et al., (1985), referem ser
a remoção precoce das infestantes, importante
para evitar reduções na produção das culturas.
CONCLUSÕES
1. A antecipação do tratamento permite
aumentar a eficiência no controlo das infestantes Avena sterilis L. e Lolium rigidum G.,
mesmo utilizando-se doses de herbicida e
volumes de calda inferiores aos recomendados pelo fabricante.
2. A maior eficiência no controlo das infestantes e o menor período de competição entre
estas e a cultura conduzem a maiores produções de grão quando o tratamento é realizado
numa fase mais temporã do desenvolvimento
das infestantes.
3. A aplicação do herbicida numa fase mais
precoce do desenvolvimento das infestantes,
permite reduzir a aproximadamente metade, a
dose de herbicida e o volume de calda em
relação ao recomendado, mantendo a
produção potencial da cultura.