«A crise da paz» - Portugal e a Organização das Nações Unidas: das origens à
admissão (1945-1955)
Durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente após a entrada dos Estados
Unidos em dezembro de 1941, as três grandes potências aliadas - Estados
Unidos, Império Britânico e União Soviética - foram reunindo e
aprofundando esforços com o intuito de prepararem uma paz duradoira para o dia
seguinte ao fim do conflito iniciado com um ataque alemão à Polónia a 1 de
setembro de 1939. Ao contrário daquilo que muitas vezes se pensa e diz, a ONU
não foi o único nem eventualmente o principal testemunho daqueles esforços,
embora tenha sido um dos mais importantes e certamente o mais duradoiro. E isto
porquê? Porque apesar de os "Três Grandes" terem a noção de que
garantir a segurança era essencial para a preservação da paz, havia outras
dimensões da vida das sociedades, dos estados e do sistema internacional que
necessitavam de uma atuação coesa, determinada e eficaz para que o mundo
pudesse tornar‑se e manter‑se mais seguro. Era o caso da aplicação da justiça
no caso dos crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelos vencidos
(foi o que se pretendeu fazer aplicando um sistema de justiça especial nos
julgamentos de Nuremberga); da criação de estruturas que tratassem da
assistência imediata às populações e da ajuda à reconstrução (instituiu-se a
UNRRA, substituída parcialmente mais tarde pelo Fundo Monetário Internacional e
pelo Banco Mundial); e da construção de um sistema económico global assente em
estruturas monetárias sólidas e num comércio internacional próspero e crescente
(daqui nasceu o chamado sistema de Bretton Woods que regulou, direta ou
indiretamente, as relações económicas e financeiras internacionais até finais
da década de 1960)2.
Este texto não pretende, embora essa análise possa e deva ser feita, estudar o
modo como o Estado português encarou, por um lado, e participou, por outro, no
processo de construção de uma ordem internacional tão complexa e multifacetada
como foi aquela concebida e aplicada, em parte, ainda no decurso da Segunda
Guerra Mundial, mas sobretudo após o seu desfecho. O que aqui se faz é tentar
perceber e explicar de que forma algumas personagens e instituições ligadas ao
modo como era definida e executada a política externa portuguesa entre 1941 e
1955, enfrentaram vários desafios decorrentes da criação e, mais tarde, da
existência da Organização das Nações Unidas (ONU).
DAS ORIGENS À CONFERÊNCIA DE SÃO FRANCISCO
No decurso da Segunda Guerra Mundial, o Governo português seguiu atentamente os
desenvolvimentos políticos e militares que conduziriam à criação e consolidação
de uma nova ordem internacional após a conclusão do conflito. Até à primeira
queda de Mussolini, a 24 de julho de 1943, as autoridades lusas teriam dúvidas
legítimas sobre quem sairia vencedor da confrontação, ou se haveria sequer um
campo vencedor, nomeadamente nos cenários europeu e atlântico3. Apesar de, em
finais de abril daquele ano, Salazar, num importante discurso4, ter tecido
considerações e veiculado preocupações sobre o modo como uma nova ordem
internacional iria nascer, não era fácil perspetivar uma Europa novamente em
paz segundo a vontade imposta pelos vencedores ou resultante de negociações
entre beligerantes. Isto apesar de o Executivo português ter sempre pugnado por
uma solução diplomática do conflito. Nomeadamente entre alemães e italianos, de
um lado, e britânicos e, mais tarde, norte‑americanos, do outro. Em resultado
dessa sua convicção, o presidente do Conselho teorizou e pretendeu pôr em
prática, até ao verão de 1942, o "conceito de zonas de paz, que pudessem
ser úteis a todos os beligerantes durante a guerra e ao mundo depois da luta
(…)". Naquele conceito incluía Salazar, em primeiro lugar, Portugal e
Espanha, "e como prolongamento" destes "toda a América
Latina"5.
Após a queda de Mussolini uma das perguntas que as autoridades portuguesas mais
insistentemente faziam sobre o curso e o desenlace da guerra no velho
continente dizia respeito àquele que seria o limite das capacidades que a
Alemanha e os seus aliados europeus possuíam para resistirem à máquina política
e militar aliada6. Ou seja, se até ao verão de 1943 uma vitória aliada, com a
consequente imposição dos termos da paz pelos governos de Londres, Moscovo e
Washington, era considerada em Lisboa (e não apenas em Lisboa) possível mas não
inevitável, a partir daquele momento tal eventualidade tornou‑se, primeiro,
numa probabilidade com cada vez maiores possibilidades de se concretizar, para,
depois, a partir de meados de 1944, se tornar numa realidade incontornável7.
Isto significa que embora durante toda a Segunda Guerra Mundial, e em
particular nos seus dois últimos anos e meio, apesar da atenção dedicada pelo
Governo e pelo Estado português a outros acontecimentos no domínio da política
externa, não deixaram ainda assim de tentar perceber, e até antecipar, em
primeiro lugar, os termos em que os vencedores estariam a preparar uma nova
ordem política para o pós‑guerra e, em segundo lugar, qual seria a posição e o
papel que nessa nova ordem os vencedores reservariam aos pequenos países e, em
particular, às potências neutrais: isto é, a Portugal8. É neste contexto que
pode ser interpretada uma passagem da "exposição" apresentada pelo
presidente do Conselho à Assembleia Nacional sobre a "concessão de
facilidades nos Açores" aos britânicos (anunciada publicamente pelos
jornais na tarde do dia 12 e na manhã do dia 13 de outubro), e ainda acerca da
"situação das possessões portuguesas no extremo oriente". Antes de
concluir a sua "exposição" Salazar afirmou, em primeiro lugar, que
os portugueses, e presumivelmente todos os neutrais, se deviam
"considerar" cada vez "menos livres" para se
pronunciarem acerca da guerra uma vez que "esta" era "negócio
dos beligerantes a liquidar como puder ser". Mas, e em segundo lugar,
destacou que "a paz (…) interessa‑nos, como a todos, porque a paz não é o
fim da guerra, é a organização da Europa, senão do mundo; é o novo estatuto das
relações entre os povos, com os seus interesses económicos, suas reivindicações
sociais, suas ideologias políticas". Crítico, alertou para o facto de
existir apenas uma palavra capaz de traduzir o "estado de todos os
espíritos - inquietação, ou pela ignorância dos princípios que hão-de
presidir ao mundo novo ou pela descrença na eficácia de alguns que já têm sido
enunciados". E ou porque pretendia produzir um certo dramatismo junto de
quem o ouvisse ou lesse, ou porque realmente a sua preocupação relativamente ao
desconhecido era grande, talvez demasiado grande, concluía:
"Temos vencido as outras crises; também venceremos, porque
temos condições para isso, a crise da paz. Mas precisamos de estar
preparados e decididos como se fosse para vencer a guerra."9
Por finais de 1943, e assim continuaria por alguns anos, Salazar, grande parte
da elite, das classes médias e da plebe que apoiavam o regime, tiveram sinceros
e talvez fundados receios de que a "paz" seria mais ingrata para
Portugal e, sobretudo, para o Estado Novo do que tinha sido, ou estava a ser, a
guerra. Ou seja, havia que pesar seriamente a possibilidade de os vencedores
poderem tomar a iniciativa de liquidar o regime, através de ataques diretos ou
indiretos, ou de nada fazerem para impedir que este sucumbisse a ofensivas
montadas e lançadas internamente. É claro que no final do quarto ano de guerra
pouco se sabia em Lisboa sobre a forma como se iriam organizar a Europa e o
mundo após a derrota do Eixo. Mas esta ignorância não podia atribuir‑se a
qualquer inépcia da parte das autoridades portuguesas uma vez que os próprios
aliados, ou seja os "Três Grandes", poucas certezas tinham sobre o
modo como iriam arrumar o mundo uma vez terminado o conflito10. Apesar da
importância de acontecimentos anteriores, nomeadamente a Conferência de
Teerão11, apenas nas cimeiras de Ialta e Potsdam foram tomadas decisões
definitivas respeitantes às derradeiras etapas do conflito e à organização
política do mundo no pós‑guerra, em especial no que respeitava ao destino dos
derrotados na Europa, a começar pela Alemanha12.
É verdade que em meados de agosto de 1941 Churchill e Roosevelt se tinham
encontrado e conferenciado em Argentia Bay, ao largo da Terra Nova, decidindo
no final da cimeira publicitar a depois célebre Carta do Atlântico. Neste
documento avançavam‑se algumas indicações sobre os objetivos de guerra de uma
potência beligerante (o Império Britânico) e de uma potência neutral (os
Estados Unidos), mas também eram definidas as linhas gerais que deveriam
presidir à arrumação política, económica e moral do mundo depois de derrotada a
Alemanha e os seus aliados europeus13. Após a entrada dos Estados Unidos na
guerra em dezembro de 1941, e no decurso de uma prolongada estadia de Churchill
em Washington, a 1 de janeiro de 1942, norte‑americanos, britânicos e demais
aliados publicaram a Declaração das Nações Unidas que se apresentou como um
indicador da forma como os seus subscritores se comprometiam a fazer a guerra e
como uma proclamação sobre os motivos que os moviam e os objetivos - na
guerra e na paz - que os guiavam14.
No entanto, um e outro documento eram muito vagos. Senão enquanto elementos de
propaganda pelo menos enquanto indicadores claros sobre a forma como a paz
seria de juree de factopreparada e uma nova ordem política internacional
estruturada. Mas não foi esta realidade que impediu que a Carta do Atlântico e
a Declaração das Nações Unidas fossem comentadas e analisadas tanto na imprensa
como na documentação oficial portuguesa. No caso do primeiro documento, a
diplomacia portuguesa, nomeadamente o então ministro de Portugal em Washington,
tentou perceber até que ponto se poderia estar perante uma declaração que,
materializando‑se politicamente, viesse a pôr em causa uma ordem internacional
em que a existência de impérios coloniais era legítima política e moralmente e,
portanto, incontestável15. A preocupação manifestada pelo diplomata luso
fazia‑se tanto à luz daquela que era a secular tradição colonial portuguesa e
de uma política externa e de uma diplomacia que protegiam essa tradição, mas
ainda daqueles que eram os objetivos estratégicos da política externa definida
e perseguida pelo Governo português durante a Segunda Guerra Mundial16. De
Washington, telegrama atrás de telegrama e ofício atrás de ofício, eram
enviadas informações relacionadas com a forma como uma nova ordem
internacional, definida por uns Estados Unidos vencedores, poderia beliscar os
interesses portugueses no domínio colonial. À tradição anticolonialista
norte‑americana (re)fundada pelo Presidente Wilson, sucedia um novo fôlego
anticolonial inspirado pelo Presidente Franklin Delano Roosevelt, o que dava um
sinal claro daquilo que parecia ser o regresso dos Estados Unidos a uma
doutrina e a uma prática política muito crítica do colonialismo europeu tanto
na Ásia como em África. Entre 1941 e 1945, a memória dos "Catorze
Pontos" de Wilson e dos "mandatos" da Sociedade das Nações
(SdN), a par daquilo que era o conteúdo de algumas das alíneas da Carta do
Atlântico ou da Declaração das Nações Unidas, ou ainda o crescente protagonismo
de Washington na liderança da guerra e na preparação da paz, afinaram a atenção
de Lisboa e do seu ministro, e depois embaixador, em Washington, João de
Bianchi.
Por exemplo, em junho de 1943 foi transmitida para Lisboa, a pedido do
Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), uma análise dos discursos ou
opiniões avulsas proferidas nos Estados Unidos por membros da Administração
Roosevelt que evocassem "a necessidade do fim do imperialismo e a
emancipação dos povos". Segundo João de Bianchi, tais opiniões deveriam
ser entendidas não como equivalendo ao desejo de promover a emancipação
política mais ou menos imediata de todos os povos "atrasados" da
África e da Ásia, mas dizendo respeito apenas à "Índia e a outros estados
asiáticos semi-independentes de civilização já adiantada". A
"tendência", no momento, ia no sentido de restringir as teses
emancipadoras, afirmando‑se que os "povos atrasados" não seriam
ainda capazes de retirar os devidos ""benefícios da
liberdade?"".
Melindrosas eram no entanto as "ideias" correntes em torno da
"expansão do sistema de mandatos e porta aberta", muito embora os
"governantes" se abstivessem sistematicamente de emitir opiniões
conclusivas sobre o assunto. Encontravam‑se, pelo menos até à primavera de
1943, "muito silenciosos sobre a matéria". Aquelas
"ideias" eram mais recorrentes quando se falava do possível destino
das "colónias japonesas, italianas e territórios da Austrália".
João de Bianchi tomava ainda como bom o princípio de que os Estados Unidos não
pretendiam qualquer engrandecimento territorial como compensação pela sua
entrada na guerra, nomeadamente naquilo que dizia respeito à aquisição de
colónias. O diplomata português recordava que este tipo de reivindicação não
estava "nas suas tradições nem nas suas necessidades visto (os Estados
Unidos) não terem problemas de colocação de excessos populacionais nem de
matérias‑primas", para além de existir uma "razão psicológica
fundamental": a de os norte‑americanos, tradicionalmente, sempre se terem
afirmado "preocupados com a liberdade dos povos". Os problemas
futuros, naquilo que respeitava a uma possível interferência dos Estados Unidos
nas questões coloniais, não estavam por isso nas ambições territoriais que não
possuíam, mas sim na "contribuição que o seu idealismo" poderia dar
para o desenvolvimento de "políticas de cooperação internacional" e
de expansão do comércio. Estas inspiravam‑se em "ideias de mandatos,
portas‑abertas e liberdades comerciais", nas quais acreditavam "com
bastante ingenuidade" e, em parte, na sua "falta de contacto
efetivo com problemas coloniais". Finalmente, havia que considerar a
possibilidade de as administrações norte‑americanas, por pressões internas
várias, virem a intervir nas "questões coloniais" através de ações
ditas "filantrópicas". Ou seja, pretenderem canalizar para
territórios e populações sob domínio colonial parte do capital excedentário
disponível e, como consequência e contrapartida, exigirem uma maior intervenção
política junto daqueles territórios e povos. Havia por isso que seguir esta
questão com "cuidado e atenção"17.
Nesta linha de observação e análise, João de Bianchi remeteu informação sobre o
possível relacionamento dos Estados Unidos com a África. Fê‑lo a propósito de
uma conferência realizada em Nova York por Henry S. Villard,
"Chefe‑Assistente da Divisão do Próximo Oriente do State
Department". A "palestra" fora importante por ter sido
pronunciada por um funcionário superior do Departamento de Estado pertencente a
uma "repartição" por onde corriam as "questões
africanas", mas também por traduzir "as primeiras declarações de
inspiração oficial (...) pronunciadas" nos Estados Unidos a propósito
"dos problemas da África no período do pós‑guerra". Pronunciando‑se
em "tom moderado", o que não podia "deixar" de
"tranquilizar" Lisboa, deixava no ar a importância de ideias como a
"da "porta‑aberta", de uma "filantropia
internacional"" e da "necessidade de serem estudados no
futuro alguns problemas económicos e estratégicos". Tudo somado parecia
óbvio que aquilo que se cogitava no Departamento de Estado "sobre a
questão colonial" não seria "inteiramente" do
"agrado" ou estaria em "conformidade com os interesses
tradicionais" de Portugal. No entanto, era evidente que os "antigos
territórios inimigos em África" não passariam "à posse direta de
qualquer potência", ainda que fosse "improvável" que os
Estados Unidos aceitassem "sozinhos a jurisdição ou o controle de
qualquer parte de tais territórios". Por isso, careciam de fundamento os
rumores, naturalmente postos a correr pelo Eixo, segundo os quais a
Administração norte‑americana pensava apropriar‑se de territórios em África,
fosse ainda no decorrer da guerra, fosse depois desta concluída. Quanto ao
permanente objetivo anglo‑saxónico de concessão de autodeterminação política
aos territórios (africanos) dependentes, e embora ele de facto existisse no
domínio dos princípios, isso não significava que Washington ouvisse com
seriedade ""as ideias que os extremistas"" advogavam no
sentido de uma "imediata libertação de todas as dependências do controle
externo". Isto porque essa opção não só conduziria ao "caos e
confusão", mas também porque apenas "uma pequena minoria de povos
coloniais" haviam "exprimido um desejo para governo
próprio"18.
Naquilo que dizia respeito à formação e ao papel a atribuir a uma nova
organização mundial para a paz e segurança do pós‑guerra, a diplomacia
portuguesa seguiu em Washington algumas das iniciativas que apontavam nesse
sentido, a começar pela ação de Cordell Hull. Desde que em 1942 o secretário de
Estado fora "desviado" por Roosevelt do tratamento dos assuntos
diretamente relacionados com a condução da guerra para tarefas de preparação da
ordem política que deveria emergir com a paz, João de Bianchi acompanhava a sua
atividade e escutava as suas palavras. O discurso de Cordell Hull, datado de 12
de setembro de 1943, foi ouvido com atenção e transmitido e comentado para
Lisboa. Classificado à partida como sendo apenas "pouco mais (...) do que
uma nova mas fiel reprodução do conjunto de princípios e objectivos
gerais" típicos da política externa norte‑americana desde a Grande
Guerra, era, também, o enunciar de "uma espécie de carta moral em que as
várias nações do mundo deveriam fundamentar a sua política externa". A
"exposição" tinha sido "feita" apresentando "uma
lista de seis princípios gerais, completada por outros três", tendendo a
"englobar os vários aspectos de uma cooperação internacional, pacífica e
ideal, no campo político e económico". No entanto, para João de Bianchi a
passagem mais importante do discurso dizia respeito àquilo que era a vontade
manifestada pela Administração Roosevelt para que durante a guerra, como depois
do seu fim, se procurasse que cada "nação" pudesse "manter um
governo estável", devendo por isso encontrar‑se "livre para decidir
por si própria as formas e detalhes da sua organização governamental".
Isto desde que fosse feito de forma a ""não ameaçar a paz e
segurança das outras nações"". Afirmações desta natureza surgiam
como um certificado de segurança passado publicamente ao Estado Novo e
"um balde água fria para aqueles" que pareciam acreditar que logo
após o fim da guerra seriam implantados "regimes de democracia pura em
todos os países do mundo"19.
Quando mais tarde as atenções se viraram para a realização da Conferência de
São Francisco, e onde a qualidade de país participante equivalia à obtenção do
estatuto de Estado fundador daquilo que viria a ser a ONU, o Governo português
teve dificuldade em lidar, sobretudo perante a sua opinião pública, com o facto
de não ter sido convidado para nela tomar assento. Perante os diplomatas
britânicos que o visitavam, Salazar não demonstrava qualquer desapontamento
pela não participação portuguesa, como se a ausência de um convite lhe
parecesse indiferente e, sobretudo, inconsequente. Aliás, uma observação atenta
da forma como Oliveira Salazar analisava os últimos desenvolvimentos da vida
política internacional fazia mesmo pensar que, caso Portugal viesse a ser
convidado a estar presente em São Francisco, a resposta seria uma recusa.
Sobretudo, porque a sua participação, tal como se decidira na Conferência de
Ialta, implicaria uma declaração de guerra à Alemanha em circunstâncias que
Salazar considerava indignas. Isto é, num momento em que a sorte das armas
estava traçada. Seria esta, aliás, a argumentação que, por exemplo, o Diário da
Manhã, órgão oficioso do Governo, passaria para o público20.
Mas como não podia deixar de ser, a realização da Conferência de São Francisco
suscitou atenção muito especial no Palácio das Necessidades21. As informações
disponíveis eram limitadas, o que se deveu ao facto de os neutrais estarem
excluídos de nela participarem, mas ainda, segundo o embaixador português em
Washington, pelo número reduzido de funcionários norte‑americanos que
participavam nas reuniões preparatórias. Quanto ao possível rumo dos trabalhos
na definição daquele que poderia ser o estatuto dos "territórios
coloniais" - uma das questões que mais interessava a Portugal
-, parecia não haver qualquer "discussão". Estava apenas
previsto um "estudo (…) sobre a organização e estrutura de
"trusteeships" para as áreas japonesas e antigos territórios sob
mandatos", falando‑se também na possibilidade de as potências coloniais
poderem submeter os seus territórios e populações àquele regime22.
Semanas mais tarde era comunicado para Lisboa o "texto da carta",
entretanto tornado público, nomeadamente as disposições relativas aos
"povos coloniais e áreas estratégicas". A "primeira
parte" (equivalendo aos artigos 73.º e 74.º da Carta das Nações Unidas),
continha os preceitos conhecidos sobre as "responsabilidades"
inerentes à "administração de territórios cujos povos ainda não"
tivessem atingido a "completa governação própria", ou seja,
"para se aplicar também às colónias". Nos artigos 73.º e 74.º as
disposições "menos anódinas" referiam‑se "ao desenvolvimento
da governação própria", nelas se prevendo dever ter‑se em "conta as
aspirações políticas" das populações e o "auxílio" ao
"progressivo desenvolvimento" das respetivas "instituições
políticas livres". Em "atenção" deviam ser tidas "as
condições especiais de cada território", dos seus povos e os
"vários estados de adiantamento" em que se encontravam.
Discriminava‑se ainda o "compromisso" a assumir por parte das
potências administrantes de "transmitir regularmente ao Secretário-
Geral" informações acerca das "condições sociais, económicas e
educativas dos territórios" pelos quais se consideravam
"responsáveis" e que não se encontrassem em regime de
"trusteeship". A segunda parte, que correspondia aos artigos 75.º a
91.º da Carta, ocupava‑se do "sistema internacional" de tutela e do
respetivo "conselho", tratando por isso de uma realidade que não
respeitava diretamente a Portugal. Por último, era transmitida a informação de
que no caso de existirem áreas estratégicas nos territórios submetidos ao
regime de tutela, elas seriam colocadas sob o controlo do Conselho de
Segurança23.
A desconfiança portuguesa, e em especial de Salazar, relativamente ao modo como
os vencedores organizariam o mundo do pós‑guerra não nasceu no outono de 1943
aquando da publicitação da cedência de facilidades militares nos Açores aos
britânicos. Era anterior àquela data e decorria fundamentalmente daquilo que
eram os receios sobre as consequências decorrentes de um aumento exponencial do
poder norte‑‑americano não só na Europa, mas também à escala global, ao
substituir definitivamente o Império Britânico no papel de principal potência
ocidental e mundial. Aquela desconfiança transmitiu‑a Salazar aos seus
interlocutores britânicos. Logo em junho de 1941, um diplomata britânico
reuniu‑se com um Salazar "deprimido". O chefe do Governo português
iniciou a conversa vincando a ideia de que caso os britânicos insistissem em
derrotar a Alemanha de forma "decisiva", acabariam por ficar tão
exaustos que lhes seria impossível pôr a Europa outra vez de pé. Este facto
daria aos Estados Unidos uma grande liberdade de ação e, a prazo, um poder com
resultados necessariamente desastrosos para o velho continente. O interlocutor
de Salazar acrescentava em seguida na sua comunicação para o Foreign office
(FO): "As I have previously reported his fear of United States
interference in Europe after the war amounts to an obsession."24
Procurando tranquilizar o chefe do Governo português, o diplomata ao serviço do
Governo de Sua Majestade informou‑o de que as autoridades do seu país tinham
propostas para a reconstrução do pós‑guerra, pelo que não abdicariam da sua
posição na Europa em favor dos Estados Unidos. Apesar destas palavras terem
parecido confortar um pouco o presidente do Conselho, isso não equivalia de
facto a uma mudança de opinião, o que, aliás, o seu interlocutor considerava
ser muito difícil conseguir25. Toda aquela insistência depreciativa em relação
aos norte‑americanos manifestou‑se novamente em julho:
"Opening conversation yesterday evening Dr. Salazar welcomed
Eccles back to civilization. He looked on the Americans as a barbaric
people illuminated not by God but by electric light. Were we not
afraid that the world after the war would be run by United States of
America with a strong dash of Communism? This was a horrible prospect
for Europe."26
A isto respondeu Eccles27 que seria preferível à Europa viver sob a tutela de
um povo e de um governo como o americano, do que sob o jugo alemão. E para que
Salazar compreendesse a diferença e a vantagem dos Estados Unidos, bastava que
comparasse a Constituição americana com o Mein Kampf.
Ainda quanto ao entendimento de Salazar sobre o que poderia ser a organização
política do mundo depois da guerra, é importante conferir o relato de uma sua
conversa com o embaixador norte‑americano em Lisboa, R. Henry Norweb. A 13 de
fevereiro de 1945 (uma terça‑feira de Carnaval)28, aquele diplomata foi
recebido para uma conversa que durou duas horas.
"The setting was thus one of unusual intimacy and lent itself
to an atmosphere of cordiality which went beyond anything experienced
by the Ambassador in his previous talks with the Premier. Dr. Salazar
was calm, friendly and at ease throughout the conversation, and
seemed entirely unworried by internal difficulties he is reported to
have been encoun‑tering."29
A Cimeira de Ialta foi o primeiro tema tratado pelos dois homens. Salazar
mostrou surpresa pelo facto de o Japão não ter sido, aparentemente, assunto ali
tratado, sobretudo quando a guerra no Extremo Oriente havia entrado numa fase
decisiva30. Quanto à criação das zonas de ocupação aliadas na Alemanha, Salazar
manifestou o desejo de que o Reino Unido e os Estados Unidos não apenas fossem
capazes de constituir uma zona tampão entre a URSS e a Europa Ocidental, mas,
sobretudo, que estivessem conscientes acerca da importância dessa opção. Sobre
a zona de ocupação francesa, Salazar recordou o facto de a França apenas muito
dificilmente poder vir a desempenhar com eficácia uma missão de barragem ao
avanço soviético. Isto porque a influência comunista naquele país era, na sua
opinião, "considerável". Sustentava, sem quaisquer dúvidas, que as
condições ali existentes "providenciavam um solo fértil" para que,
mais cedo ou mais tarde, se verificasse uma viragem à esquerda.
A Conferência de Dumbarton Oaks e os seus resultados mereceram de Salazar ao
menos um comentário. Apesar de país neutral, Portugal tinha um grande interesse
naquilo que dizia respeito aos projetos ali discutidos e aprovados. Tinha por
"inevitável" que o "mundo" aceitasse as propostas
"ditadas" pelas "três grandes potências associadas"
- mesmo que sem qualquer "direito legal ou judicial" -,
o que decorria do facto de britânicos, russos e norte‑americanos terem sofrido
enormes perdas em homens e bens. Não podiam por isso deixar de "erguer e
insistir na aceitação" por todos do projeto em que haviam trabalhado e
que culminava na pretensão de dar forma a uma organização capaz de garantir a
segurança no mundo do pós‑guerra. Ironicamente, Salazar assinalou ainda que
caso a Europa viesse a viver uma situação de grande instabilidade, alguém
deveria "tomar responsabilidades" e "impor decisões",
não sendo claro se tal papel cabia à nova organização concebida pelos
"Três Grandes", ou apenas a estes. No entanto, para Salazar a
"viabilidade" de "qualquer organização de segurança
internacional a formar dependia (…) dos métodos empregues". Assim, quando
três potências constituíam um "sindicato", as demais potências
apenas relutantemente podiam aceitar sem dificuldade regras produzidas por
terceiros. Mas à beira do fim da guerra, e imediatamente após o fim desta,
parecia‑lhe óbvio que a "responsabilidade devia repousar nas grandes
potências". Depois logo se veria.
No entanto, e apesar destas apreciações, o chefe do Governo português
considerava ser insensato "antecipar uma era de paz" para o período
imediatamente após a conclusão do conflito na Europa. Por isso, aconselhava uma
planificação que encarasse quaisquer acordos políticos (à escala regional ou
mundial) como destinados a serem aplicados numa época e num cenário de
pacificação e não de paz. Desde logo porque a guerra no Extremo Oriente deveria
continuar ainda por algum tempo - talvez dois anos. Nestas
circunstâncias, os Estados Unidos e o Reino Unido não deveriam permitir que
"divergências na Europa ou em qualquer outra parte" interferissem
ou ameaçassem o esforço militar contra o Japão. Nestas circunstâncias, nenhuma
fórmula "final" de organização internacional de segurança poderia
ser estabelecida. Os planos a "implementar" na Europa, de modo a
mantê‑la "calma", até que a guerra terminasse no Extremo Oriente,
representavam para Salazar a diferença entre o "período de pacificação e
o de paz"31. Sete meses mais tarde, com a rendição incondicional do Japão
aos Estados Unidos, após o lançamento de duas bombas nucleares sobre o seu
território, a guerra terminou inesperadamente parecendo tornar obsoletas as
considerações de Salazar sobre a forma como a organização internacional de
segurança iria ser estabelecida e poderia funcionar, ao mesmo tempo que se
apresentava como inviável a sua esperança de que a continuação da guerra contra
o Japão atrasasse, ou até inviabilizasse, a criação e funcionamento da nova
organização de segurança internacional e, também, a definição dos termos em que
a pazseria desenhada e aplicada. Tudo porque Salazar não apenas desconfiava do
que aí vinha, como estava convencido que atrasos, hesitações e dilações no
campo vitorioso jogavam a seu favor e dos seus objetivos para a paz.
Durante a Segunda Guerra Mundial, e como já foi dito, manter a integridade
territorial e política absoluta, não só em relação ao território português
europeu e insular, como ainda a todo o império ultramarino, era um dos
objetivos da política externa portuguesa32 - isto para além da própria
sobrevivência do regime de "ordem e autoridade". Tendo Salazar
começado a preparar o embate do pós‑guerra em termos de política colonial e de
política externa a partir de finais do ano de 1943, quando lhe começou a
parecer inevitável uma vitória aliada, não admira por isso que no verão de 1944
tenha confidenciado a Marcello Caetano, no momento em que lhe dirigiu o convite
para ministro das Colónias, que pensava:
"(…) ter chegado a altura de mudar de rumo. A centralização foi
indispensável quando era preciso impor reformas (...) e a
administração das colónias estava num caos. Agora que as coisas estão
em ordem, é preciso dar‑lhes maior liberdade de resolver localmente
os seus problemas (...). É tempo de descentralizar (...). Demais a
mais temos de contar com as ideias que depois da guerra hão-de vir da
América do Norte."33
Deixando de lado o significado do convite a Marcello Caetano e do alcance desta
(in) confidência acerca da necessidade de descentralizar, certo é que o chefe
do Governo se preparava, no domínio das políticas externa e ultramarina para
enfrentar os princípios democráticos acenados pelos norte‑americanos. A reação
de Oliveira Salazar significa ainda que de forma alguma se acomodava às
garantias dadas por Londres e por Washington quer quanto à sobrevivência do
autoritarismo português à guerra34, quer quanto à manutenção da integridade do
império colonial. Não se afastava, aliás, destes objetivos, a síntese de uma
informação enviada por Bert Fish, diplomata norte‑americano, ao Departamento de
Estado. Nela podia ler‑se que caso os britânicos, e portanto as NU,
pretendessem atrair Portugal para uma "neutralidade colaborante"
deveriam assegurar que aos amigos da "Rússia" em Portugal não
seriam dadas quaisquer garantias de apoio numa eventual tentativa de derrube do
Estado Novo; deveria ainda ser assegurada "a soberania nacional
portuguesa"; e, finalmente, teria que ser afiançado que Portugal poderia
manter o seu império colonial e administrá‑lo tal como havia acontecido no
passado35.
Estes objetivos políticos recolhidos em Lisboa e prontamente transmitidos para
Washington tinham sido enunciados por Salazar, ao País e aos Aliados, no
discurso feito a 27 de abril de 1943 para assinalar o 15.º aniversário da sua
posse como ministro das Finanças36. Nele Salazar projetava "Portugal no
mundo de amanhã", alertando para a vontade manifestada pelos vencedores
da guerra para "reformar o mundo", sendo que essa
"reforma" podia tornar‑se, em termos genéricos, numa realidade do
agrado de quase todos, caso se pretendesse
"(...) apenas (...) estabelecer algumas regras de vida para a
comunidade internacional e fomentar o domínio de ideias
político‑sociais aptas a melhorar a vida dos homens e a ativar o
progresso e bem‑estar dos povos."
Mais preocupante aos olhos de Salazar era o facto de terem sido feitas
"declarações autorizadas" segundo as quais essa
"reforma" podia vir a ser "aceite de boa vontade ou por meio
de coação". Era por isso que ela "respeita(va) e importa(va)"
a Portugal e à "Revolução". Ou seja, ainda que a "nova
ordem" a ser criada dependesse do "desfecho da guerra", e uma
vez que ela poderia ser ganha pelos Aliados, tratava‑se então de preparar o
País para uma paz imposta. Porque apesar "de não lutar" Portugal
estava, em função da paz que se avizinhava, "como os outros na
guerra" e portanto necessariamente concentrado na preparação do futuro37.
Que análise produzia Oliveira Salazar em finais de abril de 1943 sobre o curso
da guerra, os seus possíveis desenlaces e o modo como a sociedade internacional
se devia organizar uma vez terminado o conflito? Em que medida podia essa
sociedade internacional no pós‑guerra influenciar os interesses de Portugal e
os objetivos da sua política externa? O presidente do Conselho e ministro
interino dos Negócios Estrangeiros sublinhou desde logo o facto de "os
processos" e "algumas soluções" futuras dependerem "dos
vencedores e da posição relativa das suas forças no momento em que o conflito
termine"38. Assim, e embora nunca falando de forma explícita da vitória
aliada, não fosse tal constatação ferir algumas suscetibilidades junto da
Itália, da Alemanha ou da Espanha, mas sobretudo conceder trunfos excessivos
aos Aliados num momento de negociações delicadas sobre a cedência de
"facilidades" nos Açores aos britânicos39, Salazar manifestava o
"receio, porventura injustificado, de três tendências" se afirmarem
"na arrumação do mundo". Eram elas "a ambição do óptimo, ou
seja o domínio do irreal nas aspirações". Em seguida o perigo do
"vinco da guerra nos hábitos da colectivização da vida".
Finalmente, "o primado do económico, isto é, a inteira subordinação das
soluções às exigências da economia", facto que poderia
"revolucionar o mundo sem (se) encontrar o caminho da paz". E ainda
que tudo isto partisse de "duas bases elementares" e desejáveis
como "a ordem e a colaboração internacional", apenas o
"comunismo" as procuraria contrariar por ser "elemento de
desordem". Por esse facto, Portugal deveria tentar manter‑se firme no
caminho iniciado com a Revolução de 1926, pelo que Salazar fazia um voto:
"que a ordemse não altere onde existe"40.
Porém, nas palavras de Salazar, a "estreita colaboração entre os
povos" afigurava‑se como "condição necessária da paz e do bem‑estar
futuro". A dúvida estava em saber quais seriam as "bases" em
que viria a assentar aquela "estreita colaboração"!? O sentido da
resposta a esta interrogação tinha "grande valor" para a
"Revolução" em que o "nacionalismo" fora e era um
princípio fundamental. O Estado português corria o risco de poder vir a
"encontrar‑se", em virtude deste seu nacionalismo, "fora da
linha geral da reorganização do mundo"? Era lógico chegar a uma conclusão
como esta? Afinal os arquitetos da nova ordem não podiam deduzir que, nascendo
"as guerras de conflitos entre nações", esse velho princípio de
organização política podia vir a perder a sua legitimidade, a sua razão de
existir? Se assim fosse, então as linhas políticas e ideológicas que
enquadravam a vida portuguesa, e as únicas que, segundo Salazar, serviam os
interesses do País, estavam ameaçadas e podiam ver‑se condenadas, empurrando
Portugal e o regime para o isolamento. Ou, pior, podiam vir a destruir a
própria nação. Quer porque aquela se diluiria na sociedade internacional se
abandonasse os princípios nacionalistas, quer porque a
"autoridade", característica essencial do Estado Novo e decorrente
dos seus princípios nacionalistas, era condição da governabilidade e existência
de Portugal e, portanto, da sua viabilidade enquanto estado-nação independente.
Esta preocupação emergia do facto de Salazar considerar existir na nova ordem
internacional em gestação uma aversão aos conceitos de nação e nacionalismo.
Esta aversão transmitia‑se pela forma como se multiplicavam os rumores de que a
segurança internacional futura dependeria da constituição de uma espécie de
governo mundial exercido pelas três grandes potências através de um organismo
sucedâneo da SdN, mas ao qual seriam conferidos mais e maiores poderes. Por
isso "muitos espíritos" buscavam "remédio para tão grandes
catástrofes em formas de organização supernacional, continental ou
mundial". Ora, ainda que não estivesse no "espírito" do chefe
de Governo português "negar a interdependência e solidariedade dos
Estados nem a necessidade de uma fórmula de organização ou trabalho
internacional" que resolvesse "os problemas", pretendia ainda
assim deixar bem claro que para ele "o homem do século XX" não
estava ainda "habilitado (...) a resolver" as complicações
"do mundo senão através das existências nacionais, livres e
independentes"41. Aquelas ideias eram aliás produto de "imaginações
exaltadas", produzidas por "políticos de gabinete apaixonados das
fórmulas abstractas e despreocupados das muitas realidades que entretecem a
vida das nações". Salazar esperava que os homens "prudentes"
e realistas, porque ainda os havia, continuassem a confiar na "base
nacional" como a "mais sólida, fácil e isenta de perigos".
Aquela na qual verdadeiramente podia "assentar a colaboração dos povos
conducente ao bem‑estar comum". Seria então bem melhor que não se
pensasse em soluções que passassem, por exemplo, pela existência de "duas
soberanias num território".
Entrando depois nas questões levantadas pela Carta do Atlântico, ou seja no
problema do "direito de acesso às matérias‑primas" de "origem
colonial", Salazar mostrava‑se disposto a sublinhar que os portugueses,
por motivo algum, estavam dispostos a abdicar dos territórios que haviam
descoberto, conquistado, administrado e civilizado. A "regra" das
"duas soberanias num território" não se aplicava "aos
territórios coloniais", "acerca dos quais", aliás,
"algumas ideias correntes" estavam "longe de ser claras e
inofensivas"42. Havia "grandes ilusões em se crer que regimes de
condomínio, mandato, porta‑aberta e semelhantes" viessem a resolver
"qualquer questão, a não ser que o fim a atingir" fosse
"apenas complicar os problemas, tirando a uns" e dando a outros,
subtraindo a soberania desses territórios aos seus administradores legítimos em
virtude da sua debilidade financeira, económica e política no concerto das
nações. "E mais nada."43
Ou seja, e segundo se pode facilmente depreender pelas palavras de Salazar, o
Estado Novo deveria ser capaz de encontrar uma fórmula que lhe permitisse
enfrentar uma provável afirmação e hegemonia de um conjunto de princípios
considerados contrários aos interesses portugueses. A história política do
Estado Novo nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, como depois dela, e
tanto no plano interno, como externo, foi, precisamente, a de procurar
conciliar o nacionalismo, o colonialismo e o autoritarismo num cenário de mais
aparente e parcial do que real diluição dos dois primeiros conceitos e
substituição do terceiro (por democracia). Na verdade, o pós‑guerra
caracterizar‑se‑ia por uma transformação, e não pelo desaparecimento, do
nacionalismo na Europa Ocidental, mas também por um (re)nascimento, ou
robustecimento, do nacionalismo e do colonialismo nas demais regiões do globo.
O regresso ao colonialismo, e apesar das independências reconhecidas no
imediato pós‑guerra, foi um facto da história da segunda metade da década de
1940 e da parte da década de 1950, para depois paulatinamente sucumbir. A
partir daqui, os nacionalismos não europeus foram um elemento necessário, ainda
que não suficiente, para o desaparecimento dos impérios coloniais europeus no
mundo afro‑asiático e em algumas regiões do Pacífico e das Américas, ao mesmo
tempo que tornou mais difícil a ação da ONU como garante da paz e da segurança
globais44. De facto, esta organização não foi equacionada nem preparada para um
mundo que, entre 1945 e 1975, passou de 51 para 144 estados-membros, ainda que
muito poucos pudessem merecer a classificação de estados‑nação45. Houve que
esperar pelo discurso proferido por Salazar a 18 de maio de 1945 na Assembleia
Nacional46 para identificar aquele que foi o rumo político escolhido para o
pós‑guerra. Fê‑lo ao referir‑se ao conflito e à "neutralidade
portuguesa"; à "organização da paz" e às suas
"repercussões" na "política externa" do Governo de
Lisboa; e, finalmente, aos "problemas da política interna portuguesa
relacionados com o sentido da vitória".
Naquilo que respeitava ao problema da "organização da paz" e não
estando Portugal a participar "na delicada tarefa de definir o estatuto
regulador da comunidade das nações", reservava‑se‑lhe simplesmente o
estatuto de ""homem da rua"", sendo que sob esse ponto
de vista Portugal podia tentar compreender os desenvolvimentos políticos que
preparavam o pós‑guerra. Partindo dos "textos e declarações
públicas" era agora possível deduzir que o "princípio
nacional" seria a base da "organização" futura. Ou seja,
aceitava a "existência de nações diferenciadas, independentes e livres,
organizadas em Estados soberanos e iguais". Salazar reconhecia e aceitava
que fosse feita uma "concessão à realidade da vida internacional"
ao ser admitida "com base numa diferenciação de funções, um princípio
aristocrático na direcção efetiva da sociedade" internacional. Aplaudia o
sacrifício da "originalidade ao bom senso".
Relativamente "à entrada de algumas nações para o novo organismo
internacional", não era "problema" que devesse apoquentar as
"pessoas". O "inverso" é que era problemático. Isto é,
que algumas nações viessem a mostrar vontade de não pretender entrar ou, depois
de a ela pertencerem, desejassem "abandoná‑la"47. Isto porque a
solidariedade entre as nações, base a partir da qual se teria pensado aquilo
que seria a ONU, tendia a ser somente um "facto" e não uma
"norma de conduta" generalizada. Ora apenas a existência dessa
"norma de conduta", que talvez chegasse um dia, permitiria conduzir
a organização ao sucesso e preservar a permanência dos países a ela aderentes.
Quanto às "repercussões" futuras daquela organização na
"política externa" portuguesa, Salazar garantia que esta não se
resumiria ao esforço de conseguir a adesão. Prosseguiria e afirmar‑se‑ia com as
"actividades" decorrentes das "boas relações de vizinhança,
de alianças e de afinidades étnicas e culturais", nomeadamente através do
aprofundamento das relações políticas preferenciais com Espanha, Reino Unido e
Brasil.
Finalmente, quanto aos "problemas da política interna portuguesa
relacionados com o sentido da vitória", Salazar assegurava que o Governo
estava disposto a continuar a lutar pela manutenção do regime vigente, uma vez
que as suas instituições eram as que melhor se adaptavam ao "modo de
ser" do País, facto que, aliás, tornava Portugal prestável à comunidade
internacional. Um regime que garantisse o "grau de liberdade consentâneo
com a eficiência das disciplinas interiores do homem e exteriores do meio
social", e que paralelamente assegurasse o "progresso
interno" e a sua colaboração com outras nações, não podia desaparecer
apenas porque a guerra havia sido ganha por "potências aliadas" que
lutavam "sob a bandeira da democracia". Em resumo, nada daquilo que
Salazar havia "presenciado e vivido" no decurso da guerra alterara
a sua "visão dos factos" ou a sua "convicção".
Mantinha‑se fiel às suas diretrizes, porque seriam as mais "úteis à Nação
Portuguesa, à sua paz e ao seu progresso". E era isso que "acima de
tudo" lhe importava, o conduzia e inspirava48.
Nestas circunstâncias, Salazar não considerava possível nem desejável
retirar‑se para Coimbra. Propunha‑se enfrentar mais uma vez os desafios
políticos que se lhe deparavam. Aliás, como também afirmou o presidente do
Conselho ao encarregado de negócios interino do Governo norte‑americano em
Lisboa, se os Estados Unidos e o Reino Unido desejavam a estabilidade em
Portugal seria preferível a manutenção dos seus compromissos com o Governo e o
regime que o antigo professor de Direito chefiava. Recordou ainda ao seu
interlocutor que fora com ele e não com outro interlocutor que os Estados
Unidos haviam conseguido levar as suas relações políticas com Portugal a um tão
elevado nível, obtendo, nomeadamente, facilidades em Santa Maria. Parecia‑lhe,
portanto, que tudo deveria "continuar nesta direcção". Porque se a
oposição, chegada ao poder, poderia vir também a ceder inicialmente os Açores
aos Estados Unidos, a verdade era que com a desordem e a
"descontinuidade" próprias dos regimes democráticos, Washington
poder‑se‑ia, mais cedo ou mais tarde, vir a deparar com "inúmeros
obstáculos, desconhecidos e incertos"49.
À beira do fim da Segunda Guerra Mundial, e tendo em conta aquele que viria a
ser o principal combate a levar a cabo por Portugal no domínio da política
externa, Salazar apresentava‑se, para dentro e para fora do País, como o homem
que havia mantido a integridade do Império numa conjuntura "em que
impérios mais poderosos se haviam desintegrado". Nestas circunstâncias,
Salazar não podia ser "acidentalmente posto de parte"50. Nem a sua
política.
O PROCESSO DE ADMISSÃO DE PORTUGAL ÀS NAÇÕES UNIDAS: 1946 ‑1955
Se o facto de Portugal não ter sido convidado a participar na Conferência de
São Francisco foi um revés controlável nos danos políticos provocados
internamente, o mesmo não pode ser dito do fracasso que constituiu a recusa da
primeira candidatura portuguesa à ONU logo no ano de 194651. Este facto mais do
que fazer prever que o relacionamento futuro do Estado Novo com aquele
organismo seria muito pouco auspicioso, significava acima de tudo que a
integração do Portugal autoritário na nova ordem mundial marcada pela Guerra
Fria não seria desprovida de dificuldades. É verdade que entre 1946 e 1955,
data da admissão portuguesa à ONU, a diplomacia portuguesa acumulou sobretudo
vitórias, não tendo sequer sido forçada a romper qualquer espécie de isolamento
ou hostilidade generalizada. No entanto, e sobretudo pelo facto de o Governo de
Lisboa ter dado um contributo não despiciendo para a vitória aliada na guerra
através da cedência de infraestruturas militares nos Açores a britânicos e
norte‑americanos (contributo superior ao de alguns países que entraram na
guerra no campo aliado e que por isso estiveram em São Francisco e foram
membros fundadores da ONU), era de certa forma incompreensível senão a sua
ausência da reunião em São Francisco, pelo menos o veto soviético à entrada de
Portugal na ONU52. Apesar de, no verão de 1946, se estar já num período de
recomposição e reconsolidação do regime após as dificuldades sentidas
internamente nos últimos anos da guerra e ainda no pós‑guerra, uma derrota na
frente externa, por menor que pudesse ser, e particularmente num contexto em
que não se relacionava com os objetivos políticos traçados pelo MNE, não podia
obviamente ser bem‑vinda53. No entanto, e como seria de esperar, a reação
política natural a essa derrota foi procurar transformá‑la numa vitória.
O embaixador do Governo espanhol em Lisboa constatou essa atitude ao escrever:
"En resumen, lo que mirado superficialmente pudiera parecer un
fracaso internacional, en Portugal se presenta casi como un triunfo,
puesto que ha promovido una especie de plebiscito entre las naciones
aliadas a favor de él, acercándole definitivamente al bloque
occidental y presentándole como una víctima del grupo eslavo
(...)."54
A "Nota Oficiosa" publicada na imprensa na sequência do veto
soviético à candidatura portuguesa sublinhava este como outros factos. Em
primeiro lugar, considerava ser "discutível a vantagem prática para
qualquer país" de uma entrada nas NU, sobretudo naquela fase da
"vida do organismo". Era "igualmente discutível" se
seria aquele o "momento (...) oportuno" para Portugal
"apresentar" o seu "pedido de admissão", numa altura em
que não se encontravam definidas nem tinham sido esclarecidas "todas as
regras relativas à admissão de novos membros" e não sendo também ali
"unanimemente desejada" a colaboração de todas as nações. Isto numa
conjuntura em que a ONU parecia estar "mais presa à ideia da vitória do
que à ideia de paz".
Por este facto, "e apesar dos compromissos de Potsdam"55 não se
podiam à partida "alimentar grandes dúvidas acerca da posição que a
Rússia tomaria no debate" onde viria a ser tratado o problema da admissão
de novos estados‑membros. Ainda segundo a "Nota Oficiosa", no
momento em que fora apresentada a candidatura faltava apenas saber qual a
"orientação" a adotar no Conselho de Segurança por aquela potência:
apesar da oposição predefinida, a União Soviética usaria ou não o direito de
veto, paralisando assim a "competência que, para a admissão nos termos da
Carta" era "exclusiva" da Assembleia?56
O Governo português reconhecia o voluntarismo de que padecera durante todo o
processo, nomeadamente ao ter apostado numa apresentação de candidaturas
conjunta por parte dos países neutros no verão de 1946. E a razão prendia‑se
com o facto de em Lisboa se ter aceitado quase acriticamente a
"diligência (...) realizada" junto do executivo de Portugal pelos
governos britânico e norte‑americano. Londres e Washington tinham argumentado a
favor da candidatura portuguesa e de outros neutrais com aquilo que seria a
"necessidade para a própria organização de que as mais nações,
qualificadas pela independência e seriedade de vida, mostrassem por
um ato de adesão a sua confiança nas Nações Unidas para a manutenção
da paz; e de que assim se fizesse um esforço para a colaboração
pacífica entre todos os povos da Terra."
Orgulhoso da sua atitude temerária, como antes parecera arrependido pelo seu
voluntarismo, o Governo português argumentava que o fracasso da sua candidatura
ajudava a desfazer os equívocos em que o Reino Unido, os Estados Unidos e
outras nações pareciam "laborar"57. Estava‑se perante uma espécie
de primeiro ato daquela que devia ser, fruto das reflexões de Salazar, a
atitude do Ocidente em face da Rússia58.
Apesar de procurar atenuar o impacto do chumbo imposto por Moscovo, a verdade
era que desde a realização da Cimeira de Ialta o Governo português mostrara um
certo cuidado quanto às implicações decorrentes da criação de uma nova
organização internacional que substituiria a SdN. Esta preocupação ligava‑se
com a eventualidade de os requisitos para a entrada de Portugal se mostrarem
demasiado onerosos, já que pareciam não estar sintonizados com as
características políticas e ideológicas do Estado Novo. E ainda que, de forma
alguma, o regime estivesse disposto a mudar por causa da ONU, preferia também
não ter que suportar os custos internos e externos de uma eventual
marginalização na vida política internacional por causa de uma ausência imposta
fosse porque circunstâncias fosse.
Numa fase de grande interesse pela ONU e por todos os eventos que se julgasse
incorporarem a mudança em curso na vida da comunidade internacional, João de
Bianchi, o embaixador de Portugal em Washington, numa incursão pelo
Departamento de Estado, declarou ser desejo do seu Governo, tão rapidamente
quanto possível, poder participar na vida das NU. Isto significava que era
intenção das autoridades de Lisboa apresentarem, num espaço de tempo tanto
curto quanto possível, a sua candidatura a estado-membro daquela organização.
Na manhã de 14 de dezembro de 1945, Bianchi informou ainda o Departamento de
Estado ter o Governo português sido convocado para comparecer em Londres no mês
de janeiro para aí participar numa derradeira reunião da SdN e na qual se iria
proceder à "transferência" daquela velha organização para uma outra
que passava a ocupar o seu lugar59. Na sequência desta informação, o embaixador
português questionou o seu interlocutor norte‑americano sobre a
"possibilidade de um arranjo" que permitisse "àqueles
membros" da SdN ainda não usufruindo de estatuto idêntico na ONU, poderem
vir a ser admitidos neste novo organismo, fazendo‑se acompanhar a
"transferência de bens da SdN para a ONU" por uma simultânea
"transferência" de estados. Porém, o funcionário de serviço no
Departamento de Estado tratou de recordar a impossibilidade desse expediente,
uma vez que, segundo o texto jurídico que regulava a vida da ONU, a admissão de
novos estados apenas podia ser feita por decisão da Assembleia Geral e após
recomendação do Conselho de Segurança60.
Mas os pruridos do Departamento de Estado existentes por meados de dezembro
iriam em grande parte desfazer‑se logo no início de janeiro. O antigo
subsecretário de Estado Sumner Welles publicou na imprensa norte‑americana um
artigo advogando "a admissão imediata dos neutros (menos Espanha) às
Nações Unidas". No comentário feito à "atitude de cada um"
deles "durante a guerra", afirmou que a do "Governo
português" assentava no seu conhecimento de que caso a Alemanha invadisse
a Espanha, "Portugal não escaparia". Quanto ao facto de a Alemanha
haver comprado produtos estratégicos com o consentimento do Governo de Lisboa,
esta atitude decorrera fundamentalmente da convicção por parte das autoridades
portuguesas de que essa atitude "diminuía os riscos de agressão
contra" o seu país. A verdade por trás da atitude de Portugal durante a
Segunda Guerra Mundial teria estado no facto de o "povo português"
ter "mantido sempre" a sua tradicional amizade "pela
Inglaterra e Brasil" e concedido facilidades para o "uso dos
Açores" a "forças navais e aéreas inglesas e americanas".
Finalmente, ainda que o regime português mantivesse "traços
autoritários", as "recentes eleições" demonstravam que
Salazar "tinha em grande medida o apoio popular". Voltando depois à
linha geral do seu texto, Welles concluía que a não admissão imediata nas
Nações Unidas dos quatro neutros (Suécia, Suíça61, República da Irlanda e
Portugal) retardaria não só a "reconstituição política da Europa",
mas também a "federação económica" daquele continente, ou seja, o
seu mais sólido "fundamento" de "estabilidade"62.
Mas independentemente daquela que era a vontade portuguesa de aderir à ONU e a
intenção anglo‑americana de apoiar uma candidatura de Portugal, importa avaliar
a forma como Salazar, quando estavam completamente vencidas as dificuldades do
fim da guerra e do pós‑guerra, via o papel de Portugal num universo como aquele
que era representado pela ONU. Num telegrama para Washington em que resumia o
seu último discurso, e no qual apreciara a "posição" portuguesa
"perante as Nações Unidas", sublinhava que se a "letra e
espírito da Constituição" permitiam a "cooperação" de
Portugal com "organismos tendentes a resolver pacificamente as
divergências internacionais", àquela data a "não"
apresentação do "pedido de admissão" português devia-se ao facto de
o Governo ter entendido não haver ainda chegado o momento certo (era ainda
"cedo"), uma vez que a entrada de "novos membros"
chocava com o "equilíbrio interno das Nações Unidas". E se na
primeira sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas os estados‑membros
tinham‑se ainda comportado como uma associação de vencedores, Salazar
considerava necessário, num futuro próximo, "alargar o seu âmbito não só
aos neutros mas também aos vencidos para assim contribuir" para uma
"verdadeira representação do Mundo".
De qualquer modo, tanto dentro como fora das NU, a política portuguesa
continuaria a seguir ao "lado dos tradicionais imperativos históricos e
geográficos", mantendo‑se atenta às "indicações claras do último
conflito" que haviam mostrado uma deslocação do "centro de
gravidade" da política europeia "senão do Mundo, mais para
Oeste", ficando por este facto o Atlântico e os seus "estados
ribeirinhos" situados no "primeiro plano" da vida
internacional. Porém, "reconhecer" aquele facto não implicava que
Portugal deixasse de ser europeu, dava, simplesmente, um "mais largo
sentido ao Ocidente". Por outro lado, ao recordar que o Governo português
iria "a Genebra votar a dissolução da Sociedade das Nações" e
entregar os respetivos "valores" às Nações Unidas, notava neste
procedimento a existência de uma "certa falta de lógica", uma vez
que Portugal se despojava "daquilo" para que contribuíra "em
favor de uma organização a que não" pertencia63. No entanto, Salazar
chegou a considerar que a ONU, e vista uma futura presença de Portugal nesta
organização, tal como uma maior cooperação política e militar com o Reino Unido
e os Estados Unidos (neste caso consequência da deslocação do "centro de
gravidade" da política europeia "mais para Oeste"), poderia
ser no seu conjunto um instrumento útil para uma preservação futura da
segurança e integridade da nação portuguesa (metropolitana e ultramarina)64.
Antes das diligências norte‑americana, britânica e francesa propondo a
candidatura de Portugal a país membro da ONU, foram sendo transmitidas por
diversos representantes da diplomacia portuguesa no mundo várias impressões
sobre a dimensão política daquele organismo, bem como opiniões relativas às
iniciativas ao dispor de Lisboa para vencer eventuais obstáculos à sua admissão
àquele organismo. Em relação às questões coloniais, os delegados belgas
presentes em Londres na primeira sessão da Assembleia Geral da ONU registaram a
existência de uma "hostilidade mais grave e geral do que esperavam contra
os países coloniais", sentindo‑se "completamente abandonados entre
os blocos russo e americano". Estranhando a atitude dos Estados Unidos e
dos países latino‑americanos, atribuíam‑na a razões mais de carácter
"psicológico" do que "político ou económico", uma vez
que se tratava de países que ainda tinham muito presente a sua condição de
antigas colónias. Mas o maior e mais imediato receio belga estava na
eventualidade de o seu Governo, como os do conjunto das potências coloniais,
poder vir a ser obrigado a enviar ao "Secretariado" informações
estatísticas relativas aos respetivos territórios não autónomos, o que no caso
belga dizia respeito ao Congo (segundo artigo 73.º, alínea e) da Carta),
podendo assim ser confundido pelas Nações Unidas, propositadamente, o estatuto
daqueles territórios com o dos territórios sob tutela, o que prejudicava e
desrespeitava a soberania de Bruxelas sobre aquele seu vastíssimo território
africano65.
O ministro dos Negócios Estrangeiros belga mostrou‑se ansioso pela admissão de
Portugal. Julgava ser esta uma consequência natural da "atitude" do
Governo de Lisboa "durante a guerra", uma fonte de "prestígio
para a Europa", e, acima de tudo, garantiria a presença de mais um país
"ao lado da boa causa". Aconselhava por isso o ministro que
Portugal iniciasse uma rápida aproximação a Moscovo (através do
"reatamento das relações" diplomáticas entre os dois países, a
pedido de Lisboa), como forma de levar a URSS a não se opor à sua admissão.
Isto porque, "por dois motivos", o Governo soviético parecia estar
determinado a uma oposição permanente à entrada de Portugal, mesmo se proposta
uma troca com "qualquer satélite seu". O primeiro seria o
"seu desmedido orgulho"; o segundo seria o "desejo de criar
um foco de infecção na Península através (da instalação) de uma representação
diplomática e consular" em Lisboa66. De qualquer modo, e em 1946, as
autoridades portuguesas olhavam com ambivalência para a ONU. Por um lado,
desejavam resolver rapidamente e com êxito a questão da admissão de Portugal,
livrando dessa forma o País e o regime de um ostracismo que não conhecera na
qualidade de membro que fundara mas que também liquidara a SdN. Além disso, e
embora Lisboa acompanhasse com preocupação as críticas de que a Espanha de
Franco fora alvo quer na I Assembleia Geral das Nações Unidas inaugurada em
Londres a 10 de janeiro de 1946, quer na Conferência de Potsdam ocorrida no
verão de 1945, a verdade é que via numa expedita admissão à ONU a possibilidade
de escapar a comparações incómodas e em alguns casos descabidas sobre as
semelhanças entre o franquismo e o salazarismo. Mas por outro lado, a admissão
e a participação nos trabalhos da ONU colocavam Portugal e o Estado Novo
submetidos a um conjunto de regras e de práticas que poderiam criar
dificuldades e incómodos, nomeadamente, e acima de tudo, no domínio colonial.
Portugal apresentou a sua primeira candidatura a 2 de agosto de 1946. Apreciada
em reunião do Membership Committee, a 14 de agosto, foi vetada pelos votos
contrários da URSS e da Polónia, tendo a Austrália, "por razões
processuais", optado pela abstenção67. Favoravelmente votaram: México,
China, França, Estados Unidos, Reino Unido, Brasil, Egito e Holanda. Após estes
resultados verificados em reunião do Conselho de Segurança, a Assembleia Geral
votou unanimemente a Resolução 35 (I) pedindo ao Conselho de Segurança que
reconsiderasse os pedidos não atendidos de admissão de Portugal, Mongólia,
Albânia, Jordânia e Irlanda, mas que foram novamente recusados no seu conjunto,
e agora definitivamente, para os trabalhos daquele ano, em reunião do Conselho
de Segurança de 29 de agosto. Votou‑se exatamente como no dia 14.
1946 foi o ano que maior número e mais intensas movimentações produziu para
preparar as candidaturas dos países que haviam permanecido neutrais durante a
guerra (com exceção de Espanha). No caso português, a ação teve início em
Lisboa com as visitas, separadas, do embaixador norte‑americano e do
conselheiro da Embaixada britânica, ao diretor‑geral dos Negócios Políticos no
MNE, Marcello Mathias68. Informaram‑no ser portadores de instruções dos
"seus governos para (...) comunicar" que apoiariam Portugal numa
sua eventual candidatura à ONU, mas sublinhando que nos termos de uma resolução
do Conselho de Segurança adotada em maio do ano em curso, os "pedidos de
admissão" deveriam ser "transmitidos ao Secretário‑Geral até ao dia
15" de julho69 de forma a poderem ser considerados pelo Conselho ainda
durante o mês de agosto. Queixando‑se embora do curto espaço de tempo à
disposição do Governo português para poder "decidir em matéria tão
delicada", Marcello Mathias agradeceu a "diligência" dos dois
governos, sobretudo por ser prova de uma grande "amizade". Marcello
Mathias fez ainda sentir, "como primeira reacção" (e era uma
opinião a título pessoal manifestada por aquele diplomata português), que o
êxito prático da "diligência era muito limitado", uma vez que uma e
outra estavam condicionadas pelo texto da Carta das Nações Unidas que exigia,
para concretização da admissão, a unanimidade dos "Cinco Grandes, entre
os quais a Rússia, com cujo voto dificilmente (se) poderia contar". Não
tendo Portugal relações diplomáticas com a URSS, e não estando prevista, por
parte do Governo português, qualquer alteração significativa relativamente a
esta questão, corria por isso a candidatura do Governo de Lisboa o "sério
risco de ser recusada"70.
Que motivos poderiam então levar Portugal a tomar uma atitude que seria
naturalmente usada contra o Governo, o regime e o País, além de poder
representar um "choque" para os "próprios países que
apadrinhariam" a candidatura portuguesa? Quando muito ficaria provado que
a ONU, pela "sua constituição e possibilidade de abuso" do direito
de veto por parte dos países representados permanentemente no Conselho de
Segurança, não cumpria o "propósito de tornar possível a cooperação
pacífica" entre as nações. No entanto, o Governo português não pretendia,
naturalmente, que "tal demonstração fosse feita" à sua
"custa".
Disto se concluía que, não estando garantido à partida o "conhecimento da
orientação dos Cinco Grandes", se afigurava difícil a Portugal solicitar
a sua "entrada"71. Problema, aliás, já várias vezes exposto pela
diplomacia portuguesa e que explicava o desinteresse relativo várias vezes
demonstrado para uma apresentação de candidatura por parte de Portugal.
Pelo seu lado, britânicos e norte‑americanos consideravam que perante a
possibilidade de um veto isolado da União Soviética à candidatura portuguesa, o
efeito negativo desta atitude seria exclusivamente suportado pelo Governo de
Moscovo, que assim ficaria mal "perante a opinião mundial".
Simplesmente, do lado de Lisboa julgava‑se poder não vir a ser esta a reação da
"opinião pública portuguesa", uma vez que sendo ela
"conhecedora da habitual prudência e realismo do Chefe do
Governo Português, poderia considerar desaconselhável jogar‑se o
prestígio do país sem razões políticas fortes que impusessem tal
passo."
Como se conciliaria assim o dever imposto pelo artigo 4.º da Constituição
Portuguesa72, e o consequente cumprimento da lógica constitucional, com a
tomada de uma decisão "de resultados incertos ou
contraproducentes"? Além disso o Governo português deveria ainda ponderar
uma outra questão: se nas "circunstâncias internacionais" do
momento e com "as divergências sucessivamente verificadas entre os
principais membros das Nações Unidas, haveria vantagem para o País em tomar
posição num organismo que certos comentadores internacionais" já supunham
condenado à dissolução!?73
No dia 1 de agosto, em iniciativa coordenada com a República da Irlanda, o
Governo português decidiu apresentar o seu "pedido de admissão" nas
nu, devendo os seus "termos (...) ser os mais sóbrios e exclusivamente
indispensáveis"74. As diligências devidas foram tomadas na capital
norte‑americana no dia seguinte. Ou seja, depois de ponderados os prós e
contras da apresentação da candidatura, pesou o argumento segundo o qual uma
recusa portuguesa em avançar colocaria o Governo em maus lençóis, podendo
empurrá‑lo para um isolamento delicado e indesejável. Ou seja, em que situação
ficaria Portugal (e o seu governo), se fosse ele o único país neutro, de todos
os contactados, a não apresentar candidatura? Além disso, a não apresentação de
candidatura naquele momento, e ainda que não inviabilizando uma outra a ser
feita posteriormente, poderia obrigar o Governo de Lisboa a
"concorrer" mais tarde "com países ex‑inimigos,
circunstância" que em si também merecia ser "considerada,
juntamente com o inconveniente" de Portugal estar a "dar"
naquele momento "à Rússia a impressão" de não desejar "agir
livremente" por um "receio antecipado" em relação àquela que
pudesse vir a ser a "atitude" soviética.
No entanto, previamente a estas dúvidas, um outro ponto fora contabilizado pela
diplomacia portuguesa. A eventualidade de a admissão de Portugal nas Nações
Unidas poder vir a colocar a cedência de facilidades militares nos Açores a
britânicos e norte-americanos, ao abrigo do disposto no artigo 43.º da
"Carta da ONU". Embora o Departamento de Estado considerasse a
aplicação daquela disposição "subordinada à prévia concordância de todos
os interessados, sem a qual não seria possível a execução dos acordos
previstos", haveria que reconhecer duas questões:
"1º Qualquer recomendação do Conselho de Segurança que
"envolvesse a disposição" das bases açorianas "para
defender a paz no mundo", traria uma "enorme força
moral" a Portugal, em primeiro lugar, e ao Reino Unido e
Estados Unidos, em segundo.
2º O "emprego" daquele "meio de pressão", por parte da
ONU, "poderia porventura" influenciar "eventuais
negociações" entre Portugal, os Estados Unidos e o Reino Unido para a
"utilização permanente de facilidades nos Açores.""
Quanto ao primeiro ponto, embora os Estados Unidos desejassem alargar o âmbito
de ação da ONU não pretendiam concentrar toda a sua política externa naquele
organismo enquanto meio de resolução dos problemas internacionais, o que era
também uma forma de salvaguarda dos seus interesses. Assim, caso uma eventual
interferência do Conselho de Segurança da ONU fosse de encontro aos
"interesses comuns" de Portugal, Reino Unido e Estados Unidos, nos
Açores, Washington não hesitaria em recorrer à utilização do direito de veto.
Relativamente aos "inconvenientes" identificados no segundo ponto,
consistiam eles, principalmente, num "enfraquecimento" da
"posição" portuguesa na eventualidade de Lisboa desejar obter,
através de "negociações directas", garantias junto dos utilizadores
em troca do uso de facilidades nos Açores. Porém, ouvidas as autoridades
norte‑americanas, mostrara‑se haver a intenção de promover, para aquele fim, a
negociação direta entre governos, uma vez que se considerava não ser possível
"confiar ilimitadamente no funcionamento das Nações Unidas"75.
Em 1947 manteve‑se o veto a Portugal. O Conselho de Segurança considerou
novamente a Resolução 35 (I), mas a 18 de agosto a urss e a Polónia repetiram o
voto contrário à admissão portuguesa, tendo no entanto os restantes membros do
Conselho de Segurança apreciado favoravelmente aquele pedido (a Colômbia
substituíra o México e a Síria o Egito). Em novembro, a Assembleia Geral propôs
que o Conselho de Segurança reconsiderasse o pedido de Portugal por considerar
que aquele se tratava de "um país pacífico"76. Foi então aprovada a
Resolução 113 (II) por 40 votos contra nove (Bielorrússia, Checoslováquia,
Etiópia, China, Filipinas, Polónia, Ucrânia, URSS e Jugoslávia) e três
abstenções (Guatemala, Haiti e Paquistão). No entanto, a orientação do Conselho
de Segurança não sofreu qualquer modificação.
No ano seguinte, em setembro, a União Soviética manifestou a sua oposição à
inscrição na agenda da 3.ª Assembleia Geral da questão da admissão de novos
países na ONU77 . Porém, o Conselho de Segurança considerou a Resolução 113
(II), pendente de 1947. A favor da admissão de novos países votaram a
Argentina, o Canadá, a China, a Noruega, a Síria, o Reino Unido, os Estados
Unidos e a França. Contra votaram a Ucrânia78 e a URSS. A Assembleia Geral
votou ainda uma resolução (197 (III)) semelhante à que havia sido proposta em
1947 pela Austrália e recomendando a adesão de Portugal. Foi aprovada no início
de dezembro por 39 votos contra seis e uma abstenção. A resolução tinha também
tido uma votação favorável quando foi levada ao comité ad hocem finais de
novembro (ou Comissão Política Especial) - 29 votos pela adesão contra
seis.
Em 1949 (13 de setembro), mantiveram‑se no Conselho de Segurança dois votos
contrários (URSS e Ucrânia). Favoravelmente manifestaram‑se os restantes
membros permanentes do Conselho de Segurança e representantes dos países com
assento não‑permanente: Argentina, Cuba, Noruega, Síria e Canadá. Neste ano a
Assembleia Geral aprovou a Resolução 296 (IV) pedindo ao Conselho de Segurança
que considerasse o pedido português com base num parecer do Tribunal
Internacional da Haia. Foi aprovada por 53 votos contra cinco e uma abstenção.
A resolução fora também aprovada no comité ad hocpor 41 votos contra cinco e
quatro abstenções.
Em 1950, 1951 e 1952, diversos expedientes procuraram desbloquear o impasse em
que tinham caído vários pedidos de admissão. Em 1953, aliás, o comité ad
hocrejeitou a proposta polaca para uma "reconsideração conjunta da
admissão" da Albânia, Mongólia, Bulgária, Roménia, Hungria, Finlândia,
Itália, Portugal, Irlanda, Jordânia, Áustria, Ceilão, Nepal e Líbia por 28
votos contra, 20 a favor e 11 abstenções. Em 1953, instituiu então a Assembleia
Geral o Comité de Bons‑Ofícios destinado a persuadir o Conselho de Segurança a
uma mudança de atitude face a estas propostas de admissão conjunta. Em 1954, o
Comité de Bons‑Ofícios foi reconduzido nas suas funções79.
De qualquer modo, entre 1946 e 1954, sucessivas candidaturas apresentadas por
Portugal e por outros países que se tinham mantido neutrais durante a Segunda
Guerra Mundial, como fora o caso da República da Irlanda, foram travadas pelo
veto soviético, facto que teve duas consequências políticas importantes para o
Governo português. Por um lado, possibilitou que o País, o regime e o Governo
se apresentassem interna e externamente com um estatuto político e moral
idêntico ao da católica Irlanda, mas ainda como vítimas da União Soviética, do
comunismo e da Guerra Fria80. Por outro lado, permitiu que se iniciasse, com
algum tempo, um processo de reforma da política colonial que alterou
profundamente, do ponto de vista jurídico‑político, a arquitetura do Estado e
da nação. O Ato Colonial foi integrado na Constituição, ao mesmo tempo que
sofreu uma reformulação profunda com o intuito de demonstrar política e
juridicamente que o Império Colonial Português, ou as colónias portuguesas,
eram, afinal, "províncias ultramarinas" e que Portugal não possuía
Império Colonial, mas Ultramar81. Ou seja, a reforma constitucional, na forma e
na substância, pretendia subtrair a uma futura fiscalização da ONU, feita ao
abrigo do disposto nos artigos 73.º e 74.º da Carta das Nações Unidas, os
territórios não europeus e as populações não europeias governadas por Portugal.
De Estado‑Nação que tinha um império, Portugal passava a ser, com a revisão
constitucional de 1951, um Estado‑Nação que era um império legitimado pela
história e pelo direito.
Em 1955 foi resolvida na ONU a questão da admissão de um número alargado de
estados, entre os quais se encontrava Portugal82. Um comité político ad hocda
Assembleia Geral criado especialmente para resolver um problema que se
arrastava, no caso de alguns países, desde 1946, produzira resultados. Isto
depois de, em 1953, e como foi referido, a Assembleia Geral ter criado um
"comité de bons ofícios", constituído pelo Egito, Holanda e Peru,
com a finalidade de "explorar as possibilidades de se obter um
entendimento no Conselho de Segurança que facilitasse a admissão de novos
estados-membros de acordo com o artigo 4.º da Carta"83.
Em 1954, a Assembleia Geral "pediu" ao "comité de bons
ofícios" que continuasse as diligências para que havia sido criado. A
Assembleia Geral decidiu ainda remeter os pedidos pendentes ao Conselho de
Segurança com o objetivo de serem novamente considerados e de receberem um
maior número de apreciações favoráveis, sendo novamente solicitado ao Conselho
de Segurança que assumisse como desejável a invocação das disposições do
parágrafo 2 do artigo 28.º da Carta84, de modo a que o problema fosse mais
rapidamente solucionado85. No primeiro relatório apresentado pelo "comité
de bons ofícios" a 19 de setembro de 1955, ainda que estivessem
assinaladas as habituais posições dos membros permanentes relativamente à
admissão de novos estados, havia sinais de mudança em função da então
considerada como favorável "evolução recente da atmosfera
internacional"86. O desanuviamento verificado na política internacional
após a morte de Estaline (1953) fornecia alguma margem para tentar enfrentar
com maior otimismo o futuro, nomeadamente naquilo que respeitava à questão da
admissão de novos estados na ONU87.
Recorde‑se que em 1945, após a Conferência de São Francisco, era de 51 o número
de estados‑membros da ONU. Desde essa data, e até novembro de 1955, foram
contabilizados 31 pedidos de adesão. Portugal era um deles. Dos 22 candidatos
entretanto não admitidos, 14 estados88 haviam conseguido sete89 ou mais votos
favoráveis nas reuniões do Conselho de Segurança que trataram esta questão
- ou seja, uma clara maioria -, embora esbarrando sempre com o voto
contrário de um dos seus membros permanentes: o da União Soviética. Havia
depois os restantes sete candidatos90 que receberam sempre menos de sete votos
favoráveis nas reuniões do Conselho de Segurança que apreciaram as suas
candidaturas. Em 1955, havia ainda o pedido pendente da Espanha, nunca
considerado por aquele órgão91. Acordada a sua admissão92, Portugal participou,
já na qualidade de país‑membro, na fase final da X sessão da Assembleia Geral
das Nações Unidas, entre 15 e 20 de dezembro. O relatório enviado para Lisboa
pelo representante português93 revelava uma primeira reação ao funcionamento da
ONU, manifestando‑se uma profunda antipatia e razoável incompreensão pela
natureza política da instituição e pela prática exibida por vários países e
seus representantes.
A 15 de dezembro comentava‑se nos "corredores" das Nações Unidas em
Nova York aquilo que teria sido a derrota norte‑americana pela forma como o
package dealtinha sido arrumado, chamando‑se a atenção para o facto de a
admissão do Japão, por troca com a Mongólia, não ter sido sancionada. Por outro
lado, e essa circunstância parecia penalizar a diplomacia americana, o conjunto
alargado de admissões aprovado em finais de 1955 tinha resultado de uma
iniciativa soviética. Moscovo pedira uma "nova e urgente reunião do
Conselho de Segurança para apresentação (de uma) espectacular e decisiva
proposta de que resultou a admissão no mesmo dia de dezasseis novos
membros". Neste contexto, os Estados Unidos tiveram
"resignadamente" que aprovar o pacote soviético e deixar cair o
Japão ou aceitar a inaceitável entrada da Mongólia94. Caso contrário seriam
acusados de bloquear a admissão de 16 novos estados‑membros95.
De qualquer forma, este alargamento trouxe, segundo palavras do representante
português, uma "atmosfera (...) de optimismo", considerando que se
dera um importante passo para a "definitiva consagração do princípio da
universalidade sobre quaisquer restrições ideológicas ou de
expediente"96. Depois de sentado, "provisoriamente", entre o
Nepal e a Roménia, o delegado português foi felicitado por representantes de
vários países, destacando‑se Sir Pierson Dixon do Reino Unido - feliz
pela admissão do seu "oldest ally" -, Alphand pela França e
vários delegados das Américas. Inclusivamente, um representante da União
Indiana, o padre Jerónimo de Sousa, cumprimentou calorosamente o chefe da
novíssima delegação permanente de Portugal. Iniciada a sessão, tiveram
"palavras de particular apreço para Portugal os delegados da
Colômbia", Venezuela, Paquistão e República Dominicana. Por seu lado,
antecipando o futuro, o representante indiano considerou‑se feliz pela admissão
de 16 novos países, mas acrescentou:
"My country recognizes each one of them and has diplomatic and
friendly relations with them all - with all but one perhaps but
we have diplomatic relations with all of them. Thus we welcome them
all equally."97
Depois foi uma correria de diligências por parte de vários países tentando
conquistar o voto lusitano, o que parecia tornar Portugal em mais uma
"vítima do caciquismo de matriz parlamentar prevalente (sic) na
organização". No entanto, o voto português não foi dado a ninguém.
Faltavam "instruções". Nas votações Portugal abstinha‑se ou
ausentava‑se da sala.
Porém, na eleição do novo representante não‑permanente no Conselho de Segurança
o delegado português participou com o seu voto. Os trabalhos da Assembleia
Geral tinham, antes da admissão dos novos estados, procurado eleger um dos
candidatos (Jugoslávia ou Filipinas), mas os 29 escrutínios realizados até 15
de dezembro não tinham dado a nenhum dos países os dois terços de votos da
Assembleia Geral necessários à eleição. Este facto decorria de uma tentativa de
alguns países em alterar as regras de eleição dos representantes
não‑permanentes. Segundo essa regra era o momento de eleger um país do Sudeste
Europeu. Simplesmente, alguns países que consideravam tal acordo ultrapassado
defendiam dever ser atribuído o lugar a um Estado do Sudeste Asiático -
consequência da "importância que essa zona do Mundo passava a ter".
A manutenção do statu quotinha o apoio da maioria do grupo europeu (França e
Reino Unido incluídos), e do "grupo soviético". Os Estados Unidos
"e grande parte do numericamente forte grupo latino‑americano"
apoiavam uma mudança de atitude e, portanto, a eleição das Filipinas. Houve
então "necessidade de se recorrer mais uma vez à política de
corredor".
Na reunião do grupo europeu, o representante português procurou ouvir e
esclarecer-se, não manifestando a intenção de vir a apoiar "firmemente as
Filipinas" na votação secreta que teria lugar, enquanto notava que a
"coesão do grupo europeu ocidental" parecia uma "coisa não
perfeitamente clara". De qualquer modo, não revelou nem deixou
"entrever o sentido em que" Portugal ia votar, sobretudo porque
"não havia a excluir a hipótese de a Jugoslávia vir no fim a ganhar o
lugar". Não descortinava também qualquer vantagem em
"hostilizar" o bloco europeu, sobretudo porque estava tomada a
decisão de apoiar a Jugoslávia. Assumir um papel "quixotesco" não
era uma possibilidade. Face à auscultação feita por Alphand sobre o sentido de
voto dos representantes dos países presentes, o "espanhol"
manifestou as "reservas" do governo do seu país à candidatura
jugoslava. O português, considerando "não haver vantagem em ir tão
longe", afirmou não ter ainda "recebido instruções", pelo que
"reservava a posição" portuguesa sobre o assunto.
Várias diligências depois (levadas a cabo por uns quantos delegados e pelo
presidente da Assembleia Geral), ao fim de "trinta e seis
escrutínios" e com a abstenção portuguesa, a Jugoslávia foi eleita como
membro não‑permanente do Conselho de Segurança. Encerrado este episódio, o
representante de Portugal censurava, para além dos princípios e o modo de
funcionamento da ONU, cheio de jogadas de bastidores, o comportamento da
Espanha.
"(...) parece‑me ser de deixar (...) aqui (...) uma reflexão
breve acerca da atitude do delegado espanhol, o qual, aproveitando‑se
da confusão, alienou as Filipinas, por que se batera, para arrebanhar
um voto em favor do seu país, que juntou decerto ao seu próprio.
Esperava ele novo escrutínio em que me disse dever a Espanha obter 12
votos - certamente para ver se lhe daríamos o nosso. Antes que
ele fosse mais longe na sondagem, disse‑lhe secamente que não
abandonaríamos as Filipinas. Pouco depois, um dos secretários
espanhóis, decerto sem conhecer as apressadas manobras do seu chefe,
lamentava‑se da falta de coesão manifestada pelos
americanos."98
CONCLUSÃO
A história da relação de Portugal com a Organização das Nações Unidas,
nomeadamente no espaço de tempo relativamente longo (1941‑1955) que mediou
entre a gestação desta e a admissão daquele, foi, em primeiro lugar, a história
do modo como um pequeno país com o estatuto de potência neutral no decurso da
Segunda Guerra Mundial assistiu e se preparou para uma mudança profunda na
forma como a sociedade internacional se organizou e o poder foi distribuído
entre os seus membros. A questão da admissão portuguesa e do seu protelamento
por quase uma década teve apenas uma importância relativa. E vale não tanto por
aquilo que significou para Portugal, mas por aquilo que indiciava, ou ensinava,
sobre o modo como a ONU era, ao menos em parte, um espelho da forma como a
sociedade internacional, ou o sistema internacional, foi reformulada e
funcionou a partir de 1945‑1946. É claro que após a entrada de Portugal e a
visibilidade e o peso que a questão colonial ganhou na política externa
portuguesa, amplificou o papel, mais simbólico do que real, da ONU na tentativa
de resolução da questão colonial lusa. Ainda assim, quer depois da admissão de
Portugal, quer, sobretudo, no período aqui analisado, a história da política
externa portuguesa esteve longe de se resumir ou ser dominada pela ONU. E foi
assim, resumidamente, porque não coube àquela instituição o papel de regulação
do sistema internacional e de legitimação política dos estados que as
autoridades portuguesas e os seus arquitetos, sobretudo os "Três
Grandes", terão, respetivamente, temido e desejado. Ainda durante a
guerra, nomeadamente através dos acordos celebrados com o Reino Unido e com os
Estados Unidos para a concessão de "facilidades" militares no
arquipélago dos Açores, foram abertos outros canais de integração de Portugal e
do Estado Novo na ordem internacional em formação. Depois de 1945, e apesar de
o Estado português ter visto recusada a sua admissão nas Nações Unidas, não
apenas contou com a solidariedade da generalidade dos estados‑membros perante
esta adversidade, como não foi o único país neutral a ver‑se impedido de
começar a participar nos trabalhos da ONU. Mas além do mais, várias e
importantes oportunidades surgiram entre 1946 e 1955 para que Lisboa escapasse
ao isolamento, ou ao ostracismo, que uma não pertença à ONU poderia sugerir. O
facto de ter sido convidado e ter aceitado participar na fundação da
Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE) em abril de 1948 e do Pacto
do Atlântico em abril de 1949, ou de, em 1951, ter celebrado com os Estados
Unidos um acordo político‑militar sobre o uso de meios militares nos Açores
pelos norte‑americanos, contribuiu de forma decisiva para que a questão do
isolamento internacional nunca se colocasse ao salazarismo. Isto significa,
portanto, que apesar das mudanças ocorridas no sistema internacional após o fim
da Segunda Guerra Mundial, além de outras que tiveram lugar quer antes do
deflagrar da guerra quer no seu decurso, a política externa e a diplomacia de
Portugal foram capazes de se adaptar a essas mudanças e de as incorporarem sem,
no entanto, haver um sacrifício daquilo que se considerava ser o essencial do
interesse nacional99. Ao contrário daquilo que o Governo português temeu nos
alvores da criação da ONU e da definição daquilo que devia ser a ordem
internacional após o fim da Segunda Guerra Mundial, nada de fundamental mudou
nas opções de política externa, política interna e política colonial. E no
entanto, em 1955 cada uma daquelas era muito diferente do que tinha sido dez,
quinze ou vinte anos antes.