O ecossistema mundial de petróleo e gás: um apontamento
O ECOSSISTEMA OIL E GAS - MACRORREGIÕES, ESTADOS E COMPANHIAS. A PROCURA
INTERNACIONAL POR MACRORREGIÕES NA ECONOMIA MUNDIAL
Os grandes consumidores tradicionais que recorrem a importações de petróleo e
gás natural localizavam-se entre as economias desenvolvidas - Estados
Unidos, Europa e Japão - com diferentes graus de dependência dessas
importações - máxima nos casos do Japão e da Alemanha, intermédia no caso
dos Estados Unidos (em processo de profunda alteração) e mínima no caso de
economias desenvolvidas exportadoras - como o Reino Unido e a Noruega.
Enquanto o crescimento da procura internacional de petróleo e gás natural se
tem centrado nas economias emergentes da Ásia como a China e a Índia ou a
Turquia.
A OFERTA INTERNACIONAL POR MACRORREGIÕES E ESTADOS
A oferta internacional de petróleo e gás natural convencionais, numa perspetiva
de futuro, é determinada pela distribuição das reservas provadas, quer por
macrorregiões, quer por países produtores que as integram. Como se pode
observar pela consulta da informação da BP Statistical Review of World Energy
(2014), essa distribuição é profundamente assimétrica na economia mundial,
quando se compara e ordena por macrorregiões. Assim e no que diz respeito ao
petróleo a ordenação (em termos de percentagem do total das reservas provadas a
nível mundial) era a seguinte em 2013 - Médio Oriente (47,9 por -cento),
América Central e do Sul (19,5 por cento), América do Norte (13,6 por cento),
Europa e Eurásia (8,8 por cento), África (7,7 por cento) e Ásia-Pacífico (2,5
por cento) num total de 1687,9 mil milhões de barris.
Se considerássemos a disponibilidade de reservas provadas de petróleo por
países, e não por macrorregiões, viria para 2013 a seguinte ordenação dos dez
países com mais reservas (por ordem decrescente): Venezuela (298,3 mil milhões
de barris), Arábia Saudita (265,9), Canadá (174,3), Irão (157), Iraque (150),
Kuwait (101,5), Emiratos Árabes Unidos (97,8), Federação Russa (93), Líbia
(48,5) e Nigéria (37,1). Como produtores distinguem-se atualmente (em milhões
de barris/ dia) a Arábia Saudita (11,5), Rússia (10,7), Estados Unidos (10),
China (4,1) e Irão (3,5).
Se considerarmos o gás natural essa assimetria mantém-se, mas com diferenças
assinaláveis face ao que referimos a propósito do petróleo sendo a ordenação a
seguinte - Médio Oriente (43,2 por cento), Europa e Eurásia (30,5 por
cento), Ásia-Pacífico (8,2 por cento), África (7,6 por cento), América do Norte
(6,3 por cento), América Central e do Sul (4,1 por cento), num total de 185,7
triliões de metros cúbicos.
Se considerássemos a disponibilidade de reservas provadas de gás natural por
países, e não por macrorregiões, viria para 2013 a seguinte ordenação dos dez
países com mais reservas (por ordem decrescente): Irão (33,8 triliões de metros
cúbicos), Rússia (31,3), Qatar (24,7), Turquemenistão (17,5), Estados Unidos
(9,3), Arábia Saudita (8,2) Emiratos Árabes Unidos (6,1), Venezuela (5,6),
Nigéria (5,1) e Argélia (4,5).
O reforço da importância do gás natural na estrutura da procura mundial de
energia, como hidrocarboneto mais procurado pelas economias desenvolvidas, por
razões ambientais e de maior eficiência económica na produção de eletricidade
(com as tecnologias de centrais de ciclo combinado utilizando o gás natural)
altera a geoeconomia da energia, ao colocar o Irão, a Rússia1, o Qatar e o
Turquemenistão (como principais detentores de reservas de gás natural, em
contraste com o que se passa no petróleo em que a Arábia Saudita ocupa a
destacada posição de líder o que não se repete a nível do gás natural).
Posicionando a Ásia-Pacífico no contexto das reservas provadas de petróleo e
gás natural conclui-se que em relação ao petróleo, a Ásia-Pacífico (que, de
acordo com esta fonte inclui a Índia) com o seu peso demográfico e dimensão
económica detém as mais pequenas reservas de petróleo, de entre as
macrorregiões consideradas enquanto o Médio Oriente/Golfo Pérsico detém as
maiores reservas de petróleo com a América Latina e a Eurásia detendo também
reservas substanciais. No que se refere ao gás natural, a Eurásia (nomeadamente
Rússia, Azerbaijão e Turquemenistão, mas também, Noruega) e o Médio Oriente/
Golfo Pérsico (nomeadamente Irão e Qatar) detêm as maiores reservas de gás
natural; a Ásia-Pacífico, tendo também reservas reduzidas, em proporção da sua
dimensão económica atual e potencial está em melhor posição do que no petróleo,
graças às reservas da Austrália, Indonésia e Malásia.
Em resumo podemos afirmar que da observação da assimetria na distribuição de
reservas de petróleo e gás natural, ressaltam as limitadas reservas da Ásia-
Pacífico, em proporção da sua dimensão económica atual e, sobretudo futura,
devido ao processo de crescimento das economias emergentes nelas integradas.
A ESTRUTURA EMPRESARIAL NA OFERTA DE PETRÓLEO E O "MODELO OPEP"
Podemos distinguir a um primeiro nível - e de acordo com a estrutura do
seu capital - entre as national oil companies (NOC), controladas pelos
estados, e as international oil companies (IOC), companhias privadas com escala
de atuação global. A este nível deu-se uma das maiores transformações a partir
da década de 1970: com a vaga de nacionalizações que ocorreu nos países
produtores e que fez com que as NOC passassem a deter a propriedade da larga
maioria das reservas de petróleo convencional mundial e com ela o poder de os
estados decidirem os seus níveis de produção. Essa transformação foi crucial
para que a OPEP passasse a ter a possibilidade de funcionar como um cartel no
mercado mundial do petróleo.
A um segundo nível é possível distinguir dois grupos nas NOC, conforme a
posição de exportadores ou de importadores de petróleo e gás natural dos
estados que as controlam. Existem as NOC que são companhias de estados grandes
exportadores - como a Saudi Aramco da Arábia Saudita, a NIOC do Irão, a
pdvsa da Venezuela, a KPC do Kuwait, a Petronas da Malásia, etc.; existem as
NOC de estados importadores de petróleo e gás natural como as da China e Índia
e até há pouco a Petrobras. E dentro das NOC de estados exportadores pode
referir-se ainda um subgrupo que inclui as NOC de estados que não integram a
OPEP, como são os casos da PEMEX no México, e a STATOIL na Noruega2. A Rússia
exige um comentário específico: durante um período de alguns anos depois da sua
independência - privatizou a maioria das companhias de petróleo (veja-se
o caso YUKOS), mantendo sempre o controlo do Estado sobre a GAZPROM. No novo
milénio, sob direção política de Vladimir Putin assistiu-se à reconquista das
posições do Estado no setor do petróleo, materializada atualmente na posição
dominante da ROSFNET.
As NOC dos países produtores, quer as da OPEP, quer da Rússia, investem
sobretudo em jazigos situados no interior destes países, tendo diferentes graus
de competências tecnológicas e empresariais e ainda necessitando em vários
casos da tecnologia das companhias internacionais, se quiserem melhorar
significativamente a eficiência das suas operações e descobrir mais reservas
(nomeadamente no que se refere às tecnologias de exploração avançada dos
jazigos e às tecnologias offshore), querendo, no entanto, partilhar o menos
possível da renda petrolífera com as IOC.
As NOC dos estados que são membros da OPEP são instrumentos de políticas dos
estados, canalizando assim uma parte significativa dos seus lucros para o
financiamento das políticas sociais, de infraestruturas e de defesa e segurança
dos respetivos estados, e não principalmente para o reinvestimento prioritário
na prospeção e exploração nos seus próprios territórios. Os estados da OPEP
- e a Rússia - não têm interesse num esgotamento rápido das suas
reservas, em particular se dispõem de grandes populações e revelam fortes
ambições militares. As NOC das economias emergentes como a China e a Índia têm
objetivos diferentes das companhias nacionais dos estados da OPEP, já que
pretendem antes de mais ampliar o mais possível a base de produção que se
localize no seu território (incluindo na plataforma continental) e em estados
não OPEP, que aceitem a presença de investimento direto estrangeiro no
upstreame formas de partilha de resultados mais favoráveis. Competem e cooperam
com as IOC no acesso às reservas de países não OPEP mas precisam da tecnologia
das companhias privadas ocidentais, por exemplo para a prospeção e exploração
offshore.E procuram também chegar a alianças de fornecimento e de investimento
com as NOC dos países da OPEP, e da Rússia nos casos em que estes
"liberalizem" o seu modelo para obter financiamento para a expansão
da sua própria base produtiva.
Por sua vez as companhias privadas de petróleo e gás natural, as IOC, têm uma
escala de operação global, ao contrário da maior parte das NOC e são as
principais responsáveis pela descoberta de novos jazigos de petróleo e gás
natural fora da OPEP e da Rússia, desempenhando assim um papel fundamental no
mercado do petróleo. Sem elas, a OPEP deteria um poder muito maior na fixação
dos preços.
No seio das IOC podem distinguir-se dois grupos de empresas. Um núcleo central
de grandes empresas multinacionais integradas, cobrindo as várias fases da
cadeia de valor
- da prospeção e desenvolvimento de jazigos, à produção de petróleo, ao
seu transporte e refinação e à distribuição a retalho de refinados; neste grupo
incluem-se as empresas que designaremos seguidamente por "anglo-
saxónicas" - as norte-americanas - de que são exemplos, entre
as maiores, a Exxon Mobil, a chevron, a conocoPhilips - a britânica
BP- e a anglo-holandesa Royal Dutch SHELL que adquiriu recentemente a
britânica BG (British Gas), estando a maioria destas empresas cotadas em bolsa
(em Nova York, Londres ou euronext), bem como outras empresas europeias -
total, eni, repsol3. E um segundo grupo, de empresas independentes, a maioria
não integradas, várias delas especializadas na descoberta de novos jazigos
- correndo riscos elevados nesta função - apache,anadarko, Devon
Energy, marathon,noble Energy, etc.
As decisões do primeiro grupo das IOC dependem da sua rendibilidade comparada
nos mercados de capitais, que é afetada pelos preços do petróleo pelo aumento
de custos de descoberta e exploração de novas jazidas, pelas dificuldades em
entrar em novas regiões produtoras; por sua vez, a necessidade de valorizar as
suas ações no mercado pode levá-las em certos períodos a reduzir o seu
investimento, "devolvendo" aos acionistas parte dos resultados sob
a forma de dividendos e de aquisição de ações próprias e a procurar ampliar a
sua base de reservas através de fusões e aquisições de outras companhias de
energia.
OS CLUSTERS OIL & GAS- ATORES-CHAVE NA EXPANSÃO DA OFERTA DE PETRÓLEO
E GÁS NATURAL A NÍVEL MUNDIAL
As principais IOC fazem parte de clustersque incluem empresas independentes de
produção, empresas especializadas na descoberta de novos jazigos em regiões por
explorar, empresas de serviços orientadas para o apoio à prospeção e exploração
de jazigos, bem como de empresas industriais especializadas na produção dos
equipamentos para a indústria de petróleo e gás natural. O mais importante
desses clustersa nível mundial - pela relevância das empresas que o
integram nos respetivos segmentos é o de Houston nos Estados Unidos.
Estes clustersorganizados em torno das IOC das empresas de serviços e de
engenharia e de independentes especializadas na prospeção e desenvolvimento de
novos jazigos lideram a geração de novas tecnologias para prospeção e
exploração petrolífera, concentram em conjunto com o Canadá a capacidade
tecnológica para a exploração de formas não convencionais de hidrocarbonetos
(areias e xistos betuminosos, ultra deep offshore, coal bed methane, etc.) e
têm um dos mais extensos e articulados programas de desenvolvimento de novas
tecnologias energéticas que podem vir a reduzir a dependência dos países
desenvolvidos face ao petróleo.
O ECOSSISTEMA OIL & GAS - PADRÕES DE COMPORTAMENTO DOS ATORES E
FUNCIONAMENTO
Os Estados Unidos reagiram à profunda transformação na oferta de petróleo e de
gás natural que se verificou na década de 1970, quando deixaram de dispor de
capacidade excedentária para poder interferir diretamente na formação dos
preços e assistiram a uma vaga de nacionalizações que retirou ao grupo das
principais empresas petrolíferas ocidentais o acesso direto aos jazigos em que
assentava até então a sua base de produção.
O conjunto de atuações dos Estados Unidos criou um novo ecossistema para o
petróleo a nível mundial que sobreviveu até hoje. Destacaremos seguidamente
algumas dessas atuações.
Nos Estados Unidos a Administração Nixon declarou em 1971 a inconvertibilidade
ouro do dólar e pôs fim ao sistema monetário criado no Acordo de Bretton Woods.
Após a guerra israelo-árabe de 1973, o embargo de petróleo contra os Estados
Unidos sob liderança da Arábia Saudita e o choque petrolífero de 1973, a
Administração norte-americana conseguiu travar o ataque à posição dominante do
dólar por parte da Alemanha e da França, fazendo substituir o sistema monetário
de padrão ouro - dólar por uma solução que se convencionou designar por
padrão dólar e que envolveu a colaboração da Arábia Saudita e do Japão -
países que eram a expressão da maior assimetria mundial na disponibilidade de
petróleo. O Japão, uma economia industrial desenvolvida completamente
dependente do petróleo importado e sem meios estratégicos para assegurar a
defesa das suas extensas linhas marítimas de abastecimento energético, função
que caberia aos Estados Unidos. A Arábia Saudita, o maior exportador de
petróleo do mundo, com grandes reservas mas localizado numa das regiões mais
turbulentas da economia mundial - o Golfo Pérsico/Levante - e sem
capacidade de prover a sua própria defesa, face a rivais como o Irão e o
Iraque, para a qual seria crucial o papel dos Estados Unidos que renovaram uma
parceria com a Arábia Saudita.
Em 1974, os Estados Unidos negociaram com a Arábia Saudita um novo compromisso
segundo o qual o petróleo continuaria a ser transacionado em dólares, ao mesmo
tempo que no Pacífico os Estados Unidos asseguravam que o Japão - podendo
aceder ao mercado dos Estados Unidos para crescer com o seu modelo exportador
- aceitaria ser pago em dólares, com que depois poderia pagar o petróleo
importado de que necessitasse.
Neste novo sistema a OPEP passou a desempenhar um papel-chave na fixação do
preço do petróleo, mas em tandem com os Estados Unidos, o que supunha a
existência no seio da OPEP de um ator com capacidade física (capacidade
excedentária) e flexibilidade económica para intervir na regulação conjuntural
do preço, fazendo variar a produção, e que esse ator fosse aliado dos Estados
Unidos como era o caso da Arábia Saudita. Refira-se que o poder da OPEP sobre
os preços depende da coesão e disciplina do cartel que se tem revelado mais
fácil quando o que está em causa é o aumento das quotas do que quando se exige
redução das mesmas. E neste caso a disciplina será tanto mais fácil quanto as
novas quotas forem próximas da capacidade de produção sustentável da maioria
dos produtores; a Arábia Saudita desempenhou ao longo dos anos e em vários
momentos um papel disciplinador do cartel, envolvendo mudanças na distribuição
das quotas e/ou na relação destas com a formação dos preços.
Por seu lado os Estados Unidos não dispondo de capacidades excedentárias para
cogerir diretamente os preços constituíram reservas estratégicas com dimensão
tal que permitem influenciar na margem os preços do petróleo.
Mas, em termos estruturais, para que a OPEP não tivesse um poder monopolista no
sistema era necessário estar permanentemente em busca de novos jazigos de
petróleo fora da OPEP. O aumento da produção não OPEP acima do crescimento da
procura mundial passou a ser uma condição para a manutenção dos preços a nível
moderado e supunha um fluxo contínuo de novas descobertas e/ou de reavaliações
em alta do potencial de recursos já descobertos; e era vantajoso que os jazigos
não OPEP surgissem, não isoladamente, mas em vagas geograficamente
referenciadas por proximidade, para, através da sucessão de novos campos e
extensão de outros, terem um impacto prolongado no tempo na oferta de petróleo.
Essa tarefa de ampliar a base de produção fora da OPEP coube a um conjunto cada
vez mais variado e interligado de empresas que constituíram os
clusterspetróleo/gás com três polos atrás referidos - as principais IOC,
as empresas de serviços e tecnologia e as empresas especializadas na pesquisa
em territórios menos conhecidos, dispensando parcialmente as maiores IOC dos
riscos inerentes a esta função.
Ao mesmo tempo que se desenvolveu um mercado spotpara o petróleo, libertando os
países consumidores da total dependência de acordos de fornecimento de longo
prazo passando assim a funcionar um mercado mais sensível à conjuntura
económica mundial.
O novo compromisso Estados Unidos-Arábia Saudita negociado após a crise de 1973
supunha que excedentes obtidos com as receitas de petróleo em períodos de mais
elevados preços seriam "reciclados" pela Arábia Saudita e outros
produtores do Golfo Pérsico aliados dos Estados Unidos junto dos bancos ou nos
mercados de capitais dos Estados Unidos e Reino Unido. Mais recentemente,
alguns dos países produtores procuraram sofisticar a sua reciclagem de
excedentes criando fundos soberanos que constituíram carteiras de ativos
financeiros mais diversificados do que as dos bancos centrais dos respetivos
países (opção em que o Kuwait fora pioneiro já no final da década de 1980). Por
último, o petróleo foi transformado em ativo financeiro, funcionando em grande
sintonia com o ouro. Ou seja, em períodos de desvalorização do dólar, e de
relativo equilíbrio físico no mercado do petróleo, a OPEP tem todo o interesse
em elevar os preços para manter o poder de compra das suas receitas, fazendo
com que o petróleo se transformasse numa reserva de valor com que os
investidores se pudessem "proteger" dessa desvalorização do dólar.
E como "fecho da abóbada" deste ecossistema os Estados Unidos
desempenham a função de "garante em última instância" da segurança
no Golfo Pérsico e nas principais rotas de abastecimento de petróleo e gás
natural, a nível mundial; prosseguindo o objetivo de impedir que um poder rival
se tornasse dominante no Golfo Pérsico (e, simultaneamente, ameaçasse a
segurança de Israel).
OS ESTADOS UNIDOS, AS IOC E AS VAGAS DE EXPANSÃO DA OFERTA
Os Estados Unidos - a sua Administração, as suas empresas e os seus
clustersde oil & gas- têm desempenhado um papel-chave na regular
expansão da capacidade de produção de petróleo e gás natural fora da OPEP e da
Rússia, procurando mesmo intervir na produção no núcleo central da OPEP ou
desencadeando mudanças tecnológicas que alteram a capacidade de oferta no
território dos Estados Unidos. Ao fazê-lo, asseguram uma gestão global que
trava no longo prazo o poder do cartel que é a OPEP, contando de perto com
empresas como a BPe a Shell (e mais recentemente a norueguesa STATOIL) para
formar alianças em consórcios que permitem distribuir os riscos de
desenvolvimento de novos jazigos. Vamos exemplificar esse papel em três
momentos diferentes.
ANOS 90: O COLAPSO DA URSS E A ABERTURA DO ESPAÇO EX-SOVIÉTICO ÀS IOC
A implosão da URSS e a independência dos estados do Cáucaso e da Ásia Central
que rodeavam o mar Cáspio, onde a URSS tinha importantes bases de produção
energética em exploração e em desenvolvimento, transformaram a bacia energética
do Cáspio numa nova fronteira que as companhias petrolíferas "anglo-
saxónicas" chevron, Exxon mobil e conocoPhilips, BP, BG, e SHELL
procuraram ocupar em parceria com outras IOC, como a eni e a total, e em
parceria com companhias estatais constituídas nesses novos estados. Ao mesmo
tempo, na Rússia, essas companhias aproximavam-se dos novos oligarcas que
controlavam empresas petrolíferas em processo de privatização.
A Administração Clinton iria orientar a atuação dessas companhias na bacia do
Cáspio no sentido de libertar essa nova fronteira do monopólio das
infraestruturas de transporte de petróleo e gás natural herdadas da URSS, que
atravessavam o território da Rússia. A Turquia, dada a sua posição única como
"teto" do Golfo Pérsico e como "ponte" para o Cáucaso e
Ásia Central, passou a ocupar um lugar central na estratégia geopolítica e
geoeconómica dos Estados Unidos numa nova grande província energética.
Em termos geoeconómicos a Turquia viu valorizada a sua posição4. Com efeito, os
Estados Unidos apoiaram a entrada das empresas petrolíferas anglo-americanas no
Cáucaso e na Ásia Central procurando transformá-la em local obrigatório de
passagem das novas rotas da bacia do Cáspio para o exterior.
Azerbaijão, Cazaquistão e Turquemenistão representaram três casos diferentes no
que respeita à combinação de duas variáveis - entrada das IOC no
desenvolvimento e exploração de jazigos e construção de alternativas de
transporte - oleodutos e gasodutos - que não utilizassem as
infraestruturas energéticas da Rússia.
AZERBAIJÃO
No caso do Azerbaijão, as empresas internacionais envolvidas no desenvolvimento
dos novos campos em que assentou nos anos seguintes a emergência do país como
um produtor-chave da bacia do Cáspio estiveram essencialmente organizadas no
consórcio Azeri Chirag Guneshli (ACG). As dez companhias que assinaram
contratos de extração com o Governo do país, o consórcio Azerbaijan
International Operating Company, eram algumas das maiores IOC, como a BP, a
chevron e a Exxon, mas também a NOC norueguesa STATOIL e independentes como a
devon ou a amerada hess; integrava ainda empresas de países sem tradição
empresarial de primeiro plano no mundo do petróleo como as japonesas inpex e
itochu ou a turca turkie Petrolleri, e naturalmente a companhia estatal azeri,
a socar.
A importância do Azerbaijão não resultava só do seu potencial de produção mas
também do papel-chave que veio a desempenhar na instalação de oleodutos e
gasodutos que permitiram fazer o bypassda rede russa, utilizando a Geórgia e a
Turquia como países de trânsito, tais como: o oleoduto Baku-Tiblissi-Ceyhan
(BTC), que ligava os campos petrolíferos ACG no Cáspio ao porto turco de Ceyhan
no Mediterrâneo Oriental, atravessando a Geórgia - este oleoduto começou
a funcionar em 2006 fornecendo vários países europeus, nomeadamente a Itália,
sendo operado pela BP mas propriedade do consórcio AIOC; e o oleoduto Baku-
Supsa, de muito menor dimensão e que ligava o Azerbaijão ao porto de Supsa na
costa da Geórgia no mar Negro, sendo igualmente propriedade do consórcio AIOC e
operado pela BP. Mais recentemente, o Azerbaijão passou a estar envolvido na
colocação de gás natural na Europa através do jazigo de Shah Deniz.
CAZAQUISTÃO
Neste Estado da Ásia Central as IOC "anglo-saxónicas" estiveram
associadas desde 1993 ao desenvolvimento do maior campo petrolífero do país,
Tengiz, que era o principal responsável pela produção do Cazaquistão e o maior
do mundo à profundidade a que foi explorado. Assim, o seu desenvolvimento coube
à jointventureTengizchevroil entre a empresa estatal Kazmuniagas (20 por cento)
a chevron (50 por cento), a Exxon Mobil (25 por cento) e a russa lukarco (cinco
por cento), envolvendo um investimento de 20 mil milhões de dólares. A sua
produção máxima era na altura estimada em 750 mil barris/dia.
Anos mais tarde entraria em desenvolvimento outro campo gigante -
Karchaganak, situado na proximidade da fronteira do Cazaquistão com a Rússia,
que passou a ser explorado pelo consórcio kpo na base de um production sharing
agreement(psa) assinado em 1997, com o compromisso de desenvolvimento total do
jazigo em quarenta anos. O consórcio incluía inicialmente a agip/eni (32,5 por
cento) a BG - British Gas (32,5 por cento), a chevron (20 por cento) e a
russa lukoil (15 por cento). As dificuldades surgidas durante a fase de
desenvolvimento deste campo, que o tornaram num dos mais caros da história do
petróleo, originaram sucessivas recomposições do consórcio inicial. Atualmente,
integram-no a BG Group (adquirida recentemente pela Shell), a italiana eni, a
russa lukoil, a norte-americana chevron e a KazMunay Gas - empresa do
Estado do Cazaquistão.
No caso do Cazaquistão a possibilidade de escoar o petróleo e o gás natural por
rotas alternativas às que passassem pela Rússia e utilizassem a Turquia foi
cerceada pela decisão tomada em 2001 de construir um novo oleoduto Rússia-
Cazaquistão, que ligava os jazigos gigantes de Tengiz e de Karachagank ao porto
russo de Novo Rossiysk no mar Negro (tendo a Rússia e o Cazaquistão acordado em
expandir a sua capacidade de 700 mil barris/dia para um pouco mais do dobro em
2013, data inicial da sua finalização). O consórcio que explora este novo
oleoduto tem a participação minoritária da norte-americana chevron e da Oman
Oil.
O TURQUEMENISTÃO IMPENETRÁVEL ÀS IOC
Os Estados Unidos, para além do Cazaquistão, olhavam com grande interesse para
o Turquemenistão como base de produção de gás natural que em vez de estar
ligado principalmente à rede de gasodutos da Rússia poderia ser orientado numa
dupla direção: para reforçar o Azerbaijão na oferta de gás natural à Europa (e
neste quadro avançaram com o projeto do Trans Caspian Gas Pipeline (TCGP)), e
para abastecer a Ásia do Sul - Paquistão e Índia - dependendo do
Afeganistão como país de passagem, e neste caso avançaram com o projeto do
Trans-Afghanistan Pipeline (TAPI) (também conhecido como Turquemenistão-
Afeganistão-Paquistão-Índia pipeline).
A primeira proposta chocava frontalmente com o interesse da Rússia na altura,
que pretendia continuar a ser o principal comprador de gás do Turquemenistão,
mas também do Irão, tendo ambos utilizado a questão não resolvida da soberania
sobre as águas do mar Cáspio para travar o projeto. E a segunda proposta que a
intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão poderia ter tornado possível,
acabou por ser sucessivamente adiada devido às operações militares em
territórios por onde o gasoduto deveria passar. Anos mais tarde, seria a China
a romper esta impenetrabilidade construindo um gasoduto Turquemenistão-
Xingiang.
O NOVO MILÉNIO: A CAMINHO DE UMA ELEVAÇÃO SIGNIFICATIVA DOS PREÇOS DO PETRÓLEO
No início do novo milénio vários fatores interagiram para criar expectativas de
um forte desequilíbrio entre a procura de petróleo e expansão da oferta
previsível com inevitáveis impactos na subida dos preços do petróleo. A
economia mundial atravessou uma fase de crescimento sustentado da procura de
petróleo, sendo que esse crescimento foi ampliado em termos de procura
internacional pelo aumento da dependência das importações por parte de dois
grandes consumidores, Estados Unidos e China. A dinâmica das economias
emergentes da Ásia e o próprio aumento do autoconsumo de petróleo e gás natural
pelos países da OPEP, devido ao seu desenvolvimento, apontavam inequivocamente
para um crescimento continuado da procura.
Por outro lado, e como se pode observar no gráfico_1, o ritmo de descobertas de
novos jazigos de petróleo nas duas décadas anteriores e da ampliação da oferta
que permitiram reduziu-se. Colocado em confronto com este acréscimo sustentado
de procura, foi insuficiente para compensar a redução de produção da atual base
de produção5. Por volta de 2000-2002 chegaram à fase de maturidade províncias
petrolíferas externas ao controlo da OPEP (ex. mar do Norte e Alasca), que
tinham sido fundamentais para aumentar a oferta mundial no período pós-choque
petrolífero de 1973.
Ora o aumento da produção e de reservas não OPEP é, como referimos
anteriormente, em grande parte realizado pelas IOC, dependendo de variáveis
internas ao sistema, como sejam a dinâmica previsível da procura, o nível de
preços do petróleo, as margens de refinação, as reduções de custos na
prospeção, desenvolvimento e exploração e o nível de investimento em prospeção
e exploração tornado possível pelos recursos financeiros gerados internamente
pelas companhias internacionais. Mas o nível de investimento das companhias
internacionais em prospeção, desenvolvimento e exploração pode ser afetado, não
só por estas variáveis internas ao sistema mas também pela conjuntura do
mercado de capitais e pelas exigências de valorização bolsista das ações das
empresas do setor energético.
Ora no período de 1995 a 2001, durante o boomda internet, as IOC tiveram que
competir no mercado de capitais com as excecionais valorizações bolsistas de
empresas das tecnologias da informação/internet num período de volatilidade nos
preços do petróleo que afetou os seus resultados (quebra de preços em 1998 e
recuperação gradual nos anos seguintes). E optaram por valorizar as suas
cotações cortando nos investimentos em prospeção e investindo na compra de
ações próprias, afetando, a prazo, o ritmo de crescimento da oferta não OPEP.
Assistiu-se igualmente na transição do milénio a uma redução da capacidade
excedentária da OPEP, devido à limitada expansão da capacidade produtiva dos
países petrolíferos do Golfo Pérsico (sobretudo do Iraque e do Irão, mas também
da Arábia Saudita) que ou reduziram drasticamente o investimento no setor
energético devido a dificuldades internas ou hesitaram em fazer o investimento
para o aumento de produção, sem ter segurança sobre o nível de preços futuros
do petróleo. Esta redução da capacidade excedentária tornaria o mercado mais
vulnerável a movimentos especulativos.
Esta evolução teve ainda mais impacto pelo facto de a Administração Bush ter
procedido a uma alteração na política relativa à utilização da reserva
estratégica dos Estados Unidos, que retirou um segundo elemento de regulação
conjuntural ao mercado, tornando menos arriscada a atividade especulativa.
Por sua vez a perceção por parte dos mercados de um aumento do risco de
interrupção de fornecimentos por vários produtores de petróleo - desde o
Iraque à Venezuela, Nigéria e Rússia - neste caso por instabilidade
empresarial, o que fez aumentar o prémio de riscoincluído na formação dos
preços do petróleo.
A estes fatores intrínsecos ao setor energético vieram adicionar-se outros que
contribuíram para um acumular de pressões à subida dos preços, que em grande
parte radicavam no funcionamento interno da economia americana e no seu sistema
financeiro. Podemos destacar um fator de natureza financeira e outro de
natureza cambial.
O primeiro, de natureza financeira, está estritamente associado ao respirar da
economia americana, que viu os fundos de pensões e bancos de investimento a
colocar montan-tes muito elevados nos hedge fundscomo forma de compensar as
perdas gigantescas sofridas nas suas carteiras de títulos durante a quebra
bolsista de 2000, tendo-se assistido a um investimento em larga escala dos
hedge fundsnos mercados de futuros do petróleo. A abundante liquidez a nível
mundial, num contexto de poucas oportunidades de aplicações de elevada
rendibilidade, facilitou esta orientação de volumes significativos de capitais
para os mercados de futuros de petróleo e gás natural, levando a fortes
acréscimos de preços nestes mercados. O segundo, de natureza cambial,
envolvendo a desvalorização do dólar a partir de 2002, ocorrendo num período de
tensões na oferta de petróleo, permitiu aos principais produtores jogar num
acréscimo limitado da oferta para levar a aumentos dos preços em dólares que
compensassem a desvalorização da moeda dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a
desvalorização do dólar, num contexto de razões fundamentais para a manutenção
de um patamar elevado de preços do petróleo levou investidores a aplicar fundos
no mercado de petróleo, como forma de se protegerem contra essa mesma
desvalorização cambial. A conjugação de vários, ou de todos estes fatores,
levou a um acréscimo dos preços do petróleo desde 2002, com uma clara
aceleração em 2007.
OS ESTADOS UNIDOS, O IRAQUE E A TENTATIVA DE INFLUENCIAR, "POR
DENTRO", A OPEP
Em 16 de maio de 2001 o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, recebeu
do Vice-Presidente Richard Cheney um relatório com propostas para uma política
norte-americana de energia (NEPDG 2001), tarefa de que o incumbira duas semanas
após tomar posse em 20 de janeiro de 2001. No documento parte-se da constatação
que os Estados Unidos enfrentavam em 2001 a mais séria escassez de energia
desde os embargos petrolíferos dos anos 1970, decorrente de um desequilíbrio
fundamental entre oferta e procura que, se continuasse, poderia minar a
economia, o padrão de vida e a segurança nacionais. Este desequilíbrio
resultava de um aumento da procura superior ao da oferta, graças à expansão
económica, ao aumento populacional e à melhoria do nível de vida. A lógica
interna das recomendações do relatório Cheney foi a de propor um aumento de
produção de energia, petróleo em particular, nos Estados Unidos e no
estrangeiro. Meses depois, o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 veio
revelar até que ponto a solidez da aliança tradicional dos Estados Unidos com a
Arábia Saudita poderia estar ameaçada no futuro, tendo em conta as relações
estreitas da Al-Qaida com setores internos sauditas, patente no número de
cidadãos desse Estado que dirigiram e participaram nesse atentado.
A invasão do Iraque, justificada na altura pela necessidade de impedir que o
regime iraquiano detivesse armas de destruição maciça - incluindo
nomeadamente as armas nucleares -, abria a possibilidade de os Estados
Unidos virem a contar como aliado futuro no Golfo Pérsico um país menos
influenciado pelos setores fundamentalistas sunitas e ensaiar no segundo maior
detentor de reservas petrolíferas do Golfo Pérsico uma política petrolífera que
enfraquecesse o controlo da OPEP (e da Arábia Saudita) sobre a oferta de
petróleo nas décadas seguintes. Política que combinaria um aumento muito
significativo da oferta petrolífera do Iraque, naturalmente desejado por curdos
e iraquianos do sul xiita do país, e uma rutura radical com o modelo OPEP, ao
abrir a exploração petrolífera no Iraque às companhias estrangeiras. Não
obstante as dificuldades com que os Estados Unidos se depararam no Iraque
devido às múltiplas forças que se opuseram de forma violenta à ocupação, foi
iniciado um processo de institucionalização política envolvendo processos
eleitorais e redefinição de responsabilidades e poderes entre o centro e as
províncias. Nesse contexto, o Governo iraquiano aprovou em maio de 20076 uma
nova Lei dos Hidrocarbonetos que se apresentava como revolucionária no contexto
da OPEP e que, embora não tendo sido aprovada no Parlamento, acabou por
orientar nos anos seguintes as decisões do Governo e do seu ministro do
Petróleo, Hussein Sharistani, pertencente a um dos partidos xiitas. Essa lei
procurava resolver duas questões cruciais: quem poderia explorar, desenvolver e
produzir no setor dos hidrocarbonetos do Iraque e como seriam geridas as
receitas do Estado decorrentes da exploração do setor dos hidrocarbonetos em
termos da sua distribuição pelas regiões. No que respeita à primeira questão a
lei definia três regimes distintos. O primeiro visava a concessão do monopólio
operacional de uma companhia nacional estatal sobre um número restrito de
campos petrolíferos já em exploração (17 campos). O segundo, a concessão a
companhias estrangeiras (IOC, NOC e independentes) de direitos de manutenção e
desenvolvimento de campos petrolíferos já conhecidos e em exploração, mediante
o pagamento de um feede acordo com a produção que viesse a ser alcançada. Por
fim, o terceiro, a celebração de production sharing agreements(psa) com
companhias petrolíferas internacionais para o desenvolvimento de raiz de campos
ainda não em exploração ou que por elas fossem descobertos em resultado de
concessões para exploração.
No que respeita à segunda questão a lei estabelecia que as receitas totais para
o Estado, com origem no setor dos hidrocarbonetos, deveriam ser centralizadas e
distribuídas tendo em conta a população das províncias.
Não tendo sido aprovada no Parlamento, esta proposta de lei não deixou por isso
de inspirar a atuação do Ministério do Petróleo, tendo no percurso sido sujeita
a alterações significativas, das quais a mais relevante foi a criação de
companhias petrolíferas estatais por região, dando ao Sul xiita a sua própria
companhia (o quadro_2 ilustra com dados e previsões feitas em 2010, aquando dos
biding rounds).
De acordo com vários consultores o clusterde campos gigantes do Sudeste do
Iraque sob exploração da South Oil Company constituía a maior concentração de
reservas do mundo - sendo ainda de salientar que todo o Oeste e Sudoeste
do Iraque estava quase integralmente por explorar sendo muito elevadas as
expectativas de conterem reservas de grande dimensão.
O Ministério do Petróleo lançou até 2010 dois bidding rounds, quer para
recuperar e expandir campos já em exploração, quer para desenvolver campos já
conhecidos mas por desenvolver ou insuficientemente desenvolvidos. Envolveram a
celebração de contratos de serviço de IOC e NOC com a respetiva companhia
regional iraquiana por vinte anos, em que as companhias estrangeiras eram
remuneradas por um feefixo, por barril de petróleo extraído. O resultado
permite uma conclusão fundamental: o Iraque, sob ocupação das forças norte-
americanas, ao abrir o seu setor petrolífero ao exterior, fê-lo envolvendo não
só companhias petrolíferas privadas ocidentais (BP, Exxon mobil, SHELL, eni,
occidental) e do Japão (Japex), mas também companhias da China (CNPC,
Petrochina, CNOOC e Sinopec), Malásia (Petronas), Rússia (Lukoil, Gazprom Neft)
e até de Angola (Sonangol). Se os valores de produção projetados para o final
do período fossem conseguidos significaria que a produção de petróleo do Iraque
atingiria mais de 12 milhões de barris/ano7, a comparar com os 2,4 milhões de
barris/ dia em 2009, um acréscimo de nove milhões de barris/dia, forçando até
lá uma completa renegociação das quotas no seio da OPEP. Em qualquer dos casos
o Iraque ombrearia com a Arábia Saudita como o segundo maior produtor na OPEP,
muito acima do Irão, do Kuwait e dos Emiratos Árabes Unidos.
Se recordarmos que a esmagadora maioria dos acréscimos de produção contemplados
se situam no Sul do Iraque, onde existe uma clara maioria xiita, pode concluir-
se que qualquer que seja a evolução política do Iraque - unidade ou
partição - esta coincidência entre o potencial de crescimento da produção
de petróleo e a maior concentração de população xiita no Iraque, reforça o
desafio que representa para a Arábia Saudita a expansão prevista da produção de
petróleo no Iraque.
O SHALE GASNOS ESTADOS UNIDOS
O gás de xisto (shale gas) há muito que era conhecido nos Estados Unidos como
recurso potencial e mesmo como recurso explorado embora em pequena escala e em
formações geológicas que permitiam mais fácil exploração. As limitações na
ampliação da oferta convencional de gás natural por volta de 1973 levaram a
Administração a lançar, com a colaboração da indústria, programas de
investigação aplicada.
Quatro avanços tecnológicos foram imprescindíveis para tornar possível a
exploração em larga escala de jazigos de gás de xisto em formações geológicas
muito diversas nos Estados Unidos. Duas dessas tecnologias - o horizontal
drillinge 3D Seismic- foram desenvolvidas para o setor de petróleo. Já a
fracturação foi desenvolvida, na forma com que se difundiu na indústria do gás
natural - a fraturação hidráulica graças à investigação e experimentação
realizada por uma das empresas pioneiras a Mitchell Energy & Development
(entretanto adquirida pela devon Energy). Outra tecnologia, a microseimic fract
mapping, foi muito relevante para permitir definir o modo mais adequado de
fraturação tendo em conta as características específicas das fissuras nas
rochas xistosas de cada jazigo.
O gás de xisto experimentou um boomextraordinário a partir de 2003, quando, em
2000, representava apenas 1,6 por cento da produção total de gás natural nos
Estados Unidos, passou para 4,1 por cento em 2005 e para 23,1 por cento em
2010. Como se pode ver no gráfico_3 em poucos anos a produção de gás de xisto
passou a ser a dominante e, de acordo com as estimativas de reservas entretanto
realizadas por organismos oficiais, irá ampliar a sua importância no futuro
- embora não haja unanimidade em torno dessas estimativas, as quais são
consideradas excessivamente otimistas por alguns analistas.
O potencial de produção de gás de xisto nos Estados Unidos irá permitir que em
vez de se tornarem importadores de gás natural como era antecipado no início do
milénio os Estados Unidos se tornem exportadores. Contando a América do Norte
com as reservas do Canadá. Refira-se que, entretanto, países como a China, a
Índia, a Argentina, o México, a Polónia e a Austrália estão envolvidos, ou em
vias de se envolver, no desenvolvimento dos seus próprios recursos de shale
gas.
As tecnologias aplicadas no shale gaspermitiram igualmente alterar radicalmente
a produção de petróleo nos Estados Unidos, reduzindo a importação e, sobretudo,
abrindo a possibilidade de, no futuro, os Estados Unidos intervirem na formação
do preço do petróleo no mercado internacional (sem ser na margem graças à
utilização das suas reservas estratégicas).
Tal desenvolvimento - como o que referimos a propósito da expansão da
capacidade de produção do Iraque - não pode deixar de preocupar a Arábia
Saudita.
NOTAS FINAIS
O ecossistema mundial do petróleo, organizado de forma evolucionária, sob
liderança dos Estados Unidos ao longo de quatro décadas, assentou em quatro
componentes-chave. Em primeiro, o dólar como moeda internacional que funcionou
como "moeda comum" quer nas relações da Ásia-Pacífico com os
Estados Unidos, quer dos Estados Unidos e Ásia-Pacífico com a OPEP/Golfo
Pérsico, no que poderíamos designar como dollar oil standard. O segundo
componente prende-se com o papel-chave da Arábia Saudita no seio da OPEP como
principal produtor exportador e detentor de capacidades excedentárias em termos
físicos e de flexibilidade no seu uso em termos económicos, o que lhe permitiu
não só disciplinar o cartel como intervir decisivamente na regulação do preço
do petróleo. O terceiro, com o papel crucial das IOC impedidas - na
totalidade ou em parte - de explorarem jazigos nos estados-membros da
OPEP - na prospeção, desenvolvimento e exploração de novos jazigos fora
da OPEP, bem como na formação de clustersque simultaneamente lideram as
tecnologias de prospeção e exploração. Por fim, o quarto componente está
relacionado com a função que os Estados Unidos desempenharam de garante da
segurança de acesso ao Golfo Pérsico e nas rotas marítimas que a ele conduzem,
quando nem a Arábia Saudita nem os estados da Ásia-Pacífico aliados dos Estados
Unidos dispunham de capacidade militar própria para garantir esta dupla
exigência de segurança.
Ou seja, este ecossistema articulou de forma sustentada três níveis de
funcionamento do sistema internacional: o geoeconómico, o geopolítico e o
geoestratégico, sob a liderança dos Estados Unidos em todos eles. Assim como se
constituiu como uma pedra-chave do processo da globalização posterior a 1979-
1980.
Ora, na atualidade este ecossistema está ser sujeito a fortes tensões no seu
interior devido a fatores diversos. Por um lado, a emergência da China como
potência interessada em romper a prazo com a predominância do dólar - no
que é acompanhada pela Alemanha e outros estados da zona euro - e como
potência envolvida no desenvolvimento de capacidades militares de primeiro
plano. Por outro, a crise de confiança entre os Estados Unidos e a Arábia
Saudita após o 11 de setembro de 2001, a intervenção norte-americana no Iraque
em 2003, a publicação da nova lei do petróleo no Iraque em 2007, e o
desencadear das revoltas árabes com papel relevante da Irmandade Muçulmana. Por
último, a adoção pelos Estados Unidos, durante a Administração Obama, de uma
nova doutrina que orienta a sua intervenção geopolítica e estratégica e que
pode ser entendida em vários quadrantes como arrastando uma redução de
capacidade de intervenção futura em zonas-chave do atual ecossistema do
petróleo, ou seja, na Ásia-Pacífico e no Golfo Pérsico.
Ao mesmo tempo está a organizar-se um ecossistema do gás natural - o
combustível fóssil mais importante no futuro para as economias desenvolvidas (e
não só), no qual os Estados Unidos, com a "revolução do shale gas",
se posicionaram como ator indispensável na regulação e no qual outros atores
poderão ser relevantes, como a Rússia, o Qatar ou o Irão. Composição bem
diferente da que suportou o ecossistema do petróleo.