Rumo ao dia que mudou a guerra
RECENSÕES
Rumo ao dia que mudou a guerra*
Helena Ferreira Santos Lopes
Licenciada em História pela FCSH-UNL, mestre em Estudos Chineses e em Métodos
de Investigação Histórica pela School of Oriental and African Studies,
Universidade de Londres, e doutoranda em História pela Universidade de Oxford.
Eri Hotta, Japan 1941: Countdown to Infamy, Nova Iorque, Vintage Books, 2014,
323 páginas
O dia 7 de Dezembro de 1941 viveria na "infâmia", vaticinou
Franklin D. Roosevelt no discurso que precedeu a declaração de guerra dos
Estados Unidos ao Japão. Esse dia - que no Japão, devido à diferença
horária, não era 7, mas já 8 - mudou o curso da história da II Guerra
Mundial. O legado do que precedeu e se seguiu ao ataque japonês a Pearl Harbor
teve consequências que duram até aos nossos dias. A historiadora Eri Hotta, em
Japan 1941: Countdown to Infamy,pretende explicar o conjunto de decisões que
conduziram ao início da guerra no Pacífico numa obra que se centra no lado
japonês e explora os limites humanos das relações internacionais, não
esquecendo os efeitos práticos que decisões político-diplomáticas têm obre
populações em geral.
O argumento que norteia a obra de Eri Hotta é o de que o início da guerra no
Pacífico se deve a um conjunto de decisões duvidosas tomadas por líderes
japoneses, muitos deles não acreditando que era possível ganhar uma guerra
contra os Estados Unidos. O percurso sinuoso e sincopado dessas decisões é
explorado ao longo dos capítulos do livro. Neste ano em que se assinalam os cem
anos do início da Primeira Guerra Mundial e se alude ao
"sonambulismo" dos líderes europeus que permitiram o início de um
conflito global que se julgava impensável, a obra de Eri Hotta dirige a atenção
para o escalar de tensões na Ásia nos anos 1940 que culminaram naquilo a que
chama uma "guerra suicida" (p. 18). Como a autora esclarece no
prólogo, ainda que o ataque a Pearl Harbor - que teve lugar após meses de
um penoso compasso de espera negocial - tenha sido recebido com
entusiasmo no Japão, e embora "alguns líderes estivessem equivocadamente
esperançosos", "nenhum confiava numa eventual vitória do
Japão" (p. 11). As suas reservas seriam cruelmente comprovadas com a
derrota em 1945, após a destruição calamitosa de muitas cidades do Japão por
ataques aéreos americanos, o lançamento de duas bombas atómicas contra
populações pela primeira e única vez na história, e milhões de mortos e
feridos. Estiolado por sanções americanas, cada vez mais isolado
internacionalmente desde a sua saída da Sociedade das Nações (sdn) em 1933
(após o relatório Lytton ter confirmado que o Japão agira como agressor na
Manchúria), e depois de insistir num avanço territorial para a Ásia do Sueste,
ao Japão de 1941, segundo boa parte dos líderes políticos militares que
protagonizam a obra de Eri Hotta, já nada restava senão uma fuga para a frente
que permitisse apostar tudo na jogada arriscada de um ataque contra os Estados
Unidos. A única, e ténue, hipótese de sucesso era então e tinha de ser
aproveitada. Os resultados, como Eri Hotta enfatiza, foram terríveis. A autora
não poupa nas palavras:
"Justificar o comportamento do Japão é o menor dos meus
objectivos ao recontar os oito meses que levaram à decisão de atacar
Pearl Harbor. Pelo contrário, aos líderes do Japão cabe a derradeira
responsabilidade de iniciar uma guerra que era evitável e impossível
de ganhar. A guerra deveria ter sido resistida com mais vigor e muito
mais paciência" (PP. 13-14).
O livro Japan 1941: Countdown to Infamy não é o primeiro em que Eri Hotta se
debruça sobre o Japão da Segunda Guerra. Na sua primeira obra, Pan-Asianism and
Japan's War, 1931-1945, a historiadora explorara os meandros da ideologia
que, em parte, ajudou a explicar o imperialismo japonês na Ásia, indissociável
da eclosão da Segunda Guerra Mundial nesse continente. No seu mais recente
trabalho, publicado originalmente em 2013 e reeditado em paperbackno Verão de
2014, a autora centra-se nos acontecimentos que conduziram à decisão
irreversível de atacar os Estados Unidos em 1941. Trata-se de uma obra em que
política interna e externa se interligam, alicerçada sobretudo em fontes
primárias japonesas. O livro inclui ainda alguns extras, como páginas de
fotografias, uma lista das "personagens principais" e uma
cronologia de acontecimentos de relevo da história do Japão antes de Abril de
1941. Infelizmente, falta-lhe uma bibliografia que permita o acesso à lista
completa de fontes consultadas, uma vez que as notas finais com referências
bibliográficas, embora extensas, nem sempre são exaustivas, alguns exemplos
curiosos necessitando de indicação da fonte.
O FRACASSO DOS CÉPTICOS
Ao longo de cerca de três centenas de páginas, Eri Hotta pinta um quadro vívido
do quão dividida e hesitante estava a liderança japonesa nos meses que
precederam o dia que mudou a guerra. Uma poderosa observação de uma obra de
1949 do cientista político Maruyama Masao, citada no livro, ilustra bem as
contradições das vésperas de Pearl Harbor:
"Tremendo perante a possibilidade de fracasso, (os líderes)
insistiam ainda em seguir em frente com as mãos tapando os olhos. Se
perguntarmos, "Queriam eles a guerra?" a resposta é sim;
e se perguntarmos, "Queriam eles evitar a guerra?" a
resposta também é sim. Embora querendo a guerra, queriam evitá-la;
embora querendo evitá-la, escolheram deliberadamente o caminho que a
ela conduziu" (PP. 18-19).
As divisões existiam no topo da hierarquia política e militar. "Segundo a
constituição", refere a autora, "os militares podiam
"aconselhar" o imperador independentemente do governo civil",
o que podia gerar "dois governos com políticas externas completamente
contraditórias" (p. 19). Acresce a isto as querelas entre Exército e
Marinha, cada um "dividido nas suas simpatias políticas, mundividências,
cliques, e preferências estratégicas e inimigos principais" (p. 19).
Quem eram as figuras (o livro de Hotta faz uma peculiar incursão na história
dos "grandes homens", embora a sua abordagem não seja apenas de
cima para baixo) que protagonizaram o caminho para Pearl Harbor? A autora
recolheu uma série de dados biográficos destas personalidades, ajudando a
explicar as suas influências e contradições e tornando mais complexo o seu
retrato.
Entre as figuras destacadas está o príncipe Konoe Fuminaro, chefe de Governo
quando a guerra com a China eclodiu abertamente em 1937, a quem a autora imputa
parte da responsabilidade pelo escalar desse conflito (p. 190) e pelos
falhanços nas relações com os Estados Unidos que culminariam em Pearl Harbor.
Hotta é, por vezes, cáustica nas descrições:
"No final, ele (Konoe) era mais um chauvinista japonês do que
um nacionalista asiático. E como muitos chauvinistas, o seu argumento
para a grandeza nacional estava associado a uma grande medida de
insegurança e medo de rejeição" (p. 37).
No entanto, o retrato que traça de Konoe é colorido por uma série de pormenores
interessantes que matizam a imagem crítica, como a sua associação ao seu
mentor, o liberal príncipe Saionji Kinmochi, que Konoe acompanhou à Conferência
de Paz de 1919. Segundo Hotta, Saionji foi ficando progressivamente desapontado
com Konoe, acreditando, ao contrário deste, que, por exemplo, o Japão deveria
aceitar Chiang Kai-shek como "um parceiro de negociação legítimo"
(p. 38) - Konoe foi um dos responsáveis pelo reconhecimento de um governo
alternativo ao Kuomintang de Chiang, o do colaboracionista Wang Jingwei. Da
descrição de Konoe emerge uma das contradições por detrás do longo conflito
entre a China e o Japão: "Ele admirava a sua antiga civilização (da
China) mas sentia-se ameaçado pelo seu crescente nacionalismo" (p. 38).
Um dos retratos mais interessantes do livro é o de Matsuoka Yosuke, o ministro
dos Negócios Estrangeiros ("dos mais influentes da história do
Japão", garante Hotta) que negociou um pacto de neutralidade com a União
Soviética em Abril de 1940. "Se Konoe era o Hamlet melancólico, Matsuoka
era Dom Quixote, sofrendo de um caso sério de megalomania" (p. 59). Um
self-made manque vivera uma parte da juventude nos Estados Unidos, Matsuoka
passou também algum tempo na China e na Rússia, integrou a delegação japonesa à
Conferência de Paris e foi depois presidente da poderosa South Manchurian
Railway.
Coube ao enérgico Matsuoka o discurso com que o Japão deixou a sdn em 1933.
Apesar de ter celebrado uma aliança com a URSS, Matsuoka adoptaria pouco depois
um discurso de confronto que clamava por ataques a Singapura e à URSS como
forma de pressionar os Estados Unidos, país cuja postura calcularia mal.
O general Tojo Hideki, que seria inúmeras vezes representado como a face do
Japão em materiais de propaganda de guerra aliados, "sentia-se
dividido" (p. 10) nas vésperas do conflito e terá, aliás, tentado evitá-
lo por via diplomática assim que se tornou primeiro-ministro em Outubro de
1941. Também ele, porém, foi incapaz de parar a marcha em direcção à guerra,
que via, de igual modo, como forma de honrar os militares japoneses já mortos
na China. A retórica de um Japão acossado por potências coloniais ocidentais
empenhadas em negar-lhe o que elas gozavam apoderou-se até de personalidades
que Hotta descreve sob uma luz mais positiva, Togo Shigenori, que seria
ministro dos Negócios Estrangeiros a partir de Outubro de 1941, e que ela
descreve como alguém que "fez mais do que qualquer outra pessoa nos
círculos decisórios de topo para resistir à guerra" (p. 241) mas que,
publicamente, acabou por "abandonar a coragem das suas convicções"
(p. 241.)
A figura do imperador merece um tratamento bastante discreto por parte de Eri
Hotta, longe do tom acusatório de outros historiadores, um dos mais conhecidos
no Ocidente sendo porventura Herbert P. Bix. Nas suas referências ao imperador,
Hotta descreve-o como alguém pouco favorável à ideia de uma guerra com os
Estados Unidos e para quem "a diplomacia devia vir antes" (p. 174),
mas que era como "um outsiderno estranho processo de tomada de decisões
em Tóquio" (p. 175), dividido perante "a sua responsabilidade como
comandante supremo das Forças Armadas, cujo papel era garantir a sobrevivência
do Japão através da preparação militar" (p. 175). Em suma, a posição de
Hotta é a de uma absolvição, ainda que crítica: "O imperador tornou-se
uma metáfora para o Japão, uma nação pressionada a tomar uma acção indesejável
devido a algumas forças externas incontroláveis, apesar das suas preferências
pacíficas" (p. 176). Os efeitos de uma crise económica, ultranacionalismo
crescente e manipulação dos mediajuntaram-se numa bola de neve difícil de
suster. Personalidades nos altos escalões da política, diplomacia, Exército e
Marinha japoneses sabiam que os recursos do país dificilmente suportariam um
conflito prolongado com os Estados Unidos, mas a ideia de um Japão encurralado
de forma injusta ajudou a convencer os cépticos de que o confronto era a única
via possível. Quatro conferências imperiais em 1941 e uma série de outras
reuniões e encontros delinearam uma travessia que fez Pearl Harbor parecer
inevitável. Discussões paralelas, umas com vista a uma solução diplomática e
outras em prol de um conflito armado, prosseguiram até à hora H.
Uma "grande ironia" de todo este processo, como constata a autora,
foi o facto de o ataque a Pearl Harbor ter sido projectado por uma figura
"fundamentalmente contra a guerra" (p. 20), o almirante Yamamoto
Isoroku, um veterano da guerra russo-japonesa de 1905 que frequentou a
Universidade de Harvard e foi adido militar na Embaixada japonesa em Washington
nos anos 1920. Em Setembro de 1940, após meses a desenvolver um plano de ataque
contra os Estados Unidos, Yamamoto continuava duvidoso e terá mesmo afirmado
que "uma guerra com tão poucas hipóteses de sucesso não deve ser
combatida" (p. 192). Em Agosto de 1941, num relatório ao primeiro-
ministro, um grupo de académicos do Total War Research Institute concluiu:
"Caso o Japão entrasse em guerra com os Estados Unidos e os seus aliados,
o Japão iria necessariamente perder" (p. 164). Apesar de todas as
advertências, começaram os preparativos para um conflito cuja taxa de sucesso
era questionável. Se os laços entre o Japão e os Estados Unidos são um dos
focos centrais do livro, a China é a chave para boa parte das atribulações
daquele relacionamento mútuo. O facto de a Administração Roosevelt ter enviado
uma série de sinais de apoio à República da China liderada por Chiang Kaishek,
que desde 1937 resistia à ocupação japonesa, foi um dos factores de maior
tensão, nomeadamente o facto de os Estados Unidos terem recusado atribuir
qualquer autoridade ao Governo colaboracionista em Nanjing, o qual o Japão
reconhecera como legítimo representante chinês em 1940.
Além da questão chinesa, também a aliança com a Alemanha influenciou as
relações Japão-Estados Unidos. Uma das questões que surge como particularmente
relevante no livro de Hotta é a de como a participação do Japão no Pacto
Tripartido (1940), com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini, manchou
irremediavelmente a imagem da potência asiática aos olhos dos Estados Unidos,
sendo um dos principais pontos de discórdia que frustrou as negociações
bilaterais. Hotta demonstra como a aliança com a Alemanha tinha vários críticos
no establishmentjaponês (a começar pelo então embaixador do Japão em Berlim,
Kuruso Saburo). No entanto, mesmo quando o pressuposto que motivara a aliança
- que a Alemanha triunfaria na Europa - se começava a revelar menos
inevitável, e embora
"não subscrevessem uma verdadeira ideologia fascista, os
líderes do Japão recusaram-se a fazer algo para se desembaraçarem da
aliança do Eixo. Isto porque, presumivelmente, ninguém queria assumir
os erros de ter apoiado acriticamente a invencibilidade da
Alemanha".
Assim, "o Japão permaneceria uma potência fascista por associação e teria
uma hipótese diminuta de conseguir chegar a acordo diplomático com os Estados
Unidos" (p. 184).
No início de 1941, o almirante Nomura Kichisaburo, antigo ministro dos Negócios
Estrangeiros, foi enviado para Washington DC como embaixador, encarregado de
negociar uma solução pacífica para as relações com os Estados Unidos em estado
de tensão sobretudo depois do avanço japonês para a neutral Indochina francesa,
o que motivara uma série de sanções contra o Japão, designadamente um embargo
petrolífero (em 1940, os Estados Unidos forneciam 93 por cento do petróleo
japonês (p. 27)). Em Novembro desse ano, Kuruso Saburo, um experiente diplomata
casado com uma americana, juntou-se a Nomura para tentar conseguir o quase
impossível. Hotta refere que, apesar dos esforços de Kuruso, a escolha deste
foi problemática, uma vez que foi ele que assinou o Pacto Tripartido (do qual
discordava) no ano anterior.
Propostas e conversações continuamente abortadas seriam recorrentes até ao
eclodir da guerra. As atribuladas iniciativas diplomáticas, incluindo uma nunca
realizada cimeira com Roosevelt, são descritas por Hotta com um crescente
fatalismo, à medida que se aproxima o prazo apontado como ponto de não retorno.
Esse prazo era desconhecido dos dois principais negociadores japoneses em
Washington mas a autora sugere que não o seria dos seus interlocutores
americanos que deles tinham conhecimento via comunicações interceptadas. Ao
mesmo tempo que se refaziam propostas para memorandos de entendimento,
intensificavam-se os preparativos para uma guerra. A "Nota Hull",
entregue no final de Novembro, assumia uma postura americana pouco
conciliatória, e era intransigente em questões referentes à China. As suas
propostas seriam impossíveis de obter acordo a curto prazo, muito menos nos
dias antes da deadlinerígida estabelecida pelos dirigentes em Tóquio. Visto
como uma provocação e uma humilhação quando recebido no Japão, o documento
marcaria o fim da linha para quem ainda acreditava numa solução diplomática
para a crise.
Na madrugada do dia 7, o Japão atacou a frota norte-americana no Pacífico, na
base de Pearl Harbor. Os representantes japoneses nos Estados Unidos foram
avisados com poucas horas de antecedência (p. 279) e, devido a uma série de
complicações, entregaram a declaração de guerra formal horas depois do ataque,
mas "ignorando completamente que o seu país já havia atacado os Estados
Unidos" (p. 279). Terá sido enorme o choque pelo facto consumado -
afinal, tanto Nomura como Kuruso estavam ali em nome de uma última réstia de
paz, que acabara de se extinguir.
PARA ALÉM DOS LÍDERES
Se boa parte de Japan 1941pode ser considerada uma obra sobre os meandros da
política e diplomacia japonesas centrada em grandes figuras masculinas, Eri
Hotta pontilha o seu livro com passagens que demonstram os efeitos sobre o
comum dos cidadãos do que era jogado nesses círculos. Para isso serve-se de
algumas personagens que surgem recorrentemente ao longo do livro e que servem
para elucidar sobre as condições de vida cada vez mais desesperantes da
população japonesa.
Uma destas figuras é Nagai Kafu, um poeta hedonista da primeira metade do
século xx de cujo diário a autora usa vários excertos como voz de uma
silenciosa oposição ao crescente militarismo, limitação de liberdade individual
e carência de géneros que afectou a maioria dos japoneses. Bem diferente de
Kafu é o soldado U, que Hotta reduz ao anonimato de uma letra tornando-o uma
espécie de representante colectivo. Alistado no exército japonês, enviado para
a China e depois para a Ásia do Sueste, o soldado U está lá para ilustrar os
horrores bélicos no terreno, o resultado prático das decisões - e
indecisões - dos grandes homens dos gabinetes.
Muito antes de Pearl Harbor já os efeitos da guerra - uma guerra que
decorria com a China desde 1937 (alguns historiadores fazem-na remontar a 1931,
com a ocupação da Manchúria) - se faziam sentir sobre a população
japonesa. Cartazes desencorajando luxo e promovendo hábitos austeros surgiam
nas cidades onde outrora o esplendor consumista de anúncios e de department
storesseduziam um novo público cosmopolita. A escassez de combustível fez com
que os autocarros tivessem de circular movidos a carvão vegetal (p. 26). Em
Abril de 1941, em seis grandes áreas metropolitanas "anteriormente
repletas com todas as conveniências da vida moderna, as pessoas já só
conseguiam obter arroz com senhas de racionamento", situação que se
estenderia a 99 por cento do Japão em Dezembro desse ano (p. 4).
Embora a ênfase em grandes personalidades confira ao livro de Eri Hotta uma
dimensão essencialmente de história político-diplomática, a autora não esquece
um lado de história social que contrapõe o universo dos líderes ao da maioria
da população, mantida à margem de muitas das discussões que afectariam a sua
existência. "As pessoas pouco sabiam de como as suas vidas se tornariam
muito baratas, mesmo sem valor algum, graças ao governo que elas tão
sinceramente apoiaram com o dinheiro que arduamente ganharam e pouparam"
(p. 148).
A meio do primeiro capítulo, Eri Hotta faz um interessante flashbackpara
"tudo o que poderia ter sido" do Japão que a guerra mudou. É o
retrato de um país ainda internacionalista, que em 1936 ganhara a corrida para
organizar os Jogos Olímpicos de 1940 (que viriam a ser cancelados), cujo
pavilhão vencera o grande prémio na Exposição de Paris em 1937 e cuja
associação ao termo "Kamikaze" era, não ataques suicidas, mas uma
aeronave pilotada por dois aviadores a bater um recorde de travessia entre
Tóquio e Londres para comemorar a coroação do rei Jorge VI (p. 50). O epílogo
refere o que se seguiu a Dezembro de 1941, reflectindo na persistência de
algumas questões ainda debatidas sobre o papel do Japão na guerra. Para Hotta,
parece ser claro que a chave da destruição dessa imagem de um Japão alternativo
está no facto de os líderes no topo da cadeia hierárquica não terem tido
"vontade, desejo e coragem suficientes para travar o momentumpara a
guerra" (p. 286), estando reféns de estruturas de decisão colectivas que
enfatizavam uma ilusão de que ninguém "detinha qualquer responsabilidade
individual" (p. 286). A história da Segunda Guerra Mundial na Ásia tem
atraído um interesse crescente na historiografia em língua inglesa dos últimos
anos. Este trabalho de Eri Hotta insere-se nessa corrente e coloca o Japão no
centro da análise procurando compreender, sem desculpabilizar, a sua posição à
época. Num tempo de tensões como as que se vivem actualmente, na Ásia e não só,
Japan 1941é um alerta sóbrio sobre os perigos de decisões irreflectidas para
saltos no desconhecido e da desistência de soluções pacíficas quando elas são
possíveis e desejáveis.
NOTAS
* A pedido da autora o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.