As dimensões interna e internacional da crise na Ucrânia
Em novembro de 2013, as ruas de Kiev foram palco de uma onda de manifestações
que reclamavam uma maior aproximação da Ucrânia à União Europeia (UE), bem como
um compromisso real com reformas institucionais, nomeadamente o combate à
corrupção, ao abuso de poder, ao nepotismo, à desigualdade socioeconómica e à
violação de direitos humanos no país.
O movimento "Euromaidan", como ficou conhecido, parece ter sido
despoletado pela decisão das elites políticas em Kiev adiarem a assinatura do
Acordo de Associação com a UE, que coincidiu com a celebração de um generoso,
ainda que pouco transparente, acordo económico com a Rússia1.
Após três meses de confrontos marcados por um escalar da violência no terreno e
uma gestão pouco eficaz do conflito, a 21 de fevereiro de 2014, o então
Presidente Viktor Yanukovitch e os líderes da oposição assinaram um acordo
mediado pela UE, que visava colocar termo à crise política na Ucrânia. Todavia,
nos dias seguintes, Viktor Yanukovitch partia para o exílio e o Parlamento
ucraniano votava a destituição dos seus poderes, ao mesmo tempo que elegia o
governo interino que haveria de gerir o país até às eleições legislativas de
maio de 2014.
Percecionando os eventos na sua vizinhança próxima como um esquema ocidental
para promover reformas em Kiev contrárias aos interesses russos e promover a
aproximação da Ucrânia às instituições euro-atlânticas, Moscovo envolveu-se
desde cedo nesta crise. O objetivo era reverter as dinâmicas em curso na
Ucrânia e assegurar a manutenção do país na sua esfera de influência. O
político e militar a movimentos separatistas no Leste e Sul da Ucrânia e a
anexação da Crimeia a 18 de março de 2014 constituem os pontos mais altos da
estratégia russa na região.
Não obstante a clara conexão à situação interna do país, a crise da Ucrânia não
pode ser dissociada do quadro geopolítico e de segurança em que Kiev se insere.
Este artigo visa explorar a complexidade inerente a este fenómeno. Como tal, e
a fim de lançar um olhar sobre a imbricada relação entre as dinâmicas endógenas
e exógenas em jogo nesta crise, o artigo começa por desconstruir a dimensão
interna do conflito, para depois analisar como a dimensão externa contribuiu
para o desenrolar dos eventos. O artigo termina com algumas reflexões finais
sobre a crise ucraniana e as suas consequências para a paz e segurança
europeia.
A DIMENSÃO INTERNA DA CRISE UCRANIANA
O final da Guerra Fria implicou consideráveis transformações geoestratégicas e
geopolíticas a nível regional e global. Desde logo, o desmembramento da União
das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) deu origem a uma série de novas
entidades políticas. Neste contexto, a Ucrânia emergia como um Estado
independente, não obstante a sua significativa diversidade geográfica e social.
Desde então, este país de suma importância estratégica no quadro geopolítico e
geoestratégico europeu alargado embarcou numa quádrupla transição: política,
económica, institucional e identitária2. No que concerne à política externa,
Kiev tem oscilado entre uma maior aproximação ora à UE, ora à Rússia, consoante
os seus interesses e perceções nos diferentes momentos.
Não obstante este processo de transição, o que se verificou na prática foi que
os líderes políticos ucranianos falharam na modernização política e económica
do país. A corrupção e a desigualdade socioeconómica escalaram para níveis
inaceitáveis e o fosso entre pró-europeus e pró-russos aumentou
consideravelmente3. Por outro lado, as ligações pouco transparentes dos
oligarcas ucranianos à Rússia, sobretudo no setor energético, agravaram os
níveis de dependência do país, deixando-o vulnerável a pressões políticas e
económicas por parte de Moscovo4.
A débil situação socioeconómica, aliada às flutuantes opções de política
externa da Administração de Viktor Yanukovitch, que levaram à recusa em assinar
o Acordo de Associação com a UE em prol de uma maior aproximação à Rússia,
abriu caminho para a mobilização da sociedade civil ucraniana na praça Maidan,
em Kiev.
O movimento "Euromaidan" destaca-se pela sua heterogeneidade, bem
como pela visibilidade que atribui à sociedade civil na escolha dos rumos
políticos da Ucrânia. Este movimento juntou classes trabalhadoras, oligarcas e
ativistas políticos nos protestos contra o Governo. Ainda que este movimento
tenha sido inicialmente associado a um sentimento nacionalista exacerbado, uma
desconstrução das dinâmicas e discursos que dele emanaram demonstra que, mais
que um sentimento de ódio ou descriminação, o que uniu a sociedade civil
ucraniana foi a vontade generalizada de encontrar um espaço onde a identidade
ucraniana pudesse florescer de forma sustentada, independentemente dos
interesses particulares das classes políticas corruptas que têm governado o
país desde o fim da Guerra Fria5. Neste sentido, a crise ucraniana assume-se
como uma tentativa de construir uma identidade nacional e definir o rumo
político, económico e regional do país6. Por outro lado, este processo de
maturação de uma consciência nacional e de reforma política institucional
parece ser identificado com uma maior aproximação à UE. Apesar de as massas
reunidas em Kiev demonstrarem um diminuto conhecimento das implicações
inerentes à assinatura do Acordo de Associação com a UE que esteve na origem
dos protestos, estas parecem associar a integração europeia a democracia,
primado do direito, direitos humanos e boa governação7.
Os protestos massivos por parte da sociedade civil ucraniana despoletaram uma
forte e violenta resposta por parte das forças policiais ligadas ao regime de
Viktor Yanukovitch. Seguiram-se três meses de confrontos entre os manifestantes
e as forças policiais. O escalar dos níveis de violência no terreno e a gestão
pouco eficaz do conflito levaram o então Presidente Viktor Yanukovitch e os
líderes da oposição a assinar um acordo mediado pela UE que visava colocar
termo à crise política na Ucrânia. Este acordo, assinado a 21 de fevereiro de
2014, previa a limitação dos poderes presidenciais, a realização de eleições e
a desmobilização das forças da oposição ao Governo de Kiev. Todavia, nos dias
seguintes, o Presidente em funções partia para o exílio e o Parlamento
ucraniano votava a destituição dos seus poderes, ao mesmo tempo que elegia o
governo interino que haveria de gerir o país até à realização de novas eleições
legislativas.
Moscovo viu com desconfiança os eventos na sua vizinhança próxima, que
considerou serem parte de um esquema ocidental para promover reformas
contrárias aos interesses russos e promover a aproximação da Ucrânia às
instituições euro-atlânticas. Visando reverter as dinâmicas em curso na Ucrânia
e assegurar a manutenção do país na sua esfera de influência, a Rússia
envolveu-se desde cedo nesta crise. Apesar de ter usado um vasto leque de
instrumentos económicos e diplomáticos para atingir os seus objetivos, o apoio
político e militar a movimentos separatistas no Leste e Sul da Ucrânia e a
anexação da Crimeia a 18 de março de 2014 constituem os pontos mais
significativos da sua estratégia na região.
Não colocando fim à crise ucraniana, a anexação da Crimeia veio contribuir para
um escalar dos níveis de tensão no Sul e Leste da Ucrânia. À medida que
movimentos separatistas pró-russos, apoiados por Moscovo, desencadeavam
conflitos violentos, o novo Presidente em funções na Ucrânia, Petro Poroshenko,
começou a armar uma nova "guarda nacional" para defender o país de
investidas de "grupos extremistas"8. Para além disso, o novo
Governo em Kiev comprometeu-se a encetar uma série de reformas com vista a
melhorar a situação do país e minorar os níveis de descontentamento da sua
população. No entanto, estas reformas são difíceis de implementar e requerem um
esforço para dar resposta aos múltiplos desafios políticos e económicos que
Kiev está com dificuldades em gerir9.
Simultaneamente, Moscovo reunia uma considerável força militar na fronteira com
a Ucrânia e encetava esforços para desestabilizar uma economia já de si
fragilizada10. O conflito na região de Donbas acabou por alterar ainda mais as
características da crise ucraniana. Se até então os conflitos assumiam uma
natureza híbrida, integrando simultaneamente forças voluntárias e irregulares,
com a eclosão de conflitos nesta região parece assistir-se à emergência de uma
guerra convencional de factoentre forças armadas regulares ucranianas e o
exército russo. Ainda que Moscovo negue oficialmente a presença de forças
militares em solo ucraniano, informações recentes apontam para o facto de os
rebeldes pró-russos disporem de armamento que só pode ser proveniente das
Forças Armadas russas. Para além disso, análises sobre o conflito indicam que
os separatistas pró-russos admitem o envolvimento das Forças Armadas russas no
conflito, tanto ao nível do fornecimento de armas como da disponibilização de
militares no terreno.
Após algumas tentativas falhadas de chegar a um acordo político que
estabelecesse o cessar-fogo nas zonas de conflito no Sul e Leste ucraniano11,
os líderes da Rússia, da Ucrânia, da Alemanha e da França conseguiram promover
um acordo com os separatistas ucranianos, na cidade de Minsk, a 11 de fevereiro
de 2015. O acordo de Minsk foi estabelecido na base do respeito pela
integridade territorial e a soberania da Ucrânia e previa um cessar-fogo a
partir de 15 de fevereiro, a retirada de artilharia pesada, a criação de uma
zona de segurança e a entrega do controlo total da fronteira à Ucrânia até ao
final de 201512. Contudo, o sucesso desde acordo ficou desde logo comprometido
por uma ofensiva lançada pelos rebeldes pró-russos imediatamente após a
assinatura do mesmo e por relatos que testemunham a entrada de equipamento
pesado russo na Ucrânia13.
O envolvimento da comunidade internacional na gestão do conflito tornou-se
claro. Quer pelo peso que a Ucrânia tem no xadrez político e de segurança
europeu alargado, quer pelo envolvimento direto ou indireto da Rússia nestes
eventos, a verdade é que a crise ucraniana extravasou os limites nacionais e
assume-se hoje como um episódio incontornável das relações internacionais. A
secção seguinte deste artigo visa analisar a dimensão externa da crise
ucraniana, a fim de lançar um olhar mais esclarecido sobre as múltiplas
dinâmicas em jogo neste cenário.
A DIMENSÃO EXTERNA DA CRISE UCRANIANA: O PAPEL DA RÚSSIA, DA UE E DA NATO
Desde o início da crise ucraniana, vários foram os atores internacionais que se
envolveram nos eventos despoletados a partir das manifestações na praça Maidan,
em Kiev, em novembro de 2013, desde líderes nacionais a organizações
internacionais. A própria origem do movimento "Euromaidan" não pode
ser dissociada da dimensão internacional, uma vez que um dos seus principais
motores foi a oscilação das elites em Kiev entre a adoção de um rumo pró-
europeu ou pró-russo para o país. Ainda que a UE e a Rússia sejam os atores
envolvidos de maior relevo, muitos outros estão atualmente associados à gestão
desta crise, nomeadamente os eua, a NATO, a OSCE e os líderes nacionais de
vários estados. Para efeitos do presente artigo, e dada a complexidade inerente
à desconstrução do contributo de cada um destes atores para o desenrolar dos
eventos, optou-se por limitar a análise ao contributo de três atores centrais
na eclosão e desenvolvimento da crise ucraniana: a Rússia, a UE e a NATO.
A Rússia tem tido um papel incontornável na crise ucraniana, encetando uma
estratégia que visa proteger os interesses russos na região e enfraquecer o
poder e legitimidade do novo Governo de Kiev. Análises sobre a temática
oferecem explicações variadas sobre a atuação de Moscovo. Entre estas contam-se
a necessidade de Vladimir Putin reforçar a sua popularidade doméstica; as
ambições regionais russas que privilegiam a edificação de um bloco económico
euro-asiático, cujo sucesso depende em certa medida da participação ou pelo
menos da lealdade da Ucrânia; e a responsabilidade de proteger russos étnicos
no espaço pós-soviético14. A par destas justificações para a intervenção
política, económica e militar da Rússia no espaço pós-soviético, é de realçar
uma linha de análise que vislumbra a anexação da Crimeia e o apoio russo a
movimentos separatistas como um movimento reativo, despoletado pelos
acontecimentos de novembro de 2013, ou ainda como uma extensão de um novo
imperialismo russo, cujo objetivo último é a reunificação do espaço que outrora
pertencera à URSS. Nesta última visão, a intervenção russa no conflito pode
ainda ser interpretada como um aviso a todos os países do espaço pós-soviético
que pensem em abandonar a órbita de influência russa em prol de uma maior
aproximação às instituições euro-atlânticas15.
Ainda que o papel da Rússia na crise ucraniana possa ser visto como uma reação
ao movimento "Euromaidan" e à ameaça que o mesmo parece representar
para os interesses russos no espaço pós-soviético, reduzir a análise a esta
dimensão acaba por negligenciar uma série de fatores que enriquecem a
compreensão dos eventos na região. Muito embora a intervenção russa nesta crise
tenha sido projetada como um evento inesperado, uma análise contextual das
relações de Moscovo com os países da sua vizinhança demonstra que o Kremlin tem
apostado na criação de condições favoráveis à sua intervenção no espaço pós-
soviético, com o intuito de salvaguardar os seus interesses políticos e de
segurança. Neste sentido, o papel da Rússia na crise ucraniana pode ser
percecionado como um prolongamento da sua política externa tal como vem sendo
desenvolvida desde os anos 2000.
Efetivamente, a Rússia tem-se revelado assertiva nas suas opções de política
externa. Moscovo não está interessada em ter nas suas fronteiras qualquer clima
de instabilidade política ou económica ou um reforço do poder de forças
políticas russófobas que pos-sam colocar em causa a sua segurança nacional e
regional. Para além disso, Moscovo quer evitar precedentes de remoção de
governos em funções, sobretudo em prol de elites pró-europeias, de modo a não
permitir um efeito de contágio na sua vizinhança que tenha potencial para
colocar em perigo a sua posição de supremacia nas dinâmicas de poder e
segurança no espaço pós-soviético16.
Isto sucede porque Moscovo tende a percecionar a independência e aproximação
dos países da sua vizinhança às instituições euro-atlânticas como uma ameaça
aos seus interesses regionais. Como tal, tem desenvolvido uma estratégia que
passa pela utilização de recursos económicos, políticos e militares para
assegurar que os mesmos se mantenham na sua esfera de influência17.
No seguimento desta lógica, Moscovo foi perentória a declarar o Governo de
transição na Ucrânia, estabelecido no final de fevereiro de 2014, como ilegal e
extremista18. Da mesma forma, ao sentir os seus interesses ameaçados, Moscovo
não hesitou em usar as suas vantagens na península da Crimeia e no Sul e Leste
ucraniano para influenciar as decisões políticas de Kiev. O objetivo primordial
foi não só coagir os líderes políticos em Kiev a acomodar os interesses russos,
mas também garantir o controlo de uma das mais importantes mais-valias para a
Rússia na Ucrânia: o acesso ao mar Negro19.
Em geral, e à semelhança do que acontece um pouco por todos os conflitos
"gelados" no espaço pós-soviético, a Rússia tem pouco interesse em
promover a resolução dos conflitos no Sul e Leste ucraniano, uma vez que tal
implicaria a eliminação de uma importante força de influência sobre as decisões
políticas de Kiev20. Do mesmo modo, ainda que a ideia de reconstrução da
Novorossiya esteja a ser difundida no discurso político e nos meios de
comunicação social21, parece pouco provável que Moscovo almeje uma verdadeira
emancipação dos territórios em conflito, já que também isso diminuiria a sua
capacidade de influenciar os rumos políticos da Ucrânia. Para além disso, a
independência destes territórios iria resultar na emergência de uma série de
novas entidades políticas no espaço pós-soviético, implicando esforços
adicionais para garantir a segurança da sua vizinhança e uma posição política
em conformidade com os seus interesses regionais e globais. Nesse sentido, a
própria anexação da Crimeia pode ser encarada mais como um mecanismo de coerção
face à tomada de posse do Governo de transição em Kiev e à sua propensão pró-
europeia, do que como um verdadeiro encorajamento ao separatismo na região22.
O envolvimento russo nos confrontos no Sul e Leste ucraniano parece ser
incontestável. Ao contrário do que sucedeu na praça Maidan, não há evidências
claras que as manifestações e a ocupação de edifícios públicos nestas regiões
tenham tido origem na sociedade civil. Todavia, Moscovo tem demonstrado uma
posição ambígua face aos eventos na Ucrânia. À medida que as regiões do Sul e
Leste ucraniano demonstravam o seu desejo por uma maior autonomia em relação a
Kiev, a Rússia manifestava o seu respeito pelos resultados, mas evitava
cautelosamente reconhecer estes territórios como autónomos ou independentes.
Isto demonstra que o Kremlin não está verdadeiramente interessado na
desintegração da Ucrânia, por um lado, e, por outro, que a sua ambiguidade no
apoio aos separatistas está a levar ao crescimento do fosso entre os mesmos e
Moscovo23. Apesar de várias análises realçarem que os próprios movimentos
separatistas na região parecerem mais interessados em obter um maior grau de
autonomia do que em promover uma integração na Rússia24, estes estão
conscientes da sua vulnerabilidade política e militar perante o Kremlin e veem
com desconfiança esta ambiguidade. No geral, a atuação russa na crise ucraniana
representa uma manifestação de poder com o intuito de manter a Ucrânia na sua
esfera de influência. Não obstante, o novo Governo em Kiev tem resistido a
estas dinâmicas de poder e atuado no sentido de garantir o que considera ser
melhor para o futuro do país. Nesta ótica, iniciou uma série de reformas
estruturais e assinou em junho de 2014, o Acordo de Associação com a UE, que
continua a ser vista como um motor de estabilidade e prosperidade. Como
resposta a esta situação, Moscovo tem reforçado o seu apoio às forças
separatistas, bem como as suas forças militares nas zonas fronteiriças, com o
objetivo de acentuar a instabilidade no país e, desta forma, condicionar as
decisões políticas em Kiev25. Todavia, se daqui parecem ter resultado algumas
concessões políticas que passam pela reforma constitucional e a
descentralização do poder de tomada de decisão em território ucraniano, os
efeitos na agenda internacional de Kiev parecem ser limitados, uma vez que,
oficialmente, esta continua a privilegiar a aproximação às instituições euro-
atlânticas, em conformidade com as exigências da sociedade civil26.
Perante o cenário de anexação da Crimeia e do apoio a movimentos separatistas
em solo ucraniano, a comunidade internacional condenou publicamente a posição
de Moscovo. Porém, ainda que esta anexação seja ilegal do ponto de vista do
direito internacional, e que os líderes ocidentais tenham sido perentórios na
sua condenação dos eventos, na prática optou-se por uma aceitação da situação
de factoe pela concentração de esforços na prevenção de novos desafios à
estabilidade e soberania ucraniana e, por extensão, a todos os países do espaço
pós-soviético onde este cenário se pudesse repetir27.
No quadro da UE, numa cimeira extraordinária do Conselho Europeu, em 30 de
agosto de 2014, apelou-se à retirada de todas as forças militares russas em
território ucraniano, ao mesmo tempo que os líderes europeus se mostraram
disponíveis para tomar medidas adicionais para resolver o conflito. Neste
sentido, a UE impôs uma série de sanções económicas e entraves à emissão de
vistos de oficiais russos e líderes separatistas no Leste e Sul ucraniano. É
expectável que a UE continue a aplicar sanções económicas com o intuito de
dissuadir as suas investidas na Ucrânia. Contudo, é incerto que os estados
europeus consigam chegar a acordo noutras medidas a aplicar a Moscovo28. Ainda
que os países que estiveram outrora sob dominação soviética, como a Polónia ou
a Lituânia, reclamem uma estratégia mais dura, a Alemanha, a França e a Itália
permanecem reticentes em agudizar as suas relações com a Rússia, por temerem
retaliações políticas e, sobretudo, económicas. Por outro lado, o Presidente
Putin já percebeu a hesitação e relutância europeia em avançar com medidas mais
duras e parece estar preparado para absorver o choque económico imediato que
possa advir das sanções impostas, pelo que estas correm o risco de se revelar
ineficazes na resolução do conflito29. De facto, as sanções aplicadas até ao
momento mostraram-se insuficientes quer para reverter a anexação da Crimeia,
quer para atenuar a intervenção russa nos conflitos no Sul e Leste ucraniano30.
Desta forma, apesar de as declarações políticas irem no sentido de mostrar que
a UE estava pronta para agir rapidamente, o que se tem verificado na prática é
uma letargia nos processos de tomada de decisão e na sua capacidade para lidar
com os eventos na sua vizinhança. No geral, a UE tem feito too little, too
lateno que respeita à crise ucraniana. Isto representa uma derrota da sua
política externa e de segurança, não só por não conseguir assegurar a paz em
solo europeu, mas também por ter revelado o seu fracasso na transformação da
sua vizinhança numa zona de paz, estabilidade e prosperidade, baseada na
aceitação de normas e valores europeus. Neste sentido, a Política Europeia de
Vizinhança falhou no seu objetivo de transformar a vizinhança europeia e
permanece incapaz de fornecer instrumentos ou mecanismos que permitiam lidar
com a crise ucraniana de forma sustentada e eficaz31. Do mesmo modo, a crise
ucraniana parece inaugurar uma nova fase das relações entre a UE e a Rússia,
uma fase que substitui dinâmicas de cooperação por nuancesde confrontação
estratégica32.
Por seu turno, o papel da NATO na crise ucraniana tem sido mais nominal que
efetivo. Isto deve-se, em parte, ao peso que os interesses norte-americanos têm
na definição da agenda da organização. No contexto global, a Ucrânia representa
um interesse marginal para Washington e é improvável que a situação se reverta
nos anos vindouros. Neste sentido, é inócuo falar de uma estratégia norte-
americana para a resolução do conflito ucraniano que vá para além da mera
retórica política e da aplicação de sanções económicas33. No seio da NATO, tal
como sucede na UE, os estados-membros demonstram interesses contraditórios no
que toca a adotar medidas mais duras para penalizar a Rússia pela sua
intervenção na Ucrânia. Por outro lado, o seu escopo de atuação é limitado, no
sentido em que a ofensiva russa cai fora do âmbito do artigo v. Assim, ainda
que a intervenção russa tenha levado o secretário-geral da NATO, Anders Fogh
Rasmussen, a declarar a crise ucraniana como "a mais séria crise na
Europa desde a queda do Muro de Berlim", uma atuação mais substancial por
parte desta organização parece ser pouco provável a menos que isso coloque em
risco direto algum dos seus estados-membros34.
A multiplicidade de atores envolvidos demonstra que a crise ucraniana é muito
mais que um evento nacional. Trata-se de um conjunto de dinâmicas que englobam
a insatisfação da sociedade civil ucraniana, mas também uma luta entre a Rússia
e o Ocidente pela influência sobre um território de importância incontornável
no quadro geopolítico europeu alargado. Contudo, a breve análise da intervenção
de atores internacionais na crise ucraniana que aqui se efetuou demonstra que
enquanto no plano europeu se traçam sanções contra Moscovo, se realizam
avaliações do impacto da crise ucraniana e se engendram estratégias de
coordenação entre a UE e a NATO, no terreno a Rússia constitui um dos
principais motores do que pode ser considerado como verdadeira guerra em solo
ucraniano35.
REFLEXÕES FINAIS
Os eventos que ocorreram na Ucrânia em novembro de 2013 parecem ter iniciado um
novo capítulo no entendimento das relações de poder e de segurança no espaço
europeu alargado. Com efeito, a particularidade desta crise alerta-nos para a
complexidade dos conflitos do pós-Guerra Fria, sobretudo no espaço pós-
soviético, ao mesmo tempo que deita por terra uma noção até então tomada como
garantida: que a segurança em solo europeu era um dado adquirido36.
Ainda que as estruturas estatais de poder na região continuem a desempenhar um
papel primordial, não podemos ignorar a intervenção de outros atores, como a
sociedade civil e as instituições internacionais (e.g.UE e NATO), nem tão-pouco
as imbricadas relações de poder e jogos de interesses que ocorrem neste espaço.
Neste sentido, uma compreensão abrangente e informada dos eventos só pode ter
lugar quando se traz para a análise dos mesmos as suas dimensões endógenas e
exógenas.
A crise ucraniana surge como muito mais do que um mero desacato interno ou um
movimento reativo da parte de Moscovo. Ela resulta da evolução e interseção de
questões identitárias, políticas, socioeconómicas e geoestratégicas. Desta
forma, a sua compreensão não é possível sem a análise do quadro geopolítico
mais vasto em que Kiev se insere, bem como das perceções e interesses dos
vários atores envolvidos nestes acontecimentos. Para além disso, esta é uma
situação em permanente evolução e os seus efeitos no médio e longo prazo são
ainda difíceis de prever. As dinâmicas presentes nesta crise são múltiplas e
interagem constantemente umas com as outras. Por conseguinte, é provável que
estejamos apenas a assistir ao início de uma série de mudanças estruturais que
terão um impacto nos planos local, regional e até mesmo global37.
Não obstante os esforços da comunidade internacional, e em particular da UE e
da NATO, o que se verifica é que a Rússia está a jogar com regras e interesses
distintos38. Moscovo continua a ter uma visão realista da cena internacional,
onde a segurança absoluta é uma condição sine qua nonpara a sua sobrevivência.
Os países ocidentais foram apanhados de surpresa com os eventos na Ucrânia e
não têm conseguido dar resposta a este desafio de forma satisfatória. Com
efeito, as soluções apresentadas têm tomado a forma de sanções económicas e de
diálogo político que, ainda que possam ter efeitos benéficos no longo prazo,
demoram tempo a produzir resultados e não parecem exercer uma pressão real
contra atos agressivos no curto prazo. Desta forma, a resolução desta crise
parece estar dependente de um delicado processo que responda aos desafios
internos e externos que estão na sua origem.
Data de receção: 5 de janeiro de 2015 | Data de aprovação: 17 de março de 2015
NOTAS
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3
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Charap, Samuel, e Darden, Keith - "Russia and Ukraine". In
Survival: Global Politics and Strategy. Vol. 56, N.º 2, 2014, PP. 7-14.
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Ukraine's Euro-Maidan revolution". InPerspetives on Europe. Vol.
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Freedman, Lawrence - "Ukraine and the art of crisis
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What is to be done?". InCEPS Essay. N.º 8, 21 de janeiro de 2014, PP. 1-
19.
8
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9
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10
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Council on Foreign Relations. Commentary, 26 de janeiro de 2015.
12
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InObservador. 12 de fevereiro de 2015. (Consultado em: 6 de março de 2015).
Disponível em: http://observador.pt/2015/02/12/nao-ha-ainda-boas-noticias-em-
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13
"Aplicação do acordo de Minsk "não será fácil", diz
Poroshenko". InDN Globo. 12 de fevereiro de 2015. (Consultado em: 6 de
março de 2015). Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/
2015/02/12/kiev-e-rebeldes-assinam-acordo-para-aplicar-plano-de-paz-no-leste-
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16
Charap, Samuel, e Darden, Keith - "Russia and Ukraine", PP.
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17
Dias, Vanda Amaro - "As relações da Rússia com a Ucrânia,
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Competição num Espaço Alargado. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra,
2014, PP. 57-84.
18
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management", PP. 7-42.
19
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20
Blank, Stephen - "From Eurasia with love, American foreign policy
interests", PP. 162-174.
21
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22
Freedman, Lawrence - "Ukraine and the art of crisis
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23
International risis roup - "Eastern Ukraine: a dangerous
Winter".
24
Hedenskog, Jakob - "Ukraine - challenges for the
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25
Freedman, Lawrence - "Ukraine and the art of crisis
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