Era uma vez na Europa
RECENSÃO
Era uma vez na Europa
Tal como resulta do subtítulo, o tema do livro incide sobre o momento mais
dramático que a Europa enfrentou desde o início do chamado processo de
integração: a crise do Euro. Como é sabido, a construção europeia surgiu para
mudar o relacionamento entre os países do continente, que haviam derrapado nas
décadas precedentes para níveis intoleráveis de conflitualidade. As guerras
entre estados europeus foram consequência direta da ascensão dos nacionalismos
em diversos países. A exacerbação do discurso nacional no confronto do seu
próximo criou níveis de destruição aterradores.
O processo de integração inspirou-se nos valores da cooperação e solidariedade
entre estados e povos, antagónicos do espírito nacionalista que grassava pela
Europa nos anos 1930. Paulatinamente, a Comunidade Europeia foi aproximando
pessoas e nações, criando laços de amizade sólidos. A criação da União Europeia
representou um passo suplementar, com a criação da cidadania europeia e de uma
moeda única, a liberdade de circulação e o favorecimento de uma nova
mentalidade, espelhada na mobilidade estudantil de milhões de universitários.
Os europeus das diferentes culturas, línguas, religiões e tradições pareciam
ter encetado uma nova fase no relacionamento do continente.
E tudo o vento levou, no início de 2010, quando a crise da chamada dívida
soberana emergiu. Num repente, o chefe de governo de um país da União Europeia
nas suas intervenções públicas acusava os cidadãos de outro estado-membro de
serem preguiçosos, por trabalharem pouco e se reformarem cedo; deputados do
partido de tal governante afirmavam que se tal país não conseguia obter
financiamento junto dos mercados de capitais poderia, em alternativa, vender o
território de ilhas que lhe pertenciam; ao mesmo tempo que no congresso desse
partido se assegurava que a Europa iria falar a língua daquela nação, num
futuro próximo.
Num curto espaço de tempo, a Europa parecia regressar às querelas entre estados
e povos, replicando divisões entre bons e maus da sua história, agora na versão
de virtuosos e preguiçosos. Quando a casa europeia quase ruiu, os bons todos
poderosos acederam por fim em conceder auxílio aos malévolos povos da
periferia. Todavia, como não deve existir crime sem castigo, o apoio a prestar
implicaria o seu preço: os prevaricadores teriam de ser punidos, porquanto o
sofrimento redime o pecador. Caso contrário, a União Europeia estaria a
beneficiar o infrator. Mais do que uma crise financeira, a crise do Euro virou
uma crise moral. De um lado, as virtudes aforradoras de uma boa dona de casa da
Suábia; do outro lado, a libertinagem bravia dos atenienses.
Gavin Hewit, editor da BBC para a Europa, pretendeu neste livro ensaiar uma
história da crise do Euro, e de como esta ia deitando tudo a perder, arrastando
consigo os progressos conseguidos ao longo de muitas décadas de integração
europeia.
O Continente Perdido não é um trabalho académico. O livro pretende oferecer,
numa linguagem simples ' aqui e ali traída pelas malhas do exercício da
tradução ' uma visão global da crise que atingiu a União Europeia desde início
de 2010, com o advento da crise da dívida soberana na Grécia, e o seu
alastramento aos países da periferia da moeda única, virando numa crise do
Euro, e de todo o projeto europeu. O livro está organizado em dúzia e meia de
capítulos, centrados em torno dos principais atores da crise do Euro: países
endividados, por um lado; Alemanha, por outro lado. Assim, o livro vai
traçando, capítulo após capítulo, uma cronologia dos acontecimentos que levaram
à erupção da crise do Euro, desde a descoberta do enorme buraco nas contas
públicas gregas pelo recém-eleito governo Papandreou, no outono de 2009, à
forma como a Alemanha foi lidando com os países mais afetados pela crise do
Euro, passando pelo perigo de contágio às grandes economias de Espanha e
Itália. A parte final do livro é balizada pela declaração do Presidente do
Banco Central Europeu, Mario Draghi, no verão de 2012, prometendo que faria o
que fosse necessário para salvar a moeda única.
Escrito num estilo jornalístico, os diferentes capítulos do livro partem de
acontecimentos de report agem de caráter jornalístico para uma análise dos
principais momentos que envolveram a crise do Euro. Embora o estilo do autor
possa ceder em algumas partes a certa efabulação, sobretudo quando refere
aspetos relativos à Grécia, Itália ou Espanha, o livro procura retratar as
principais ocorrências que marcaram o período em análise. Será esse, aliás, o
seu principal contributo: conseguir relatar episódios centrais da crise do
Euro, sobre os quais pouco se conhece, ainda. Assim, a forma como descreve a
sucessão de acontecimentos no delicado fim de semana do início de maio de 2010
' que o então primeiro-ministro Sócrates referiria como o momento em que o
mundo mudou', o esforço nacional da Irlanda para evitar ser forçada a
apresentar o pedido de resgaste ou, ainda, o modo expedito como a Alemanha
impôs o pacto orçamental na agenda europeia, e conseguiu a sua aprovação.
A estrutura do livro reparte o texto entre os vários protagonistas da crise:
Grécia e Alemanha, nos extremos opostos do conflito; o risco de contágio a
Itália e Espanha, que constituiriam as preocupações maiores da França; a
posição do Reino Unido perante a crise, e a forma como foi pressionado pelos
parceiros europeus; a resistência nacional da Irlanda à apresentação de um
pedido de resgaste financeiro internacional; as relações franco-germânicas ao
longo da crise; o comportamento de Angela Merkel face ao risco de
desmoronamento do processo de integração europeia; e a eleição do Presidente
Hollande, entendida como consequência da resignação francesa face à hegemonia
alemã no processo de gestão da crise.
Os dezoitos capítulos do livro incidem, assim, sobre a maioria dos grandes
protagonistas da crise do Euro: Alemanha e Grécia; França e Reino Unido; Itália
e Espanha; Irlanda.
Sintomático, ou talvez não, é o facto de o autor ter preterido dois atores, de
facto, da crise do Euro: Portugal, e a Comissão Europeia. Com efeito, Portugal
é o único dos países que solicitaram assistência financeira internacional que
não mereceu ser tratado num capítulo autónomo do livro, sendo que o autor se
limitou a uma breve alusão ao pedido de resgaste apresentado em 2011, num par
de páginas. Na verdade, e diferentemente da Grécia, a sociedade civil
portuguesa não reagiu de forma contundente ao bombear de medidas de austeridade
pelos credores internacionais que prestaram auxílio financeiro. Sobretudo, e ao
contrário da Irlanda, o pedido de assistência financeira foi desejado por um
setor considerável da política portuguesa, fazendo tábua rasa da secular
independência nacional e do apregoado orgulho pátrio.
De igual modo, a instituição a quem compete promover o interesse geral da União
Europeia, bem como contrabalançar o poder dos grandes estados-membros ' a
Comissão Europeia ' não mereceu atenção particular, através de um capítulo, ou
de uma parte de relevo na economia do livro. Na verdade, a crise do Euro foi
sendo gerida através do confronto sistemático dos interesses nacionais dos
diferentes países envolvidos, em detrimento do interesse geral da União, e pela
afirmação prepotente de uma nação hegemónica no processo de construção
europeia, a qual anestesiou o papel tradicional da Comissão.
Como em todas as crises políticas, a história tende a reter o papel de quem se
expõe e se defende, em detrimento de quem escolhe passar por entre os pingos da
chuva.
O livro de Gavin Hewit oferece a um público alargado uma leitura interessante
sobre uma crise, e um conflito, inacabados.