Portugal e as Pequenas Potências na Grande Guerra de 1914-1918
Em 1890, no contexto de uma disputa territorial colonial entre Portugal e a
Grã-Bretanha, o então primeiro-ministro britânico, Lord Salisbury, queixou-se
de uma Pequena Potência «muito cansativa» que nem fazia exatamente o que lhe
era exigido pela Grã-Bretanha, nem a desafiava abertamente apresentado um alvo
adequado. Salisbury resumiu a questão nestes termos paradoxais: «os portugueses
estão fazendo o máximo uso da sua fraqueza». Reclamações semelhantes a esta '
mas em termos ainda mais acrimoniosos e num contexto ainda mais dramático '
podem ser encontradas nas relações entre Grandes Potências e Pequenas Potências
nas crises que levaram à I Guerra Mundial, nomeadamente no quadro dos
ultimatada Áustria-Hungria à Sérvia e da Alemanha à Bélgica em julho e agosto
de 1914
2
.
Mas como é que num sistema internacional de anarquia nas relações de entre
estados ' com estes últimos consequentemente preocupados principalmente com a
sua sobrevivência mediante a defesa dos seus interesses recorrendo ao máximo de
meios disponíveis ' pode ser possível retirar vantagens da fraqueza? E, no
entanto, Lord Salisbury, que é corretamente considerado como um
Realpolitikerparadigmático, um realista puro e duro, considera que uma potência
fraca pode ter poder de influência ou de capacidade de ação. Pode estar errado,
mas se o afirmou não foi a partir de qualquer inclinação ideológica ou
preconceito nacionalista, mas da sua observação da política internacional. Mas
será que é realmente assim, que as Pequenas Potências podem ter alguma
capacidade de ação e influência mesmo no caso de uma grande guerra envolvendo
Grandes Potências? Responder pela positiva seria ultrapassar o teste muito
exigente de uma tal proposição.
Estas perguntas têm a vantagem de nos permitirem pensar de forma diferente: por
um lado, o problema das origens, dinâmicas de expansão e conclusão da I Guerra
Mundial; por outro lado, mais especificamente, a questão do envolvimento de
Portugal no conflito. A este respeito irei avançar com quatro pontos
principais.
Há um volume enorme de livros publicados sobre a I Grande Guerra em língua
inglesa e se usarmos apenas uma base de dados centrada em livros e artigos
académicos como a JSTOR obtemos 30 036 resultados. Uma busca no sítio similar
francês Persée indica-nos quase 22 mil resultados
3
. Evidentemente que se a isto juntarmos obras de todo o tipo ' romances,
memórias ' o resultado será significativamente maior. Porquê tanto interesse e
como sintetiza-lo do ponto de vista da nossa análise?
Sem dúvida esta enorme montanha de publicações reflete o impacto traumático da
I Grande Guerra numa era contemporânea dominada pela política de massas. Os
decisores políticos e militares tinha uma imprensa de massas e um eleitorado
massivo perante o qual justificar o desencadear e a condução da guerra. Graças
à massificação da alfabetização, sobretudo mas não apenas nos países mais
desenvolvidos envolvidos no conflito, entre os milhões que foram mobilizados e
afetados por ela em todo o mundo, muitos mais podiam ler e escrever sobre a
guerra. Isto significou que este foi também um conflito de propaganda numa
escala massiva e global.
É ainda importante sublinhar que durante o passado século esta guerra tem
estado no limitar da memória vivida ' pelo que muitos dos que têm escrito desde
então sobre a I Guerra Mundial ou ainda a viveram, ou cresceram a ouviram
histórias vividas durante o conflito pelos seus pais ou avós. Esta não tem sido
portanto, durante este último século, uma memória neutra, mas sim, vivida e
altamente contenciosa
4
.
Estes factos em parte explicam que a Grande Guerra de 1914-1918 tenha sido
repetidamente discutida neste último século em termos da questão da culpa pelo
conflito. Quem, que decisores, que generais, que país/países, que processo(s)
foram responsáveis pelos milhões de mortos da I Guerra Mundial e pelas grandes
catástrofes políticas e económicas que ela veio inaugurar? Esta tem sido a
pergunta algo redutora que tem dominado o debate público sobre um tema ainda
frequentemente explosivo.
O nascimento da própria disciplina académica das relações internacionais
resultou em boa parte do esforço para analisar com major objetividade e
profundidade o tema das origens da guerra. As primeiras cátedras e institutos
exclusivamente dedicados às relações internacionais surgiram, após 1918, tendo
como primeiro objetivo precisamente perceber não só as origens da guerra em
geral, mas também em particular as da Grande Guerra de 1914-1918. Conceitos tão
centrais no campo de estudo da segurança internacional ' como escalada em
espiral, guerra acidental, dissuasão, culto da ofensiva, corrida aos
armamentos, política de alianças e dilema de segurança ' têm sido muito
discutidos em torno das suas implicações para perceber a origem da I Guerra
Mundial. A evolução da análise desta última também tem influenciado a discussão
destes temas
5
.
Internacionalmente, ainda durante e logo seguir à I Guerra Mundial houve uma
verdadeira guerra dos documentos protagonizada pela maioria dos países
beligerantes. Ela consistiu na publicação de volumes reunido frequentemente
vastos, mas não exaustivas coleções de documentação diplomática, antes
cuidadosamente selecionada e comentada. Foi assim a começar pela Alemanha,
Áustria, Grã-Bretanha, França; Portugal envolveu-se neste processo em 1920.
Paralelamente surgiu também, no pós-guerra, uma avalancha de memórias dos
protagonistas. Como resultado desta massa de documentos a ideia de que apenas a
Alemanha e os seus aliados tinham sido culpados pelo desencadear do conflito '
como ficou formalmente consagrado no Art.º 231 Tratado de Versalhes que lhe pôs
fim ' ficou seriamente abalada.
Este novo consenso relativo assente na ideia de responsabilidade múltipla e
numa guerra acidental, resultante de alianças rígidas e uma escalada em espiral
com decisores políticos incapazes de controlar eficazmente os respetivos chefes
militares, sobreviveu à II Guerra Mundial e prosperou na fase inicial da Guerra
Fria. O livro de Barbara Tuchman, The Guns of August, representa bem o culminar
deste paradigma, muito influente num período em que o receio de uma escalada
acidental poder levar a uma III Guerra Mundial era colorido pelo terror de com
ela se cair num holocausto nuclear. A obra de Tuchman influenciou o Presidente
Kennedy na gestão crise dos mísseis de Cuba, em 1962, o qual declarou ao seu
irmão e conselheiro: «Eu não vou seguir um caminho que permita que alguém
escreva um livro sobre isto chamado Os Mísseis de Outubro».
6
A I Guerra Mundial tinha-se transformado numa lição sobre como evitar a III
Guerra Mundial.
A década de 1960 foi, porém, marcada pelo ressurgir do debate. Foi assim
primeiramente na Alemanha e sobretudo por causa da enorme polémica em torno da
obra de Fritz Fischer. Ele foi o primeiro historiador alemão que defendeu que,
não só a II Guerra Mundial, mas também já a I Guerra Mundial tinham sido o
resultado de muito ambiciosos e belicosos objetivos imperialistas alemães de
expansão. Um projeto de expansão global que surgia associado aos esforços para
manter, através de um nacionalismo populista e belicista, um sistema de poder
ainda dominado por uma pequena elite aristocrática prussiana numa era de
massificação crescente da política
7
.
O resultado é que desde então os debates internacionais sobre as origens e
mesmo o decurso da I Guerra Mundial têm sido dominados pelo que Williamson
designou numa síntese muito recente de paradigma alemã. Ou seja, tem sido um
debate muito centrado sobre os objetivos, comportamentos e documentos alemães
8
. O próprio modelo de abordagem de Fischer à I Guerra Mundial, muito focado nas
determinantes internas da política externa também se revelou muito influente.
Esta perspetiva é, por exemplo, a adotada por Nuno S. Teixeira na análise da
beligerância portuguesa
9
. Este tipo de abordagem vai também ser central numa das obras mais importantes
no campo das relações internacionais sobre a temática em termos mais gerais do
expansionismo ' Myths of Empirede Jack Snyder
10
.
No caso de Portugal o volume de obras publicado no último século sobre a I
Guerra Mundial é bem mais limitado do que internacionalmente ' pouco mais de
uma centena de publicações segundo o catálogo eletrónico da Biblioteca Nacional
de Portugal. O que, mesmo que seja um registo incompleto, dá-nos a ideia de um
interesse bem menor pelo tema
11
. Além de refletir a pequenez do país, tema recorrente neste ensaio, este é
provavelmente também o resultado do Portugal de 1914 se encontrar relativamente
aquém do limiar de desenvolvimento e massificação da educação, da literacia, da
política de muitas outras potências envolvidas no conflito. Pode ainda refletir
a perceção de se tratar de um episódio muito negativo na história nacional a
ser convenientemente esquecido. Ora, um conflito que resultou num sacrifício/
custo em número de mortos portugueses que em quatro anos ultrapassou as baixas
mortais sofridas em mais de uma década das Guerras da Descolonização de 1961-
1974 certamente merece ser devidamente analisado, sobretudo se, a par do seu
interesse histórico intrínseco, se olhar para ele como revelador de grandes
tendências das relações internacionais.
Pode-se dizer sinteticamente que, apesar das diferenças, a discussão portuguesa
sobre a Grande Guerra também tem sido dominado pela questão da culpa pela
desastrosa experiência portuguesa de participação na I Guerra Mundial. Pois
apesar de Portugal fazer parte da coligação vencedora do conflito, a Grande
Guerra tem sido consensualmente vista, no caso português como no italiano ou
grego, como uma vitória pírrica. A questão tem portanto sido a de saber se a
culpa por este fracasso custoso deve ser atribuída principalmente ao PRP '
Partido Democrático liderado por Afonso Costa e à sua temerária insistência na
participação portuguesa na guerra; e sobretudo no voluntarioso envio de um
Corpo Expedicionário Português para o teatro de operações mais exigente do
conflito do ponto de vista militar ' seja em termos de equipamento, seja de
organização ' a Frente Ocidental, as trincheiras da Flandres. Ou se, pelo
contrário, a culpa residiu fundamentalmente na tomada do poder por Sidónio Pais
no golpe militar de dezembro de 1917 e na alegada germanofilia sidonista,
resultando no, mais ou menos deliberado, enfraquecimento do Corpo
Expedicionário Português. O porquê do colapso da frente portuguesa perante a
ofensiva alemã de abril de 1918 na dita Batalha de La Lys foi o tema de
polémicas violentas ainda durante o conflito e no imediato pós-guerra, mas que
se foram mantendo até bem mais recentemente. A tendência na historiografia
portuguesa pós-25 de abril pode provavelmente ser sintetizada assinalando que
tem ido no sentido de integrar de forma mais rigorosa o debate sobre a I Guerra
Mundial no debate mais geral sobre a I República, onde surge como um tema
recorrente, mas geralmente subordinado ao de perceber-se as razões da queda do
primeiro regime republicano, para a qual contribuiu
12
.
A tendência mais recente a nível internacional ' exemplarmente expressa,
nomeadamente, numa obra de grande difusão como The Sleepwalkersde Christopher
Clark ', tem sido no sentido de questionar o paradigma alemão dominante, que,
no entanto, ainda tem defensores de vulto, sobretudo pelo questionar da
pertinência de uma análise em termos de culpa, e pelo alargamento do foco de
análise para além da Alemanha, olhando com muito mais atenção para as outras
Grandes Potências europeias, nomeadamente a Rússia, a Grã-Bretanha e a França
13
.
No caso mais específico do debate no quadro da disciplina das relações
internacionais sobre este tema ele tem sido animado pela tentativa de cruzar
desenvolvimentos mais recentes na historiografia sobre a I Guerra Mundial '
nomeadamente o questionar da prevalência da crença generalizada numa guerra
dominada por rápidas ofensivas ' no sentido de saber qual o seu impacto na
caracterização dominante deste conflito como muito determinado por um culto da
ofensiva alimentando uma preferência nos estados-maiores por uma guerra
preventiva
14
.
Também no caso português se tem notado algum esforço para ultrapassar esta
questão da culpa a favor de uma visão mais complexa, desfazendo alguns mitos '
foi assim, por exemplo, com as duas obras ambiciosas dedicadas especificamente
à I Guerra Mundial, de Severiano Teixeira e de Ribeiro de Meneses. Este último
refere-se mesmo expressamente a como seria interessante olhar comparativamente
para a questão da polarização opinião sobre a intervenção ou não-intervenção na
I Guerra Mundial no caso de Portugal com a Espanha, Itália ou Grécia
15
.
O facto é que, até ao momento, os debates, internacional por um lado, e
nacional pelo outro, se desenvolvem em grande parte de costas voltadas. Se
António Telo mostrou a importância geoestratégica do Atlântico português no
contexto internacional em que se situa a I Guerra Mundial, este facto foi
aparentemente ignorado pela literatura internacional sobre o conflito
16
. E a exceção que confirma a regra ' até por a obra ter sido publicada também
em francês ' é o livro de Severiano Teixeira. Mas que se trata realmente de uma
exceção é-nos confirmado pelo próprio historiador francês que prefacia a obra
sublinhando a total ignorância sobre o tema da participação portuguesa na
guerra entre os historiadores estrangeiros do conflito
17
. A obra em inglês de Ribeiro de Meneses sobre Afonso Costa na Conferência de
Paz de Versalhes, pode contribuir para contrariar essa tendência, mas deve ser
visto como uma segunda exceção a confirmar a regra da ignorância mútua destes
debates
18
.
Diga-se que nisso Portugal não está sozinho. Outras Pequenas Potências, mesmo
com um impacto mais evidente e maior na guerra, nomeadamente no seu
desencadear, como a Sérvia e a Bélgica, não merecem praticamente atenção
19
.
Apesar da enorme abundância da literatura sobre a I Guerra Mundial, algo que
realmente falta é um real reconhecimento ou até conhecimento do papel das
Pequenas e Médias Potências nas origens, dinâmicas e fim da I Guerra Mundial.
Uma forma particularmente interessante de cruzar o debate nacional e
internacional sobre a I Guerra, contribuindo para alargar a forma como as
relações internacionais olham para o conflito, é analisar o caso de Portugal na
perspetiva do papel e dos desafios enfrentados pelas Pequenas e Médias
Potências no quadro de uma grande guerra. Aqui iremos apenas apontar algumas
das implicações analíticas, das pistas interpretativas deste tipo de abordagem.
O que são Pequenas Potências? E, por definição, não será limitada a sua
autonomia e nulo o seu impacto sistémico, especialmente no caso de Grandes
Guerras envolvendo Grandes Potências?
Naturalmente não é possível responder aqui de forma aprofundada a estas
questões. Desde logo por elas remeterem para o tema fundamental mas muito
genérico e complexo da definição do poder nas relações internacionais em geral,
e da dificuldade específica de quantificar claramente o poder dos estados e de
os classificar e ordenar em função disso de uma forma inequivocamente relevante
para a sua ação política internacional
20
.
Mas dois pontos fundamentais merecem, ainda assim, ser sublinhados. O primeiro
é o de que o poder é cada vez mais entendido nas relações internacionais e na
ciência política como algo complexo, multidimensional e não simplesmente
material. Esta tendência está bem representada pela moda no contexto das
relações internacionais de etiquetas como a de soft power. O que nos importa é
que esta tendência ajuda a perceber melhor o papel, ação, impacto das Pequenas
Potências, pois mostra que apesar de se terem limitações materiais e/ou de
dimensão, podem ter, ainda assim, outras capacidades relevantes no quadro da
política internacional
21
.
O segundo é que a tentativa de elaborar definições muito precisas e
quantificáveis de Pequenas (ou Médias) Potências muitas vezes «são altamente
artificiais». A principal diferenciação é, em todo o caso, entre Grandes
Potências e as restantes potências e mesmo esta linha divisória mais clara nem
é total e inequivocamente clara. A definição mais operativa neste campo é, em
todo o caso, negativa. E tem sobretudo que ser vista em termos de estados
relativamente mais fracos do que outros e não de uma dimensão absoluta. Por
outras palavras, um grande território ' por exemplo, um grande império
colonial, como o português em 1914 ' pode esconder grandes fraquezas, a começar
pela dificuldades em controlar, defender e explorar esses vastos domínios, e em
mobilizar os seus recursos eficazmente. Isto também significa que o poder tem
acima de tudo uma dimensão relacional. Devemos, portanto, perguntar sobretudo:
Potência mais fraca relativamente a quem? E mais especificamente no caso de
conflitos armados devemos perguntar: Poder para se defender contra quem? Poder
para se defender de que forma (bem organizada, motivada, com elevada
mobilização de todos os recursos; ou ainda, de forma convencional ou não
convencional)? E poder para se defender com a ajuda de quem (com que aliados)?
22
Em suma, e no mínimo, devemos ter o cuidado de rastrear historicamente qual o
papel que as Pequenas Potências efetivamente tiveram num conflito, e não
simplesmente presumir a priorique ele foi completamente irrelevante.
Há, efetivamente, obras recentes sobre política e segurança internacional que
revelam uma consciência crescente da necessidade de ter em conta as Pequenas e
Médias Potências e outros atores aparentemente pouco poderosos. Nem que seja
para se compreender melhor as Grandes Potências e as aparentemente paradoxais
mas bem reais limitações ao seu poder efetivo, mesmo ao nível dos conflitos
armados ' como a derrota estratégica dos Estados Unidos no Vietname em 1975, e
da URSS no Afeganistão em 1989 demonstraram eloquentemente nas décadas finais
da Guerra Fria, para cujo desfecho, aliás, muito contribuíram
23
. É assim em particular neste tipo de conflito, designados de conflitos
assimétricos, cuja prevalência crescente tem obrigado a prestar real atenção
mesmo a atores a priorimais fracos no teste último do poder na política
internacional que é o recurso à força. Afinal se até organizações não estatais,
como grupos terroristas ' que, aliás, tiveram o seu papel na crise que levou à
guerra em 1914 ' merecem atenção, e podem ter impacto significativo na
segurança internacional, como negar que isso pode também ser assim com Pequenas
Potências, com estados que não são Grandes Potências?
24
Mas o que poderá levar estados mais fracos a envolver-se ou até mesmo a
iniciar uma grande guerra com Grandes Potências? De que forma podem eles ter um
papel significativo? São estes os pontos quer iremos procurar esclarecer
olhando para o caso de Portugal, mas também para os casos particularmente
relevantes na I Guerra Mundial da Sérvia e da Bélgica, a par de ocasionais
referência a outras Pequenas Potências.
A I Guerra Mundial mostra que mesmo Pequenas Potências relativamente fracas
podem ter um grande impacto em Grandes Guerras
É sobretudo, mas não apenas, assim na sua fase inicial, e por via da Sérvia e
da Bélgica. O envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial permite mostrar a
autonomia mesmo de potências muito enfraquecidas face às Grandes Potências e o
seu impacto agregado no processo de difusão global de um conflito de tipo. O
fenómeno de contágioé uma característica fundamental definidora deste tipo de
conflito ' que inevitavelmente rapidamente esgota o número limitado de Grandes
Potências, sendo que neste caso, todos os estados inequivocamente com esse
estatuto estavam envolvidas desde o início do conflito e portanto para se
tornar realmente grande tipicamente requer o envolvimento de Pequenas e Médias
Potências
25
. Mais especificamente a I Guerra Mundial mostra que pequenos estados, em
particular, mas não exclusivamente, aqueles que patrocinam formas não
convencionais de conflito, podem ter um impacto sistémico. É assim nomeadamente
por meio das reações em cadeia que ataques não convencionais podem provocar '
mais ou menos deliberadamente ' em Grandes Potências; mas isso não anula a
importância e a autonomia das ações de provocação ou das reações e opções das
Pequenas Potências. É o que procuraremos demonstrar referindo primeiro o caso
da Sérvia e depois o da Bélgica, antes de nos debruçarmos sobre o caso de
Portugal.
A importância sistémica do conflito entre a Sérvia e o Império Austro-Húngaro
deve ser visto no contexto da divisão da Europa em dois blocos relativamente
rigidamente alinhados de Grandes Potências. Nesse quadro, o risco de colapso ou
grave enfraquecimento da Áustria-Hungria, e a consequente expansão da
preponderância da Rússia nos Balcãs teria tido um grande impacto no equilíbrio
de poder na Europa. Iria deixar a Alemanha isolada em termos de alianças com
Grandes Potências. Este é precisamente o argumento central da carta do
imperador Habsburgo Francisco José apelando ao apoio do kaiserGuilherme II e da
Alemanha
«O ataque contra o meu pobre sobrinho [o arquiduque Franz Ferdinand]
é a consequência direta da agitação feito pelos russos e sérvios pan-
eslavistas cujo único objetivo é o enfraquecimento da Tríplice
Aliança [Alemanha, Áustria-Hungria e Itália] pela destruição de meu
império». O argumento do risco de isolamento foi depois usado também
pelo Governo central alemão numa circular explicando a entrada em
guerra aos estados federados parte do Império Alemão»
26
.
Mas é crível que o imperador Habsburgo, dominando boa parte da rica Europa
Central, se sentisse realmente ameaçado pela pequena e pobre Sérvia? É certo
que o seu chefe do Estado-Maior, o marechal Conrad von Hötzendorf, há muito que
vinha defendendo a necessidade de uma guerra preventiva contra a Sérvia. Mas
porquê? E sobretudo, porquê só em 1914 conseguiu concretizar o seu objetivo. A
verdade é que o velho imperador Francisco José tinha assistido durante o seu
longo reinado, iniciado em 1848, à unificação pela força da Alemanha pela
Prússia e da Itália pelo Piemonte, em ambos os casos à custa de interesses e
territórios dos Habsburgo. Piemonteera precisamente o nome do jornal
ultranacionalista da organização (não muito) secreta União ou Morte' mais
conhecida por Mão Negra 'dirigida pelo chefe dos serviços secretos militares
sérvios, coronel Dimitrievic, implicada no atentado de Sarajevo de 28 de junho
de 1914. Nas páginas desse jornal defendia-se na edição saída no próprio dia do
assassinato de Francisco José que os sérvios deviam continuar na Bósnia o tipo
de ação violenta no sentido de (re)unificar todos os territórios sérvios que
tinha resultado nas Guerras Balcânicas de 1911-1913 e na duplicação do
território da Sérvia
27
.
Não seriam, porém, as Grandes Potências impulsionadas por um culto da ofensiva
e uma corrida armamentista que fazia uma guerra preventiva parecer atraente,
ou, pelo menos, inevitável? Não estariam as Pequenas Potências simplesmente a
servir de pretexto para os falcões, i.e., os partidários de guerra preventiva
no seio das Grandes Potências, como o já referido Conrad em Viena, ou o seu
famoso colega o general Moltke Jr., Chefe do Estado-Maior da Alemanha? Se a
resposta for sim, isso significará que as Pequenas Potências como a Sérvia ou a
Bélgica não são verdadeiros atores mas meros gatilhos da guerra?
Um autor como McMeekin na sua obra recente sobre o papel destes falcões nas
decisões da Rússia relativamente ao desencadear da I Guerra Mundial defende que
«seria naïf acreditar que a Rússia realmente entrou em guerra em 1914 para
defender a Sérvia. Grandes Potências não mobilizam por regra exércitos de
milhões para proteger a integridade territorial de pequenos estados-satélite
28
. Este é provavelmente o principal argumento contrário às teses que aqui
defendemos.
Mesmo que as Pequenas Potências fossem os pretextos da guerra, ainda assim
alguma importância teriam. Não se pode disparar sem gatilho apesar de uma arma
de fogo ter outros componentes. Uma grande guerra precisa de um catalisador
mesmo que necessariamente envolva, até pela sua dimensão, múltiplos fatores e
atores. As ações das Pequenas Potências podem não ser causas suficientes, mas
ainda providenciar causas necessárias da Grande Guerra de 1914-1918. Ou seja,
este argumento não retira às potências mais fracas alguma capacidade de ação
efetiva, pois significa que nem tudo depende das intenções ou objetivos das
Grandes Potências, nem que seja por precisarem de pretextos para agir que não
dependem inteiramente de si.
Isso é tanto mais assim quanto é possível argumentar que os falcões de Grandes
Potências como a Rússia estavam sendo usados por uma Pequena Potência
revisionista como a Sérvia para atingir os seus próprios objetivos
estratégicos, que a elite política de Belgrado sabia serem impossíveis de
alcançar pacificamente. Por exemplo, o chefe da representação diplomática russa
em Belgrado, barão Hartwig, é descrito pelo mais importante historiador das
origens da I Guerra Mundial, Albertini, como um «pan-eslavista fanático» que
parecia ter dificuldade em distinguir entre interesses nacionais sérvios e
russos; a ponto de ser descrito por vários dos seus colegas diplomatas,
inclusive de estados aliados da Rússia como a França, como sendo por vezes mais
representante da Sérvia na Rússia do que o contrário
29
.
O facto de os governantes sérvios terem permitido o tipo de organizações
nacionalistas envolvidas no assassinato do herdeiro do trono dos Habsburgos,
por outro lado, foi uma opção sérvia vital para dar ao general Conrad em Viena
um casus belliconsensual que até então lhe tinha escapado; nomeadamente por via
do veto a políticas belicistas por parte do Governo húngaro no quadro da dupla
monarquia dos Habsburgo, e até, suprema ironia, pela oposição do próprio
arquiduque Francisco Fernando. O herdeiro do trono assassinado em Sarajevo
receava um conflito com a Rússia e desejava reformar a monarquia danubiana para
apaziguar e integrar plenamente os eslavos no seio do Império Habsburgo. Como
ato de provocação belicista dos terroristas ultranacionalistas sérvios, de
facto, nada fazia mais sentido do que assassinar o arquiduque Francisco
Fernando
30
. Mais, o que teria acontecido a todos estes eventuais falcões se a resposta do
Governo da Sérvia ao ultimato austríaco tivesse sido aceitá-lo plenamente? Essa
foi uma possibilidade real. No entanto, foi tão hábil a resposta evasiva do
chefe do Governo sérvio, Pasic, considerado um mestre neste jogo de duplicidade
diplomática tão importante para as Pequenas Potências, «que não apenas a
opinião pública europeia e as chancelarias da Entente, mas até o kaiser
Guilherme [II] e o seu chanceler» tiveram a «impressão de uma capitulação total
por parte da Sérvia, que deveria tornar possível uma saída pacífica para a
crise». Albertini, por sua vez, cita o insuspeito responsável diplomático
austríaco responsável por redigir o ultimato apresentado por Viena em julho de
1914 à Sérvia, que lhe testemunhou a sua impressão de que a resposta do Governo
de Belgrado era «o melhor exemplo de habilidade diplomática que conheço». De
facto, a não ser que se compare cuidadosamente os dois documentos, a impressão
é de uma total capitulação sérvia, que no entanto não cedeu no ponto
fundamental do ultimato de Viena que lhe permitiria investigar diretamente o
poderoso Estado secreto sérvio, e qualifica sempre todas as demais cedências
«ao que seja compatível com o direito internacional», o que permitiria depois
renegar as aparentes concessões
31
.
A elite decisória da Áustria-Hungria parece ter acreditado sinceramente que não
podia correr o risco de, mais uma vez, aceitar simples compromissos formais do
Governo da Sérvia ' que tinham sido repetidamente reafirmados, em vão, desde o
golpe nacionalista radical em Belgrado em 1903 ' e que, na prática, permitiam
ao Estado paralelo e secreto sérvio controlado pelos golpistas
ultranacionalistas continuar a dominar o Exército, a guarda fronteiriça ou os
serviços secretos. Era portanto lógico Viena exigir condições draconianas,
inclusive de interferência nos assuntos internos sérvios, para ter garantias de
ser capaz de monitorizar mais eficazmente as redes clandestinas anti-Habsburgo.
Um dos mais importantes historiadores sérvios ' embora negando a
responsabilidade do Governo de Belgrado no atentado de Sarajevo e recusando dar
razão a Viena na disputa que culminou na declaração de guerra em 1914, no
entanto nota que havia sinais de um poder paralelo na Sérvia, especialmente na
sua política para com a Áustria-Hungria, com o coronel Dimitrievic «e outros
ativistas da Mão Negra[ ] a espalhar a sua rede de agentes pela Bósnia-
Herzegovina». O mesmo autor sublinha o peso de uma forte corrente na cultura
política e estratégica sérvia favorável à utilização de meios não convencionais
que o sucesso do nacionalismo violento italiano e alemão tinha reforçado
32
. Note-se que, por outro lado, este tipo de duplicidade e de utilização de
meios não convencionais fazia todo o sentido na estratégia de uma Pequena
Potência revisionista como era a Sérvia.
O ponto fundamental, porém, é que as Grandes Potências europeias, em 1914,
simplesmente não estavam acostumadas a tomar a sério atores não convencionais;
a valorizar aquela que veio a ser uma das maiores ameaças à segurança
internacional dos séculos XX e XXI ' estados fracos que patrocinam, treinam,
armam grupos de terroristas e de guerrilha para atingirem de forma violenta
objetivos revisionistas. A Sérvia foi, portanto, capaz de tirar o máximo
partido da sua fraqueza. Belgrado procurou sempre apresentar o ultimato de
Viena como um Diktatdesproporcionado que escondia ambições geopolíticas de
expansão ' quando, na verdade, sobretudo o governo húngaro a última coisa que
queria era ter mais eslavos a desequilibrar a dupla monarquia. O Governo sérvio
pôde portanto procurar apoio das Grandes Potências apelando ao seu «sentimento
de justiça» contra a Áustria-Hungria e a Alemanha «em uma luta desigual». O
grande objetivo sérvio era garantir que a haver uma guerra ela não ficaria
sozinha. Era logicamente vantajoso para Belgrado uma escalada e um contágio do
conflito, por forma a envolver ao seu lado contra uma Grande Potência o máximo
possível de aliados de peso igual ou superior, em particular a Rússia e a
França.
A Bélgica é a outra Pequena Potência com um papel destacado nas origens da I
Guerra. Quanto a ela é sem dúvida possível argumentar que é um exemplo da
ausência de escolha das Pequenas Potências pois foi invadida pela Alemanha no
início do conflito numa tentativa de contornar as defesas francesas. Mas se a
Bélgica evidentemente não escolheu ser invadida, teve ainda assim que fazer uma
escolha decisiva: combater ou não, e ao lado de quem? Os decisores belgas
tiveram doze horas para aceitar ou rejeitar o ultimato alemão de 1 de agosto de
1914. O Conselho do Reino ' composto por políticos de todos os partidos com
representação no parlamento ' convocado por Alberto I decidiu unanimemente
rejeitá-lo. Nele Berlim exigia aos belgas a passagem das tropas alemães por uma
pequena faixa sul do território belga em troca da garantia de inviolabilidade
do resto da Bélgica
33
.
É legítimo perguntar o que teria sucedido se os belgas tivessem aceite ' mais
ou menos voluntariamente ' os termos do ultimato alemão? Para responder importa
recordar que o dito ultimato nomeadamente alegava que a França também estava na
iminência de invadir o território belga. E sobretudo importa ter em conta o
impacto da decisão belga numa Grã-Bretanha pouco decidida a entrar na guerra,
sendo ainda menos certo enviar rapidamente um corpo expedicionário para
combater na guerra terrestre no continente europeu
34
.
O Governo liberal britânico estava muito dividido. Uma série de ministros
importantes eram favoráveis à rápida entrada da Grã-Bretanha no conflito por
temerem o impacto de uma vitória alemã no equilíbrio de poder na Europa, mas
estavam em minoria. Ainda em 31 de julho de 1914 um ministro-chave tinha
passado uma nota durante uma reunião governamental britânica: «é claro que este
gabinete não vai participar da guerra» europeia claramente iminente. Porém, a 2
de agosto de 1914, o mesmo Conselho de Ministros britânico decidiu que «se se
verificar uma violação substancial da neutralidade da Bélgica seremos obrigados
a tomar medidas». Nesse mesmo dia, Lloyd George, numa reunião informal dos
ministros britânicos favoráveis à neutralidade, dos quais era o líder de
factoobteve o compromisso no sentido de que «não estamos preparados para entrar
na guerra presentemente, mas que certos eventos poderiam levar-nos a
reconsiderar [...] como seja a invasão total da Bélgica». O que é importante
sublinhar é como são qualificadas estas declarações britânicas relativas à
Bélgica ' a violação da sua neutralidade tinha que ser substancial e a invasão
total
35
.
Esta divisão no seio do Governo britânico deu, portanto, um impacto muito
grande à decisão da Bélgica de recusar taxativamente a tentativa da Alemanha a
coagir a aceitar o trânsito do seu território pelas tropas alemães sem que o
considerassem uma invasão. A entrada da Grã-Bretanha e de todo o seu vasto
império global no que se transformou muito por isso na I Guerra Mundial
resultou diretamente de um apelo formal da Bélgica ao auxílio britânico.
O ministro britânico dos negócios estrangeiros, Sir Edward Grey, teve o cuidado
de justificar a entrada na guerra lendo perante o Parlamento britânico um
telegrama enviado pelo rei dos belgas, Alberto I, apelando em termos dramática
à ajuda britânica. Londres respondeu com um ultimato para a Alemanha retirar
completamente desse país do outro lado do canal da Mancha, que Berlim rejeitou,
alegando imperiosa necessidades estratégica e rejeitando como um mero pedaço de
papel o Tratado de Londres que formalmente garantia o respeito das Grandes
Potências pela neutralidade e integridade territorial da Bélgica. Este facto
garantiu que como refere um dos historiadores a abordar mais a fundo a questão
«a defesa dos pequenos estados» foi a «ponte», se se quiser a bandeira, que
permitiu a quase todo o Governo liberal e uma grande maioria do Parlamento
britânico apoiar a entrada na guerra sem perder a face «e matar à nascença um
potencial movimento antiguerra altamente polarizador»
36
.
Mais a decisão da Bélgica de resistir militarmente ao avanço alemão pelo seu
território atrasou e enfraqueceu a ofensiva alemã visando envolver Paris e
forçar a rápida rendição da França. Sem este concurso belga e, por essa via,
também britânico, é legítimo questionar se o significativamente chamado
Milagreda Batalha do Marne que parou in extremisa ofensiva inicial alemã teria
tido lugar. O que sabemos é que ele efetivamente exigiu a conjugação de todos
os esforços, não só franceses, mas também belgas e britânicos. Sendo de notar
que o corpo expedicionário britânico começou por ter o mesmo número de homens
equivalente ao do exército belga ' 150 mil homens. Este último ponto é
fundamental para nos recordar que, mesmo no decurso de uma guerra em tão grande
escala como a I Guerra Mundial, pequenos estados podem fazer pender a balança
em momentos-chave entre os blocos militares muito equilibrados de Grandes
Potências. Podem também forçar uma decisiva dispersão de forças. Dois corpos do
Exército alemão ficaram fixados na ocupação e na frente belga. E mesmo com o
seu território invadido podem continuar a lutar ao lado de aliados, e impor
ocupações custosas, militar e politicamente. A Alemanha nunca recuperou ao
nível da importante guerra de propaganda, nomeadamente em muitos estados ainda
neutros, como seja Portugal ou os Estados Unidos, da violação da neutralidade
da Bélgica. A primeira intervenção americana significativa na I Guerra Mundial
foi uma operação de ajuda humanitária maciça, coordenada pelo futuro Presidente
Hoover, para alimentar os belgas famintos sob ocupação alemã. É fácil imaginar
o seu impacto na perceção de ameaça americana relativamente à Alemanha
37
.
Em Portugal a perceção de ameaça alemã foi também colorida pela invasão da
Bélgica. Pode-se mesmo afirmar que ela abriu uma janela de oportunidade para os
defensores portugueses da intervenção militar na frente europeia, que não pôde
ser aproveitada por manifesta incapacidade de lhe dar uma resposta militar
pronta. Mesmo o futuro opositor da intervenção Machado dos Santos parecia
disponível em outubro de 1914 para lutar pela Bélgica, e o moderado Teixeira
Gomes, embaixador em Londres comentou de forma exemplar a questão:
«Não havia na Europa nação cujos interesses fossem mais contrários,
do que os de Portugal, ao estado de guerra, para o qual de resto não
tínhamos a menor preparação. A forma como a Alemanha iniciou a
presente campanha, violando sem hesitação nem escrúpulo a
neutralidade de duas pequenas nações [ ] logo deu aos países mais mal
defendidos a exata sorte que lhes estava reservada caso a Alemanha
vencesse. Portugal dadas as conhecidas aspirações da Alemanha no que
respeito às suas colônias africanas [...] seria sem dúvida uma das
primeiras vítimas da Alemanha vitoriosa»
38
.
Mais, à luz da invasão alemã não provocada da Bélgica, cuja neutralidade
garantida por tratado, que credibilidade podia ser dada, mesmo pelos mais
céticos quanto a um envolvimento português no conflito, aos desmentidos alemães
de que os confrontos armados no Sul de Angola, culminando no desastre de
Naulila, em 1914, tivessem sido de iniciativa germânica? Tanto mais quanto as
ambições territoriais alemãs relativamente a colónias portuguesas eram
amplamente conhecidas.
É, aliás, significativo que ainda que houvesse muitos grupos políticos
portugueses que se tenham oposto à entrada portuguesa na guerra, sobretudo na
Europa, era impossível encontrar defensores públicos da beligerância portuguesa
ao lado da Alemanha ' a germanofilia, em Portugal, ou era uma simpatia privada,
ou uma era acusação feita a adversários políticos. Este é um facto que merece
ser sublinhado e em que Portugal se assemelha aliás a outros países, por
exemplo os tão significativos Estados Unidos.
Mas pode Portugal ser realmente comparado à Sérvia ou à Bélgica? Evidentemente
que não em termos de importância no desencadear do conflito. Mas sem o efeito
de contágio do conflito, necessariamente, como vimos, envolvendo estados que
não eram Grandes Potências, esta guerra não seria tão grande, nem tão global.
Além disso nunca é demais sublinhar que mesmo potências fracas como Portugal
têm formas importantes ainda que indiretas de contribuir para o esforço de
guerra ' através da concessão de livre passagem por territórios estratégicos,
concessão de bases, acesso a recursos estratégicos. Um ponto amplamente
demonstrado por António Telo relativamente a Portugal, por exemplo, por via da
centralidade estratégica dos Açores, dos seus portos e águas territoriais, dos
cabos de telégrafo que neles passavam
39
.
Um exemplo disso mesmo foi o facto de que na situação militar muito difícil da
França, em outubro de 1914, os líderes militares e políticos franceses
consideraram que mesmo a pouca artilharia moderna do Exército português podia
fazer-lhes falta. Ou que no início de 1916, perante a erosão colossal das
marinhas aliadas pelos ataques dos submarinos alemães, os governos de Paris e
Londres consideraram que as muitas dezenas de navios dessa nacionalidade que se
tinham refugiados nos portos de Portugal, das suas ilhas e do seu império
podiam fazer diferença. Ou ainda, que, perante a erosão terrível das forças
aliadas e a continuada ocupação do Norte de França pela Alemanha, os militares
e políticos franceses considerassem que mesmo algumas dezenas de milhares de
tropas portugueses, mesmo com relativa falta de treino e de equipamento ainda
assim poderiam ajudar a atenuar esse desgaste, dando o apoio que os falcõesno
Governo português precisavam para impor os seus pontos de vista sobre a
beligerância portuguesa e sobre a participação de tropas portuguesas na frente
ocidental ao muito relutante Governo de Londres. Se essa foi uma opção sensata
é outra questão, mas que o fica claro que a política belicista de Afonso Costa
e dos seus seguidores mais uma vez demonstra que mesmo uma potência muito
enfraquecida pode prosseguir uma estratégia própria numa grande guerra
40
.
Mas será que podemos levar o paralelismo mais longe e ver Portugal como um
vizinho vulnerável da Alemanha como o era a Bélgica? Será que Portugal pode ser
visto como uma potência revisionista e até como um Estado protetor do
terrorismo como a Sérvia? Por paradoxal que pareça a resposta é, em parte, sim.
Portugal nas suas colónias em África foi invadido por tropas alemãs. Também os
governantes portugueses responderam apelando à Grã-Bretanha e manifestando a
vontade de serem cobeligerantes e não simplesmente neutros até por questões de
honra, que numa sociedade em que os duelos em defesa da mesma ainda eram uma
realidade parece-nos ser de ter em conta, seria um anacronismo simplesmente
ignorar esta dimensão. Ao mesmo tempo é verdade que um reforço do poder alemão
mediante uma vitória esmagadora das suas tropas na Europa, como pareceu bem
possível em 1914, e mesmo depois, dificilmente deixaria de ter reflexos
negativos nas regiões vizinhas do poder alemão, o que em África significava
Angola e Moçambique, territórios abertamente cobiçados por Berlim.
É verdade que em contraste com a Sérvia, Portugal parecia uma potência
satisfeita com o statu quo... Mas essa é uma leitura superficial, ou pelo menos
parcial. Não se pode ignorar a insegurança de Lisboa quanto à possibilidade de
manter o seu império: mesmo o jovem regime republicano tinha razões para temer
uma ordem internacional imposta pela Alemanha vitoriosa em 1914, ou mesmo numa
paz negociada, como pareceu provável nos anos seguintes. A República portuguesa
estava territorialmente relativamente satisfeita, mas não afastava no seu
voluntarismo e cegueira nacionalista alguns ganhos territoriais em África.
Sobretudo era um regime novo, uma república considerada radical, nomeadamente
no seu anticlericalismo, politicamente revisionista numa Europa de monarquias
confessionais. A Áustria justificava a guerra dizendo que não tinha alternativa
a combater um estado regicida como a Sérvia ' que tinha morto o herdeiro
Habsburgo em 1914 e o seu próprio rei moderado sérvio no golpe de 1903. Ora o
regicídio português de 1908 era tido como um evento fundador do novo regime
português, que o honrava oficialmente, algo que as casas reinantes das
respeitáveis monarquias europeias não se cansavam de recordar. Era também
conhecido o desejo do rei de Espanha Afonso XIII de intervir em Portugal,
argumentando que o regime republicano português era uma ameaça para a paz
europeia
41
. Se a Sérvia fosse punida pela guerra pelos seus crimes contra a ordem
monárquica estabelecida, era natural que a situação da República portuguesa não
fosse percecionada como segura. Mesmo que estas perceções de ameaça pela elite
governante republicana fossem erradas ' e pelo menos relativamente ao Império
Português, e mesmo a uma eventual ameaça espanhola, não o eram inteiramente '
ainda assim parece natural que elas tenham condicionado comportamentos e
decisões
42
.
Portugal, tal como a Bélgica e a Sérvia, também tinha interesse, caso entrasse
no conflito, de não ficar inteiramente dependentes de uma única Grande Potência
e em participar de pleno direito, ter uma voz na Conferência de Paz, procurando
evitar que dela viessem surpresas desagradáveis. Este foi, aliás, um cálculo
sempre muito presente na difusão do conflito por outras Pequenas e Médias
Potências como a Grécia ou a Roménia. É de notar a este respeito, que
relativamente ao fim desta Grande Guerra, a necessidade de as Grandes Potências
Aliadas não deixarem cair a Bélgica e a Sérvia foram obstáculos importantes na
possibilidade de uma paz negociada. E que a entrada da Grécia e a reentrada da
Roménia na guerra na Frente Leste, levando ao colapso da Bulgária, no verão de
1918, marcou o início do colapso dos impérios centrais que, logo a seguir a
Sófia ter pedido armistício em setembro de 1918, decidiram pediram também elas
o armistício. A ironia deste facto, do ponto de vista da análise de
participação portuguesa na guerra, é que em Portugal se recusou a possibilidade
de enviar um corpo expedicionário para esta Frente Leste europeia por ser vista
como marginal e de segunda ordem.
A real importância e autonomia das Pequenas Potências, não significa, importa
sublinhar, que tal como o caso de Portugal demonstra, a sua participação numa
Grande Guerra não seja muito arriscada, devido à sua limitada margem de
manobra. É verdade que a Sérvia conseguiu transformar-se no núcleo da
ambicionada Jugoslávia, no que se pode qualificar provavelmente na maior e mais
improvável vitória estratégica da I Guerra Mundial, enquanto o Império dos
Habsburgos desapareceu, mas a Sérvia perdeu quase metade da sua população
masculina e em 1916 viu todo o seu território ser ocupado pelo inimigo. Também
grande parte da Bélgica foi sujeita a uma ocupação brutal durante quase toda a
guerra. Mas o que é igualmente interessante é a resiliência destas Pequenas
Potências e até dos derrotados, como a Bulgária. Isto, por contraste com a
vulnerabilidade de Grandes Potências como o Império Habsburgo, o Império
Otomano e a própria Rússia czarista, que entraram em colapso em 1917-1918. E
entre as principais potências vencedoras, também a Itália ficou muito aquém do
desejado. Como espantar-se que Portugal não tivesse conseguido quaisquer ganhos
significativos? Nada perder já era um grande ganho, no caso português, tanto
mais quanto o seu esforço para forçar a beligerância ativa a tinha impedido de
obter quaisquer concessões prévias à entrada no conflito e o seu desempenho
tinha confirmado as piores expectativas dos opositores em Londres e em Portugal
de uma beligerância ativa, retirando-lhe trunfos negociais.
Quais as implicações desta análise da I Guerra Mundial para as Relações
Internacionais?
Em primeiro lugar o caso da Sérvia, da Bélgica, mas mesmo de Portugal, na I
Guerra Mundial, mostra que os sistemas internacionais com uma propensão para
reações em cadeia (chain-ganging),são particularmente instáveis também porque
são vulneráveis a uma escalada de conflitos violentos por contágio promovido
por Pequenas Potências. Essa escalada terá provavelmente origem em potências
revisionistas e revolucionárias como a Sérvia. Mas pode vir até de potências
satisfeitas, pacíficas e normativamente exemplares, como a Bélgica, se se
situarem em localizações estrategicamente muito importantes e vulneráveis
ameaças ou invadidas por Grandes Potências e lhes forem dadas garantias de
segurança formais por Grandes Potências.
É de notar que, ainda que houvesse no seio do partido dominante português ' o
PRP ' Partido Democrático ' uma forte corrente favorável à entrada de Portugal
na guerra com o envio de um contingente para a Frente Ocidental na Europa, no
entanto, nem mesmo Afonso Costa o chefe dessa corrente de falcõesalguma vez
equacionou uma ação deste tipo que não fosse o resultado de um pedido formal
britânico ao abrigo dos Tratados de Aliança bilaterais. Evidentemente que se
pode questionar o realismo dos objetivos voluntaristas fixados pelos falcões do
PRP-PD. Mas a «colagem agressiva» de Portugal à Grã-Bretanha que tem sido
descrita pela historiografia portuguesa não é algo inesperado
43
. Num contexto de crescente militarização das crises europeias, de consolidação
de blocos de alianças e risco de uma grande guerra ou de um grand bargainentre
elas era uma resposta lógica da parte de Pequenas Potências procurar um grande
protetor.
Pior do que uma grande guerra para uma Pequena Potência, é um conflito com uma
Grande Potência em que esteja sozinha face a um poder militar muito superior.
Perante essa possibilidade a Sérvia, a Bélgica, Portugal (em África) não
hesitaram em procurar escalar o conflito e envolver uma ou preferencialmente
várias outras Grandes Potências ao seu lado. Pois depender de uma única Grande
Potência como aliada também tem riscos dada a assimetria da relação. Daí ser
compreensível que os governantes mais ambiciosos da I República procurassem
usar a Grande Guerra para reforçar as suas relações com a França a par da Grã-
Bretanha, embora de uma forma que se revelou não ser de todo realista.
Assistimos portanto de forma clara no caso da Sérvia, da Bélgica ou de Portugal
a uma dinâmica típica de chain-ganging
44
. De iniciação de um conflito assimétrico por uma Pequena Potência. Pois
parece-nos claro que a declaração de guerra da Alemanha a Portugal foi o
resultado de ações portuguesas visando deliberadamente o conflito com a certeza
de apoio de uma Grande Potência. T. V. Paul lidou especificamente e em
profundidade com estes paradoxos de iniciação `guerra por pequenos e mais
fracos poderes identificando como essenciais as razões seguintes: 1. Os líderes
acreditam que um objetivo/fait accompliestratégia militar limitada terá
sucesso. 2. O Estado mais fraco possuir a curto prazo capacidades militares
ofensivas que levam os políticos a acreditar que podem vencer, batendo em
primeiro lugar. 3. Líderes acreditam que a sua aliança com uma Grande Potência
limitará a escalada pelo adversário mais forte. 4. Um grupo militarista
inseguro assume o controle. Destes fatores apenas o segundo parece
completamente ausente nos casos que mais temos acompanhado, mas está
provavelmente presente, por exemplo no caso da entrada da Itália em 1915 ou da
Roménia em 1916. O terceiro está claramente presente em todos, sendo o quarto
relevante no caso da Sérvia e de Portugal, mas também da Grécia de Venizelos
45
.
Como comparar a avaliação final do desempenho de Portugal face a outras
Pequenas Potências? O que falhou então no caso de Portugal? Mais, e em termos
de uma abordagem a partir das relações internacionais podemos dizer que o
falhanço português na I Guerra Mundial deveu-se a um excesso de peso dos
fatores mais ideacionais, ideológicos e identitários ' nomeadamente de
extremismo nacionalista ' face a fatores realistas ligados a uma análise fria
da posição de Portugal no sistema internacional? De facto, verificou-se no caso
dos governantes portugueses do PRP-PD um forte voluntarismo revolucionária, mas
que é típico de regimes nascidos de uma rutura revolucionário com a ordem
interna, que são geralmente tentados a fazê-lo também face à ordem externa
46
. E a verdade é que em qualquer dos três casos ' e mesmo noutros como o da
Roménia, Bulgária ou Grécia ' é o elemento ideacional ou ideológico e normativa
nacionalista ' de defesa da honra a par do interesse nacional ' que parece
prevalecer em termos de determinar a entrada destas Pequenas Potências em
grandes conflitos. Numa lógica puramente de Realpolitik, de fria análise da
relação de poder, provavelmente nenhuma das três fracas potências se teria
arriscado a envolver no conflito. Isto não significa, no entanto, que a
dimensão realista esteja completamente ausente, como já vimos no esforço para
garantirem o apoio de Grandes Potências
47
.
Por outro lado, também há que admitir que uma decisão puramente realista do que
fazer em situações limite deste tipo não é necessariamente evidente. Devia a
Sérvia, em termos de Realpolitik, ter cedido ao ultimato da Áustria e da
Bélgica ao ultimato alemão? Parece difícil de responder taxativamente de forma
negativa. Quanto à Bélgica pareceu evidente a liderança da Alemanha que devia
fazer uma opção por bandwagon for profit. O general Moltke tinha deixado isso
bem claro num encontro, em 1913, com o rei Alberto I: «os países pequenos como
a Bélgica fariam bem em juntar-se ao lado do mais forte se quiserem manter a
sua independência». Sábio conselho? Ou a Bélgica seria engolida como mais um
reino parte de um ainda maior Reich alemão, como os objetivos de guerra do
chanceler alemão, de setembro de 1914, deixam entender. O general Gallet, chefe
da casa militar do rei dos belgas registou a reação: «foi uma ameaça sem-
vergonha». O rei Alberto I optou logo na altura, em 1913, por transmitir as
informações sobre o perigo germânico à França. No entanto, um ano depois, o
chefe da representação francesa em Bruxelas estava tão convencido de que sim,
que tinha preparado já o esboço do telegrama a anunciar que a Bélgica tinha
cedido ao ultimato alemão quando foi surpreendido pela resposta negativa dos
belgas. O rei Alberto I explicou ao Exército belga que comandava a decisão de
combater a Alemanha simplesmente afirmando «que se recusou a perder a nossa
honra»
48
.
Também o primeiro-ministro Pasic da Sérvia deixou claro em resposta ao ultimato
austríaco e sobretudo no seu apelo à ajuda de Grandes Potências amigas que não
poderia ceder mais sem sacrificar a honra nacional
49
. E também, no caso de Portugal, este ponto foi muito enfatizado. Seria
desonroso além de perigoso, para o novo Portugal republicano, não se envolver,
manter-se à margem, cabia a Portugal, segundo o Presidente Bernardino Machado,
«pleitear sempre na vanguarda da civilização».
50
Esta dimensão ideológica ou normativa será sempre um problema? No caso
português ela esteve claramente ligada a um voluntarismo excessivo e a uma
visão irrealista das capacidades e das reais possibilidades do país, com o
então ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Soares a referir-se à
declaração de guerra da Alemanha a Portugal em 1916 como «a sorte grande» que
nos garantiria «voz e voto na Conferência de Paz»
51
. Evidentemente que isso dependeria muito da efetiva capacidade portuguesa de
contribuir para a vitória aliada.
Porém, ter um argumento sólido para defender a necessidade da guerra à luz das
normas universais e nacionais parece-nos ser muito importante para alcançar a
convicção necessária a mergulhar-se num conflito tão intenso e prolongado como
uma guerra assimétrica. O grande problema é que na ausência de uma ameaça clara
o apelo nacionalista pode não ser suficientemente credível. E um apelo
ideológico partidário será mais fonte de divisões do que de unidade, como
aconteceu no caso de Portugal ' mas também no da Grécia. Enquanto no da Bélgica
ou da Sérvia, apesar de evidentemente existirem algumas tensões e divisões, a
unidade nacional em torno da prossecução da guerra nunca esteve em questão.
Nestes casos era evidentemente que se tratava de uma questão não só de honra
mas também de sobrevivência. Combinar a dimensão normativa e a realista da
sobrevivência será portanto o ideal para responder com resiliência a uma Grande
Guerra. Embora a primeira nos pareça mais importante, pois podia-se sempre
argumentar, como acabamos de ver, que a resposta realista era ceder à pressão
dos ultimataalemão ou austríaco. O que não era possível era argumentar que essa
era a resposta honrosa. Do ponto de vista da posição de Portugal, as incursões
alemãs na África portuguesa não foram claramente suficientes desse ponto de
vista, até porque se podia argumentar e argumentou que deviam ser combatidas in
locoe ser o foco de todas as atenções e esforços, sem desvio de forças
portuguesas para operações militares na Europa.
Note-se que esta análise não excluiu uma dimensão da I Guerra Mundial também
como guerra diversionária,ou seja, para desviar atenções para a ameaça externa
para evitar ameaças internas. Mas também aqui não encontramos uma
especificidade portuguesa. A guerra foi vista como servindo para consolidar o
regime republicano em Portugal, mas também o czarista na Rússia, o imperial na
Alemanha, ou a continuação da Irlanda no Reino Unido. Em todos esses casos, e
não só no português, essa aposta acabou por falhar. Até porque, ao contrário,
por exemplo da França ou da Bélgica, não houve qualquer esforço para incluir
correntes políticas mais críticas ' católicos e socialistas no primeiro caso,
socialistas e liberais radicais no segundo ' no campo da governação em
Portugal. Esta falta de um verdadeiro governo de união nacional em Portugal foi
uma fragilidade fundamental no esforço de guerra português
52
.
Não devemos simplesmente pôr de lado, portanto, o contributo da abordagem a
partir do Primat des Innenpolitik, mesmo que se procure aqui qualificar,
delimitar e comparar este aspeto. Desde logo no sentido de sublinhar que o
primado não é a expressão adequada, esta não é a dimensão claramente única ou
mesmo prevalente. Ela também não implica uma manipulação fria pelos decisores
políticos ' fossem eles Afonso Costa, Venizelos, Bratianu ou Pasic ' que
podiam, de boa fé, achar que esta renovada coesão nacional era expectável e até
exigível para o bem do País para se atingir grandes objetivos nacionais, a par
de para lhes facilitar a manutenção no poder
53
.
Há, no entanto, apesar de insistirmos nos muitos aspetos em que Portugal se
aproxima de outras Pequenas e Médias Potências, uma diferença fundamental.
Portugal ao contrário das outras Pequenas Potências europeias não combateu a
partir do seu território. Todas as demais ' a começar pela Sérvia (pelo menos
enquanto tal lhe foi possível e depois na sua vizinhança imediata) e a Bélgica,
mas também Bulgária, Roménia ou Grécia ' ou foram invadidas ou invadiram a
partir do seu território nacional. Estas forças tinham uma logística e uma
legitimação muito facilitadas por combaterem a partir do seu próprio território
e na defesa do mesmo. Além disso, todas elas tinham tido o cuidado de apostar
no rearmamento intensivo dos seus exércitos, até mesmo a tradicionalmente
neutral e pouco belicista Bélgica
54
. Mais, Portugal passou boa parte do período entre 1910-1914, a planear um
exército miliciano de massas que mal passou do papel e uma grande esquadra
oceânica ainda mais incomportável pelo orçamento nacional. O que criou tensões
com o corpo de oficiais e não poderia nunca ser bem equipado com os meios
disponíveis
55
. Mais, no caso do exército dos estados balcânicos, estes tinham convidado
missões militares externas para ajudar a reorganizar e modernizar as suas
forças que tinham tido experiência de combate nos anos imediatamente anteriores
nas guerras balcânicas
56
.
Portugal foi a única Pequena Potência a tentar enviar e (supostamente) manter
vastos corpos expedicionários ' as exceções são extraeuropeias, os domínios
britânicos, os EUA ou o Brasil
57
. O único caso minimamente comparável é o da Grécia e da decisão de enviar
forças gregas para a península da Anatólia para procurar anexar uma parte do
antigo Império Otomano no que é hoje a Turquia ' mas, já na fase do imediato
pós-guerra. Decisão que também acabou por se revelar desastrosa.
De facto, projetar poder militar em grande escala à distância, e sustentar
depois essas forças por um período prolongado de tempo é sempre um enorme
desafio, quer em termos materiais, quer em termos organizacionais, para
qualquer potência e mais para uma Pequena ou Média Potência. Ora, Portugal não
só o fez para África, como também para a Frente Ocidental e neste último caso
numa escala nunca vista na história nacional até 1961. Claro que apesar do
enorme esforço feito houve enormes falhas. Faltavam navios a Portugal e os
tomados aos alemães tinham sido em boa parte cedidos aos britânicos como preço
do apoio britânico à beligerância e do empréstimo necessário para a pagar. Além
disso faltava espaço de desembarque de homens e meios nos lotados portos
franceses, sobretudo quando começaram a chegar as tropas e equipamento norte-
americano. Faltou ainda, por paradoxal que pareça, apesar do enorme esforço que
foi mobilizar duas divisões, ainda outra para assegurar uma melhor rotação e
descanso das forças na frente. Todos estes problemas se punham antes de
dezembro de 1917, quando Sidónio Pais tomou o poder, embora se tenham agravado
depois, em parte por razões que escapavam ao controlo de Lisboa, mas até,
paradoxalmente, pela vontade deste último em aproximar-se de Londres o levar a
pressionar menos no sentido de defender o CEP. No fundo, era com estes
problemas que os opositores dos falcões, agrupados em torno de Afonso Costa,
argumentavam. Até precisamente porque o apoio das Grandes Potências aliadas ao
envio do CEP foi relutante ou mesmo forçado. Isso fica claro até na rapidez com
que reconheceram Sidónio Pais após o golpe de dezembro de 1918, sendo este
último inclusive «visitado» ainda com as forças revoltosas na Rotunda, pelo
adido militar britânico
58
. Apesar de tudo algum realismo houve do lado português e aliado misturado com
o voluntarismo na concretização de um objetivo excessivamente ambicioso. Houve
alguma preparação prévia com a criaçãoda Divisão de Instrução de Tancos, e a
passagem dos quadros pelas escolas inglesas. As forças portuguesas foram
colocadas num setor considerado calmo da linha da frente e foram poupadas ' tal
como as belgas ' à participação nas grandes ofensivas Aliadas da guerra das
trincheiras, em que num só dia era possível morrerem mais homens do que todo o
CEP! Mesmo o colapso da frente portuguesa na dita batalha/desastre de La Lys,
de 9 abril de 1918, além de provavelmente inevitável ' toda a frente aliada
visada frontalmente pela última grande ofensiva alemã da primavera de 1918
sofreu perdas e recuos ' foi, apesar de tudo relativamente limitado no quadro
da carnificina massiva da Frente Ocidental, com algumas centenas de mortos e
alguns milhares de prisioneiros. E no entanto, foi o suficiente para que o CEP
não ter sobrevivido enquanto força combatente, ao confirmar o esgotamento
físico e moral das forças, e, sobretudo, os preconceitos dos demais aliados das
tropas portuguesas não eram fiáveis como corpo autónomo. E se é verdade que,
mesmo a Rússia entrou em colapso a par da Roménia, sendo ambas forçadas a
assinar uma paz separada com os Impérios Centrais ainda em 1917. A verdade é
que a Sérvia e a Bélgica conseguiram, pelo contrário, apesar de todos os
reveses, manter uma força combatente até ao final da guerra ' também porque
isso era muito importante para a propaganda das Grandes Potências aliadas, o
que não sucedia no caso português
59
.
Igualmente graves e potencialmente ainda mais arriscados para a estratégia
nacional foram os desastrosos resultados das campanhas africanas, sobretudo em
Moçambique; menos em Angola onde as forças portuguesas foram brutalmente
eficazes na repressão do levantamento tribal no sul provocado pelos alemães,
que entretanto já se tinham rendido a forças vindas da África do Sul. Portugal
tinha experiência e créditos firmados créditos com as ocupações de final do
século xix e início do século XX. Mas, sobretudo em Moçambique, por
inexperiência dos soldados, incompetência dos comandos, corrupção nos
abastecimentos, nomeadamente médicos ' o caso mais notório foi o de comprimidos
de quinino trocado por adulterações com farinha ' e falta de doutrina
formalizada, as baixas portugueses em Moçambique, foram enormes por doença '
entre 25 por cento e 50 por cento dos efetivos, dependendo das expedições. Isto
antes sequer de combaterem as forças de Askaris alemães. O que levou à
tendência para paralisia e a ineficácia perante um adversário em inferioridade
numérica como era o caso das forças alemãs na África Oriental. Mais uma vez a
participação portuguesa longe de prestigiar o País veio confirmar os piores
preconceitos no estrangeiro relativamente à eficácia do Estado e do
colonialismo português
60
.
Ainda assim é preciso assinalar que no caso da África Oriental/Moçambique, não
só as tropas portuguesas, mas todas as demais forças aliadas foram incapazes de
derrotar um dos mais brilhantes líderes militares de todo o conflito, o general
Lettow-Vorbeck. Este último utilizou táticas e um conceito operacional não
convencional, próximo da guerrilha, numa zona vastíssima de África, pois passou
à ofensiva sem se prender à defesa de qualquer território. Apesar disso cabe
assinalar o contraste entre a desorganização e incapacidade portuguesa e as bem
organizadas e bem comandadas forças belgas, que, a partir do Congo Belga se
revelaram capazes de avanços sistemáticos e significativos nos territórios
alemães da África Central e Oriental ' simbolizados na vitória na Batalha de
Tabora em plena Tanzânia. Esses ganhos não foram despiciendos no reforço da
posição negocial belga na Conferência de Paz no final do conflito. Ainda assim
a beligerância portuguesa terá contado alguma coisa para Bruxelas não conseguir
a há muito ambicionada Cabinda portuguesa, mas foram suficientes para obter o
Burundi e o Ruanda ex-alemães
61
.
Em relação precisamente à conclusão da I Guerra Mundial pode argumentar-se que
a necessidade de não deixar cair a Sérvia e a Bélgica foram um importante
obstáculo ao fim negociado da guerra. Mais, as tropas da Sérvia, reforçadas com
um importante corpo expedicionário francês desembarcado em Salónica, e com
suplementos importantes de forças gregas, e da Roménia, regressada ao combate
ao lado dos Aliados, foram fundamentais para forçar a rendição da Bulgária no
final de setembro de 1918. Este colapso da Frente Leste abria potencialmente o
caminho para as forças Aliadas avançarem sobre Viena, precipitando a decisão
Austríaca e Alemã de pedirem também um armistício.
Em suma, a vida das Pequenas Potências numa grande guerra está longe de ser
fácil, mas ao mesmo tempo é impressionante a sua resiliência e impacto, mesmo
quando sofreram enormes perdas humanas e territoriais ' caso da Sérvia e
Bélgica. Isto se, apesar delas, consigam continuar a combater ao lado de
Grandes Potências. Um dos fatores que acabou por precipitar o final da I Guerra
Mundial foi, portanto, resultado da adesão aos Aliados de várias Pequenas
Potências balcânicas e do abandono pelos Impérios Centrais pela sua única
Pequena Potência aliada a eles, a Bulgária, que nomeadamente assegurava a
ligação estratégica vital por terra entre o Império Alemão, o Império Habsburgo
e o Império Otomano. Num quadro evidentemente complexo em que outros fatores
entraram evidentemente também em jogo, seria, sublinhamos mais uma vez, errado
desvalorizar a resiliência e o impacto de Pequenas Potências numa grande
guerra, fazendo pender a balança do poder para um lado ou outro dos blocos de
beligerantes. Não foi esse, no entanto, o caso de Portugal, que também por isso
acabou por não retirar grandes benefícios da sua participação na I Guerra
Mundial.
***
Seria errado deduzir dos argumentos apresentados neste texto que as Pequenas
Potências têm uma vida fácil numa grande guerra. O impacto, a autonomia e até
os resultados estratégicos que possam vir a obter não são garantidos, e
garantidamente não serão fáceis. O risco para elas é a priorimaior, pois tem
menos espaço de manobra ' menos território, menos população e recursos ' do que
uma Grande Potência. Mas desde que as Pequenas Potências consigam numa grande
guerra manter um forte governo de unidade nacional, uma força combatente, e uma
população essencialmente leal (mesmo sob ocupação), e fortes aliados entre as
Grandes Potências podem resistir com grande sucesso. O Portugal da I República
esteve longe de atingir esse pleno na I Guerra Mundial. Talvez o maior
indicador do falhanço da ambiciosa estratégia portuguesa seja o facto de a
Espanha neutral ter conseguido ser eleita para o Conselho Permanente da nova
Sociedade das Nações ao contrário de Portugal apesar de todos os protestos de
Afonso Costa na Conferência de Paz. No entanto manteve o regime republicano e o
seu vasto território colonial.
Há um ponto relativamente ao qual até provavelmente os mais céticos sobre o
impacto de Pequenas Potências numa grande guerra aceitarão que elas fazem uma
escolha importante: aliar-se com qual Grande(s) Potência(s) envolvida numa
grande guerra? No contexto específico da I Guerra Mundial uma questão
particularmente interessante é a de saber, por que é que a maioria das Pequenas
Potências que vão entrar no conflito o farão sobretudo pelo lado dos ditos
Aliados ocidentais e não pelos Impérios Centrais ' sendo a exceção a Bulgária e
o Império Otomano? Do nosso ponto vista há razões de credibilidade, de
confiança, mas também de interesse e determinantes geoestratégicas que
favorecem esta dinâmica.
A Alemanha perdeu necessariamente alguma credibilidade com Pequenas Potências
pela invasão da Bélgica
62
. Mas, por outro lado, é também fundamental ter em conta que os Impérios
Centrais eram essencialmente potências continentais. Isso significa que não só
tendiam a ser vistas como mais diretamente ameaçadoras para os seus vizinhos de
menor dimensão, como a sua capacidade de captação de aliados estava
geopoliticamente muito condicionada pelo predomínio naval da Grã-Bretanha e dos
seus aliados. Isso ficou evidente, por exemplo, no caso de Espanha ou do México
63
. É significativo que um processo semelhante se verificou no caso
geopoliticamente semelhante da Roménia, relativamente à aliança com uma Rússia
demasiado grande e próxima, o que levantou tais reservas em alguns dos
governantes romenos que levou à sua demissão em protesto pela decisão de
entrada romena na guerra ao lados dos Aliados
64
.
A atenção às Pequenas e Médias Potências é também fundamental para se alcançar
uma visão realmente mais global da I Guerra Mundial, um outro aspeto que tem
merecido cada vez mais atenção. Ora a adesão de Pequenas e Médias Potências
teve na globalização do conflito, a par do facto de várias das Grandes
Potências envolvidas em 1914 serem detentoras de importantes impérios coloniais
65
. Mas a adesão do Japão, e a importante dimensão colonial de duas Pequenas
Potências tiveram importância numa ainda maior globalização da guerra. Portugal
e a Bélgica foram fundamentais, fosse pela eficácia ou pela ineficácia, no
decurso da guerra terrestre no seu principal teatro extraeuropeu que teve como
palco a África Central e Austral
66
.
Em suma, Grande Potência não deve ser confundida com a omnipotência e Pequena
Potência não deve ser considerada equivalente de impotência total. Esta pode
parecer, talvez, uma conclusão demasiado óbvia para merecer menção. Mas, por
vezes, o óbvio é importante demais para não ser explicitamente sublinhado. Se
realmente se der por óbvio o que acabamos de referir, então é preciso retirar
daí as devidas implicações. Uma análise da I Guerra Mundial consequente com
esta afirmação não pode ignorar a priori como irrelevantes os objetivos, as
decisões, as ações das Pequenas e Médias Potências. Como procurámos argumentar,
parece-nos evidente que Pequenas Potências podiam ter e tiveram em vários
aspetos e momentos fundamentais um impacto significativo no desencadear, na
expansão e no fim da Grande Guerra de 1914-1918. Por outro lado, os problemas
que Portugal enfrentou neste período podem e devem também ser analisados de
forma comparativa nesta perspetiva ' dos desafios que a I Guerra Mundial
representou para outras Pequenas e Médias Potências e das respostas que estas
deram a um conflito que, pela sua escala e intensidade, as afetou mesmo quando
permaneceram neutrais.
Os estudos, infelizmente ainda relativamente escassos, no campo das relações
internacionais sobre a temática dos conflitos assimétricos ou potências
revisionistas revolucionárias podem e devem ser utilizados para perceber melhor
e avaliar de forma mais desapaixonada o comportamento de Portugal durante a I
Guerra Mundial. Mais, não faz sentido comparar explícita ou implicitamente a
intervenção de Portugal na I Guerra Mundial apenas com a França ou a Grã-
Bretanha ou a Alemanha, pois desta abordagem só se pode concluir que falhou ou
foi irrelevante. A comparação deve ser feita com a Bélgica, ou a Sérvia, ou
ainda mais com a Grécia, a Roménia, a Bulgária. É a esse nível que faz sentido
avaliar o desempenho de Portugal. Sublinhando o imenso e inédito esforço entre
estas Pequenas Potências que foi projetar um corpo expedicionário português no
teatro de operações mais exigente da I Guerra Mundial; mesmo que seja para
concluir que esta aposta arriscada acabou por ser em boa parte falhada,
nomeadamente não deu os resultados estratégicos desejados. Portugal não ganhou
autonomia face à Grã-Bretanha, nem prestígio internacional, nem lugares
destacados na nova Sociedade das Nações. Também, exceto uma pequena ilhota na
fronteira norte de Moçambique, não ganhou território. Apesar de tudo, no
entanto, Portugal manteve o seu império colonial e o regime republicano ' com a
respetiva bandeira e hino, batizados em combate. Um regime republicano
português que, embora enfraquecido, acabou por se manter, numa Europa onde,
depois de 1919, as repúblicas se tornaram mais numerosas e mais normais. Nem
tudo falhou, embora muito tenha falhado.
Data de receção: 5 de Maio de 2014
Data de aprovação: 4 de Junho de 2014
Notas
1
A investigação para este artigo foi realizada no quadro de um projeto do IDN em
parceria com o ICS-UL e IHC-UNL apoiado pela Comissão Coordenadora das
Evocações do Centenário da I Guerra Mundial do Ministério da Defesa Nacional.
As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade do autor. Agradecemos a
Carlos Gaspar e outros participantes e comentadores no painel organizado pelo
primeiro sobre esta temática no quadro do Congresso da APCP de 2014 em Coimbra.
2
Roberts, Andrew ' Salisbury: Victorian Titan. Londres: Phoenix Press, 2000, pp.
522-23.
3
Ver em Jstor[Consultado em: 14 de abril de 2014]. Disponível em: http://
www.jstor.org/action/
oBasicSearch?Query=%22First+World+War%22&acc=on&wc=on&fc=offhttp ;
Ver Persée[Consultado em: 14 de abril de 2014]. Disponível em: http://
www.persee.fr/web/revues/home/prescript/search/
?_Prescripts_Search_alterSearchQuery=udAND&_Prescripts_Search_selectedTypes=article&_Pres-
cripts_Search_runnedQuery
4
É o caso mesmo de uma obra tão recente como a de Clark, Christopher 'The
Sleepwalkers: How Europe went to War in 1914. Londres: Penguin, 2013, pp. 666
ss. , em que se explica por que é que a obra é dedicada ao seu
tio-avô Jim O'Brien, um veterano desse conflito.
5
Provavelmente a melhor antologia de partida relativamente à forma como as
relações internacionais têm olhado para a I Guerra Mundial é ainda Miller, S.
E., Lynn-Jones, S. M. & Van Evera, S. (eds.)' Military Strategy and the
Origins of the First World War: An International Security Reader. Princeton:
PUP, 1991; relativamente a discussões mais recentes importa
ver o dossiê temático sobre as origens na I Guerra Mundial em AA. VV. ' Foreign
Policy Analysis. Vol. 7, N.º 2, 2011, pp. 139-214, e o
conjunto de textos reunidos em Levy, J. & Vasquez, J. (eds.) ' The Outbreak
of the First World War, Structure, Politics, and Decision-Making. Cambridge:
CUP, 2014.
6
Cit. Gavin, Francis ' «History, security studies and the July Crisis» In
Journal of Strategic Studies.Vol. 37, N.º 2, 2014, p. 320. A
obra de Tuchman, Barbara ' The Guns of August: The Outbreak of World War I.Nova
York: MacMillan, 1962 ' recebeu o Prémio Pulitzer em 1963.
7
As suas obras mais influentes são Fischer, Fritz ' Germany's Aims in the First
World War. Nova York: Norton, 1968 [tradução do original alemão Griff nach der
Weltmachtde 1961]; e Idem, War of Illusions: German Policies from 1911 to 1914.
Nova York: Norton, 1975.
8
Samuel Williamson, «July 1914 revisited and revised: the erosion of the German
paradigm». In Levy, J. & Vasquez, J. (eds.) ' The Outbreak of the First
World War, Structure, Politics, and Decision-Making, pp. 30-62.
9
Teixeira, Nuno Severiano ' O Poder e a Guerra 1914-1918: Objetivos Nacionais e
Estratégias Políticas na Entrada de Portugal na Grande Guerra, s.l.: Ed.
Estampa, 1996. Ainda que por via, sobretudo, da historio
grafia francesa, o que mostra a ampla difusão deste tipo de abordagem.
10
Snyder, Jack ' Myths of Empire: Domestic Politics and International Ambition.
Cornell UP, 1991.
11
Ver catálogo eletrónico da Biblioteca Nacional de Portugal [Consultado em:
14.4.2014]. Disponível em: http://catalogo.bnportugal.pt/ipac20/
ipac.jsp?session=N4011094P82P5.267904&menu=search&aspect=basic_search&npp=20&ipp=20&spp=20&profile=bn&ri=&index=.GW&term=Primeira+Guerra+Mundial&x=0&y=0&aspect=basic_search
12
Para uma leitura mais desenvolvida da bibliografia e das suas principais
tendências cf. Teixeira, Nuno Severiano ' O Poder e a Guerra 1914-1918:
Objetivos Nacionais e Estratégias Políticas na Entrada de Portugal na Grande
Guerra, s.l.: Ed. Estampa, 1996, pp. 20-33.
13
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers: How Europe went to War in 1914. Londres:
Penguin, 2013, pp.559 e seguintes.
14
Snyder, Jack & Lieber, Keir ' «Correspondence: Defensive Realism and the
New'' History of World War I». In International Security. Vol. 33, N.º 1,
2008, pp.174-194.
15
Meneses, F. Ribeiro de ' União Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra (1916-
18). Lisboa: Cosmos, 2000, p. 63. Sobre este fenómeno da
polarização cf. Medina, João (ed.) ' Portugal na Grande Guerra: Guerristas e
Antiguerristas: Estudos e Documentos.Lisboa: Centro História Univ. Lisboa,
1986; Samara, Maria Alice ' Verdes e Vermelhos, Portugal e a
Guerra no Ano de Sidónio Pais. Lisboa: Ed. Notícias, 2003.
16
Telo, António J. ' Os Açores e o Controlo do Atlântico: 1898-1948. Porto: Asa,
1993.
17
Becker, Jean-Jacques ' «Prefácio». In Teixeira, Nuno Severiano ' O Poder e a
Guerra 1914-1918: Objetivos Nacionais e Estratégias Políticas na Entrada de
Portugal na Grande Guerra, pp.15-17.
18
Meneses, F. Ribeiro de, Afonso Costa: Portugal.Londres: Haus, 2011.
19
Cornwall, Mark ' «Introduction». In Mitrovic, Andrej ' Serbia's Great War.
Londres: Hurst, 2007, p. vii; de Schaepdrijver, Sophie '
«Belgium». In Horne, J. (ed.) ' A Companion to World War I. Oxford: Wiley,
2010, p. 386.
20
O único texto em português sobre o tema parecer ser o útil ensaio de Gaspar,
Carlos ' «Os pequenos estados no sistema internacional». I Encuentro Peninsular
de Historia de las Relaciones Internacionales. Zamora: Fundación Rei Afonso
Henriques, 1998, pp. 113-162; relativamente à bibliografia
internacional o problema é o inverso, de multiplicidade de bibliografia, mas
sobretudo focada na cooperação diplomática cf., e.g., Beyer, Jessica L. '
Annotated Bibliography on Diplomacy of Small States[Consultado em: 17.3.2013].
Disponível em: http://archive1.diplomacy.edu/SmallStates/Resources/
display.asp?Topic=Bibliography
21
Cf. antologia clássica de Lukes, Steven (ed.) ' Power. Nova York: NYU Press,
1986; para debates mais recentes ver, e.g., Lukes, Steven '
Power: A Radical View. 2.ª edição revista: Basingstoke, Palgrave, 2005; Nye, Joseph S. ' The Future of Power. Nova York: Public
Affairs, 2011.
22
Ver Handel, Michael ' Weak States in the International System.2nd rev. ed.,
Abingdon: Frank Cass, 1990, maximepp.41 ff. ; ver também FOX,
A. Baker ' The Power of Small States: Diplomacy in World War II.Chicago:
University of Chicago Press, 1959; Cooper, Andrew F., e Shaw,
Timothy M. (eds.) ' The Diplomacies of Small States: Bet ween Vulnerability and
Resilience.Londres: Palgrave, 2012, pp. 1-19.
23
Williams, K. P., Lobell, S. E., Jesse, N. G. (eds.) ' Beyond Great Powers and
Hegemons: Why Secondary States Support, Follow or Challenge. Stanford: SUP,
2012
24
Brown, Michael (ed.) ' Grave New World: Security Challenges in the Twenty-First
Century, Washington DC. Georgetow n UP, 2 0 0 3 , p p . 2-3;
Paul , T.V. ' Asymmetric Conflicts: War Initiation by Weaker Powers, Cambridge,
CUP, 1994. Ver ainda o texto clássico Mack, Andrew ' «Why big
nations lose small wars? The politics of asymmetric conflict». In World
Politics. Vol. 27, N.º 2, 1975, pp. 175-200.
25
Vasquez, John ' «Explaining world wars: its Scope, Severity, Duration, In The
War Puzzle Revisited, Cambridge: CUP, 2011, pp.246-284. O
Japão e os Estados Unidos só com a mobilização e os resultados da I Guerra
Mundial realmente atingem esse estatuto.
26
Carta do imperador Francisco José para o kaiser Guilherme II entregue em Berlim
de 5 de julho de 1914 pelo embaixador conde Szögyény-Marich.
27
Mackenzie, David ' Apis: The Congenial Conspirator.Boulder: East European
Monographs, 1989.
28
Mcmeekin, Sean ' The Russian origins of the First World War. Cambridge MA: The
Belknap Press, 2011, Loc. 323.
29
Albertini, Luigi ' The Origins of the War of 1914. s.l: Enigma Books, 2005,
vol. 2, p. 274; ver também Clark, Christopher ' The
Sleepwalkers: How Europe went to War in 1914. Londres: Penguin, 2013, p. 87.
30
Williamson, Samuel R. ' Austria-Hungary and the Origins of the First World War.
Londres: Palgrave, 1990.
31
Citações e comentários de Albertini, Luigi ' The Origins of the War of 1914.
s.l: Enigma Books, 2005, vol. 2, pp.360-361, 364-372.
32
Mitrovic, Andrej ' Serbia's Great War. Londres: Hurst, 2007, p. 59; ver também Mackenzie, David ' Apis: The Congenial Conspir
ator.Boulder: East European Monographs, 1989.
33
Stengers, Jean ' «Belgium». In Wilson, K. (ed.) ' Decisions For War, 1914.
Londres: Routledge, 2003, pp.151 passim. 34 A Grã-Bretanha podia limitar-se a
dar apoio naval aos seus aliados, posição defendida por
ministros de peso.
35
Cit. Wilson, Keith M. ' The Policy of the Entente: Essays on the Determinants
of British Foreign Policy, 1904-1914. Cambridge: CUP, 1985, pp. 136-140.
36
Gilbert, Bentley B. ' «Pacifist to interventionist: David Lloyd George in 1911
and 1914. Was Belgium an issue?». In The Historical Journal. Vol. 28, N.º 4,
1985, p. 885.
37
Harris, J.P. ' Douglas Haig and the First Word War. Cambridge: CUP, 2009, p.
67.
38
Ofício do ministro de Portugal em Londres para MNE (14.11.1914), Portugal na
Primeira Gr ande Guerra.Lisboa: MNE, 1997, Vol. 1, Doc. 157.
39
Ver nota 14.
40
O exemplo acabado, obsessivo disso mesmo é o representante diplomático
português em Paris até 1917, Chagas, João ' Diário. Lisboa: Rolim, 1987, 3
volumes; ver também Novais, Noémia ' João Chagas: A Diplomacia e a Guerra 1914-
1918. Coimbra: Minerva, 2006.
41
De La Torre Gomez, Hipolito ' Na encruzilhada da grande guerra: Portugal-
Espanha, 1913-1919. s.l.: Ed. Estampa, 1980.
42
De La Torre Gomez, Hipolito ' Na encruzilhada da grande guerra: Portugal-
Espanha, 1913-1919.
43
Ramos, Rui ' «Revolução republicano e a política externa portuguesa». In Ramos,
Rui, e Almeida, João Marques (eds.) ' Revoluções, Política Externa e Política
Defesa em Portugal, Sécs. XIX-X X. Lisboa: IDN/Cosmo, 2008, p. 81.
44
Cf., e.g., Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics. Reading: Addison-
Wesley Pub., 1979, pp. 189-191; Christensen, Thomas J., e
Snyder, Jack ' «Chain gangs and passed bucks: predicting alliance patterns in
multipolarity». In International Organization. Vol. 44, N.º 2, 1990, pp. 137-
168, e Christensen, Thomas J., e Snyder, Jack '
«Multipolarity, perceptions, and the tragedy of 1914». In International Studies
Quarterly. N.º 55, pp. 305-308; Schweller, Randall L. '
«Bandwagoning for profit: bringing the revisionist state back». In
International Security. Vol. 19, N.º 1, 1994, pp. 72-107; Walt, Stephen ' The Origins of Alliance.Ithaca: Cornell UP, 1997.
45
Paul, T. V. ' Asymmetric Conflicts: War Initiation by Weaker Powers. Cambridge,
CUP, 1994, p. 15 ss. incluiu a guerra russo-japonesa e Pearl
Harbor, em 1940, mas não é o caso de 1914, ponto para os principais fatores que
favorecem isso.
46
Walt, Stephen ' «Revolution and war». In World Politics. Vol. 44, N.º 3, 1992,
pp. 321-368.
47
Cf. a respeito desta dimensão mais ideacional ou normativa em questões de
segurança, e.g., Katzenstein, Peter (ed.) ' The Culture of National Security:
Norms and Identity in World Politics. Nova York: Columbia, 1996; Desch, Michael et al.' «Correspondence: Isms and Schisms: culturalism
versus realism in security studies». In International Security. Vol. 24, N.º 1,
1999, pp. 156-172; Johnston, Alistair I. ' «Thinking about
strategic culture». In International Security.Vol. 19, N.º 4, 1995, pp. 32-64.
48
Cit. Albertini, Luigi ' The Origins of the War of 1914. Vol. 3, s.l: Enigma
Books, 2005, p. 441.
49
Albertini, Luigi ' The Origins of the War of 1914. Vol. 2, s.l: Enigma Books,
2005, pp. 272-275; Djokic, Dejan ' Pasic and Trumbic.
Londres: Haus Pub, 2010.
50
Cit. Meneses, F. Ribeiro de ' União Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra
(1916-18). Lisboa: Cosmos, 2000, p. 85.
51
Cit. Oliveira (2011),p. 186.
52
Meneses, F. Ribeiro de ' União Sagrada e Sidonismo: Portugal em Guerra (1916-
18), p. 100 passim.
53
Delby, Andrew ' Eleftherios Venizelos ' Greece. Londres: Haus, 2011; Hitchins, Keith ' Ion Bratianu ' Romania. Londres: Haus, 2011.
54
Stevenson, David ' «Battlefield or Barrier? Rearmament and military planning in
Belgium, 1902'1914». In The International History Review. Vol. 29, N.º 3, 2007,
pp. 473-507.
55
Cf. Telo, António, in Afonso, Aniceto, e Gomes, Carlos Matos (eds.) ' Portugal
e a Grande Guerra. Vila do Conde, Verso da História, 2013, p. 250 ss; e sobre a preparação do CEP cf. fraga, L., in Afonso, Aniceto, e
Gomes, Carlos Matos (eds.) ' Portugal e a Grande Guerra,p. 265 ss. Esta obra
coletiva é o principal volume de referência sobre o tema da intervenção de
Portugal na I Guerra Mundial. Para uma síntese centrada na intervenção militar
portuguesa na guerra cf. Afonso, Aniceto ' A Grande Guerra, Angola, Moçambique,
Flandres, 1914-1918. Matosinhos: Quidnovi, 2008.
56
A exceção em termos de experiência de guerra recente era a Roménia que, no
entanto, a compensou convidando em 1916 uma missão militar francesa que atingiu
quase quatro mil oficiais e foi fundamental na condução da guerra. Cf. Torrey,
Glenn E. ' The Romanian Battlefront in World War I. Lawrence: University Press
of Kansas, 2012.
57
O Brasil foi de todos os beligerantes latino-americanos o único a enviar forças
para o teatro de operações, especialmente a chamada Divisão Naval em Operações
de Guerra (DNOG), que aliás enfrentou dificuldades significativas cf. Maia,
Prado ' DNOG: Uma Página Esquecida da História da Marinha Brasileira.Rio de
Janeiro: Ser viço Documentação Geral Marinha, 1961; Vinhosa, Francisco L. ' O
Brasil e a Primeira Guerra Mundial.Rio de Janeiro: IHGB, 1990. Sobre os Estados
Unidos a bibliografia é imensa, cf., e.g., Doenecke, J. D. ' Nothing Less Than
War: A New History of America's Entry into World War I. Lexington: University
Press of Kentucky, 2011. Para olhar para a participação portuguesa nesta
perspectiva cf. Fraga, L. Alves ' D o Inter vencionismo ao Sidonismo, os Dois
Segmentos da Política de Guerra da Primeira República. Coimbra: Imp. Univ.
Coimbra, 2010.
58
Sobre Sidónio a obra de referência é Ramalho, N. M., Sidónio Pais, Diplomata e
Conspirador (1912-1917). Lisboa: Cosmo, 2001.
59
Cf. Meneses, Filipe Ribeiro de ' «A grande aposta da República: o Corpo
Expedicionário Português». In Meneses, Filipe Ribeiro de, e Oliveira, Pedro
Aires (eds.) ' A Primeira República Portuguesa: Diplomacia, Guerra e
Império.Lisboa: Tinta-da-China, 2011, pp. 221-244; Fraga, L.,
Afonso, Aniceto, e Gomes, Carlos Matos (eds.) ' Portugal e a Grande Guerra.
Vila do Conde, Verso da História, 2013, p. 310 ss; p. 389 ss e para as
estatística ver p. 520 ss.
60
Pélissier, René ' As Campanhas Coloniais de Portugal 1844-1941. Lisboa: Ed.
Estampa, 2006, p. 352 ss.
61
Note-se que as reclamações belgas nunca foram postas em termos hostis a
Portugal, mas sim de troca voluntária por Lisboa em troca de outras concessões
territoriais de território ex-alemão, algo que, no entanto, até por razões de
interesse próprio nas mesmas os britânicos sempre rejeitaram. Cf. Marks, Sally
' Paul Hymans.Londres: Haus, 2012, p. 51 ss. Note-se ainda que as reclamações
belgas em relação à neutral Holanda também foram rejeitadas pela Grã-Bretanha.
62
Cf. DE de Schaepdrijver, Sophie ' «Belgium». In Horne, J. (ed.) ' A Companion
to World War I. Oxford: Wiley, 2010 e Zuckerman, Larry ' The
Rape of Belgium: The Untold Stody of World War I.Nova York: NYUP, 2004.
63
De La Torre Gomez, Hipolito ' Na encruzilhada da grande guerra: Portugal-
Espanha, 1913-1919, 1980.
64
Hitchins, Keith ' Ion Bratianu ' Romania. Londres: Haus, 2011.
65
Como referido consideramos a Itália, os Estados Unidos e o Japão como potências
médias em maior ou menor ascensão.
66
Ver, e.g., Strachan, Hew ' The First World War in Africa. Nova York: OUP, 2004.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt