Nota introdutória: Grande Guerra
CENTENÁRIO DA GRANDE GUERRA
Nota introdutória: Grande Guerra
Nuno Severiano Teixeira*,
David Castaño**,1
*Professor catedrático de Relações Internacionais e Vice-Reitor da Universidade
Nova de Lisboa. Diretor do IPRI'UNL. Doutorado em História pelo Instituto
Universitário Europeu (Florença) e agregado em Ciência Politica e Relações
Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa. Foi Visiting Professor na
Universidade Georgetown (2000) e Visiting Scholarno Instituto de Estudos
Europeus da Universidade de Califórnia, Berkeley (2004). Foi ministro da
Administração Interna (2000-2002) e ministro da Defesa (2006-2009) do Governo
português. Tem obra publicada sobre história militar, história das relações
internacionais, história da construção europeia e segurança e defesa.
**Investigador no IPRI-UNL onde desenvolve um projecto de pós-doutoramento
sobre processo de consolidação da democracia portuguesa (1976-1982). Doutor em
História Contemporânea. Tem-se dedicado ao estudo da história contemporânea
portuguesa e da história das relações internacionais, centrando-se no período
do Estado Novo e da transição e consolidação democrática. A sua tese de
mestrado, «Paternalismo e Cumplicidade: As relações luso-britânicas 1943-1949»,
recebeu em 2005 o Prémio Teixeira de Sampayo. Foi um dos coordenadores da
publicação da obra Portugal e o Atlântico: 60 anos dos acordos dos Açores.
Entre os seus últimos trabalhos destacam-se, em co-autoria com o General Garcia
dos Santos, Apontamentos Políticos. Eanes e os partidos(Bertrand, 2013); Mário
Soares e a Revolução(D. Quixote, 2013); e João Ninguém. Soldado da Grande
Guerra, de capitão Menezes Ferreira (Bertrand, 2014).
Um século depois da Grande Guerra, a sua história é tudo menos pacífica. Não
há, ainda, cem anos depois, uma visão comum sobre o conflito mais devastador da
história da humanidade.
Vencedores e vencidos, beligerantes e neutros, todos têm uma narrativa
diferente. E não foi possível um denominador comum, um consenso mínimo, nem
sequer sobre o sacrifício das vítimas que, parece óbvio, deveria ser
consensual.
Construção social, a História introduz, sempre, essa pluralidade de visões,
experiências e representações. Mas no caso da Grande Guerra ela é
sobredeterminada pelo discurso nacionalista que à época conduziu à guerra e
hoje se reflecte, ainda, nas comemorações oficiais do Centenário da Grande
Guerra.
Em geral, mas por maioria de razão no contexto das comemorações, a função do
historiador não é a de alimentar as narrativas oficiais ou de lhes conferir
legitimidades retrospectivas. Não é a de construir uma história oficial ou de
patrocinar os discursos dos poderes públicos. É, pelo contrário, a de construir
uma narrativa que acrescente conhecimento, que assinale os erros, combata as
ideias falsas e desconstrua os mitos. Ora, é precisamente para esse objectivo
que este número especial da revista Relações Internacionaisdedicado à Grande
Guerra quer contribuir.
Cem anos volvidos sobre os acontecimentos de Sarajevo, a História, a Ciência
Política e as Relações Internacionais continuam empenhadas na procura de novos
olhares, novas fontes e novos métodos, no fundo, novas luzes que ajudem a
iluminar este período crucial da história mundial. Nessa pluralidade de pontos
de vista há, pelo menos, uma pergunta comum: o que está na origem do conflito '
um conflito cuja dimensão e intensidade assumiram contornos até então
desconhecidos?
É esta multiplicidade de abordagens e narrativas que este número especial da
Relações Internacionais espelha, procurando traduzir alguns dos grandes debates
que, nos últimos anos, têm atravessado o campo do estudo da Primeira Guerra
Mundial: a questão das responsabilidades pelo deflagrar do conflito, o papel
das pequenas e grandes potências, a ascensão de potências não-ocidentais, ou a
questão dos seus limites cronológicos.
De um ponto de vista da Teoria das Relações Internacionais, Carlos Gaspar
analisa como o impacto da Grande Guerra serviu, não apenas para evidenciar a
urgência de transformar as relações entre os estados, mas também para
demonstrar a necessidade de estudar sistematicamente a política internacional.
Partindo deste momento fundador, é traçada a árvore genealógica da disciplina
de Relações Internacionais e dos seus ramos, particularmente o realista e as
suas correntes, distinguidas através das diferentes interpretações sobre as
origens e a natureza da Grande Guerra.
De um ponto de vista historiográfico, Filipe Ribeiro de Meneses analisa o
debate em torno das origens da Grande Guerra não apenas no âmbito da questão da
culpa, mas da sua dimensão temporal, sugerindo que para uma melhor compreensão
do conflito se recue a 1911 e se avance até 1923, e que ao mesmo tempo, além da
história militar e diplomática se tenha em consideração a história cultural,
nomeadamente o fenómeno da cultura de guerra que a antecede e cujos efeitos não
se esgotam quando se firmam os acordos de paz.
Bruno Cardoso Reis analisa o papel das pequenas potências através de um estudo
comparativo que envolve a Sérvia, a Bélgica e Portugal e procura medir o
impacto das pequenas potências em conflitos de grande escala, chegando à
conclusão de que «mesmo pequenas potências relativamente fracas podem ter um
grande impacto em guerras». Esse não foi, no entanto, como aliás o autor
sublinha, o caso de Portugal. Como pequena potência imperial periférica,
Portugal procurou essencialmente obter da guerra o reconhecimento internacional
do novo regime e a manutenção de um império ameaçado pelas alterações no
equilíbrio de poder europeu. Esse é o processo descrito por David Castaño,
através da conjugação entre as dinâmicas internas e externas.
Patrícia Daehnhardt, reflecte sobre o conceito de «estatuto» de grande potência
e analisa, paralelamente, o debate histórico em torno do papel da Alemanha como
principal responsável pelo deflagrar do conflito. Desde o Tratado de Versalhes
que atribui à Alemanha a responsabilidade moral da guerra e consequentemente
lhe impõe pesadas reparações de guerra, passando pela crítica desta visão e,
finalmente, pelas teses revisionistas de Fritz Fischer, até ao centenário que
agora se comemora, no qual vê, sobretudo, a recuperação da tese de Lloyd
George, segundo a qual, as potências teriam sido arrastadas para o conflito.
Ora é, precisamente, esta tese que o historiador sérvio Danilo arenac
questiona ao defender que os dois livros que marcaram o panorama da
historiografia da Primeira Guerra Mundial no momento do seu centenário e que
partilham essa ideia
2
, tendem a simplificar o contexto balcânico ao imputar ao nacionalismo sérvio
as principais responsabilidades pelo deflagrar do conflito.
Mas este foi um conflito, verdadeiramente, mundial e as ondas de choque destas
alterações não se circunscreveram aos espaços imperiais formais e foram
aproveitadas pelas potências asiáticas para promoverem uma alteração ao status
quoregional. Esse é o processo descrito e analisado por Raquel Vaz-Pinto que
explica os diferentes objectivos que estão na origem da entrada da China e do
Japão na Grande Guerra. Apesar da escassez dos resultados obtidos por ambos os
países, a autora sublinha a importância do conflito como marco inicial da
ascensão asiática e como momento revolucionário na perspectiva das relações
internacionais.
Finalmente, o dossier encerra com uma recensão de Manuela Franco ao livro de
Sean McMeekin, The Russian Origins of the First World War. É mais do que uma
mera recensão e questiona a tese do autor que atribuiu grande capacidade
diplomática aos russos, remetendo para um conjunto de questões, em particular,
o do destino político do império otomano.
Notas
1
A pedido dos autores o texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Clark, Christopher ' The Sleepwalkers. How Europe went to War in 1914,Nova
York: HarperCollins, 2013; Macmillan, Margaret ' The war that
ended peace. The road to 1914, Nova York, Random House, 2013.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt