Portugal e o Holocausto: drama em três actos paralelos
Portugal e o Holocausto: drama em três actos paralelos
Avraham Milgram
Historiador do Memorial Yad Vashem ' Museu do Holocausto, em Jerusalém. Autor
de Os Judeus do Vaticano(Imago, 1994) e Portugal, Salazar e os Judeus(Gradiva,
2011).
Irene Fkunser Pimentel e Cláudia Ninhos
Salazar, Portugal e o Holocausto, Lisboa
Temas&Debates, 2012, 908 páginas
A partir dos anos 1980 países da Europa Central e Ocidental se confrontaram com
o antissemitismo europeu entre guerras e com a «Solução Final da Questão
Judaica na Europa» ' eufemismo que os nazis usaram para denominar o assassinato
sistemático e total dos judeus nos anos 1941 -1945. Este confronto continua a
produzir vasta literatura em teses, artigos acadêmicos, memórias, ficção bem
como produção de filmes, museus e obras de arte ' um conjunto de memórias que
se integrou ao nosso ser coletivo. Contudo, devo assinalar que este fenómeno
não ocorreu paralelamente em todos os países europeus. Na Europa Central e
Ocidental, por exemplo, isto é mais evidente do que nos países do Leste europeu
onde as narrativas sobre o destino dos judeus na era nazi continuam nebulosas e
distantes da verdade histórica. Basta ler o epílogo da obra seminal do
historiador Tony Judt, Pós-Guerra, para dar se conta da centralidade,
diversidade e complexidade da memória do Holocausto nos diversos marcos
nacionais europeus.
PRETENSÕES HISTORIOGRÁFICAS
Salazar, Portugal e o Holocausto de Irene Flunser Pimentel e Cláudia Ninhos,
obra volumosa com quase mil páginas, se deve entre outras à intenção e
pretensão das autoras em fazer integrar num só volume três grandes temas: a
história do nazismo com a história de Portugal salazarista, antes e durante a
II Guerra Mundial, e o Holocausto. Basta dizer que cada um destes temas faz
parte de disciplinas acadêmicas por si e produziram grandes quantidades de
livros. Raro é encontrá -los integrados e entrelaçados permitindo a compreensão
de cada tema, por um lado, e os três ao mesmo tempo, por outro. Esta é uma
tarefa árdua, complexa e ousada. De facto, os três temas figuram no livro de
modo independente e seria mais razoável do ponto de vista historiográfico caso
fossem integrados para formar um todo.
Grosso modo, o livro se divide em duas partes seguindo uma lógica cronológica
que cobre o período do Holocausto de 1933 à 1945. A primeira metade do livro
coincide com os anos da ascensão dos nazis ao poder na Alemanha até estourar a
II Guerra Mundial intercalada com capítulos que narram sobre a natureza do
Estado Novo com suas instituições políticas sociais e culturais, as relações de
Portugal com a Alemanha de Hitler e a atitude do regime português face aos seus
inimigos políticos. O terceiro e último capítulo da primeira parte é
particularmente significativo na equação Portugal -judeus visto tratar -se de
um tema instigante e polêmico na historiografia portuguesa: o papel do
antissemitismo em Portugal em geral e no marco do Estado Novo em particular. A
segunda parte, que na opinião das autoras é a principal do livro, se refere ao
período da II Guerra Mundial, da neutralidade de Portugal e da questão dos
refugiados. Estes temas não apenas foram objecto de estudos e artigos
publicados nos media como se constituíram no paradigma da memória coletiva
portuguesa sobre o Holocausto. Ou seja, a imagem de Portugal é a de um porto
seguro em meio da tempestade que permitiu o trânsito de refugiados perseguidos
pelo nazi -fascismo.
NOVA E VELHA HISTORIOGRAFIA
Logo no início do terceiro capítulo, que trata do antissemitismo em Portugal
(pp. 149 em diante), Irene Pimentel estabelece o que foi o ponto cardinal da
«divisão das águas» entre ambos regimes: a centralidade do antissemitismo no
regime nazi e com certeza sua razão de ser considerando o modus operandi do
regime nos assuntos de política interna (conforme Richard Evans, no 2.º volume
de sua trilogia sobre o III Reich
1
), e na política externa para assegurar o «espaço vital» para a raça ariana que
incidiu na política de aniquilação do bolchevismo, diga -se, judaísmo. Em
contraposição a esta obsessão ideológica racial e antissemita nazi encontramos
o modelo oposto em Portugal que logrou desativar grande parte dos preconceitos
e ódio aos judeus que estiveram impregnados no período inquisitorial de 1536 a
1821. Neste capítulo, Irene Pimentel aproveitou duas «aberturas de parênteses»
(pp. 200 -209) para refutar objecções e reflexões de outros investigadores
sobre o papel histórico do antissemitismo em Portugal, principalmente durante o
salazarismo2. Questão cujas proporções, funcionalidade e importância, seria
mais evidente se comparada com a Espanha e não apenas nas notas finais. Através
de um quadro comparativo se percebe o papel dos mitos antissemitas na política
e cultura espanholas e não apenas nos meios falangistas3. Neste sentido são
oportunas as passagens de Pimentel ao tratar do Movimento Nacional-Sindicalista
(mns) de Rolão Preto em relação ao III Reich, ao racismo e ao antissemitismo
(pp. 163 -165). Items inovadores, importantes e interessantes para a
historiografia são aqueles que tratam da exportação e institucionalização das
medidas totalitárias nazis no milieu alemão de Lisboa (pp. 183 -198). Pelos
exemplos apropriados que aparecem no livro sobre o quotidiano dos alemães em
Portugal se percebe a maneira pela qual instituições partidárias e estatais
nazis interferiram em suas vidas privadas a fim de criar laços de dependência,
identificação e subjugação ao nazismo e ao III Reich. No sistema totalitário
alemão não havia limites de fronteiras. Inovadores também são os capítulos que
tratam da opinião pública portuguesa e a imprensa face ao Holocausto (p. 739 em
diante). E há vários itens desta obra como, por exemplo, «Em Portugal, era
melhor ser judeu do que comunista» (pp. 457 -464 e 862), que apareceram
originalmente no livro anterior de Irene Pimentel, Os Judeus em Portugal (pp.
224-233).
As autoras mencionam uma grande quantidade de dados estatísticos que
encontraram nos informes, documentos e imprensa da época, produzidos na altura
dos acontecimentos, em muitos casos tendenciosos, que leitores leigos
eventualmente os considerarão verdadeiros mas que raramente fazem jus à
realidade histórica. Pelo contrário, dados numéricos e estatísticas citados na
íntegra em base aos documentos, deveriam ser comentados, corrigidos e
contextualizados face as investigações4.
Considerando o Holocausto como fenómeno que incide primeiramente nos
protagonistas principais, diga -se os alemães e a Alemanha nazi e logo aos
países, regimes, instituições e populações europeias que direta ou
indiretamente estiveram envolvidos na perseguição, extorsão, expulsão,
deportação e assassinato dos judeus, é mister perguntar em que consiste a
relação e atitude de Portugal com o Holocausto? Isto, principalmente em vista
de as autoras indagarem «porque motivo não foi, até o momento, mais estudado o
relacionamento de Portugal com o Holocausto?» (p. 21), afirmando porém mais
adiante que o tema central do livro é «tratar de percecionar a atitude de
Portugal na II Guerra Mundial e face ao Holocausto» (p. 24) para, conforme
afirmamos, interligar Portugal com a II Guerra Mundial e com Portugal ao
Holocausto. Apesar do enfoque principal se destinar aos anos da Guerra, o
Holocausto não se restringe aos anos dramáticos da perseguição e assassinato
dos judeus, porém ao período da era nazi em sua totalidade, de 1933 à 19455.
Portanto, do ponto de vista da história do Holocausto, a primeira metade do
livro não é menos importante do que a segunda parte. No entanto, é preciso
considerar que na perspectiva da II Guerra e do Holocausto a Península Ibérica
entrou em cena apenas a partir da conquista alemã dos países da Europa
Ocidental e terminou seu papel histórico nesta questão com a libertação da
França, antes mesmo da rendição da Alemanha aos aliados. Sob este ponto de
vista, surpreende a pergunta das autoras «porque motivo não foi, até o momento,
mais estudado o relacionamento de Portugal com o Holocausto?» Não encontramos
resposta a esta pergunta mas deve -se observar que a historiografia, com a
colaboração de investigadores portugueses e do estrangeiro, tem feito grandes
progressos. Basta mencionar os trabalhos da própria Irene Pimentel, de Ansgar
Schäffer, António Louçã, António Melo, Christa Heinrich, Avraham Milgram,
Esther Mucznik, João Medina, Manuela Franco, Manuel Loff, Patrick von zur
Mühlen, Rui Afonso e não só. E no entanto, sendo a historiografia uma sinfonia
inacabada, há temas que todavia não receberam a devida atenção. Por exemplo,
pouco sabemos, e a bem da verdade quase nada, a respeito de Salazar em relação
aos judeus principalmente no período que trata a obra de Irene Pimentel e
Cláudia Ninhos. Este lapso é uma regra na literatura que versa sobre o ditador
português. Talvez uma das razões se deva a que Salazar nunca se pronunciou a
respeito, conforme afirma Filipe Ribeiro de Meneses na sua extensa biografia
sobre Salazar6. Seria portanto esta razão para o historiador dedicar duas
páginas apenas do seu livro que cobre 800 páginas para a questão judaica7? Não
menos importante é saber como atuaram os líderes da Igreja Católica portuguesa
durante o Holocausto, assunto relativamente ao qual a historiografia permanece
omissa.
Tendo em vista a literatura publicada sobre Portugal, os judeus e o Holocausto,
o livro da Irene Pimentel e Cláudia Ninhos é o que apresenta a maior dimensão
de temas, informação e amplitude horizontal. Uma contribuição que transcende o
âmbito acadêmico e um bom prato para leitores com fôlego e ávidos por conhecer
um capítulo sui generis da Humanidade.
NOTAS
1
Evans,Richard ' O Terceiro Reich no Poder. São Paulo: Planeta, 2012, pp. 61-
620.
2
Milgram, Avraham ' Portugal, Salazar e os Judeus. Lisboa: Gradiva, 2010, pp.
67 -70; loff, Manuel ' As Duas Ditaduras Ibéricas na Nova
Ordem Eurofascista (1936 -1945): Autodefinicão, Mundivisão e Holocausto no
Salazarismo e no Franquismo. Florença: Instituto Universitário Europeu, 2004.
3
Vejam a interessante investigação de Rohr,Isabelle ' The Spanish Right and the
Jews, 1898 -1945. Londres: Sussex Academic Press, 2007; ou
Chillida, Gonzalo Alvarez ' El antisemitismo en España.Madrid: Marcial Pons,
2002.
4
Apenas a título de exemplo, cf. os dados das pp. 648 e 819.
5
A título de exemplo cf. as obras de Longerich, Peter ' Holocaust ' the Nazi
Persecution and Murder of the Jews. Oxford: Oxford University Press, 2010, e de Friedlander, Saul ' A Alemanha Nazista e os Judeus: Os
Anos da Perseguição, 1933 -1939, vol. I, eOs Anos de Extermínio,vol. II. São
Paulo: Perspectiva, 2012.
6
Meneses, Filipe Ribeiro de ' Salazar. São Paulo: Texto Editores, 2011, p. 264.
7
Ibidem, pp. 276 -278.
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