Novos construtores e velhos forjadores
ENSAIO BIBLIOGRÁFICO
Novos construtores e velhos forjadores
René Pélissier
Historiador. Autor de Les campagnes coloniales du Portugal, 1844-1941(2004) e,
com Douglas L. Wheeler, História de Angola(Tinta-da-China, 2009).
Como sempre, esta crónica tem o objetivo principal de chamar a atenção de
alguns leitores para livros recentes sobre um campo preciso da história de
Portugal: os cerca de dois séculos de colonização (xix e xx), completados pelas
tribulações da descolonização e dos palop, com algumas espreitadelas à África
hispânica e a Timor. Portanto, nada de original. Todavia, e em jeito de
preâmbulo, cremos por bem prestar homenagem a uma geração de pioneiros pós-
salazaristas que revolucionaram os estudos coloniais (e pós-coloniais) a partir
dos anos 1990. Não que antes deles existisse apenas um campo de ruínas de
antigas cidades. Havia simplesmente um terreno inculto, uma terra de ninguém
perigosa e abandonada aos militares e aos missionários, com uns cinco ou seis
amadores aqui e acolá, na sua maioria colonos aduladores e autocomplacentes. Os
que não estavam de acordo com o evangelho luso-tropicalista calavam-se,
exilavam-se e ' pior ainda ' adotavam um credo maniqueísta em que se ensinava
que tudo era negativo, indigno e horrível nas aventuras ultramarinas de
Portugal: o argueiro no olho do vizinho e a tranca no olho do praguejador. De
que queremos então falar? Da situação da historiografia contemporânea
consagrada às dependências de Lisboa, antes do estabelecimento do Estado Novo,
durante o seu esplendor e nos primeiros anos da II República. Os historiadores
portugueses que trabalharam sobre estes assuntos e estas épocas não muito
longínquas jamais se poderão desculpar completamente de ter elaborado uma
vulgata ultranacionalista que irritava os raros autores estrangeiros que os
instavam a abrir finalmente os olhos para as realidades do Império. «Ratazanas
viscosas» ou «víboras lúbricas», para adotar o vocabulário de um outro império
exposto às críticas externas, estes especialistas exteriores não eram, de
resto, sempre isentos de parcialidade e de segundas intenções políticas. E,
livres das perseguições da pide, nada arriscavam. A favor dos historiadores ou
arquivistas dos anos 1930-1975 (e mesmo para além dessa data), lembramos
entretanto o facto de terem reunido ' por vezes «limpando» ou descartando as
peças mais comprometedoras ' massas documentais sobre os séculos xix e xx, que
deram à estampa e que foram muito úteis aos seus sucessores. Cultivando a
desmesura, ao sabor de decisões políticas ou de disponibilidades financeiras
aleatórias, lançaram-se em compilações sem amanhã, condenadas a uma existência
precocemente interrompida. Mas foram melhores que nada ou que a anarquia
reinante em certos arquivos de Lisboa, Luanda e provavelmente Lourenço Marques.
E, no meio de tudo isto, onde estavam as sínteses? Já se tinham reunido alguns
ossos, mas os cozinheiros continuavam a apimentar imperturbavelmente a glória
do século xvi, inventando-a ou tornando-a mais magnífica, para lutar contra a
ingratidão do presente. E foi aí, sobre esta base frágil que, após uma vintena
de anos, apareceram os «novos construtores» da historiografia colonial
portuguesa.
Na sua maioria são universitários ou investigadores que estudaram no
estrangeiro ou frequentaram colegas que, em Lisboa ou noutros locais,
trabalharam com métodos e exigências documentais aprendidos na Europa ou nos
Estados Unidos, e que nada têm que ver com aquilo com que as gerações
anteriores se contentavam. Lemos as bibliografias que utilizaram e perguntamo-
nos em que bibliotecas portuguesas encontraríamos os livros que citam. Será um
mistério, quando se conhece a pobreza lendária das bibliotecas ibéricas em
livros acerca dos assuntos estudados redigidos em inglês, francês ou alemão...
Não contámos todos estes «novos construtores», mas não nos surpreenderia que
passassem já da trintena, o que é notável. No entanto, o «grande público» que
continua a ler não absorve prioritariamente o resultado dos seus trabalhos, mas
as velhas lengalengas passadistas acerca da grandiosidade, da bondade, etc., da
expansão portuguesa. Enquanto estes pioneiros não terão passado a fronteira do
ensino primário e dos seus manuais, os seus esforços para esclarecer o que
realmente se passou só interessam aos especialistas. A revolução ao nível da
escola primária ' sem cair no denegrimento sistemático, como se constata em
certos países onde a história colonial é tema minado de excessos ' continua por
cumprir, para se alcançar uma visão equilibrada do que permanece, afinal, uma
componente muito importante do destino de Portugal.
A tradução da tese de doutoramento defendida no King's College de Londres por
Miguel Bandeira Jerónimo
1
é um texto que impressiona pelo objeto e pelo tratamento. Não dispomos do
espaço nem da competência necessários para examinar com profundidade o tema
tratado. Ficámo-nos por trabalhos como os de Latour da Veiga Pinto para o
Congo, as sínteses de missionologia de Silva Rêgo e de António Brásio, e outros
títulos menores acerca dos Missionários do Espírito Santo no Sul de Angola. Com
Bandeira Jerónimo desfolham-se a fundo as relações entre Lisboa e o Vaticano
durante uma época crucial para a sobrevivência do Império em África (1820-
1890), mas vai-se ainda mais longe, até às fricções com os batistas britânicos
no Congo português e os espiritanos no Norte e no Sul, e também com o ogre
insaciável que foi Leopoldo II. O autor trabalhou em dois arquivos portugueses
(Arquivo Histórico Ultramarino e o arquivo do Ministério dos Negócios
Estrangeiros), dois franceses, dois romanos e dois britânicos. Nos anos 1960-
1975 foi-nos recusado o acesso a três destes oito arquivos e os outros nada
tinham que ver com o que pretendíamos. O que significa que as condições de
investigação para o conhecimento do século xix em Angola evoluíram num sentido
favorável em apenas uma geração. Um trabalho exemplar, em definitivo, com dois
grandes índices.
Do mesmo autor, agora como organizador de uma recolha de contributos temática e
temporalmente alargados, convém citar, na mesma editora, O Império Colonial em
Questão (sécs. XIX-XX). Poderes, Saberes e Instituições2. Encontramos aí
dezanove especialistas, com vários a atacar de frente a propaganda do Estado
Novo. O texto, muito recheado de notas de rodapé, por vezes com bibliografias
exuberantes, confirma a nossa impressão inicial: assistimos a uma revolução
científica, ou então a uma abertura que abala a velha rotina. Todas as parcelas
imperiais são levadas em conta e a enumeração integral dos diferentes capítulos
exigiria uma página inteira. O primeiro, por ordem de apresentação, constitui
um avanço óbvio em relação ao que se escrevia há quarenta anos acerca da
revolta de janeiro-fevereiro de 1961 na Baixa do Cassanje, graças à exploração
de peças de arquivo, onde se vê que o que certos administradores e militares
publicavam em livros de recordações posteriores contradiz totalmente o que
deixavam passar nos relatórios oficiais. Os dois autores falam de terror, de
repressão. Texto impressionante. Outros textos sobre a diplomacia imperial, as
missões religiosas, o trabalho indígena, a economia, a agronomia, as ciências
sociais ensinadas aos futuros administradores, a cultura imperial instilada na
população metropolitana, o nacionalismo, as coleções etnológicas, as mulheres,
a literatura, etc., dão um vasto panorama do que preocupa muitos especialistas,
que exploraram aqui as suas teses, publicadas ou em preparação, para oferecer o
que têm de melhor. É uma recolha que pode servir de montra de exposição
internacional dos progressos conseguidos em algumas décadas em Portugal.
Entretanto, uma questão lancinante continua a atormentar-nos: as vendas em
livraria estarão à altura das nossas expectativas? Assim o desejamos para o
futuro. Será que em 2050 se encontrará este livro importante nos alfarrabistas?
A última questão não se coloca para os dois títulos que abrem a secção angolana
desta crónica. Quem possui, mesmo nas dezenas ou centenas (?) de associações
portuguesas de retornados ou de antigos combatentes, os livros que se seguem?
We did not see it even in Afghanistan. Memoirs of a Participant of the
Angolan War (1986-1988)3, de Igor Zhdarkin, e The Oral History of Forgotten
Wars.The Memoirs of Veterans of the War in Angola4, publicado sob a direção de
Gennady Shubin, revelam, no mínimo, as proezas linguísticas dos russos em geral
e a sua vontade de dar a conhecer ao estrangeiro, numa língua acessível ao
maior número, o que foi a sua participação ' mais ou menos minimizada ou
ocultada, mesmo na Rússia, na época ' na guerra contra a Unita e os sul-
africanos. Ainda não vimos uma única tradução de um texto factual de veteranos
portugueses. O que existe está em alguns romances, mais célebres pelos méritos
literários do que pelos contributos históricos. O texto inglês de Zhdarkin
parece ser a tradução parcial da versão russa (pp. 1-246), que ocupa a primeira
parte do volume de 516 páginas. As 150 páginas em inglês relatam as
experiências do intérprete Zhdarkin (russo-português e português-russo) na
grande batalha decisiva de Cuíto Cuanavale (1987-1988). Este texto importante
não é idêntico ao que foi publicado sob a sua assinatura e a de Andrei Tokarev
em Bush War, The Road to Cuito Cuanavale , (Auckland Park, África do Sul:
Jacana Media, 2012, 216 páginas, fotografias a preto e branco). O livro em
russo e em inglês de 2008 contém mais detalhes pessoais e Zhdarkin esteve
igualmente ao longo do Cunene em 1986 e/ou 1987.
The Oral History of Forgotten Wars contém entrevistas a dois oficiais russos
que combateram, o primeiro também no Cuíto Cuanavale (1986-1988) (pp. 25-46) e
o segundo no Moxico. Texto muito técnico e franco acerca dos altos e baixos das
ofensivas cubano-soviéticas, no primeiro caso. Em resumo, um bibliófilo
português que quisesse completar a sua coleção angolanista deveria possuir os
dois livros publicados em Moscovo e o que saiu na África do Sul em 2012.
Coragem, camarada!
Estes testemunhos de soldados podem ser completados com a análise dos
conflitos5 feita por uma politóloga, e provavelmente socióloga da Universidade
Humboldt de Berlim. A partir de entrevistas em Luanda e no Huambo, e de uma
bibliografia esmagadora, a investigadora demonstra que a paz regressou a Angola
sem demasiados sobressaltos, graças à adaptabilidade da população, que teve
muito tempo para se exercitar, entre as exigências do mpla e as da Unita, de
1975 a 2002. Com efeito, partilhamos a opinião da autora de que a arraia-miúda
estava a mil léguas dos adeptos da Guerra Fria e dos gurus de Washington e de
Moscovo, e que mobilizou todos os recursos das sociedades africanas para
sobreviver sem se preocupar com slogans políticos. Não é um texto fácil para
amadores preguiçosos, mas um produto puro da pesquisa universitária à alemã.
Numerosas citações aligeiram a tensão exigida do leitor. Em suma, um balanço um
pouco esotérico, mas tudo o que lá é afirmado é justificado. A obra permanecerá
uma pedra angular para conhecer os dois monstros que disputaram o seu país com
o ferro e o fogo, sem se preocuparem em terminar a luta de morte que pôs a
sangrar quase metade, ou mesmo dois terços, do mato. Em comparação, no plano
das perdas e dos traumatismos, a guerra ' as guerras ' colonial(ais) foram
simples «arranhões». Não o esqueçamos, e digamo-lo aos que aqui chamamos de
«velhos forjadores», que continuam a martelar o metal das recordações de guerra
para esquecer os sofrimentos de juventude.
Dir-se-á o que se quiser da «paraliteratura» elaborada pelos antigos
combatentes, mas a verdade é que exige do crítico e do leitor muito menos
esforço que a absorção das teses dos politólogos e assimilados. O fator cansaço
deve também entrar em linha de conta numa crónica bibliográfica. Portanto,
voltemos geograficamente atrás com Olhares Sobre a Guiné e Cabo Verde6: não
hesitamos em afirmar que os trinta autores deram o seu melhor para coligir esta
espécie de compêndio da guerra colonial na Guiné ' também anexaram alguns
capítulos sobre Cabo Verde, que saiu grande vencedor da descolonização, sem
conhecer grandes agitações nem vítimas ', e que é um dos mais ambiciosos e mais
conseguidos. Porquê? Porque foi redigido sobretudo por antigos oficiais ou
suboficiais que lutaram na Guiné, e que se coordenaram razoavelmente bem para
constituir uma espécie de enciclopédia político-militar, desigual e incompleta,
mas sólida e não lacrimejante, onde os desabafos pessoais e os ataques ad
hominem são, felizmente, raros. Entre os capítulos mais úteis ou originais
podem citar-se os relativos à ação psicológica, e os que relatam algumas
operações terrestres e, sobretudo, as da Marinha, que desempenhou um papel
primordial ' de que o episódio mais célebre é o de Alpoim Calvão quando atacou,
como um verdadeiro corsário, a Guiné Conakry (meio desastre ou semissucesso?).
Há ainda páginas sobre a aviação e uma introdução à produção editorial
abundante dos antigos combatentes que publicaram um ou mais livros sobre esta
Guiné. O território, incontestavelmente, marcou com força o coração e o corpo
destes soldados obrigados a baterem-se por uma tese assente num mito histórico.
Sem colonos em número suficiente e com uma importância económica quase nula,
este bocado indigesto do «bolo» africano, proporcionalmente à sua superfície e
população foi o que custou mais mortes e despesa a Portugal. Neste momento mais
não é que a «Costa da Cocaína».
Não insistamos mais sobre esta banalidade, e viajemos para margens mais
«acolhedoras»: as de Moçambique. O livro de Louis-François Monnier7 é o relato
dos doze anos passados em Moçambique (1963-1965 e 1965-1975) de um especialista
agrícola suíço integrado em duas missões protestantes helvéticas entre o
Limpopo e o Incomati. Sempre lamentámos que a Suíça não tenha alimentado
ambições coloniais. Ter-se-ia assim visto como é que se teria preparado para a
descolonização. O autor descreve sobretudo a vida quotidiana nesta região
meridional ganha à Frelimo de Mondlane. Não insiste demasiado sobre a transição
de 1974-1975, as promessas da Frelimo e a tomada de terras aos colonos. Em 1993
volta a deixar as suas vinhas europeias para preparar a ida de uma missão
médica encarregue de acolher os desmobilizados da Renamo. Prudente nos
comentários políticos, conta que no seu tempo existiam trinta missionários
suíços, mais ou menos vigiados pela administração portuguesa. Criou para o seu
rebanho uma cooperativa africana de 183 hectares de culturas. Isto bastava para
o tornar suspeito.
E partamos com os «novos construtores» lusófonos, universitários e
investigadores, e com Os Outros da Colonização8, em que uma das contribuições
se debruça precisamente sobre a missão suíça no Sul de Moçambique (1930-1975).
Ao multiplicar colóquios de que a proliferação, na nossa opinião, é uma doença
chamada «coloquialite», as instituições constrangem os participantes a
fragmentar os seus trabalhos a longo prazo, em detrimento do que poderiam
realizar de fundamental. Impedem-nos, assim, de se renovar. Trata-se de uma
epidemia anglo-americana que contaminou a maioria das universidades e é nefasto
para o avanço dos conhecimentos, com uma mobilização de energias
desproporcionadas em relação aos ganhos científicos. A autora não tem menos de
quatro trabalhos, entre os quais uma tese, publicados sobre o mesmo assunto (a
missão suíça) desde a década de 1990. Dir-se-á o mesmo de outros sete ou oito
autores desta recolha, que se condenam à sorte de se repetir, com algumas
variantes. Tornam-se, a pouco e pouco, velhos forjadores que batem sempre no
mesmo metal, cada um obrigado a entrincheirar-se no seu feudo para ser o
especialista, e pau para toda a obra, de um só assunto. Não se deveria,
portanto, avaliar a produtividade dos investigadores em função de um carrossel
de aparições incessantes, de uma tribuna a outra, de uma revista a um
seminário; bem pelo contrário, dever-se-ia deixá-los retomar fôlego e explorar
outros campos. São vítimas de uma moda que, a longo prazo, ameaça a sua
criatividade.
Em resumo, este livro é consagrado a alguns grandes temas todos importantes,
mas raramente originais, tais como a sociedade e a alteridade, as questões
ligadas à assimilação, à religião e à guerra, passando pela fotografia, a
imprensa, as mulheres portuguesas no conflito armado e as tropas coloniais
africanas, e terminando com o fim lamentável das comunidades europeias e
asiáticas.
Regressemos aos nossos «velhos forjadores» de farda. Já se viram russos e
portugueses, e portanto nada nos impede de deitar uma vista de olhos aos
rodesianos brancos que ainda não acabaram de recordar os seus feitos de armas.
Estão nos antípodas dos antigos combatentes portugueses, de que um bom número
quer continuar a lamentar-se até morrer. Também os rodesianos brancos perderam
a guerra contra os nacionalistas negros mas os que a descrevem beneficiam de
condições mais favoráveis. Em primeiro lugar, têm um público internacional
infinitamente maior que o dos lusófonos, pois inclui todos os amadores de
relatos de guerra dos países anglófonos ' e Deus sabe como nos Estados Unidos
gostam de relatos de guerra, da Guerra da Secessão até à do Afeganistão,
passando pelos dois conflitos mundiais, a Coreia, o Vietname, o Iraque, etc. O
mesmo se passa na Grã-Bretanha e na África do Sul, sem esquecer a diáspora
branca pós-Mandela. Em segundo lugar, os relatos rodesianos são quase sempre
redigidos por profissionais das armas: nas suas páginas raramente existe o
veneno do derrotismo. Lutaram um contra vinte ou trinta, enquanto os
portugueses se batiam dez ou vinte contra um, e têm a sensação de ter alcançado
grandes feitos graças à engenhosidade e à combatividade: encostados à parede, a
sua motivação era a luta pela vida. Para os portugueses, pobres metropolitanos
desenraizados, enviados ' e, na sua maioria, obrigados ' para terrenos que não
conheciam, a guerra não possuía esta parada determinante, que a propaganda
oficial não conseguia substituir com o apelo ao patriotismo imperial. A cultura
da guerra desertara há muito a mentalidade portuguesa e o exemplo dado pelos
oficiais de Lisboa era em geral pouco propício para vertebrar estas tropas de
voluntários à força. Em terceiro lugar, e contrariamente ao lento mordiscar da
guerrilha em Angola, ao recuo inevitável na Guiné e aos erros do comando
português em Moçambique, o Exército rodesiano acreditara que ao multiplicar os
ataques ' muitas vezes vitoriosos ' contra as bases nacionalistas de Mugabe em
Moçambique, poderia impor uma solução puramente militar, dispensando Salisbury
de concessões políticas fundamentais.
Dingo Firestorm: The Greatest Battle of the Rhodesian Bush War9 é um excelente
exemplo desta exaltação dos feitos militares, retemperador, otimista e
convincente. Sim, os rodesianos, com relativamente poucos meios e homens,
conseguiram derrotar os seus inimigos nos confrontos diretos com as tropas da
zanu (Zimbabwe African National Union) e da Frelimo. O relato deste raide aéreo
(novembro de 1977) sobre solo moçambicano é um texto ao mesmo tempo político,
descritivo, jornalístico, anedótico e técnico, colocando em cena os
protagonistas brancos (os aviadores, a guarda avançada das unidades
paraquedistas e das forças especiais rodesianas). Aqui lemos dezenas de páginas
acerca da «colaboração» difícil e mesmo desdenhosa com as tropas portuguesas no
distrito de Tete e, depois da sua evacuação, as confrontações com os novos
poderes saídos da independência de Moçambique. As citações copiosas e
esclarecedoras retiradas de publicações e de entrevistas com os participantes
aligeiram a tensão inevitável. O autor é um aviador sul-africano que combateu
na Rodésia. Os seus antecedentes explicam o facto de não trazer Mugabe no
coração, e é de se perguntar se não terá razão, devido aos resultados e às
particularidades da gestão dos assuntos públicos, depois de décadas em Harare.
Shadows of a Forgotten Past10 tem a mesma origem e o mesmo objetivo, mas o seu
autor é um «animal de guerra», uma «cabeça quente», da matéria de que são
feitos os mercenários de exceção. Aquilo que gosta de fazer é de lutar de armas
na mão, e pouco importa a causa defendida. É um londrino de origem, de origem
popular (o pai era agente de apostas), voluntário das tropas especiais
britânicas (sas), e depois das rodesianas em 1974. Relata as suas experiências
e sabe interessar os leitores (pelo menos os que apreciam este género de
literatura). Não o seguimos na nomenclatura das suas façanhas, de que uma
grande parte se desenrola no mato moçambicano. O que é útil no seu livro é:
primeiro ' a descrição das suas operações nos Selous Scouts do outro lado da
fronteira; segundo ' as memórias alcoolizadas de um português fantasioso,
aventureiro de alma, alistado nas sas rodesianas, que noutro século e na Ásia
teria estado num bando de mercenários conduzidos por Fernão Mendes Pinto, mas
que na vida real participou, desde 1977, na criação da Renamo na sua primeira
versão, sob a tutela rodesiana; terceiro ' o capítulo consagrado (pp. 156-176)
precisamente à génese da Renamo. Se existe algum período obscuro, é este.
Há também coisas acerca das atividades do autor numa empresa de segurança em
Luanda por conta da Air France em 1993 e de traficantes de diamantes e mesmo da
onu! O quadro descreve uma capital em que tudo é possível, mas onde reinam a
violência e uma corrupção inimaginável, institucional e privada.
Da guerra considerada como um rito de passagem pelos «heróis» que se saíram bem
dela, saltemos para os politólogos que estudam os seus sobreviventes civis. O
título que se segue é uma longa receita aplicável aos cambojanos, aos
moçambicanos e aos bósnios. É explícito: Restaurer la confiance après un
conflit civil11. Apresenta diferentes terapias pois a autora examina como se
deve restabelecer a confiança no Estado, nas instituições públicas, na justiça,
na sociedade civil, na vida política, na economia, no Outro, na família, na
religião, na comunidade. Numa palavra, no futuro. É um vasto programa que
Pascaline Gaborit elaborou a partir dos seus inquéritos em três países, um dos
quais Moçambique. O que pertence apenas a este país não pode ser apreendido se
não se ler toda a tese que, do ponto de vista conceptual, é muito rica. Resta
saber se os pacientes a lerão. Quanto aos que despoletarão as próximas guerras
civis, noutros locais do mundo, a leitura não se inscreve no seu programa e o
único futuro que lhes interessa é o seu, quando tiverem esmagado as «baratas»,
ou seja, os Outros.
Regressemos aos nossos «velhos forjadores», de que o campeão olímpico do
martelo é sem dúvida o suíço Max Liniger-Goumaz que, ao longo de toda a vida,
publicou umas boas quatro dezenas de volumes apenas sobre a Guiné Espanhola,
agora Equatorial. A última (?) em data da sua produção livresca ainda contém
novidades e o subtítulo inscreve-se exatamente na trajetória da cruzada sem
fim: Un demi-siècle de terreur et de pillage12. Recomendamos a leitura do
capítulo xii, intitulado «Les aboyeurs du regime», a quem quiser sondar os
poços da vaidade de certos ditadores não unicamente africanos, e a
incomensurável imaginação dos escroques que os lisonjeiam, entre os quais
numerosos mestres na reparação de reputações perdidas. Liniger-Goumaz é um
polemista temível que tem todo o futuro à sua frente, pois à medida que os
fundos consagrados à propaganda aumentam, o leque de amigos do regime abre-se.
Encontram-se agora textos de castristas, supostos marxistas, que rivalizam com
simples Volpones ávidos de dólares nos louvores ao regime de Malabo. Aos 83
anos o autor continua direito nas suas botas de cruzado da democracia, sem ter
a certeza de alcançar a sua Jerusalém celeste. Desejamos-lhe uma longa vida de
combates.
Em Timor também há forjadores, mas não da mesma espécie. Aí manipulam outros
metais e, como bons herdeiros da colonização portuguesa, é o verbo que lhes sai
mais barato. A recolha dos discursos do símbolo da luta pela independência,
Xanana Gusmão, ocupa mais de 620 páginas de um volume sumptuoso13. Os discursos
são precedidos de quatro pequenos prefácios de homens políticos portugueses
(mais um de um ministro timorense) e seguidos de uma curta biografia e
dezasseis páginas de fotografias a cores que mostram o autor em encontros com
os grandes deste mundo. Diz muito da estatura do homem de Estado de uma metade
de ilha sem recursos intrínsecos, o que deveria fazer muitos invejosos em
muitas capitais. É mesmo excecional, e não vemos no Terceiro Mundo senão um
outro poeta, Senghor, e uma outra autoridade moral, Mandela, na sua categoria.
Fica o conteúdo essencial deste livro promocional: os discursos enquanto
Presidente da jovem república (2002-2007) e enquanto primeiro-ministro (2007-
2012). Não sabemos se foram pronunciados em português num país onde muito menos
de dez por cento da população domina a língua. É possível que não, pelo menos
alguns deles. Mesmo à razão de 62 páginas por ano no poder, é muito para
sacrificar apenas à palavra. O leitor verá se existe uma linha de rumo e quais
são os temas desenvolvidos. Também Salazar e os governadores das suas colónias
gostavam de deixar um rasto escrito das suas atividades. A tradição remonta ao
século xix. Os historiadores julgam os homens políticos pelas realizações e
pelas estatísticas (quando existem). Por enquanto, e apesar das inúmeras
dificuldades, Timor pôde, graças a uma ajuda internacional maciça, sair
fisicamente das catacumbas. Todos os palop e a maior parte dos outros estados
independentes da África não podem dizer tanto. Resta saber se nas sociedades
que povoam este crocodilo, difícil de domesticar, se encontrarão continuadores,
os «novos construtores» que saberão tomar as rédeas e levarão a melhor sobre os
«velhos forjadores» que levantam o nariz de tempos a tempos. Atenção aos golpes
da cauda do animal totémico da ilha.
Data de receção: 24 de abril de 2013 | Data de aprovação: 1 de julho de 2013
Notas
1
Jerónimo, Miguel Bandeira ' A Diplomacia do Império. Política e Religião na
Partilha de África (1820-1890). Lisboa: Edições 70, 2012, 364 páginas.
2
Jerónimo, Miguel Bandeira (org.) ' O Império Colonial em Questão (sécs. XIX-
XX). Poderes, Saberes e Instituições. Lisboa: Edições 70, 2012, 581 páginas,
fotografias a preto e branco.
3
Zhdarkin, Igor ' We did not see it even in Afghanistan. Memoirs of a
Participant of the Angolan War (1986-1988). Moscovo: Memories, 2008, 516
páginas. As pp. 247-399 da segunda parte do livro são em
inglês + fotografias a preto e branco (pp. 403-516), com legendas em russo e em
inglês.
4
Shubin, Gennady (dir.) ' The Oral History of Forgotten Wars. The Memoirs of
Veterans of the War in Angola. Moscovo: Memories, 2007, 92 páginas.
5
Beck, Teresa Koloma ' The Normality of Civil War. Armed Groups and Everyday
Life in Angola. Frankfurt am Main/Nova York: Campus Verlag, 2012, 162 páginas.
6
Cunha, Manuel Barão da, e Paes, José Castanho (org.) ' Olhares Sobre a Guiné e
Cabo Verde. Linda-a-Velha e Porto: DG Edições & Caminhos Romanos, 2012, 389
páginas, fotografias a preto e branco.
7
Monnier, Louis-François ' Deux billets simple course. Des plaines mozambicaines
aux Côtes de l'Orbe. Sainte-Croix (Suisse): Éditions Mon Village, 2011, 219
páginas, fotografias a preto e branco e a cores.
8
Castelo, Cláudia, Thomaz, Omar Ribeiro, Nascimento, Sebastião, e Silva, Teresa
Cruz e (org.) ' Os Outros da Colonização. Ensaio sobre o Colonialismo Tardio em
Moçambique. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2012, 361 páginas, fotografias a preto e branco.
9
Pringle, Ian ' Dingo Firest-orm. The Greatest Battle of the Rhodesian Bush War.
Solihull (Inglaterra): Helion & Company, 2012, xix-266 páginas + 16 páginas
de fotografias a preto e branco e a cores.
10
French, Paul ' Shadows of a Forgotten Past: To the Edge with the Rhodesian SAS
and Selous Scouts. Solihull (Inglaterra) e Rugby (Inglaterra): Helion &
Company e GG Books UK, 2012, 203 páginas + 24 páginas de fotografias a cores, fotografias a preto e branco no texto.
11
Gaborit, Pascaline ' Restaurer la confiance après un conflit civil. Cambodge,
Mozambique et Bosnie-Herzégovine. Paris: L'Harmattan, 2011, 404 páginas.
12
Liniger-Goumaz, Max ' Guinée équatoriale. Un demi-siècle de terreur et de
pillage.Memorandum. Paris: L'Harmattan, 2013, 226 páginas, fotografias a preto
e branco.
13
Gusmão, Kay Rala Xanana ' Xanana Gusmão e os Primeiros 10 Anos da Construção do
Estado Timorense. Porto: Porto Editora, 2012, 656 páginas + 16 páginas de
fotografias a cores.
Tradução de Margarida Lopes
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt