Um americano adorado em Nova Deli
Como estudante de mestrado em Nova Deli, na Universidade Jawaharlal Nehru
(jnu), bastião da esquerda radical indiana, não esperava encontrar grande
simpatia por teóricos americanos. Este era, afinal, um campus que acolheu e
doutorou Baburam Bhattarai, o líder ideológico da guerrilha maoísta no Nepal;
em que o embaixador israelita era frequentemente impedido de palestrar num
curso sobre o Médio Oriente; e onde Hugo Chávez era acolhido em apoteose
enquanto que o próprio primeiro-ministro indiano era recebido com vaias e
acusações de ser um mero lacaio do «imperialista» George W. Bush.
Mesmo assim, sempre que naquelas velhas e poeirentas salas de aula líamos
Kenneth Waltz, os professores e alunos suspiravam em adoração uníssona. O
professor de Berkeley continua a ser um dos raros teóricos americanos estudados
e respeitados entre as elites académicas e estratégicas indianas. Mesmo no auge
da Guerra Fria dos anos 1970 e 1980, numa Índia ferrenhamente não-alinhada em
que qualquer académico americano de visita a Nova Deli era imediatamente
suspeito de trabalhar para a cia, as portas abriam-se em catadupa para o
professor Waltz2.
A explicação para esta recepção favorável é simples: rompendo com o pensamento
convencional americano da altura, maioritariamente pró-Paquistão e hostil à
proliferação nuclear, Waltz defendia que a nuclearização da Ásia do Sul ' mais
do que um legítimo direito indiano e paquistanês ' era desejável porque teria
efeitos estabilizadores, promovendo paridade e paz no subcontinente. Enquanto
que os diplomatas de Washington conjugavam esforços, incluindo sanções, para
impedir o desenvolvimento do programa nuclear indiano, o teórico Waltz defendia
o seu aceleramento: quanto mais cedo, melhor; incluindo para os interesses
americanos numa região minada por constante tensão, crises e guerras indo-
paquistanesas que consumiam importantes recursos diplomáticos.
A popularidade de Waltz é ainda mais óbvia se contrastada com o ódio que as
elites indianas reservavam à hostilidade dogmática com que os americanos de
Washington se opunham ao programa nuclear de Nova Deli ' os «aiatolas da não-
proliferação» nas palavras do estratega-mor K. Subrahmanyam. Este dogmatismo
contra a emergência de novas potências nucleares apoiava-se em quatro
argumentos: a paz e estabilidade sistémica entre a díade Estados Unidos ' União
Soviética durante a Guerra Fria seria impossível de replicar a nível regional,
seja na Ásia do Sul (Índia-Paquistão) ou no Médio Oriente (Israel-Irão, como
Waltz defendeu ainda recentemente, em 2012); segundo, ao contrário de
Washington e Moscovo, as novas potências nucleares sofrem de fraquezas
institucionais para gerir, salvaguardar e executar a sua capacidade nuclear
(Scott Sagan); terceiro, a Índia, em específico, carece de cultura e doutrina
estratégica para o complexo jogo de sinalização, deterrence e dissuasão nuclear
(Vipin Narang, Gaurav Kampani); e, por fim, que a nuclearização do
subcontinente conduziu a uma maior conflitualidade convencional, ambos os
países assumindo posturas crescentemente provocadoras, à sombra dos custos e
riscos de um escalamento nuclear (stability-instability paradox de Michael
Krepon, entre outros).
Em oposição radical a estas teses ancoradas numa mistura de ignorância,
etnocentrismo e arrogância cultural americana, o estruturalismo radical de
Waltz teve imediato sucesso na Índia. Em vez de recear a possível
irresponsabilidade de uma nova potência nuclear, «Ken» argumentou sempre o
oposto: que a capacidade nuclear conduz inevitavelmente à responsabilidade,
moderação e, por conseguinte, estabilidade e paz. A nova investigação sobre os
embrionários debates estratégicos nucleares nos Estados Unidos e na União
Soviética dos anos 1950 demonstram isso mesmo, negando a ideia simplista de que
uns países são mais estratégicos do que outros e, por isso, supostamente mais
capazes de desenvolver e gerir um arsenal nuclear de forma racional e óptima.
Paradoxalmente, é por esta razão que o estruturalismo universalista de Waltz
teve tanta popularidade numa academia indiana normalmente hostil às teses
realistas e racionalistas que dominam o estudo americano das relações
internacionais3. De acordo com o seu entendimento purista de anarquia, Waltz
olhava para a Índia como uma unidade ideologicamente neutra e asséptica,
passível de muito mais influência estratégica. Não só reconhecia isso no plano
teórico, mas também defendia activamente, no plano político, a capacidade
nuclear indiana como sendo desejável para os interesses da Ásia do Sul e mesmo
dos Estados Unidos.
No Ocidente, o seu realismo estruturalista é acusado de negligenciar os
factores domésticos na formação da política externa ' incluindo a ideologia, o
regime político, ou a personalidade dos líderes ' mas essa cegueira analítica
foi sempre vista como profundamente libertadora para estrategas indianos
acostumados a verem o seu país analisado com recurso a arcaicos paradigmas
culturais e orientalistas (a Índia gandhiana e pacifista, incapaz de utilizar a
violência como estratégia política). Mas aqui, na pessoa de Waltz, estava
finalmente um teórico americano que, no seu radicalismo estruturalista,
prometia analisar e julgar a postura estratégica indiana em pé de igualdade
perante as grandes potências ocidentais. Num país colonizado durante séculos, é
natural que esta abordagem tivesse tido acolhimento imediato.
Em 2008, a Índia e os Estados Unidos assinaram um acordo bilateral para a
cooperação civil nuclear que, de forma efectiva, terminou o estatuto pária que
a Índia sofria desde que se tinha declarada potência nuclear em 1998. Os
aiatolas de Washington opuseram-se, mas foram incapazes de resistir à mudança
dos ventos geopolíticos: ao contrário do passado, a Índia é hoje uma peça
essencial no xadrez asiático de uma superpotência americana em declínio que
procura desesperadamente novas parcerias e aliados para conter a ascensão da
China.
Esta aproximação a Nova Deli passa também pelo plano ideológico, com a súbita
descoberta de «valores em comum» e referências aos dois países como «aliados
naturais» em busca de uma «ordem liberal» assente, por exemplo, na liberdade de
navegação, gestão multilateral de bens globais, ou promoção da democracia e dos
direitos humanos.
Para um realista cínico esta é uma mera primavera retórica assente num frio
calculismo de interesses convergentes. Se a Índia é democrática desde 1947,
porque é que Washington só agora se lembrou disso? Este é um argumento
importante, mas não necessariamente incompatível com uma explicação normativa
da aproximação entre os dois países: os interesses comuns são essenciais à
aproximação, mas a cooperação é facilitada pela qualidade democrática e
pluralista de ambos os regimes e as suas sociedades abertas.
Ao contrário do que é sugerido por caricaturas teóricas, muitas vezes por
própria culpa de um Waltz bastante polemista, a obra do «pai do neo-realismo»
(ou será já «avô»?) reconhece a importância da democracia como sistema político
na formação da política externa. Uma das suas obras menos conhecidas,
comparando os Estados Unidos e o Reino Unido, sugere mesmo que os estados
democráticos são mais capazes e eficientes na execução da política externa4.
Não é este o Waltz que os manuais de relações internacionais apresentam, mas é
o mesmo Waltz que ' já estrela e coqueluche epistemológica ' chegou a afirmar
que não só é «reducionista» e desnecessário, mas também nocivo estudar as
dimensões domésticas da política externa5.
Para além do estrututralismo Waltz 2.0, esta abordagem mais normativa de Waltz
1.0 oferece importantes pistas para estudar de que forma o regime e os valores
democráticos indianos vão influir sobre o futuro da política externa, da
doutrina nuclear e da postura estratégica de um país em rápida transformação.
Data de receção: 14 de junho de 2013 | Data de aprovação: 3 de setembro de 2013
NOTAS
1
A pedido do autor este texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Ver, por exemplo, a forma como foi recebido em 1984 em Nova Deli: Cohen,
Stephen, e Xavier, Constantino ' «The career and ideas of K. Subrahmanyam». In
Brookings Institution, Fevereiro de 2011. [Consultado em: 9 de Agosto de 2013].
Disponível em: http://www.brookings.edu/events/2011/02/18-india-
subrahmanyam
3
Uma das raras homenagens póstumas indianas a Waltz reconhece esta importância:
Rajagopalan, Rajesh ' «Kenneth Waltz R.I.P. (1924-2013)». In IDSA Comment, 15
de Maio de 2013. [Consultado em: 8 de Agosto de 2013]. Disponível em: http://
www.idsa.in/node/12065/30424
4
Waltz, Kenneth N. ' Foreign Policy and Democratic Politics; The American and
British Experience. Boston: Little Brown, 1967.
5
Williams, Michael C. ' «The politics of theory: Waltz, realism, and
democracy». In Booth, Kenneth ' Realism and World Politics. Nova York: Taylor
& Francis, 2011.
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