Waltz, a diversidade das democracias e a semelhança dos estados
O LEGADO DE WALTZ
Com Man, the State and Ware Theory of InternationalPolitics, Kenneth Waltz
resolveu -nos uma série de problemas.
Em 1959, na sua tese de doutoramento, viu -se livre da natureza humana como
explicação central das relações internacionais. Para investigar as causas da
guerra, Waltz recorreu a três autores fundamentais da filosofia política.
Rousseau, que argumentou que os conflitos eram consequência da existência do
Estado, que precisava da guerra para se consolidar e progredir; se não se
substituísse esta forma de organização política, as tensões tenderiam a
perpetuar-se. Kant, que defendeu que a origem da guerra residia nos vícios dos
governos não republicanos e que para reduzir os conflitos era necessário
esperar que o número de repúblicas aumentasse. Espinosa, que afirmou que
natureza humana era maligna tendendo ao conflito. Sendo esta impossível de se
transformar, os estados estavam perpetuamente condenados ao regresso à guerra.
Waltz, ainda num realismo muito clássico e concentrando-se na história das
potências europeias antes da II Guerra Mundial (da qual tinha passado pouco
mais que uma década) contestou todas estas visões: o Estado, disse, iria
perpetuar-se independentemente da sua tendência beligerante, uma vez que era a
forma mais eficaz de proteger os indivíduos uns dos outros; as democracias eram
diferentes das autocracias apenas na liberdade da população. Em tudo o resto,
governos tinham sensivelmente o mesmo comportamento, uma vez que o seu
principal objetivo era garantir a sobrevivência do Estado, e a sobrevivência do
próprio regime (questão que iria repensar mais tarde). Mas, mais importante, ao
discordar de Espinosa, Waltz argumentou que se o homem é imutável e obedece
sempre aos mesmos impulsos ' nomeadamente à vontade de dominar o outro ' mais
vale cruzar os braços porque nenhuma guerra pode ser evitada e nenhum problema
político pode ser resolvido.
E, ainda que não tenha sido este o principal objetivo de Man, the State and
War, Waltz foi um dos primeiros autores a separar níveis de análise («imagens»,
na sua terminologia) atribuindo importância e metodologias diferentes a cada
um. A sua argumentação descartou o primeiro nível de análise (o indivíduo),
lançou dúvidas sobre o segundo (o Estado) e reforçou a necessidade de estudar
de uma forma mais sistemática o terceiro ' o sistema internacional.
Em 1979, com a publicação da sua famosa teoria neorrealista das relações
internacionais (Theory of International Politics), Waltz concretizou parte do
que deixara em aberto vinte anos antes. Corria a Guerra Fria, e era possível
identificar semelhanças no comportamento das novas grandes potências ' os
Estados Unidos e a União Soviética ' semelhanças essas que correspondiam grosso
modo aos comportamentos de outros estados poderosos em períodos anteriores.
Em primeiro lugar, Waltz notou que os estados estão dependentes dos
constrangimentos e oportunidades de que dispõem consoante o sistema
internacional em que tentam sobreviver. Waltz estendeu o conceito de anarquia
de Hobbes (ausência de entidade reguladora sobre um determinado número de
unidades) para condição central e inultrapassável das relações entre os estados
' a estrutura' da qual as unidades estão em permanente dependência.
Neste contexto, Waltz notou ainda que os estados copiam as boas práticas uns
dos outros. Entre essas boas práticas, destacam -se duas: o recurso ao
equilíbrio de poder para evitar a guerra (como já tinham demonstrado Hertz e
Morgenthau, entre outros) e, se sensatos e prudentes, não procuram expandir-se
em demasia, mas adquirir o poder suficiente para se resguardar de rivais mais
agressivos ' daí, muitas vezes, a teoria de Waltz ser designada de «realismo
defensivo». A II Guerra Mundial tinha trazido a lição incontornável de que o
expansionismo tinha consequências muito graves (recado não só para a União
Soviética mas também para os Estados Unidos, cuja húbris foi preocupação
permanente dos realistas durante a Guerra Fria). Com este conselho ao príncipe
(«teorias elegantes», baseadas na microeconomia, não são necessariamente
destituídas de considerações morais), Waltz contribuiu decisivamente para o
estudo das relações internacionais, simplificando a complexidade das interações
entre os estados.
Quando o conflito bipolar acabou, o professor da Universidade de Columbia
encolheu os ombros, dizendo que a multipolaridade, eventualmente, voltaria a
ressurgir e a sua teoria tornaria a descrever e prever o comportamento dos
estados
1
. Em breve, um ou mais estados (individualmente ou em aliança) ressurgiriam
para equilibrar o poder norte-americano.
A previsão de Waltz é impossível de falsificar. Teoricamente, não se pode
conceber um sistema internacional perpetuamente unipolar; no entanto, a
durabilidade da hegemonia norte -americana (que se mantém até hoje nas questões
político -militares) tem deixado as explicações neorrealistas enfraquecidas.
Não se podem simplesmente ignorar duas décadas de predominância sistémica sem
qualquer tentativa consistente, por parte de alianças ou estados individuais,
de equilibrar o domínio de Washington. Neste contexto, Waltz contribuiu
decisivamente para um dos principais debates dos anos 1990. Os realistas
declaravam que a razão pela qual os Estados Unidos se mantinham isolados na
posição de potência global era a esmagadora diferença de poder entre si e todos
os potenciais rivais. Já os liberais enfatizavam o progresso das relações entre
os estados (que percebiam que era do seu interesse nacional manter um sistema
unipolar estável) e o caráter liberal da liderança norte -americana no sistema
internacional ' que por ser benigna reforçava a ausência da vontade política de
equilibrar o poder norte-americano.
E apesar de hoje o cenário da ascensão de novas potências estar a ganhar
terreno, a tendência da academia é concentrar -se em questões de ordem, tipo de
regime e diversidade cultural, acrescentando à descrição da estrutura sistémica
as tais variáveis que Waltz descartou e sem as quais não parece possível
perceber a contemporaneidade. É quase impensável conceber que a China, chegando
à posição de grande potência, tenha uma política externa semelhante à dos
Estados Unidos.
No entanto, Waltz permanece o autor que criou e popularizou a matriz teórica a
favor ou contra a qual quase todos os autores se posicionam. As mais
importantes inovações teóricas das últimas três décadas (nomeadamente o
liberalismo institucionalista, o construtivismo social e o realismo
neoclássico) dialogam diretamente com Theory of International
Politics,especialmente o seu conceito de anarquia2. Por estas e outras razões
mais específicas, é quase impossível começar um artigo ou um livro de teoria
das relações internacionais sem descrever os princípios basilares enunciados
por Waltz, passando a concordar, concordar parcialmente, discordar ou corrigir.
A DEMOCRACIA E O SISTEMA
Hoje, mais de trinta anos após a publicação de Theory of International
Politics, e perante a crescente importância de programas de estudos como a tese
da paz democrática, as questões de identidade e diversidade relacionadas com as
potências ascendentes, ou as consequências da oscilação do conceito de
soberania, vale a pena perguntar porque é que Waltz pôs de lado tão depressa
(em 1959) ou ignorou (em 1979) problemas relacionados com o tipo de regime,
ainda que a Guerra Fria tenha sido, em parte, um confronto ideológico, que opôs
duas visões distintas para a ordem internacional e instituições domésticas.
Porque terá Waltz ignorado que as democracias e as autocracias se comportam de
maneira diferente nas mesmas condições sistémicas ' ao contrário de outros
realistas que escreveram sobre a especificidade das democracias especialmente
antes de 1979? Porque não explorou a preferência retoricamente assumida e
empiricamente testada dos Estados Unidos por aliados democráticos bem como a
sua desconfiança acentuada relativamente a regimes autocráticos? Por outras
palavras, como é que Waltz, um dos maiores teóricos do século xx, poderá ter
ignorado este fator, indispensável para compreender o mundo contemporâneo (seu
e nosso)?
A resposta fácil é ' porque Waltz era uma realista ', um realista estrutural e
o seu maior objetivo foi excluir os fatores que não explicassem o comportamento
de todos os estados. A sua teoria pretendia enfatizar as regularidades e não as
inconsistências, as anomalias ou mesmo as mudanças sistémicas. Além disso,
Waltz terá percebido a potencialidade da revolução behaviourista dos anos 1960
e transportou -a para as relações internacionais, onde é tantas vezes difícil
adaptar as metodologias da ciência política. A academia norte -americana
procurava tornar -se «mais científica» no que respeita à produção das ciências
sociais e para isso tinha de se livrar de fatores incomensuráveis, por mais que
estes estivessem presentes na realidade empírica. E nesse aspeto, Waltz
inventou a roda.
Mas esta é apenas parte da razão. Waltz estudou, efetivamente, fatores morais e
ideológicos, nomeadamente o papel do regime democrático na política externa dos
estados. Waltz estudou a democracia e concluiu que fazia sentido excluí -la de
trabalhos posteriores. Entre os já referidos Man, the State and War(1959) e
Theory of International Politics(1979) fez outros estudos, entre eles o
esquecido Foreign Policy and Democratic Politics ' The American and British
Experience (1967) onde mistura a política comparada e a teoria da política
externa para apurar se há ou não peculiaridade na política externa das
democracias. Este livro há muito esgotado e quase nunca citado ou referido, é a
ponte que liga os trabalhos de Waltz, explicando a continuidade do seu
pensamento. Do realismo clássico que caracteriza os primeiros trabalhos do
autor (incluindo este) ao estruturalismo realista (ou neorrealismo), é possível
identificar os passos que levaram à simplificação da realidade empírica e à
construção teórica.
Foreign Policy and Democratic Politics é um livro que responde a uma das
questões centrais do seu tempo. A maioria dos autores que escrevia sobre
política internacional temia que o regime democrático fosse frágil e
desvantajoso em questões de política externa. Dizia-se, no final dos anos 1960,
que os «regimes autoritários tinham vantagens naturais»3 relativamente às
democracias por não estarem sujeitos ao escrutínio da opinião pública e porque
os princípios da política externa tinham sido criados e desenvolvidos por e
para estados eminentemente oligárquicos. Para ser eficaz, o exercício da
política internacional requeria meios normalmente equacionados com o
autoritarismo, como a ausência de transparência na tomada de decisão e um tipo
de continuidade que não se coadunava com ciclos eleitorais. Para vingar, os
estados liberais enfrentavam dificuldades acrescidas que teriam de contornar
para sobreviver. Dizia -se que «na selva das relações internacionais as
democracias estão inerentemente em desvantagem»4.
Para apurar se esta premissa era verdadeira (como já foi dito, Waltz
desconfiava que não, pelo menos desde 1959), o autor fez um estudo aprofundado
das instituições internas das democracias mais poderosas do sistema, a Grã -
Bretanha e os Estados Unidos. Waltz pôs a hipótese de que existiam fatores na
política externa das democracias simultaneamente semelhantes entre si e
diferentes da política externa das autocracias. Esses fatores, subentende -se,
explicariam porque é que a política externa democrática seria menos eficaz que
a autocrática, caso a premissa inicial colocada pelos seus contemporâneos de
que as democracias apresentavam desvantagens no exercício das relações
internacionais se confirmasse.
Aqui começam os problemas. Waltz escolheu três fatores que entendeu serem
centrais na definição da política externa de qualquer Estado. Esses fatores são
as instituições domésticas ' neste caso as democráticas; as experiências e
tradições que constituem a história de cada Estado; e os constrangimentos e
oportunidades criados pelo sistema internacional ' o que o autor define como
«pressões de outras potências»5. Para este Waltz pré -estruturalista, a
anarquia ainda é uma condição permissiva: «apesar do sistema existe um vasto
leque de escolhas na política externa»6. Em 1967, Waltz ainda não é estrutural.
Quando aprofunda a questão empiricamente ' estudando as estruturas
governamentais dos dois países, a política militar britânica, a política de
ajuda internacional americana, e casos de crise na política externa dos dois
estados ' o professor de Columbia conclui que as três variáveis independentes
ou são demasiado diferentes entre si para estabelecer relações de semelhança,
ou são incomensuráveis. O que explica que apesar da similaridade do tipo de
regime, a Grã -Bretanha e os Estados Unidos tenham tido no passado (e tenham
ainda) políticas externas acentuadamente diversas, com objetivos e
consequências diferentes.
No que respeita ao primeiro fator ' instituições internas ' a Grã -Bretanha e
os Estados Undidos resolvem os dois dilemas fundamentais das democracias ' (i)
a necessidade de se encontrarem acordos político-partidários para a construção
de uma política externa coerente e (ii) a criação e manutenção de mecanismos
políticos para distinguir a política externa e a política interna7 ' de forma
marcadamente diferente. Por outras palavras, os meios para atingir resultados
semelhantes diferem.
A continuidade na política externa britânica deve -se a acordos forjados à
volta da visão dos estadistas8. Líderes como James Bryce e Winston Churchill
foram centrais na construção dos consensos na política britânica, uma vez que
lhes foi reconhecida pelos diversos partidos políticos e pela opinião pública a
capacidade de interpretação do passado e visão de futuro9. Estes líderes
gozaram de uma legitimidade além da estrutura constitucional e burocrática, que
permitiu ao Reino Unido uma surpreendente continuidade na definição do seu
interesse nacional, e consequente facilidade nas sucessivas adaptações a
diferentes situações sistémicas. Como explica Waltz, cada nova doutrina
estratégica ou militar, nomeadamente o ajustamento à perda de poder após a II
Guerra Mundial, era compatível com os «velhos hábitos» nacionais10.
Os Estados Unidos fazem depender as suas decisões do que Waltz chamou a
«moderação dos partidos políticos»11 ' um mecanismo que Tocqueville identificou
com ciclos de «discórdia e consenso» próprios do pluralismo e do sistema de
checks and balances ' uma vez que a América tem mais atores envolvidos na
tomada de decisão da política externa que a Grã -Bretanha. Este sistema garante
um ponto de chegada ' há sempre uma decisão final com um forte consenso
bipartidário ' mas muito menor coerência nas questões da política externa, o
que explica viragens surpreendentes no percurso político americano, como a do
isolacionismo no período entre as guerras diretamente para o papel de liderança
do mundo ocidental no fim da II Guerra Mundial.
Em comum, o Reino Unido e a América têm dois fatores constantes ' que
ironicamente ultrapassam a sua condição democrática. O uso do nacionalismo para
envolver a opinião pública nas decisões políticas e o medo de um inimigo que
ameaça a sua sobrevivência ' neste caso a União Soviética. Afinal, as
democracias num sistema tão hobbesiano como os restantes estados12.
No que respeita às tradições e experiências dos estados, o segundo elemento
elencado por Waltz, apesar de a Grã -Btretanha e os Estados Unidos serem ambos
potências democráticas consolidadas, as suas conceções ideológicas têm sido tão
diferentes, que se tornam objetos incomparáveis.
A Grã -Bretanha é uma potência marcadamente contida (fazendo jus à tradição
soberanista e liberal negativa) e muito coerente durante toda a sua história.
Quando era um império, fez uso da estratégia de off -shore balancing,
intervindo apenas em caso de necessidade de equilíbrio do jogo de poder das
potências europeias. A menos que se sentisse ameaçada, Londres absteve -se de
qualquer intervenção em assuntos internos de outros estados. Por escapar à
húbris que caracterizava as outras potências, conseguiu manter o seu estatuto
de hegemonia por quase dois séculos; o mesmo princípio permitiu -lhe um
«declínio gracioso» e a manutenção da influência no sistema, através de uma
política de independência militar e da «relação especial» com os Estados
Unidos.
Já a América tem sido uma potência revisionista devido ao seu histórico sentido
de liberalismo positivo13. Sendo a democracia um dos valores centrais da
política externa dos Estados Unidos, a sua expansão por diversos estados usando
vários meios sempre foi vista como legítima pelas elites nacionais. Apesar dos
constrangimentos sistémicos da Guerra Fria, Waltz leu no passado histórico,
nomeadamente na tradição wilsoniana e nos extensos programas de ajuda externa
desenvolvidos por Washington nos anos 1940 e 1950, um indício de
intervencionismo que se viria a confirmar nos anos 1990 e 2000.
Se no elemento anterior as instituições democráticas eram diferentes, as
tradições e experiências dos estados ' neste caso as potências democráticas '
são, para Waltz, incomensuráveis. Mas por não se poderem comparar não são por
isso menos importantes: o interesse nacional é determinado pela história de
cada Estado. E cada história é diferente de todas as outras.
Já no que respeita ao contexto ' o sistema internacional ' as posições da Grã -
Bretanha e dos Estados Unidos foram sempre muito diferentes, desde o século
xviii até aos anos 1960. Eram, por conseguinte praticamente impossíveis de
comparar. Apesar de Londres ter sido a potência hegemónica nos séculos xviii e
xix e de Washington deter uma posição de preeminência a partir da segunda
metade do século xx, Waltz argumenta que as condições sistémicas que cada
Estado enfrentou são também incomparáveis. Quando era uma hegemonia, o Reino
Unido debatia -se com um mundo multipolar. Era um primo inter pares. Já os
americanos eram líderes do mundo ocidental num contexto bipolar, enfrentando
uma potência rival marcadamente agressiva e ideologicamente hostil14. Mesmo que
quisessem, dificilmente poderiam adotar a mesma estratégia perante rivalidades
e distribuições de poder tão diferentes.
Por outra palavras, para duas democracias serem comparadas de uma forma
consistente e rigorosa, tinham de ocupar a mesma posição de poder no mesmo
sistema internacional ' ou, pelo menos, num sistema internacional de tipo
semelhante. No caso das duas maiores e mais consolidadas democracias do mundo '
na opinião de Waltz, e nos anos 1960 ' essa realidade não existe. Desta forma,
o sistema internacional é uma variável inconclusiva.
Quer isto dizer que é impossível comparar democracias? Waltz sugere que sim. Um
leitor mais liberal encontra um ou outro fator comum e distintivo dos regimes
liberais, nomeadamente a tradição das alianças em tempo de paz (iniciada pela
Grã -Bretanha e aprofundada pelos Estados Unidos) e a legitimidade do processo
de tomada de decisão que por necessitar de criar consensos pode ser mais sólido
e duradouro (apesar de a regra se aplicar mais conclusivamente à Grã -Bretanha
do que aos Estados Unidos).
O que Waltz conclui é que as instituições (i.e., o regime interno democrático),
ainda que sejam importantes na construção da política externa, não explicam, na
totalidade, o resultado final. São apenas um fator diluído numa segunda
variável muito mais determinante: a experiência e a tradição histórica. Os
estados respondem, acima de tudo, às suas experiências e inclinações
identitárias. Por outras palavras, o tipo de regime não é necessariamente
restritivo. Nem necessariamente fundamental. O que conta, essencialmente, é a
identidade histórica, da qual o tipo de regime faz parte, mas está longe de ser
a única característica. Diz Waltz, o construtivista.
Sendo o fator fundamental (identidade histórica) incomensurável, e as
instituições e sistema internacional demasiado diferentes para estabelecer
comparações, os elementos estudados neste livro são insuficientes para
construir teoria. Por esse motivo, nas conclusões do seu livro, Waltz procura
algum sentido de unidade. Encontra -o nos elementos que são comuns a todos os
estados; democracias e autocracias têm as mesmas preocupações: as suas
políticas externas dependem de interesses internos (os líderes autoritários não
podem alienar as elites que os sustentam e os democráticos procuram perpetuar o
seu poder através de eleições); as consequências das suas decisões têm custos e
benefícios; e autocracias e democracias enfrentam os mesmos dilemas políticos
(associados à sobrevivência dos regimes e do próprio Estado). Há mais
semelhanças entre todos os estados do sistema ' independentemente do tipo de
regime ' do que diferenças entre democracias e ditaduras. Para Waltz, esta é
uma boa notícia. Se as democracias são tão diferentes entre si e os fatores
determinantes incomparáveis ou incomensuráveis, e se simultaneamente apresentam
semelhanças com os estados não democráticos no que respeita às preocupações na
formulação da política externa, isso sugere que a desvantagem dos regimes
liberais identificada pelos seus contemporâneos não existe.
E, ainda mais importante, está aberto o caminho à sistematização do mínimo
denominador comum. Se o que determina a política externa dos estados são
elementos únicos, o que é comum a todas as unidades são as oportunidades e
constrangimentos do sistema (quando o sistema é o mesmo e as unidades têm um
peso semelhante na distribuição do poder) que geram os mesmos dilemas aos
estados que procuram assegurar a sua sobrevivência. E esta é a ideia central de
Theory of International Politics.
FECHANDO O CICLO
Escrito em 1967, Foreign Policy and Democratic Politics, levanta quatro
questões importantes. Em primeiro lugar, transporta -nos para uma mudança
profunda na visão generalizada das relações internacionais. Waltz mostra -nos
que, nesse tempo, a maioria dos autores estava preocupada com a fragilidade das
democracias, ainda consideradas exceções no sistema internacional. Mais de
quatro décadas depois, e apesar do pessimismo relacionado com a crise económica
de 2008, a ideia de que o liberalismo é o mais legítimo e eficaz sistema de
governação interna e internacional tornou -se um lugar-comum.
Contribuíram para esta mudança na visão das relações internacionais as quase
sete décadas de hegemonia americana, o sucesso económico dos países ocidentais,
a coesão da aliança das democracias durante e depois da Guerra Fria, a vitória
do Ocidente no conflito bipolar e a subsequente crença no triunfo do
liberalismo sobre ideologias rivais, entre outros fatores. A leitura de Waltz
lembra -nos que este fenómeno é recente e por isso não necessariamente
duradouro, especialmente agora, em que os Estados Unidos entraram em
retraimento estratégico, que há dados empíricos que indicam que a terceira vaga
de democratização pode estar em retrocesso15, e que se sentem fortemente os
efeitos negativos da «primavera árabe». Como demonstrou Waltz, a continuidade
da hegemonia do regime democrático ' e as suas inquestionadas vantagens
competitivas ' não podem ser vistas como dados adquiridos.
Esta ideia leva -nos ao segundo ponto, uma pergunta: as democracias mudaram
desde o final dos anos 1960 até agora (uma vez que mudou a forma como a teoria
das relações internacionais entende o tipo de regime)? Waltz não acredita em
determinismos históricos ou democráticos. Cada democracia (ou cada autocracia)
está essencialmente dependente da sua história, cultura e experiência, da qual
o tipo de regime é apenas uma pequena parte. Talvez seja esta a maior lição de
Foreign Policy and Democratic Politcs. Assim, de acordo com Waltz, as
democracias não são necessariamente aliados naturais como repetem os liberais;
os seus interesses coincidiram circunstancialmente e é a conjuntura
internacional que explica o sucesso das suas alianças. Consequentemente, se
novas potências democráticas ascenderem no futuro, será necessário observá -las
na sua história e experiência antes de concluir que terão relações pacíficas e
cooperantes com as democracias tradicionais.
Em terceiro lugar, apesar de científico no que respeita aos padrões da época,
Waltz demonstra uma velada preferência pela política da Grã -Bretanha
relativamente aos Estados Unidos. O autor elogia em diversas ocasiões as
virtudes da contenção na política externa britânica. Ainda que apenas
implicitamente, Waltz parece partilhar a preocupação de realistas mais
clássicos relativamente à tendência das grandes potências de se expandirem por
razões mais ou menos ideológicas. Este problema foi quase esquecido durante a
Guerra Fria, debatido exaustivamente nos anos 2000, devido à política externa
de George W. Bush, e é agora retomado, no contexto das questões da Líbia e da
Síria. Waltz vem fazer a defesa da visão realista, contrastando -a, com
exemplos bem documentados, com uma posição mais liberal.
É possível que este aspeto tenha contribuído para a formulação do realismo
defensivo (a aquisição de poder suficiente para manter os rivais afastados, mas
não demasiado para não levantar desconfiança), central em Theory of
Internacional Politics. É muito difícil determinar o que constitui o «poder
suficiente» ' um problema para uma teoria que pretende ser científica ' mas a
leitura de Foreign Policy and Democratic Politics clarifica que se trata de um
conceito político -estratégico, relacionado com o comportamento dos estados. A
contenção na política externa em geral, e nas intervenções militares em
particular ' o realismo defensivo ', é um dos mais importantes conceitos de
Kenneth Waltz, amadurecido no livro de 1967 e sistematizado no livro de 1979.
Assim, e este é o último ponto que decorre do anterior, os três livros centrais
de Kenneth Waltz devem ser vistos como um ciclo. Man, the State and Warcriou a
base teórica dos níveis de análise e desvalorizou o fator individual (primeiro
nível de análise) do estudo das relações internacionais. Foreign Policy and
Democratic Politics é sobre o segundo nível de análise ' o Estado. Waltz
conclui que os estados são simultaneamente todos diferentes e todos iguais.
Todos diferentes, porque a política externa está dependente da definição do
interesse nacional, que por sua vez deriva das tradições e experiências de cada
um. Esta dimensão da política externa é, portanto, incomensurável. Os estados
também são todos iguais porque as lideranças e elites têm sempre o mesmo
objetivo: a sua própria sobrevivência. Isso implica, pelo menos, duas coisas:
um prévio entendimento interno no que respeita aos valores e à ambição da
política externa ' de modo a não alienar os grupos de interesse e a população
(em democracia o risco é perder as eleições; em autocracia o risco é despoletar
uma revolta popular), e a sobrevivência do Estado, o que requer que se obedeça
às exigências da anarquia.
Theory of International Politics (a concretização do terceiro nível de análise)
é o resultado da supressão dos fatores incomensuráveis do estudo das relações
internacionais. Waltz excluiu o fator individual e as características do
Estado, e observou as relações sistémicas de Vestefália à Guerra Fria. Concluiu
que os estados que sobreviveram e prosperaram apresentaram uma estratégia
comum: resistiram a tentações hubrísticas ' são maximizadores de segurança e
não de poder; recorrem ao equilíbrio de poder como estratégia de contenção de
eventuais rivais; e reproduzem as boas práticas uns dos outros.
O legado de Kenneth Waltz é, portanto, muito mais rico e complexo do que Theory
of International Politicsou intervenções polémicas relativamente à
nuclearização do Irão, tema a que se dedicou nos últimos anos de vida. Concorde
-se ou não com as suas posições, o seu percurso académico é notavelmente
sustentado e consistente caso não se salte a leitura do seu livro mais
desconhecido.
Data de receção: 28 de junho de 2013 | Data de aprovação: 30 de agosto de 2013
NOTAS
1
Waltz, Kenneth ' «Structural Realism after the end of the Cold War». In
International Security. Vol. 25, N.º 1, 2000, pp. 5-41.
2
Os exemplos são inúmeros, mas podem referir-se os clássicos do liberalismo
internacionalista (Keohane, Robert ' After Hegemony. Princeton: Princeton
University Press, 1994) do construtivismo (Wendt, Alexander ' Social Theory of
International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999) ou a
coletânea de respostas críticas ao trabalho de Kenneth Waltz por diversos
autores liberais, marxistas e da teoria crítica (Keohane, Robert (ed.) ' Neo-
Realism and Its Critics. Nova York: Columbia University Press). Os realistas
neoclássicos também entram em diálogo com Waltz; ver, por exemplo, o capítulo
introdutório e conclusão de Lobell, Stephen E., Lipsman, Norrin M., e
Taliaferro, Jeffrey (ed.) ' Neoclassical Realism, the State and Foreign Policy.
Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
3
Waltz, Kenneth ' Foreign Policy and Democratic: The American and British
Experience. Boston: Little, Brown and Company, 1967, p. 309.
4
Ibidem, p. 11.
5
Ibidem, p. 21.
6
Ibidem, p. 141.
7
Ibidem, p. 64.
8
Ibidem, p. 143.
9
Ibidem, p. 67.
10
Ibidem, p. 143.
11
Ibidem, p. 141.
12
Ibidem, p. 72.
13
Ibidem, p. 308.
14
Ibidem, p. 5.
15
Kurlantzick, Joshua ' Democracy in Retreat: The Revolt of the Middle Class and
the Worldwide Decline of Representative Democracy. New Haven: Yale University
Press, 2013.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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Portugal
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