Waltz e a (não) proliferação - mais armas nucleares, mais paz?: O Irão nuclear
à luz do realismo estrutural
Desde que em 1981 publicou um famoso Adelphi Paper e até à sua morte, Kenneth
Waltz (1924-2013) mostrou sempre grande interesse pela questão da proliferação
nuclear, embora cético à forma como esta temática tem sido abordada. Dedicou-
lhe o seu último texto, publicado em julho de 2012 na revista Foreign
Affairs,em que defendeu que a potencial aquisição de armas nucleares pelo Irão
não merece o alarme que tem gerado. Pelo contrário, Waltz atreveu-se mesmo a
afirmar que poderia contribuir para a paz no Médio Oriente. De que forma tal
poderia acontecer, é o que veremos, mas o essencial da resposta está contida no
subtítulo do seu artigo de 2012, «Nuclear balancing would mean stability». Como
habitualmente, as suas controversas tomadas de posição originaram contestação
no número seguinte da revista a que ele respondeu da forma que habitualmente o
caracterizava ' parcimoniosa, diriam os seus admiradores, telegráfica e rígida
diriam os seus críticos2. É com base nesses textos, assim como em entrevistas
sobre o seu percurso que este nosso curto ensaio se irá basear3.
Esta é, portanto, uma temática cara a Waltz, reveladora de aspetos essenciais
do seu perfil intelectual e da sua contribuição para a disciplina das relações
internacionais. Waltz afirmou ter como objetivo principal do seu trabalho
estudar «o tipo de armamento disponível» a par da «estrutura do sistema» como
os dois fatores fundamentais de relevância constante na análise das relações
internacionais.Não espanta que se tenha interessado mais pelo armamento com
maior impacto na dinâmica do sistema internacional pela sua natureza, as mais
poderosas armas existentes, a ponto de ser comum utilizar-se as expressões
«armamento nuclear» ou «armamento estratégico» como sinónimas.
Iremos começar por esboçar o essencial do argumento de Waltz quanto à questão
genérica da proliferação. Depois apontaremos para o caso concreto do Irão que
inspirou o último texto significativo de Waltz para melhor perceber as
implicações da sua posição relativamente a esta questão. Concluiremos este
curto ensaio apontando quer alguns pontos fortes, quer alguns pontos fracos
quanto à abordagem estruturalista de Waltz à disciplina e também relativamente
às suas sugestões sobre a melhor forma de os estados responderem à questão da
proliferação.
A PROLIFERAÇÃO NUCLEAR COMO UM ERRO DE DESIGNAÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO NUCLEAR PARA
A PAZ
«A palavra proliferação é uma escolha muito infeliz [ ] e as armas
nucleares nunca proliferaram nem deram sinais disso. As armas
nucleares têm aumentado a um ritmo extremamente lento. Há armas
nucleares desde 1945 e atualmente existem nove países com armas
nucleares [ ] não se pode falar de proliferação. [O armamento nuclear
é a] maior força para a paz que o mundo alguma vez viu.»4
Há uma ligação íntima entre o nuclear e a emergência das relações
internacionais. O campo teve um primeiro núcleo especialmente dinâmico na
estratégia e nos estudos de segurança que receberam um impulso decisivo como
parte da tentativa de encontrar respostas rigorosas e aprofundadas para a
mortalidade e destruição numa escala nunca antes vista desde a primeira e a
segunda guerras mundiais. Waltz cresceu no período entre guerras e foi
recrutado pelo exército durante o segundo conflito mundial que viu morrerem
muitos jovens da sua geração.
A II Guerra Mundial culminou com o espetáculo terrível da destruição de duas
cidades inteiras com a utilização de um engenho explosivo desconhecido ' a
bomba atómica. O surgimento deste tipo de armamento até aí desconhecido, com um
potencial destruidor nunca antes visto, tornou urgente pensar a fundo as suas
implicações, que escapavam à estratégica convencional tradicionalmente dominada
por militares. Os civis que se envolveram nesse esforço de pensar o nuclear
fizeram a ponte entre os esforços de pensar racionalmente o quase impensável
pela criação de uma disciplina minimamente autónoma das relações
internacionais.
A tese de doutoramento de Waltz publicada em 1959 com o título Man, State and
War fez parte desse esforço, argumentando que era a própria natureza do sistema
internacional que tornava a guerra um fenómeno recorrente5. Waltz não se
dedicou, então, especificamente à questão do nuclear, muito trabalhada por
muitos outros; mas sim de forma significativamente ambiciosa à questão genérica
das origens da guerra. Mas já nesta obra se destaca um traço fundamental na sua
abordagem à questão da segurança internacional em geral e que se tornará
central também na sua abordagem à proliferação nuclear: a desvalorização das
especificidades da liderança e do regime de um qualquer país concreto, em favor
da importância primordial dos fatores sistémicos, nomeadamente da questão do
equilíbrio de poder.
Waltz não contesta, note-se, a grande atenção que a estratégia tem dedicado à
questão do armamento nuclear. Não questiona a importância do armamento nuclear
nas dinâmicas do sistema internacional, pelo contrário até a sublinha. O que
Waltz contesta é que faça sentido falar da proliferação nuclear como um
problema nesse contexto de uma abordagem fria, racional, realista ao nuclear. E
a verdade é que também se mostra cético relativamente à grande complexidade que
muitas das abordagens à estratégia nuclear foram assumindo, como iremos ver
adiante.
Deste ponto de vista da atenção primordial às tendências sistémicas o que lhe
importa é um facto inédito e de extrema importância. Waltz nota que desde 1945
nunca mais se viu uma Grande Guerra entre grandes potências apesar das
transformações políticas e das transferências de poder muito significativas que
se verificaram nesse período ' desde a descolonização até ao fim da Guerra Fria
e do sistema bipolar. Este facto fundamental e inesperado só pode ser
explicado, segundo Waltz, pelo facto de as grandes potências terem arsenais
nucleares, e assim passaram a ter de uma forma absolutamente a certeza de que
um confronto direto e em grande escala entre elas seria suicídio mútuo ' uma
segurança preciosa no quadro de incerteza generalizada típica da estrutura
anárquica da política internacional e impossível anteriormente.
O ponto principal de Waltz é que objetiva e historicamente não é correto usar-
se a expressão proliferação nuclear. Waltz sempre insistiu na precisão das
palavras e na importância de uma linguagem cuidada em termos de qualidades
académicas fundamentais. Nas entrevistas que concedeu sobre o balanço da sua
vida académica isso ficou bem claro. Quando perguntado sobre as personalidades
que tiveram uma influência fundamental sobre a sua formação intelectual, Waltz
apontou para um excelente professor de inglês do ensino secundário. Confessou
mesmo que chegou a contemplar dedicar-se à literatura antes de optar pela
teoria política. Para Waltz, portanto, uma escolha errada de palavras não é um
problema estilístico de somenos. É algo de essencial, um início
fundamentalmente errado que impede uma boa análise do problema.
Nos seus textos, portanto, em alternativa à «proliferação», expressão errada do
seu ponto de vista, usará sempre o termo «disseminação» (spread) das armas
nucleares. Pois para ele o que há de excecional na tecnologia militar nuclear
não é que ela se tenha difundido numa dinâmica de contágio exponencial e
rápido, difícil de controlar; mas o contrário, que se tenha espalhado muito
lentamente. Como Waltz sublinha, desde 1945 que o número de potências nucleares
tem aumentado, mas muito lentamente ' entre 192 estados apenas nove possuem
arsenais nucleares. E porquê? Segundo Waltz tal acontece essencialmente porque
as potências nucleares são muito ciosas e controladoras do enorme poderio que
lhes é dado pela posse de armamento nuclear, e portanto guardam ciosamente esse
exclusivo. Exatamente o contrário daquilo que afirmam os que argumentam com o
grande risco de proliferação.
Do ponto de vista de Waltz este egoísmo estatal quanto ao armamento nuclear faz
todo o sentido. Os estados são acima de tudo ciosos da preservação e manutenção
do seu poder, sobretudo no campo militar. Não é por acaso que o monopólio do
uso legítimo da força foi mesmo ' desde, pelo menos, Max Weber ' visto como um
elemento fundamental definidor do Estado. Um poder tão grande como o nuclear
justificaria mais do que nunca que o Estado cuidasse de garantir esse
monopólio. É fundamentalmente por esta razão que Waltz é também muito cético
quanto ao risco de um qualquer Estado promover o terrorismo nuclear.
Se o sistema internacional deveria ser, como Waltz afirma, o elemento
determinante do seu comportamento no quadro de um sistema em que reina a regra
de cada um por si, típico de um jogo de soma-zero, em que ou se vence ou se
perece, o armamento nuclear surge como um fator fundamental de segurança
adicional, um elemento de redução da incerteza do dilema de segurança, e
portanto um fator pacificador.
Mais ainda, fica evidente para Waltz que o armamento nuclear pelas suas
características específicas se presta especialmente «apenas a uma função
dissuasora». De um ponto de vista racional não faz sentido, para Waltz, pensar
nelas para uma função ofensiva. Ou seja, a tradição do seu não uso do ponto de
vista de Waltz reflete uma opção racional. Esta opção é aliás relativamente
simples de tomar: «não são necessários cálculos complicados, apenas um pouco de
bom sendo».
Waltz responde aos seus críticos ' nomeadamente Scott Sagan que insiste na
necessidade de uma gestão cuidadosa e complexa de um sistema nuclear militar:
«quem, exceto um idiota, poderia deixar de perceber a sua força destrutiva? O
que mais seria preciso perceber? Como é que uma liderança poderá errar um
cálculo desta natureza?»6 Na sua crítica à ideia de proliferação, Waltz é
portanto também claramente crítico de uma abordagem excessivamente complexa,
assente em modelos muito elaborados e desnecessariamente complicados de teoria
dos jogos ou system analysis à questão do nuclear.
Mais ainda, também parece a Waltz que se exagera muito a dificuldade de
conseguir obter uma capacidade second strike ' cuja ausência poderia tentar um
uso ofensivo de armamento nuclear, na lógica de use it or loose it. Ou seja,
não seriam necessários milhares de mísseis, bastaria haver alguma incerteza
quanto à possibilidade de destruir todos os mísseis do adversário, e que seria
relativamente fácil mesmo que o seu número seja baixo, basicamente do ponto de
vista de Waltz o risco existirá sempre e será demasiado sério para qualquer
Estado racional arriscar um confronto. Mas será que se pode confiar cegamente
na racionalidade dos estados?
MESMO NO CASO DO IRÃO, MAIS ARMAS NUCLEARES PODERÃO SER MELHORES PARA A PAZ
«Não conseguimos apreender o simples facto de que todas as potências
nucleares se comportam tal como as anteriores. As armas nucleares
tornam os países mais modestos, mais moderados, mais cautelosos. Não
vejo motivos para acreditar que o Irão com armamento nuclear seja
diferente.»7
O caso do Irão ofereceu a Waltz uma última oportunidade de mostrar que não
temia levar as conclusões de uma análise friamente realista da lógica e das
tendências de longo prazo do sistema internacional mesmo aos casos mais
controversos.
Waltz considera que a ideia de que a difusão lenta do armamento nuclear que se
tem verificado ainda seria um grande risco para a paz, e a ordem internacional
é irracional. Ela corresponde, segundo Waltz, a um preconceito dos poderes
instalados contra os novos estados nucleares, que passa pela ideia de que estes
estariam mais predispostos a arriscar utilizar o armamento nuclear de forma
temerária. Para Waltz é claro que, pelo contrário, o armamento nuclear terá,
pela sua natureza, um efeito estabilizador e pacificador.
Waltz discorda totalmente dos que consideram que pelo facto de este Estado ser
uma teocracia, automaticamente se comportará de forma fundamentalmente distinta
da racionalidade normal dos outros estados. Como afirmara no seu texto
clássicos sobre a questão da dita proliferação «qualquer que seja a identidade
dos governantes, quaisquer que sejam as características dos estados, o
comportamento nacional dos estados destes é fortemente condicionadoa pelo mundo
exterior». Ora, continua Waltz, «de todas as forcesforças externas possíveis,
qual poderá afectar mais fortemente o comportamento do Estado senão as armas
nucleares?»8
Mais, Waltz nega terminantemente que o Irão seja governado por «mad mullahs»,
por clérigos tresloucados, cegos pelo fanatismo religioso. Afirma que o
importante não é a «Teo» mas sim a «Cracia». Ou seja, o que importa não é que
se trate de «religiosos», mas sim que se tenham tornado «detentores do poder»,
líderes estatais. Ora, como quaisquer outros líderes estatais, eles só chegaram
onde estão, ao poder cimeiro, porque se têm revelado exímios praticantes da
difícil arte da sobrevivência no meio hostil da política. Waltz vai mesmo ao
ponto de afirmar que no que toca a aprender a disciplina do realismo político,
os regimes autoritários são frequentemente uma escola bem mais dura e exigente
do que as democracias liberais. Waltz conclui que não há nenhuma razão racional
para acreditar que os líderes da República Islâmica do Irão sejam mais loucos
do que os líderes da República Popular da China, que se tornou uma potência
nuclear em 1964, seguindo-se uma década de radicalização e extremismo político
interno sem que alguma vez a China de Mao pareça ter encarado as armas
nucleares como outra coisa que não um seguro de vida contra ameaças externas.
Para Waltz faz sentido, numa lógica sistémica, que o Irão procure ser um
potência nuclear, desde logo para contrabalançar o poderio nuclear até aqui
exclusivo de Israel no Médio Oriente. A existência de Israel como única
potência nuclear no Médio Oriente torna ao mesmo tempo altamente provável que
surja outra a contrabalançá-la, e garantirá que se o Irão se tornar uma
potência nuclear ela será dissuadida de usar o seu armamento nuclear de outra
coisa que não seja numa estratégia de defesa por dissuasão da sua integridade
territorial.
Waltz está disposto a aceitar um dos contra-argumentos dos críticos de um Irão
como potência militar nuclear, mas não outro. Waltz aceita que o Irão com armas
nucleares poderá sentir-se mais livre para patrocinar guerras não convencionais
e indiretas (proxy) e para patrocinar grupos terroristas. Mas, importa
sublinhar isso, não porque Waltz considere que tal seja um traço específico do
Irão, mas sim porque vê nisso uma tendência comum a todas as potências
nucleares, desde a urss aos próprios Estados Unidos durante a Guerra Fria,
passando mais recentemente pelo Paquistão. Mas fiel à sua linha fortemente
estatocêntrica, Waltz desvaloriza estas ameaças assimétricas do terrorismo ao
comparar as baixas limitadas que provocam ao das grandes guerras, como a II
Guerra Mundial que o próprio Waltz testemunhou.
Uma crítica que Waltz não aceita é a de que um Irão com armas nucleares levará
a uma corrida ao armamento nuclear no Médio Oriente com outras potências a
pretenderem fazer o mesmo. Segundo ele, como vimos a própria expressão
proliferação é enganadora e errónea. E o Médio Oriente seria um bom exemplo
disso. Afinal, se um Israel nuclear não levou a uma corrida ao armamento
nuclear no Médio Oriente, porque é que um Irão nuclear levaria a isso?
Waltz considera, em suma, que há que desvalorizar a política interna face à
dimensão internacional sistémica. Portanto, no caso do Irão, não atribui grande
importância à retórica antissemita e antiamericana da sua ideologia oficial,
antes sublinha que é perfeitamente racional que o Irão queira contrabalançar o
poder nuclear de Israel, e que não há que temer um martírio nuclear pela
liderança iraniana. Até que ponto será realmente assim? De que forma devemos
olhar para toda esta argumentação de Waltz relativamente à proliferação
nuclear?
UM RACIONALISTA ESTATOCÊNTRICO CRÍTICO DA POLÍTICA EXTERNA NORTE-AMERICANA
«O tipo de armamento disponível e a estrutura do sistema são dois
fatores com uma importância constante [nas relações
internacionais].»9
Kenneth Waltz teve um papel fundamental na transformação das relações
internacionais de um campo de estudo vago para uma disciplina académica
autónoma com ampla produção teórica específica. Waltz foi sem dúvida um
monista, não um pluralista na sua abordagem à disciplina das relações
internacionais. Na famosa tipologia de Isaiah Berlin, então Waltz seria
claramente um hedge-hog,alguém que sabe apenas uma coisa, mas algo de
fundamental. A analogia provavelmente agradaria a Waltz. Pois, o porco-espinho
é um animal fundamentalmente caracterizado por estar bem armado para dissuadir
ou contrariar qualquer ameaça à sua sobrevivência.
Waltz foi acusado de ser criador de uma ortodoxia rígida e favorável aos
poderes dominantes. Do ponto de vista de Waltz é certo que só era possível
construir uma disciplina específica das relações internacionais, em alternativa
a vagas e idiossincráticas análises da política internacional, com base numa
teoria assente no nível sistémico da política internacional. Essa teoria teria
de basear-se no dado estrutural caracterizador do sistema político
internacional ' a anarquia, no sentido da ausência de uma autoridade superior
que monopolizasse a violência a nível global, cabendo a cada Estado, num jogo
de soma-zero, garantir a sua própria segurança se quisesse sobreviver. Para
Waltz isso significava que era a distribuição de poder em geral, e em
particular do armamento mais importante, que era determinante do comportamento
racional ótimo dos estados. Este podia nem sempre conformar-se a essa
determinante estrutural, mas se o não fizessem pagariam um preço, eventualmente
fatal.
Hoje olha-se para Waltz e para as suas ideias como uma ortodoxia instalada e
são criticadas por estarem organicamente ligadas aos interesses dos estados em
geral e da potência hegemónica dos Estados Unidos em particular. A chamada
teoria crítica das relações internacionais afirmou-se precisamente em oposição
à noção de que o realismo estrutural correspondia a uma corrente intelectual
estruturalmente (ou organicamente) ligada ao Estado.
Não podemos, de facto, aprofundar aqui este debate. Mas importa sublinhar que
no início, em 1979, quando Waltz avançou com a sua ousadamente designada obra
Teoria das Relações Internacionais,ela chocava com a opinião então dominante.
Waltz contrariava ideias defendidas por autores tão influentes quanto o próprio
Hans Morgenthau, Raymond Aron ou Stanley Hoffmann, que afirmavam que o campo da
política internacional era demasiado complexo para poder ser objeto de uma
teoria e de uma disciplina apenas. Nessa altura, no início dos anos 1980, o
mainstream das relações internacionais era provavelmente realista, mas
certamente não no sentido de Waltz. As suas ideias foram, inicialmente
sobretudo, fortemente contestadas. No entanto, acabaram por se revelar
fundamentais para legitimar a consolidação da autonomia da disciplina das
relações internacionais, do reforço da sua identidade própria. Esse facto em
termos da realidade da vida académica foi provavelmente, a par do mérito
próprio, importante na popularização das teses de Waltz. Nesse sentido, Waltz
tornou-se mainstream.
Dificilmente, porém, se poderá condenar Waltz pelo seu sucesso na via que ele
considerava a mais correta para a disciplina, e que contribuiu para o sucesso
da mesma ao nível da sua autonomização e identidade. Aliás, não parece ter
impedido a emergência de várias fortes correntes alternativas críticas do
realismo estrutural como o construtivismo, relativamente ao qual Waltz se
mostrava muito crítico, mas que inegavelmente tem contribuído para a contínua
expansão e vitalidade do campo das relações internacionais.
Não nos parece justificada, porém, a ideia de Waltz como um intelectual
orgânico. Waltz era um defensor do Estado em abstrato e nesse sentido da ordem
política estabelecida, certamente não era um revolucionário. Waltz valorizava o
papel do Estado na segurança internacional ' à falta de melhores alternativas
que lhe parecessem minimamente realistas. Mas nunca foi um académico ao serviço
da justificação da política externa e de defesa dos Estados Unidos. A sua
abordagem sem dúvida foi sempre centrada no Estado. Mas a rigidez ou coerência
da sua adesão ao realismo estrutural levou Waltz e muitos dos seus seguidores a
serem fortemente críticos da política externa dos Estados Unidos em muitos
casos, do Vietname ao Iraque.
Um exemplo muito relevante desta postura crítica de Waltz relativamente à
política externa e de segurança dos Estados Unidos é precisamente a sua posição
face ao que considera a falsa ideia de proliferação nuclear. Vê portanto como
má política o combate a esse mal imaginário, apesar de ela ter sido,
publicamente, uma das principais prioridades da política de segurança externa
norte-americana ' seja de democratas ou republicanos ' nas últimas décadas.
Waltz afirmou-o de forma coerente, mas corajosamente dado o contexto da
política interna norte-americana, particularmente ao referir-se expressamente
ao caso do Irão, cuja nuclearização tem sido recusada como uma grande ameaça
para a paz por um amplo consenso político nos Estados Unidos e não só. Ora,
segundo Waltz, à luz da lógica básica do sistema internacional, a existência de
uma grande potência nuclear cria uma tendência para a contrabalançar, o que
significa que Israel não poderia, segundo Waltz, continuar indefinidamente a
ser a única potência nuclear na região do Médio Oriente. O Irão ter-se-ia
limitado a preencher esse papel. Defender esta tese não é propriamente
mainstream,certamente não nos Estados Unidos. Ele motivou mesmo uma eloquente
expressão de desagrado do atual primeiro-ministro de Israel, que um mês depois
da publicação do texto de Waltz referiu que «alguns chegaram mesmo ao ponto de
dizer que o Irão com armas nucleares irá estabilizar o Médio Oriente. Penso que
as pessoas que dizem isso estabeleceram um novo padrão para a estupidez
humana»10. Uma expressão que devemos ler mais como um sinal de extremo
desagrado político do que como uma análise cuidada e imparcial das teses de
Waltz.
A abordagem de Waltz tem a vantagem evidente da clareza, da coerência e da
simplicidade. Obriga-nos a confrontar preconceitos comuns contra as armas
nucleares e os seus terríveis efeitos ao afirmar que, de forma contraintuitiva
talvez, precisamente por causa dos seus temíveis danos poderão acabar por ser
um elemento pacificador das dinâmicas de conflito internacional ' desde que
usadas sempre de forma estrategicamente racional, e o incentivo para o fazer
neste caso é tão massivo quanto o potencial destrutivo do armamento nuclear. O
que não significa que não se lhe possa apontar críticas, desde logo por este
acentuado racionalismo.
Não estará Waltz, porém, a cair numa visão otimista da proliferação nuclear por
via de um excessivo racionalismo que não tem em conta não haver garantias de
uma reação puramente racional da parte dos estados, menos ainda do risco de
colapso dos mesmos que poderia levá-las a considerar opções que iriam para além
da dissuasão de uma ameaça externa à segurança do Estado. É possível que quer a
Coreia do Norte, quer o Paquistão sejam já exemplos das tentações de uma
lucrativa indústria de exportação do nuclear e no caso de estados mais fracos e
não grandes potências desenvolvam um arsenal nuclear. Waltz também não teve
minimamente em conta o Irão como desafio ao regime legal do Tratado de Não-
Proliferação, e o facto de estas normas e as sanções a ela associadas poderem
ser um fator importante de incentivo ou desincentivo a outros estados na
caminhada para o nuclear. Se cada vez mais estados o violarem com sucesso,
outros estados, potências emergentes à procura de confirmar o seu estado, ou
estados párias à procura da segurança última, poderão ser tentados a seguir o
mesmo caminho. Ora, num sinal de alguma tensão nos seus argumentos, Waltz ao
mesmo tempo afirma que é praticamente impossível impedir um Estado determinado
a adquirir um arsenal nuclear e que seria negativo que houvesse uma abundância
de estados com armas nucleares, mas que não há risco de que tal aconteça.
Também parece evidente que Waltz não conseguiu resistir à tentação contra a
qual ele próprio preveniu de usar a teoria estrutural não apenas para fazer
análise de padrões gerais e sobre o que seria esperar se os estados fossem
atores racionais, mas também ele desceu ao nível das análises e recomendações
de políticas concretas. Caberia a uma teoria estrutural das relações entre
estados prever grandes tendências e oferecer grandes modelos explicativos, mas
não necessariamente explicar casos concretos específicos. Precisamente porque,
como Waltz refere, a teoria ajuda a estabelecer o que seria mais racional que
os estados fizessem em função da sua posição no quadro da distribuição de poder
' nomeadamente militar ' no sistema internacional, mas evidentemente não obriga
em absoluto que o façam efetivamente. Simplesmente, se os estados fizerem
opções erradas do ponto de vista desta lógica sistémica pagarão um preço. A
questão é que relativamente ao problema da proliferação nuclear o preço
arrisca-se a ser mais terrível do que nunca.
Concretizando, Waltz poderia afirmar que numa lógica sistémica faz sentido que
o Irão queira armar-se para contrabalançar Israel, mas não faria sentido que
usasse esse armamento de forma suicida. Mas tal seria apenas uma tendência e a
realidade concreta poder ser bem mais complexa e irracional do que isso. Claro
que uma possível resposta de Waltz seria dizer que ele apenas faz uma análise
de tendências mais racionais e prováveis ' e é assim que deve ser lida a sua
análise ' não como uma previsão segura do que realmente irá acontecer. Sinais
disso são o facto de que ele afirma que «certezas ninguém pode ter quanto a
esta ou outras questões, e portanto a sua conclusão é formulada em termos
probabilísticos e não absolutos «mais armas nucleares poderáser melhor» para a
paz, no sentido de ausência de grandes guerras entre grandes potências.
Ainda assim, pode-se criticar Waltz por desvalorizar a política interna dos
estados e das organizações. Scott Sagan, o seu principal crítico e coautor do
famoso livro conjunto de debate desta temática, critica Waltz precisamente por
esta razão. Sagan usa os argumentos da corrente da chamada política burocrática
e procura «trazer as organizações de volta para a teoria das ri», algo que o
construtivismo também tem procurado fazer em tempos mais recentes. Sagan e esta
corrente defendem a ideia de que a ação dos estados está longe de ser
determinada apenas pela racionalidade estratégica. Ela pode ser distorcida de
forma deliberada ou acidental por funções ou disfunções burocráticas, por
interesses ou perceções institucionais. Os argumentos de Sagan claramente
merecem ponderação, de acordo com o próprio Waltz que não desdenhou debatê-los
extensamente e publicá-los conjuntamente com os seus. Mas, no essencial, Waltz
considera que eles refletem perturbações secundárias e incertezas inevitáveis,
mas que não são a base correta de uma análise sistémica e racional dos grandes
padrões do problema.
NOTA FINAL
Waltz, em conclusão, avança com uma série de previsões que será interessante
acompanhar no futuro para avaliar da pertinência dos seus argumentos e da sua
teoria estrutural, ainda que o risco de que se tenha enganado possa acarretar
consequências pesadas. Será que realmente o Irão, como outros estados
determinados a ter armas nucleares como a sua defesa última, acabará por
ultrapassar todas as barreiras e tornar-se uma potência nuclear? Será que a
política de contraproliferação em que os Estados Unidos tanto têm investido é,
portanto, uma política sem sentido, condenada ao fracasso perante um Estado
determinado a tornar-se uma potência nuclear? Será que outros estados, a
começar pelos Estados Unidos e mesmo Israel, acabarão por agir com a avaliação
de Waltz do que uma lógica fria de equilíbrio de poder ditaria, evitando um
conflito contra um Estado militarmente relativamente forte como o Irão (por
contraste com o Iraque ou a Síria ou a Líbia), e limitar-se-ão a contrabalançar
e dissuadir pacificamente uma nova potência nuclear?11 Teremos de esperar para
ver.
Mas do que não restam dúvidas é que Waltz na sua abordagem à temática da
difusão do armamento nuclear entre estados ' terminologia que ele preferia ao
falso alarmismo da dita proliferação ' não temeu oferecer um teste claro das
virtualidades e das possíveis falhas do realismo estrutural numa questão
altamente controversa. Dificilmente se poderá negar a Waltz coragem intelectual
na forma como pegou nesta temática explosiva da proliferação nuclear. E a
virtualidade de animar o debate sobre estes temas, algo que certamente os seus
textos continuarão a fazer. A teoria de Waltz relativamente à proliferação
nuclear funciona bem como teoria racionalista. A grande questão será saber se
funciona bem como política racional.
Data de receção: 28 de junho de 2013 | Data de aprovação: 8 de agosto de 2013
NOTAS
1
A pesquisa para este artigo foi apoiada por fundos da Fundação para a Ciência
e a Tecnologia.
2
Waltz, Kenneth N. ' «Why Iran should get the bomb». In Foreign Affairs. Vol.
91, N.º 4, 2012, pp. 2-6; Kahl, Colin, e Waltz, Kenneth N. '
«Iran and the bomb». In Foreign Affairs. Vol. 91, N.º 5, 2012, pp. 157-162.
3
Waltz, Kenneth N. ' «Teoria estrutural da política internacional. Entrevista
com Bruno Cardoso Reis». In Relações Internacionais. N.º 29, 2011, pp. 129-141; Waltz, Kenneth N. ' «Theory and international politics.
Entrevista com Harry Kreisler». In Conversation with History,10 de fevereiro de
2003. [Consultado em: 14 de novembro de 2010]. Disponível em:
4
Waltz, Kenneth N. ' «Teoria estrutural da política internacional. Entrevista
com Bruno Cardoso Reis», p. 135.
5
Waltz, Kenneth N. ' Man, State and War: A Theoretical Analysis. Nova York:
Columbia UP, 1959.
6
Waltz, Kenneth N. ' «More may be better». In Sagan, Scott e Waltz, Kenneth N.
' The Spread of Nuclear Weapons: a Debate., Nova York: WW Norton, 1995, pp. 98
e 113.
7
Waltz, Kenneth N. ' «More may be better», p. 98.
8
Waltz, Kenneth N. ' «Teoria estrutural da política internacional. Entrevista
com Bruno Cardoso Reis», p. 134.
9
Waltz, Kenneth N. ' «More may be better», pp. 98-113.
10
Cit. in Martin, Douglas ' «Kenneth Waltz, foreign-relations expert, dies at
88». In The New York Times,18 de maio de 2013. Disponível em: http://
www.nytimes.com/2013/05/19/us/kenneth-n-waltz-who-helped-shape-international-
relations-as-a-discipline-dies-at88.html?pagewanted=all&_r=0.
11
É interessante notar que sempre que Israel realmente atacou preventivamente
instalações nucleares noutros estados fê-lo de surpresa e sem qualquer anúncio
prévio (Iraque, Síria). No caso do Irão teremos, relativamente a Israel, um
caso de «cão que ladra mas não morde»? Ou seja, estas ameaças públicas de
Israel seriam uma tentativa de dissuadir o Irão, mas também um sinal de que um
ataque militar em grande escala estaria fora dos planos.
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