Portugal e a Guerra do Iraque
Dez anos após a intervenção militar no Iraque, importa olhar para o que de
relevante marcou o debate político português, para as variáveis mais
significativas em redor da tomada de decisão do Governo e para o quadro
transatlântico que balizou o espírito e a forma da discussão política em redor
da intervenção. Este ensaio procura, assim, responder a duas questões: porque
tomou Portugal a decisão de apoiar a guerra e que razões estiveram na origem da
realização da Cimeira das Lajes1.
UMA DECISÃO UNILATERAL
A decisão de usar a força para mudar o regime iraquiano esteve concentrada em
Washington. Depois de Bagdade ter cessado a cooperação com os inspetores da
Organização das Nações Unidas (ONU) em agosto de 1998 e de o Presidente Clinton
ter promulgado uma lei de assistência financeira à oposição iraquiana, o
Congresso norte-americano aprovou a 31 de outubro o«Iraq Liberation Act»,
através do qual definiu como estratégia prioritária dos EstadosUnidos para o
Iraque adeposição do regime de Saddam Hussein e a sua substituição porum
governo democrático. Este enquadramento legal interno tratou de acomodar
decisões futuras da Casa Branca que não obtivessem, em sede do Conselho de
Segurança das Nações Unidas, cobertura às suas intenções. É verdade que esta
lei não autorizava o uso da força de per se como instrumento de mudança de
regime, mas estabelecia um pacote de medidas civis de ajuda à oposiçãoiraquiana
e também um plano de assistência militar, se assim fosse solicitado, até 97
milhões de dólares2 . A política da mudança de regime nunca foi oficialmente
revogada a partir de então e, em rigor, estava ainda em vigor no início da
intervenção contraSaddam, em março de 2003.
No rescaldo do 11 de setembro, mais precisamente a 27 de Novembro de 2001, o
secretário da DefesaDonald Rumsfeld pede ao general Tommy Franks aquilo que
este descreve como os «fundamentos filosóficos do que eventualmente poderia vir
a ser um plano»3, mas não um novo plano para o Iraque. Franks teve a ajuda dos
generais Gregory Newsold e Victor Renuart que demoraram três semanas para
completar o dossiê. A 4 de Dezembro de 2001, os «fundamentos filosóficos» do
general Franks foram apresentados a Rumsfeld e ao generalDick Myers, o chairman
do Joint Chiefs of Staff. Franks foi direto ao assunto: «Se iniciarmos uma
operação militar no Iraque, eu assumo que o principal objetivo será remover o
regime de Saddam Hussein.» Rumsfeld reagiu de imediato: «Essa é também a minha
posição. O Presidente será quem no fim tomará essa decisão.»4 Esta data é
importante no processo de decisão norte-americana, uma vez que um general com o
peso de Franks tomou uma invulgar posição política em relação a um outro
governo, sugerindo o seu derrube.
O Iraque era, no entanto, um assunto pendente na cabeça de muitos membros da
Administração desde meados dos anos 1990. Vale a pena recordar as cartas
abertas ao Presidente Clinton de Paul Wolfowitz, William Kristol e Robert
Kagan, para tomar medidas mais punitivas contra o Iraque, derrubando até o seu
regime5. Por outras palavras, o 11 de setembro marca um período que facilita a
emergência do Iraque como um assunto prioritário para a Administração, mas ao
longo dos nove meses anteriores ele apareceu nos diálogos privados e na prática
de muitos protagonistas. Ainda antes de tomar posse, logo no início de janeiro,
os principais membros da nova Administração briefavam já o novo presidente
sobre os principais assuntos da segurança nacional. Cheney, Powell, Rumsfeld,
Rice e o antigosecretário da defesa de Bill Clinton, William Cohen, ajudados
pelos líderes militares do Joint Chiefs of Staff, punham pela primeira vez o
Presidente George W. Bush ao corrente de um problema mais ou menos surdo: os
ataques recorrentes à aviação americana levados a cabo pelas tropas de Saddam,
em pleno regime de zona de exclusão aérea e aprovado pelo Conselho de
Seguranças da onu. Entre maio e julho, a mais importante movimentação foi dada
pela equipa do vice-conselheiro de segurança nacional, Stephen Hadley. O número
dois de CondoleezzaRiceestava incumbido de trabalhar a estratégia sobre o
Iraque e a 1 de agosto apresentou um memorando secreto denominado «Estratégia
de Libertação», propondo uma ação faseada que passava por pressão diplomática,
reforço de sanções económicas, apoios à oposição e inspeções da onu. Mas não
mencionava mudança de regime ou o uso da força para atingir esse objetivo. A 10
de agosto, novos bombardeamentos anglo-americanos foram feitos no Iraque. O
Washington Post definia-os como «a continuação do padrão da era Clinton, com
bombardeamentos à defesa antiaérea iraquiana a cada seis meses»6. Até 11 de
setembro, Bush não tinha revisto a estratégia para o Iraque, nem tomado o tema
como prioritário para a política externa da sua administração. Fá-lo no
discurso do «Estado da União», em janeiro de 2002. Foi nesse momento que ficou
definida a «doutrina Bush», que não diferenciava atos terroristas individuais
de estados seus patrocinadores, acenando com a ameaça da proliferação
descontrolada de armas e tecnologia nuclear, num «eixo do mal» perfeitamente
identificado no Irão, no Iraque e na Coreia do Norte. Esta abertura e posterior
evolução do tema em Washington e Londres forçaram os restantes aliados a
pronunciar-se sobre a questão. Peter Stothard revela que Blair e Bush
discutiram entre eles a doutrina da guerra preventiva em junho de 20027. Mas
serianum memorando secreto de preparação de uma reunião em Downing Street '
escrito pelo conselheiro para os assuntos externos de Tony Blair, Matthew
Rycroft, em 23 de julho de 2002 ' que foi transmitida aos restantes membros do
gabinete do primeiro-ministro a perceção clara de uma decidida inclinação para
a intervenção militar, por parte de membros da Administração Bush, após
conversas de ministros britânicos com homólogos americanos. Neste memorando,
era mesmo referida uma ideia defendida pelo ministro da Defesa britânico, Geoff
Hoon, que apontava o início das operações militares para janeiro de 20038.
O ATLANTISMO DE AZNAR
O primeiro mandato governamental do Partido Popular pautou-se por um «claro
euroatlantismo»9. A partir de 1998, o presidente do Conselho José Maria Aznar
aponta como prioridades do seu governo as áreas da defesa, da educação e da
saúde pública. Embora a primeira área não seja a mais popular, enquadrava-se
perfeitamente no projeto de profissionalização das Forças Armadas de que a
Espanha necessitava, e que estava previsto até ao final de 2003. Neste sentido,
a aproximação aos Estados Unidos e à NATO beneficiava este processo de
modernização. Tendo-se tornado na oitava economia do mundo e no segundo maior
investidor na América Latina, a Espanha deve bastante à sua entrada na União
Europeia (UE). O cumprimento dos critérios de convergência com a futura moeda
única, a par da liberalização implementada pelos governos de Aznar, dotou-a de
índices de crescimento económicos que nunca havia conhecido. Lembremos, por
exemplo, a redução do desemprego de 23 por cento para 15 por cento e o aumento
do pib per capita, que entre 1990-1995 se situava em 1,2 por cento para valores
na ordem dos 3,6 por cento entre 1995 e 2000, tendo em 2001 atingido os quatro
por cento.
Esta tomada de posição arrojada foi sempre apoiada pela aliança com os Estados
Unidos. Por outras palavras, sabendo de antemão que o aliado mais poderoso no
sistema internacional era um parceiro de boas relações, poder-se-iam dar passos
mais ambiciosos sem os tradicionais complexos de inferioridade nos palcos da
União10. Por outro lado, a importância crescente no espaço europeu e na América
Latina permitiu que Aznar aspirasse a colocar a Espanha no grupo do G8, os
países mais ricos do mundo, onde pensava que a Espanha já deveria estar por
direito próprio. Naturalmente que o reforço das relações bilaterais com os
Estados Unidos dava alguma solidez a esta posição. «Estamos a tratar disso»,
foram as palavras do presidente do Governo à revista The Economist em 2000.
PORTUGAL E A INEVITABILIDADE DA GUERRA
Na tomada de posse do Governo, a 6 de abril de 2002, o primeiro-ministro José
Manuel Durão Barroso propôs que Portugal «reassumisse o papel que nos cabe na
Europa e no mundo», num desígnio estratégico que exigia «evitar que Portugal
caminhe para a irrelevância política». Duas semanas depois, na apresentação do
programa de governo na Assembleia da República, o recém-eleito primeiro-
ministro queria um país «com voz ativa, respeitável e credível na comunidade
internacional, que permita uma estratégia de valorização da nossa posição
dentro da União Europeia». Mas estas eram as únicas palavras sobre um
pensamento estratégico dignas de relevo: toda a atenção do Governo estava
focada nas «reformas estruturais», «consolidação orçamental» ou em «libertar a
economia da dependência do Estado»11. A prioridade era a economia, não a
política externa.
Teríamos de chegar à primeira semana de junho para encontrar mais pistas sobre
defesa e política externa. Foi no encerramento do curso de auditores de defesa
nacional, no Instituto de Defesa Nacional, onde o referencial anunciado por
Durão Barroso era duplo: «desenvolver uma presença e ação bem para lá do nosso
peso demográfico e económico» e reconhecer que Portugal era «caso único de um
pequeno país com uma única fronteira terrestre, tendo a seu lado um vizinho de
maior dimensão territorial e demográfica e que vive neste momento o período de
maior expansão económica»12.
O Iraque não fez parte do debate português após os ataques de 11 de setembro de
2001 e durante grande parte de 2002. A reação aos ataques em Nova York e
Washington levou a uma concentração de esforços políticos e militares na guerra
do Afeganistão, tendo o Governo de António Guterres prestado uma solidariedade
imediata aos Estados Unidos e decidido participar na operação da nato, coberta
entretanto pela resolução 1368, aprovada pelo Conselho de Segurança a 12 de
setembro de 2001. Em nenhum momento desta fase do debate político nacional o
Iraque foi associado ao terrorismo islamita ou sequer a um qualquer projeto de
mudança de regime que promovesse uma arquitetura regional menos hostil ao
Ocidente.
No quadro europeu, há um primeiro registo da tomada de posição da União
Europeia, através de uma declaração escrita pela presidência espanhola, a 20 de
maio de 2002, vinculando Portugal, onde se acolhia favoravelmente o diálogo
entre o Iraque e as Nações Unidas «com vista a encontrar uma saída diplomática
para a questão das armas de destruição maciça no Iraque, mediante a plena
aplicação das resoluções do Conselho de Segurança». O comunicado terminava com
uma referência «à crescente preocupação da comunidade internacional quanto à
potencial utilização em programas de armas convencionais ou de destruição
maciça»13. Posteriormente, no Conselho de Assuntos Gerais e Relações Externas
da União Europeia ' a 22 de julho e já presidido pela Dinamarca ' os estados-
membros adotam uma posição comum sobre o Iraque, reiterando a via das
resoluções da onu e do escrupuloso cumprimento das obrigações internacionais
por parte de Bagdade14. Estas duas posições tomadas pela ue são relevantes, no
sentido em que balizam aquilo que vai ser a primeira tomada de posição do
Governo português perante o seu Parlamento e a resposta do maior partido da
oposição.
Nove dias após se ter reunido com o Presidente Bush na Casa Branca, o primeiro-
ministro Durão Barroso enfrentou o assunto pela primeira vez no Parlamento
português15. Estávamos a 19 de setembro de 2002 e Barroso aproveitou o encontro
mensal para trazer ao debate político o tema que a agenda internacional
impunha. Existiram neste debate três questões centrais e que merecem uma
leitura mais atenta das posições do Governo e do maior partido da oposição, o
Partido Socialista (PS).
Em primeiro lugar, se era nesta fase relativamente consensual que a via da onu
deveria continuar a ser privilegiada e que o prevaricador era o Iraque, logo
aquele que teria de demonstrar ter deixado ser uma ameaça internacional,
existiu uma clara tensão política quando se tratava de equacionar o cenário de
intervenção militar. Durão Barroso, bem como a maioria parlamentar que o
apoiava, não excluíam o uso da força: «eu apoio sem reservas as resoluções das
Nações Unidas e só quero que elas sejam cumpridas! E se o Iraque cumprir as
resoluções das Nações Unidas, não há qualquer razão para qualquer ação da
comunidade internacional contra o Iraque!»16 Era evidente que a opção militar
era já equacionada, não por Portugal, mas pelos Estados Unidos e Reino Unido,
caso contrário não haveria necessidade de o primeiro-ministro abrir
constantemente neste debate parlamentar essa hipótese. Tal cenário foi desde
logo afastado pelo ps, com o seu secretário-geral, Ferro Rodrigues, a ser
perentório: «uma ação unilateral, à revelia das Nações Unidas e da legalidade
internacional ' digamo-lo com clareza ' carece de base de legitimidade. E devo
dizer que não terá o nosso apoio!»17. Estava desde aqui marcado o que separaria
o ps da maioria parlamentar, impossibilitando a abertura de um consenso mais
alargado perante o cenário de uso da força por parte de aliados de Portugal.
A segunda grande questão central neste debate aproximou o ps do Governo. E
dizia respeito às prioridades estratégicas da relação a estabelecer com o
Iraque. Ao contrário do que depois veio a distinguir com clareza os dois lados,
era assumido por Barroso e Ferro Rodrigues que a ameaça constituída pelo regime
de Saddam residia na sua tirania, no incumprimento das resoluções da onu e, a
partir daí, nas palavras do próprio líder do ps, «a tarefa que se coloca neste
preciso momento à comunidade internacional é, efetivamente, despojar o Iraque
de armas de destruição, impedindo que seja uma ameaça para a paz e segurança da
região. O eventual uso da força deverá ser balizado por este objetivo e pela
necessidade de acatamento das resoluções das Nações Unidas»18.
Por fim, o Governo manifestava uma certa cautela no estabelecimento de um arco
alargado de consenso euroatlântico para se evitar que, como diria Barroso neste
mesmo debate, «a relação transatlântica se venha a tornar numa baixa
colateral». É importante reter esta linha de raciocínio se quisermos perceber
parte das razões invocadas posteriormente no debate político português para
justificar a posição do Governo.
Até dezembro de 2002, quando, segundo Douglas Feith, subsecretário para a
Política de Defesade Donald Rumsfeld, a decisão norte-americana de usar a força
militar contra o Iraque foi tomada em definitivo, quer no que tocava ao derrube
do regime, quer a todo o processo de gestão do cenário posterior19, há a
registar três momentos no plano internacional. Em primeiro lugar, a aprovação
no Conselho de Segurança das Nações Unidasda resolução 1441, de 8 de novembro,
que reconhecia o Iraque como uma ameaça, uma vez que se recusara quase sempre a
cooperar com as suas sucessivasresoluções. Declarava-se, por sua vez, a ameaça
que constitui a proliferação de armas dedestruiçãomaciça (adm) e os mísseis de
longo alcance para a segurança e paz internacionais. Em seguida, sem afirmar
que o Iraque possuía ADM, realçava o facto de este nunca terrevelado às
inspeções da onu a totalidade dos seus programas de ADM, mísseis balísticos ou
outros de cariz nuclear, bem como as suas localizações. Por fim, foi atribuído
um prazo de trinta dias para que o regime fornecesse uma declaração detalhada
acerca de todos os aspetos do seu programa de armamento incluindo localização,
componentes e stocks20.
Em segundo lugar, a presidência dinamarquesa, em nome da União Europeia (UE),
emite uma declaração escrita após a aprovação da resolução 1441, saudando «a
unanimidade», a afirmação do papel do Conselho de Segurança «e a sua
responsabilidade na manutenção da paz e da segurança a nível internacional».
Todavia, foi mais longe, ao reconhecer que esta resolução representava um
importante passo na via da «eliminação das armas de destruição maciça no
Iraque», sendo que «esta oportunidade é a última de que o Iraque dispõe para
honrar as suas obrigações de desarmamento».
Em terceiro lugar, as conclusões do Conselho de Assuntos Gerais e Relações
Externas a reforçar a posição conjunta da ue em relação ao Iraque, a qual «tem
um objetivo claro: o desarmamento do Iraque no que respeita às armas de
destruição maciça [pelo que] o Conselho insta o governo do Iraque a aproveitar
esta derradeira oportunidade para cumprir as suas obrigações de
desarmamento»21. Ainda no final de 2012, o Conselho Europeu de Copenhaga (12 e
13 de dezembro) manteria os termos das duas declarações mencionadas22.
Em Portugal, o mês de novembro de 2002 marcou o início do debate parlamentar
acerca do novo conceito estratégico de defesa nacional, um documento que datava
dos idos de 1994 e que carecia de revisão, numa altura em que a ue trabalhava
uma estratégia de segurança, liderada por Javier Solana e Robert Cooper (ex-
conselheiro de Blair) e a NATO acabara de aprovar em Praga um compromisso sobre
capacidades e modernização militar, o qual Portugal se prontificou a integrar.
Como recorda Mário Miranda Duarte, na altura representante do Ministério dos
Negócios Estrangeiros no grupo que levou a cabo a revisão da estrutura de
comandos da Aliança, os primeiros sinais sobre estas alterações começam a
surgir no primeiro semestre de 2002. Washington e Londres foram os grandes
impulsionadores desta revisão e os Estados Unidos eram mesmo partidários da
eliminação do comando estratégico do Atlântico, do qual dependia o comando de
Oeiras, um dos cinco de nível dois na estrutura global da NATO ' os outros eram
Norfolk (Estados Unidos), Nortwood (Reino Unido), Brunssum (Holanda) e Nápoles
(Itália). Os termos finais desta reforma apontavam para a eliminação de dois
destes cinco, tendo Lisboa conhecimento de que se manteriam o holandês e o
italiano e consciência de que os ventos não eram favoráveis a Oeiras quando
restavam um americano e um britânico. Esta arquitetura de comandos, do ponto de
vista conceptual quanto aos requisitos mínimos que cada um deveria ter para as
futuras missões da nato, seria aprovada na Cimeira de Praga, pelo que Portugal
teria de «acompanhar» diplomática e militarmente as intenções de modernização
da Aliança e as ambições da sua liderança se quisesse ter algum sucesso na
negociação sobre Oeiras23.
Manter Oeiras foi um dos objetivos da defesa nacional durante os meses que se
seguiram, o que obrigava por si só a um diálogo próximo e continuado com a
Administração norte-americana. Entre dezembro e janeiro fez-se sentir o
posicionamento pró-Norfolk para encaixar no tal terceiro comando que faltava
atribuir. Reino Unido, Holanda e Dinamarca eram-lhe claramente favoráveis.
Segundo Miranda Duarte, «não havia ninguém a apoiar-nos expressamente, tínhamos
apenas em carteira a possibilidade teórica de angariar algum apoio sobretudo do
Sul da Europa», sobretudo de Espanha, como acabou por acontecer24.
O mesmo diplomata acredita que até março-abril ' o início da guerra no Iraque '
«os americanos não tinham de facto uma posição consolidada». O debate interno
nos vários e complexos setores da Administração dividia-se entre os que queriam
a retirada de todos os elementos associados à NATO dos Estados Unidos, os que
se inclinavam para um joint headquarters em Norfolk, outros em Oeiras, outros
ainda que disputavam a ideia de ter uma divisão entre os dois, com uma
«plataforma marítima» nos Estados Unidos e uma «parte estática» em Portugal. De
uma coisa ninguém tinha dúvidas: a decisão sobre esta matéria cabia apenas a
Washington.
O ano de 2002 terminava, então, desta forma: por um lado, o Conselho de
Segurança e a ue coincidiam numa posição de firmeza perante o comportamento do
Iraque; por outro, Bagdade mantinha a falta de transparência exigida pelo
exterior, não dando sinais de acompanhar com vigor a pressão internacional.
ANO NOVO, CLIVAGEM NOVA
Nos primeiros dez dias de janeiro, mais de 40 mil tropas americanas são
destacadas para o Golfo e a perceção de guerra iminente passa cada vez mais a
realidade. A partir de então a narrativa europeia altera-se. No quadro europeu,
a presidência grega da ue indigna-se com a declaração conjunta de oito líderes
europeus (Carta dos Oito), acusada de não falar em nome dos quinze e de querer
tomar uma decisão final quando essa era apenas uma prerrogativa da onu,
deixando claro que a linha da ue estava expressa nas declarações do Conselho
Europeu de 27 de janeiro25.
Em Portugal, o Presidente da República Jorge Sampaio quis exprimir publicamente
a sua oposição auma iniciativa militar sem o aval do Conselho de Segurança. Na
cerimónia de cumprimentos docorpo diplomático, reunido no Palácio de Mafra,
afirmou-se contrário à doutrina da guerra preventiva, por «encerrar graves
riscos» e ser «contrária à tradição do direito internacional que considera o
recurso à guerra como um ato de último recurso, admissível apenas em casos de
legítima defesa perante um ataque armado, ou quando explicitamente autorizada
pelo Conselho de Segurança»26. O Presidente da República assumiu, assim, um
papel que contrabalançava a postura do Governo, pondo-se à margem de qualquer
opção militar precipitada fora do quadro da onu. Por outras palavras, no quadro
da orientação da política externa portuguesa consagrada constitucionalmente,
cabia ao Governo conduzi-la, embora o Presidente da República fosse um ator
relevante através do seu estatuto de comandante supremo das Forças Armadas.
Em boa verdade, Jorge Sampaio tinha duas razões para dar corpo a este papel. Em
primeiro lugar, porque perante uma maioria absoluta de centro-direita, qualquer
intenção extremada dos restantes partidos no Parlamento através de moções de
censura ao Governo ' como as quatro que apresentaram a 26 de março de 2003 '
teriam pouco ou nenhum resultado prático. Só o Presidente da República tinha
verdadeiramente força no despique político com o Governo. Dentro deste quadro,
era ainda menos crível que quem defendia a via da onu publicamente ' como
Sampaio e Barroso ', não o fizesse sabendo que uma decisão de Portugal em estar
ao lado dos Estados Unidos teria de percorrer um caminho político, mesmo
sabendo que no final o resultado seria preferencialmente militar.
Paris e Berlim preparam a celebração do 40.º aniversário do Tratado do Eliseu,
assinado por De Gaulle e Adenauer para, na perspetiva de Paris à época,
estreitar relações com a Alemanha Federal afastando-a dos Estados Unidos e, na
perspetiva de Berlim, manter a França no barco europeu sem no entanto
prejudicar a relação com Washington. Na declaração final deste aniversário, o
Presidente Chirac e o chanceler Schröder estavam alinhados contra a intervenção
no Iraque:não que Paris surpreendesse pelo gaullismo da sua política externa,
mas porque Berlim, num caso inédito desde o pós-guerra, estava abertamente
contra os Estados Unidos.
Esta posição de Schröder, frontalmente contra a guerra desde a campanha
eleitoral alemã, foi decisiva para conduzir Paris a um posicionamento
diferentedo que vinha mantendo até aí. Relembre-se que o seu contributo foi
determinante na construção e aprovação da resolução 1441, que o caminho da onu
era oficialmente convergente entre Washington, Paris, Londres, Madrid e Lisboa,
que a ameaça das armas era consensual na narrativa de todas estas capitais e
nas vozes dos seus protagonistas políticos, incluindo franceses.
Entretanto, muitos países do Leste europeu não gostaram de ficar de fora da
Carta dos Oito e, um dia antes de o secretário de Estado Colin Powell ir às
Nações Unidas tentar demonstrara existência de infraestruturas e stocks de
armas de destruição maciça no Iraque, dez estados da «nova Europa» preferida de
Rumsfeld subscrevem nova carta de apoio aos Estados Unidos, à relação
transatlântica e ao modo como a questão do Iraque devia ser tratada.
É sobre este quadro que Durão Barroso regressa à Assembleia da República, a 31
de janeiro de 200327. A segunda vez que o primeiro-ministro debate o Iraque no
parlamento acontece no exato momento em que é publicada a Carta dos Oito e um
dia depois de Barroso ter feito chegar a Bush, por via telefónica, o seu desejo
de ver o problema iraquiano orientado segundo uma nova resolução do Conselho de
Segurança. Era este o sentido dado por Barroso à Carta dos Oito ' e explicado a
Jorge Sampaio antes da sua assinatura28 ', na semana anterior a uma nova ronda
negocial nas Nações Unidas sobre a matéria: «O Conselho de Segurança terá de
saber erguer-se à altura da sua responsabilidade histórica.»29 Na Carta dos
Oito, a defesa do elo transatlântico era historicamente interpretada como a
garantia da paz europeia e encarada como fundamental para derrotar as ameaças
que, entre outros, o regime iraquiano representava. No fundo, esta missiva de
apoio aos Estados Unidos foi mais uma forma de pressionar o Conselho de
Segurança, pondo a tónica no seu papel futuro em caso de inconsequência após a
resolução 1441, para além de reiterar aos restantes estados europeus que a sua
segurança estava vinculada a Washington, não dando grande margem para negar um
futuro apoio30.
É aqui que entramos na segunda linha estratégica. Ou seja, tornou-se evidente
na diplomacia de Barroso que «Portugal participa nas decisões», sejam elas
quais forem31. Isto significava que não poderia existir uma posição «neutral,
nem equidistante»32 do país perante a questão iraquiana e que a almofada das
posições adotadas pelas instituições euroatlânticas era uma das formas
encontradas para melhor explicar o processo de decisão português ao Parlamento
e à opinião pública: «entre os nossos interesses está a manutenção da relação
transatlântica; espero e desejo que os Estados Unidos da América e a Europa não
se dividam nesta crise»33. Isto não implicava que Barroso não fizesse questão
de mencionar alguns diálogos bilaterais mais relevantes que ia mantendo, «com o
Presidente George Bush e com os primeiros-ministros Aznar e Tony Blair», de
quem recebeu a garantia que «ninguém advoga o recurso à força, a não ser como
solução de último recurso». No entanto, ressalvava um pormenor relevante: «Devo
reconhecer que há a sensação de que a presente situação não poderá prolongar-se
indefinidamente.»34
A resposta de Ferro Rodrigues não se fez esperar. Em primeiro lugar, a Carta
dos Oito revelava o contributo de Barroso «para o estilhaçar da União Europeia,
exatamente no ponto em que ela é ainda frágil, que é ao nível da política
externa comum»35. Em segundo, acusava o primeiro-ministro de «alinhar com
qualquer posição que os Estados Unidos venham a tomar, seja ela unilateral ou
não, tenha ela paz ou não, haja ou não provas. E isto é insustentável! Estamos
contra esta posição de total seguidismo!». Destas afirmações retira-se um
caminho para o maior partido da oposição: opor-se a qualquer decisão tomada por
Washington esteja ela baseada ou não em factos concretos sobre a ameaça
iraquiana, seja ela coincidente com uma nova tomada de posição do Conselho de
Segurança que legitime o uso da força ou a continuação do regime de inspeções.
Isto não deixava de limitar a ideia do secretário-geral do ps de que «o Iraque
deve ser, efetivamente, desarmado», sendo uma «ação militar a última das
soluções e apenas no quadro das Nações Unidas»36.
Barroso recordaria a Ferro Rodrigues a forma como o governo do ps lidara com a
intervenção militar da NATO no Kosovo, com participação portuguesa e sem uma
expressa autorização do Conselho de Segurança, tendo apenas ido à Assembleia da
República já as operações militares dos Aliados estavam em marcha. Ou seja,
aparentemente, o primeiro-ministro pretendia justificar o falhanço de uma nova
resolução com uma prática já tida pela oposição, sem com isso revelar qualquer
ilegitimidade para lidar com uma ameaça à segurança que ambos os partidos
consideravam estar personificada no Iraque de Saddam Hussein. O mesmo é dizer
que a opção militar dos aliados de Portugal estaria a ser fortemente
considerada e que Lisboa teria de tomar uma decisão que, ao mesmo tempo,
garantisse solidariedade política e diplomática ' salvaguardando as suas
alianças «mais importantes» (Estados Unidos), «mais antigas» (Reino Unido) e
«mais próximas» (Espanha)37 ', sem com isso assumir um compromisso que
envolvesse as suas Forças Armadas num previsível conflito militar. Esta
trilogia de alianças seria posteriormente referida pelo ministro dos Negócios
Estrangeiros, António Martins da Cruz, como a razão mais importante para a
tomada de posição de Portugal e para que a cimeira que determinou esse ato se
tivesse realizado precisamente com os líderes políticos desses três países38.
O entendimento do Governo sobre o desenho de uma política externa ativa e
ambiciosa na projeção de Portugal trazia consigo dois desafios. O primeiro,
como resultado de um conjunto de movimentações e tomadas de posição ao nível
europeu que não consigam garantir consenso entre os estados-membros. Deste
ponto de vista e perante a crescente intransigência da França e da Alemanha
contra qualquer intervenção militar sem uma nova resolução do Conselho de
Segurança, qualquer tentativa pública de forjar uma aproximação com Washington
e Londres seria sempre entendida como causadora de divisões dentro da ue.
O segundo desafio passava por construir uma base de apoio a uma intervenção
militar dos aliados de Portugal que não tivesse uma autorização clara do
Conselho de Segurança. Eram evidentes dois objetivos: amarrar a oposição à
decisão do Governo e diminuir a contestação pública nas ruas e na opinião
pública. Para tal, o Governo traria ao debate político o precedente do Governo
socialista da já referida intervenção militar da NATO no Kosovo39. Ou seja, no
debate interno, o Governo poderia sempre acusar o ps de, numa situação crítica
à segurança internacional, ter estado ao lado de uma decisão dúbia em termos da
sua legalidade. O mesmo é dizer que a probabilidade de existir uma decisão
dúbia novamente era altíssima e que era preciso acautelar todos os seus riscos
políticos.
Eram evidentes as divergências entre estados europeus ' e entre estes e
Washington ', o que revelava uma de três posições finais para a política
externa portuguesa: ou mantinha a sua aproximação aos Estados Unidos '
reforçada pela presença dos espanhóis e britânicos ', ou direcionava-se para um
campo antagónico a estes três países, ou anulava o seu papel de protagonismo e
automarginalizava a sua posição no quadro euroatlântico. Barroso, sobre o
perfil a adotar, nunca negou o voluntarismo: «Portugal não será neutral, nem
está equidistante.»40
A reunião do Conselho de Estado de 6 de fevereiro teve um efeito imediato, o de
tornar público o julgamento do Governo sobre a definição da política externa
nacional, ou seja, Barroso não só desvalorizaria a reunião,tanto por ser «um
órgão não eleito», como por «não ter quaisquer competências em matéria de
política externa»41. Isto é, no plano externo, refutava qualquer tipo de
equidistância face à ameaça iraquiana; no plano interno, o Governo queria
reservar para si a tomada de decisão. Para o bem e para o mal.
Mas as divisões não eram apenas patentes no quadro português. Na nato, por
exemplo, bastaram quinze minutos para que os dezanove representantes
permanentes no Conselho do Atlântico Norteconstatassem a impossibilidade de
ultrapassar o triplo veto da França, Alemanha e Bélgica a qualquer decisão que
garantisse a proteção da Turquia em caso de uma intervenção militar contra o
Iraque. Ancara responderia com a invocação do mecanismo de consultas perante
uma ameaça, embora sem efeitos práticos.
No espaço de um mês, duas reuniões ao mais alto nível tiveram lugar nos Estados
Unidos. A primeira, a 31 de janeiro, entre Bush e Blair na qual o Presidente
americano fez ver a Blair que não era só Chirac quem tinha o exclusivo da
intransigência e comunicou-lhe que, com ou sem nova resolução da onu, com ou
sem provas da existência de armas de destruição maciça, os Estados Unidos iriam
invadir o Iraque. Blair mostrou a sua total solidariedade. Bush era ainda mais
preciso nas suas ambições: «a data de início da campanha militar está pensada
para 10 de março. É aí que os bombardeamentos devem começar»42. A segunda
reunião foi entre Bush e Aznar, em Crawford, na qual o Presidente americano
comunicou ao presidente do Governo espanhol que dentro de duas semanas as
tropas norte-americanas estariam prontas e que no fim de março estariam em
Bagdade. Bush confessaria ainda que a sua «paciência estava esgotada, não penso
ir mais além de meados de março». Neste encontro, cujas atas foram entretanto
conhecidas e publicadas, Aznar fazia ver a perspetiva de Blair de chegar com a
pressão diplomática até dia 14 de março, mas Bush teimou no dia 10 e confessou
não se preocupar em ser o «polícia mau» enquanto Blair fosse «o polícia bom»43.
No quadro institucional português, Jorge Sampaio era, mais uma vez,
protagonista nesta fase. Em longa entrevista ao Diário Económico, na véspera do
debate mensal no Parlamento, Sampaio não escondeu as diferentes sensibilidades
manifestadas entre Belém e São Bento em relação ao Iraque. Para ele, «Portugal
tinha um papel importante na cena internacional: por um lado, porque é uma
componente de relevo da União Europeia e, por outro, por ter um papel no
contexto da aliança atlântica». Era precisamente esta gestão de compromissos,
nas palavras do Presidente da República, que definia essas duas sensibilidades:
o Governo, mais sensível às posições norte-americanas e a estados europeus
atlantistas; a Presidência, mais próxima da narrativa europeia continental,
nomeadamente a francesa. Aliás, nesta mesma entrevista, Sampaio alongou-se em
elogios ao Presidente Jacques Chirac. À pergunta sobre se era ainda possível
evitar a guerra, Jorge Sampaio revelava a sua descrença: «acho que a margem é
muito pequena»44.
No meio da tensão transatlântica, Barroso regressa ao Parlamento português, a
27 de fevereiro, uma oportunidade aproveitada para reforçar o desejo de obter
uma nova resolução no Conselho de Segurança que legitimasse uma intervenção
militar e, desta forma, coincidir politicamente com as posições assumidas pelo
Presidente da República. Além disso, assumiu que dado a não presença de
Portugal no Conselho de Segurança, a sua posição de referência era a posição
aprovada por unanimidade pela União Europeia no último Conselho Europeu: «a
posição da ue é a posição do Governo português, a posição do Governo português
é a posição da ue»45.
Jorge Sampaio seria, mais uma vez, cáustico na definição das alianças nacionais
e, no discurso de abertura de um congresso sobre Portugal e o futuro da Europa,
diria que «nenhum laço bilateral, por mais antigo e por mais forte que seja,
poderá substituir a parceria comunitária». Estava definitivamente marcada a sua
posição. Mas, numa leitura mais abrangente das relações internacionais,
mostrou-se confortável com tomadas de posição esclarecedoras do papel da Europa
' como as do Presidente Chirac, quando este assumiu vetar qualquer novo
ultimato ao Iraque em quaisquer circunstâncias46 ', ao ver a definição de uma
política externa europeia, sem divisões, como um instrumento de «afirmação
internacional como potência mundial [o que] constituiria o melhor antídoto para
alguns efeitos negativos da globalização e um elemento equilibrador de um mundo
unipolar»47. Em jeito de resposta, Durão Barroso acabaria por enunciar
explicitamente a sua posição em caso de conflito militar, numa conferência de
imprensa conjunta com o seu homólogo luxemburguês, referindo apoiar os Estados
Unidos nessa situação e caso não haja uma resolução da onu48. Eram evidentes os
lados preferenciais entre Belém e São Bento nesta reta final.
O QUARTETO DAS LAJES
Enquanto eixo estrutural da política externa portuguesa do pós-guerra, a
relação com os Estados Unidos foi colocada pelo Governo no patamar mais elevado
dos interesses nacionais a defender ao longo dos meses em que o Iraque dominou
o debate político. António Martins da Cruz explicaria a posição do Governo,
exatamente um mês depois de Durão Barroso ter sido recebido pelo Presidente
Bush na Casa Branca: «a defesa e segurança de Portugal dependem da nato, ou
seja, dos Estados Unidos e de mais ninguém»49. De acordo com o próprio
primeiro-ministro, não foi abordado nesse encontro a utilização das Lajes por
parte dos Estados Unidos, pois a solução política ainda não estava esgotada50.
Neste quadro, a base das Lajes acabaria por, mais cedo ou mais tarde, fazer
parte de todo o debate, quer através do articulado patente no Acordo de Defesa
entre Portugal e os Estados Unidos, assinado em 1995, quer pelo protagonismo
político que viria a assumir nasvésperasda intervenção no Iraque. Seria em maio
de 2002, que Martins da Cruz e Colin Powell iriam reiterar ao mais alto nível
diplomático as premissas do Acordo de Defesa Bilateral, pelo qual ações
militares decididas pelo Conselho de Segurança da onu ou pelo Conselho do
Atlântico Norte da NATO apenas requeriam uma participação informativa dos
Estados Unidos a Portugal a respeito da utilização da base; no quadro de uma
decisão militar unilateral de Washington, os norte-americanos teriam que pedir
autorização a Portugal para utilizar as Lajes.
Após a aprovação da resolução 1441, Portugal automaticamente pôs a base militar
açoriana à disposição dos seus aliados norte-americanos. Essa disponibilidade
foi, aliás, anunciada por Barroso na Cimeira da nato, em Praga, tendo
aproveitado a ocasião para, através do ministro da Defesa Paulo Portas, assinar
alguns protocolos com vista à modernização do dispositivo português de defesa e
manifestado interesse estratégico em manter o comando da NATO em Oeiras, numa
fase de redefinição da estrutura global levada a cabo pela Aliança Atlântica51.
A 18 de janeiro, Washington invocaria formalmente junto do Governo português a
possibilidade de utilização da base no quadro do referido acordo52.
Mas não foi só a Lisboa que foram requeridas facilidades militares. Washington
solicitou a Madrid, a partir de setembro de 2002, a utilização do seu espaço
aéreo, bem como das bases de Rota e Morón, com vista a operações futuras no
Iraque, pedido aceite pelo Governo espanhol e admitido pelo ministro da Defesa,
Federico Trillo, em fevereiro de 200353.
A primeira vez que a questão das Lajes se colocou na Assembleia da República
foi a 29 de janeiro de 2003, introduzida pelo Partido Comunista Português
(pcp). Dois dias depois, em debate mensal com o Governo, o pcp voltaria ao
tema, colocado nos termos certos: que posição adotaria Portugal em caso de
ataque unilateral dos Estados Unidos ao Iraque? Autorizaria ou não o uso da
base? Barroso respondeu que os Estados Unidos já tinham pedido a sua
utilização, «numa comunicação que dirigiu ao Governo português, em que disse
[ ] não [estar] ainda tomada uma decisão de ataque contra o Iraque e que o
Governo português já autorizou essa utilização». E porquê? «Porque entende que
é isso que deve fazer em relação ao nosso aliado mais importante e no quadro do
acordo de cooperação e amizade entre Portugal e os Estados Unidos»54. Por
outras palavras, pese embora a narrativa política que pautou as intervenções do
Governo português, no sentido de encontrar uma solução no quadro da onu, o
facto de ter autorizado a utilização das Lajes pelos Estados Unidos ' quando
esta só se torna necessária em caso de ataque militar fora da autorização do
Conselho de Segurança ' indica que já neste final de janeiro era mais que
crível em São Bento que o uso da força iria acontecer em breve. Com ou sem
autorização da onu, mas certamente sob a liderança norte-americana. No mesmo
sentido, o Governo já tinha dado ordens para encerrar a embaixada portuguesa em
Bagdade.
A guerra era uma questão de dias. Neste início de março, a maior parte das
forças destacadas para a futura Operation Iraqi Freedom estava já estacionada
no Kuwait: 170 mil tropas, dezenas de navios de guerra eram postos em alerta,
centenas de aviões de combate estavam preparados para agir caso a ordem
surgisse da Casa Branca. Os únicos detalhes eram meramente políticos, não
militares55. E essa dimensão política estava centrada na inviabilidade da
aprovação da nova resolução apresentada por Washington, Londres e Madrid ao
Conselho de Segurança a 24 de fevereiro. Uma vez que Chirac, Schröeder e também
oPresidenteVladimir Putin declararam em uníssono asua oposição a 5 de março, e
que o veto da França e da Rússia inviabilizava a aprovação de qualquer
resolução no Conselho de Segurança, os mesmos proponentes terão iniciado
consultas para a realização de uma cimeira que desse um cunho político final ao
desenlace militar.
A primeira iniciativa partiu de Londres e foi comunicada a Washington que lhe
concedeu a utilidade de rematar politicamente um assunto sobre o qual já tinha
tomado uma decisão. A primeira hipótese em cima da mesa foi a sua realização em
Washington, o que agradava a Bush, mas à qual Downing Street se opôs
imediatamente por estar permanentemente sob fogo da opinião pública, que
acusavaBlair de ser um poodle de Bush. A segunda solução foi Londres. Sobre
isto, Blair deu voltas na cadeira com receios de novas manifestações antiguerra
prejudiciais à sua posição interna56. Uma outra hipótese, seriam asBarbados,
rapidamente descartada57. Um outro local, sugerido pelo chefe de gabinete de
Bush, Andy Card, foramas Bermudas58. Por um lado, eram demasiado perto dos
Estados Unidos e muito longe da Grã-Bretanha, o que também não era muito bem
aceite. Por outro, alguns dos protagonistas, como o presidente Aznar, não viam
com bons olhos que uma cimeira desta importância ficasse associada a uma «peça
de roupa»59.
Foi, então, que o presidente do Governo espanhol sugeriu a Blair que o encontro
se realizasse nos Açores e que ele próprio se encarregaria de contactar o
primeiro-ministro português, propondo-lhe a sua realização e participação.
Barroso não só acedeu ao pedido como se mostrou motivado a integrar o trio.
Esta cimeira era não só um requisito importante para Blair e Aznar, pois
permitia-lhes enfrentar internamente as vozes discordantes, dizendo que tudo
tentaram até ao final. Para Aznar, esta era mesmo uma forma de restituir um
protagonismo à Espanha no plano internacional que desejava, reforçando esse
desígnio com a oportunidade de poder estar ao ladode duas grandes democracias
contra as grandes tiranias da atualidade60.
Ainda nesse dia, o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, dava conta desta
posição comum entre Blair, Aznar e Barroso para a realização do encontro nas
Lajes ' agraciada com uma distinção pelo Pentágono com a categoria de
«excelente», em 2002 ', geograficamente equidistante dos Estados Unidos e da
Grã-Bretanha para merecer a concordância de todos61. E um dos conselheiros do
Presidente, Stephen Hadley, entregava um memorando a Michael Gerson,
speechwriter de Bush, com os pontos-chave a levantar no discurso das Lajes, um
resultado de diversas reuniões ao mais alto nível e com um cunho final de
Rumsfeld que insistia num ultimato público dado a Saddam que não ultrapassasse
as quarenta e oito horas. Bush, no entanto, reforçaria na declaração das Lajes
um papel primordial para a onu no pós-guerra, algo que não se veio de facto a
verificar. Ou seja, a ideia de conceder um limite ao processo político sabendo
da dificuldade que o regime iraquiano tinha em colaborar com a onu, trazia
consigo uma declaração de guerra por meios políticos.
Quando a Cimeira das Lajes ficou decidida, Chirac entrou em contacto com Blair
para lhe dar conta da sua disponibilidade em conceder um prazo limite de trinta
dias ao Iraque. Bush diria prontamente a Blair que tudo não passava de uma
tática para atrasar a decisão final e que esquecesse Paris. Aqui entravámos no
jogo político demonstrativo das capacidades de decisão das principais
potências. Por um lado, os Estados Unidos, líder de todo o processo e com força
suficiente para intervir unilateralmente. Por outro, a França, assumindo um
papel oposto no sistema internacional e na projeção de poder no quadro europeu.
Por fim, os aliados de ambos, que acabaram por ter de assumir um posicionamento
político cauteloso, sem nunca abdicar da sua ligação a Washington. E seria esta
que acabaria por pesar mais no caso português.
Na véspera da cimeira, mantinham-se algumas preocupações entre os quatro
protagonistas. Do lado britânico, sobretudo, existia um nervosismo latente com
a possibilidade de a conferência de imprensa se realizar numa base militar, que
inviabilizasse a mensagem política que se queria passar. Em resposta a isto, a
organização portuguesa do evento, liderada pelo assessor diplomático do
primeiro-ministro, Nuno Brito, retiraria todas as fotografias de cariz militar
que estivessem penduradas nas paredes da sala62. Durão Barroso, que estava
manifestamente orgulhoso da «credibilidade de Portugal» como anfitrião e
participante ativo da manutenção da dimensão atlântica da Europa, opôs-se a uma
linguagem na declaração final que não privilegiasse a dimensão política e,
nesse, aspeto, Lisboa, Madrid e Londres temperaram as ambições iniciais de
Washington quanto ao documento final da cimeira. Ferro Rodrigues, em coerência,
dava conta da gravidade do anúncio de uma declaração de guerra à qual Portugal
estivesse desde a primeira hora associado, embora não gostasse de assistir a
uma cimeira nas Lajes sem a presença do primeiro-ministro63. Nesta altura,
Sampaio convocava novamente o Conselho de Estado para dia 24 e sublinhava o
compromisso de Barroso num posicionamento de Portugal durante a cimeira que
privilegiasse a dimensão política e não a militar64.
A posição de Portugal acabou por se revelar não tão forte como pareceu. Quando
Barroso reconhece na véspera que a cimeira do quarteto estava mais bem definida
como «três mais um»65, dava conta de um certo desconforto face a uma agenda
dominada pela Administração Bush. Ser anfitrião e participante de um encontro
marcante da história recente acabou por não lhe garantir grande visibilidade,
por exemplo, na literatura mais relevante dedicada ao conflito e às
movimentações diplomáticas que o antecederam. São aliás raros os livros
publicados nos últimos anos que dão destaque à Cimeira das Lajes, talvez por
serem na sua maioriarelatos de origem norte-americana e, por isso, com pouca
atenção dada ao evento açoriano66.
CONCLUSÕES
O caminho desenhado pelo Governo português em relação ao Iraque teve sempre em
conta a posição norte-americana. Entre setembro e dezembro de 2002, altura em
que a Administração Bush tomava definitivamente a opção militar como certa no
curto prazo, Durão Barroso traçava a argumentação do Governo tendo em conta
esse cenário. Daqui não resulta que Bush a tenha transmitido a Barroso.
Resulta, sim, que a perceção do Governo português indicava que os Estados
Unidos se inclinavam fortemente para uma solução militar a breve trecho.
Perante isto, Portugal defendeu dois caminhos.
Por um lado, dando espaço ao Conselho de Segurança para assumir um papel de
liderança no processo e revelar a sua importância na gestão de crises
internacionais de nível elevado, quer através do resultado da resolução 1441,
quer através de uma autorização ao uso da força emanado de uma posterior
resolução. Daqui resulta, precisamente, uma via política para a resolução do
problema promovida por Portugal. Dentro deste nível, é de salientar a
participação portuguesa nas declarações tidas pela NATO e pela ue, ambas
validando o caminho da onu.
Por outro lado, sentindo como válida a opção militar norte-americana, Portugal
sabia que teria de tomar uma decisão de apoio, neutralidade ou oposição à
mesma. E aqui, prevaleceram antes de mais os interesses portugueses: a
valorização da segurança nacional através do vínculo a Washington, a
prevalência da relação bilateral com epicentro nos Açores, a manutenção do
comando da NATO em Oeiras, a captação de investimentos militares norte-
americanos para a modernização da defesa nacional, o posicionamento português
no processo político e económico iraquiano a médio e longo prazos. Assim,
respondendo à primeira questão colocada no início deste artigo, Portugal apoiou
a guerra porque, num quadro de divisão transatlântica e com uma maioria de
estados-membros da ue expressando apoio a Washington, pesaram mais na avaliação
do Governo as principais alianças atlantistas (Estados Unidos, Espanha e Reino
Unido) como as que determinariam o seu posicionamento.
É de salientar, ainda, que o debate político português revelou, de um lado, uma
concertação de posições entre os partidos da maioria que apoiava o Governo
(psd/cds), com Durão Barroso e Martins da Cruz a assumirem a condução do
dossiê; de outro, a oposição marcadamente ideológica do Bloco de Esquerda e do
pcp a toda e qualquer solução contra o Iraque, demarcando-se o ps delas, numa
primeira fase ' por razões históricas e políticas ', embora tenha acabado por
percorrer um caminho que aqui e ali se confundiu com as bancadas à sua
esquerda, o que motivou alguns dos seus mais destacados membros a demarcações
públicas. Por fim, o papel relevante do Presidente Jorge Sampaio, quer como
defensor da via da onu, quer como anuente da cedência das Lajes à Administração
americana, quer ainda como fator de coesão entre as diversas sensibilidades
socialistas. Em todo o processo, refira-se, a existência de armas de destruição
maciça acabou por não ser o tema mais debatido no espaço político, quer na
argumentação do Governo, quer na Presidência da República ou mesmo do ps, ao
contrário de outros aliados de Portugal.
Por fim, a Cimeira das Lajes. Proposta por Aznar e posta em marcha
imediatamente por Barroso, mostroutrês realidades negligenciadas pela análise
internacional posterior e que respondem à nossa segunda pergunta colocada no
início deste artigo. Primeiro, que depois do acompanhamento próximo dos
argumentos de Washington e Londres, e com Madrid a assumir-se como um
interlocutor ibérico de primeira linha com os Estados Unidos, Barroso não
poderia ter optado por ficar de fora da cimeira, para mais recaindo a escolha
no território português. Segundo, perante um quadro internacional feito de
tensões permanentes entre a relevância, eficácia e rigidez do Conselho de
Segurança e face à forçada democratização norte-americana do Iraque, as Lajes
acabaram por salvaguardar as Nações Unidas ao não obrigar o Conselho de
Segurança a ratificar uma segunda resolução que legitimaria o caos posterior à
intervenção. Terceiro, o objetivo de elevar a diplomacia portuguesa e realçar o
protagonismointernacionaldoprimeiro-ministroacabou por ser alcançado com o
processo de decisão desenhado pelo Governo português.
Data de receção: 07/02/2013 | Data da aprovação: 20/03/2013
NOTAS
1
O desenvolvimento deste artigo está publicado em Lima, Bernardo Pires de ' A
Cimeira das Lajes: Portugal, Espanha e a Guerra do Iraque. Lisboa: Tinta-da-
China, 2013.
2
«Iraq Liberation Act», 31 de outubro de 1998, citado em Ehrenberg, John,
Mcsherry, J. Patrice, Sánchez, José Ramón e Sayej, Caroleen Marji (eds.) ' The
Iraq Papers. Nova York: Oxford University Press, 2010, pp. 29-33.
3
Franks, Tommy ' American Soldier. Nova York: Regan Books, 2004, p. 329.
4
Ibidem.
5
Wolfowitz, Paul ' «Rebuilding the anti-Saddam coalition». In The Wall Street
Journal, 18 de novembro de 1997; Kristol, William, e Kagan,
Robert ' «Bombing Iraq isn't enough». In The New York Times, 30 de janeiro de
1998.
6
Woodward, Bob ' Plan of Attack, Nova York: Simon & Schuster, 2004, pp. 21-
23.
7
Cf. Stothard, Peter ' Thirty Days: An Inside Account of Tony Blair at War.
Nova York: Harper Collins, 2003, p. 64.
8
Cf. «The Secret Downing Street Memo». In Times online, 1 de maio de 2005.
9
Puig, Valentí ' «Spain's Atlantic Option». In The National Interest, verão de
2004.
10
«A New Golden Age». In The Economist, 3 de janeiro de 2000.
11
Barroso, José Manuel Durão ' Reformar: Dois Anos de Governo. Lisboa: Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, pp. 21-26.
12
Ibidem, p. 259.
13
Declaração da Presidência sobre o Iraque, em nome da União Europeia, Bruxelas,
20 de maio de 2002, 8884/02 (Presse 143) P 65/02.
14
Conclusões da 2447ª Sessão do Conselho de Assuntos Gerais e Relações Externas,
Bruxelas, 22 de julho de 2002, 10945/02 (Presse 210).
15
Barroso, José Manuel Durão ' «Debate mensal com o Parlamento subordinado ao
tema: a situação política internacional, designadamente a questão do Iraque».
In Diário da Assembleia da República, I Série, N.º 38, IX Legislatura, 1.ª
Sessão Legislativa (2002-2003), Lisboa, 19 de setembro de 2002.
16
Ibidem. p. 23.
17
Ibidem, p. 7.
18
Ibidem.
19
Feith, Douglas, War and Decision: Inside the Pentagon at the Dawn of the War
on Terrorism. Nova York: Harper Collins, 2008, p. 361.
20
Cf. Resolution 1441, United Nations Security Council, 8 de novembro de 2002.
Disponível em: www.un.org
21
Conclusões da 2464.ª Sessão do Conselho de Assuntos Gerais e Relações
Externas, Bruxelas, 19 de novembro de 2002, 14184/02 (Presse 351), p. 6.
22
Conclusões da Presidência, Conselho Europeu de Copenhaga, Bruxelas, 12 e 13 de
dezembro de 2002.
23
Cf. Duarte, Mário Miranda ' «A revisão da estrutura de comandos da nato: uma
perspetiva portuguesa». In Negócios Estrangeiros. N.º 9.1, março de 2006, pp.
207-230.
24
Ibidem, p. 220.
25
Cf. Conclusões da 2482.ª Sessão do Conselho de Assuntos Gerais e Relações
Externas, Bruxelas, 27 de janeiro de 2003, 5396/03 (Presse 8), p. 14;
Papandreou, George ' «Statement on Iraq and the joint declaration of eight
European leaders», Ancara, 31 de janeiro de 2003.
26
Citado em «Jorge Sampaio manifesta-se contra guerra preventiva». In Público, 8
de janeiro de 2003, p. 7.
27
Barroso, José Manuel Durão ' «Debate mensal com o Parlamento subordinada ao
tema A situação política internacional suscitada pela questão do Iraque e a
recente tomada de posição pública de Portugal e de mais sete países da
Europa». In Diário da Assembleia da República, I Série, N.º 82, IX
Legislatura, 1.ª Sessão Legislativa (2002-2003), Lisboa, 31 de janeiro de 2003.
28
Cf. «Jorge Sampaio queria uma Europa unida». In Público, 31 de janeiro de
2003, p. 2; «Durão ouviu Sampaio sobre Iraque». In Independente, 31 de janeiro
de 2003, p. 5; «Entrevista a Jorge Sampaio: aplaudo a posição do presidente
Chirac na questão do Iraque». In Diário Económico, 26 de fevereiro de 2003, p.
3.
29
«Debate Mensal com o Parlamento», 31 de janeiro de 2003, p. 4.
30
A Carta dos Oito, intitulada «Europe and America must stand united», de 30 de
janeiro de 2003, foi inicialmente publicada no Wall Street Journal e teve como
subscritores a Grã-Bretanha, Espanha, Itália, Portugal, Dinamarca, Polónia,
Hungria e República Checa. Há relatos que dizem ser o texto tão consensual que
até Paris e Berlim a poderiam ter assinado, não fosse o timing da mesma. Cf.
Gordon, Philip H., e Shapiro,Jeremy ' Allies at War: America, Europe, and the
Crisis Over Iraq. Washington DC: Brookings Institution Press, 2004, p. 129.
31
«Debate Mensal com o Parlamento», 31 de janeiro de 2003, p. 7.
32
Ibidem, p. 16.
33
Ibidem, p. 5.
34
Ibidem, p. 4.
35
Ibidem, p. 6.
36
Ibidem.
37
Ibidem, p. 11.
38
«Entrevista de vida de António Martins da Cruz». In Sábado, 7 de janeiro de
2010, pp. 52-57.
39
«Debate Mensal com o Parlamento», 31 de janeiro de 2003, p. 16.
40
Ibidem.
41
Citado em «Guerra ao Iraque: Portugal ainda fala a duas vozes». In Público, 7
de fevereiro de 2003, p. 10.
42
Citado em «Bush-Blair Iraq memo revealed». In BBC News, 27 de março de 2006;
«Blair made secret US Iraq Pact». In BBC News, 3 de fevereiro de 2006.
Disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/politics/4675724.stm
43
Citado em «Llegó el momento de deshacerse de Saddam». In El País, 26 de
setembro de 2007. Este artigo relata na íntegra a ata da reunião entre George
W. Bush e José Maria Aznar, em Crawford a 22 de fevereiro de 2003. Ver, ainda,
Danner, Mark ' «The moment has come to get rid of Saddam». In The New York
Review of Books. Vol. 54, N.º 17, 8 de novembro de 2007.
44
Sampaio, Jorge ' «Aplaudo a posição do presidente Chirac na questão do
Iraque», p. 3.
45
Barroso, José Manuel Durão ' «Debate Mensal com o Parlamento», In Diário da
Assembleia da República, 1.ª Série, N.º 92, IX Legislatura, 1.ª Sessão
Legislativa (2002-2003), Lisboa, 27 de fevereiro de 2003, p. 26.
46
Jacques Chirac diria, em entrevista à televisão francesa TF1, que o único
objetivo para o braço de ferro com os Estados Unidos era «porque queria viver
num mundo multipolar [ ] e que em nenhumas circunstâncias aprovaria um novo
ultimato ao Iraque. Cf. Gordon, Philip H., e Shapiro,Jeremy ' Allies at War,
pp. 152 e 179.
47
Citado em «Nenhum laço bilateral é mais importante do que a pertença
europeia». In Público, 8 de março de 2003, p. 13.
48
Citado em «Durão explicou a Sampaio declaração de apoio aos eua». In Diário
Económico, 11 de março de 2003, p. 23.
49
Cruz, António Martins da ' «Portugal não quer nenhuma ação militar contra o
Iraque». In Euronotícias, 11 de outubro de 2002, p. 3.
50
Cf. «Durão não exclui colaborar em guerra com Iraque». In Público, 11 de
setembro de 2002, p. 65.
51
Cf. «Lisboa abre Lajes aos EUA». In Diário Insular, 26 de novembro de 2002, p.
6.
52
Cf. «Lajes já mexe». In Visão, 23 de janeiro de 2003, p. 42.
53
Cf. Zubeldia, C. Navarras ' «The Spanish defense policy in regression». In
Kernic, Franz, Klein, Paul, e Haltiner, Karl (eds.) ' The European Armed Forces
in Transition: A Comparative Analysis. Nova York: Peter Lang, 2005, p. 108.
54
«Debate com o Parlamento», 31 de janeiro de 2003, pp. 16-17.
55
Cf. Keegan, John ' The Iraq War. Nova York: Random House, 2005, p. 117.
56
Cf. Coughlin, Con' American Ally: Tony Blair and the War on Terror. Londres:
Politico's, 2006, p. 679
57
Cf. Stothard, Peter ' Thirty Days, p. 45.
58
Cf. Woodward, Bob ' Plan of Attack, p. 357.
59
Citado em «Quando eles não se calam». In Sábado, 28 de agosto de 2008, p. 53.
60
Cf. Aznar, José Maria ' Ocho Años de Gobierno: Una Visión Personal de España.
3.ª edição. Barcelona: Planeta, 2004, p. 173; «Aznar asegura que no quiere ver
a España alienada junto a los países que no sirven». In El País, 3 de março de
2003.
61
Cf. Woodward, Bob ' Plan of Attack; Stothard, Peter ' Thirty Days, p. 45.
62
Peter Stothard ' Thirty Days, pp. 56-57.
63
Citado em «Ferro apreensivo com presença de Durão». In Público, 15 de março de
2003, p. 16.
64
Cf. «Sampaio pela paz com Durão». In Expresso, 15 de março de 2003.
65
Citado em «Cimeira 3+1 nos Açores». In Expresso, 15 de março de 2003, p. 1.
66
Ver, por exemplo, Risks, Thomas E. ' Fiasco: The American Military Adventure
in Iraq. Londres: Penguin Press, 2006; Draper, Robert ' Dead
Certain: The Presidency of George W. Bush, New York: Simon & Schuster,
2007; Gordon, Michael, e Trainor, Bernard E. ' Cobra II: The
Inside Story of the Invasion and Occupation of Iraq. Nova York: Vintage Books,
2007; Allawi, Ali A. ' The Occupation of Iraq: Winning the
War, Losing the Peace. New Haven: Yale University Press, 2008; Mcclellan, Scott ' What Happened: Inside the Bush White House and
Washington's Culture of Deception. Nova York: Public Affairs, 2009; Packer, George ' The Assassin's Gate: America in Iraq. Nova York:
Farrar, Straus and Giroux, 2006.