A China de Deng Xiaoping
A China de Deng Xiaoping*
Raquel Vaz-Pinto
Professora Auxiliar do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica
Portuguesa e Presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política. Membro do
Conselho Científico da Universidade Católica de Moçambique e do Conselho de
Redacção da Revista Brotéria. O seu livro A Grande Muralha e o Legado de
Tiananmen, a China e os Direitos Humanos (2010) foi publicado pela Tinta-da-
China)
Ezra F. Vogel
Deng Xiaoping and the Transformation of China
Cambridge, Mass. e Londres: The Belknap Press of Harvard University Press,
2011, 876 páginas.
O objectivo desta biografia escrita por Ezra F. Vogel, um académico norte-
americano de Harvard, é o de demonstrar que Deng Xiaoping foi o líder com maior
impacto no século XX. Este argumento está muito presente ao longo do livro e
condiciona a sua estrutura de modo evidente. Neste sentido, esta não é uma
biografia de Deng Xiaoping mas sim da China liderada por Deng. É aliás uma das
críticas que têm sido feitas a esta obra, dado que a vida de Deng até aos seus
65 anos (1904-1969) ocupa apenas 30 das 876 páginas totais1. De igual modo, a
análise sobre Deng é perfunctória e desigual no que toca à sua participação na
tragédia humana do maoísmo: organização do programa de reforma agrária de 1949-
1951 e da Campanha anti-Direitista de 1957, participação no Grande Salto em
frente, o esmagar do Movimento do Muro da Democracia ou o massacre de Tiananmen
em 19892. A dureza destas críticas é merecida dado que, cada vez mais, nos é
possível descortinar o que se passou na China Popular.
Tendo em conta estas críticas valerá a pena ler este livro? Na minha
perspectiva, a resposta a esta pergunta é positiva por três razões. Em primeiro
lugar, permite-nos perceber melhor os anos cruciais entre a morte do Grande
Timoneiroe a ascensão de Deng Xiaoping. Na perspectiva de Ezra Vogel, Hua
Guofeng foi mais do que uma mera figura de transição, tendo ele próprio dado
início, por exemplo, à prisão do Bando dos Quatro. A prisão deste grupo deu o
mote para que mais tarde, pela mão de Deng, fosse possível discutir o legado de
Mao sem que isso levasse a mais um banho de sangue. Em segundo lugar, o traço
mais marcante que fica do retrato de Deng é, numa palavra, resistência. Ezra
Vogel faz justiça a essa característica de um homem que combateu na guerra
civil, que fez a longa Marcha e que sobreviveu a três purgas. Ao contrário da
primeira (1930-1931) em que Deng é purgado porque pertence à facção de Mao, a
segunda é levada a cabo pelo próprio Mao durante a revolução Cultural. Vogel
demonstra com muita mestria como Deng foi capaz de se reerguer tendo para isso
que encontrar uma solução de compromisso com Mao Zedong. No entanto, ao
contrário de Hua Guofeng, Deng nunca foi até «ao fim da linha», afirmando que
tudo o que o camarada Mao tinha feito ou dito era lei. Ao mesmo tempo, Deng
«não seria o Khrushchov chinês» (p. 54). Este difícil exercício de estabelecer
os limites a Mao e ao seu legado de modo a que o Partido Comunista Chinês (PCC)
pudesse sobreviver foi uma das maiores tarefas de Deng. Para ele, o problema
não eram só os erros de Mao mas sim um sistema com tais graves falhas que
permitia um Mao e desastres como o Grande Salto em frente e a revolução
Cultural (pp. 44-45). Deste modo, Deng Xiaoping irá liderar um processo interno
de solidificação do partido em detrimento de um só líder.
A terceira e principal razão prende-se com a evolução das reformas económicas
da China. Hoje em dia, é inequívoco que este gigante asiático é um colosso: a
segunda maior economia mundial e a fábrica do mundo. É ainda membro permanente
do Conselho de Segurança, uma potência nuclear, com um enorme e cada vez mais
sofisticado exército, o país mais populoso do mundo e uma importante credora da
dívida pública norte-americana. E por fim, a China faz sentir a sua presença
cada vez mais no mundo não sendo a europa excepção. Nos últimos tempos temos
assistido a investimentos em empresas europeias que possam fornecer à China a
alta tecnologia de que esta tanto necessita. Em suma, a China é uma grande
potência.
No entanto, em 1979 nada faria prever esta evolução, e este livro tem o condão
de nos relembrar a mudança meteórica da China nos últimos trinta anos. Um
aspecto ao qual Deng dará especial importância é à educação e à investigação
(pp. 205-210). O acesso à universidade era condicionado pelo «pensamento
político adequado» e a «origem social certa» em detrimento do mérito académico.
Era ainda parte integrante do sistema escolar os alunos fazerem «trabalho
físico» durante dois anos após terem concluído o ensino secundário. Deng
empenhou-se fazendo com que, a partir de 1977, os exames fossem a única
condição de acesso à universidade. Também começou a contrariar a prática de
trabalho físico, que Deng considerava uma perda de tempo. Um dos elementos mais
importantes da «normalização» das relações diplomáticas com os estados unidos
foi o intercâmbio estudantil que permitiu a muitos chineses estudarem nas
melhores universidades do mundo. Um marco igualmente importante neste ano é a
criação da academia Chinesa das Ciências Sociais permitindo desta forma o
reatar possível da relação difícil com os intelectuais. Para Deng, o
fundamental era construir uma nova geração ' depois da década perdida ' que
fosse tecnicamente habilitada e que pudesse participar no esforço de reerguer a
China.
Ao contrário de Mao, Deng Xiaoping considerava que era fundamental saber a
verdade, mesmo que Esta fosse muito desagradável. Esta abordagem foi um pilar
crucial para que a ascensão da China se tornasse realidade. No entanto, Ezra
Vogel deixa bem claro que este percurso da China não foi pensado como uma linha
recta. Pelo contrário, a abordagem de Deng foi de pequenos passos e «tentativa-
erro»: experimentar uma medida nova testando-a de modo a poder comprovar a sua
eficácia (ao contrário do que a retórica dos planos quinquenais possa indicar).
Ao longo deste percurso, por vezes atribulado, também fica mais clara a tensão
entre Deng e aqueles, como Chen Yun, que gostariam que a abertura fosse menos
rápida e abrangente (pp. 423-449).
Deng Xiaoping foi um sobrevivente e, ao mesmo tempo, o líder que a China
precisava para se abrir ao mundo. Era preciso aprender com o ocidente para a
China se poder modernizar. Este desejo de modernização alicerçava-se num
profundo patriotismo forjado nas manifestações do 4 de Maio. Deng tinha 14 anos
quando nelas participou em Guang'an e também nos boicotes antijaponeses em
Chongqing no outono de 1919. Este momento-chave da história da então jovem
república chinesa marcou profundamente Deng. Em frança, onde estudou e
trabalhou e conheceu Zhou enlai, este patriotismo foi tornado indissociável do
comunismo, a ideologia que, no seu entender, melhor seria capaz de acabar com a
presença das grandes potências em território chinês e com a fraqueza do governo
central. De seguida, foi para a universidade Sun Yat-sen em Moscovo.
Não deixa de ser uma coincidência histórica curiosa que Deng se tenha
«reformado» da vida política no mesmo dia em que caiu o Muro de Berlim (p.
647). Ao contrário do comunismo europeu que seria derrubado, o PCC já tinha
lidado com a crise aberta em Maio e Junho em Tiananmen. O PCC sobreviveu a esta
crise bem como à morte de Deng em 1997 com 92 anos. Ao contrário do imperador
Mao, Deng Xiaoping pediu para ser cremado, que as suas cinzas fossem envoltas
numa bandeira do PCC e lançadas ao mar (p. 690). Um destino discreto para quem
verdadeiramente revolucionou a China.
NOTAS
*
A pedido da autora este texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
1
Ver Anderson, Perry ' «Sino-americana». In London Review of Books. Vol. 34,
N.º 3, 2012, pp. 20 -22. Consultado em: 27 de Outubro de 2012. Disponível em:
http://www.lrb.co.uk/v34/n03/perry-anderson/sino-americana.
2
Ver Mirsky, Jonathan ' «How Deng did it». In New York Times. 21 de Outubro de
2011. Consultado em: 27 de Outubro de 2012. Disponível em: http://
www.nytimes.com/2011/10/23/books/review/deng-xiaoping-and-the-transformation-
of-china-by-ezra-f-vogel-book-review.html?pagewanted=all.
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