Paix et guerre entre les nations que lições para os europeus?
Publicado em 1962, Paix et guerre entre les nations1 consagrou Raymond Aron
como teórico das relações internacionais. Jean-Baptiste Duroselle2, Stanley
Hoffmann3, Henry Kissinger, Golo Mann, Carl Schmitt e mesmo o general De Gaulle
tinham feito o seu elogio4. No entanto, cinquenta anos depois, o autor e o
livro são negligenciados, se não mesmo esquecidos. Raros são os especialistas
dasrelações internacionais que tomam Aron como modelo. Um deles chegou mesmo a
escrever, a propósito dos realistas americanos, «que [estes] ignoram os
escritos de Raymond Aron e, pior, que até ignoram que ignoram os escritos de
Aron»5. Duas razões podem explicar esta desatenção. Por um lado, o facto de
Aron ter tratado na terceira parte do seu livro ' «Histoire, le système
planétaire à l'âge thermonucléaire» ' a conjuntura da Guerra Fria. Desde o
momento em que esta terminou, a obra parecia pois desatualizada. Por outro
lado, o método aroniano, a sua filosofia crítica da história fundada na
compreensão dos acontecimentos pela análise das intenções dos atores, e a
consciência dos limites da objetividade histórica6, opõe-se à corrente
maioritária da investigação em relações internacionais, que pretende basear a
reflexão na explicação mais do que na compreensão7. Contudo, hoje é preciso
reconhecer que é graças ao seu método, e porque ele captou aspetos permanentes
da situação estratégica da Europa, que Aron continua a dar aos europeus uma
lição de estratégia. Neste ensaio, procuraremos mostrar como, em Paix et guerre
entre les nations, Aron propõe um modelo de prudência sus cetível de inspirar o
homem de Estado em tempos de conflito, e a influência de antigos e modernos no
seu conceito de prudência. Explicaremos depois por que razão Aron, nesta sua
obra fundamental, não manifestou muita estima pelo projeto comunitário europeu.
OS FUNDAMENTOS
Em 1983, pouco antes da sua morte, Aron trabalhava numa apresentação crítica da
Paix et guerre entre les nations. Escolheu começar com uma longa citação de
Rousseau que, nos Écrits sur l'Abbé de Saint-Pierre, expõe «a condição mista do
género humano»: «de homem a homem, vivemos no estado civil e submetidos às
leis, de povo a povo, todos gozam da liberdade natural, o que torna no fundo a
nossa situação pior do que se estas distinções fossem desconhecidas»8.
Contrariamente a Hobbes, que descreveu o estado de natureza como um estado de
guerra, Rousseau mostra «que o estado de guerra nasce do estado social»9 e
adverte que os corpos políticos não são movidos pela fria razão de Estado, mas
pelas paixões, de onde provém a ferocidade das guerras10. Se Hobbes descrevia a
força soberana do Leviatã, Rousseau vê no Estado «um corpo artificial» frágil,
que tem necessidade, para subsistir, da «vivacidade das suas paixões»11. Os
afrontamentos ideológicos do século xx confirmaram esta intuição. Retomando em
Paix et guerrea distinção estabelecida por Panayis Papaligouras, Aron
qualificou o sistema internacional da Guerra Fria como «heterogéneo», visto que
os estados não estavam fundados sobre os mesmos princípios e proclamavam-se de
valores contraditórios12. Aron mostra, na esteira de Rousseau, que é inútil
esperar que uma política internacional racional seja, enquanto tal, uma
garantia de paz ou de moderação. Assim, rejeita tanto o realismo dogmático como
o idealismo messiânico. Aron mostra a fraqueza dos conceitos de poder e de
interesse nacional sobre os quais Hans J. Morgenthau fundamentou a sua teoria
das relações internacionais13. Morgenthau, de facto, não esclarece se o poder é
meio ou fim, nem para quem o seria. Assemelha-se, no fim de contas, a «um
cruzado do realismo»14. Para ultrapassar a antinomia entre idealismo e
realismo, Aron invoca a prudência, virtude essencial do homem de Estado. A
prudência é a compreensão do concreto, associada à consciência das
responsabilidades:
«Ser prudente é agir em função da conjuntura singular e dos dados concretos,
não por espírito de sistema ou por obediência a uma norma ou uma pseudonorma, é
preferir a limitação da violência ao castigo do pretenso culpado ou a uma
justiça dita absoluta, é propor-se objetivos concretos, acessíveis, conformes à
lei secular das relações internacionais e não objetivos ilimitados desprovidos
de significado, como um mundo seguro para a democracia, ou um mundo onde a
política de poder tenha desaparecido.»15
A esta apresentação, orientada contra o idealismo wilsoniano, responde uma
outra, dirigida contra os realistas. A prudência não deve ser confundida com a
pusilanimidade, nem mesmo com a contenção; pode ser brutal, e consiste antes de
mais em ter em conta a realidade no seu conjunto, a fim de conduzir a ação
política com êxito:
«a prudência não ordena sempre a moderação, nem a paz do compromisso, nem as
negociações, nem a indiferença aos regimes internos dos estados inimigos ou
aliados. A diplomacia romana não era moderada; a paz imposta pelo Norte aos
sulistas excluía qualquer compromisso. As negociações com Hitler eram na maior
parte dos casos estéreis ou nefastas. Num sistema heterogéneo, nenhum homem de
Estado pode tomar como modelo Francisco Ialiando-se ao Grande Turco ou
Richelieu mantendo os príncipes protestantes. O verdadeiro realismo, hoje,
consiste em reconhecer a ação das ideologias na conduta diplomático-
estratégica.»16
A vocação de Raymond Aron foi a de defender a sociedade liberal contra as
ameaças totalitárias. Em L'Introduction à la philosophie de l'histoire17, a sua
tese defendida em 1938, Aron acreditava ter encontrado no decisionismo de Max
Weber a resposta que procurava. Mas as diligências de Weber comportavam o risco
do relativismo, ou até do niilismo. Exilado em Londres durante a guerra, e
redator de La France Libre18, Raymond Aron apropria-se da interpretação de
Clausewitz por Hans Delbrück19, segundo a qual sendo a guerra um ato de
natureza política, a ascensão aos extremos é um risco, mas não uma fatalidade.
A partir de 1955, Aron procedeu a uma releitura sistemática do tratado de
Clausewitz, Da Guerra, que lhe inspira o ensaio com o mesmo nome de 1957, em
Espoir et peur du siècle20. Aron tinha-se moderado e, no seu pensamento, a
prudência tinha substituído o decisionismo, como o indica a citação de
Clausewitz que coloca a abrir o ensaio: «Toda a arte militar se transforma em
simples prudência, cujo objeto principal será impedir o equilíbrio instável de
pender subitamente em nossa desvantagem e a semiguerra de se tornar uma guerra
completa.»21
Paix et guerre entre les nationsinscreve-se portanto numa perspetiva realista,
e pessimista, sobre as relações internacionais: «A guerra é de todos os tempos
históricos e de todas as civilizações.»22 Contrariamente a outros teóricos23,
Aron não considerava que o facto nuclear refutasse as conceções
clausewitzianas: «A estratégia de dissuasão é uma prova de vontades, cuja
técnica de armas e de veículos determina as condições mas não o problema.»24 A
chegada da estratégia atómica, conjugada com a permanência das lutas
ideológicas, requeria mais que nunca a virtude da prudência, que Raymond Aron,
na sequência de Aristóteles25, mas também de Edmund Burke26 e de Clausewitz,
colocou no topo das qualidades
políticas. Se o parentesco entre Aron e Aristóteles é difícil de estabelecer, a
relação justifica-se contudo pela ambição teórica comum aos dois autores, bem
como pela atenção que ambos dão ao político; um e outro designam a prudência
como a arte da decisão em situações históricas concretas, sempre únicas e
complexas. Com Burke e Clausewitz, a proximidade é muito maior, são
contemporâneos da Revolução Francesa, na qual Aron, no seguimento de Johann
Plenge27, viu a origem dos conflitos ideológicos que conheceram o seu paroxismo
na primeira metade do século xx. A Revolução Francesa, com efeito, suscitou
pela primeira vez na Europa guerras inexoráveis porque visavam mudar o regime
político dos estados, guerras tanto mais terríveis porque, com o
estabelecimento do recrutamento obrigatório, já não eram só os exércitos mas os
povos que se enfrentavam em massa28. As palavras de Tucídides que Aron tomou
como divisa da revista Commentaire' «Não há felicidade sem liberdade, nem
liberdade sem coragem» ' encontram eco nas cartas de Burke sobre a paz com o
diretório regicida: «There is a courageous wisdom: there is also a false
reptile prudence, the result not of caution but of fiar.»29 Aos olhos de Aron,
Burke e Clausewitz foram os cidadãos recrutados para defender a liberdade
política nos seus respetivos países, contra uma empresa, a da França
revolucionária, depois imperial, que anunciou os totalitarismos do século xx:
«Edmond Burke lutou tanto contra as ideias democráticas como pela sabedoria.»30
Aron dissociava assim Burke do pensamento contrarrevolucionário, para fazer
dele um sábio e ilustre defensor da liberdade política. No mesmo sentido, Aron
também sentiu empatia com o Clausewitz de depois de Iéna, aproximando a sua
situação daquela que ele mesmo tinha vivido em 1940:
«Clausewitz escreveu que doravante, não sendo já o Bürgerde um Estado
respeitado, deveria o seu respeito ao exterior, à compaixão dos estrangeiros,
não gozando já dele como um direito: bastou-me lembrar as minhas experiências
de 1940, a minha chegada a Inglaterra, sem nada mais que o uniforme que levava,
para simpatizar com os sentimentos contraditórios que agitavam o prisioneiro em
França, depois o reformador regressado à Prússia, onde existia um partido que
no século xx se chamaria dos colaboracionistas.»31
Em Paix et guerre entre les nations, Clausewitz é invocado como o teórico de
uma estratégia prudente, que ensina a limitação da violência ao serviço de fins
políticos bem definidos. Trata-se do Clausewitz interpretado por Delbrück, o da
Ermattungsstrategie, ou estratégia de usura, por oposição à
Niederwerfungsstrategie,que visa aniquilar o inimigo, à qual se reduz
demasiadas vezes, no seguimento de Ludendorff, o pensamento do general
prussiano. No contexto da Guerra Fria, a Europa estava dividida, não podia
empreender nada, mas podia resistir. Daí a fórmula «sobreviver, é vencer»32. A
dissuasão, não só nuclear, mas reforçada pela resolução dos cidadãos em
combater pela sua liberdade, permitia usar a vontade de vencer os soviéticos,
até ao dia em que eles renunciassem às suas pretensões revolucionárias:
«Nós não queremos destruir aquele que nos quer destruir, mas convertê-lo à
tolerância e à paz [...], enquanto os dois mundos permanecerem o que são, a
liberdade de que gozam os ocidentais terá um significado subversivo do outro
lado da cortina de ferro...»33
Aprudência de Raymond Aron estava pois, de todos os pontos de vista, enraizada
na trágica experiência europeia da primeira metade do século xx, na qual as
nações europeias se tinham esgotado. Levava-o a desejar a coesão da Aliança
Atlântica, dado fundamental para o equilíbrio de forças, mas sem aderir às
doutrinas americanas, quer tomassem a forma de um messianismo wilsoniano ou do
realismo de Morgenthau. Nesse sentido, Aron não era um atlanticista. Mesmo o
moderado George F. Kennan foi contradito quando declarou num colóquio, em 1957,
que a divisão da Europa era insustentável. Aron replicou que tinha pelo menos o
mérito de ser clara, e que uma divisão clara da Europa era considerada, com ou
sem razão, como menos perigosa. Em resumo, escreve Kennan nas suas Memórias:
«Aron prosseguiu, dizendo que uma situação equívoca seria mais perigosa que uma
situação anómala. Por uma vez, acidentalmente e com pena, do lado dos homens de
Estado.»34 Na ocorrência, Aron não era favorável à divisão da Europa, queria
pelo contrário evitar a qualquer preço reconhecer o domínio soviético sobre a
Europa Central e Oriental, mas julgava necessário manter o dispositivo da
Aliança Atlântica enquanto durasse o conflito ideológico. A questão da
liberdade da Europa é o tema central de Paix et guerre entre les nations.
A LEITURA DA EUROPA
O realismo de Aron levava-o a reconhecer uma parte de verdade na filosofia de
Carl Schmitt fundada na distinção amigo/inimigo. A união das nações que
compunham a Europa Ocidental não seria resultado da ameaça que a urss
suscitava? Aron refere que
«Os novos poderes não ultrapassaram as rivalidades entre os antigos poderes que
se constituem ou se descobrem inimigos. É contra a ameaça da União Soviética
que o bloco atlântico concebeu uma vontade comum. É para recuperar uma
independência em relação aos Grandes que os estados europeus se tentam unir. Se
o conflito dos Gigantes desaparecesse por um golpe de varinha mágica, o que
restaria da integração europeia ou da integração do bloco atlântico?»35
No entanto, Aron contestava a noção schmittiana de inimizade absoluta, e
censurava o filósofo alemão por se comprometer simultaneamente em duas direções
incompatíveis: por um lado, fundamentava a política na inimizade, por outro,
exprimia a nostalgia do jus gentium europæum,do concerto europeu onde os
conflitos eram moderados pelos estados. Escrevia Aron a Carl Schmitt:
«Para retomar a minha terminologia, o sistema europeu devia ser homogéneo. Os
estados deviam repousar sobre o mesmo princípio de legitimidade. Os príncipes
deviam estar mais preocupados em manter a sua comum legitimidade do que em
mobilizar contra os seus irmãos os rebeldes e os revolucionários do outro lado
da fronteira. Estas condições sociológicas exigiam uma rara e transitória
conjunção.»36
Em desacordo com Schmitt, Raymond Aron estava ainda mais afastado das posições
de Jean Monnet, que pretendia criar uma entidade política a partir de um
mercado comum. Este projeto não era compatível com a filosofia aroniana fundada
no primado e na autonomia do político. Em Paix et guerre entre les nations, as
diligências de Jean Monnet são severamente refutadas:
«A esperança que a federação europeia sairá insensivelmente e irresistivelmente
do mercado comum funda-se numa grande ilusão do nosso tempo: a ilusão da
interdependência económica e técnica entre as diferentes frações da humanidade
desvalorizou definitivamente o facto das soberanias políticas, de estados
distintos que se querem autónomos.»37
Raymond Aron não acreditava pois num sentido da história que conduziria
infalivelmente à unificação do Velho Continente; ele lamentava, aliás, que a
Europa comunitária, que qualificou várias vezes de «Europe-croupion»38, fizesse
esquecer a situação do continente no seu conjunto: os europeus de Leste estavam
privados de liberdade, a do Ocidente era precária enquanto durasse o conflito
Este-Oeste pois dependia da aliança americana. Segundo Aron, a vitalidade
política ou histórica da Europa dependia das nações e do espírito cívico,
fundado antes de mais sobre o dever de defesa. Assim, em Nova York, em 1974,
afirmava:
«Os judeus da minha geração não podem esquecer a precaridade dos direitos do
homem, no mundo tal qual existe, quando não coincidem com os direitos do
cidadão. Ora os direitos do cidadão implicam também deveres e, o primeiro de
todos, na tradição continental da Europa, é o dever de servir sob os
estandartes, se o Estado ou as circunstâncias o exigem.»39
Ainda aí ressurgia a recordação de 1940, a afinidade eletiva com Clausewitz,
que tinha conhecido uma situação análoga em 1806 depois da derrota de Iéna, e a
proximidade com Burke, que criticava a abstração dos direitos do homem: judeu
francês, Raymond Aron tinha experimentado em 1940 o desprezo dos seus direitos
cívicos pelo Estado francês dirigido pelo marechal Pétain. Até 1944, a sua
sobrevivência devia-se ao asilo que a Inglaterra lhe concedera. Na mobilização
dos cidadãos para defender o seu Estado e a sua liberdade, estava a dimensão
política que, pensava, faltava ao projeto de Jean Monnet, e que talvez não
recebesse nunca. Aron tinha visto em 1952, no projeto da Comunidade Europeia de
Defesa (ced), a ocasião para uma possível união política, e no fracasso da ced
a certidão de óbito do projeto de Monnet40. Em Paix et guerre entre les
nations, Aron faz o elogio da nação, que lhe parece uma espécie de obra-prima
da história política:
«formadas ao longo dos séculos pela força e pelo sangue vertido, certas nações
modernas redescobriram o segredo da união (nunca perfeita) entre a cultura e a
política, a história e a razão. A nação tem a sua língua e o seu direito, que
recebeu de séculos escoados e que exprimem uma vocação singular. Os cidadãos
querem viver juntos, propor as suas próprias leis para dar à obra humana uma
contribuição que, sem eles, não existiria. Nesse sentido, a nação, como
escreveu R.P Fessard, tem uma vocação, enquanto que a classe não a tem.»41
Toda a fundação política supõe um ato de vontade que não aparece
inadvertidamente. Em Paix et guerre, a Europa comunitária, porque desprovida
desta característica, não é uma resposta ao problema da Guerra Fria, mas antes
um efeito secundário desta e que não pesa na relação de forças mundial:
«Afederação da Europa Ocidental, desejável ou não, contribuirá para a paz ou a
tensão internacional, mas, de qualquer maneira, não modifica a ordem
internacional.»42 Podemos duvidar, ao ler Paix et guerre entre les nations, que
os pais fundadores da Europa comunitária tivessem sequer fundado alguma coisa,
pelo menos no plano político, e no índice do livro nem sequer aparecem. Em
compensação, figuram nomes como Charles de Gaulle, Konrad Adenauer, Winston
Churchill ou ainda Imre Nagy. Só a partir de 1965 é que Raymond Aron infletiu o
seu juízo sobre a construção europeia atribuindo-lhe um certo significado
histórico, porque temia as consequências da política gaulista sobre a coesão da
aliança ocidental. Em 1966, Aron publicou no Figarouma série de artigos,
«L'idée européenne est-elle en train de mourir?»43, que suscitaram da parte de
Jean Monnet uma proposta de ação comum. Aron respondeu polidamente, mas nada se
seguiu: não estava de modo algum convertido à visão de Monnet.
NOTA FINAL
Num contexto diferente do da sua redação, Paix et guerre entre les
nationspermance pois um livro importante. É certo que a Guerra Fria terminou,
que a União Europeia prosseguiu o seu alargamento geográfico e diversificou o
campo das suas competências com novas transferências de soberania. Não deixa de
ser verdade que os europeus continuam a não assegurar a sua própria defesa,
motivo que os remete ainda hoje para os Estados Unidos. Os europeus parecem por
vezes alimentar a ilusão de que as relações comunitárias são um modelo para
todo o mundo, ou mesmo a solução de todos os conflitos; acreditam ou desejariam
acreditar que já não são inimigos. Ora, a nossa condição política é sempre este
«sistema misto» que Rousseau descrevia, no qual as paixões agitam as razões de
Estado. Paix et guerre entre les nationsestá aí para lembrar que a liberdade
dos europeus depende da permanência das virtudes políticas: aos cidadãos, Aron
lembra a exigência do dever da defesa, da dedicação à pátria sem a qual nenhum
direito subsistiria; aos dirigentes, cuja responsabilidade é conservar a
cidade, Aron dá uma lição de prudência. AJean-Louis Missika e Dominique Wolton,
que lhe perguntavam em 1981 o que conviria fazer para que a Europa aumentasse a
sua resolução coletiva, e qual era a condição sine qua nonda sua manutenção,
Raymond Aron respondia:
«Pois bem, lembre-se que, numa democracia, os indivíduos são ao mesmo tempo
pessoas privadas e cidadãos. Ora, o que me impressiona mais é que é quase
impossível, parece-me, em França, dar nas escolas aulas sobre o patriotismo, e
que é provavelmente extraordinariamente difícil, mesmo numa faculdade, dar uma
aula sobre os deveres do cidadão e lembrar que a nossa civilização, na medida
em que é liberal é também uma civilização do cidadão. Enão só do consumidor,
não só do produtor. As nossas sociedades, as nossas democracias, são países de
cidadãos.»44
TRADUÇÃO: JOSÉ AUGUSTO COLEN
NOTAS
1
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Lévy, 1962.
2
Duroselle, Jean-Baptiste ' «Paix et guerre entre les nations: la théorie des
relations internationales selon Raymond Aron». In Revue française de science
politique. Vol. 12, N.º 4, 1962, pp. 963-979.
3
Hoffmann, Stanley ' The State of War. Essays on the Theory and Practice of
International Politics. Nova York: Praeger, 1965.
4
Aron, Raymond ' Mémoires. Paris: Robert Laffont, 1983, pp. 455 e segs. (na
reedição de 2003).
5
Battistella, Dario ' «Raymond Aron, réaliste néo-classique». Communication à la
journée d'études Penser la guerre, Raymond Aron. Paris: ehess, 4 de junho de
2010. O mesmo autor tenta atualizar a diligência aroniana em
duas obras recentes: Un monde unidimensionnel. Paris: Les Presses de Sciences-
Po, 2011, e Paix et guerres auxxiesiècle. Paris: Sciences humaines éditions,
2011.
6
Aron, Raymond ' Introduction à la philosophie de l'histoire.Essai sur les
limites de l'objectivitéhistorique. Paris: Gallimard, 1938.
7
Aron, Raymond ' Leçons sur l'histoire. Paris: De Fallois, 1989, pp. 43 e segs.
8
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Présentation de la huitième
édition, pp. i-ii; Rousseau, Jean-Jacques ' «Écrits sur l'Abbé de Saint-
Pierre». In OEuvres complètes. Vol. iii. Écrits politiques. Paris: Gallimard,
La Pléiade, 1970, p. 610.
9
Rousseau, Jean-Jacques ' «Écrits sur l'Abbé de Saint-Pierre», p. 601.
10
Hoffmann, Stanley ' «Rousseau on war and peace». In The State of War. Essays on
the Theory and Practice of International Politics, p. 64.
11
Rousseau, Jean-Jacques ' «Écrits sur l'Abbé de Saint-Pierre», pp. 605 e 606.
12
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 108; Papaligouras, Panayis
' Théorie de la société internationale. Kundig: Genebra, 1941.
13
Morgenthau, Hans J. ' Politics Among Nations. Nova York: Knopf, 1948; Aron, Raymond ' Paix et guerre entre le nations, p. 584.
14
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 586.
15
Ibidem, p. 572.
16
Ibidem, pp. 586-587.
17
Aron, Raymond ' Introduction à la philosophie de l'histoire.Essai sur les
limites de l'objectivité historique.
18
Aron, Raymond ' Chroniques de guerre. La France libre 1940-1945. Paris:
Gallimard, 1990.
19
Delbrück, Hans ' Die Strategie des Perikles, erläutert durch die Friedrichs des
Großen, mit einem Anhang u¨ber Thucydides und Kleon. Berlim: Reimer, 1890
(reedição Kessinger, 2010).
20
Aron, Raymond ' Espoir et peur du siècle.Essais non partisans. Paris: Calmann-
Lévy, 1957.
21
Clausewitz ' De la guerre. Paris: Minuit, 1955, p. 703.
22
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 157, começo do cap. vi,
«Dialectique de la paix et de la guerre».
23
O almirante Sanguinetti escrevia: «La guerre nucléaire est la négation de la
formule de Clausewitz», porque considerava doravante as forças armadas como
investidas apenas de uma missão puramente dissuasiva, Raymond Aron, numa carta
a Bernard Brodie onde discutira a resposta graduada segundo o conceito de
escalada, concluía: «La stratégie moderne de l'âge atomique nous ramène plus
que jamais à Clausewitz ». Cf. Malis, Christian ' Raymond Aron et le débat
stratégique français 1930-1966. Paris: Economica, 2005, p. 729. E também Sanguinetti, Alexandre ' La France et l'arme atomique.
Paris: Juillard, 1964, p. 21, e Bibliothèque nationale, NAF
28060, Fonds Raymond Aron, boîte 88, carta de Raymond Aron à Bernard Brodie de
23 de novembro de 1965.
24
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 409.
25
Oppermann, Matthias ' Raymond Aron und Deutschland. Die Verteidigung der
Freiheit und das Problem des Totalitarismus. Ostfildern: Thorbecke, 2008.
26
Oppermann, Matthias ' «Burkeanischer Liberalismus. Raymond Aron und die Tugend
der Klugheit». In Bevc, Tobias, e Oppermann, Matthias ' Der souveräne Staat.
Das politische Denken Raymond Arons.Estugarda: Steiner, 2012, pp. 157-179. Ver também Mahoney, Daniel J. ' «Dépasser le nihilisme,
Raymond Aron et la morale de la prudence». In Raymond Aron et la liberté
politique. Actes du colloque international de Budapest. Paris: De Fallois,
2002, pp. 133-147.
27
Plenge, Johann ' 1789 und 1914: Die symbolischen Jahre in der Geschichte des
politischen Geistes. Berlim: Springer, 1916; duas referências
em Paix et guerre entre les nations, pp. 73 e 305.
28
Aron, Raymond ' Les guerres en chaîne. Paris: Gallimard, 1951, pp. 23-25; Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 156,
302 e 393.
29
Burke, Edmund ' Two Letters Addressed to a Member of the Present Parliament on
the Proposals for Peace with the Regicide Directory of France. Londres:
Rivington, 1796, p. 11.
30
Aron, Raymond ' Espoir et peur du siècle, p. 120.
31
Aron, Raymond ' «Clausewitz et l'État». In Annales. Histoire, Sciences
Sociales. Ano 1977, Vol. 32, N.º 6, pp. 1255-1267, p. 1262
para a citação.
32
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, cap. xxii.
33
Ibidem, p. 686.
34
Kennan, George F. ' Memoirs 1950-1963. Nova York: Pantheon, 1972, p. 253.
35
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 740-741.
36
Bibliothèque nationale, NAF 28060, boîte 208. Lettre de Raymond Aron à Carl
Schmitt, 1 de outubro de 1963.
37
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 733.
38
Aron, Raymond ' «Le relatif déclin de l'Europe». In Ranimer l'Europe. Société
amicale des anciens élèves de l'Ecole Polytechnique (A.X.), conférence du 8
juin 1983. Paris: Les Editions d'Organisation.
39
Aron, Raymond ' «Une citoyenneté multinationale est-elle possible?». In
Commentaire. N.° 56, 1991, pp. 695-704, reeditado em Les
Société modernes. Paris: puf, 2006.
40
Aron, Raymond, e Lerner, Daniel (dir.) ' La Querelle de la CED, Essais
d'analyse sociologique. Cahiers de la Fondation nationale des sciences
politiques. Paris: Armand Colin, 1956, pp. 209 e 212.
41
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 736.
42
Ibidem, p. 740.
43
Aron, Raymond ' «L'idée européenne est-elle en train de mourir?». In Le Figaro,
15 de novembro de 1966; Aron, Raymond ' «L'échec politique». In Le Figaro, 17
de novembro de 1966; Aron, Raymond ' «L'Europe des nations». In Le Figaro, 19-
20 de novembro de 1966. Ver também Aron, Raymond ' «Mort ou métamorphose de
l'idée européenne?». In Le Figaro, 7 de dezembro de 1966; Aron, Raymond '
«Garder confiance». In Le Figaro, 12 de dezembro de 1966.
44
Aron, Raymond ' Le Spectateur engagé. Paris: Le Livre de Poche, 2005.
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Portugal
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