Raymond Aron e a sociologia das relações internacionais
Em 1962, é publicada Paix et guerre entre les nations1. Trata-se da obra maior
de Raymond Aron inteiramente dedicada à temática das relações internacionais.
Passados cinquenta anos, cabe-nos perguntar se o pensamento internacional e
estratégico de Aron ainda tem algo que nos possa transmitir à luz dos dias de
hoje? Eserá que quer a figura quer a obra continuam a nutrir e a inspirar os
investigadores em relações internacionais? Em meio século, as Relações
Internacionais registaram progressos notórios, desde logo como disciplina,
tendo-se desenvolvido numerosos programas de pesquisa e aberto múltiplos
«debates» de onde brotaram novos paradigmas, pense-se no construtivismo e no
transnacionalismo, que vieram desafiar as teorias realista e liberal, de que
Aron mais se aproxima. Nesse contexto, poderá ele ser considerado um «clássico»
do pensamento internacional? Tal como Morgenthau, Waltz, Doyle ou Wendt, pese
embora Aron não elabore nenhuma teoria geral das relações internacionais, em
que tão-pouco acredita. De igual modo, importa perguntar se em plena era dos
conflitos «fluidos», da economia globalizada e do terrorismo internacional
ainda vale a pena ler um autor cuja biografia está tão estreitamente ligada aos
conflitos interestatais do século xx, e em particular à Guerra Fria, um período
doravante fechado? Pois então, o que perdurará, em 2012, desse Raymond Aron, o
pensador das relações internacionais2?
DA FILOSOFIA DA HISTÓRIA ÀS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Jornalista e universitário, filósofo e sociólogo, pensador das relações
internacionais e observador da vida política francesa, Raymond Aron pode deixar
a impressão de ser um curioso cuja obra se caracteriza pela dispersão. Logo, o
que têm em comum as suas obras sobre as relações internacionais (Le Grand
débat, Paix et guerres entre les nations, Penser la guerra, Clausewitz ) e os
seus livros sobre a história do pensamento sociológico (Les étapes de la pensée
sociologique), a esquerda intelectual (L'opium des intellectuels) e a sociedade
industrial (Les désillusions du progrès)? O caráter aparentemente heteróclito
da obra aroniana dificulta a sua inclusão num mero campo académico, sobretudo
quando, como na atualidade, se impõem às ciências sociais áreas demarcadas de
especialização.
Em boa verdade, o pensamento internacional de Aron mantém uma estreita ligação
com o remanescente da sua obra, dependente de uma certa visão da história e da
política cuja formulação já decorre da sua tese de doutoramento, intitulada
Introduction à la philosophie de l'histoire e dada à estampa em 19383. Aron
considera a política e, mais especificamente, a política internacional, no
quadro de um projeto teórico ' pensar como se vai fazendo o desenrolar da
história ', um pressuposto fundador da sua tese. Nesse primeiro trabalho,
procura criar uma filosofia crítica da história que não depende de uma visão
determinista e teleológica, mas que tem por objetivo salientar o papel
desempenhado pela liberdade na ação humana. Aliás, mais tarde, Aron há de
considerar ser possível fundar uma ciência política no intuito de compreender a
realidade e, por essa via, esclarecer o juízo do cidadão e do decisor. Conhece-
se a célebre frase de Marx, de que Aron é leitor assíduo, numa posição
simultaneamente crítica e admirativa: «Os homens fazem a história, mas não o
fazem como querem...». Aron deseja que os homens percebam melhor a história que
fazem e disponham de um saber positivo sobre a política, permitindo esclarecer
a sua ação, nomeadamente quanto as escolhas relativas à política externa e à
estratégia militar. O Aron teórico da política não é dissociável do «espectador
comprometido» que pretendia ser, e o seu gosto pela política é determinado por
uma preocupação: entender a ação humana na história, assim como iluminar a
política tal como é vivida e praticada pelos responsáveis políticos e pelos
cidadãos.
Nesse sentido, não se pode perceber o interesse de Aron pelas questões
internacionais e estratégicas sem começar por situá-lo no seu século, um século
xx destroçado pela guerra. Nascido em 1905, morre em 1983. Tem uma vida que se
confunde com os conflitos do século passado. O seu primeiro artigo, publicado
em 1934, na revista científica Revue de Métaphysique et de morale ' refere-se à
objeção de consciência, e a sua derradeira grande obra teórica, publicada em
1976, é um livro dedicada a um dos expoentes do pensamento militar europeu: o
estratega prussiano Clausewitz4.
Quando escreveu esse artigo sobre objeção de consciência, Aron ainda estava
profundamente marcado pelo pensamento político de Alain, cujo pacifismo e, em
geral, sobreaviso em relação ao poder é sobejamente conhecido. Aron está então
a converter-se ao realismo político, na sequência de uma estada na Alemanha
para onde partiu no início da década de 1930 em busca de um tema para a sua
tese. Começou por lecionar em Colónia e depois em Berlim, entre 1930 e 1933,
assiste à ascensão do nazismo e fica-lhe a sensação de não possuir as
ferramentas necessárias para compreender o que está a ocorrer. Apaixonado por
política, lamenta que a sua formação universitária, tendo feito dele um bom
professor de filosofia, não lhe baste para ter uma compreensão cabal dos
acontecimentos políticos que o afetam diretamente, na sua vida de homem e de
cidadão. Profundamente marcado pelas fraturas da história, Aron determina para
si próprio a tarefa de compreendê-las melhor.
A temporada na Alemanha escancara o olhar do cidadão e do pensador. Para além
da política e da história na dimensão trágica que comportam, Aron descobre do
outro lado do Reno tanto a sociologia como a filosofia da história alemã,
representadas por autores como Max Weber (1864-1920) e Heinrich Rickert (1863-
1936), respetivamente. Através da sua leitura, Aron pretende aproximar-se de
uma compreensão autêntica da história e da sociedade. Na sua perspetiva, a
sociologia histórica alemã representa, por um lado, uma alternativa à filosofia
marxismo, postulando a priori um sentido da história, e, por outro, à
sociologia durkheimiana, fortemente implantada em França, destacando a
sociedade em detrimento dos indivíduos que a compõem. Aron considera ambas
essas perspetivas insatisfatórias dado subestimarem o poder da liberdade humana
assim como o papel dos indivíduos na história. Ao reabilitar a liberdade
individual contra o holismo durkheimiano, quando em 1938 defende a sua tese,
Aron suscita a reprobação dos seus professores, plenamente rendidos à causa do
pai da sociologia francesa. Quando regressa da Alemanha, efetivamente Aron já
não é o mesmo homem, nem sequer o mesmo pensador: o professor de filosofia
transmutou-se em pensador político; ao estudante pacifista dos tempos da ens
sobrepõe-se doravante o teórico realista que agora pretende pensar a guerra em
vez de se cingir a denunciá-la.
Durante a II Guerra Mundial, Raymond Aron encontra-se em Londres junto do
general De Gaulle. Torna-se um dos quadros da revista da Resistência: La France
libre. Nesse âmbito, redige numerosos artigos sobre os acontecimentos em curso
e esforça-se por perceber a parada subjacente ao conflito, expressando ao mesmo
tempo o seu empenhamento à causa da liberdade democrática perante os
totalitarismos. Nesse altura, inicia-se verdadeiramente no pensamento
estratégico e no estudo das relações internacionais. Encontram-se vestígios
dessas análises num compêndio de artigos seus editados no La France libre,
publicado logo a seguir à guerra e intitulado L'Homme contre les tyrans5.
Findo o conflito, Raymond Aron continua nessa senda e publica duas obras de
análise sobre a situação mundial: Le Grand Schisme (1948) e Les Guerres en
chaîne (1951). Desde o início da Guerra Fria, é dos primeiros observadores a
destacar a especificidade desse conflito, criando inclusive a celebrizada
fórmula: «Paz impossível, guerra improvável.» Com efeito, Aron explica que
entre os dois grandes vencedores da II Guerra Mundial, os Estados Unidos e a
urss, a paz é impossível porque há uma oposição ideológica radical entre o
liberalismo americano e o comunismo soviético. Contudo, a guerra é improvável
porque os dois «Grandes» estão agora na posse da arma atómica cuja capacidade
de destruição ficou bem patente em Hiroxima e Nagasáqui, em 1945. A bomba
atómica alterou por completo o panorama estratégico na medida em que, de ora em
diante, se tornava possível aniquilar o planeta inteiro pelo facto de premir um
simples botão. O mundo entra então no ciclo da dissuasão nuclear e «o
equilíbrio do terror», teorizado pelo estratega americano da Rand Corporation,
Albert Wohlstetter, cujas teses Aron se encarrega de introduzir em França no Le
Grand débat. Introduction à la stratégie atomique (1963). Aron explica que a
França se deve aliar aos Estados Unidos no intuito de ficar protegida pelo
guarda-chuva nuclear americano, desdobrado sob a alçada da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (nato). Nesse ponto, opõe-se a De Gaulle que, mal
volta ao poder em 1958, aposta na independência estratégica da França em
relação aos Estados Unidos, nomeadamente em matéria nuclear6.
Ao tempo, Aron é um dos principais defensores da democracia americana e um
crítico acérrimo do regime soviético7. Nesse contexto intelectual muito
clivado, entre oponentes liberais (nos quais se inclui Aron) e socialistas
(apoiados entre outros por Jean-Paul Sartre, seu condiscípulo em Normale Sup8),
destina quase todas as suas farpas aos soviéticos, culpados, na sua perspetiva,
de privarem os cidadãos de liberdade em nome de um ideal de igualdade. Ora,
para Aron, nada justifica que se tire aos homens a sua liberdade, nem sequer o
mais nobre objetivo. Entende que o coletivismo socialista está vetado ao
fracasso pois esquece que, no mundo moderno, são os indivíduos quem faz da
sociedade uma entidade simultaneamente livre e ordenada9. A ordem social não se
impõe de cima, através do aparelho de Estado. De igual modo, no entender de
Aron, os socialistas estão equivocados na sua pretensão de transpor a paz
perpétua no mundo, porque a condição humana se nutre do conflito e da
fragmentação das ordens políticas em nações privadas.
UMA TEORIA SOCIOLÓGICA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Paralelamente, a sua eleição como professor de Sociologia na Sorbonne, em 1955,
consagra, após vários anos dedicados ao jornalismo, o regresso de Aron à
teoria. É dessa época o seu novo repto de grau equiparável ao da sua primeira
tese de doutoramento sobre filosofia da história. Projeto através do qual visa
sistematizar a sua abordagem das relações internacionais e da guerra em forma
de um tratado, que publica em 1962 sob o título Paix et guerre entre les
nations10. Com esta obra, Raymond Aron almeja impor em França um campo
específico da ciência política, as relações internacionais, que se havia
implantado desde há muito no mundo anglo-americano, mas que na instituição
universitária francesa havia sido arrebatado pelos historiadores e juristas.
Enquanto Raymond Aron, pela sua parte, advoga em prol de uma teoria sociológica
das relações internacionais: não se trata somente de estudar a história militar
e diplomática, ou ainda as regras jurídicas que estruturam a ordem
internacional, mas sim de analisar as relações que se entretecem ao nível dos
diversos atores que compõem o «sistema internacional». Para Aron, não é
possível fundar uma teoria «geral» ou sistemática das relações internacionais,
comparável às teorias económicas; tão-só uma sociologia histórica estaria
habilitada a fazer juz ao inesperado e à surpresa que caracterizam a vida
internacional11. Explica a sua posição em muitos artigos ainda hoje citados
pelos internacionalistas da atualidade12.
A teoria sociológica de Raymond Aron é, também e sobretudo, uma teoria política
colocando o Estado no centro da análise, entidade que no seu entender constitui
o ator central da cena internacional, pois detém o monopólio sobre os assuntos
militares13. Na ausência de um governo mundial, Aron considera que os estados
vivem permanentemente «à sombra da guerra». Duas figuras estruturam as relações
interestatais: o diplomata, que representa o Estado em tempo de paz; o soldado,
que arvora as cores da nação em tempo de guerra. Aron encara dessa forma as
relações que se mantêm entre os estados, na paz (pelo jogo das diplomacias)
como na guerra (onde se destacam os soldados e estrategas). A sua obra
decompõe-se em duas grandes fases. As duas primeiras partes apresentam os
instrumentos teóricos e as regularidades sociológicas que permitem analisar as
relações internacionais, sejam quais forem as circunstâncias. Na sequência da
obra, a teoria é colocada à prova da história da Guerra Fria, Aron convida por
fim o seu leitor a uma «praxeologia», pela qual se procura «pensar e agir com o
firme propósito de que a ausência de guerra se prolongue até ao dia em que a
paz se torne possível ' supondo haver essa viabilidade, um dia»14.
O último grande repto teórico de Raymond Aron encena um «pico» do pensamento
estratégico: o estratega prussiano Clausewitz, que entende reabilitar com
Penser la guerre, Clausewitz15. A obra organiza-se em dois volumes: o primeiro,
A idade europeia, dedica-se a reconstituir com minúcia o pensamento político e
militar do estratega prussiano; o segundo, A idade planetária, interroga-se
sobre a sua posteridade, num contexto em que a guerra assume múltiplas formas.
A seguir à II Guerra Mundial, a guerra dita «clássica» entre os estados parece
ser de facto suplantada pela ameaça de um apocalipse nuclear, mas também pelas
«guerrilhas» e «guerras populares», nomeadamente entre os impérios europeus
(França, Inglaterra) e as nações colonizadas que aspiram à liberdade. Nesta
obra, Aron é movido pela ambição de pensar a natureza da guerra enquanto
filósofo, reconhecendo, a par disso, na pele do sociólogo, a diversidade das
suas formas respetivas. De igual modo, Aron está convencido que, quando da
redação do tratado, Clausewitz hesita entre duas visões da guerra: a guerra
como «duelo», podendo desembocar na «escalada a extremos»; a guerra como
instrumento da política. Para Aron, no final da sua vida Clausewitz opta pela
segunda: tendo-se esgotado a via diplomática, a guerra seria antes de mais um
meio para resolver um conflito recorrendo às armas. Nesse sentido, o papel do
governante consiste em adaptar os meios militares aos fins políticos, e,
portanto, em identificar muito precisamente o tipo de guerra com que se
depara16.
Esta derradeira grande obra teórica faz ecoar a primeira tese de doutoramento
de Aron, na qual o autor se confrontava com as filosofias alemãs da história.
Aron, o internacionalista e o «estratega», coloca-se na linha reta de Aron, o
filósofo crítico da história, nascido na Alemanha dos anos 1930. Quando se
interessa pelas relações internacionais e pela guerra, fá-lo no prisma de uma
teoria da ação política tão ambiciosa quanto consciente dos seus limites, que
combina os contributos de diferentes ciências sociais para alcançar maior
inteligibildade dos fenómenos observados. O seu pensamento das relações
internacionais e da guerra enquadra-se no projeto mais abrangente de uma
sociologia histórica, focada em proporcionar uma visão inteligível e coerente
da aventura humana que é feita de cooperação e conflito.
UMA POSTERIDADE FECUNDA E CONTROVERSA
Este esboço relativamente ao percurso de Aron leva-nos a fornecer alguns
elementos sobre as críticas de que a sua obra de internacionalista foi objeto.
A esse respeito, convém desde logo notar que o estudo das relações
internacionais é sem dúvida a área em que a posteridade de Raymond Aron é ao
mesmo tempo a mais fecunda e a mais controversa. Fecunda porque Paix et guerre
entre les nations e Penser la guerre, Clausewitz constituem a par de
Introduction à la philosophie de l'histoire, as obras teóricas de Aron mais
citadas e comentadas. Controversa porque se todos os leitores de Aron, o
internacionalista, concordam em vê-lo como pioneiro da disciplina das relações
internacionais em França, uns são da opinião que o seu pensamento mantém toda a
pertinência apesar das evoluções conjunturais, outros, ao invés, acham-no
irremediavelmente ultrapassado17.
No quadro do presente artigo, não nos é exequível apreciar em pormenor a
receção contrastada da obra de Aron. Em contrapartida, podemos contribuir para
esclarecer os elementos essenciais nela envolvidos, partindo de um debate hoje
amiúde descurado, e que a revista Annales organizou por ocasião da publicação
de Paix et guerre entre les nations, em 1962. Algo particularmente interessante
porquanto permite não somente questionar o pensamento internacional de Aron mas
ainda, mais geralmente, o procedimento científico que determinou a sua
construção. De facto, o debate intitula-se «Pour ou contre une politicologie
scientifique», título por si só bastante significativo, e incide sobre as
condições que possibilitariam uma ciência da política e, mormente, das relações
internacionais18. Fernand Braudel, o historiador da «longa duração» ou tempo
longo, e à época diretor da revista, introduziu o debate perguntando-se «se
seria possível reintegrar nos quadros de uma investigação científica [itálico
do autor] a história diplomática e política, ondeante, refúgio de paixões e
juízos gratuitos»19. Segue-se uma compilação de contribuições emanando de
pesquisadores externos à ciência política, no essencial historiadores (Victor
Leduc, Annie Kriegel, Bertrand Renouvin), filósofos (François Châtelet,
Bertrand de Jouvenel) e um sociólogo (Alain Touraine).
As críticas mais interessantes, à luz do debate aberto por Braudel, são aquelas
proferidas por François Châtelet e Alain Touraine. O primeiro saúda a ambição
aroniana por querer fundar uma «ciência da guerra e da paz, inserida numa
ciência mais ampla das relações internacionais que, por sua vez, é um capítulo
de uma ciência política global20. Situa claramente o procedimento seguido por
Aron na esteira de uma teoria política aplicada às relações internacionais,
integrando-se Paix et guerre entre les nations «nessa renovação teórica
contemporânea tendente a fazer com que a teoria não seja uma contemplação
desencarnada e passadista ou uma mera coletânea de resultados, mas antes o
momento reflexivo de práticas que procuram o seu próprio conceito»21. Alain
Touraine louva ainda o mérito de Aron por ter transformado a guerra e as
relações internacionais em «objeto» genuíno das ciências sociais, tendo essas
temáticas sido durante tanto tempo dominadas pelos paladinos de uma história
assente nos eventos e pouco atreita à teoria22.
Reconhecendo a legitimidade do procedimento aroniano, Châtelet e Touraine
criticam contudo o seu teor. Antecipando as críticas de Marcel Merle e Bertrand
Badie, Châtelet aponta a Aron o facto de se basear sobre «a potência
exorbitante dos Estados contemporâneos» e assim «[colocar] entre parêntesis (ou
pelo menos minimizar) as tensões económicas, políticas e sociais que atravessam
dramaticamente o devir das nações e determinam fundamentalmente as decisões dos
governos. [ ]». De tanto querer provar e legitimar a centralidade do Estado,
Aron não é, segundo Châtelet, suficientemente sensível aos movimentos das
sociedades e da economia. Numa perspetiva marxista, Châtelet lamenta inclusive
que Aron não tenha levado suficientemente em conta a luta de classes que, a
nível mundial, opõe as «nações proletárias» às «nações abastadas»23. As
críticas de Alain Touraine realçam também o estato-centrismo de Raymond Aron,
que o conduzem a considerar a fragmentação dos estados como um dado adquirido e
a excluir a possibilidadade de um sistema supranacional, que uma análise
sociológica poderá evidenciar24.
A resposta dada por Aron às críticas dá-lhe a oportunidade de precisar de modo
direto e sintético o seu procedimento. Assim, afirma prezar a epistemologia
weberiana, considerando as ciências sociais como «a compreensão dos sentidos
das ações sem exigir o estabelecimento de leis nem a afirmação de um
determinismo macroscópico»25. Para Aron, o grande mérito de Weber,
comparativamente a Durkheim, é o de incluir na sociologia «a ação política nas
suas relações com o contexto social e as escolhas filosóficas últimas»26. Aron
procura desta forma ultrapassar as oposições, aliás estéreis no seu entender,
entre instituições e acontecimentos, entre história e sociologia, entre
descritivo e normativo. Na sociologia histórica de Aron, são pares que se
combinam para conferir maior inteligibilidade aos fenómenos políticos; em
matéria de relações internacionais, trata-se de tornar compreensível o sistema
internacional dos estados.
Depois, Aron recalca a ideia que já acarinhava quando pôs mãos à obra de Paix
et guerre entre les nations, ou seja, elaborar «os instrumentos conceptuais
graças aos quais a disciplina apelidada de relações internacionais [sem
maiúsculas mas sublinhado pelo autor] encontraria quer o seu quadro quer a sua
especificidade.» O objetivo de Aron consiste em estabelecer a especificidade
das relações internacionais como objeto de estudo, e assim contribuir para a
fundação de uma ciência idónea sustentando-se em diferentes saberes positivos
produzidos pelas ciências sociais. Embora se situe na linha sucessória da
sociologia alemã, Aron inscreve-se num debate aberto pela ciência política
americana das relações internacionais. Visa uma finalidade: renovar a
disciplina, apetrechando-a com um olhar «europeu»27.
O debate sobre a teoria das relações internacionais passa então a ser
estruturado por uma questão basilar: será possível uma teoria das relações
internacionais? A essa questão, a resposta de Aron é sem apelo:
«Não existe teoria geral da conduta estratégico-diplomática, no sentido de
haver uma teoria geral, walrasiana ou keynesiana, da conduta económica, mas é
possível elaborar conceitos fundamentais que ajudem a apreender as relações
internacionais desde que organizadas e constituídas em sistema.»28
Essa resposta desencadeia um verdadeiro abalo junto dos realistas americanos
que, na esteira de Kenneth Waltz ' curiosamente Aron não o cita ', tentam
fundar uma ciência política das relações internacionais combinando behaviorismo
e insumos das matemáticas. Aron não acredita nessa abordagem e recorre a Weber
para expressar o seu apego ao método interpretativo em ciências sociais. Para
Aron, o comportamento humano não pode ser estudado em laboratório ou modelizado
mediante as ferramentas que os economistas, por exemplo, utilizam para analisar
o comportamento dos agentes. Isso é particularmente acertado para a ação
internacional, submetida a acasos, a paixões, ao irracional e a perceções
diversas, ainda que permaneça interpretável e inteligível.
Com efeito e de acordo com Aron, pode existir uma teoria das relações
internacionais que se apoia no acervo metodológico da filosofia, da sociologia
e da história. Em filosofia, Aron considera que a teoria das relações
internacionais deve, em primeiro lugar, fundamentar-se na «análise conceptual»:
importa de facto definir os conceitos-chave (potência, Estado, força ) que
permitem descrever sociologicamente realidades empíricas. Na sua qualidade de
sociólogo, Aron afirma em seguida que os conceitos clássicos desta disciplina
(«expetativa», «papel» ou «valores») encontram perfeitamente o seu lugar nas
relações internacionais. Os homens de Estado não agem no «vazio»:
«Os grupos sociais, dentro de cada Estado, compõem o campo de força no qual se
situa o diplomata; a representação do outro que cada um dos protagonistas tem
em mente é um dos elementos da conjuntura; as organizações internacionais podem
e devem ser analisadas segundo os métodos da sociologia.»29
Nesse sentido, a sociologia das relações internacionais é antes de mais uma
sociologia empírica que consiste em descrever e analisar o papel dos atores na
vida internacional, tal como é uma teoria sociológica visando compreender
fenómenos complexos determinados por múltiplas causas que se entrelaçam no
tempo e no espaço. Nisso, um estudo filosófico e sociológico das relações
internacionais deve restituir as dinâmicas históricas que moldam as realidades
internacionais. Para Aron, o pensador das relações internacionais deve vestir a
pele de historiador para perceber os laços entre os atores e o sistema
internacional assim como a lógica das evoluções políticas e sociais à escala
mundial.
Por conseguinte, o pensador francês contrapõe aos teóricos americanos das
relações internacionais uma «prudente epistemologia da interpretação [que]
rejeita qualquer predição, qualquer determinismo, qualquer raciocínio
monocausal e, em boa verdade, a própria ideia de causalidade»30. O objetivo de
Aron, com efeito, não é o de identificar a causa ou a variável última que há de
permitir explicar tudo, mas sim o de tornar inteligível a realidade
internacional, o que constitui um objetivo simultaneamente ambicioso e
humanamente realizável.
Daí ser legítimo interrogarmo-nos acerca da posição original e complexa de
Raymond Aron no domínio das relações internacionais e, nomeadamente, na galáxia
«realista» com a qual é frequentemente associado. É certo que, tal como a
maioria dos realistas clássicos, Aron denota um estato-centrismo e considera
que a vida internacional, durante a Guerra Fria, se estrutura em torno da
ameaça de guerra, o que o aproxima de autores como Morgenthau ou Waltz31. Mas
quando nos debruçamos sobre a sua epistemologia, verificamos que Aron,
retomando aqui uma fórmula do seu discente Pierre Hassner, é capaz de ser
«demasiado realista» para ser considerado um realista32. A sua reticência
perante as abordagens que acha demasiado escolásticas, formais e afastadas da
realidade empírica, e a sua vontade de articular, à maneira de Weber, o estudo
dos valores e da política de potência, diferenciam-no fortemente, se não mesmo
radicalmente, dos realistas anglo-americanos. Até certo ponto, Aron procura
salientar as simplificações e fraquezas do realismo modelisador anglo-americano
para propor uma visão mais complexa, historicizada e filosoficamente robusta,
da realidade internacional33.
Combinando múltiplas influências, ligado à complexidade do real e pouco versado
naquilo que hoje se designa por debates metateóricos, é dificil classificar e
reduzir a obra de Aron a um ou outro dos paradigmas (realismo, liberalismo,
contrutivismo). Na certeza porém que Aron começa por se inserir na tradição
filosófica que, de Tucídides a Clausewitz, passando por Maquiavel e Hobbes, se
agrega habitualmente ao realismo clássico34; mas a sua defesa da democracia
liberal também lhe confere uma grande proximidade dos liberais. Conforme nota o
prezado e falecido Émile Perreau-Saussine, Aron pretende «enfrentar os grandes
conflitos da sua época sem renunciar ao liberalismo» e, nesse sentido, acaba de
certa forma por ser «a imagem inversa de Schmitt»35. Contrariamente a Schmitt,
Aron não pensa a política por referência à guerra, revirando assim a fórmula de
Clausewitz. Pelo contrário, mantém-se deveras fiel ao estratega prussiano
subordinando a guerra à ação política, esforçando-se ao mesmo tempo em pensar a
«zona de sombra» do liberalismo36. Se Schmitt «opõe ao primado liberal da
discussão e do compromisso um primado de soberania, decisão que põe cobro a
todas as discussões»37, Aron entende ao invés que a cooperação, pela ação do
diplomata, deve sempre anteceder o recurso à força. Por fim, fazendo valer o
papel das ideias e da intersubjetivididade nas relações internacionais, Aron
prefigura a abordagem construtivista de Alexander Wendt38.
NOTA FINAL
Esta posição original, na confluência de diferentes paradigmas, contribui sem
dúvida para explicar que Aron não tenha verdadeiramente fundado uma escola de
pensamento. Se existe alguma abordagem «aroniana» das relações internacionais,
então caracteriza-se menos pelos conteúdos do pensamento do que pelo apego ao
método acima exposto. Na história do pensamento internacional, Aron foi assim o
precursor de uma abordagem francesa das relações internacionais, na qual o
gosto pelas questões teóricas se articula com uma apetência pela empiria
sociológica e pela reflexividade histórica. Aron abriu a via para uma teoria
sociológica das relações internacionais que dista bastante da abordagem
abstrata dos investigadores da América do Norte bem como da abordagem dos
eventos inspirada na história diplomática tal como Duroselle e Renouvin a
praticavam em França. Em última análise, a leitura que podemos fazer da obra de
Aron depende da visão que temos das relações internacionais enquanto disciplina
ou ramo da ciência política: os adeptos das modelizações matemáticas, como os
sociólogos desconfiados em relação à teoria, consideram Aron como o
representante de uma tradição e de um mundo que se consumiu. Em contrapartida,
aqueles que, tal como o autor das presentes linhas, pensam as relações
internacionais em ligação com a história e a filosofia políticas, esses sim
estão inclinados para ver em Aron os primórdios de um método interpretativo que
continua a dar frutos.
Tradução: Patrícia Roman
NOTAS
1
NdT: dada a escassez de traduções para a língua portuguesa editadas em
Portugal, mantiveram-se os títulos originais das obras citadas.
2
O presente texto apresenta em moldes sintéticos alguns elementos constantes do
meu artigo intitulado «Aron, um clássico do pensamento internacional?»,
publicado em setembro de 2012 na revista Études internationales.
3
Launay, Stephen ' «Raymond Aron: from the philosophy of history to the theory
of international relations». In Mahoney, Daniel e Frost, Brian J. (eds.) '
Political Reason in the Age of Ideology: Essays in Honor of Raymond Aron on the
100th Anniversary of his Birth. Londres: Transaction Publishers, 2007, pp. 195-
210.
4
Aron, Raymond ' Penser la guerre, Clausewitz, vols. 1 e 2. Paris: Gallimard,
1976.
5
Aron, Raymond ' L'Homme contre les tyrans.Paris: Gallimard, 1946 (retomado em
Penser la liberté, penser la démocratie.Paris: Gallimard,
2005).
6
Malis, Christian ' Raymond Aron et le débat stratégique français. 1930-1963.
Paris: Economica, 2005.
7
Soutou, Georges-Henri ' «Raymond Aron et la guerre froide». In Les Cahiers de
Saint- Martin. N.º 3, abril de 1991, pp. 127-136.
8
NdT: ENS ' École Normale Supérieure, conceituada instituição de ensino
superior, vocacionada para os estudos doutorais e um marco no panorama da
investigação francesa onde se formaram muitas elites intelectuais.
9
Aron, Raymond ' Essai sur les libertés. Paris: Calmann-Lévy, 1965.
10
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Lévy, [1962],
2004.
11
Busino, Giovanni ' «Between theory and history in the field of international
relations». In Journal of Regional Policy. N.º 2, 1987, pp. 185-196.
12
Aron, Raymond ' «Une sociologie des relations internationales». In Aron,
Raymond ' Les sociétés modernes. Paris: PUF [1963], 2006, pp. 1049-1066; Aron, Raymond ' «Qu'est-ce qu'une théorie des relations
internationales?». In Aron, Raymond ' Les sociétés modernes. Textes rassemblés
et introduits par S. Paugam. Paris: PUF [1967], 2006, pp. 853-875 e Aron, Raymond ' «Les tensions et les guerres du point de vue de la
sociologie historique». In Aron, Raymond ' Les sociétés modernes, pp. 877-903.
13
Richter, Melvin ' «Raymond Aron as a political theorist». In Political Theory,
vol. 12, n.° 2, 1984, pp. 147-151.
14
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, Paris: Calmann-Lévy, [1962],
2004, p. 770.
15
Aron, Raymond ' Penser la guerre, Clausewitz, vols. 1 e 2.
16
Durieux, Benoît ' Clausewitz en France.Deux siècles de réflexion sur la guerre.
1807-2007. Paris: Economica, 2008.
17
Roche, Jean-Jacques ' «Raymond Aron, un demi-siècle après Paix et guerre entre
les nations» (1.ª parte). In Revue de défense nationale. N.º 736, 2011, pp. 7-
18, e Roche, Jean-Jacques ' «Raymond Aron, un demi-siècle
après Paix et guerre entre les nations» (2.ª parte). In Revue Défense
Nationale. N.º 737, 2011, pp. 11-22.
18
Nas décadas de 50 e 60 do século xx, quando se define aqueles que praticam a
ciência política ainda não se usa o termo «politólogo» nem sequer, por maioria
de razão de «politistas*», antes se fala em «politicólogo*», de onde o termo
«politicologia» usado por Braudel enquanto* para* como sinónimo de ciência
política.
19
Braudel, Fernand et al.' «Pour ou contre une politicologie scientifique». In
Annales. Vol. 18, N.º 2, 1963, p. 119.
20
Intervenção de François Châtelet, inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre
une politicologie scientifique», p. 120.
21
Intervenção de François Châtelet, inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre
une politicologie scientifique», p. 123.
22
Intervenção de Alain Touraine,inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre une
politicologie scientifique», p. 485.
23
Intervenção de François Châtelet, in Braudel, Fernand et al.' «Pour ou contre
une politicologie scientifique», p. 125.
24
Intervenção de Alain Touraine, inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre une
politicologie scientifique», pp. 486 e seguintes.
25
Intervenção de Raymond Aron, inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre une
politicologie scientifique», p. 491.
26
Intervenção de Raymond Aron, inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre une
politicologie scientifique», p. 491.
27
Badie, Bertrand ' «Raymond Aron, penseur des relations internationales. Un
penseur à la Française?». In Études du CEFRES. N.º 5, 2005, pp. 3-10.
28
Aron, Raymond ' «Une sociologie des relations internationales». In Aron,
Raymond ' Les sociétés modernes, Paris: PUF, [1963], 2006, pp. 1049-1066.
29
Intervenção de Raymond Aron, inBraudel, Fernand et al.' «Pour ou contre une
politicologie scientifique», p. 492.
30
Badie, Bertrand ' «Raymond Aron, penseur des relations internationales. Un
penseur à la Française?». p. 9
31
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32
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37
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38
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Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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Portugal
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