Tucídides no século xx?: Teoria e praxeologia em Raymond Aron
GÉNESE: BUSCA DE UM MODELO DE ANÁLISE
Tucídides justificava a sua obra com a necessidade de aprender as lições dos
acontecimentos, mas nunca explicitou as lições aprendidas com a Guerra do
Peloponeso1. A maioria das obras políticas de Raymond Aron escritas nas
vésperas da Guerra Fria também oscila entre a meditação do passado e a
prospetiva2. São livros de uma história que busca guiar a ação política. É
difícil dizer que contêm uma visão sistemática. No entanto, revelou-se
impossível ao autor investigar tão longamente o fenómeno da guerra sem formular
a teoria subjacente3.
A origem das interrogações teóricas pode estabelecer-se, depois dos livros Le
Grand schisme4 e Les Guerres en Chaîne5, num conjunto de artigos dos anos 1950
sobre a metodologia das relações internacionais6. Nesses artigos, onde começa a
definir a base conceptual da sua teoria, enumera as questões que uma análise
das relações internacionais deve incluir: político-estratégicas, ou político-
ideológicas7. E, a partir das variáveis fundamentais que definem o campo
diplomático, desenvolve uma análise combinatória das respostas possíveis.
Finalmente, em 1962, esses ensaios acabam por dar origem a uma grande obra
teórica e sistemática. É a Paix et guerre entre les nations,a «obra-prima»,
comparável ao trabalho que os oficiais das corporações apresentavam para se
elevar à categoria de mestres8. O centro dessa teoria é uma provocação à ideia,
politicamente correta, da Unesco de que «a guerra começa nos corações dos
homens».Aron crê que a guerra deve ser antes conceptualizada como fenómeno
específico, que ocorre em todas as civilizações, ainda que sob formas muito
diferentes, e propõe-se fazer uma sociologia histórica. O conteúdo do livro
começa a tomar forma numa conferência de 1957 na London School of Economics,
onde parte da afirmação de Comte acerca da incompatibilidade entre a sociedade
industrial e a guerra. O texto propriamente dito nasce nas lições da Sorbonne
nos anos de 1958 («a teoria») e de 1959 («a sociologia»)9, que se vertem nas
primeira e segunda partes da obra. As lições são emitidas pela Radio Sorbonne e
transcritas. Em 1960-1961 está de licença sabática em Harvard e, quando
regressa, redige depressa as secções sobre a «história» e a «praxeologia».Estas
quatro partes, a teoria(conceitos e sistemas), a sociologia(busca de
determinantes e regularidades), a história(da idade atómica), e a praxeologia
(teoria ou antinomias da ação diplomática e estratégica), que constituem o
grosso das densas páginas do extenso livro, são precedidas de uma
introduçãolonga, que desenha os diferentes níveis de análise, e termina com uma
nota final, que é uma crítica das aplicações da teoria dos jogos às relações
internacionais. É uma construção imponente como uma catedral gótica e é
certamente a sua obra mais ambiciosa. Mesmo que à morte julgue ter exagerado o
alcance do seu contributo, não há dúvida que tentou elaborar uma referência
teórica para a política internacional. As relações internacionais eram já uma
disciplina académica nos Estados Unidos. Contudo, se «tempos conturbados
incitam à meditação»10, nenhuma «grande obra», dizia ele, tinha surgido ainda
comparável à Repúblicae à Política,suscitadas pela crise da cidade grega, ou ao
Leviatãe ao Tratado Teológico-Políticoque nascem no período das guerras de
religião11. Embora já não faltassem livros e manuais, estes tendiam a ser
descritivos, e «nenhuma ciência se limita a descrever ou narrar»12. Os
especialistas, como em todas as disciplinas científicas, desejam «atingir
proposições gerais, criar um corpo de doutrina»13, distinguindo regularidades e
aspetos acidentais. Para isso não basta a referência ao quadro espacial ou
geográfico, utilizado pela geopolítica, então corrente. Outra limitação das
obras então existentes é que os teóricos (como Morgenthau) tendiam a
concentrar-se nos elementos racionais da estratégia e Aron, pelo contrário,
defende que se deve procurar uma perspetiva sociológica, incluindo também os
aspetos «irracionais», que permita superar a dicotomia entre realismo
maquiavélico e idealismo ou moralismo14. Aron, procedendo da análise formal à
determinação das causas e à aplicação a uma conjuntura singular, a idade
atómica, «espera exemplificar um método, aplicável a outros objetos»15 da
teoria política. Começa por tentar clarificar qual o objeto da teoria. As
relações internacionais não têm fronteiras traçadas na realidade, mas as outras
ciências humanas, como a economia, não as têm também. As relações entre estados
exprimem-se pelas ações de «indivíduos simbólicos», o soldado e o diplomata16,
e possuem um traço específico que a define: a «sombra da guerra». Enquanto no
interior do Estado há monopólio da violência legítima, aos estados reconhece-se
a legitimidade da guerra. Esta é a diferença essencial entre a política interna
e a externa: a primeira assenta sobre a subordinação do homem ao governo da
lei, a última aceita a pluralidade dos centros da força armada e visa «a
simples sobrevivência dos estados face à ameaça virtual criada pela existência
dos outros estados»17. Quer dizer, em termos hobesianos, que os estados ainda
não saíram do estado de natureza18.
Raymond Aron define em seguida os níveis de análise a aplicar a este objeto,
teoria, sociologia, história, e praxeologia, por analogia com a economia ou o
desporto19, para concluir que não há apenas um objetivo (maximização da
utilidade, vitória), mas vários fins. Palavras equívocas como «interesse
nacional», que ora significam segurança, ora poder, podem esconder mas não
apagar essa pluralidade, que obsta a uma ciência que seja um mero cálculo dos
meios. Oque não impede de elaborar uma teoria do tipo racional, mas «na
ausência de um objetivo unívoco da conduta diplomática, a análise racional das
relações internacionais não está em posição de se transformar numa teoria
global»20.
Anotemos aqui uma ideia que parece essencial. É costume observar que «a ciência
política assumiu com frequência que o homem político persegue o interesse
público. A economia assume que todos os homens perseguem os seus interesses
privados»21. As tentativas de aplicar os métodos da economia à esfera política
aceitam o pressuposto de que o comportamento dos agentes é racional e
interesseiro. Tal como na economia esta «simplificação é necessária para a
previsibilidade do comportamento»22. Justificar-se-ia porque os comportamentos
não racionais não formariam nenhum padrão. Outros autores não são tão
taxativos23, mas a preocupação (aqui expressa por Mueller) em manter um só
«modelo de homem» e evitar uma situação «Hyde e Jeckill» está muito difundida
entre os autores que buscam uma ciência social quantificada24.
Aron, ao invés, não só não deseja evitar tal dicotomia, como defende a ideia
ainda que o homem é «muitas coisas», estratega, diplomata, governante, cidadão,
e persegue fins diferentes em diferentes áreas. Oque não obsta à descrição de
padrões de comportamento, nem impede a sua «estilização» conceptual. Defende
mesmo a incorporação das dimensões não racionais na formação de modelos de
ação. É nesse sentido que fala da sua teoria da guerra como um trabalho de
«sociologia histórica»25.
ESTRUTURA: UMA TEORIA COM DIFERENTES NÍVEIS
A primeira parte da obra começa por uma discussão dos conceitos26. Aron parte
da definição de guerra de Clausewitz, «ato de violência para compelir o
oponente a fazer a nossa vontade»27, para mostrar que a distinção entre
estratégia, arte de vencer, e diplomacia, arte de convencer, é apenas relativa,
comportando ambas um elemento psicológico: só está vencido aquele que se
reconhece como tal. Depois distingue as guerras absolutas das guerras reais '
por exemplo: diferentes armas se usam em diferentes circunstâncias ' e a
reciprocidade da relação entre guerra e intenções políticas. Se a guerra é «a
política por outros meios», não só a política governa a conceção do conflito no
seu conjunto, mas orienta a condução das batalhas concretas. Inversamente, é
igualmente verdade que as políticas se adaptam aos meios disponíveis.
Desejando evitar equívocos e falsas analogias verbais, distingue poder, força e
potência28: o poder político é uma relação humana, a força é o conjunto dos
meios, as armas do Estado; os estados que reconhecem as respetivas soberanias
não têm poder ou autoridade sobre os outros. Esta destrinça parece-lhe
fundamental. Em controvérsia com Morgenthau tenta depois uma enumeração, que
não seja historicamente datada, dos «fatores de potência» e sugere três: o meio
geográfico; os recursos; a capacidade de ação coletiva. Todos estes fatores
contribuem para a «potência do Estado», que depende tanto do teatro de
operações, como da sua capacidade para usar os meios que tem à sua disposição.
O mesmo aparelho conceptual pode servir também para a análise das unidades
políticas em tempo de paz. Os meios considerados legítimos, todavia, alteram-se
em tempo de guerra. Em paz, ainda assim, uma «diplomacia total» inclui meios
económicos, infiltrações (balcanização), métodos psicológicos (violência
simbólica) e o favorecimento da guerrilha ou do terrorismo.
As tentativas de quantificação, todavia, parecem-lhe votadas ao fracasso: o
conceito de potência, mesmo claramente definido, escapa à medição, que se
rodeia sempre de incertezas29.
Aron ensaia também uma enumeração dos finsvisados na política externa:
segurança, poder e glória, que têm como objeto, respetivamente, o espaço, os
homens e as almas e que lhe parecem «supra-históricos» ou mesmo «eternos».
Todavia, «se a conduta diplomática nunca é apenas determinada pela relação de
forças, se a potência não é o âmbito da diplomacia como a utilidade a da
economia, então a conclusão legítima é que não há teoria geral das relações
internacionais, comparável à teoria geral da economia»30.
O autor conclui a teoria com a caracterização dos sistemas internacionais.
«Sistema internacional», na sua definição é «o conjunto constituído pelas
unidades políticas que mantêm, umas com as outras, relações regulares e que são
suscetíveis de ser implicadas numa guerra geral»31. É o cálculo das forças face
a uma guerra possível, tal como é feito pelos principais estados, que define a
configuração desse sistema. O seu primeiro traço é ser sempre oligopolístico:
há uns poucos atores que têm o poder de determinar o sistema, em vez de apenas
o «sofrer» passivamente. A sua configuração resulta da combinação de duas
variáveis: a relação de forças (multipolar ou bipolar são formas típicas)32 e a
homogeneidade do sistema (unidades da mesma natureza ou distintas)33. É
importante relembrar que a teoria de Aron, formada no contexto de um mundo
bipolar, é uma das poucas teorias de relações internacionais, incluindo as
formalizações baseadas no jogo entre dois players,que resistiu bem à sua
dissolução, porque desde o início identificou esse sistema como uma
«constelação transitória»34.
Os sistemas multipolares assentam em diferentes equilíbrios, que podem ser
invertidos por alterações das alianças. A Grécia da Guerra do Peloponeso é
paradigma dessas inversões. Mas a própria Europa, desde o fim das guerras de
religião até à Revolução Francesa, constitui um sistema internacional
multipolar e homogéneo: a balança das potências é constituída por monarquias
absolutas com alianças entre si. Desde 1945, porém, o sistema internacional é
bipolar e muito heterogéneo, apesar de a Carta das Nações Unidas reconhecer a
todos os estados uma homogeneidade jurídica artificial e atribuir um assento
igual na sua assembleia a estados-continentes e a pequenas nações quase
tribais.
Devem distinguir-se claramente os sistemas internacionais dos sistemas
«transnacionais»35, que abarcam os fenómenos que se incluem hoje sob a
designação de «globalização», económica ou cultural. Estes últimos são
constituídos por relações entre os «indivíduos» que constituem os estados e são
reguladas pela lei internacional privada. A sociedade helénica de Tucídides,
baseada em trocas comerciais, migrações, crenças comuns e organizações (jogos,
oráculos) que atravessam fronteiras, seria um caso típico.
O sistema internacional, por contraste, é regulado, não por leis privadas, mas
pela lei internacional pública, que assenta em tratados entre estados. Ambas as
leis podem parecer semelhantes aos juristas, mas há uma diferença
significativa: a lei internacional não tem interpretação indisputada nem
sanções efetivas. Pode declarar-se uma guerra ilegal e considerá-la um crime36,
como se fez aquando da Liga das Nações, mas não passa de um formalismo
jurídico, rapidamente abandonado, se não há possibilidade de obrigar à
aplicação da lei.
Raymond Aron esforça-se por enunciar os elementos que definem uma configuração
de forças, ora bipolar, ora multipolar: i) a caracterização dos atores; ii) a
mobilização de recursos; iii) a natureza dos conflitos; iv) o diálogo entre as
potências. E os que definem a homogeneidade ou heterogeneidade dos sistemas: i)
a extensão; ii) os regimes políticos; iii) a rivalidade ou diálogo. E analisa
as regras ou princípios da estratégia37. Todos estes fatores são complementares
entre si e desenham uma «constelação histórica», na qual se dá uma dialética da
paz e da guerra.
Registe-se o uso da expressão «constelação» para designar um agregado
individual e irrepetível, de recorte conceptual. Estas constelações não são
objetos, são recortes sobre o real, como os «tipos ideais» weberianos, e
traduzem-se, quando muito, numa categorização. Uma tipologia desse género pode,
por exemplo, considerar três tipos de paz: por equilíbrio, por hegemonia, ou
pelo império. E também três tipos de guerra: interestadual, imperial, ou
infraestadual. Na guerra o «princípio» definidor é tradicionalmente a potência.
Mas a mudança da tecnologia de guerra acrescenta outros dois princípios
possíveis: a paz pelo terror, e a paz por satisfação38. A «lei dos
antagonismos» traduz-se em estratégias de dissuasão, persuasão e subversão. Na
interseção destes princípios encontra-se a «Guerra Fria»39. Esta é
essencialmente diferente das outras constelações históricas do passado, porque
nunca houve até então um sistema internacional à escala do planeta.
No segundo nível de análise, Raymond Aron procura descobrir os determinantes
por detrás da aparente anarquia das relações internacionais ' espaço, população
e recursos ' e segue o percurso das «regularidades» sociológicas em três
âmbitos: nações, civilizações e a humanidade.
O protótipo deste género de análise, hoje clássico no âmbito dos estudos
empíricos sobre a democracia, é o da relação entre regime e guerra ou regime e
crescimento económico40. Para Aron, os resultados da observação:
«não comportam senão lições negativas. Deveriam pôr em guarda atores e
historiadores contra as perspetivas sistemáticas e parciais; não nos
proporcionam nenhuma proposição geral, lei ou constância, relativa à conduta
estratégico-diplomática seja acerca de um tipo de unidade política, seja de um
regime económico, social ou militar»41.
Contra Spengler e Toynbee também não deteta padrões óbvios na evolução das
civilizações42, para além da banalidade de que nascem e morrem. E, num ensaio
de antropologia da guerra43 contesta que do reconhecimento de que o homem é
agressivo por natureza se possa deduzir que faz a guerra por instinto. É talvez
contrário à natureza humana que o perigo da violência seja definitivamente
removido, porque os homens preferem às vezes a revolta à humilhação44, mas
daqui só decorre que não têm fundamento nem os mitos otimistas, nem os
pessimistas.
A «catedral gótica» a que comparámos a sua teoria inclui ainda, como arcos
botantes assentes nos contrafortes, um nível histórico sobre a conjuntura da
Guerra Fria. Apalavra «História» é enganadora: na terceira parte da Paix et
guerreretoma a análise dos efeitos que as novas bombas atómicas têm sobre o
panorama estratégico, que embora não alterem nem a natureza dos homens, nem a
das unidades políticas45, têm no entanto consequências importantes sobre as
suas relações. A secção histórica da obra é pois sobretudo uma análise das
convenções não escritas da Guerra Fria.
PRAXEOLOGIA: ENTRE OS CONSELHOS AOS PRÍNCIPES, O ESTUDO DOS MEIOS E A PAZ
PERPÉTUA
A abóbada da construção, todavia, é o esforço por delimitar o que pode ser a
dimensão política práticaou normativaque se deduz da teoria.
Uma teoria não é um acumulado de enunciados. Se é capaz de desvendar um
«mecanismo», torna-se capaz de retirar corolários práticos46. [Toda a teoria em
ciências sociais]
«contém em si implicações normativas. Mas segundo a natureza das condutas
humanas de que a teoria é a compreensão sistemática, a passagem das proposições
de facto aos imperativos reveste um caráter diferente e os imperativos são
conselhos, mais ou menos incertos, ou preceitos, fundados sobre regularidades
ou evidências»47.
Para Raymond Aron uma teoria das relações internacionais não pode senão ter o
primeiro tipo de corolários normativos, o que poderíamos chamar «conselhos aos
príncipes» por oposição ao saber dos «confidentes da Providência» que julgam
deter o segredo íntimo da realidade política. Esta possui, ao menos, dois
motivos de indeterminação: a existência de situações singulares e irrepetíveis
e a pluralidade dos fins48.
A última parte da obra debruça-se, portanto, sobre as antinomias que resultam
de uma história violenta e de um ideal pacífico. Começa por abordar a oposição,
comum sobretudo na literatura americana (Kennan, Morgenthau), entre idealismo e
realismo no âmbito internacional49, e depois o problema do pacifismo nas
circunstâncias da idade termonuclear50. Estes textos são uma apologia da
prudência, virtude do estadista, que considera a situação particular, prefere a
limitação da violência à punição, e é capaz de definir objetivos alcançáveis e
não destituídos de sentido ou formulados como slogans(«um mundo seguro para a
democracia»). Condena no mesmo ato o pacifismo absoluto, preferindo uma moral
da responsabilidade à moral da convicção.
Os capítulos que dedica ao problema dos meios, i. e., a esboçar uma estratégia
que tenha as melhores hipóteses de sucesso, dado o duplo objetivo de não
originar uma guerra total e não sucumbir51, são escritos a partir da perspetiva
das democracias liberais. Formulam o núcleo de uma praxeologia para um mundo
bipolar. Os textos finais, mais filosóficos, sobre a paz pela submissão à lei
internacional e a paz pelo império, procuram examinar as condições de submissão
dos estados à lei. A solução alternativa seria a submissão a um império
completo. Ambas lhe parecem utopias contrárias à natureza do homem: não há
sociedade sem inimigos.
O modelo teórico de Aron deve muito à escola americana de relações
internacionais, mas revela também uma forte influência do esforço de teorização
da guerra de Clausewitz52. Mais tarde, porém, reconhece que a utilização que
fizera dos modelos do autor prussiano, quer na Espoir et peur du siécle,quer na
Paix et guerre, o tinha deixado insatisfeito53. Por isso regressará a
Clausewitz, em busca de uma teoria da praxisque deixe espaço para a mudança
histórica, o acaso e a paixão humana54. A segunda parte desta nova obra será
uma análise do tratado em função de três antíteses ou pares de conceitos: meios
e fins, moral e física, defesa e ataque; e a terceira parte é uma análise do
que chama a «teoria projetada»: a análise das relações entre teoria e leis,
teoria e história e teoria e doutrina55. Esta nova obra contém talvez o exemplo
mais acabado do que poderia vir a ser uma teoria política de corolários
normativos (uma praxeologia).
A contribuição de Raymond Aron para o estudo das relações internacionais é
provavelmente um dos aspetos da sua obra melhor estudados56. Hoffmann afirma
que, por contraste com os estudos anglo-saxónicos, a teoria aroniana é
simultaneamente mais audaciosa e mais modesta. A audácia está na apresentação
de uma teoria gerala partir do que considera a especificidade das relações
internacionais57. A modéstia radica não só no enfraquecimento do poder
determinante do sistema internacional sobre as unidades, mas sobretudo na ideia
de que é impossível transformar a disciplina num ramo de ciência hipotético-
dedutivo de forma matemática análogo à economia58.
Quando Aron escreve os primeiros textos propriamente teóricos59 este território
é até então ocupado essencialmente por historiadores e juristas, menos
frequentemente por economistas. Em França este terreno foi, pode dizer-se,
desbravado por Aron60, mas a sua abordagem é também original quando comparada
com os estudos americanos que o precedem: é mais vasta e mais subtil. De facto,
impressiona a vastidão de horizontes, que não foge ao diálogo com as grandes
obras de filosofia política clássicas, incluindo Hobbes, Rousseau, Espinosa e
Kant.
Com uma linhagem «realista» ou pragmática que se inicia em Tucídides,
Maquiavel, Hobbes ou Weber e representada pelos contemporâneos Hans Morgenthau
e George Kennan, Aron compartilha a importância atribuída à força, à
necessidade do seu cálculo, a natureza utópica de uma «moral da lei» ou de uma
paz pelo direito, o peso reconhecido aos fatores geopolíticos e até uma certa
«personificação» da inteligência do Estado. Diferencia-se da Realpolitikporque
não crê na busca do poder pelo poder, como essência de toda a política,
distinguindo entre os equívocos do poder interno e externo, potência como fim e
como meio, e desmistificando conceitos como o de «interesse nacional» e
análogos, que considera essencialmente ideológicos.
Também não retira consequências normativas fortes, ao contrário dos teóricos
americanos: as lições da história são precárias. Nem sequer considerava firme a
distinção entre «variáveis endógenas e exógenas»61, porque não se podem reduzir
as relações entre os estados a meras relações de força. Considera, sobretudo,
que duas questões, a natureza do regime e a ligação entre guerras civis e
interestaduais, têm grande poder explicativo. Por outro lado, distingue mais
claramente o campo interestadual do sistema económico mundial, que refere antes
à sociedade transnacional e não avalia como um jogo de soma nula. Por isso,
também não pertence à chamada «escola da interdependência», que mistura os dois
domínios ' devido ao ceticismo de Aron em relação à subjacente teoria do
imperialismo, no fundo leninista.
O distanciamento da escola realista, contudo, não o insere na escola moralista
ou idealista, à maneira de Kant, mesmo se nunca perfilha o amoralismo realista,
nem a moral do combate62. Com efeito, levanta tanto «o problema maquiavélico»,
o dos meios legítimos, como «o problema kantiano», o da paz universal. As
consequências normativas da teoria são definidas pela antinomia entre ideal
pacífico e história violenta, as restrições da ação do homem de Estado
«responsável pelos interesses do seu país num mundo onde o recurso à força
continua a ser possível e legítimo, e a exigência moral que protesta contra a
anarquia sangrenta do meio internacional e aspira à paz universal»63.
Mas exaspera-se face às receitas fáceis do idealismo pacifista, que ignoram o
peso das restrições da ação e creem ser possível resolver o problema político
de uma vez por todas. Estranha as análises do observador situado em Sirius.
Põe-se na posição do homem de ação e pergunta-se sobre «o que faria?», sabendo
que não há obrigação moral de fazer o impossível. Tem, mesmo assim, uma moral a
propor, a moral da sabedoria, e extrai corolários normativos concretos, ainda
que situados numa conjuntura definida, talvez não universalmente válidos64.
Cada um dos problemas «comporta múltiplas soluções, nenhuma absurda, nem
perfeita»65. O que não significa que todas sejam equivalentes e que tout
comprendre c'est tout excuser. A razão não pode apreciar os arranjos complexos
de um sistema político segundo um único critério, mas nem por isso deve abdicar
gratuitamente dos seus poderes66.
E Aron também não conclui que seja fecunda a aproximação da teoria política à
ciência económica, nomeadamente pela utilização de conceitos como a «lógica da
escolha», o princípio do equilíbrio67, ou variáveis exclusivamente
quantitativas. Chega a afirmar que tal género de modelos «não oferece uma
imagem simplificada ou esquemática das condutas políticas, deforma, falsifica
essas mesmas condutas»68. Na sua visão, embora se possam livremente definir
quaisquer modelos, desde que sejam a posterioritestados, tais modelos não estão
de acordo com o sentido subjetivo que os agentes atribuem às suas condutas, o
que o politólogo pode fazer, ora para mostrar a hipocrisia e cinismo que
proliferam na história ou, em alternativa, para confrontar modelos e realidade.
Mesmo este outro uso, mero instrumento heurístico, corre sempre o risco de «sob
pretexto de definir uma teoria abstrata», sugerir, como única verdadeira, uma
interpretação cínica do jogo político.
Que alternativa propõe então Aron a estas abordagens more geometrico? Os
estudiosos das relações internacionais, e em geral os cientistas políticos,
podem ser também detentores de uma «verdade prática» ou praxeológica. Por
exemplo: a estratégia do general é causa objetiva da derrota, a
intelligentziamovida por ideias gerais e sem experiência de governação que opta
pelo romantismo da revolução violenta é uma «raça de revolucionários» que
impede a moderação de um regime. O nível de vida económico faz sobreviver as
democracias; estas são o sistema que melhor garante os direitos. O poder
corrompe, os interesses concentrados prevalecem sobre os dispersos. Este saber
prático não é um «esboço de ciência», pois acompanha-se de muitas restrições
mentais na sua generalidade, como todo o saber de experiência.
Há um lugar para um saber praxeológico mais formal que se desvenda nos
intervalos entre as intenções e os resultados, mas convém ter em conta que
esses objetos, «cortados à medida da teoria», não são as coisas realmente
existentes, são abstrações que se substituem ao concreto e a junção só se dará
no infinito, quando a química substituir a cozinha na confeção dos pratos. Isto
pode parecer imperfeito e muito pouco científico, mas não impede o estudioso de
tentar mobilizar todos os recursos das ciências, mesmo os que ainda não estão
disponíveis.
Se bem interpretámos Aron, o que ele desejava construir seria essa praxeologia,
uma lógica combinatória que não envolve necessariamente modelos quantitativos,
que servisse de orientação ao estadista ou ao homem político. Um modelo do que
pode vir a ser «uma praxeologia» das relações internacionais pode ainda,
cinquenta anos depois, encontrar-se na Paix et guerre, mesmo que ele próprio o
considerasse um modelo inacabado.Que o considerasse inacabado é para nós um
desafio e um estímulo.
NOTAS
1
Nicolas Baverez (Raymond Aron: un moraliste au temps des ideologies. Paris:
Flammarion, 1993), por exemplo, sugere este paralelo entre
Raymond Aron e Tucídides.
2
Cf. Gaspar, Carlos ' «Raymond Aron and the origins of the cold war». In
Political Reason in the Age of Ideology. Essays in Honour of Raymond Aron. New
Brunswick e Londres: Transaction Pub., 2007.
3
Raymond Aron, (Mémoires. Paris: Julliard, 1993, p. 451) recorda que esta
reflexão tem já raízes nos anos de Londres. Dessa época data
um artigo de 1942, onde se questiona sobre o seu direito a formular juízos
confiantes, quando não sabia quase nada sobre assuntos militares.
4
Aron, Raymond ' Le Grand schisme. Paris: Gallimard, 1948.
5
Aron, Raymond ' Les Guerres en chaîne. Paris: Gallimard, 1951.
6
Os artigos mais importantes na ponte entre a análise da história e a formulação
teórica da Paix et guerresão: «Des comparaisons historiques», que não foi
publicado na altura em que foi escrito, pois Aron sentia-se num impasse ; «De
la paix sans victoire» (1951) ; «En quête d´une doctrine de la politique
étrangère» (1953) ; «À l'age atomique, peut-on limiter la guerre?» (1955).
Foram todos reunidos com outros estudos posteriores em Aron, Raymond ' Études
politiques. Paris: Gallimard, 1972, pp. 426-494. Cf.
Colquhoun, Robert ' Raymond Aron. The Sociologist in Society: 1955-
1983.Londres: Sage Publications Ld., 1986, vol. 2. pp. 165 e segs.
7
Hoffmann, Stanley ' «Raymond Aron et la théorie des relations internationales».
In Politique étrangère. Paris. N.º 4, 2006, p. 724. Em suma
são «três questões objetivas: a determinação do campo, a configuração das
relações de potência do campo, a técnica de guerra; e três questões subjetivas
ou ideológico-políticas: o reconhecimento recíproco ou não, das unidades,
relações entre política interna e externa, sentido e fim desta última».
8
Aron explicou-se: «Uma vez regressado à Universidade, tentei unir numa só obra
as lições de um passado recente, a análise do presente e conselhos aos atores.
espectador mas comprometido, esforçava-me por concluir uma teoria da ação.»
(Aron, Raymond ' Mémoires,p. 305).
9
A versão datilografada dos dois cursos da Sorbonne já contém, substancialmente,
as primeira e segunda partes do texto do livro. Cf. Aron, Raymond ' «Paix et
guerre (I)», Bibliothèque nationale de France, Section de Manuscrits, NAF
28060, 1958-1959, e «Paix et guerre (II)», Ibidem, 1959-1960.
10
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Lévy, 1992, p.
13.
11
Ibidem,pp. 13-14.
12
Ibidem, p. 14.
13
Ibidem.
14
Sobre o conceito de virtùe a atração de Aron pelos maquiavélicos veja-se o
artigo de Morgado, Miguel ' «The threat of danger: decadence and virtù». In
Political Reason in the Age of Ideology. Essays in Honour of Raymond Aron.New
Brunswick e Londres: Transaction Pub., 2007, pp. 227-241. A
referência fundamental sobre a leitura feita por Aron de Maquiavel continua a
ser Audier, Serge ' Machiavel, conflit et liberté. Paris: Ed. EHESS e Vrin,
2005.
15
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 16.
16
Ibidem
, pp. 17-18.
17
Ibidem, p. 19.
18
Ibidem, p. 20. Embora o traço específico da disciplina seja a alternativa da
guerra e da paz, não exclui do seu âmbito o estudo do nascimento e morte dos
estados, nem as modalidades de troca ou as relações entre nações e impérios. A
intuição central que comanda a construção é que o uso da coação constitui o
núcleo do «político».
19
Ibidem.A analogia com o desporto encontra-se nas pp. 20-23, e com a economia
nas pp. 23-27. O contraste com a abordagem psicológica nas pp. 27-28.
20
Ibidem,p. 29.
21
Mueller, Dennis C. ' Public Choice III. Nova York: Cambridge Univ. Press, 2005,
p. 1.
22
Downs, Anthony ' An Economic Theory of Democracy. Nova York: Harper & Row
Publishers, 1957, p. 4.
23
Segundo Buchanan e Tullock, a participação individual nas escolhas públicas não
implica «nenhuma motivação estreitamente hedonística ou de interesse próprio
(self interest)». Afirmam pelo contrário que «o indivíduo representativo nos
nossos modelos pode ser egoísta ou altruísta ou qualquer combinação
intermédia». Cf. Buchanan, James M., e Tullock, Gordon ' The Calculus of
Consent. Logical Foundations of Constitutional Democracy. Ann Arbor: Ann Arbor
Paperback, 1967, p. 4.
24
Não é todavia certo que a ciência económica só funciona se «a motivação
económica é suficiente para tornar as previsões e a explicação possíveis» (cf.
Ibidemp. 18), visto que outros mecanismos que não a «motivação» podem
selecionar as empresas mais eficientes, como a concorrência ou a necessidade. A
ambiguidade do conceito de motivação económica é criticada por Hirschman,
Albert ' Exit, Voice, and Loyalty, Responses to Decline in Firms, Organizations
and States. Cambridge (Ma) e Londres: Harvard University Press, 1970, p. 10, que observa que já não é claro o que é que as empresas de
negócios, em especial as grandes corporações, maximizam: lucros, crescimento,
quotas de mercado ou boa vontade das comunidades, ou um compósito.
25
Observe-se também que, na sua visão, a possibilidade de constituir uma ciência
como cálculo de meios depende de uma definição unívoca dos fins ou valores
perseguidos pelos agentes.
26
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations,pp. 33-179.
27
Ibidem, p. 33.
28
Ibidem, pp. 58-62. Cf. Malis, Christian ' Raymond Aron et le débat stratégique
français, 1930-1966. Paris: Ed. Economica, 2005, e,
especialmente, o texto muito breve mas útil, Malis, Christian ' «Raymond Aron
et le concept de puissance», 2003, http://www.Stratisc.Org/act/
Malis_POWERII.html
29
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 72 e segs. Este problema
de operacionalidade e medição é certamente um dos motivos porque a sua teoria
recebe hoje menos atenção da ciência política empírica e do olvido de algumas
das suas teses. Por outro lado, a «sede de medição» (na expressão de Hayek, F.
A. von ' The Counter-Revolution of Science.Studies on the Abuse of Reason.
Indianopolis: Liberty Press, 1979), nem sempre acrescenta
informação. Por vezes misturam-se na contabilidade das guerras os fenómenos
mais heterogéneos sob a mesma etiqueta. Veja-se, por exemplo, Rummel, R. J. '
«Democracies really are less warlike than other regimes». In European journal
of international relations. Vol. I, 1995,pp. 457-479.
30
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations,p. 102.
31
Ibidem, p. 103.
32
Ibidem, pp. 104 e segs.
33
Ibidem, pp. 108 e segs.
34
Se quisermos ver até que ponto a surpresa do fim do mundo bipolar fez regressar
a teoria ao estádio em que estava no imediato pós-guerra basta pensar nas duas
teorias mais populares no «pós-queda-do-muro», a história acabou: Fukuyama,
Francis ' O Fim da História e o Último Homem. Lisboa: Gradiva, 2007, ou, pelo contrário, a história regressou ao mesmo de sempre:
Huntington, Samuel P. ' O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial.
Lisboa: Gradiva, 1999. Em geral, voltou-se nas relações
internacionais à mistura de narração com profecia. Vejam-se, por exemplo, os
aliás muito interessantes, Zakaria, Fareed ' O Mundo Pós-Americano. Lisboa:
Gradiva, 2008, e Garton-Ash, Timothy ' Free World. Londres:
Penguin, 2004. Muita da literatura anterior passou a ser hoje
completamente irrelevante.
35
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 113 e segs.
36
Ibidem, p. 119.
37
Ibidem, cap. v, pp. 133-156.
38
Ibidem, pp. 157-179. Cf. a afirmação da essência dialética do político: a lei
dos antagonismos.
39
Ibidem, p. 179.
40
O pressuposto comum a todos é que o regime democrático tem uma relação
constante (isto é, independente da evolução histórica), com a guerra ou o
desenvolvimento, que as estatísticas podem revelar.
41
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 308.
42
Ibidem, pp. 317-325.
43
Ibidem, cap. xi, pp. 338-364.
44
Ibidem, p. 364.
45
Ibidem, pp. 367-379.
46
Pelo contrário, a Public Choice apresenta as suas análises como descritivas ou
explicativas ' por oposição a normativas. Buchanan, James M., e Tullock, Gordon
' The Calculus of Consent.Logical Foundations of Constitutional Democracy, p.
VI, por exemplo, não estão a tentar, nas suas palavras, «escrever uma
constituição ideal para a sociedade» e mesmo o pressuposto individualista não
deve ser confundido com valores orientadores das ações a escolher: não só não é
preciso tomar posição a respeito dos últimos fins ou critérios de escolha
(Ibidem, p. vii), como a teoria dos mercados funciona, quaisquer que sejam os
fins dos agentes: Paulo «pode estar a agir por amor de Deus, da igreja local,
dos amigos ou de si mesmo» (Ibidem, p. 18). No entanto não se excluem as
aplicações e testes das teorias. Por isso na prática uma parte da investigação
é de facto normativa. Cf. Mueller, Dennis C. ' Public Choice III, pp. 427 e
segs.
47
ARON, Raymond ' Paix et guerre, p. 563.
48
Ibidem, p. 179.
49
Ibidem, p. 565 e cap. xix, pp. 567-596.
50
Ibidem, p. 565 e cap. xx.
51
Ibidem, p. 565 e caps. xxi e xxii.
52
Esta influência tinha começado tardiamente, pois apesar dos contactos
anteriores ' recorda o entusiasmo de Herbert Rosinski em 1930 e os comentários
de Staro, na France Libre ' Aron tinha lido Clausewitz só em 1955. Cf. Aron,
Raymond ' Penser la guerre, Clausewitz, I, L'âge européen. Paris: Gallimard,
1989, p. 10.
53
ARON, Raymond ' Mémoires, p. 647. É essa insatisfação que o levará depois, uma
vez mais, a gastar três anos a escrever uma nova obra, que apresenta como uma
tentativa de «reconstruir as diligências intelectuais de Clausewitz através das
versões sucessivas do seu maximum opus». O que Raymond Aron identificara
imediatamente em Clausewitz ' núcleo que, como observou Stanley Hoffmann, é
muito semelhante ao do seu próprio projeto ' é o esforço do autor prussiano por
formular um sistema conceptual sobre as realidades da guerra. A sintonia advém
da comum rejeição das teorias que não reconhecem o papel das emoções, ou das
virtudes, bem como dos sistemas de regras formais que julgam encontrar uma
causa única no desenlace da guerra.
54
Aron, Raymond ' Penser la guerre, Clausewitz, I, pp. 21-26. A primeira parte da
obra aroniana é uma exposição cuidadosamente apoiada na correspondência pessoal
da vida do militar e professor de estratégia alemão, com o objetivo de
apresentar as suas «experiências vividas», seguida de um estudo, a partir dos
escritos, da formação do seu pensamento entre 1804 e 1830. Por fim apresenta a
síntese final, procurando analisar o sistema conceptual da obra em função das
suas definições de guerra. Discute, em controvérsia com Delbruck sobre os
diferentes tipos de conflito, rejeitando a ideia de que Clausewitz formula uma
filosofia «irracional» da ação, ou faz a apologia da violência.
55
Aron remete para longas notas muitas sugestões e o detalhe erudito. Nas suas
memórias considera-o um dos seus melhores livros científicos, ao mesmo tempo
que lamenta o segundo tomo, que não passa de um ensaio. O segundo volume de
facto tem uma natureza muito diferente. Já não é uma interpretação
«positivista», mas uma tentativa de aplicar a teoria ao século xx. No início
persegue diversos tópicos relacionados com o uso de Clausewitz: aniquilação e
atrição, a influência do autor em Lenine e Hitler, e a inversão da afirmação de
que a guerra é a política por outros meios, o povo em armas; comenta
sucessivamente 1871, Mao e a resistência. Uma segunda parte, intitulada «Le
pari sur la raison», é uma interpretação da política na atualidade. As suas
teses mais importantes são análogas à praxeologia da Paix et guerre.
56
Na nossa opinião entre os melhores estudos estão os textos reunidos em Hoffman,
Stanley ' Janus and Minerva: Essays in the Theory and Practice of International
Politics(Boulder e Londres: Westview Press, 1987), que retoma
muitos dos anteriormente agrupados em The State of War: Essays on the Theory
and Practice of International Politics. 2.ª edição. Nova York, Washington e
Londres: Frederick A Praeger, Publishers, 1966. Mas deve ler-
se igualmente pelo menos a excelente obra de Piquemal, Alain ' Raymond Aron et
l'ordre international. Paris: Albatros, 1978, e entre as mais
recentes a publicação de uma tese doutoral, Launay, Stephan ' La pensée
politique de Raymond Aron(Paris: PUF, 1995), dedica quase dois terços do texto
às relações internacionais.
57
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 28. Noutra formulação cf.
aron, Raymond ' Études politiques, p. 363.
58
Hoffman, Stanley ' «Raymond Aron et la théorie des relations internationales».
In Politique étrangère. N.º 4, 2006, p. 725. Mas não se
poderia dizer o mesmo da teoria económica quando esta abandona o utilitarismo,
à maneira de Hayek, ou reconhece a pluralidade dos fins, à maneira de
Hirshmann?
59
Stanley Hoffman («Raymond Aron et la théorie des relations internationales»,
pp. 723-734) lembra que qualquer tentativa de caracterizar o contributo
científico de Aron neste domínio deve distinguir não só o jornalismo e a
teoria, mas também a teoria dos relatos históricos e estudos de história das
ideias, distinções nem sempre fáceis.
60
Ibidem, p. 724.
61
ARON, Raymond ' Études politiques, pp. 379-380.
62
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 595.
63
Hoffman, Stanley ' «Raymond Aron et la théorie des relations internationales»,
p. 725.
64
ARON, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 596.
65
ARON, Raymond ' «Histoire et philosophie», Bibliothèque Nationale de France,
Section de Manuscrits, NAF 28060, Leçon 11, p. 191.
66
Cf. Berlin, Isaiah ' «Does political theory still exist?». In Hardy, Henry
(ed.) ' Concepts and Categories.Philosophical Essays.Londres: Penguin Books,
1981, p. 172.
67
Sobre os conceitos de sistema e equilíbrio no terreno político cf. Barry, Brian
' Sociologists, Economists and Democracy. Chicago: University of Chicago Press,
1978, pp. 168-173.
68
ARON, Raymond ' «À propos de la théorie politique (1962)». In Les sociétés
modernes. Paris: PUF, 2006, pp. 586-587.
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