O grande salto no abismo
O grande salto no abismo
Helena Ferreira Santos Lopes1
Licenciada em História pela FCSH ' UNL e mestre em Estudos Chineses pela School
of Oriental and African Studies ' University of London. Atualmente estuda na
National Taiwan Normal University.
Frank Dikötter
Mao's Great Famine: The History of China's Most Devastating Catastrophe, 1958-
62
Londres, Bloomsbury, 2010, 420 páginas
Mao's Great Famine é provavelmente o melhor livro publicado sobre história
chinesa nos últimos anos e será certamente uma obra obrigatória no futuro
próximo não só para quem estuda história da China como também história das
relações russo-chinesas ou do século xx em geral. Frank Dikötter, professor na
Universidade de Hong Kong, fez o mais completo estudo da tragédia em torno do
Grande Salto em Frente publicado em inglês até à data, tendo baseado a sua
informação em vários arquivos provinciais chineses até recentemente fechados
aos investigadores estrangeiros. O que encontrou vem reavaliar a dimensão da
tragédia num novo patamar, colocando o número de pessoas mortas
desnecessariamente entre 1958 e 1962 em pelo menos 45 milhões, número bastante
acima dos 32 milhões apontados como limite máximo em trabalhos anteriores.
Dikötter não tem medo de frases definitivas chamando ao desastre colectivo
gerado pelo Grande Salto em Frente "uma das mais mortíferas chacinas em
massa da história humana" (p. xi), resultando na "pior fome
registada na história humana" (p. 63) e "na maior destruição de
propriedade na história humana" (p. xi). Porém, a riqueza desta obra está
não só nas conclusões a que chega mas no chocante relato pormenorizado da
vivência da tragédia.
O autor divide o livro em seis partes ' nas duas primeiras traça o contexto
histórico e a evolução das decisões de política interna e externa que puseram
em marcha o Grande Salto em Frente e nas restantes quatro partes detalha os
efeitos devastadores desta iniciativa para a agricultura, a indústria, o
comércio, a habitação, a natureza e, claro, as pessoas. Estas merecem três
partes onde são detalhadas as estratégias de sobrevivência, os grupos mais
vulneráveis aos efeitos da fome (crianças, mulheres e idosos) e as diferentes
maneiras de morrer. O autor inclui também uma introdução, um epílogo e um
capítulo sobre as fontes primárias e secundárias sobre esta temática.
PLANO INTRANSIGENTE E APOIADO
Tudo terá começado em 1957, quando, perante um progressivo esfriar nas relações
entre Mao e a União Soviética liderada por Khruchchev, o líder chinês declarou
que se a Rússia iria ultrapassar os Estados Unidos em produção económica em
quinze anos, a China ultrapassaria a Grã-Bretanha. Para o conseguir, Mao põe em
marcha um plano de colectivização radical, tendo o termo "Grande Salto em
Frente" sido cunhado primeiramente no contexto de uma campanha para
projectos de conservação de água no final desse ano. Dentro do partido, Mao
afastou os adversários às suas ideias através de purgas como a campanha
antidireitista de 1957. O autor observa, no entanto, que sem o apoio interno,
que também teve, a dimensão do desastre poderia ter sido diminuída. Se os
líderes provinciais apoiaram as campanhas do centro, "prometendo alvos
mais altos numa série de actividades económicas" (p. 16), nos escalões
mais altos do poder esse apoio a Mao foi igualmente determinante. Dikötter não
poupa nas palavras mesmo quando se refere a uma figura ainda bastante
mitificada na China, Zhou Enlai. "Mao Zedong era o visionário, Zhou Enlai
o intermediário que transformou pesadelos em realidade [ ], ele trabalharia
incansavelmente no Grande Salto em Frente para provar as suas
capacidades" (p. 20). Por todo o país e em todos os níveis de governo os
dados eram inflacionados para satisfazer os planos da liderança. Em 1958 a
produção de grão declarada fora de 410 milhões de toneladas mas na realidade
apenas haviam sido produzidos 200 milhões. No entanto, sendo as requisições
estatais feitas segundo o valor declarado, os camponeses foram deixados com
pouco ou nada para sobreviver, sendo o que faltava extraído por via da força. A
prioridade da liderança era alimentar as cidades e mesmo os seus habitantes '
em número crescente devido a migrações internas ' que não tinham o suficiente.
Após o cisma com a União Soviética em 1960, Mao decidiu que "todo o
esforço deveria ser empreendido para pagar a dívida soviética em dois anos e
que tal deveria ser feito aumentando a exportação de grão, algodão e óleos
alimentares o mais possível" (p. 105). Os efeitos destas exigências foram
devastadores para os camponeses que, no entanto, culparam a URSS pela sua
miséria, quando "os russos nunca pediram um pagamento acelerado"
(p. 106). Apesar da deteriorante situação interna, o Governo chinês recusou
ajuda oferecida tanto por aliados comunistas como por entidades como a Cruz
Vermelha e aumentou o número de produtos que exportava e doava como ajuda a
países em desenvolvimento para garantir o seu prestígio internacional na
competição com a URSS.
Ao contrário do que por vezes é defendido, a situação no terreno era conhecida
pelo Governo.
"Mao recebeu numerosos relatórios sobre fome, doença e abusos vindos de
todos os cantos do país, fossem cartas pessoais enviadas por indivíduos
corajosos, queixas não solicitadas de quadros O grande salto no abismo Helena
Ferreira Santos Lopes 135 locais ou investigações efectuadas por sua vontade
por pessoal da segurança ou secretários privados" (p. 69).
Em 1959 a situação foi abertamente denunciada pelo ministro da Defesa Peng
Dehuai em Lushan mas isso só resultou na sua purga e no lançamento de outra
campanha antidireitista. Mao foi intransigente na sua política: "quando
não há comida suficiente as pessoas morrem à fome. É melhor deixar metade das
pessoas morrer para que a outra metade possa comer" (p. 134).
HORROR TOTAL
Se o conhecimento do que se passava nos bastidores do poder tem enorme
relevância, é nas descrições da vida das pessoas comuns que Mao's Great Famine
mais choca o leitor. A violência da colectivização e do trabalho forçado em
projectos megalómanos que frequentemente não tiveram resultados práticos é
descrita com impressionante pormenor. "Por toda a China camponeses
estavam a ser conduzidos a uma situação de fome em projectos de irrigação
gigantescos, pressionados fortemente por quadros [do partido] com medo de serem
rotulados de direitistas" (p. 33). Tudo era colectivizável, "até os
seres humanos" (p. 51): casas foram arrasadas (o autor estima entre 30
por cento e 40 por cento), alimentos e animais foram mortos para impedir que o
Estado os levasse, utensílios de cozinha foram confiscados, por vezes até a
roupa. "Por todo o país, era muitas vezes nuas que as pessoas morriam de
fome, mesmo no meio do Inverno" (p. 141). Os salários foram abolidos em
alguns locais, tendo algumas comunas dispensado a existência de dinheiro. Os
campos agrícolas foram abandonados porque a mão-de-obra era requerida para
outros projectos, o que em muito contribuiu para a fome generalizada. Com Mao a
declarar guerra à natureza (p. 174), a exploração não sustentada levou a
desastres naturais. O exagero tornou-se o normal: "Em Hunan o lixo humano
incluía cabelo e em algumas aldeias de Guangdong as mulheres foram obrigadas a
rapar as cabeças para contribuir como fertilizante ou arriscavam-se a ser
banidas da cantina" (p. 38). Em Xandong e Xaanxi cadáveres foram usados
como fertilizante (p. 173). Em várias províncias as "crianças eram
vendidas por aldeões esfomeados" (p. 67).
As primeiras mortes por fome ocorreram em 1958 e na primeira metade de 1959
tornaram-se comuns por todo o país, fazendo com que a situação dos camponeses
piorasse com a limitação da sua mobilidade interna. A violência nos campos era
tal que a designação "campos da morte" era já usada na província de
Gansu antes de o ser no Camboja.
As condições não eram melhores nas cidades, onde nas fábricas "sujidade e
fedor permeavam as instalações, piolhos e sarna eram comuns. O caos reinava no
terreno" (p. 148). A prostituição, retoricamente combatida pelo Governo,
voltou a ter lugar com jovens mulheres vendendo favores sexuais em troca de
"um cupão de racionamento no valor de 10 ou 20 cêntimos ou meio quilo de
arroz" (p. 234). Uma cultura de desperdício instalou-se, e atalhos na
qualidade para aumentar a quantidade da produção resultaram em incontáveis bens
defeituosos cuja produção se tornou uma imagem associada à China até aos nossos
dias. Muitas pessoas foram envenenadas por químicos industriais. Outras
procuraram fugir do país, desde a Birmânia a Hong Kong, mas muitas foram
repatriadas para a China.
A corrupção era imensa e transversal a toda a sociedade. As trocas informais
aumentaram assim como o jogo. "Um dos muitos paradoxos da economia
planificada era que toda a gente comercializava" (p. 202), até as
crianças. Vendiam-se os tijolos, a roupa, até o próprio sangue (p. 206). O
roubo tornou-se endémico já que, muitas vezes, não o fazer equivalia a morrer
de fome. Os membros mais vulneráveis da sociedade eram secundarizados na
hierarquia do direito à alimentação por serem menos produtivos, "criando
um regime em que os incapazes de trabalhar no máximo das suas capacidades eram
lentamente mortos à fome" (p. 265). No meio rural, a "forte
competição pela sobrevivência erodiu gradualmente qualquer sentido de coesão
social. [ ] a família tornou-se uma arena de contendas, ciúme e conflito"
(p. 213). Para sobreviver algumas pessoas recorreram ao canibalismo de membros
da própria família, como mostra um dos casos citados pelo autor, o de Yang
Zhongsheng que matou e comeu o seu irmão mais novo. A causa apontada num
relatório da época era "questões de subsistência" (p. 322). A
violência tornou-se a face comum do quotidiano e não faltam exemplos
aterradores no livro de Dikötter sobre como era aplicada.
"Em Hunan, Tan Yunqing, de doze anos, foi afogado num lago como um
cachorrinho por ter roubado comida da cantina. Por vezes os pais eram forçados
a perpetrar o castigo. Quando um rapaz roubou um punhado de grão na mesma vila
em Hunan onde Tan Yunqing fora afogado, o chefe local Xiong Changming forçou o
seu pai a enterrá-lo vivo. O pai morreu de desgosto alguns dias depois"
(p. 248);
na comuna popular de Chengdong, em Hunan, "mulheres grávidas que não
apareciam para trabalhar eram obrigadas a despir-se no meio do Inverno e
forçadas a partir gelo" (p. 256).
A sexta parte do livro, "Formas de morrer", sumariza terrificamente
as diversas formas em que alguém podia morrer desnecessariamente durante o
Grande Salto em Frente, muitas vezes de forma lenta e dolorosa. De acidentes
laborais a doenças, passando pelos infames laogai, campos de reeducação através
do trabalho, até ao suicídio. "Esquadrões de espancamento" tomaram
a seu cargo a disciplinarização em algumas partes do país (p. 311). As
descrições são vívidas e chocantes: "Quando as pessoas não eram comidas
por ratos, os ratos eram comidos por pessoas" (p. 284); "Água a
ferver era despejada em cima das pessoas. Como o combustível escasseava, era
mais comum cobrir as pessoas em urina e excremento" (p. 295); "as
pessoas eram enterradas vivas nas cavernas escavadas dos montes de loesse. No
Inverno eram enterradas sob a neve" (p. 309). Um quadro do partido numa
comuna no Hunan aconselhava os novos recrutas ' "se querem ser membros do
partido têm de saber como espancar pessoas" (p. 294) ' e o autor avança
com a explicação de que "os membros do partido eram eles próprios vítimas
de terror e, por seu turno, aterrorizavam a população sob o seu controlo"
(p. 301). Formas de humilhação que ficaram associadas à Revolução Cultural,
como as paradas com chapéus de burro ou placards com insultos ao pescoço, eram
já uma realidade durante o Grande Salto em Frente. O autor observa que
"os Guardas Vermelhos, durante a Revolução Cultural dez anos depois,
inventaram muito pouco" (p. 296).
CONCLUSÃO
Apesar da dimensão dantesca que Dikötter descreve no seu livro, a sua obra é
mais um ponto de partida que um de chegada e o autor tem a consciência que este
livro será ultrapassado no futuro. Isto porque boa parte dos documentos nos
arquivos provinciais onde pesquisou permanecem classificados e, sobretudo,
porque, à excepção do arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, os
arquivos centrais permanecem de muito difícil acesso, sendo a sua abertura
"improvável de acontecer num futuro próximo" (p. xiii). Mao's Great
Famine é um trabalho historiográfico de enorme relevância, que reavalia um
período determinante não só do período de governo de Mao Zedong como da China
do século xx. Fá-lo sustentado por fontes de arquivo coevas maioritariamente em
chinês, o que nem sempre é a regra nos trabalhos sobre a China que merecem a
atenção mediática que este livro suscitou, figurando em várias listas de
melhores do ano e tendo sido galardoado com o prémio Samuel Johnson para não
ficção em 2011. Ilustrando com pormenor uma das maiores catástrofes do século
passado, esta obra é talvez o passo definitivo para que o período em análise
não permaneça relativamente esquecido no Ocidente, onde a Revolução Cultural é
o movimento mais conhecido dos anos Mao.
NOTAS
1
A pedido da autora este texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico
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