O PCP e a Revolução de Abril «um pé dentro outro fora»
O PCP e a Revolução de Abril "um pé dentro outro fora"
Carlos Cunha
Doutorado em Ciência Política, é executive chair do corpo docente do Dowling
College em Oakdale (Nova York). Investigador associado do cies (iscte ' iul).
Autor de The Portuguese Communist Party's Strategy for Power, 1921-1986
(Garland, 1992) e de numerosos artigos, capítulos de livros e recensões sobre
várias dimensões da política portuguesa.
Raquel Varela
A História do PCP na Revolução dos Cravos
Lisboa, Bertrand Editora, 2011, 400 páginas
O meu ponto de vista, descobrir a estratégia de poder do Partido Comunista
Português (pcp) será o resultado da junção, ao longo de décadas, de várias
peças minúsculas de um puzzle. Trata-se de um exercício moroso, que requer
grande paciência e levará anos sem fim a ser concluído. O investigador descobre
frequentemente que certas peças do puzzle não encaixam exatamente onde começou
por pensar que encaixariam. Este puzzle do pcp está a ser/tem sido trabalhado
por vários investigadores (alguns dos quais levaram as suas descobertas/
experiências para a cova), ajudando-nos a compreender melhor a história do
partido. Este juntar de peças irá continuar depois de eu (um dos
investigadores) estar na cova. É com grande satisfação que vejo investigadores
mais jovens interessados em juntar-se -ao esforço, nomeadamente uma recém- -
doutorada em História pelo ISCTE. A sua dissertação, revista para fins
editoriais, está agora disponível num volume comercial e de leitura fácil.
Raquel Varela escolheu centrar-se numa parte específica do puzzle, a revolução
portuguesa de 1974-1975. A sua tese, contrariando as visões de muitos outros
investigadores (incluindo a minha), é a de que o pcp não estava interessado
numa revolução mas antes numa aproximação democrática do poder. Para apoiar a
sua tese, começa por apresentar um estudo de teorias revolucionárias, como a de
Charles Tilly, para mostrar que Portugal foi, de facto, além da mera mudança
política, alcançando mudanças económicas e sociais reais no final de 1975. O
golpe de esquerda de 25 de novembro de 1975 acabou com o impulso revolucionário
porquanto as forças dominantes acentuaram a via democrática. Ao longo do livro,
Varela descreve o modo como o partido lidou com os grandes ziguezagues durante
aqueles meses revolucionários, descrevendo os passos das diferentes forças
(Movimento das Forças Armadas [mfa], partidos políticos, movimentos de
trabalhadores, Igreja, camponeses, etc.) para lidar com os problemas da nação
após anos de ditadura e de guerra colonial. A análise inclui a chegada do pcp à
condição de partido de massas e a sua ênfase na redução das greves de modo a
ganhar a confiança do mfa, as primeiras tentativas de Spínola de controlar a
mudança, as manobras em torno da Assembleia Constituinte (antes e depois das
eleições), os conflitos com a extrema-esquerda (que o pcp apelidava de
contrarrevolucionários), a direita, o Partido Socialista (ps), o processo de
descolonização e o "verão quente" de 1975, entre muitos outros
tópicos esperados.
Raquel Varela escreveu um livro não só acessível ao leitor leigo mas também com
interesse para o investigador, sempre com cuidadosa atenção às notas e às
fontes. Fez um bom trabalho de revisitação de acontecimentos da época com base
na leitura da imprensa do partido e de vários estudos, incluindo outros
trabalhos académicos e a sua própria investigação em diversos arquivos. Guardar
esses anos revolucionários na memória do público já justifica, por si só, a
emergência deste último estudo.
Talvez uma diferença nas nossas abordagens seja a de que, quando li a imprensa
do partido, sempre tive uma inclinação mais "soviétologa".
Concentrei-me não só no que era dito mas também no que não era. Li muitas vezes
nas entrelinhas e acabei por eliminar suposições através de entrevistas a
comunistas, ex-comunistas e outros envolvidos no processo, incluindo militares.
Julgo que, por vezes, a autora tende a dar demasiada importância ao que a linha
oficial do partido ou Cunhal tinham a dizer. A minha posição não foi
necessariamente aceitar a voz do partido, mas considerá-la frequentemente mera
propaganda. Os partidos ortodoxos, incluindo o pcp, têm uma longa prática de
censurar os seus factos tanto durante como depois dos acontecimentos. Os
documentos muitas vezes desaparecem, são manipulados ou reinterpretados. Por
isso, a documentação nem sempre pode ser aceite pelo seu valor aparente. Por
exemplo, a certa altura (p. 175) a autora realça que o debate interno do pcp
sobre a descolonização foi feito sobretudo fora da documentação do partido,
pelo que os pormenores são difíceis de detetar. No entanto, diria que, mesmo
quando os documentos estão disponíveis, estes não devem ser interpretados de
forma muito literal. O facto de não existirem documentos disponíveis dos
debates sobre a descolonização é muito interessante, na medida em que o partido
certamente não queria sequer correr o risco de as ramificações dos debates
serem tornadas públicas. Por exemplo, a formação da F rente de Unidade Popular,
a 25 de agosto de 1975, suscitou confusão considerável relativamente ao
envolvimento do partido na aliança (p. 286). Não discutir o seu envolvimento
nos debates sobre a descolonização protegia-o de ter de explicar posições
potencialmente confusas.
Raquel Varela trata o tema do ponto de vista da esquerda, como pode ser
ilustrado por várias abordagens e escolhas de palavras. Por exemplo, a sua
análise de porque Cunhal concordou apoiar o mfa, que era dirigido por oficiais
"burgueses" (pp. 199-202), o facto de as nacionalizações nunca
terem realmente questionado o "capital privado" e de o pcp ter
favorecido o controlo do "Estado" em detrimento do controlo dos
"trabalhadores" (pp. 224-231), que analisa a partir de três
perspetivas teóricas diferentes (gramsciana, trotskista e leninista), revelam
as tendências esquerdistas.
A autora conclui o seu estudo com uma comparação entre o pcp e as táticas
leninistas em 1917, defendendo que a atitude do pcp não era leninista mas mais
consonante com os mencheviques e Kerensky. Um aparte interessante é que Henry
Kissinger, na altura secretário de Estado dos Estados Unidos, fez a mesma
comparação, embora tenha escolhido Soares como Kerensky:
"O senhor é um Kerensky", disse Kissinger a Soares. "Acredito
na sua sinceridade, mas o senhor é ingénuo." "Com certeza que não
quero ser um Kerensky", ripostou Soares. "Tão-pouco queria
Kerensky", respondeu Kissinger1.
Julgo, contudo, que o pcp seguiu, de facto, táticas leninistas. Lenine não
esperava que os partidos ortodoxos de todas as nações seguissem uma via
semelhante à dos bolcheviques. Em última análise, o importante era a revolução,
mas cada partido tinha de seguir a sua própria via para a alcançar. O facto de
o pcp estar a seguir as táticas que considerava serem as melhores consistia, a
meu ver, numa posição leninista: "Dois passos em frente, um passo atrás.
Dois passos em frente, um passo atrás."
Contudo, na verdade, o livro de Raquel Varela é um contributo valioso para o
corpus da literatura sobre a revolução portuguesa, bem como sobre a história do
pcp. Proporciona uma leitura interessante, instrutiva e agradável. É sempre bom
revisitar análises deste período fulcral da história portuguesa quando a obra
se encontra bem escrita, com investigação aprofundada e bem documentada.
Aguardo pois com interesse a continuação da montagem do puzzle da história do
pcp, na sequência do contributo agora oferecido por investigadores mais jovens,
como Raquel Varela.
TRADUÇÃO: MOIRA DIFELICE
NOTAS
1 Isaacson, Walter ' Kissinger: A Biography. Nova York: Simon & Schuster,
2005, pp. 683-684.
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