O debate estratégico das eleições presidenciais norte-americanas
Em janeiro de 2012, Robert Kagan publicou um artigo na revista The New Republic
contestando três premissas que se generalizaram no debate sobre relações
internacionais na atualidade: primeira, a da transição no sistema internacional
da unipolaridade para a multipolaridade; segunda, a do declínio de poder dos
Estados Unidos; terceira, a da necessidade de Washington levar a cabo um
retraimento estratégico. Ainda no mesmo mês, Christopher Layne respondeu na
revista The National Interest, defendendo que estamos a assistir ao fim da pax
americana e à consequente necessidade de o país substituir a sua grande
estratégia de global dominance (ou global hegemony) pelo offshore balancing1.
Estes textos assinalaram o início do debate estratégico das eleições
presidenciais norte-americanas e definiram em larga medida o seu escopo,
seguindo-se um conjunto de livros, artigos e mesmo de intervenções políticas na
linha de uma destas duas perspetivas.
O artigo que se segue trata do debate em apreço. Para tal, ele está dividido em
três partes distintas. A primeira analisa a controvérsia em torno da transição
de poder no sistema internacional na atualidade, com a possível passagem da
unipolaridade à multipolaridade. A segunda aborda a questão da grande
estratégia dos Estados Unidos. A terceira explica as agendas externas de Barack
Obama e Mitt Romney.
A TRANSIÇÃO DE PODER NO SISTEMA INTERNACIONAL
Para se compreender o debate estratégico no âmbito das eleições presidenciais
norte-americanas deste ano temos de começar por abordar a questão da transição
de poder no sistema internacional, sendo que não existe um consenso académico
acerca do assunto.
Uma escola de pensamento, que inclui autores como Fareed Zakaria, Christopher
Layne e Michael Mandelbaum, entre outros, defende que estamos a assistir à
transição da unipolaridade para a multipolaridade em resultado do declínio
relativo dos Estados Unidos (e do Ocidente em geral) e da «ascensão do resto»,
com destaque para a China e a Índia, mas também a Rússia e o Brasil, existindo
mesmo uma data simbólica para esta mudança, o dia 8 de agosto de 2008 (o
«paradigma 8.8.8.»), data da inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim e da
invasão da Geórgia pela Rússia2.
Embora existam diferenças significativas entre os académicos inscritos nesta
perspetiva relativamente às causas, ao grau e ao significado do declínio dos
Estados Unidos, a tese dominante é a de que a perda de poder do país é relativa
' isto é, tem de ser entendida em comparação com os seus mais diretos
competidores ', e tem sobretudo uma natureza económica, com destaque para os
seguintes indicadores: a evolução do PIB, a percentagem na produção industrial
mundial, o peso da dívida, o custo dos direitos sociais.
Em relação ao primeiro, praticamente todas as previsões mais credíveis apontam
para que o PIB da China ultrapasse o dos Estados Unidos até ao final desta
década, princípio da próxima, tornando-se Pequim a primeira economia do mundo.
Quanto ao segundo, a produção industrial chinesa já superou a norte-americana,
representando 18 a 19 por cento do total mundial. Já a dívida pública de
Washington é atualmente superior a 14 milhões de milhões de dólares, ou seja,
já atingiu quase 100 por cento do PIB, e não só continuará a aumentar, uma vez
que o país tem um défice do orçamento federal de 1,6 milhões de milhões de
dólares (mais de dez por cento do PIB), como a situação é muito pior quando se
junta a dívida privada, acrescendo ainda que, como os americanos têm níveis
muito baixos de poupança, os empréstimos foram contraídos no exterior,
sobretudo na China que detém já cerca de 60 por cento dos seus títulos de
dívida. Finalmente, assiste-se, hoje, no país a um crescimento anual
descontrolado dos custos com os direitos sociais, sendo só a Segurança Social,
a Medicare e a Medicaid responsáveis por mais de 40 por cento do orçamento
federal, prevendo-se mesmo que esse valor aumente até 2050 para cerca de 20 por
cento do PIB. Para agravar esta realidade estrutural, em setembro de 2008
começou nos Estados Unidos o pior crash financeiro desde 1929, tendo sido
destruídos cerca de 50 milhões de milhões de ativos da economia mundial,
nacionalizadas as maiores instituições de crédito hipotecário, aprovados os
maiores bailouts e pacotes de estímulo de sempre, isto para além de se ter
assistido à maior bancarrota da história ' o Lehman Brothers3.
Em relação à «ascensão do resto», a principal ideia a reter é a de que estamos
a assistir à emergência da Ásia, com destaque para a China e a Índia, mas
também a Rússia (que, importa recordar, é uma potência euroasiática), o que
pode ser comprovado pela análise de quatro fatores clássicos de poder:
economia, população, território e poder militar. Já aqui referimos alguns
indicadores fundamentais da ascensão económica da China, porém, importa
sublinhar que tal fenómeno não é meramente conjuntural, tendo a sua economia
crescido desde finais da década de 1970 a uma média de nove por cento ao ano,
algo sem paralelo na história desde que há registos, sendo hoje já a segunda
maior do mundo. Ao nível da população, Pequim ocupa o primeiro lugar, com 1,3
mil milhões de pessoas, o que quer dizer que para cada americano há quatro
chineses. O país é ainda o quarto maior em termos de território, só superado
pela Rússia, Canadá e Estados Unidos, beneficiando ainda do facto de o seu
espaço ser rico em recursos naturais, incluindo petróleo (a China é um grande
produtor de petróleo, com perto de três milhões de barris por dia). Finalmente,
ocupa atualmente o segundo lugar no ranking mundial dos gastos militares, com
cerca de 160 mil milhões em 2012, sendo que, embora o valor represente menos de
quatro vezes e meia o atual orçamento militar dos Estados Unidos, as
estimativas do Stockholm International Peace Research Institute apontam para
que entre 2030 e 2040 os chineses tenham já ultrapassado os norte-americanos
neste campo. Acresce que Pequim está em primeiro lugar no tamanho do exército,
com 2,3 milhões de soldados (seguida pelos Estados Unidos, com 1,3 milhões),
está presentemente a construir uma «marinha de águas azuis» e tem mais de duas
centenas de armas nucleares.
Ainda que não podendo ser considerada ao mesmo nível da China, a Índia é
igualmente uma potência asiática emergente. Desde 1997, data do início do
processo de liberalização económica levada a cabo por Manmohan Singh, o país
cresceu a uma média de sete por cento ao ano, prevendo mesmo a Goldman Sachs um
crescimento superior a dois dígitos nos próximos anos. Em termos de população,
tem não só a segunda maior do mundo, como se estima que atinja o primeiro lugar
em 2025 dada a sua muito elevada taxa de natalidade, em contraste com a China
que tem em vigor a chamada «política do filho único». O território é enorme,
ocupando o sétimo lugar em termos mundiais, e é diversificado em recursos
naturais, não obstante a sua grande dependência de petróleo (produz apenas 954
mil barris por dia e consome 3,1 milhões). Já ao nível militar, é o décimo
Estado do mundo que mais gasta com defesa, com cerca de 30 mil milhões de
dólares, tem o terceiro maior exército, com 1,3 milhões de efetivos, possui
armas nucleares e tem feito recentemente um forte investimento no aumento das
suas capacidades militares, por exemplo, preparando uma marinha com poder para
atuar de forma dissuasora no oceano Índico e aumentando o número de mísseis
balísticos.
A Rússia também está incluída nas potências em ascensão, ainda que tal não seja
consensual entre a comunidade académica. Por exemplo, Michael Mandelbaum
considera-a uma potência em declínio, sublinhando que, em comparação com a
antiga União Soviética, ela representa apenas 76 por cento do território, 50
por cento da população, 45 por cento da economia e 33 por cento do poder
militar. Além disso, o país tem na atualidade um grave problema ao nível da
demografia, estimando-se que em 2050 existam cerca de 100 milhões de russos,
quando em 1990 eram 150 milhões. Todavia, a Rússia é a sexta maior economia
mundial, tem tido uma taxa média de crescimento do PIB de cinco por cento ao
ano na última década, ocupa ainda o nono lugar em termos de tamanho da
população e tem o maior território do mundo. Mas, mais importante de tudo, ela
é um gigante energético e militar, sendo o segundo maior produtor de petróleo e
de gás natural, possuindo as maiores reservas provadas de gás, tendo as Forças
Armadas com mais equipamento a seguir aos Estados Unidos, o quarto maior
exército (com um milhão de soldados) e milhares de armas nucleares. Acresce que
tem uma localização ímpar, fazendo parte das três regiões estrategicamente mais
importantes do globo, ou seja, Europa, Ásia Oriental e Médio Oriente.
O único dos chamados bric que não é asiático é o Brasil, sendo, porém, também o
mais pequeno de todos eles e o que suscita mais dúvidas sobre se deve ser
considerado uma grande potência mundial. Todavia, é cada vez mais tratado como
tal por países como os Estados Unidos e há bons motivos para isso. A sua
economia tem verificado uma boa taxa de crescimento na última década, tendo-se
tornado recentemente a sétima mundial, ultrapassando o Reino Unido. É um
gigante em termos de população e de tamanho do território, estando em quinto
lugar em ambos os fatores. Ocupa já o 13.º lugar mundial em gastos militares,
embora as suas Forças Armadas sejam de reduzida dimensão e não tenha armas
nucleares. Mas, em alguns aspetos, o Brasil ultrapassa os outros bric: é um
gigante energético, sendo o 13.º maior produtor de petróleo e o 28.º de gás
natural, além de possuir uma das maiores reservas provadas destes
hidrocarbonetos e de ser muito menos dependente deles ao nível das exportações,
quando, por exemplo, comparado com a Rússia, dada a sua grande diversidade de
recursos naturais; é uma democracia, condição que só é partilhada pela Índia; é
o único que não tem problemas de identidade nacional, movimentos secessionistas
e conflitos étnico-religiosos; não tem rebeldes internos ou vizinhos hostis4.
Uma escola de pensamento completamente diferente é a de Robert Kagan, que
contesta a tese do fim da unipolaridade e mesmo a do declínio de poder dos
Estados Unidos, baseando-se para isso sobretudo no que chama de indicadores
básicos para medir as mudanças no poder relativo de um Estado, tais como: o
tamanho e a influência da sua economia relativamente a outras potências; a
magnitude do poder militar quando comparada com o de potenciais adversários; o
grau de influência política no sistema internacional5.
Antes, porém, o autor apresenta um argumento importante, como seja o de que
conclusões baseadas apenas em evidências de poucos anos são muito
questionáveis, uma vez que o declínio de uma grande potência é o resultado de
mudanças fundamentais na distribuição de poder no sistema internacional que se
estendem por longos períodos de tempo, e isto mesmo no caso de alterações
causadas por uma guerra, uma vez que estas são geralmente o culminar de um
longo processo. A título de exemplo, é referido o caso do Império Britânico,
cujo declínio durou várias décadas, tendo começado no último quartel do século
xix e durado até à II Guerra Mundial.
Para Kagan, o problema dos que defendem o declínio do poder dos Estados Unidos
resulta, simultaneamente, de apenas se considerar o período de tempo que vai da
crise financeira de 2008 à atualidade, ou seja, apenas quatro anos, e de os
indicadores básicos para medir as mudanças de poder não só não confirmarem esta
tese, como revelarem mesmo o contrário, isto é, que as bases fundamentais do
poder norte-americano não se alteraram de forma fundamental desde o colapso do
Lehman Brothers.
Segundo Kagan, é esta a conclusão a extrair quando analisamos os indicadores
económicos, que se mantiveram estáveis ao longo das últimas quatro décadas. Os
Estados Unidos são hoje a maior economia do mundo, com 25 por cento da riqueza
global, uma percentagem igual à de 1969; o seu PIB per capita é de 48 mil
dólares, ocupando o 11.º lugar a nível mundial; é o segundo maior exportador
(1,5 milhões de milhões de dólares); é o terceiro maior produtor de petróleo
(19,15 milhões de barris/dia) e o maior produtor de gás natural (683 mil
milhões de metros cúbicos). Estes números são ainda mais significativos quando
comparados com os das potências emergentes, como por exemplo a China, cuja
economia, tal como já referimos, é a segunda mundial, embora seja cerca de
quatro vezes inferior à da América; o seu PIB per capita é apenas ligeiramente
superior a oito mil dólares, o que a coloca no 119.º lugar do mundo; já ao
nível das exportações, a China ocupa o primeiro lugar, mas fica novamente
bastante atrás no que se refere à produção de petróleo e gás natural.
Se em relação aos indicadores económicos pode existir alguma controvérsia,
tendo em conta as previsões mais credíveis sobre a evolução nas próximas
décadas, já no que diz respeito aos militares os dados são inequívocos. Robert
Kagan não exagera muito quando refere que os Estados Unidos são ainda hoje o
país mais poderoso que o mundo alguma vez conheceu, sendo que o exemplo
histórico que mais se aproxima é o do Império Romano. A América é o único
Estado com capacidade para projetar poder à escala global, possuindo o seu
Exército e Força Aérea o equipamento mais avançado e sendo a sua Marinha
predominante em todas as regiões significativas do globo.
Os Estados Unidos gastam mais em defesa do que todos os outros países do mundo
combinados e, mesmo assim, representam apenas quatro por cento do seu PIB
anual, o que significa que o conseguem sem impor grandes sacrifícios aos seus
cidadãos, incluindo os dez anos em que travou duas guerras simultâneas ' no
Afeganistão e no Iraque.
É atualmente impensável uma intervenção militar numa qualquer região importante
sem a participação de Washington, como os vários exemplos recentes demonstram:
Bósnia, Kosovo e mesmo Líbia. Além disso, não só não existe nenhum Estado, ou
conjunto de estados, capaz de desafiar a primazia norte-americana, como o país
possui um alargado sistema de alianças político-militares, incluindo bases em
vários países, o que não tem equivalente e lhe assegura uma presença em
praticamente todas as regiões do globo. Finalmente, o país tem uma grande
vantagem em termos do chamado soft power pois mantém-se válido o argumento de
Joseph Nye de que ele «consegue o que quer no mundo» devido aos «valores
expressos pela sua cultura», tal como refletidos através da televisão, cinema e
música6.
Robert Kagan contesta ainda o que chama de «assunção quase universal da perda
de influência internacional dos Estados Unidos». Todavia, esta é a parte mais
fraca do seu argumento pois não só não analisa comparativamente a influência
norte-americana nas várias regiões do mundo, com a exceção do Médio Oriente '
onde não tem razão ao sugerir que não existe um recuo do país ', como se limita
a dar exemplos do período da Guerra Fria para sustentar que Washington nunca
foi capaz de obter tudo aquilo que quis. É certo que os Estados Unidos tiveram
vários revezes no passado recente, como, por exemplo, a vitória comunista na
China, a aquisição da bomba atómica pela urss, a incapacidade de ganhar na
Coreia, entre vários outros casos. Mas a questão principal aqui é que estamos
hoje muito longe dos anos da euforia do fim da história, e do consenso de
Washington, restando perceber se se trata de um problema conjuntural,
decorrente da crise de legitimidade norte-americana devido à «doutrina Bush» e
à intervenção militar no Iraque, ou se é um problema estrutural de crise do
modelo liberal.
A conclusão lógica desta perspetiva é a recusa do retraimento estratégico dos
Estados Unidos. Robert Kagan é muito claro ao defender que a América não deve
reduzir o seu papel no mundo, pois tal tem como consequência o colapso da ordem
internacional e os custos disso são incomparavelmente superiores ao que o país
gasta hoje para manter a pax americana, que garante, por exemplo, a existência
de um mundo dominado por democracias em vez de autocracias, a ordem económica
internacional liberal, a segurança das rotas marítimas e a não ocorrência de
guerras regionais entre grandes potências7.
A GRANDE ESTRATÉGIA DOS ESTADOS UNIDOS
A resposta dada à questão da transição de poder no sistema internacional é
determinante para o debate acerca da grande estratégia dos Estados Unidos.
A grande estratégia consiste na visão geral dos objetivos de segurança de um
Estado e na determinação dos meios mais adequados para atingi-los, o que
depende da avaliação da distribuição de poder, da localização geográfica e das
capacidades militares próprias e dos outros8.
Em função da combinação destes fatores, os estados optam por um determinado
tipo de grande estratégia, havendo aqui várias propostas académicas, sendo uma
das mais recentes a de John Mearsheimer, que identificou quatro opções
primordiais, como sejam, o isolationism, o offshore balancing, oselective
engagemente a global dominance ou global hegemony9.
O isolationism foi a grande estratégia seguida pelos Estados Unidos durante as
primeiras décadas da sua existência e manteve-se sempre como uma tendência
importante até à II Guerra Mundial. Trata-se de uma abordagem assente em duas
premissas fundamentais: primeira, a de que não existe nenhuma região fora do
continente americano que seja suficientemente importante do ponto de vista
estratégico para justificar uma intervenção militar de Washington; segunda, a
de que a segurança do país está garantida pelo facto de ele estar separado de
todas as grandes potências mundiais pelos oceanos Atlântico e Pacífico,
juntando-se a partir de 1945 a segurança dada pela aquisição do poder nuclear.
A primeira afirmação desta grande estratégia, e a melhor fonte para compreender
o seu significado, data de 1796. No discurso de despedida feito esse ano, o
Presidente George Washington afirmou que era «pouco sensato» da parte do país
«envolver-se por laços artificiais» nas «vicissitudes habituais» da política
europeia, acrescentando ainda de forma esclarecedora: «A nossa localização
isolada e distante convida-nos a seguir um rumo diferente e dá-nos essa
possibilidade.»10
Mesmo após a ascensão dos Estados Unidos a grande potência, traduzida sobretudo
na sua vitória na I Guerra Mundial, o isolationism manteve-se muito forte na
sociedade norte-americana, tendo inclusive sido dominante durante as décadas de
1920 e 1930, altura em que os «isolacionistas» vetaram a integração do país na
Sociedade das Nações, mantendo-o assim fora do principal mecanismo do sistema
de Versalhes11.
Ainda que tenha vindo a perder força desde a II Guerra Mundial, o isolationism
tem ainda hoje muitos adeptos entre alguns setores da sociedade americana, como
por exemplo os «libertários», liderados por Ron Paul, que não acreditam que os
interesses do país sejam melhor servidos pela ordem internacional liberal e
cosmopolita e, logo, opõem-se ao envolvimento no exterior para manter essa
ordem, o que se traduziu, recentemente, na oposição às guerras do Afeganistão e
do Iraque e mesmo à estratégia «Leading from behind» na Líbia12.
O offshore balancing foi a grande estratégia dos Estados Unidos desde o fim do
isolationism até ao termo da Guerra Fria. Esta abordagem baseia-se na convicção
de que existem três regiões no mundo estrategicamente importantes para os
norte-americanos, nomeadamente a Europa, o Nordeste Asiático e o Golfo Pérsico,
defendendo consequentemente que o seu principal interesse consiste em garantir
que nenhum país consegue dominar qualquer uma delas. Para tal, Washington deve
privilegiar alianças com potências locais que sejam capazes de conter os
aspirantes à hegemonia regional, ao mesmo tempo que mantém as suas forças
militares offshore, mas a uma distância que permita o envio rápido de tropas
para um país dessas regiões em caso de necessidade.
Todavia, esta tese não é consensual, com por exemplo Christopher Layne a
defender que os Estados Unidos seguiram uma grande estratégia de global
dominance ou global hegemony desde a sua entrada na II Guerra Mundial. E, de
facto, Washington manteve tropas e bases militares na Europa e no Nordeste
Asiático após 1945, o que invalida uma das premissas do offshore balancing13.
O selective engagement mantém a premissa de que a Europa, o Nordeste Asiático e
o Golfo Pérsico são as únicas regiões que justificam o envolvimento militar dos
Estados Unidos no exterior, dado serem estrategicamente vitais, mas é muito
mais ambicioso do que o offshore balancing, defendendo a colocação permanente
de tropas norte-americanas nessas áreas regionais, além de que ele não se
limita a impedir as aspirações hegemónicas de um adversário nos locais em
apreço, visando também impedir a guerra.
Ainda que uma vez mais não exista consenso sobre quando os Estados Unidos
seguiram esta grande estratégia, podemos considerar que a Administração Bush
pai adotou pelo menos parcialmente o selective engagement, sobretudo a partir
da I Guerra do Golfo. Um exemplo disso é a sua estratégia para o Golfo Pérsico,
com a intervenção militar contra o Iraque, a criação de zonas de interdição
aérea neste país e, mais importante de tudo, de bases militares na Arábia
Saudita e Koweit.
Finalmente, tal como sustentam Mearsheimer e Layne, os Estados Unidos seguiram
uma grande estratégia de global dominance, ou global hegemony, desde a
Administração Clinton, sendo que esta se caracteriza por não limitar os
interesses estratégicos norte-americanos à Europa, Nordeste Asiático e Golfo
Pérsico, abarcando todas as regiões do mundo. Ela configura assim uma
orientação externa que não quer, nem necessita, de estabelecer prioridades,
contemplando todos os locais e países do mundo para atingir dois grandes
objetivos: garantir que os Estados Unidos continuam a ser a maior potência
mundial e estender a democracia à escala global.
Importa sublinhar que existem diferenças importantes entre os defensores desta
grande estratégia relativamente à melhor forma de conseguir a global dominance
ou hegemony, sendo possível distinguir dois grandes grupos: os «imperialistas
liberais» e os «imperialistas neoconservadores». Os primeiros, não excluem o
uso do poder militar norte-americano para fazer operações humanitárias e mesmo
de regime change ou nation-building, porém, confiam menos na capacidade de
atingir os seus objetivos exclusivamente através do poder militar, valorizando
os elementos civis, privilegiando a ação multilateral, defendendo que o país
deve agir com os seus aliados e através de instituições internacionais e
sustentando que o objetivo de «alargamento da democracia» deve ser prosseguido
de forma progressiva e cooperativa. Já os «imperialistas neoconservadores»
defendem o uso do poder militar para transformar a ordem internacional, através
da ação unilateral sempre que necessário, desconfiando dos aliados permanentes
e das instituições internacionais.
A Administração Clinton é um exemplo da escola «imperialista liberal». A 27 de
setembro de 1993, Clinton defendeu no seu discurso nas Nações Unidas que a
prioridade do país devia ser «a expansão e o fortalecimento da comunidade
mundial das democracias de mercado», afirmando assim aquela que ficou conhecida
por «estratégia do alargamento», isto é, de extensão do modelo democrático-
liberal à escala global14. E se é um facto que durante este período o Governo
norte-americano não utilizou a guerra como forma para «alargar a democracia»,
não deixou contudo de levar a cabo um conjunto alargado de intervenções
militares no exterior e a um ritmo quase anual, nomeadamente na Somália (1993),
no Haiti (1994), na Bósnia (1995), no Iraque (1998) e no Kosovo (1999)15.
Já a Administração George W. Bush é um bom exemplo da escola «imperialista
neoconservadora », traduzida na chamada «doutrina Bush» de 2002, que introduziu
na política externa dos Estados Unidos um conjunto de conceitos que, embora não
fossem novos, tinham estado praticamente ausentes da prática norte-americana
desde 1945, tais como, o unilateralismo, a guerra preventiva, as coligações
variáveis, o regime change, com o objetivo último de democratizar o mundo
muçulmano e árabe através do uso da força militar do país, como o demonstra a
Guerra do Iraque16.
A AGENDA DE BARACK OBAMA E MITT ROMNEY
E em qual destas grandes estratégias se inserem Barack Obama e Mitt Romney?
Em relação ao primeiro, não existe ainda propriamente uma agenda de política
externa no âmbito da campanha para as eleições de novembro de 2012, estando
Obama sobretudo a aproveitar o exercício do cargo presidencial para apresentar
as suas ideias neste campo. Mas, por esta última razão, existem alguns
documentos do Governo norte-americano que são fundamentais para compreender a
grande estratégia de Obama, muito em particular o artigo publicado por Hillary
Clinton na revista Foreign Policy e o Defense Strategic Guidance.
O artigo de Clinton, sugestivamente intitulado «The America's pacific century»,
opera uma mudança fundamental na política externa dos Estados Unidos, com a
deslocação da sua prioridade do mundo euro-atlântico para a Ásia-Pacífico.
Trata-se de uma rutura com os últimos setenta anos, nomeadamente com a
orientação definida por Franklin Delano Roosevelt em 1941, que estabeleceu o
princípio «a Europa primeiro», considerando este continente como a primeira
linha de defesa e de segurança da América. Isso está a acabar nos dias de hoje,
sendo agora a prioridade a região Ásia-Pacífico17.
Esta «viragem estratégica» é uma consequência da convicção da Administração
Obama de que estamos atualmente a assistir à transferência da riqueza e do
poder do Ocidente para o Oriente. Ato contínuo, o texto da secretária de Estado
afirma que a próxima década será marcada por «um aumento substancial do
investimento norte-americano ' diplomático, económico, estratégico e outro ' na
Ásia-Pacífico », através do que chama de «forward-deployed diplomacy», que
consiste em seis eixos de ação: o reforço das alianças bilaterais tradicionais;
o aprofundamento das relações com as potências emergentes; um maior compromisso
com as instituições regionais multilaterais; a expansão do comércio e dos
investimentos; a construção de uma ampla presença militar; a promoção da
democracia e dos direitos humanos. Clinton fala mesmo no objetivo final de
construir na Ásia-Pacífico algo semelhante à Aliança Atlântica, ainda que não
se perceba como isso será possível quando os estados envolvidos não partilham
os mesmos valores e têm visões das relações internacionais muito diferentes,
como, por exemplo, os Estados Unidos e a China.
No primeiro caso, trata-se do fortalecimento das alianças com o Japão, a Coreia
do Sul, a Austrália, as Filipinas e a Tailândia. O Japão é considerado a pedra
angular da estabilidade na região, quer por ser o país militarmente mais
poderoso de todos, quer por se situar na área vital do Nordeste Asiático, quer
ainda por ser essencial para a questão do controlo do mar da China, motivos que
levaram a Administração Obama a não só manter a presença militar norte-
americana no país, ainda que com um maior contributo financeiro japonês, como a
decidir um aumento das atividades conjuntas de recolha de informações,
vigilância e reconhecimento destinadas à dissuasão, ou reação rápida, de
ameaças de segurança na região. O reforço da aliança com a Coreia do Sul é
outra das prioridades, o que, uma vez mais, tem a ver com os equilíbrios no
Nordeste Asiático e com a ascensão da China e isto quer na dimensão militar,
por exemplo com o aumento do fornecimento de armas a Seul, quer económica,
tendo recentemente sido assinado um acordo de comércio livre entre a América e
a Coreia. Mas a aliança cuja importância mais tem crescido nos últimos tempos é
com a Austrália, o que resulta da nova conceção de Washington da região Ásia-
Pacífico ' que se prolonga agora até ao oceano Índico ', e se traduz no envio
de cerca de duas centenas e meia de marines para o Norte da Austrália. Importa
ainda destacar o caso das Filipinas e o aumento da presença naval norte-
americana no país, para além do papel desempenhado pelas forças armadas dos
Estados Unidos nos treinos das unidades especiais de contraterrorismo filipinas
no âmbito da chamada Joint Special Operations Task Force.
No caso do aprofundamento das relações com as potências emergentes destaca-se o
caso da China, ainda que a Índia tenha cada vez maior importância. A política
de Barack Obama em relação a Pequim consiste numa combinação de contenção e
acomodação, traduzida, por um lado, na edificação de uma arquitetura de
contrapeso à China na Ásia-Pacífico, em geral, e no Nordeste Asiático, em
particular, e, por outro lado, no esforço para levar os chineses a assumirem
uma maior responsabilidade na manutenção da ordem internacional atual. Deste
modo, ao mesmo tempo que os Estados Unidos criam, ou reforçam, alianças
equilibradoras ao poder chinês e aumentam a sua presença militar na região,
contribuem para reforçar o peso da China em instituições como o G20, criam
informalmente o G2 e lançam o chamado «Diálogo Estratégico e Económico», uma
plataforma de diálogo contínuo entre os governos de Washington e Pequim que
abarca uma alargada gama de assuntos, desde a segurança à economia, passando
pela energia e o ambiente. Todavia, a perceção dos chineses de que a nova
política asiática dos Estados Unidos se destina quase exclusivamente à sua
contenção e a desconfiança norte-americana em relação ao significativo
incremento dos gastos militares por parte da China têm levado a uma lenta
subida da tensão entre estes dois países. Já a Índia é a «nova aposta
estratégica» da Administração Obama, integrando duas novas parcerias
trilaterais estratégicas essenciais: Estados Unidos-Índia-Austrália e Estados
Unidos-Índia-Japão. A primeira compreendeu já um desenvolvimento muito
significativo, como seja a decisão australiana de vender urânio natural a Nova
Deli. A segunda abrangeu os acordos entre o Japão e a Índia para a realização
do seu primeiro exercício naval e aéreo conjunto em 2012, para a organização de
um «Diálogo de Políticas para a Defesa Japão-Índia », a decorrer no final de
2012 em Tóquio, bem como um intercâmbio ao mais alto nível entre as forças
armadas dos dois países.
Quanto à construção de uma ampla presença militar na Ásia-Pacífico, já
referimos o envio de marines para o Norte da Austrália e o aumento da presença
naval nas Filipinas, tendo de se acrescentar a estes exemplos o envio dos
chamados littoral combat ships para Singapura e o recomeço do treino conjunto
das unidades de forças especiais dos exércitos americano e indonésio. A isto
acresce a decisão de manter as mais de 50 mil tropas no Japão e na Coreia do
Sul.
Finalmente, para referir apenas os pilares mais importantes da nova política
dos Estados Unidos para a Ásia-Pacífico, o maior compromisso com as
instituições regionais multilaterais passa sobretudo pelo reforço das relações
com a asean ' uma organização que exclui a China, ainda que tenha um acordo de
comércio livre com ela ', tendo Washington assinado recentemente um tratado de
amizade e cooperação com a asean e inaugurado uma nova missão junto dela. Mas
incluiu também o aprofundamento das relações com a apec, a participação pela
primeira vez na Cimeira da Ásia do Leste no Havai e, mais importante de tudo, o
projeto de criação de uma nova «Parceria Trans-Pacífico », isto é, uma
comunidade única de comércio no Pacífico.
Não deixa de ser sintomático que este artigo da secretária de Estado,
estruturante da nova orientação externa dos Estados Unidos, esqueça
praticamente por completo a Europa18. Ao longo dos últimos quatro anos, os
textos publicados, os discursos públicos, as visitas de Estado, entre outros
indicadores, deixaram claro que para Barack Obama a Europa já não é a
prioridade. Todavia, isto não quer dizer que ela tenha deixado de ser
importante, havendo sobretudo três questões que tornam o continente europeu
relevante, a saber: a Rússia, a economia e a NATO.
As relações com a Rússia são muito importantes para o Presidente norte-
americano, desde logo por causa do problema da proliferação nuclear, uma
prioridade para a atual Administração, mas também pelo papel que Moscovo pode
assumir na manutenção da ordem internacional como grande potência que não
deixou de ser e que está em ascensão. Foram estes motivos que levaram Obama a
adotar a chamada reset policy, pretendendo com ela remover a tensão gerada pela
expansão da NATO aos países do antigo bloco soviético e pelo projeto de George
W. Bush de construir um escudo de defesa antimíssil na Polónia e República
Checa. E, apesar da relação Washington-Moscovo não estar hoje isenta de
problemas, ficando longe dos objetivos iniciais da Casa Branca, ela conheceu
alguns sucessos relevantes, com destaque para a assinatura em 2010 do Tratado
New Start, um acordo que, como veremos, estabelece uma redução significativa do
arsenal nuclear dos dois países19.
A questão económica está intimamente ligada à integração europeia, um projeto
desde sempre defendido por Barack Obama, mas que se tornou ainda mais
importante por causa da crise da dívida soberana, que ameaça provocar uma
recessão nos Estados Unidos, bem como no mundo em geral. Vale a pena recordar
que as economias dos dois lados do Atlântico são hoje mais interdependentes do
que em qualquer altura no passado e que norte-americanos e europeus são os
maiores parceiros comerciais um do outro, representando cerca de metade do
comércio internacional.
Em relação à NATO, apesar do mal-estar em Washington devido às reticências dos
países europeus em contribuir mais para a defesa coletiva e das consequências
da débâcle no Afeganistão, Obama tem sustentado o reforço da organização, o que
se justifica uma vez que se trata da única instituição capaz de resolver crises
e conflitos, mantendo a ordem internacional, de uma forma multilateral, aspeto
ainda mais relevante num momento em que os Estados Unidos estão a retrair-se
estrategicamente e outras potências estão a emergir20.
Finalmente, importa sublinhar que o texto de Clinton começa por referir o fim
da Guerra do Iraque e o início da retirada do Afeganistão, acrescentando que os
Estados Unidos vão deslocar os imensos recursos investidos nesta parte do mundo
para a Ásia-Pacífico, o que significa um retraimento no Médio Oriente21. Além
disso, apesar de há quatro anos ter definido o conflito israelo-palestiniano
como o cerne dos problemas da região e de ter nomeado um enviado especial para
tratar do assunto (George Mitchell), a Administração Obama não foi capaz de
obter qualquer resultado no processo de paz, tendo mesmo visto a sua capacidade
de influência junto de Israel reduzir-se para o nível mais baixo das últimas
décadas, uma consequência da sua exigência do congelamento completo da
construção de colonatos e da defesa da existência de um Estado palestiniano.
Também as relações com o Paquistão estão a atravessar uma crise séria, com
Washington a reduzir de modo considerável o montante de ajuda económica
destinado a este país, o que é tanto mais significativo se tivermos em conta
que o Presidente definiu a estratégia AfPak como uma das suas prioridades e
durante cerca de três anos investiu mais recursos nestes dois países do que
qualquer um dos seus antecessores. Por último, a forma cautelosa como Barack
Obama tem gerido o problema nuclear do Irão, resistindo às pressões para um
ataque preventivo a Teerão, mostrando abertura para negociar com os líderes
iranianos uma solução de compromisso e aceitando mesmo que o país tenha
capacidade nuclear para fins civis está muito distante da abordagem do «eixo do
mal» de George W. Bush22.
Além do artigo publicado por Hillary Clinton, o outro documento fundamental
para compreender a grande estratégia de Obama é o Defense Strategic Guidance,
divulgado em janeiro de 2012. Ele reafirma a deslocação da prioridade norte-
americana do mundo euro-atlântico para a região Ásia-Pacífico e estabelece um
significativo retraimento estratégico dos Estados Unidos para as próximas
décadas. Do conjunto das medidas previstas neste documento podem destacar-se as
seguintes: a redução do orçamento da Defesa em 480 milhar de milhões de dólares
nos próximos dez anos (já decidida no acordo entre a Casa Branca e o Congresso
de redução do défice), estando mesmo em negociação uma nova redução superior a
500 milhar de milhões, sendo que, de resto, Barack Obama definiu como meta um
gasto neste campo ligeiramente superior ao dos dez países seguintes quando
hoje, como vimos, os Estados Unidos representam 52 por cento dos gastos totais
mundiais com defesa, ou seja, gastam mais do que todos os restantes estados do
mundo combinados; a redução de 520 mil efetivos ao nível do Exército, um número
expressivo se se tiver em conta o contingente atual de 1,3 milhões de soldados;
a retirada de 80 mil tropas estacionadas na Europa; um corte no arsenal nuclear
do país, prevendo o novo acordo start com a Rússia (ratificado pelo Senado em
dezembro de 2010) um máximo de 1550 ogivas nucleares; o fim de vários programas
militares em curso e o abandono de outros previstos mas ainda não começados.
Para além disso, e de modo particularmente relevante, o Defense Strategic
Guidance substitui a anterior conceção de umas Forças Armadas preparadas para
travar duas guerras simultâneas por uma nova que prevê «uma guerra em larga
escala» e «a capacidade de impor custos inaceitáveis a um agressor oportunista
numa segunda região»23.
Referindo-se muito em especial a este último documento, Christopher Layne
escreveu que ele assinala o início de «um retraimento estratégico dramático»
que vai levar os Estados Unidos a adotarem uma nova grande estratégia de
offshore balancing, traduzida na necessidade de definir prioridades
estratégicas, na redução significativa do tamanho das Forças Armadas e da
presença militar no exterior e no burden shifting, isto é, levar os outros
estados a fazer mais pela sua segurança para que a América possa fazer menos.
Indo mais longe, esta versão de offshore balancing reduz as regiões
estrategicamente vitais para Washington à Ásia do Leste e ao Golfo Pérsico e
mesmo aí deve apostar no seu poder naval e aéreo, reduzindo ou retirando
simplesmente as suas tropas nas demais zonas do mundo, incluindo a Europa e o
resto do Médio Oriente24. Tudo indica que Layne tenha razão, porém, tendo em
conta o elevado grau de incerteza da política internacional atual, o mais
provável é que Barack Obama não tenha ainda definido uma grande estratégia
definitiva, deixando em aberto o seu leque de opções25.
No caso de Mitt Romney, existe uma agenda de política externa, apresentada em
vários discursos e documentos e sintetizada num texto publicado em outubro de
2011, com o título igualmente sugestivo de An American Century26.
Na linha da perspetiva defendida por Robert Kagan, que recusa a ideia do
declínio dos Estados Unidos, Romney sustenta a ideia de que a América vai
continuar a ter uma capacidade militar sem paralelo no mundo, o seu poder
económico é ainda enorme, os seus valores são universais e justos, o seu
sistema político é legítimo e resistente, a sua cultura permanece empreendedora
e aberta ao risco, a sua demografia é a que apresenta melhores taxas de
crescimento de todo o mundo desenvolvido e não existem problemas sociais
significativos.
Partindo deste pressuposto, o candidato republicano conclui que o país não deve
retrair-se estrategicamente, defendendo mesmo o reforço do investimento nas
Forças Armadas. Além de criticar os cortes no orçamento da Defesa aprovados
pela Administração Obama, Mitt Romney compromete-se a aumentar as capacidades
da Marinha norte-americana, sublinhando que ela tem hoje apenas 284 navios ' o
nível mais baixo desde 1916 ' quando devia ter pelo menos 328 para permitir a
sua presença em todas as partes do globo, ao mesmo tempo que promete modernizar
a Força Aérea e o Exército. Mas a grande aposta de Romney é a construção de um
«robusto sistema nacional de defesa antimíssil balístico» capaz de dissuadir ou
defender o país e os aliados de ataques nucleares, sendo aqui de sublinhar a
referência à dimensão nacional do sistema, em contraste com a alternativa ao
projeto via NATO.
O motivo para a defesa do reforço do poder militar norte-americano radica na
visão do republicano acerca do papel dos Estados Unidos no mundo, que deve
passar pela reafirmação da sua liderança à escala global e pela recuperação da
capacidade para «atuar como uma superpotência» de modo a não só manter, como
mesmo «expandir», a ordem internacional liberal. Este último aspeto é muito
importante pois o candidato defende o alargamento universal do modelo
democrático liberal e identifica mesmo os alvos principais, como sejam, a China
e a Rússia, cuja «transformação em atores políticos democráticos e decentes
deve ser um desafio prioritário para qualquer líder americano». Mitt Romney
recupera mesmo alguns dos conceitos da «doutrina Bush», ainda que numa versão
mitigada, como por exemplo uma variante da guerra preventiva a que chama de
«uso preventivo do hard e soft power», o «eixo do mal» Irão e Coreia do Norte,
agora apenas com a designação de «estados párias» (curiosamente não refere a
Síria), o unilateralismo sempre que necessário, ainda que afirmando a
preferência pelo exercício da liderança de um modo multilateral, e a
desconfiança relativamente às organizações internacionais, como as Nações
Unidas, que «se tornaram fóruns para acessos de raiva de tiranos e de
propaganda do preconceito mais antigo do mundo: o antissemitismo».
Quanto a assuntos, regiões ou países específicos, o republicano destaca a
ascensão da China, a reemergência da Rússia, o Médio Oriente ' muito em
especial o conflito israelo-palestiniano, o Irão, o Iraque, o Afeganistão e o
Paquistão ', a questão nuclear norte-coreana e a «primavera árabe», esta última
analisada de forma transversal e exaustiva. Curiosamente, com exceção da
Rússia, não há qualquer referência à Europa nem à União Europeia.
A política em relação à China é a contenção. Romney acredita que a China
pretende alcançar a «hegemonia regional» e a única maneira de impedir tal
ambição é a manutenção de uma forte presença militar dos Estados Unidos no
Pacífico. Em concreto, defende a expansão da presença naval norte-americana no
Pacífico Ocidental, o fornecimento a Taiwan dos meios militares necessários
para dissuadir qualquer ameaça chinesa, a assistência aos países do Pacífico ao
nível de sistemas de radares e outras redes de deteção e monotorização de
comportamentos agressivos, destacando-se aqui o mar da China. Em paralelo,
Washington deve reforçar a aliança com parceiros estratégicos na região,
sobretudo com a Índia, e construir laços mais fortes com países crescentemente
influentes como a Indonésia. No plano económico, é proposta a criação da Reagan
Economic Zone na Ásia-Pacífico com o objetivo de codificar os princípios do
mercado aberto. Indo mais longe, e, como já foi referido, o republicano defende
a promoção da democracia em Pequim através do apoio a dissidentes e grupos da
sociedade civil defensores de reformas democráticas, do combate à corrupção, da
liberdade religiosa e dos direitos das mulheres27.
Já a Rússia é vista como «uma força desestabilizadora do mundo que tem de ser
moderada». Ainda que não se perceba totalmente o que isto quer dizer, não há
dúvidas de que a posição de Romney relativamente a Moscovo é extremamente dura,
consistindo no que chama de estratégia «Reset The Reset», isto é, uma
orientação que passa por acabar com a reset policy de Obama e em todas as suas
componentes. Desde logo, na questão considerada prioritária do armamento
nuclear, revendo o Tratado New Start pois, para o republicano, este, tal como
está feito, permite aos russos expandir o seu arsenal enquanto os americanos
são obrigados a reduzi-lo. Depois, voltando a reforçar as relações com os
países da antiga urss, nomeadamente na Ásia Central, o que passa inclusive pelo
treino militar e fornecimento de armamento. Finalmente, apoiando os líderes das
organizações da sociedade civil que defendem a democracia, a liberdade
económica e a luta contra a corrupção28.
O Médio Oriente é outra grande prioridade para Mitt Romney. Em primeiro lugar,
o conflito israelo-palestiniano, sendo aqui a orientação de apoio total a
Israel, com garantias reforçadas ao nível da sua segurança e um endurecimento
da posição em relação à Autoridade Palestiniana, com a ameaça de redução da
ajuda económica caso ela continue a tentar o reconhecimento do Estado
palestiniano nas Nações Unidas ou forme um governo com o Hamas. Em segundo
lugar, o Irão, defendendo o republicano que a ação militar deve permanecer como
uma opção séria e credibilizada não apenas por palavras, mas também por ações
concretas, tais como o restabelecimento da presença regular de porta-aviões
norte-americanos no Mediterrâneo Oriental e no Golfo Pérsico, a realização de
mais exercícios navais na região, o incremento da coordenação militar com os
aliados árabes e o aumento do fornecimento de armas a Israel. Paralelamente,
Romney defende uma quinta fase de sanções direcionadas para o banco central
iraniano e para a indústria do petróleo, sendo que, caso tal não seja aprovado
pela onu, os Estados Unidos devem criar uma «coligação de vontades» (um termo
adotado pela «doutrina Bush» no contexto da Guerra do Iraque), ou mesmo agir
sozinhos. Finalmente, durante um debate das primárias, o candidato defendeu a
promoção de uma «mudança de regime» através da adoção de operações secretas de
apoio aos dissidentes internos. Em terceiro lugar, o Iraque, com o republicano
a criticar a decisão de Obama de deixar apenas três mil tropas no país para a
missão de treino das Forças Armadas iraquianas e a sugerir apoiar a
recomendação dos comandantes militares no terreno de manter entre 14 a 18 mil
efetivos em Bagdade. Em quarto e último lugar, o Afeganistão e o Paquistão, com
Romney a criticar a Administração Obama por ter fixado 2014 como data de saída
e a prometer rever todo o processo de transição, incluindo o prazo de retirada
das tropas29.
Em relação à Coreia do Norte, Mitt Romney considera-a um «Estado-pária » (em
rigor, ele utiliza o conceito de «Nação-pária ») e rejeita o que chama de
«cooperação ilusória», numa referência ao acordo «alimentos pelo nuclear»
recentemente negociado entre Washington e Pyongyang. Em vez disso, o
republicano defende um endurecimento das sanções ao país, incluindo nelas as
instituições financeiras e as empresas que têm negócios com o regime norte-
coreano, e o reforço da cooperação militar com os aliados da América na região,
com destaque para a Coreia do Sul e o Japão. E, sem especificar, Romney promete
persuadir a China a comprometer-se com o desarmamento da Coreia do Norte30.
Não por acaso, o documento An American Centrury dedica uma grande parte à
«primavera árabe», considerado o acontecimento mais importante no mundo árabe
desde o colapso do Império Otomano. Mitt Romney utiliza este desenvolvimento
para criticar a estratégia «Leading from behind» do atual Presidente ' também
conhecida como «doutrina Obama» ', e que, embora se aplicasse especificamente
ao papel dos Estados Unidos no caso da Líbia, acabou por simbolizar o baixo
perfil seguido também no Egito, Tunísia e Síria. O candidato republicado
compromete-se a adotar uma estratégia que pode ser chamada de «Leading from the
front», apoiando diretamente os grupos que defendem a democracia e uma
sociedade aberta, prometendo organizar uma cimeira com vários líderes e
organizações mundiais para angariar fundos para as forças democráticas. Mas a
posição mais dura neste âmbito é dedicada ao caso da Síria, cujo líder é
considerado «um ditador sem escrúpulos, um assassino e uma marioneta do Irão»,
devendo os Estados Unidos adotar uma estratégia de «isolamento e pressão» sobre
o regime de Bashar al-Assad, seja através de sanções que cortem as suas fontes
de financiamento, seja trabalhando com a Arábia Saudita e a Turquia para levar
os militares sírios a romper com o regime, seja através do apoio às forças da
oposição na Síria31.
Como escreveu Robert W. Merry na revista The National Interest, durante as
primárias, Mitt Romney tem sido um «neoconservador fervoroso» e um defensor da
grande estratégia de global dominance ou global hegemony32. Como vimos, em
muitos casos as posições de Romney estão mesmo muito próximas das do primeiro
mandato de George W. Bush, ficando, porém, a dúvida de se tal resulta de uma
visão neoconservadora das relações internacionais ou apenas da necessidade de
ganhar a nomeação republicana.
CONCLUSÃO
Tal como acontece na política interna, o debate em torno da grande estratégia
dos Estados Unidos está polarizado, com Barack Obama a parecer defender um
regresso ao offshore balancing e Mitt Romney a optar pela continuação da global
dominance ou global hegemony.
Na base destas duas visões contrárias está a avaliação diferente acerca da
evolução do sistema internacional, com destaque especial para a forma como os
dois candidatos percecionam a questão do declínio do poder norte-americano, com
Obama mais próximo do pensamento de autores como Christopher Layne e Michael
Mandelbaum e com Mitt Romney a alinhar pela perspetiva de Robert Kagan.
Todavia, o facto de estarmos numa fase de transição, que tanto pode levar à
continuação da unipolaridade como à bipolaridade (Estados Unidos-China) ou à
multipolaridade, impede os candidatos às eleições de 2012 de adotarem fórmulas
rígidas ou definitivas. Essa flexibilidade estratégica é particularmente
visível em Obama, não sendo porém alheio a isso o facto de não ter tido de
disputar as primárias.
Importa ainda sublinhar que em ambos os casos se defende a continuação da
liderança mundial dos Estados Unidos, estando a diferença mais na forma de
conseguir esse objetivo central do que no resultado final a obter.
NOTAS
1
Kagan, Robert ' «Not fade away. The myth of American decline». In The New
Republic, 11 de janeiro de 2012. Disponível em: http://www.tnr.com/article/
politics/magazine/99521/america-world-power-declinism; Layne,
Christopher ' «The (almost) triumph of offshore balancing». In The National
Interest, 27 de janeiro de 2012. Disponível em: http://nationalinterest.org/
commentary/almost-triumph-offshor-balancing6405. Importa
destacar que Kagan é um dos conselheiros de Mitt Romney para a política externa
e que Layne, não estando formalmente ligado a Barack Obama, tem procur ado
influenciar a sua política externa e de segurança.
2
Zakaria, Fareed ' The Post-American World. 2.ª edição. Nova York: W.W. Norton
& Company, 2011; Mandelbaum, Michael 'The Frugal
Superpower. America's Glogal Leadership in a Cash-Strapped Era. Nova York:
Public Affairs, 2010; Layne, Christopher ' The Peace of
Illusions. American Grand Strategy from 1940 to the Present. Ithaca: Cornel
University Press, 2006.
3
Uma das melhores e mais acessíveis sínteses sobre o declínio económico dos
Estados Unidos pode ser encontrada em Mandelbaum, Michael ' The Frugal
Superpower. America's Glogal Leadership in a Cash-Strapped Era.
4
A melhor análise sobre a «ascensão do resto» pode ser vista em Zakaria, Fareed
' The Post-American World. Para a parte dos gastos em defesa ver, em especial,
o Year Book 2011, doStockholm International Peace Research Institute, em http:/
/www.sipri.org/
5
Kagan, Robert ' «Not fade away. The myth of American decline». Como é tradição
nos Estados Unidos, o texto de Robert Kagan acabou por ser publicado em livro:
Kagan, Rober t ' The World America Made. Nova York: Alfred A. Knopf, 2012.
6
Nye, Joseph ' Soft Power: The Means to Sucess in World Politics. Nova York:
Public Affairs, 2005.
7
Sobre a questão da transição de poder no sistema internacional ver também:
Brzezinski, Zbigniew ' Strategic Vision. America and the Crisis of Global
Power. Nova York: Basic Books, 2012; Kupch an, Charles A. '
No One's World. The West, the Rising Rest, and the Coming Global Turn. Oxford:
Oxford University Press, 2012.
8
Layne, Christopher ' The Peace of Illusions. American Grande Strategy from
1940 to the Present, pp. 19-22.
9
Me arsheimer, John ' «Imperial by design». In The National Interest, 16 de
dezembro de 2010. Disponível em: http://nationalinterest.org/article/imperial-
by-design4576?page=show._ Optámos por referir os conceitos no
original por não existir um equivalente concetual em português para alguns
deles.
10
George Washington's Farewell Address. Disponível em: http://
avalon.law.yale.du/18th_century/washington.asp
11
A este respeito, ver, por exemplo, Kissinger, Henry ' Diplomacia. Lisboa:
Gradiva, 1994, pp. 188-211.
12
Mead, Walter Russel ' «The Tea Party and American Foreign Policy. What
populism means for globalism». In Foreign Affairs, março-abril de 2011, pp. 28-
44.
13
Para a tese de Christopher Layne, ver The Peace of Illusions. American Grand
Strategy form 1940 to the Present.
14
Sobre a estratégia do alargamento ver: Lake, Anthony, «From containment to
enlargement ». Disponível em: http://www.disam.dsca.mil/pubs/Vol2016_2/Lake.pdf
15
Para os anos de Bill Clinton, ver, em especial, Chollet, Derek, e Goldgeier,
James ' America Between the Wars, From 11/9 to 9/11. Nova York: Public Affairs
Books, 2008. O início da intervenção na Somália ocorreu ainda
durante a Administração George Bush pai, mas prolongou-se par a os anos de Bill
Clinton, tendo mesmo sido alargado o âmbito da operação militar.
16
Para os anos de George W. Bush, ver, em especial Da aldeer, Ivo, e Lindsay,
James 'America Unbound. The Bush Revolution in Foreign Policy. Washington DC:
Brooking Institution Press, 2 0 0 3. A «doutrina Bush» pode
ser consultada em http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/nsc/nss/2002/.
17
Clinton, Hillary ' «The America's Pacific Century». In Foreign Policy,
novembro de 2011. Disponível em: http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/10/
11/americas_pacific_century.
18
O artigo é composto por 16 páginas, dedica 14 à Ásia-Pacífico, apenas duas às
restantes regiões ou países e quatro linhas à Europa.
19
O texto do Tratado New Start pode ser consultado em http://www.state.gov/
documents/organization/140035.pdf.
20
Indyk, Martin S., Lieberth al, Kenneth G., e O'Hanlon, Michael E. ' «Scoring
Obama's foreign policy. A progressive pragmatist tries to Bend history». In
Foreign Affairs. Vol. 91, N.º 3, maio-junho de 2012, pp. 29-43. Estes autores publicaram muito recentemente um dos melhores livros
sobre a política externa de Barack Obama: Bending History: Barack Obama's
Foreign Policy. Washington DC: Brookings Institution Press, 2012.
21
Na conceção norte-americana o Médio Oriente estende-se do Magrebe ao
Afeganistão e ao Paquistão.
22
Indyk, Martin S., Lieberth al, Kenneth G., e O'Hanlon, Michael E. ' «Scoring
Obama's foreign policy. A progressive pragmatist tries to Bend history», pp.
29-43.
23
Sustaining U.S. Global Leadership: Priorities for 21st Century Defende,
Department of Defense, janeiro de 2012, http://www.defense.gov/news/
Defense_Strategic_Guidance.pdf
24
Layne, Christopher ' «The (almost) triumph of offshore balancing».
25
Indyk, Martin S., Lieberth al, Kenneth G., e O'Hanlon, Michael E. ' «Scoring
Obama's foreign policy. A progressive pragmatist tries to Bend history», pp. 30
e 42.
26
An American Century: A Strategy to Secure America's Enduring Interests and
Ideals. A Romney for President White Paper, 7 de outubro de 2011. Disponível
em: http://www.mittromney.com/blogs/mitts-view/2011/10/american-century-
strategy-secure-americas-enduring-interests-and-ideals
27
Para a síntese das posições de Romney sobre a China ver também: «The
candidates on U.S. policy toward China». In Council on Foreign Relations.
Disponível em: http://www.cfr.org/uselection2012/candidates-us-policy-towards-
china/p26883.
28
A respeito da Rússia ver também «The candidates on US-Russia relations». In
Council on Foreign Relations. Disponível em: http://www.cfr.org/united-states/
candidates-us-russia-relations/p27283.
29
A respeito do Irão ver também: «The candidates on US-Iran policy». In Council
on Foreign Relations. Disponível em: http://www.cfr.org/iran/candidates-us-
iran-policy/p26798
30
«The candidates on North Korea». InCouncil on Foreign Relations. Disponível
em: http://www.cfr.org/us-election2012/candidates-norte-korea/p26861.
31
An American Century: A Strategy to Secure America's Enduring Interests and
Ideals.
32
Merry, Robert W. ' «Predicting Romney's foreign policy». In The National
Interest, 2 de abril de 2012. Disponível em: http://nationalinterest.org/
commentary/predicting-romney27s-foreign-policy6691.
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