As perceções de insegurança sino-americanas
Nos últimos vinte anos os atritos no plano da segurança entre a república
Popular da China (rpc) e os Estados Unidos da américa têm ocorrido com maior
frequência2, ainda que se dissipem posteriormente sem danos substantivos para
as relações bilaterais.
Esta fenomenologia tem tido uma preponderância relevante no discurso oficial de
segurança de ambos os estados, bastando para tal atendermos à leitura dos
Livros Brancos da Defesa Nacional da República Popular da Chinae às edições da
Estratégia de Segurança Nacional dos EstadosUnidos,entre outros.
Desde 2001 que Pequim acelerou o seu programa de modernização militar numa
lógica de internal balancingface aos Estados Unidos, com o intuito de
incrementar a sua capacidade de dissuasão regional face às «interferências
territoriais» (lingtu ganrao) de Washington sobre as áreas marítimas de
interesse da China, pela demonstração da capacidade e determinação em defender
a sua soberania territorial.
A opção por esta aceleração da modernização militar chinesa foi facilitada pelo
crescimento do seu poder económico e pela acentuação de uma política mais
assertiva dos Estados Unidos que levou ao aprofundamento das suas alianças com
o Japão, a austrália, as filipinas, a tailândia e a Coreia do Sul (criticada ao
abrigo do Novo Conceito de Segurança da China ' Xin anquanguan' formulado em
1997), à intervenção militar no afeganistão e no iraque, a uma política de
maior apoio a taiwan através da aprovação de sucessivos pacotes de vendas de
armamento (o último dos quais em outubro de 2011), e ao desenvolvimento de um
sistema nacional e regional de defesa antimíssil. Esta perceção de insegurança
foi recentemente agravada, quando, em final de 2011, a secretária de estado
norte-americana Hillary Clinton declarou que a região da ásia-Pacífico seria a
partir de agora a prioridade dos Estados Unidos 3, reforçando a credibilidade e
o prestígio de Washington perante os compromissos assumidos com os seus aliados
regionais, de acordo com a arquitetura de segurança de hub and spoke.
Para a China esta redefinição das prioridades geopolíticas dos Estados Unidos
visa em última análise conter e/ou limitar o crescimento do seu poder e
influência no seio do sistema internacional, obstando no processo à noção que
se começa a generalizar (particularmente em Pequim) de que a superpotência
entrou numa fase de «declínio elegante»4.
Mas o facto de os atritos bilaterais continuarem a suceder-se espelha um choque
de perceções de autoimagem das respetivas elites políticas e opinião pública.
Ou seja, enquanto no caso dos Estados Unidos se assiste a um défice de
autoconfiança e a uma certa autocomiseração discursiva face à China, o fenómeno
é inverso entre a população chinesa, o que consubstancia uma reversão do padrão
histórico das respetivas imagens5.
Com efeito, parece estar a ser sedimentado ao nível das elites e da opinião
pública de ambos os países a noção de que o crescimento do «Poder Nacional
abrangente ' pna ou zhonghe guoli)» e da ascensão da China no sistema
internacional, está a acelerar a redistribuição do poder no sistema
internacional no sentido de uma verdadeira multipolaridade (duo jihua), mas que
por enquanto continua a ser caraterizado como um sistema de «uma superpotência
e várias grandes potências (yichaoduoqiang)»6.
Esta mútua confluência de interesses e prioridades entre os Estados Unidos e a
rpc sobre a região da ásia-Pacífico somada às disputas territoriais marítimas
entre a China e a maioria dos países da região ' alguns deles aliados dos
Estados Unidos ' e à questão de taiwan, acentua um dilema de perceções (uma
subvariante do tradicional dilema de segurança) obrigando a uma remoldagem das
respetivas políticas de segurança e das estratégias de defesa nacional.
Ou seja, a incerteza que cada um alberga quanto às verdadeiras intenções do
outro, quanto ao incremento ou perda de preponderância ou primazia, quanto ao
prestígio e credibilidade em termos de influência global e mais concretamente
regional, potencia uma maior competição bilateral no âmbito da segurança e
defesa, que acaba por se repercutir decisivamente numa redução dos níveis de
confiança mútua7.
A PERCEÇÃO DE (IN)SEGURANÇA NAS RELAÇÕES SINO-AMERICANAS
No plano político a perceção é descrita como um mecanismo psicológico que
conduz à definição de uma situação e a um subsequente processo de tomada de
decisão. A perceção das intenções de outrem pode ser particularmente difícil de
descortinar pois está associada a «estados mentais» que apenas podem ser
inferidos por evidências indiretas, conduzindo a erros de perceção. Assim, a má
perceção pode não ser sinónimo de um fracasso da política, mas pode afetar
nalguns casos as opções disponíveis8.
As perceções são importantes em termos de políticas externas dos estados pois
modelam e condicionam o leque de opções, sendo a escolha da política a seguir o
resultado da concatenação de respostas percecionadas, intenções e capacidades
de outros estados. Como a política externa dos estados é feita por indivíduos,
existe ainda uma tendência inevitável para que os que estejam ligados ao
processo de tomada de decisão política procurarem um padrão de consistência nas
suas perceções e em projetá-lo no futuro, pois qualquer tomada de decisão
racional torna-se impossível sem a assimilação de quantidades significativas de
informação que são «encaixadas» em crenças preexistentes9.
Neste contexto de individualização do processo de tomada de decisão, não deve
ser subalternizada a dimensão etnocêntrica e cultural relativa à especificidade
dessas mesmas crenças, as quais podem modelar diferentemente tanto o pensar
como o percecionar da realidade de segurança.
De acordo com Richard Nisbett, existe entre asiáticos e ocidentais um quadro
psicológico e mental distinto que modela as diferentes formas de perceção e de
pensamento:
«os chineses acreditam na mudança constante, com avanços e recuos. têm em
atenção um conjunto de eventos e procuram inter-relações entre os objetos
[físicos, animais e humanos] defendendo que não se consegue entender uma parte
sem se compreender o todo, que por si só é mais complexo do que parece. Os
ocidentais vivem num mundo mais simples e determinista, focando a sua atenção
nos objetos e nos indivíduos em detrimento da envolvente, julgando que podem
controlar os acontecimentos porque conhecem as regras que governam o
comportamento desses objetos.»10
Estas diferenças podem ser uma consequência do emprego de distintos
instrumentos quanto à compreensão do mundo. Com efeito, enquanto os chineses
desenvolveram um pensamento dialético para compreenderem as relações entre
objetos e acontecimentos, o pensamento lógico da herança ocidental grega
privilegiou os nexos causais, onde o importante são os objetivos/fins e não os
processos11.
Se Samuel huntington vaticinou um clash of civilizations, pode-se questionar se
a um nível mais primordial não existe um clash of mentalities and
perceptionspotenciador em última análise de um dilema de perceções de
insegurança.
Como sublinha Jervis, «a natureza da política internacional é multilateral e
interativa. ou seja, não se lida com um estado que perceciona a envolvente
externa como passiva, mas com muitos estados que se percecionam e reagem entre
si»12.
A comunicação neste ambiente complexo é efetuada através do envio e receção de
sinais. os estados enviam sinais intencionais que correspondem às suas
perceções e intenções bem como sinais não intencionais, em resultado de erros
inadvertidos de comunicação. Ao mesmo tempo recebem sinais e tentam interpretá-
los o mais corretamente possível, mas tal não impede que haja sempre uma maior
ou menor faixa de incerteza quanto às verdadeiras intenções do outro.
Por outras palavras, e aplicado diretamente à díade sino-americana, o facto de
os chineses serem mais sensíveis à envolvente externa no plano da segurança e
defesa por definirem de uma forma mais contingente e menos flexível os seus
interesses nacionais e a defesa da sua soberania territorial (reflexo da
ocupação territorial por potências estrangeiras durante o «Século da
humilhação»), pode condicionar mais assertiva e negativamente as suas perceções
de insegurança relativamente às intenções dos Estados Unidos.
Estamos pois ante uma dúvida perene. Pode não existir qualquer razão objetiva
que torne a confrontação entre os Estados Unidos e a China uma inevitabilidade,
mas perceções erradas ou simples diatribes linguísticas tornam-na mais
provável. Ou seja, o desenvolvimento de capacidades militares conduzidas pela
China e encaradas como defensivas é interpretado como ameaçador e
desestabilizador do status quoregional, obrigando a ações de dissuasão por
parte dos Estados Unidos, as quais são percecio- nadas como de contenção do
poder e influência regional da China, obrigando por sua vez a um novo reforço
das suas capacidades militares «defensivas», que são encaradas pelos Estados
Unidos como potencialmente ofensivas ao abrigo da relativa ambiguidade do
conceito estratégico de defesa ativa da China (como veremos mais à frente).
Em resumo, a dimensão das perceções mútuas de insegurança associada ao
mecanismo de self-fulfilling prophecies13gera um processo de mútuas
desconfianças e de caraterização ambivalente da segurança, a qual é patente no
discurso nos Livros Brancos da Defesa Nacio-nal da China,na Estratégia de
Defesa Nacional dos Estados Unidose nos relatórios anuais do Departamento de
Defesa dos Estados Unidos sobre o Poder Militar da rpc.
No entanto, tal não deixa de ser paradoxal pois apesar de ambos os países se
sentirem seguros e confiantes face ao seu futuro bem como à respetiva
preponderância no sistema internacional (mais patente no caso da China), e de
deterem interesses complementares em muitas áreas, continuam a divisar ' e por
vezes a empolar ' permanentes ameaças a essa mesma segurança e estabilidade,
não se escusando a apontarem a origem dessas potenciais ameaças às formulações
estratégicas do outro.
Se dúvidas existissem quanto à omnipresença tectónica de mútuas suspeitas
relativamente às intenções de cada um no plano da segurança regional basta
atendermos as declarações de hu Jintao e Wen Jiabao em 2001; a um editorial da
revista Qiushi(em busca da verdade) publicada pelo Comité Central do pcc em
setembro de 2011; e, no mês seguinte ao artigo de Hillary Clinton na revista
Foreign Policy; ao editorial de li hongmei no Jiefangjun Bao(Diário do exército
Popular de libertação), relativamente à tournéeasiática do secretário da Defesa
dos Estados Unidos, leon Panetta; e, por fim, a um artigo do major-general luo
Yuan, para confirmamos a incontornável persistência destas perceções mútuas de
insegurança14.
Estas perceções de insegurança refletem-se em questões como a reunificação de
taiwan, o défice comercial dos Estados Unidos, a poluição ambiental, a
segurança energética, a modernização militar da China, o reforço da presença
militar dos Estados Unidos na ásia-Pacífico, a política cambial e os direitos
humanos, que são as questões que mais preocupam ambos os países por ordem
decrescente de importância.
Os desafios associados à necessidade de os Estados Unidos e da rpc efetuarem
uma gestão correta das perceções mútuas de segurança foram reconhecidos em 2011
pelo subsecretário de estado norte-americano, William Burns, e pelo embaixador
da China nos Estados Unidos, Zhang Yseui, ao descreverem, respetivamente, o
futuro das relações bilaterais como um grande desafio para ambos os países:
«Nos próximos anos isto será um enorme desafio para os dois países. Nem o
conflito nem a cooperação são inevitáveis as escolhas que cada um de nós faz
influenciam enormemente os resultados e as apostas não têm que ser mais
elevadas. ambos os países têm muitos pontos em comum e diferenças importantes,
as quais requerem o aprofundamento da comunicação, da transparência e da
confiança para evitar desentendimento e prevenir crises.»15
acrescentando que
«a China e os Estados Unidos devem continuar a construir confiança estratégica
e gerir adequadamente as diferenças e os desentendimentos a China e os Estados
Unidos são diferentes quanto ao sistema político, valor social, tradições
históricas e culturais, o que pode conduzir a desentendimentos e desconfianças
na intenção estratégica de casa um. É imperativo alterar a velha maneira de
pensar e começar a construir as relações China-Estados Unidos com base numa
visão global e numa perspetiva estratégica e de longo prazo. Se trabalharmos em
conjunto como parceiros, poderemos, ambos, emergir como vencedores.»16
Mas serão as diferenças mencionadas por ambos os diplomatas assim tão
acentuadas? A figura 1 elenca comparativamente os respetivos valores,
interesses vitais, princípios de política externa, estratégias de segurança e
defesa nacional, metodologia de avaliação das ameaças, e estratégias e
doutrinas militares dos Estados Unidos e da China, permitindo-nos constatar que
no plano macropolítico, e na sua essência, elas não são assim tão divergente
(pelo menos semanticamente), sendo até complementares em algumas áreas. O cerne
do desfasamento percetivo parece resultar da forma como cada um deles os
operacionaliza, o que tem repercussões mais polarizadoras ao nível da interação
bilateral no plano estratégico, especialmente na área da segurança e defesa
regional asiática.
Figura 1
Comparação entre os Estados Unidos e a China
VALORES SOCIOCULTURAIS
No que concerne a este critério verificamos que estamos perante uma relativa
consonância na defesa de alguns valores (igualdade e independência) e um
entendimento distinto quanto à forma de operacionalização de outros (liberdade,
democracia e desenvolvimento).
O dilema percetivo resulta de duas versões moralistas e proselitistas assentes
num autodenominado excecionalismo. o proselitismo e messianismo norte-americano
(por vezes de cariz unilateralista e coercivo) tende a colidir com a visão
confucionista/chinesa de uma comunidade internacional (ou grande comunidade '
datong) em paz e harmonia (hexie) global e nacional, sendo a harmonia um
eufemismo para estabilidade global e unidade e estabilidade nacional, onde se
pretende reduzir as incertezas e aumentar a previsibilidade, numa
concetualização que é um misto de idealismo (unidade na diversidade) e
realismo17.
Verdade seja dita que a autoperceção moralista da China não fica atrás da
norte-americana, mas possui uma dimensão essencialmente interna, ao contrário
da dimensão mais externa e proselitista dos Estados Unidos. O país perceciona-
se a si próprio como único na sua natureza pacífica e defensiva, com todas as
suas ações, por defensivas, a poderem ser justificadas pelas suas autoperceções
de justiça e moralidade.
Quando os Estados Unidos tentam transpor e aplicar à China um tipo de discurso
assente na defesa absoluta da liberdade, democracia e defesa dos direitos
humanos, Washington colide com a força gravítica civilizacional e cultural
daquela que também desenvolveu valores e conceitos particulares ' especialmente
o confucionismo ' tidos como alternativos e mais apelativos no contexto
asiático.
Uma outra dissonância tem origem na diferente natureza dos respetivos regimes
políticos. Esta tentativa de indução externa de valores por parte da potência
hegemónica faz com que a China resista aos argumentos ocidentais de impugnação
da sua reputação internacional com base no seu «deficiente registo» de respeito
pelos direitos humanos, nomeadamente quanto ao seu défice democrático e de
liberdade de expressão dos seus cidadãos
18
, o que leva a China a acusar frequentemente os Estados Unidos de terem
critérios duplos de avaliação (shuangchong biaozhun)19.
Para Pequim, a democracia num país é gerada internamente, não imposta
externamente20, pois, como afirmou Deng Xiaoping, «os direitos nacionais (guo
quan) são mais importantes que os direitos humanos, sobrepondo-se sempre os
primeiros aos últimos»21.
A visão prevalecente na China admite que existe um aspeto universal dos
direitos humanos, interdependente e mutuamente reforçado por vetores políticos,
económicos, sociais e culturais. o direito à subsistência é uma pré-condição
para o direito ao desenvolvimento e outros direitos culturais, civis e
políticos. Se o objetivo de um país é a democracia, a liberdade e a defesa dos
direitos humanos, a fórmula fundamental passa pela sua promoção do
desenvolvimento económico, do progresso e da estabilidade da sua sociedade.
No campo dos valores socioculturais o problema das perceções que existe quanto
à interpretação e avaliação da China baseia-se no léxico das experiências
ocidentais, o que, por definição, exclui tudo o que é específico da China: ou
seja, o que faz a China é o que ela é, não o que queremos ou pretendemos querer
que ela seja ou venha a ser.
INTERESSES VITAIS
Neste ponto denota-se imediatamente uma diferença estrutural: os estados unidos
assumem uma forte dimensão de política externa na modelação e defesa dos seus
interesses vitais, enquanto a China deixa transparecer uma preocupação
prioritariamente interna nessa mesma modelação, ainda que reconheça que para a
consecução dos seus interesses seja imprescindível uma envolvente externa
pacífica.
Tal deriva do facto de os Estados Unidos partirem do pressuposto que a sua
sociedade e a sua integridade territorial se encontram vincadamente definidas e
estabilizadas, enquanto Pequim continua a descortinar riscos significativos e
permanentes a este tipo de desiderato: crescentes assimetrias sociais; impacto
crescentemente negativo que a poluição ambiental tem no desenvolvimento
económico nacional; as tendências separatistas do tibete e de Xinjiang; a
reunificação de taiwan; as disputas territoriais com o Japão (ilhas Diaoyu/ /
Senkaku) e com alguns países da asean (sul do mar da China).
Para Pequim, a política de defesa nacional da China contribui para a
salvaguarda e prossecução dos interesses vitais e tem como objetivos a
preservação da segurança nacional; para a proteção dos interesses associados ao
desenvolvimento do país; e para a continuação de um desenvolvimento abrangente,
coordenado e sustentável da defesa nacional e das forças armadas em ligação com
o desenvolvimento económico do país22. Se associarmos a esta caracterização o
facto de, desde 2004, uma das «Missões históricas das forças armadas chinesas
na nova etapa do século xxi» (Xin shiji xin jiedauan wojun lishi shiming) ser a
de apoiar a salvaguarda e defesa dos interesses nacionais23, tal faz com que
haja um papel cada vez mais assertivo do epl nas questões de defesa da
soberania, particularmente expressas no crescente número de incidentes
envolvendo navios e aviões militares chineses com congéneres norte-americanos,
japoneses, filipinos e vietnamitas. Estas ações são encaradas pelos Estados
Unidos como potencialmente desestabilizadoras e revisionistas do status
quoregional acentuando a necessidade do seu offshore balancing.
PRINCIPIOS DA POLITICA EXTERNA
Em termos de objetivos da política externa, os dois países não apresentam
conflitos de interesse particularmente insanáveis. O objetivo central da
política externa dos Estados Unidos continua a ser o de garantir que nenhum
estado desafie o seu papel dominante como líder global24.
A China conviveu até recentemente com bastante facilidade com este desiderato
de uma «unipolaridade benigna» procurando «evitar danos sem promover ativamente
os seus interesses nacionais» (yi bihai weizhu)25. Esta postura tem sofrido
alterações tectónicas no contexto regional, com Pequim a mostrar-se cada vez
mais assertiva e desafiadora desta preponderância norte-americana mas que a
coloca ante um dilema: almeja ser uma superpotência, mas reconhece que por
enquanto os obstáculos ainda são grandes, pelo que resiste a uma antecipação
prematura de tal desiderato, preferindo por enquanto salvaguardar o
excepcionalismo da sua identidade nacional e caracterizar-se como um país em
desenvolvimento.
Ou seja, no que respeita aos princípios das respetivas políticas externas
constatamos que apesar da diferença semântica enfatizam prioritariamente uma
dimensão internacional cooperativa, ainda que de maior low profile(tao guang
yang hui) por parte da China, de acordo com o preceituado por Deng Xiaoping de
o país não procurar a liderança (buyao dangtou), mas em consonância com o
formulado por hu Jintao, de se assumir cada vez mais como uma «potência
responsável» (fuzeren de daguo) mas com objetivos limitados e pragmáticos26.
A grande diferença normativa centra-se na interpretação do conceito de respeito
pela soberania integral dos estados e de não ingerência nos assuntos internos
dos mesmos, com a China a ter uma posição mais conservadora e em linha com a
concetualização tradicional de soberania expressa na Carta das Nações unidas,
demonstrando fortes reservas no que concerne aos mais recentes emolumentos da
onu quanto ao direito de intervenção humanitária e da responsabilidade de
proteger ' que encara como violadores de dois dos seus cinco princípios da
coexistência pacífica27.
Para Pequim, o direito internacional é um conjunto de normas incompletas que
dão ao direito interno dos estados espaço para o complementarem, pelo que um e
outro devem coexistir harmoniosamente. Como a ordem internacional vigente
continua a ser pautada por uma primazia dos Estados Unidos no sentido de
remodelarem o direito internacional numa direcção que visa conferir um estatuto
de menoridade à soberania dos estados face a questões como o respeito e defesa
dos direitos humanos, tal acaba por originar na China a perceção de que tal
ordem não é particularmente justa28. Como declarou hu Jintao, na assembleia
Geral da onu em 2005,aquando das comemorações do 60.º aniversário da
organização:
«Como habitualmente, a China irá, com base nos objetivos e princípios da Carta
das Nações unidas, participar ativamente nos assuntos internacionais e cumprir
com as suas obrigações internacionais, assim como trabalhar com outros países
na construção de uma novaordem política e económica internacional que seja
justa e racional»29 (itálico do autor).
Tal «injustiça» só poderá começar a ser mitigada através de uma transição na
distribuição de poder no sistema internacional em prol de uma multipolaridade,
o qual tenderá a ser mais justo, por refletir assim uma dinâmica de maior
«pluralidade democrática».
Esta perceção tem sido expressa nas várias edições dos livros Brancos da Defesa
Nacional e espelhada em declarações de académicos chineses alertando que «o
futuro estatuto dos Estados Unidos e o seu papel no sistema internacional
dependem da sua interação política com o mundo. A China, juntamente com as
outras potências, deve promover de forma natural a transição de poder no
sistema internacional»30.
ESTRATÉGIAS DE SEGURANÇA E DEFESA NACIONAL
No que concerne às respetivas estratégias de segurança e defesa nacional estas
são muito similares nos seus princípios e na identificação dos riscos e ameaças
que ambos os países enfrentam (excetuando as referências ao separatismo e à
defesa da soberania territorial por parte da China, não mencionadas no caso dos
Estados Unidos).
Se os Estados Unidos estipulam na sua estratégia de segurança nacional a defesa
e a propagação dos seus interesses de segurança, da prosperidade, de valores e
da ordem internacional vigente, numa expressão mais proativa e interventiva no
sistema internacional, a China tem optado por uma abordagem menos assertiva.
Mas quando a administração de Barack Obama definiu recentemente o século xxi
como «o século do Pacífico» e restabeleceu as prioridades dos Estados Unidos em
direção a esta região mantendo o strategic reassurance31 face à China este novo
redirecionamento foi encarado como um multilateral offshore balancingque irá
aumentar a sua perceção de insegurança.
Tal agudiza a grande diferença entre as respetivas estratégias, resultante da
forma como Washington continua a privilegiar relações de segurança e defesa com
base em alianças, consubstanciando uma política liminarmente recusada e
criticada por Pequim classificando-a como uma lógica ultrapassada pelo novo
contexto internacional de forte interdependência onde, através de conceitos
como confiança mútua (huxin) benefícios (huli), igualdade (pingdeng) e
coordenação (xiezuo), é possível desenvolver estratégias de mútuo benefício ou
win-win(shuangying), consubstanciadas em parcerias estratégicas (zhanlue huoban
guanxi)32e mecanismos institucionais multilaterais cooperativos com países
vizinhos33, os quais devem ser acompanhados (yilin wei ban) e/ou cooptados
(yulin wei shan) no sentido de se lhes transmitir amizade (mulin), riqueza
(fulin) e segurança (anlin)34.
Esta é uma «estratégia calculista assente em três objetivos: o primeiro, e
principal, a preservação da estabilidade e ordem interna e do bem-estar da
população; o segundo, a defesa contra ameaças e riscos à sua soberania e
integridade territorial; e o terceiro, a obtenção e manutenção de um estatuto
de influência como superpotência»35. Denota-se, pelo que foi descrito, que a
rpc, tal como os Estados Unidos, é um país propenso a slogans(kouhao) e
princípios (yuanze) retirados de um «ideário próprio e excepcionalista» quando
formula a condução das suas relações com outros estados. Mas quando os sloganse
princípios são operacionalizados no plano da estratégia, há dúvidas que
persistem quanto à existência de uma verdadeira grande estratégia por parte da
China e desta face aos Estados Unidos36.
METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO DE AMEAÇAS MILITARES
Ao nível estratégico e operacional detetamos uma maior polarização das
respetivas perceções em termos de insegurança, as quais são resultado de
conceções distintas quanto ao entendimento da ameaça o que dá lugar a
diferentes estratégias e doutrinas militares
Quando se efetua uma avaliação de ameaças à segurança de um estado devemos ter
em atenção a existência de um processo biunívoco de elaboração das mesmas. No
caso da díade sino-americana a base de partida pode-se revelar como
potencialmente fragilizadora das conclusões: a China está cada vez mais forte,
a China tem vulnerabilidades substantivas, os estados unidos têm problemas
severos, e os Estados Unidos permanecem fortes e com grande capacidade de
autorregeneração. Sobrevalorizando um atributo sem corrigir os restantes irá
certamente produzir conclusões erróneas. o exagero do potencial a médio/longo
prazo da China irá alimentar uma perceção de ameaça por parte dos Estados
Unidos, tal como a subestimação das capacidades chinesas pode potenciar
tentativas irresponsáveis de pressão sobre a China ou uma incapacidade em
prever uma resposta mais determinada por parte de Pequim. uma subestimação do
potencial norte-americano por parte da China pode originar comportamentos
excessivamente assertivos e imprudentes. Ou seja, se a rpc e os Estados Unidos
não tiverem um sistema de avaliação realista das respetivas capacidades e
vulnerabilidades, tal pode dar azo a erros de cálculo na avaliação de ameaças e
riscos.
Empiricamente, a alteração da estrutura e da geoespacialidade do Produto
interno Bruto (pib) da China, a necessidade de dissuadir uma eventual
declaração de independência de taiwan, o receio de uma intervenção militar dos
Estados Unidos em defesa de taipé, uma ansiedade resultante da vulnerabilidade
da sua capacidade de dissuasão nuclear, uma crescente preocupação com a
segurança dos fluxos estratégicos de matérias-primas para a China, a crescente
necessidade de garantir a proteção, segurança e evacuação dos seus cidadãos
espalhados pelo mundo, em regiões particularmente instáveis , líbia, etiópia,
Sudão, Nigéria, Paquistão, ásia Central) e uma maior disponibilidade de
recursos financeiros, todos conjugados, têm justificado o incremento
substancial das capacidades do epl, o que gera um ciclo de ação-reação de
perceção de insegurança mútua.
Conceptualmente, uma ameaça militar é entendida como o produto das intenções
pelas capacidades, mas existem diferenças entre o enfoque analítico dos Estados
Unidos e da China. Enquanto os primeiros centram a sua análise nas capacidades
e por isso nos meios do adversário, a China focaliza-se nas intenções e nas
vulnerabilidades do mesmo
o que faz com que desenvolva prioritariamente estratégias dissimétricas.
Enquanto os Estados Unidos dão prioridade à microanálise, a rpc enfatiza a
macroanálise. Enquanto nos Estados Unidos se releva excessivamente a
tecnologia, na rpc ela é contextualizada e equilibrada em termos de cultura
estratégica com noções de autocultivação e contenção de comportamentos.
Por fim, as definições norte-americanas de ameaças militares são mais
redutoras, por não incluírem a defesa da soberania territorial como uma
prioridade absoluta, ao contrário da conceção chinesa que refere «os efeitos
negativos, os perigos e os danos para os interesses nacionais originados por
outras nações, onde se incluem as ameaças à soberania nacional, à sobrevivência
do estado e à sua segurança e desenvolvimento»37.
ESTRATÉGIA E DOUTRINAS MILITARES
Neste parâmetro as diferenças são igualmente marcantes. os Estados Unidos
assentam a sua iniciativa global na preservação da sua liberdade de ação ao
nível do controlo dos global commonse do acesso a regiões consideradas
importantes para a sua segurança nacional, sendo que parte deste acesso é
materializado pelo fortalecimento e expansão das alianças e parcerias
regionais38. as suas forças armadas estão estruturadas, equipadas e preparadas
para obterem uma «vitória decisiva» num teatro de operações, tendo de
contemplar planos para a eventualidade de conduzirem operações em simultâneo
noutro teatro de operações do globo.
A salvaguarda da estabilidade e segurança internacional por parte dos Estados
Unidos baseia-se na sua capacidade de projeção militar convencional através da
denominada estratégia de forward presenceque divide o globo em áreas de
responsabilidade geográfica atribuídas a cada um dos cinco comandos regionais
(Pacífico, Central, europeu, Norte e Sul).
No caso particular do Comando do Pacífico, os Estados Unidos estabeleceram e
renovaram recentemente uma série de acordos destinados a facilitar o acesso das
suas forças navais a portos de diversos países da região com os quais mantêm
relações de cooperação bilateral (Singapura, Brunei, Malásia e Vietname), com
aliados (Japão,
Coreia do Sul, filipinas, austrália e tailândia), e têm vindo a modernizar as
infraestruturas e a reforçar os meios militares na ilha de Guam, com o objetivo
de aumentarem a sua capacidade de dissuasão e de expansão das possibilidades de
cooperação marítima regional39 numa renovada e intensificada atividade que tem
merecido os mais diversos reparos por parte da China, que as encara como
manobras de containmente de cerco, contra-argumentando que tais ações norte-
americanas só potenciam uma maior conflitualidade marítima regional40.
A sua doutrina militar assenta em três pressupostos: o de quick/decisive
victory e os mais recentes conceitos de joint air-sea battle e de prompt global
strike ' ambos destinados a vencer adversários de acordo com o mais alargado
espectro de operações militares, mas
especialmente aqueles equipados com capacidades sofisticadas de negação de
acesso marítimo e aéreo (i.e., China)41.
No caso da China, as missões históricas das forças armadas são conduzidas
segundo uma estratégia militar de defesa ativa (jiji fangiu),cujos preceitos
operacionais assentam em dois vetores: (i) se atacada, certamente contra-
atacará (ren ruo fan wo, wo bi fan ren), aceitando conduzir batalhas iniciadas
por outros mas seguindo uma estratégia própria; e (ii) dar prioridade à
iniciativa em termos de ações e preparativos militares anteriores ao eclodir de
guerras, e uma vez estas eclodidas desenvolver todos os esforços no sentido de
conter a sua escala, intensidade e dimensão geográfica42 de acordo com a
doutrina militar de «Vencer guerras locais sob condições de infomecanização»
ante potenciais adversários tecnologicamente superiores43.
Esta doutrina tem como base o referencial da guerra popular e o emprego
sinérgico de meios associados às tecnologias de informação por parte das forças
militares, bem como a combinação de meios políticos, económicos, diplomáticos,
culturais e jurídicos sempre num racional justificativo de autodefesa44.
Esta estratégia de defesa ativa, também denominada de «defesa ativa offshore»
(jijidejinhai fangyu), está expressa nas «linhas estratégicas Militares
Nacionais para o Novo Período» (Xin shiqi guojia junshi zhanlue fangzhen) e
pressupõe que a China só recorrerá à força militar em defesa da sua soberania e
integridade territorial, salvaguardando a possibilidade de recurso à preempção
ao abrigo do conceito de «defesa ativa», sendo a «negação de acesso» uma das
opções. Os objetivos da estratégia de negação de acesso são basicamente os
seguintes: (i) demonstrar a determinação da China em recorrer à força militar
face a uma eventual declaração de independência de taiwan, ao abrigo do
preceituado na lei anti-Secessão aprovada em 2005; (ii) em caso de recurso à
força, erodir a capacidade e a determinação de resistência de taiwan; (iii)
incrementar a perceção dos custos associados a uma intervenção militar dos
Estados Unidos e aliados regionais, fomentando uma maior indecisão política;
(iv) compelir estados da região a negarem o acesso dos Estados Unidos a bases
navais existentes nos seus respetivos territórios.
OBSERVAÇÕES FINAIS
As perceções de insegurança que chineses e norte-americanos possuem
relativamente ao outro têm sido particularmente voláteis e antagónicas.
Correndo o risco de uma excessiva simplificação, pode dizer-se que onde os
norte-americanos veem democracia, os chineses veem caos; onde os norte-
americanos veem repressão, os chineses veem ordem e estabilidade; onde os
Estados Unidos veem poluição ambiental e manipulação monetária,
Os chineses veem desenvolvimento económico e emprego; quando os americanos
defendem a liberdade religiosa e autodeterminação, os chineses interpretam-no
como uma interferência nos seus assuntos internos; os norte-americanos podem
ter perdido a Guerra do Vietname, mas não têm qualquer tipo de experiência, por
mais remota que seja, comparável ao que foi o «século da humilhação» da China.
Em resumo, as perceções mútuas têm-se dividido entre aceitação e rejeição,
admiração e contemporização.
Os chineses têm um dictumque descreve lapidarmente a relação de duas pessoas
cujas vidas estão interligadas intimamente mas que não conseguem ou não querem
comunicar entre si: «a mesma cama, sonhos diferentes» (tong chuang, yi meng).
Não existe melhor caracterização para a relação entre os Estados Unidos e a
China45.
Desde 1949 que as relações sino-americanas passaram de uma lógica de
containment, para uma de engagementlimitado na década de 1970, e desde o início
deste século para um hedging(cooperando entre si em áreas onde podem fazer; e
pressionando, dissuadindo-se e contendo-se mutuamente em áreas onde entendem
que o devem fazer), reflexo da existência de um padrão de continuidade de
perceções de insegurança bilateral, maioritariamente de suspeitas quanto às
respetivas intenções.
As opções políticas de ambos os países têm preconizado sempre uma maior ou
menor dimensão de mútua dissuasão oscilando entre um hedginge um containment.
Este dualismo tem mais desvantagens que vantagens pois os advogados do
hedgingtendem a menorizar as diferenças persistentes no plano da segurança
bilateral, enfatizando demasiado as vantagens do engagement. Os defensores do
containmentnão são melhores na apresentação de soluções pois creem na
inevitabilidade de um conflito e menosprezam os avanços e alguma convergência
relativa no plano da cooperação de segurança.
Esta sintomatologia é descrita na perfeição pelo almirante norte-americano
richard Mies, quando afirma: «o grande perigo nos Estados Unidos é que muitas
pessoas escrevem muitas coisas diferentes, e do nosso ponto de vista o perigo é
que os chineses às vezes selecionam em quem confiam e em quem não confiam», um
fenómeno que na China existe na mesma proporção e com idêntico impacto,
ilustrado pelo facto de face aos Estados Unidos o Zhongnanhaiter aperfeiçoado
uma dupla tática denominada popularmente yi liangshou dui liangshou(«usar as
duas mãos para lidar com as duas mãos da outra parte»)46.
Na prática, significou que face às políticas americanas de peaceful engagemente
de hedginga China utiliza uma «mão» flexível e cooperativa (diplomacia e
economia) para mitigar potenciais atos hostis, mas a outra «mão» estará
preparada para fazer frente (através do epl) e derrotar políticas de
containmente separatismo, fomentadas quer externa quer internamente, o que é a
completa antítese dos elementos discursivos contemporâneos de paz e harmonia
enfatizados pela sua liderança.
Em termos práticos, a China procurou nos últimos vinte anos invalidar os
argumentos políticos e as manobras de pressão regional por parte dos Estados
Unidos através do desenvolvimento de uma relação e de um diálogo mais
cooperativo em termos de segurança, com recurso a soluções negociadas assentes
em princípios de obtenção de compromissos com países vizinhos evitando que
estes pudessem vir a tornar-se potencialmente hostis, isto ao abrigo de uma
«política periférica de boa vizinhança» (zhoubian mulin zhengce)47.
No entanto, persistem quatro fontes de desconfiança mútua entre os Estados
Unidos e a China, as quais se não forem devidamente mitigadas poderão
metastizar-se e ter um impacto negativo em termos de segurança regional
asiática: (i) a definição da relação bilateral fora do contexto win-winadvogado
pela China; (ii) os erros de cálculo quanto ao poder de cada um face ao outro;
(iii) a perceção de uma China revisionista; e (iv) a perceção de uma competição
direta entre ambos, com mecanismos dinâmicos de ação-reação48.
Washington e Pequim têm definido a sua relação como positiva, construtiva e
abrangente que desejavelmente deverá servir de alavancagem para uma parceria
estratégica de partilha de responsabilidades globais, num sistema internacional
que os tem beneficiado no geral, independentemente da existência de alguns
elementos que na perspetiva de ambos, ainda que sob ângulos diferentes, carecem
de aperfeiçoamento.
Esta estabilidade estratégica (zhanlue wending) e «equilíbrio positivo»49 são
ilustrados pelas declarações do Presidente Barack Obama, ao definir a relação
bilateral como:
«uma relação positiva, construtiva e compreensiva que abre a porta à parceria
na base dos assuntos globais-chave do nosso tempo ' recuperação económica e
desenvolvi- mento de energia limpa; evitar a difusão das armas nucleares e a
praga da mudança climática; promover a paz e a segurança na ásia e em todo o
mundo o nosso mundo está agora profundamente interligado o poder no século
xxi já não é um jogo de soma zero os Estados Unidos não procuram conter o
crescimento da China Nós congratulamos a China enquanto membro forte, próspero
e bem-sucedido na comu- nidade das nações ' uma China que se representa nos
direitos, forças e criatividade dos próprios chineses.»50
A posição da China face ao sistema internacional tem sido de «participação
construtiva e reforma gradual», envolvendo-se na promoção de mecanismos
multilaterais como forma de incremento da sua influência. No entanto, Pequim
ainda tem de aperfeiçoar a sua participação em foramultilaterais destinados a
coordenarem respostas integradas e internacionais a desafios globais, enquanto
os Estados Unidos têm de aceitar verdadeiramente a influência e o papel cada
vez mais crescente que aquela detém na solução desses mesmos desafios. Sem uma
cooperação mútua, não haverá progressos.
A política de «ambiguidade (mohu) estratégica» de Washington relativamente à
questão de taiwan é um pivotda persistência desta perceção de insegurança
chinesa, sendo que, de acordo com um recente editorial do Diário do Exército
Popular de Libertação, Pequim vê a posição norte-americana em termos de
segurança regional e global e a ação da China com
«um caráter dual: por um lado, pretende que esta assuma uma responsabilidade
partilhada na gestão de crises e da segurança regional e internacional, mas,
por outro lado, vê com receio a ascensão da China como potência, desenvolvendo
um conjunto de ações que visam na realidade, e apesar da retórica, contê-la,
através de uma política de alianças regionais, de continuação da venda de armas
a taiwan e de implementação de um sistema de defesa antimíssil»51.
Para o general Peng Guangqian,
«a nova estratégia dos Estados Unidos face à China tem seis elementos: (i)
encara a China como um alvo conflitual; (ii) tem o Japão e a austrália como
aliados estratégicos-chave; (iii) estabelece o incremento da sua presença
militar em bases no Pacífico ocidental; (iv) visa a preservação dos valores
ocidentais; (v) visa a conservação do sistema de containment económico dominado
pelos Estados Unidos; e (vi) pretende separar a China dos países vizinhos.»52
Os dois últimos anos marcaram uma agudização deste dilema das perceções de
insegurança, a qual tem sido expressa de forma semanticamente «engenhosa» em
documentos oficiais de ambos os governos. Na última edição do Livro Branco da
Defesa Nacional da China, a envolvente de segurança e defesa asiática foi
descrita como sendo cada vez mais volátil e ameaçadora, com referências diretas
aos Estados Unidos.
A Quadrennial Defense Review, o Annual Report to Congress: Military and
Security DevelopmentsInvolving the People's Republic of Chinae a National
Security Strategy, quando se referem à situação de segurança no contexto
regional asiático, são uma mirror imagedas perceções de insegurança norte-
americana face à China.
O que estes documentos ilustram é que no campo da segurança e defesa, e na
respetiva dimensão estratégica regional ' independentemente das declarações de
boas intenções sistematicamente repetidas aquando das visitas presidenciais e
dos encontros multilaterais ' as omnipresentes e persistentes perspetivas
distintas quanto ao papel e influência de cada um dos países no sistema
internacional em geral, e na ásia em particular, agudizam as poucas mas
substantivas diferenças que existem entre ambos no plano dos valores
socioculturais, dos respetivos interesses vitais e dos princípios de política
externa, acentuando as diferenças mais significativas que existem ao nível
estratégico e doutrinário militar, o que pode dificultar, em situações
particulares, a gestão de crises bilaterais53 e a obtenção de compromissos
(especialmente no que concerne a disputas territoriais marítimas ' área
definida pela China como um interesse vital)54.
Dada esta polarização estratégico-operacional e a definição geograficamente
abrangente do que é interesse vital para a China, tal pode alimentar uma maior
instabilidade regional ao longo da linha que parte das ilhas Diaoyu/Senkaku,
passa pelo rochedo de Socotra, continua em taiwan e inclui o Sul do mar da
China ' numa «linha de fratura» que servirá de teste ao estatuto, prestígio,
credibilidade e legitimidade interna (no caso da China) e externa (no caso dos
Estados Unidos) de ambos os países na região acentuando ainda mais o dilema de
segurança regional em resultado de estratégias e doutrinas militares
diametralmente opostas.
Neste contexto, a grande dúvida que se coloca aos Estados Unidos é assim se os
objetivos da China são limitados regionalmente ou ilimitados, pois o atual
processo de modernização militar da China, particularmente da sua Marinha e
força aérea, deverá ter em atenção as preocupações que geram junto dos seus
vizinhos asiáticos, área onde se centra o seu enfoque geoestratégico e militar.
Do lado da rpc as incertezas não são menores. A quando da realização, a 18 de
dezembro de 2011, do fórum sobre a revisão da Política Diplomática da China e
Perspetivas futuras, Yuan Peng, diretor do instituto de estudos americanos do
instituto de relações internacionais Contemporâneas da China, elencou quatro
desafios às relações bilaterais:
«a necessidade de se construir uma cooperação bilateral a longo prazo, que está
agora mais vulnerabilizada desde a morte de osama bin laden e da retirada
norte-americana do iraque, ao mesmo tempo que se receia que a complementaridade
da economia e do comércio entre os dois países venha a ser afetada mais
negativamente; a política de alianças e de cooperação na segurança e defesa dos
Estados Unidos com países que têm disputas territoriais com Pequim; a relação
com a rússia, em que Moscovo espera que a China seja mais assertiva, podendo
afetar a parceria estratégica bilateral; e a alteração da visão estratégica,
pois se na era de Deng Xiaoping a estratégia era aprender com a tecnologia
norte-americana e absorver capital estrangeiro, depois de Deng passou a ser
competição e cooperação. Qual a direção que a China deverá agora tomar? Não é
claro.»55
Mencio referiu que um estado sem inimigos ou ameaças externas está condenado.
Numa reformulação de 2006, o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, afirmou:
«Pensar no perigo que nos rodeia, garantirá a nossa segurança. Pensar que o
caos sucede, irá garantir-nos a paz. Pensar no porquê do fracasso de um país
garantirá a nossa sobrevivência.»56
Para alguns meios académicos e militares chineses este pessimismo obriga ao
desenvolvimento de uma grande estratégia tendo como adversário os Estados
Unidos, o que, apesar dos desafios que estes materializam, pode não fazer
sentido57, porque o comportamento de segurança da China não visa atualmente
contrabalançar ou substituir o poder militar norte-americano na ásia ou noutros
pontos do globo, pois a sua perceção sobre as vantagens associadas ao atual
sistema suplantam as desvantagens58.
Agora que os Estados Unidos voltaram a definir a ásia-Pacífico como a sua área
geográfica prioritária e essencial para o seu próprio crescimento económico, a
necessidade de preservar uma estabilidade geoestratégica regional com
Washington como pivot, tornou-se mais incontornável59.
O centro de gravidade do sistema internacional deslocou-se do atlântico para o
Pacífico, mas a forma como esta transferência de poder será efetuada não
depende das forças determinísticas da história mas das decisões que os líderes
regionais, mais especificamente norte-americanos e chineses, venham a tomar em
relação ao outro.
É expectável que a China assuma mais responsabilidades no plano internacional,
mas a comunidade internacional deve chamar a si a responsabilidade de ajudar a
China60, processo do qual os Estados Unidos não se podem alhear mas também não
devem induzir coercivamente.
A China continua a ser um país misterioso e pouco familiar para a maioria dos
norte-americanos, com diferenças culturais, políticas e linguísticas que
acentuam percepções incorretas, incompreensão e potenciais erros de cálculo61.
Dada a magnitude dos interesses estratégicos em jogo, não existe um substituto
para um processo percetivo que não seja informado, sofisticado e menos
politizado, que requer tempo (muito tempo) e que não pode abdicar de uma
análise vertical (através da história do seu desenvolvimento) e horizontal
(através das diversas regiões do país) de forma a poder enquadrar os enormes
progressos e desafios internos da China e o modo como estes moldam o seu
comportamento em termos de política externa e de segurança.
O que parece faltar por enquanto no diálogo bilateral é um conceito integrativo
e abrangente de interação que incorpore conceitos comuns face à crescente
complexidade e multiplicidade dos desafios políticos, económicos, militares e
tecnológicos que se vislumbram, como fica patente na entrevista dada pelo
Presidente Barack Obama62 e num artigo publicado uma semana antes pela revista
oficial do pcc (Qiushi), que critica a iniciativa de estabelecimento da
Parceria transPacífico (ptp) «como uma manobra de criação de uma área de
comércio livre sob controlo de Washington, fomentando a divisão da ásia ao
excluir a China, fragilizando a Comunidade do este asiático e exponenciando a
competição entre o modelo de comércio livre da asean-China e o da ptp»63.
Parece-nos inevitável a assunção de uma lógica de enmeshmentbilateral para a
qual o mecanismo de Diálogo estratégico é um ótimo ponto de partida, pois
passou a ter desde 2011 uma dimensão de segurança que se juntou às anteriores
vertentes económica e estratégica, num passo que foi reconhecido por ambas as
partes como um avanço significativo no sentido de uma melhor compreensão mútua.
No entanto, este mecanismo continua a ser usado como um instrumento de
arremesso cada vez que uma das partes perceciona uma infração por parte da
outra ao preceituado para a condução deste diálogo (i.e., venda de armas a
taiwan pelos Estados Unidos), o que tem levado à suspensão temporária do
diálogo no âmbito militar, ainda que posteriormente seja retomado.
Um artigo publicado a 13 de fevereiro de 2012 no jornal Xuexi Shibao(tempos de
estudo) reconhece estas dificuldades de comunicação e as desconfianças
existentes entre ambos. Nele é advogada a necessidade de existir um controlo
político mais apertado sobre as diferenças entre a China e os Estados Unidos.
Deve haver um cuidado redobrado por parte dos líderes políticos e diplomáticos
em evitarem linguagem passível de gerar más interpretações e danificarem as
relações de confiança bilateral. Ao nível da opinião pública, é sugerido um
«direcionamento ativo» de modo a que visões radicais e hostis de um país face
ao outro não alimentem más perceções ou novos desentendimentos64.
Em suma, uma relação estrategicamente mais estável ainda que difícil de
alcançar não é de todo impossível, devendo passar por uma maior subordinação
dos respetivos interesses e aspirações nacionais relativamente à visão de uma
nova ordem global, algo de que nem um nem outro têm por enquanto uma
experiência prática, pois assumem que os seus valores e interesses são únicos e
que devem servir de inspiração a outros povos, devendo assim moldar a evolução
dessa ordem. a diferença centra-se na respetiva metodologia proselitista, com
os Estados Unidos a optarem por mecanismos de indução coerciva e a China a
optar por mecanismos de indução/persuasão sob o lema de win-win(shuangying)
approaches.
A conciliação destas duas versões de excepcionalismo é o maior desafio que se
apresenta às relações sino-americanas no século xxi, pois pragmática e
realisticamente nenhum dos países conseguirá dominar o outro ou moldar a ordem
internacional à sua imagem. Por outro lado, um conflito entre ambos irá exaurir
de tal forma as respetivas sociedades que as condenará a um significativo
downgrade na escala de poder e de preponderância internacional, algo que nenhum
quer, nem ninguém deseja.
NOTAS
1
O artigo não representa a posição do Instituto da Defesa Nacional, sendo da
responsabilidade exclusiva do autor.
2
São exemplos desta maior frequência na ocorrência de atritos bilaterais: o
incidente com o navio chinês Yinhe em 1993; a crise de Taiwan de 1995-1996; o
bombardeamento acidental da embaixada chinesa em Belgrado em 1999; o incidente
com o avião EP-3 dos Estados Unidos em abril de 2001; uma série de pequenos
incidentes com forças navais de países da asean no Sul do mar da China e com a
Marinha japonesa no Leste do mar da China desde 2004; o incidente da emersão de
um submarino chinês perto da esquadra do porta-aviões norte-americano Kitty
Hawk no Leste do mar da China em novembro de 2006; o teste antissatélite da
China em janeiro de 2007 (que deixou bastantes detritos em órbita terrestre); o
incidente com os navios de pesquisa hidrográfica dos Estados Unidos Impeccable,
em março de 2009, e Victorious, no mês seguinte; o silêncio chinês
relativamente ao teste nuclear da Coreia do Norte em maio de 2009, ao
afundamento por um míssil norte-coreano do navio da marinha de guerra sul-
coreana(Cheonan) em abril de 2010, à morte de civis sul-coreanos em
consequência de uma preparação de artilharia norte-coreana sobre a ilha de
Yeonpyeong em novembro do mesmo ano; os progressos registados e anunciados em
dezembro de 2010 no programa de enriquecimento de urânio por parte da Coreia do
Norte; e a reação excessiva de Pequim às declar ações dos E stados Unidos
aquando da reunião de julho de 2010 da asean de que não permitiria
condicionamentos à livre circulação marítima no Sul do mar da China.
3
Clinton, Hillar y ' America's Pacific Century. [Consultado em: 3 de novembro
de 2011]. Disponível em: http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/10/11/
americas_pacific_century.
4
Glaser, Bonnie, e Morris, Lyle ' Chinese Perceptions of U.S. Decline and
Power. [Consultado em: 8 de fevereiro de 2012]. Disponível em: http://
www.jamestown.org/programs/chinabrief/single/
?tx_ttnews5Btt_news5D=35241&cHash=db9748f805 .
5
A China é vista por quase 50 por cento da amostra das várias sondagens como um
competidor direto dos Estados Unidos, uma percentagem que se reflete quase na
mesma proporção nas sondagens chinesas relativamente à imagem dos Estados
Unidos. No entanto, entre 2001 e 2009 a imagem dos Estados Unidos perante os
chineses deixou de ser classificada predominantemente como de «poder e riqueza»
para passar a contemplar em percentagens quase idênticas imagens como «poder e
riqueza», «arrogância», «democracia e liberdade» e «polícia mundial ». As
sondagens norte-americanas foram conduzidas em 2007 pelo Comittee of 100 e em
2010 pelo Chicago Council on Global Affairs e pelo Pew Research Center,
enquanto que as sondagens chinesas foram conduzidas pelo Horizon Group em 2001,
2003 e 2009. Todas estão disponíveis para consulta nos respetivos sítios
institucionais.
6
Jin, Canrong ' «The US Global Strategy in the post-Cold War era and its
implications for China-US relations: a Chinese perspective». In Journal of
Contemporary China. Londres. Vol. 19, N.º 27, 2001, p. 311.
7
Hachigian, Nina, e Peng, Yuan ' «The U.S. -China expectations gap:an
exchange». In Survival. Londres. Vol. 52, N.º 4, pp. 67-86;
Friedberg, Aaron ' A Contest for Supremacy: China, America, and the Struggle
for Mastery in Asia. Nova York: W. W. Norton, 2011.
8
Jervis, Robert ' Perception and Misperception in International Politics. Nova
Jérsia: Princeton University Press, 1976, p. 8.
9
Jervis, Robert 'Perception and Misperception in International Politics, p.
145; Heuer, Richard ' «Strategic deception and counter-
deception: a cognitive process approach». In International Studies Quarterly.
São Francisco. Vol. 25, N.º 2, p. 299.
10
Nisbett , Richard ' The Geography of Thought: How Asians and Westerners Think
Differently and Why. Nova York: Free Press, 2003, p. xiii.
11
Por exemplo, o conceito de shi (empregue normalmente para descrever a
configuração da ordem internacional) é um dos três pilares fundamentais para
uma boa compreensão e condução da política externa do país ' sendo os outros
dois a identidade nacional e a estratégia. A compreensão do shi tem sofrido uma
evolução acentuada nos últimos dez anos tendo-se tornado mais plural e
diversificada; apesar de ser percecionado como geralmente mais positivo para o
país, este começa agora a ter de enfrentar situações mais complexas e difíceis
no seio do sistema internacional. Zhu, Liqun ' China's Foreign Policy Debates.
[Consultado em: 12 de dezembro de 2011]. Disponível em: http://
www.iss.europa.eu/uploads/media/cp121China_s_Foreign_Policy_Debates.pdf , pp.
11-12.
12
Jervis, Robert ' Perception and Misperception in International Politics, p.
33.
13
Caracterizado como «uma falsa definição de uma situação que torna a
originalmente falsa conceção numa realidade». Merton, Robert ' Social Theory
and Social Structure. Nova York: Free Press, 1957, p. 423.
14
Nathan, Andrew, e Gilley, Bruce 'China's New Rulers: The Secret Files. Nova
York: New York Review of Books, 2002, pp. 207-208. Sem autor
(s.a.) ' What Does China Tell the World in Its Peaceful Development White
Paper?. [Consultado em: 14 de novembro de 2011]. Disponível em: http://
www.qstheory.cn/lg/rpzm/gj/201109/t20110908_108915.htm ;
Clinton, Hillary ' America's Pacific Century; Li, Hongmei '
Pentagon Chief Distorted Story of Chinese Military. PLA Daily. [Consultado em:
5 de novembro de 2011]. Disponível em: http://english.chinamil.com.cn/; Luo, Yuan ' The Major External Threats to Us Are from the
U.S. China Gate. [Consultado em: 8 de novembro de 2011]. Disponível em: http://
www.wenxuecity.com/news/2011/10/03/1487698.html.
15
Burns, William ' Containment or Engagement? Experts Share thoughts on U.S.-
Sino Relations at the Fifth China-U.S. Relations Conference. Disponível em:
http://www.bjreview.com/report/txt/2011-10/26/content_400818.htm.
16
Z hang, Yesui ' Chinese Ambassador Calls for Proper Handling of Disagreements.
Disponível em: http://www.bjreview.com/report/txt/2011-10/24/
content_400280.htm. Ambas as comunicações foram efetuadas na
edição de 2011 da China-U.S. Relations Conference, Texas A&M University, 23
de outubro. [Consultadas em: 3 de novembro de 2011].
17
Yu, Xintian ' «Harmonious world and China's path for peaceful development». In
Zhongch un, Wang, e Senlin, Chen (eds.) ' World Security Environment. Pequim:
College of Defense Studies, National Defense University, pla, p. 6.
18
Foot, Rosemary ' Rights beyond Borders: The Global Community and the Struggle
over Human Rights in China. Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 2.
19
Por exemplo, os Estados Unidos também aplicam a pena de morte e não existem
limitações à posse de armas por parte dos cidadãos norte-americanos, o que
potencia as elevadas taxas de criminalidade existentes no país. Para uma
crítica do Ministério dos Negócios Estrangeiros à política de direitos humanos
e à liberdade de informação na internet universalmente advogada pelos Estados
Unidos, mas que também as violam no plano interno, leia-se Liu, Weimin '
Ministry of Foreign Affairs: United States Should Stop Pointing Fingers.
[Consultado em: 27 de dezembro de 2011]. Disponível em: http://
news.xinhuanet.com/world/2011-12/13/c_111239921.htm.
20
White Paper on Political Democracy. Information Office of the State Council of
the People's Republic of China. [Consultado em: 17 de novembro de 2011].
Disponível em: http://www.chinadaily.com.cn/english/doc/2005-10/19/
content_486206.htm .
21
Deng, Xiaoping ' Deng Xiaoping Wenxuan (Estudos Selecionados de Deng
Xiaoping). Vol. 3. Pequim: Renmin chubanshe, 1993, pp. 347-348.
22
Peng, Guangqian, Zhao, Zhiyin, e Luo, Yong ' China's National Defense.
Singapura: Cengage Learning Asia, 2010, p. 23.
23
Os restantes interesses são: garantir a continuidade do poder do Partido
Comunista Chinês; garantir uma segurança robusta que salvaguarde o
desenvolvimento nacional durante o impor tante período de oportunidade
estratégica (até 2020); e desempenhar um papel importante na salvaguarda da paz
mundial e na promoção de um desenvolvimento comum. Peng, Guangqian, Zhao,
Zhiyin, e Luo, Yong ' China's National Defense, pp. 67-68.
24
The White House ' National Security Strategy. [Consultado em: 17 de novembro
de 2011]. Disponível em: http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/
rss_viewer/national_security_strategy.pdf , p. 2.
25
Yong, Deng ' «Conception of national interests: Realpolitik, liberal dilemma,
and the possibility of change». In Deng, Yong, e Wang, Fei-Ling (eds.) ' In the
Eyes of the Dragon: China Views the World. Lanham: Rowman & Littlefield,
1999, p. 62.
26
Yong, Deng ' China's Struggle for Status: the Realignment of International
Relations. Nova York: Cambridge University Press, 2008, pp. 53-54. Note-se no entanto que a expressão responsible stakeholder formulada
por Robert Zoellick em 2005 deixou de ser utilizada pela Administração de
Barack Obama. Este conceito parte do pressuposto que a China está bem integrada
no sistema internacional, que um conjunto de problemas globais requer a
cooperação da China com vista à sua resolução, e que tal cooperação é possível
em inúmeras áreas. No último parágrafo do seu mediático discurso, o sub-
secretário de Estado norte-americano afirmou que «podemos cooperar hoje com a
China, mesmo que estejamos a trabalhar para que tenhamos uma China democrática
amanhã». Zoellick , Robert ' Wither China: From Membership to Responsibility:
Remarks to National Committee on U.S.-China Relations. [Consultado em: 12 de
novembro de 2011]. Disponível em: http://www.ncusr.org/files/
2005Gala_RobertZoellick_Whiter_China1.pdf
27
Ainda que a sua posição seja normalmente neutra aquando de votações de
resoluções no Conselho de Segurança da onu que visam sancionar o recurso à
força, optando normalmente pela abstenção. Kent, Ann ' Beyond Compliance:
China, International Organizations, and Global Security. Stanford: Stanford
University Press, 2007; Johnston, Alastair Iain ' Social
States: China in International Organizations, 1980-2000. Nova Jérsia: Princeton
University Press, 2008.
28
Yan, Xuetong, e Sun, Xuefeng 'Zhongguo Jueqi Jiqi Zhanlue (A Ascensão da China
e a sua Estratégia). Pequim: Beijing Renmin Chubanshe, 2005, p. 5.
29
Hu, Jintao ' Written Speech by H.E. Hu Jintao President of the People's
Republic of China at the High-level Plenary Meeting of the United Nations' 60th
Session. [Consultado em: 9 de dezembro de 2011]. Disponível em: http://
www.fmprc.gov.cn/eng/wjdt/zyjh/t213091.htm.
30
Yu, Xintian ' «Harmonious world and China's path for peaceful development». In
Zhongch un, Wang, e Senlin, Chen (eds .) ' World Security Environment, p. 13.
31
Steinberg, James ' China's Arrival: The Long March to Global Power.
[Consultado em: 9 de dezembro de 2011]. Disponível em: http://www.cnas.org/
files/multimedia/documents/
Deputy20Secretary20JamesSteinber2720September2024,20200920Keynote20Adress20Transcript.pdf.
32
Para uma relação atualizada das parcerias estratégicas e mecanismos de
cooperação bilateral que a China tem com os países vizinhos consulte-se o sítio
do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China (http://www.mfa.gov.cn/chn/
gjhdq/default.htm).
33
Yang, Wanming ' «On the concept of comprehensive security». In Zhongch un,
Wang, e Senlin, Chen (eds.) ' World Security Environment, p. 35; Zhang, Yunling, e Tang, Shiping ' «China's regional strategy ». In
Shambaugh, David (ed.) ' Power Shift: China and Asia's New Dynamics. Berkeley:
University of California Press, 2005, p. 50.
34
Chien-Min, Chao, e Chih-Chia, Hsu ' «The worldviews of the Chinese leadership
and Sino-U. S. relations». In Zhao, Suisheng (ed.) ' China and the United
States: Cooperation and Competition in Northeast Asia. Nova York: Palgrave
Macmillan, 2009, pp. 91-93.
35
Swaine, Michael, e Tellis, Ashley ' Interpreting China's Grand Strategy: Past,
Present, and Future. Santa Mónica: rand, 2000, p. x.
36
Wang, Jisi ' «China's search for a grand strategy: a rising great power finds
its way». In Foreign Affairs. Vol. 90, N.º 2, 2011, p. 68.
Zhang e Tang discordam desta perspetiva pessimista e afirmam que a grande
estratégia da China é definida pela frase «preservar e moldar uma envolvente de
segurança, económica e política conducente ao desenvolvimento económico, social
e político da China» (Zhang, Yunling, e Tang, Shiping ' «China's regional
strategy», p. 48). Chien-Min e Chih-Chia defendem que a
grande estratégia é a de «um mundo harmonioso» que tem como ingredientes
principais a segur ança comum (gongtong anquan), a prosperidade mútua (gongtong
fanrong) e as relações harmoniosas (hexie guanxi) (Chien-Min, Chao, e Chih-
Chia, Hsu ' «The worldviews of the Chinese leadership and Sino-U. S.
relations», p. 87. Estes são confirmados pelo White Paper on
China's Peaceful Development de 2011 que é o documento oficial que melhor
define uma «grande estratégia » para o país. Information Office of the State
Council of the People's Republic of China ' White Paper on China's Peaceful
Development. [Consultado em: 8 de dezembro de 2011]. Disponível em: http://
www.gov.cn/english/official/2011-09/06/content_1941354.htm.
37
Whiting, Alan ' «The pla and China's threat perceptions». The China Quarterly.
Vol./N.º 146, 1996, p. 599.
38
Quadrennial Defense Review. U.S. Department of Defense. [Consultado em: 27 de
julho de 2011]. Disponível em: http://www.defense.gov/qdr/images/
QDR_as_of_12Feb10_1000.pdf, p. 13.
39
Ibidem, p. 34.
40
«Understanding the forces behind the U.S. policy». In Guangzhou Daily, 6 de
novembro de 2011. [Consultado em: 12 de dezembro de 2011]. Disponível em: http:
//gzdaily.dayoo.com/html/2011-11/06/content_1521550.htm; S.a.
' What's Behind the High Profile U.S. Return to the Asia Pacific?. Xinhua,
November 16th. [Consultado em: 12 de dezembro de 2011]. Disponível em: http://
news.xinhuanet.com/world/2011-11/16/c_122288378.htm.
41
Quadrennial Defense Review, U.S. Department of Defense. [Consultado em: 27 de
julho de 2011]. Disponível em: http://www.defense.gov/qdr/images/
QDR_as_of_12Feb10_1000.pdf, pp. 31-32.
42
Peng, Guangqian, Zhao, Zhiyin, e Luo, Yong ' China's National Defense, pp. 116
e 76-77.
43
People's Republic of China Ministry of National Defense 'China's National
Defense in 2008. Pequim. [Consultado em: 27 de novembro de 2011]. Disponível
em: http://www.mod,gov.cn/database/whitepapers/2008.htm.
44
Peng, Guangqian, Zhao, Zhiyin, e Luo, Yong ' China's National Defense, pp. 116
e 73; Carriço, Alexandre ' De Cima da Grande Muralha:
Política e Estratégias de Defesa Territorial da República Popular da China,
1949-2010. Lisboa: Prefácio, 2006, pp. 470-471.
45
Lampton, David ' Same Bed Different Dreams: Managing U.S.-China Relations,
1989-2000. Berkeley: University of California Press, 2001, p. ix.
46
Citado em Sa alman, Lora ' China & the U.S. Nuclear Posture Review. The
Carnegie Papers. [Consultado em: 3 de março de 2012]. Disponível em:http://
pt.scribd.com/doc/49855154/China-and-the-U-S-Nuclear-Posture-Review, p. 34.
47
Yan, Xuetong ' Zhongguo de Jueqi, Guoji Huanjing pingguo [A Ascensão da China:
Uma Avaliação da Envolvente Internacional]. Tianjin: Tianjin Renmin Chubanshe,
1998, p. 283.
48
Lampton, David ' Power Constrained: Sources of Mutual Strategic Suspicion in
U.S.- China Relations. Seattle: National Bureau of Asian Research, 2010, p. 6.
49
Sutt er, Robert ' Positive Equilibrium in USA-China Relations: Durable or
Not?. Janus.Net N.º 1. [Consultado em: 3 de março de 2012]. Disponível em:
http://observare.ual.pt/janus.net/images/stories/PDF/vol2_n1/en/
en_vol2_n1_art1.pdf._
50
Obama, Barack ' Town Hall Meeting with Future Chinese Leaders. Remarks, Museum
of Science and Technology, Xangai, 16 de novembro. [Consultado em: 6 de março
de 2012]. Disponível em: http://www.whitehouse.gov/the-press-office/remarks-
president-barack-obama-town-hall-meeting-with-future-chinese-leaders.
51
The Dual Character of US Policy toward China. People's Liberation Army Daily,
12 de setembro de 2011. [Consultado em: 6 de março de 2012]. Disponível em:
http://www.mod.gov.cn/big5/opinion/2011-09/12/content_4297235.htm.
52
Peng, Guangqian ' Shaojiang: Bu paichu youren liyingwaihe zhijie zhongguo de
keneng xing (Major-General não Descarta a Possibilidade de Traidores ao Serviço
dos eua Poderem Desmembrar a China). Huanqiu shi bao (Global Times), 26 de
dezembro. [Consultado em: 6 de março de 2012]. Disponível em: http://
mil.huanqiu.com/Observation/2011-12/2289744.html.
53
Também porque estamos per ante estruturas e processos de tomada de decisão em
situação de crise completamente distintos tais as diferenças político-culturais
que permeiam os respetivos processos. Para uma análise sobre este tema, as
diferentes conceções de crise e impacto nas perceções mútuas cf. Swaine,
Michael, Zhang, Tuosheng, e Cohen, Danielle (eds.) ' Managing Sino-American
Crises: Case Studies and Analysis. Washington: Carnegie Endowment for Peace,
2006.
54
Note-se, por exemplo, em julho de 2010 e repetido a 18 de novembro de 2011,
aquando da reunião da asean com, respetivamente, o ministro dos Negócios
Estrangeiros da China, Yang Jiechi, e o primeiro-ministro Wen Jiabao, a
avisarem os estados da região para não efetuarem coordenações com potências
externas (i.e., Estados Unidos) na gestão das disputas territoriais que têm com
a China, devendo as negociações serem conduzidas no plano bilateral. A mensagem
não foi tida em consideração pelos países da asean que, com o apoio dos Estados
Unidos, inseriram este tema na agenda, para descontentamento de Pequim.
Buckley, Chris 'China Looks across Asia and Sees New Threats. Reuters, 10 de
novembro. [Consultado em: 14 de março de 2012]. Disponível em: http://
www.reuters.com/article/2011/11/10/us-china-asia-idUSTRE7A91CY20111110.
55
Yuan, Peng ' Yuan Peng: wangluo huo cheng zhong mei guanxi yinbao dian xu
guangkong weiji (Yuan Peng: Relações China-eua em rede ou com necessidade em se
controlar um ponto de viragem em direção a uma crise). Ifeng, 19 de dezembro.
[Consultado em: 18 de março de 2012]. Disponível em: http://news.ifeng.com/
mainland/detail_2011_12/19/11427081_0.shtml.
56
cctv-1 ' prc's Premier Wen Jiabao News Conference.Foreign Broadcast
Information Service (fbis), 14 de março de 2006, FBIS-CPP20060314070001.
[Consultado em: 6 de agosto de 2009]. Disponível em: https://
www.lexisnexis.com.
57
Zhang, Weiwei 'Expert: Six Countermeasures to the U.S. Challenges; Hurry up
and Turn the Bad Situation Around. Global Times, 18 de novembro. [Consultado
em: 23 de janeiro de 2012]. Disponível em: http://mil.huanqiu.com/Observation/
2011-11/2184378.html.
58
Aquando da última reunião da Associação Chinesa de Relações Internacionais, em
Lanzhou em 2010, a conclusão consensual a que chegaram os cientistas políticos
chineses foi que «a China não deve confrontar os eua; nem desestabilizar o
sistema internacional em geral; não deve empregar a ideologia como guia da sua
política externa; não deve liderar o campo antiocidental; não deve entrar em
conflito com outros países, mesmo quando a razão lhe assiste; deve efetuar
compromissos e concessões aprender mais com o jogo dos benefícios mútuos; não
deve abdicar da defesa intransigente dos seus interesses vitais relativos à
unificação nacional; deve fornecer bens públicos ao sistema internacional e
aperfeiçoar a sua imagem tirando vantagens de eventos globais.» Glaser, Bonnie
' A Shifting Balance: Chinese Assessments of U.S. Power. [Consultado em: 18 de
março de 2012]. Disponível em: http://csis.org/files/publication/
110613_glaser_CapacityResolve_web.pdf , p. 13.
59
The White House ' Sustaining U.S. Global Leadership: Priorities for 21st
Century Defense. [Consultado em: 5 de março de 2012]. Disponível em: http://
www.defense.gov/news/Defense_Strategic_Guidance.pdf, p. 2.
60
Wang, Jisi ' «China's search for a grand strategy: a rising great power finds
its way», p. 79.
61
Para mitigar este défice de perceções e de conhecimento mútuo os Estados
Unidos e a China concordaram em que até 2014 100 mil estudantes norte-
americanos possam estudar na China. No entanto, a assimetria ainda é grande
pois a China teve em 2010 158 mil alunos a estudar nos Estados Unidos. «100,000
Strong Initiative », Center For Global Education And Leadership. [Consultado
em: 5 de março de 2012]. Disponível em: http://www.dc-cgel.org/programs/
100,000-strong-initiative.
62
Zakaria , Fareed ' Inside Obama's World: The President talks to TIME about the
changing nature of American power. [Consultado em: 5 de março de 2012].
Disponível em: http://swampland.time.com/2012/01/19/inside-obamas-world-the-
president-talks-to-time-about-the-changing-nature-of-american-power/
ixzz1kGU93v5I.
63
Meiguo chong fan yazhou zhanlue dui jingji geju yingxiang shenyuan(Ásia:
Estratégia dos EUA para voltar a controlar a economia global). Qiushi, 13 de
janeiro de 2012. [Consultado em: 9 de março de 2012]. Disponível em: http://
www.qstheory.cn/jj/hqsy/201201/t20120113_134730.htm.
64
Wang, Gonglong ' Guankong fenqi: Zhong mei guanxi de xin linian (Controlo das
Diferenças: O Novo Conceito para as Relações Sino-Americanas). Xuexi Shibao
(Tempos de Estudo). [Consultado em: 9 de março de 2012]. Disponível em: http://
www.studytimes.com.cn/2012/02/13/02/02_35.htm.
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