Israel: entre o judaísmo ultraortodoxo e o sionismo liberal
Israel: entre o judaísmo ultraortodoxo e o sionismo liberal
Ana Santos Pinto
Investigadora do ipri ' unl, desde 2004, e assistente convidada no Departamento
de Estudos Políticos da fcsh ' unl, onde é doutoranda em Relações
Internacionais. Tem como principais áreas de investigação académica os estudos
europeus, geopolítica do Médio Oriente e questões de segurança e defesa
internacional.
É sexta-feira. Os ponteiros do relógio marcam 16h30. Falta pouco para o início
do
Shabbat
1, a celebração semanal judaica dedicada ao descanso e à oração. Passear, por
esta hora, pelas ruas de Jerusalém é quase como andar numa cidade deserta. O
tempo não ajuda, é certo. Numa terra onde a água é um dos bens mais escassos, e
por isso uma questão central nos conflitos na região, chove como há muito não
se via. Regresso de Telavive, onde a agitação permanecia praticamente
indiferente ao aproximar do dia de descanso. Mas em Jerusalém é diferente.
Muito diferente.
Cruzo-me nas ruas com inúmeras famílias de judeus ultraortodoxos, os haredim,
facilmente identificáveis pelos trajes que usam. Homens de fato escuro e chapéu
de aba larga, com mechas laterais de cabelo encaracolado sobre os ombros, são
uma imagem constante na Cidade Santa. Com eles, a presença de um debate que
divide a sociedade israelita: Qual o papel que os setores mais religiosos
deverão ter na sociedade? A que direitos e deveres devem estar sujeitos?
Sendo o grupo social com maior crescimento demográfico (em 1948 constituíam 1,5
por cento da população, hoje contabilizam dez por cento e prevê-se que em 2050
ultrapassem os 30 por cento), a sua crescente afirmação interna coloca
importantes desafios à comunidade política em Israel.
A questão ocupou lugar central nos média israelitas no final de 2011. Em
dezembro começaram a surgir notícias sobre conflitos de género nos transportes
públicos, já que os ultraortodoxos consideram que as mulheres devem ocupar os
lugares traseiros nos autocarros, reservando a parte dianteira aos homens. A
tradição haredi determina, ainda, a separação de género nas escolas e em locais
públicos, bem como o condicionamento da participação feminina na esfera
pública.
A poucos dias do final de 2011 foi relatado um episódio na cidade de Beit
Shemesh, nos arredores de Jerusalém, em que uma menina de oito anos foi
insultada, no caminho da escola, por um grupo de judeus ultraortodoxos, por
considerarem que ela ' também oriunda de uma família religiosa ' não estava
vestida de acordo com os princípios da modéstia aplicáveis. A criança foi
entrevistada por um canal de televisão o que rapidamente gerou uma onda de
contesta ção generalizada. Em consequência foi organizada uma manifestação de
apoio pelos setores moderados da sociedade, que contou com o apelo à
participação do Presidente Shimon Peres. Em defesa dos princípios da liberdade
e da igualdade, foram afirmados
slogans
como «Libertem Israel da coação religiosa» ou «Não deixem Israel tornar-se um
Irão».
Em resposta, uma minoria ultraortodoxa organizou uma manifestação, em
Jerusalém, vestindo crianças como vítimas do Holocausto, como forma de protesto
contra o que consideravam ser uma perseguição aos judeus mais devotos.
Slogans
como «Estamos a sentir um Holocausto espiritual» ou «Sionistas não são judeus
são racistas» provocaram uma revolta nacional, expressa ao mais alto nível
político. Os líderes religiosos desta comunidade argumentaram que a utilização
de símbolos do Holocausto foi intencional e visava chamar a atenção para a
campanha que os média «seculares» estavam a desenvolver contra a comunidade
haredi. Apesar do tom mediático ter diminuído de intensidade, a verdade é que a
tensão permanece, sendo visível nos transportes e locais públicos, bem como nos
debates universitários, onde o tema é alvo de intensa discussão.
Apesar desta franja mais radical constituir, apenas, uma pequena minoria dentro
da minoria haredi, não é possível ignorar aquele que é um problema estrutural
na sociedade em Israel: a tensão entre a tradição e a modernidade, entre a
prática ortodoxa do judaísmo e os princípios liberais de um Estado sionista
democrático.
Esta não é, naturalmente, uma questão recente, e remete ao momento da
construção do Estado de Israel, no final da década de 1940.
Perante a iminência do fim do mandato britânico e a necessidade de declaração
de independência do Estado de Israel, David Ben-Gurion, o líder da comunidade
política à data, necessitava do apoio da comunidade ultraortodoxa para
sustentar o seu projeto político. Como tal, e em resultado de uma negociação
alargada, definiu, entre outros privilégios, que os ultraortodoxos que
quisessem prosseguir os estudos ficariam isentos do serviço militar e que o
Estado atribuiria uma subvenção àqueles que se dedicassem ao estudo da Torah2.
Às exceções atribuídas, que se mantêm ' embora gradualmente reduzidas ao longo
dos anos ', acresce a atribuição de subsídios de apoio à maternidade (de acordo
com o número de filhos por casal, que pode ultrapassar a dezena3) e a redução
ou isenção no pagamento de impostos, em parte resultado dos baixos rendimentos
auferidos pela maioria das famílias haredim. Como consequência, os municípios
onde reside a comunidade haredi também dispõem de menores recursos, pelo que
são maiores as carências de infraestruturas e serviços de apoio.
Neste contexto, a componente demográfica é, uma vez mais, fundamental. A
comunidade haredi foi uma das mais massacradas durante o Holocausto, ficando
dramaticamente reduzida face aos membros de que dispunha no início do século
xx. O crescimento que hoje se verifica tem como objetivo, por um lado, repor a
dimensão que a comunidade haredi tinha antes da II Guerra Mundial e, por outro,
sustentar o crescimento demográfico dos judeus em Israel, tendo em conta que o
número de filhos por casal dos designados «seculares» é inferior ao das
famílias árabes a viver no país. Porém, esta evolução poderá determinar
alterações importantes na sociedade israelita, a manterem-se os atuais
privilégios, desde logo porque será reduzido o número de cidadãos disponíveis
para prestar serviço nas Forças Armadas, bem como o número de trabalhadores
qualificados para sustentar uma economia competitiva e garantir o pagamento de
impostos necessário à sustentabilidade do Estado.
No que diz respeito ao serviço militar, os líderes religiosos da comunidade
haredi consideram que o papel que desempenham no conhecimento dos textos
bíblicos é fundamental para a afirmação de Israel enquanto Estado judeu. Como
resposta às críticas dirigidas pela não prestação do serviço militar
obrigatório, os rabinos argumentam que «estudar a Torah ajuda a proteger o povo
judeu, tal como servir nas Forças Armadas de Israel».
Já no que diz respeito à qualificação, é importante salientar a dimensão
educativa. De acordo com estatísticas oficiais, 21 por cento da atual população
do ensino básico em Israel pertence à comunidade haredi. Significa isto que
seguem um currículo próprio, embora com conteúdos partilhados ao nível
primário, mas gradualmente mais orientados para o ensino religioso. As ciências
exatas, como a matemática ou a química, são secundarizadas, bem como a
aprendizagem de novas tecnologias ou de uma língua estrangeira. Como resultado,
verifica-se uma clara inadaptação ao mercado de trabalho, determinado pelas
necessidades de uma economia desenvolvida e vocacionada para a investigação e
desenvolvimento. Saliente-se que, de acordo com a tradição haredi, os homens
devem dedicar-se, de preferência em exclusivo, ao estudo da Torah, cabendo às
mulheres o desempenho de atividades profissionais, desde que não colidam com
práticas religiosas ou necessidades familiares. Como resultado, o rendimento
familiar e consequente pagamento de impostos são reduzidos e é necessário o
recurso a apoio do Estado ou de instituições particulares.
Também ao nível do sistema político as consequências são importantes. Em
primeiro lugar porque, pela natureza do sistema político israelita e
consequente necessidade de formação de governos de coligação pluripartidários,
os partidos que representam franjas eleitorais acabam por ser sobrevalorizados.
É o que acontece no atual Governo de Israel, liderado por Benjamin Netanyahu,
que conta com dois partidos de base eleitoral haredi, o Shas e o Yahadut
Hatorah4. O primeiro obteve 8,49 por cento de votos e 11 membros do Parlamento
(Knesset), num total de 120, participando no Governo com quatro ministros
(Assuntos Internos, Habitação e Construção, Questões Religiosas e um sem
pelouro atribuído), bem como um vice-ministro (Finanças). Já o Yahadut Hatorah,
conquistou 4,39 por cento do total de votos, o que corresponde a cinco membros
do Knesset, e participa no Governo com dois vice-ministros (Educação e Saúde).
É de salientar que o atual governo de Israel é composto por 37 membros (30 dos
quais ministros), de seis formações partidárias distintas.
A esta equação é, ainda, necessário acrescentar a desfragmentação da esquerda
israelita ' como demonstra o abandono de Ehud Barak, atual ministro da Defesa,
do Partido Trabalhista ' e a afirmação dos princípios liberais e de centro-
direita através do partido Kadima, criado em 2005 por Ariel Sharon.
Ainda no que concerne à participação política, e para além de movimentos
políticos próprios, os membros da comunidade haredi estão também representados
nas formações partidárias de maior dimensão, como o Likud (partido em atual
maioria no Governo), onde dispõem de capacidade de influência, seja na
definição das estratégias políticas seja na escolha dos líderes.
Esta projeção política tem, naturalmente, consequências na prossecução das
estratégias do Governo. Destaque-se, por exemplo, o facto de a tutela
correspondente à manutenção e construção de colonatos estar sob a
responsabilidade de um ministro do Shas (Habitação e Construção), bem como o
facto de os membros da comunidade ultraortodoxa serem tradicionalmente mais
conservadores em relação a compromissos relativos ao princípio da «terra por
paz», aplicado nas negociações entre israelitas e palestinianos.
Estas mudanças sociais e políticas poderão ter também reflexos ao nível da
política externa. Acrescente importância da comunidade ultraortodoxa poderá
resultar num decréscimo de influência dos sionistas liberais, cuja elite tem
garantido uma relação privilegiada com os Estados Unidos da América, principal
aliado externo de Israel. Recorde-se que aquando da visita do vice-presidente
americano Joe Biden a Jerusalém, em março de 2010, foram dois ministros do
Shas, do Interior e Habitação e Construção, que anunciaram a construção de 1600
novas habitações nos colonatos em Jerusalém Oriental, contrariando os apelos da
Administração americana e criando um importante momento de tensão entre os dois
governos.
Neste contexto, é inegável assinalar que Israel está a viver uma mudança social
profunda, que poderá alterar hábitos e dinâmicas sociais e políticas mantidas
desde a construção do Estado. No essencial, porque a sociedade israelita
assenta num evidente paradoxo: por um lado, é uma comunidade política
democrática, moderna e avançada, sustentada em leis progressistas, com uma
educação avançada, elevados padrões de consumo e desenvolvimento tecnológico;
por outro, uma parte cada vez mais relevante desta mesma comunidade, que se
dedica no essencial ao estudo da Torah, mantém-se renitente à modernidade e
tenta aplicar um conjunto de normas sociais, assentes numa interpretação
restrita dos textos bíblicos, à maioria da população.
À semelhança da enorme diversidade que caracteriza a sociedade israelita, é
naturalmente enganador tomar a comunidade haredi como um corpo homogéneo. Se de
uma forma geral podemos assumir que está dividida em duas grandes correntes, os
hasidim e os mitnagdim, também estes se subdividem em inúmeros grupos e seitas,
na maioria organizados em torno de um rabino e com designações de acordo com a
cidade de origem (a maioria da Europa de Leste). São, por isso, detetáveis
vários pormenores distintivos na roupa, preceitos e hábitos religiosos. Porém,
no essencial, os haredim são adversos à modernidade ' por considerarem que
coloca em causa os princípios tradicionais do judaísmo ' e mantêm as mesmas
indumentárias e práticas definidas nos séculos xviii e xix. Mas numa sociedade
globalizada, manter a fidelidade às tradições é um constante desafio. É, por
isso, normal ver membros da comunidade haredi a conduzir ou a falar ao
telemóvel, estando contudo o acesso à internet, por exemplo, bastante
condicionado.
Mas tão ou mais paradoxal do que esta tensão entre a tradição e a modernidade,
é a convivência entre os princípios ultraortodoxos judeus e o sionismo. Desde
logo porque o sionismo, entendido enquanto movimento político que defende a
autodeterminação do povo judeu e o seu direito a ter um Estado independente,
não constitui, para muitos, um elemento central da ortodoxia judaica. Mais do
que isso, no limite, o sionismo político é contrariado pelos ultraortodoxos
mais radicais, por considerarem que não respeita a vontade de Deus. Isto porque
de acordo com os textos religiosos o povo judeu só deve voltar à Terra Santa
após o regresso do Messias e, não se tendo tal concretizado, este regresso pode
ser entendido como um desrespeito à vontade de Deus. É por isso que foi
possível assistir à presença de representantes de judeus ultraortodoxos, do
Movimento Neturei Karta (um movimento internacional de judeus ultraortodoxos
antissionistas) na Conferência sobre o Holocauto organizada pelo regime
iraniano, em dezembro de 2006. Uma vez mais, trata-se de uma pequena minoria
dentro da minoria, mas utilizam os palcos mediáticos para afirmação dos seus
objetivos políticos.
Porém, será um erro considerar que estas tensões apenas vivem no palco
mediático. Tradição e modernidade, o antigo e o contemporâneo, o religioso e o
secular vão convivendo lado a lado em Israel, em particular em Jerusalém. A
cidade sagrada para as três religiões monoteístas ' judaísmo, cristianismo e
islamismo ' é, sem dúvida, uma cidade de tensões e contrastes.
O melhor exemplo é o bairro de Mamilla, recém-construído às portas da Cidade
Velha. No século xix era um bairro comercial dividido entre judeus e árabes,
hoje é uma zona de luxo, com habitações modernas avaliadas em centenas de
milhares de euros e um centro comercial onde é possível encontrar as principais
marcas de vestuários e joias ocidentais. No fim da rua, a Porta de Jaffa, a
Cidade Velha e a modéstia ditada pelos princípios religiosos.
No que concerne ao
Shabbat
, vão vencendo os princípios religiosos. Nem os imperativos comerciais e o
potencial turístico dos cafés
gourmet
da Cidade Santa se sobrepõem às regras do descanso e da oração.
É sexta-feira. Os ponteiros do relógio marcam 16h30. Falta pouco para o início
do
Shabbat
. As lojas fecham, os turistas regressam aos hotéis. A cidade descansa.
Shabbat Shalom
.
17 de fevereiro de 2012
NOTAS
1
O
Shabbat
inicia-se ao pôr do Sol de sexta-feira e termina ao pôr do Sol de sábado, pelo
que os horários são ajustados semanalmente.
2
Designação atribuída aos Cinco Livros de Moisés, que constituem os textos
centrais do judaísmo.
3
Atualmente a comunidade haredi apresenta uma média de 6,7 filhos por família,
três vezes superior à média nacional.
4
Resultado das eleições legislativas realizadas em fevereiro de 2009, na
sequência da demissão do então primeiro-ministro Ehud Olmert.
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