Memórias
Memórias
Bernardo Pires de Lima
Investigador do IPRI ' UNL. Doutorando em Relações Internacionais na FCSH '
UNL, onde desenvolve uma tese sobre a NATO e o fim da Guerra Fria. Colunista do
Diário de Notícias. Comentador de assuntos internacionais na TVI24 e Rádio
Renascença. É autor de Blair, a Moral e o Poder(Guerra & Paz, 2008).
George W. Bush, Decision Points
St Ives, Virgin Books, 2010, 497 pp.
As memórias de George W. Bush são a narração do exercício do poder em função
dos momentos mais importantes por si escolhidos. Este desenho do livro
pressupõe uma subjectividade dos capítulos tratados de acordo com um fio
condutor: mostrar aos leitores que o antigo Presidente dos Estados Unidos deu
sempre tudo pelo país, procurou racionalizar todas as decisões que tomou,
ouvindo opiniões, estudando informação, maturando o processo de decisão, mas
sempre bafejado pela divina bênção de Cristo. Decision Points não tem
propriamente um argumento sólido, mas dá-nos um fio condutor do princípio ao
fim: só a fé ilumina o difícil caminho da política. Bush faz questão de
repetidamente lembrar os leitores que as suas manhãs começavam invariavelmente
pela leitura da Bíblia.
A maior parte dos capítulos não traz novidades ao que a literatura já havia
mostrado nos últimos anos. As tensões entre departamentos (Pentágono,
Departamento de Estado, etc.) e pessoas ' embora Bush não carregue muito nelas
', a complexidade da cadeia humana no processo de decisão americano, as
debilidades das intervenções no Afeganistão e Iraque, o falhanço na gestão do
Katrina, a idealista (e assumida por Bush) agenda da liberdade, a influência de
Dick Cheney na Administração e o recurso recorrente ao conselho de Bush pai. No
plano transatlântico, fica claro, por exemplo, que Bush assume como unilaterais
as intervenções no Afeganistão e no Iraque e que é a partir desse ângulo que os
aliados se colocam e esgrimem argumentos. Não é um dado inteiramente novo, mas
tem a virtude de ser assumido pelo próprio decisor político.
Quem quiser encontrar novas pistas para analisar a última década, não é em
Decision Points que o fará. Estas memórias são a visão benigna das acções de um
Presidente que lidou com o 11 de Setembro, duas guerras simultâneas, o maior
desastre natural nos Estados Unidos e o início da maior crise financeira dos
últimos oitenta anos. Foram oito anos intensos, como prova o ritmo com que são
descritas as grandes decisões. Anos em que Bush tentou fazer o melhor. Mas
sempre com o almighty por perto.
Donald Rumsfeld, Known and Unknown: A Memoir
Nova York, Sentinel, 2011, 815 pp.
As memórias do mais novo e também mais velho norte-americano a ocupar a chefia
do Pentágono estão repletas de uma das piores características que assombram o
sucesso: a arrogância. Donald Rumsfeld começa o livro por contar o enredo
histórico que o levou a apertar a mão a Saddam Hussein em 1983 e é precisamente
o Iraque que mais páginas preenche: dois terços são dedicados ao tempo em que
Rumsfeld serviu George W. Bush. O resto conta o seu percurso de sucesso como
estudante, militar, gestor, embaixador na NATO, chefe de gabinete e secretário
da Defesa de Gerald Ford, conselheiro de Nixon e de Reagan. Tudo com alguma
minúcia e interesse. No entanto, no que toca aos anos em que serviu Bush
(filho), há dois traços que percorrem a narrativa: por um lado, a tentativa de
culpabilizar a falta de coordenação interagências de informação, bem como o
próprio modelo de organização da Administração; por outro, a tentativa de, sem
recorrer ao arrependimento, justificar alguns dos pontos quentes da invasão do
Iraque ' o principal dossiê do seu mandato ' com erros de terceiros.
Poupando Dick Cheney, Rumsfeld é muito directo na "moleza" de Colin
Powell e na falta de organização e experiência política da então conselheira de
segurança nacional Condoleezza Rice, alguém a quem Rumsfeld atribui uma
influência sem paralelo nas decisões do Presidente Bush. Estas memórias, não
tendo um propósito de contribuir para o entendimento das relações
internacionais e, em particular, da parceira transatlântica, são um documento
sem grande brilho para auxiliar esses ângulos de análise. Servem, acima de
tudo, tal como a esmagadora maioria das memórias de membros da Administração
Bush publicadas depois da Guerra do Iraque, para revelar o ponto de vista do
autor, a sua bem-intencionada acção nos sucessos e a sua ultrapassagem por
outros quando os finais não são tão bem-sucedidos. Known and Unknown é um
testemunho muito pessoal de um dos mais influentes políticos americanos das
últimas quatro décadas sobre o complexo processo de decisão norte-americano: a
sua orgânica, a interdependência departamental, o espaço concedido às relações
pessoais, o peso da dinâmica histórica. É, sobre este ângulo, um livro com
interesse.
Tony Blair,A Journey
Londres, Hutchinson, 2010, 717 pp.
Como Derek Chollet e James Goldgeier tão bem demonstraram (American Between the
Wars) e Gideon Rachman estendeu até aos nossos dias (Zero-Sum World), o mundo
viveu numa euforia liberal e democrática contagiosa posterior à Guerra Fria '
marcada por Bill Clinton ' e entrou num período pós-traumático com o 11 de
Setembro ' marcado por George W. Bush. Tony Blair foi talvez o único líder
mundial que mais de perto acompanhou esta transição política e psicológica com
epicentro em Washington. Só por isso, as memórias do antigo primeiro-ministro
britânico têm um especial interesse, uma vez que percorrem períodos sucessivos,
contemporâneos, onde Londres passou a desempenhar um papel progressivamente
assumido como estratégico e essencial aos seus interesses: perto de Washington,
próximo de Bruxelas.
A primeira metade do livro remete-nos para a formação do New Labour, para o
contributo dado por um conjunto de jovens turcos marcados mais pela vivência de
middle class do que por imperativos filosóficos que os afastaram da ortodoxia
do Old Labour. Aliás, não é visível uma grande admiração de Blair por figuras
do passado trabalhista. As suas referências estão em David Lloyd George, Roy
Jenkins, John Maynard Keynes, William Gladstone e, sem exagerar, a própria
Thatcher, mais pelo que lhe deixou feito do que por um qualquer mimetismo.
A segunda metade é profundamente condicionada pelos ataques de 11 de Setembro.
Aqui emerge o messias, o crente, o aliado, o garante da civilização ocidental.
São descritos os méritos das intervenções no Afeganistão e no Iraque, o alcance
da "agenda pela liberdade" partilhada com Bush e é nesta fase do
livro que a alteração da sua imagem política é mais visível. Blair passa de um
político com forte linhagem no pragmatismo, para um líder internacional com
pretensões a deixar um legado. É um livro com deixas contraditórias de acordo,
aliás, com o seu autor. O seu denso testemunho, não sendo particularmente uma
novidade bibliográfica, tem a importância que lhe dá o facto de ter sido
escrito pelo primeiro-ministro trabalhista com mais anos no cargo em toda a
história britânica. Não é coisa pouca.
Dick Cheney,In My Time: A Personal and Political Memoir
Nova York, Threshold Editions, 2011, 565 pp.
Que dizer de um livro que Condoleezza Rice (que entretanto lançou as suas
memórias ' No Higher Honor: A Memory of My Years in Washington) considera
"um ataque à sua integridade" ou que Colin Powell profundamente
contestou assim que foi posto à venda? Dick Cheney teve uma importância na
Administração Bush que o cargo de Vice-Presidente não lhe conferia à partida. A
sua história política deu-lhe um poder no processo de decisão incomparável na
trajectória do cargo, algo que George W. Bush nunca rejeitou. Este facto
percorre todo o livro: Cheney era praticamente um co-decisor e isso deu-lhe
margem para conflitualidades permanentes no interior da Administração.
Os primeiros capítulos do livro descrevem a sua ascensão profissional e acabam
por ser uma forma de humanizar o seu perfil público, descrito na imprensa e
opinião pública da última década como um autêntico Darth Vader, entre muitos
outros mimos. Na segunda metade do livro, Cheney dedica-se ao desempenho da sua
vice-presidência, à formulação da "guerra ao terror", ao desenho do
dominó da liberdade para o Médio Oriente, à defesa de certas práticas de
interrogatório na guerra global contra o terrorismo, à luta pelo protagonismo
de certas linhas de argumentação na complexa cadeia de decisão da Casa Branca.
Aqui são evidentes as clivagens com Condi Rice e Colin Powell ' que empurrou
para a saída ' em momentos que vão da gestão do nuclear norte-coreano, à surge
no Iraque. Há uma constante policy battle nos corredores da Administração e
Cheney, honra lhe seja feita, não foge ao assunto.
No plano das relações internacionais, em particular transatlânticas, In My Time
percorre com pinceladas o papel da diplomacia nos momentos-chave descritos. Mas
este não é um contributo a reter. Se quisermos perceber qual o ângulo com que é
escrita esta e outras memórias recentemente publicadas, devemos baixar a
expectativa quanto a isso. Elas servem sobretudo para melhorar a imagem pública
dos seus autores e revelar um pouco mais do complexo processo de decisão norte-
americano.