Os Estados Unidos e Osama bin Laden uma década depois: a derrota da Al-Qaida e
o fim da unipolaridade?
Os Estados Unidos e Osama bin Laden uma década depois a derrota da Al-Qaida e o
fim da unipolaridade?
Os ataques do 11 de Setembro de 2001 chocaram o mundo. Percebe-se porquê. Os
ataques orquestrados por um grupo de 19 terroristas da Al-Qaida ' uma
organização terroristas islamita radical liderada por Osama bin Laden (1932-
2011) ' usaram aviões de passageiros como armas para destruírem as Torres
Gémeas, o edifício mais alto dos Estados Unidos, a superpotência por
excelência, e atingiram imponentemente o Pentágono, o quartel-general das
Forças Armadas mais poderosas do planeta. Numa época dominada pela
secularização, pelo menos no Ocidente, atacavam em nome de uma guerra santa.
Passada uma década, o que fundamentalmente interessa perceber, parece-nos ser:
• A Al-Qaida representou uma nova forma de terrorismo que alterou as dinâmicas
da segurança internacional?
• Com que objectivos e porquê surgiu a Al-Qaida dos despojos do triunfo do
Ocidente na Guerra Fria?
• Teve um mero grupo terrorista um real impacto em termos da segurança
internacional?
• Teve o 11 de Setembro algum impacte na forma de pensar as relações
internacionais?
• Qual foi o impacto da Al-Qaida no sistema internacional e qual será o seu
futuro, após a morte de bin Laden?
UM TERRORISMO DIFERENTE E COM FUTURO?
Muito se falou e temeu em 2001 uma era futura dominada por um novo
superterrorismo face ao qual até as superpotências seriam impotentes. Este
cenário mais pessimista não se verificou. Ou seja, o 11 de Setembro de 2011 não
marcou o início de uma década de atentados terroristas muito frequentemente
causando milhares de mortos num momento.
Podemos ver hoje que um dos problemas da Al-Qaida com o 11 de Setembro foi que
não só levou a uma resposta violentíssima dos Estados Unidos contra si, como
estabeleceu um patamar de expectativas difícil de igualar.
O que não anula o facto de que a Al-Qaida elevou de forma terrível a fasquia
desta forma de combate essencialmente psicológico. Há, portanto, um maior risco
de novos atentados com esse nível de ambição ou superior ' o terrorismo vive do
choque causado ' ao 11 de Setembro.
Mais ainda, se não houve terrorismo maciço nesta década, houve uma massa de
terrorismo ligado ou alinhado com a Al-Qaida. Deram-se vários ataques
significativos contra países ocidentais ' embora os Estados Unidos nunca mais
tenham sido atingidos, uma clara derrota da Al-Qaida, ainda que por pouco em
vários casos. Houve ainda muitos ataques, geralmente menos notados, contra
aliados do Ocidente e inimigos da Al-Qaida fora do Ocidente, desde Java até
Bombaim, passando pela Arábia Saudita e chegando até Rabat. O que significa que
os horizontes das relações internacionais ainda precisam ser mais alargados.
E, apesar de não na forma de ataques com milhares de mortos da cada vez, pode
dizer-se que com a Al-Qaida ganhou preeminência um estilo de terrorista
relativamente novo pela conjugação de duas características principais:
• um modus operandi que procura levar a cabo coordenadamente vários ataques
terroristas simultâneos;
• uma estrutura organizacional transnacional, que recusa expressamente uma
identificação nacional1.
Quanto aos ataques simultâneos há indicadores fortes de que esta é uma marca
que a Al-Qaida tem procurado manter. Foi assim com o 11 de Setembro, tinha sido
assim antes com os ataques de 7 de Agosto de 1998 contra as embaixadas norte-
americanas no Quénia e Tanzânia. E foi assim também com o 7 de Julho de 2005 em
Londres e o 11 de Março de 2004 em Madrid. Esta forma de operar torna o
terrorismo mais aterrorizador e dificulta uma resposta eficaz.
O ataque do Lashkar-i-Taiba, um grupo jihadista próximo da Al-Qaida e baseado
no Paquistão, em Bombaim, a 26 de Novembro de 2011, pode ser visto como um
sinal de difusão deste modus operandi' consistiu em mais de 10 ataques
simultâneos, que dividiram e confundiram as forças de segurança e espalharam o
terror.
Mais recentemente ainda, o último grande ataque terrorista ' na Noruega, em
Julho de 2011 ' parece mostrar que até um lone wolf, um terrorista solitário,
ironicamente hostil ideologicamente com a Al-Qaida, pode imitar este novo
modelo de terrorismo. Parece portanto haver uma perigosa tendência na
multiplicação deste modus operandi2.
O 11 de Setembro, do ponto de vista do terrorista como táctica, está certamente
entre os ataques mais bem-sucedidos da história se não mesmo o mais bem-
sucedido de sempre (daí a imitação): pelo grau de destruição, nunca antes
visto, mais de trinta vezes o número de vítimas do maior atentado anterior; e
por ter violado a barreira psicológica da invulnerabilidade militar do
território continental dos Estados Unidos que remontava ao ataque britânico a
Washington em 1812.
Tacticamente, portanto, o 11 de Setembro foi um grande sucesso para a Al-Qaida.
Mas também criou um nível de expectativas difícil de gerir no futuro. E colocou
a questão do que fazer estrategicamente com este ataque, que obteve com ele a
Al-Qaida? Tema da próxima secção.
PRINCÍPIOS E FINS DA AL-QAIDA, SUCESSOS E FRACASSOS
A Al-Qaida ' ou A Base ' surgiu com essa designação entre 1988 e 1992, em torno
da liderança de Osama bin Laden (1932-2010). Ela nasceu da Guerra Fria.
Referimo-nos não só às bem conhecidas circunstâncias da sua origem, mas
sobretudo ' o que tem sido menos sublinhado ' à forma como uma certa leitura de
bin Laden quanto ao fim da Guerra Fria determinou o essencial das suas opções
que culminaram no 11 de Setembro de 2001.
Ela teve origem como é sabido nos esforços crescentes feitos durante aquela que
seria a última década da Guerra Fria para apoiar a guerrilha contra a URSS no
Afeganistão. Para os Estados Unidos a ideia era simples e irresistível '
desgastar o poderio soviético, com fundos, armas e homens em boa parte
fornecidos por outros. Para a Arábia Saudita era uma forma de mostrar serviço
ao Ocidente e ao islão. Para o Paquistão era uma forma de fazer outros pagarem
a sua agenda de aquisição de profundidade estratégica no Afeganistão evitando
ser encurralado entre duas ameaças combinadas ' a Índia e a URSS.
Bin Laden encontrou a sua vocação neste contexto. Ele seria um gestor como o
seu pai, mas não no ramo da construção, e sim no da demolição de uma
superpotência, a URSS. Mas quem destrói uma superpotência pode sempre tentar
destruir outra se ela também se revelar avessa aos seus propósitos.
O que nos conduz à questão do final da Guerra Fria e das lições que daí se
tiraram para o futuro do sistema internacional. Em suma, quem ganhou e porquê?
• Nos Estados Unidos valorizou-se sobretudo o papel de Reagan no final da
Guerra Fria, e a sua política externa assertiva e algo unilateral, assim como o
poderio militar e tecnológico crescente dos norte-americanos ' fez-se uma
interpretação mais realista.
• Na Europa Ocidental valorizou-se sobretudo as novas normas dos direitos
humanos pós-Helsínquia e a conversão de Gorbatchev, o papel dos dissidentes que
as promoveram no Leste como Vaclav Havel, e o das novas instituições e grande
liberdade e prosperidade da integração europeia levando ao grande desejo de
entrar na CEE de boa parte da Europa de Leste ' fez-se uma interpretação
essencialmente liberal e institucionalista.
• Os islamitas radicais ligados a bin Laden consideraram que tinha sido a
sagrada guerrilha, a jihad, e o islão que triunfaram no Afeganistão e ganho a
Guerra Fria. Tinham sido eles ' com a protecção divina ' e não o Ocidente, quem
ganhou a Guerra Fria. Tinham sido os mujahaddin árabes e afegãos que tinham
derrotado uma URSS muito poderosa militarmente, utilizando a guerrilha, do
terrorismo, do combate assimétrico. Em suma, bin Laden e os seus seguidores
formularam uma interpretação terrorista do final da Guerra Fria.
Poderia pensar-se que a humilhante recusa da oferta feita repetidamente por bin
Laden à dinastia saudita de aplicar esta lição contra o agressivo Iraque de
Saddam Hussain, e a vitória da alternativa, a Blitzkrieg dos Estados Unidos em
1991, teria feito bin Laden ver a sabedoria da Realpolitik saudita e comprovado
definitivamente a hegemonia política e militar dos Estados Unidos no pós-Guerra
Fria3.
Mas não foi assim com bin Laden ' uma personalidade pouco dada a dúvidas ' que,
logo a seguir, em 1992-1993, acreditou ver a confirmação da validade desta sua
visão das relações internacionais pós-Guerra Fria. Uma das primeiras acções da
incipiente Al-Qaida baseada no Sudão ' onde o popular bin Laden se exilou,
voluntariamente, em 1992 ' foi apoiar os grupos armados que na vizinha Somália
faziam guerrilha contra a intervenção militar dos Estados Unidos, tal como ele
o tinha feito no Afeganistão. A retirada precipitada das tropas norte-
americanas, em 1993, alguns meses após uma emboscada em que morreram 18
soldados norte-americanos, tê-lo-á convencido de que os Estados Unidos eram
realmente um tigre de papel.
A estratégia da Al-Qaida assentou, portanto, no pressuposto que se revelou
errado ' mas que não era delirante ' de que os Estados Unidos eram, tanto ou
mais do que a URSS, um Golias vulnerável às tácticas do terrorismo e da
guerrilha. Bin Laden deu-se ao trabalho de listar nove casos bem-sucedidos de
guerrilha islâmica contra estados mais poderosos ' a começar pela URSS no
Afeganistão, passando por Israel e os Estados Unidos no Líbano, e referindo
explicitamente a Somália, para terminar com ataques da própria Al-Qaida4.
A derrota dos Estados Unidos pela Al-Qaida por via assimétrica ' terrorismo e
guerrilha ' iria, segundo bin Laden, fazer com que se afastassem do Médio
Oriente. Depois, seria fácil fazer cair os regimes árabes que dependiam do
apoio dos Estados Unidos. Tinha sido assim com os regimes comunistas no Leste
da Europa, e em 1992 com o regime comunista afegão de Najibullah.
Livre do Ocidente, o islão guiado pela Al-Qaida poderia recuperar a sua unidade
e seria um vasto califado e uma nova superpotência. Este tem sido o objectivo
estratégico máximo declarado da Al-Qaida. E é claro que falhou neste aspecto.
A Al-Qaida ignorou, nomeadamente, a distinção entre intervenções ocidentais
voluntárias por razões humanitárias que se começam a causar muitas baixas
perdem sentido, e intervenções consideradas vitais e necessárias. Ora o Médio
Oriente é de importância vital para o Ocidente. De tal forma, que foi o mais
liberal e menos intervencionista dos presidentes dos Estados Unidos das últimas
décadas, Jimmy Carter, quem declarou, expressamente, uma doutrina implícita há
muito, que os Estados Unidos usariam todos os meios necessários para impedir
que uma única potência hostil controlasse todo o petróleo do Médio Oriente5. A
Al-Qaida aumentou o preço de o fazer mas não a ponto de o tornar insuportável.
E, apesar de derrotada no que os seus discursos apontavam como o seu objectivo
estratégico central, a Al-Qaida obteve pelo menos três objectivos intermédios
importantes depois do 11 de Setembro. O primeiro tem a ver com o
estabelecimento da Al-Qaida como o principal movimento islamita violento do
mundo em termos da atenção dos media, ocidentais e não só6. Este é um ponto
especialmente valorizado por aqueles que consideram que o terrorismo vive menos
de uma lógica estratégica clássica, e mais de uma lógica social ' de
sobrevivência, coesão e afirmação de um grupo em que o recurso à violência
passa a ser um identificador essencial7. O segundo, com a retirada dos Estados
Unidos de todas as suas forças militares da Arábia Saudita, o que permitiu à
Al-Qaida passar a poder reclamar que tinha "libertado" a terra mais
santa do islão. E por fim, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão em 2002 e
o Iraque em 2003, algo que a Al-Qaida esperava como resultado da provocação do
11 de Setembro ' pois assim forçaria os norte-americanos a mostrar a sua face
de agressores, de imperialistas, a todo o mundo islâmico e iriam provocar uma
jihad defensiva.
Foi, e é, neste quadro que o impacto e o sucesso de mais longo prazo da Al-
Qaida se joga. Se acabar por levar ao colapso do movimento o seu falhanço será
total. Mas sobre isso, e sobre a morte de bin Laden falaremos a seguir.
IMPACTO DA AL-QAIDA NA SEGURANÇA INTERNACIONAL
O facto de a Al-Qaida não ter atingido o seu objectivo principal é algo
frequente nos grupos terroristas, que geralmente são tão maximalistas nos
objectivos e violentos nos meios, quanto mínima é a sua capacidade para os
obter. Isto não significa que a Al-Qaida não tenha transformado
significativamente a segurança internacional, ainda que indirectamente e não
necessariamente no sentido que mais lhe convinha.
É inegável que o terrorismo passou a estar claramente entre as ameaças
prioritárias em todos os documentos estratégicos dos principais estados '
geralmente revistos pouco depois do 11 de Setembro de 2001.
Tudo indica também que a Al-Qaida passou a ser o grupo terrorista mais temido
no Ocidente e não só ' um objectivo implícito de qualquer grupo deste tipo.
Tal teve um impacto profundo, não apenas nos discursos ou nas percepções na
opinião pública, mas também nas opções e nas instituições de segurança,
nomeadamente nos Estados Unidos e no Ocidente:
• Forçou as Forças Armadas dos Estados Unidos a ultrapassar a "síndrome
do Vietname" e a adaptar-se e empenhar-se a fundo e dar prioridade a
missões não convencionais, e o mesmo sucedeu com outras instituições militares
ocidentais.
• Chocou de frente com a "síndrome de Watergate" e o modelo de
segurança dominante no Ocidente democrático a partir dos anos 1970, ao tornar
evidente os perigos de manter em compartimentos estanques a segurança interna
ou externa, e estabelecer fortes divisórias entre vários serviços de
informações, polícias, forças de segurança.
• Acelerou fortemente a robotização da guerra. A luta armada contra a Al-Qaida
e os seus aliados tem sido cada vez mais feita com o recurso a drones ' o
Presidente Obama lançou mais ataques deste tipo no primeiro ano da sua
presidência do que em todos os anos desde 2001.
De facto, a Al-Qaida, e os conflitos em que por sua causa mais ou menos
directamente os Estados Unidos e os seus aliados se viram envolvidos, obrigaram
as respectivas forças armadas a adaptarem-se em termos de estrutura, de
equipamento, de treino, de doutrina para combater conflitos assimétricos. Sejam
estas operações de contraguerrilha, de estabilização/pacificação ou de
operações especiais de contraterrorismo como a que matou bin Laden8.
Uma ideia dominante na nova doutrina de segurança pós-11 de Setembro tem sido a
de uma abordagem abrangente ' comprehensive approach9. Isto significou quebrar,
ou pelo menos atenuar significativamente a separação entre as várias forças de
segurança e serviços de informações, uma das formas encontradas para evitar
futuros abusos de poder depois do escândalo das escutas de Watergate envolvendo
o Presidente Nixon, com impacto no resto do Ocidente.
O 11 de Setembro marcou, portanto, uma mudança importante, pelo menos ao nível
das regras, que se antes impediam, e que agora passaram a obrigar à partilha de
informações entre serviços policiais, serviços de contra-espionagem e
contraterrorismo internos e externos. Houve ainda um impulso de reforço da
cooperação neste campo entre serviços de diversos países do Ocidente. E também
ao nível dos militares houve transformações, passando estes a contribuir mais
para operações especiais e capacidade de resposta pós-atentados; mas tendo de
valorizar mais a componente das informações, contrariando velhos preconceitos.
A questão em aberto é saber até que ponto estas transformações foram profundas
e serão duradoiras. Muito dependerá da consolidação ou não de uma tendência de
longo prazo na segurança internacional para a relativa ausência de conflitos
convencionais e a maior frequência e importância de ameaças não
convencionais10.
A luta contra a Al-Qaida e outros grupos seus aliados ou imitadores tem sido
cada vez mais um conflito de drones/robots, já mais visível no ar, mas que
também já se estende à terra. Estas máquinas de guerra automatizadas começaram
por ser em números muito limitados e com funções de vigilância. Hoje os drones
são muito significativos em número e variedade de missões, e têm assumido cada
vez mais importância ofensiva11.
No raide visando bin Laden em Maio de 2011 a decisão fundamental de Obama foi
saber se deveria ser um robot armado a lidar com o homem mais procurado desde o
11 de Setembro de 2001 ou uma operação de forças especiais, os Seals. Esta era
uma discussão impensável há dez anos atrás.
Claro que com isto surge uma série de problemas novos e fundamentais:
• Éticos e estratégicos, sobre se isto não torna a guerra perigosamente virtual
e aparentemente indolor a ponto de levar a mais mortos entre a população civil
confundida ou misturada com os alvos, cuja reconquista se pensa ser uma
componente essencial da comprehensive approach.
• Operacionais, pois a informação nunca é completa e a decisão humana tem
sempre uma margem de erro, mas o passo seguinte ' de eliminar o erro humano
automatizando os drones ' seria abrir uma outra caixa de Pandora.
• Proliferação, pois esta é uma tecnologia armada relativamente barata, muito
mais barata e acessível do que jactos ou mísseis nucleares.
Aparentemente o Hezbollah usou drones "suicidas" primitivos na sua
guerra híbrida contra Israel. Será preciso esperar muito mais tempo para outros
grupos, quem sabe alguma das Al-Qaidas, também fazerem uso destes robots
armados? Afinal, eles foram suficientemente engenhosos para transformar aviões
civis em armas letais12.
Por si só nenhuma tecnologia transformou a guerra, para não falar da segurança
internacional. Foi preciso dar-lhe o uso eficaz por uma adaptação inteligente
de estruturas e doutrinas de emprego a determinados fins estratégicos.
Mas seria disparatado negar o impacto potencialmente enorme desta robotização
da guerra que, não fora a ameaça premente da Al-Qaida e companhia, poderia ter
continuado dormente por muito mais tempo. Poderemos estar, relativamente à
robotização da guerra, num período de transição semelhante ao da guerra aérea e
da mecanização exactamente há um século atrás.
IMPACTO DA AL-QAIDA NA DISCIPLINA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
O 11 de Setembro de 2001 também abalou alguma coisa da disciplina das relações
internacionais, desafiando as grandes escolas das relações internacionais,
relativamente:
• às normas de avaliação da distribuição do poder material e militar entre
estados considerada essencial pelas correntes mais realistas ' ficou evidente
que muito do enorme investimento dos Estados Unidos em armamento altamente
sofisticado e caro era inútil numa guerra de guerrilha;
• à noção de que, com o fim da Guerra Fria, os estados estavam cada vez mais
ligados por normas multilaterais, instituições internacionais ' ficou evidente
que a globalização não permitia apenas a paz no mundo por via do doce comércio
globalizado como esperam as correntes mais liberais, também facilitava a acção
de terroristas.
Porém, se o inesperado final da Guerra Fria não fez ninguém mudar radicalmente
os seus paradigmas teóricos, dificilmente um evento como o 11 de Setembro o
faria13.
Apesar de não ter revolucionado o campo das relações internacionais ' nem ser
evidente que o devesse fazer, pois uma disciplina académica não tem de ter uma
agenda definida apenas pela actualidade ', ainda assim, a década do pós-11 de
Setembro trouxe ou acentuou quatro tendências importantes e interessantes no
campo das relações internacionais. Em primeiro lugar, mais atenção a conflitos
violentos não convencionais ' guerrilha, terrorismo e outras formas de
violência mais ou menos organizada ' depois, mais atenção ao papel crescente de
actores não estatais, na sua complexidade, desde as Organizações Não
Governamentais (ONG) "tradicionais" a organizações criminosas e
terroristas; mais atenção à religião, como algo que não é exterior às relações
internacionais, mas que deve ser considerado a par de outras dimensões
seculares de organização e convicção; assim como mais atenção aos actores não
ocidentais no campo internacional, que foi historicamente formado pelos estados
ocidentais e dominado por eles até há muito pouco, ou mesmo até hoje.
Portanto, a Al-Qaida pode não ter alterado fundamentalmente a forma de pensar
as relações internacionais, mas levou a um aumento significativo de estudos,
ainda que essencialmente empíricos e descritivos, sobre as formas de conflito
não convencional, sobre actores não estatais, sobre o papel do islão e de
outras regiões que não o Ocidente.
Não houve uma insurreição nas relações internacionais, mas a insurreição passou
a merecer mais presença nas publicações do campo da segurança internacional
dentro das relações internacionais. Não houve uma conversão nas relações
internacionais, mas a religião passou a ser mais uma dimensão a ter em conta.
Não se deixou de focar o Estado, mas percebeu-se que as ONG mereciam atenção e,
sobretudo, não queriam apenas significar organizações simpáticas e pacíficas,
podiam também ser grupos extremistas e violentos. As relações internacionais
ainda são uma disciplina muito americana e ocidental, mas têm procurado sê-lo
um pouco menos.
Mais uma vez, ainda é cedo para perceber se a transformação será durável e se
irá aprofundar e acabará por ter algum impacto significativo nos aspectos mais
centrais da própria teorização da disciplina das relações internacionais.
Seria tentador concluir que, em termos genéricos e teóricos, estes eventos
tenderam a reforçar as tendências construtivista e crítica nas relações
internacionais, as quais tendem a valorizar mais a dimensão cultural ' em que a
religião, e as visões não ocidentais do mundo teriam mais cabimento. Porém, por
outro lado, o realismo viu também fortemente confirmada a importância de
algumas das suas prioridades e abordagens tradicionais, como sejam: a
centralidade do dilema de segurança e da segurança em geral, ou ainda o papel
central da Realpolitik e das grandes potências na vida internacional.
Deste ponto de vista, o maior perdedor seriam as correntes mais neoliberais e
centradas na economia, pelo menos até à pequena depressão que nos atingiu a
partir de 2008...
CONCLUSÃO: A EROSÃO DA UNIPOLARIDADE, A MORTE DE BIN LADEN E O FUTURO DO
TERRORISMO
A ideia de que um pequeno grupo terrorista como a Al-Qaida possa ter um impacto
importante nas dinâmicas sistémicas das relações internacionais é naturalmente
incrível. No entanto, ainda que indirectamente, e por via da reacção que
provocou, em três aspectos distintos mas relacionados, parece-nos que de facto
isso aconteceu:
• ao levar os Estados Unidos, o actor inegavelmente mais poderoso do sistema, a
repensarem radicalmente a sua estratégia nacional, não uma, mas pelo menos duas
vezes;
• ao levar os Estados Unidos a reagirem usando a força militar de forma
largamente unilateral aos ataques do 11 de Setembro, a Al-Qaida aumentou os
receios e as resistências ao enorme poderio norte-americano;
• ao mostrar as possibilidades indirectas para combater grandes potências.
Hoje poucos se lembram, mas George W. Bush, na sua primeira campanha
presidencial, tinha-se comprometido com uma política externa
"humilde", de contenção realista das outras grandes potências, e de
intervenções armadas altamente selectivas. Bush criticou, por exemplo, a
presença prolongada de forças militares dos Estados Unidos na ex- -Jugoslávia.
Daí passou, depois do 11 de Setembro, a uma estratégia nacional, de Setembro de
2002, explicitamente advogando a acção unilateral e a adopção da guerra
preventiva como a única resposta a ameaças assimétricas ' terrorismo e
proliferação nuclear14.
Foi o próprio George W. Bush que, por sua vez, iniciou a segunda viragem
significativa ' em resposta aos problemas colocados pelo crescente soft e hard
balancing, pelo aumento do contrabalançar duro e suave nas acções de muitas
potências em reacção a essa postura norte-americana. Fê-lo com a sua estratégia
de 2006, que, se não é de contenção, é pelo menos muito mais contida e
valorizadora das alianças, ainda que continuando a fazer do terrorismo uma
prioridade15.
Obama, com a sua estratégia de 2010, procurou ir para além do terrorismo, mas
sem abandonar esse combate considerado fundamental. Mas a sua estratégia dupla
de retraimento e preferência por opções multilaterais mais legitimadas e com
esforços mais compartilhados, e ao mesmo tempo de chamado counterpunching '
basicamente um tradicional off-shore balancing da grande potência marítima a
aliar-se a pequenas e médias potências periféricas na contenção de grandes
potências continentais regionais por um auxílio diplomático e militar mais ou
menos permanente16.
Embora estejamos cientes que a avaliação do aumento significativo de hard e
soft balancing dos Estados Unidos não é unânime entre os especialistas de
relações internacionais, parece-nos fazer muito sentido, desde que com alguns
qualificativos, que os Estados Unidos podem mudar de política, e estão
idealmente situados para assumirem postura menos ameaçadora de off-shore
balancer17. Por falta de espaço, iremos apenas aludir a alguns exemplos que nos
parecem especialmente significativos desta dinâmica de contrabalançar os
Estados Unidos:
• a forma como a diplomacia de Washington e Londres não conseguiu obter
praticamente nenhum voto no Conselho de Segurança das Nações Unidas na sua
tentativa falhada de alcançar uma segunda resolução em 2002 autorizando
expressamente a invasão do Iraque, perante uma acção deliberada ' de soft
balancing ' da França e de outros membros permanentes;
• a proliferação nuclear no Irão, embora com raízes antigas, sobretudo depois
de 2002-2003, do discurso de George W. Bush sobre o Eixo do Mal e da invasão do
Iraque, assumiu marcadamente uma feição de hard balancing nuclear e assimétrico
como forma de contrariar uma acção hostil norte-americana;
• a forma como a associação entre a China e a Rússia e vários países da Ásia
Central na Organização de Cooperação de Xangai ganhou estruturas institucionais
e realizou os seus primeiros exercícios militares conjuntos em 2002-2003.
Por outro lado, o 11 de Setembro, e o que se seguiu, valorizou o terrorismo e a
guerrilha como a forma ' a par e potencialmente em ligação com a da aquisição
de armas nucleares ' de combater de modo assimetricamente muito eficaz o imenso
poderio militar dos Estados Unidos e do Ocidente e das outras grandes
potências, dissuadindo-as mesmo de intervir militarmente em regiões onde esta
ameaça assimétrica está presente. O Irão ou a Coreia do Norte são exemplos do
que pode ser alcançado conjugando estes diferentes meios assimétricos '
proliferação nuclear, apoio a grupos terroristas, e criação de milícias
irregulares para dissuadir uma intervenção militar dos Estados Unidos.
Tudo isto resultou, na última década, numa forte erosão da unipolaridade norte-
americana, que a crise financeira e económica, de momento restrita ao Ocidente,
veio acentuar. O que está longe de significar que os Estados Unidos estejam em
decadência terminal, ou que a Al-Qaida não possa colapsar em breve.
O facto de bin Laden ter sido morto ao fim de dez anos quebrou o mito da sua
invencibilidade, mostrou que a Al-Qaida pode ser atingida. Mas com que efeito
nas dinâmicas internacionais da próxima década?
Existem mais estudos do terrorismo. Mas, infelizmente, não permitem previsões
claras sobre o futuro. De facto, os estudos especificamente sobre estratégias
de decapitação ' eliminação de lideranças terroristas ' como a que tem visado a
Al-Qaida e bin Laden, apontam para a eliminação do líder tanto poder ser
decisiva como não, dependendo das circunstâncias. Se os grupos terroristas têm
uma forte base identitária e uma forte legitimação e uma constante fonte de
recrutamento com base na ideia de que agem em defesa da própria comunidade, os
efeitos, mesmo de decapitações sucessivas e cumulativas ' veja-se a ETA ou o
Hamas ', são limitados ou contraproducentes. Podem reduzir muito a capacidade
operacional, mas não destroem o grupo, e podem até radicalizar as suas
tácticas.
Já os grupos mais internacionalistas e de base mais puramente ideológica e
ofensiva geralmente desapareceram rapidamente por via da decapitação da
liderança ' como as Brigadas Vermelhas italianas ou o grupo alemão
significativamente conhecido por Baader-Meinhof.
Mas o terrorismo dificilmente desaparecerá. O grande obstáculo a que isso
aconteça é que não é preciso muito para fazer terrorismo ' até a título
individual. Sobretudo hoje, essa possibilidade está facilitada, pois basta
escolher entre uma de entre muitas ideologias radicais e um dos muitos
conselhos práticos, universalmente disponíveis na internet, sobre como fazer
uma bomba.
Outra dimensão deste problema é saber se o islão é por natureza um elemento
transnacional mas tão forte como marca identitária, que o islamismo radical não
seria uma ideologia como as outras, o que explicaria a resiliência da Al-Qaida,
até ver. Claro que a Al-Qaida e os seus simpatizantes são uma pequena minoria
no vasto mundo árabe e islâmico em revolução ou em evolução acelerada. Será que
irá caminhar no sentido da democracia pluralista e da prosperidade, ou irá cair
em conflitos violentos e novas e mais duras ditaduras, quiçá islamitas? Será
que o novo e imprevisível contexto árabe e islâmico irá dar abrigo e força ao
terrorismo islamista da Al-Qaida ou de outros, ou torná-lo mais marginal e
irrelevante?
Aqui a questão fundamental é provavelmente uma que ainda não foi aberta mas
será nos próximos anos: o que irá acontecer à Arábia Saudita com o fim da
geração de reis filhos do fundador do Estado? Será ela atingida por uma crise
violenta de sucessão ou revolução? Se sim, qual o papel dos seguidores de bin
Laden?
Seguros só podemos estar que bin Laden morreu, a Al-Qaida central pode estar
moribunda, mas nada indica que o terrorismo morreu com ele. Na luta contra o
terrorismo os Estados Unidos e os seus aliados não são invulneráveis, mas
continuam a ter instrumentos poderosos de vigilância, informação, de ataque, e
estão portanto longe de ser impotentes e têm obtido frequentes sucessos. A
morte de bin Ladin é uma prova de vida para a Al-Qaida, um teste fundamental da
sua capacidade de regeneração e de continuar a atacar o Ocidente. Os tempos que
se avizinham arriscam-se a continuar a ser bastante interessantes por boas ou
más razões.
NOTAS
1 Mesmo as novas franchisings da Al-Qaida tomam uma designação geográfica
(Magrebe, Península Arábica, Mesopotâmia) e não nacional ' para eles a única
nação é a umma, a única pátria é o islão e os estados existentes são
ilegítimos.
2 Claro que, como geralmente sucede nestas questões, a Al-Qaida não o inventou
inteiramente, mas deu nova visibilidade e uma função autónoma. Com a Al-Qaida
estes ataques terroristas simultâneos já não surgem como um momento inicial no
desencadear ou acelerar de uma luta mais ampla ' como sucedeu com os Viet-Minh
e o levantamento terrorista na região de Hanói em 1946, ou a UPA, o terrorismo
de Fevereiro e Março de 1961 no Norte de Angola. Estes ataques espectaculares
passam a ser eles próprios o elemento central do arsenal da Al-Qaida.
3 LACEY, Robert ' Inside the Kingdom: Kings, Clerics, Modernists, Terrorists
and the Struggle for Saudi Arabia. Londres: Arrow Books, 2009, pp. 118-119.
4 KEPPEL, Gilles (ed.) ' Bin Ladin in Al-Qaida in its own Words. Cambridge MA:
Harvard UP, 2008, pp. 62-63
5 FREEDMAN, Lawrence ' A Choice of Enemie: America Confronts the Middle East.
Londres: Public Affairs, 2008, p. 103.
6 A Al-Jazira é um exemplo disso ' a sua crescente importância foi inicialmente
alimentada e alimentou a marca Al-Qaida.
7 Cf. CRONIN, Audrey ' How Terrorism Ends: Understanding the Decline and Demise
of Terrorist Campaigns. Princeton: Princeton UP, 2009;
ABRAHMS, Max ' "What terrorists really want: terrorist motives and
counterterrorism strategy". In International Security. Vol. 32, N.º 4,
2008, pp. 78-105; ABRAHMS, Max, et al. '
"Correspondence: what makes terrorists tick". In International
Security. Vol. 33, N.º 4, 2009, pp. 180-202. Mas como a
inclusão deste ponto nos objectivos estratégicos intermédios indica, do nosso
ponto de vista não tem de haver uma radical oposição entre os dois. Mais, o
tipo de coesão de pequenos grupos de combate que é tão valorizada pelos
especialistas de terrorismo, também se encontra nos exércitos convencionais.
8 Cf. US-ARMY & MARINE CORPS ' Counterinsurgency, FM3'24 manual. Washington
& Quantico: US Army/Marine Corps, 2006.
9 A sua última consagração oficial à escola ocidental é no novo conceito
estratégico da NATO, Active Engagement ' Modern Defence, Lisboa: NATO, 2010, §
21.
10 BROWN, Michael (ed.) ' Grave New World: Security Challenges in the Twenty-
First Century. Washington DC: Georgetown UP, 2003, pp. 2-3: refere que apenas
18 por cento dos conflitos entre 1945 e 1995 foram guerras convencionais, a informação mais recente reforça ainda mais essa tendência,
cf. SIPRI Yearbooks, disponíveis em: www.sipri.org/contents/publications/
yearbooks.html4; e MUELLER, John ' Remnants of War. Ithaca: Cornell UP, 2007. Seria apressado concluir definitivamente, no entanto, que as
guerras convencionais se tornaram totalmente obsoletas, pois tem havido guerras
limitadas mesmo entre potências nucleares ' em 1969 entre a URSS e a China; em
1999 entre o Paquistão e a Índia ' e não seria impossível conceber uma entre a
Coreia do Norte e os Estados Unidos, por exemplo, mas dificilmente.
11 SINGER, Peter ' Wired for War: The Robotics Revolution and Conflict in the
21st Century. Londres: Penguin, 2009.
12 SINGER, Peter ' Wire for War: The Robotics Revolution and Conflict in the
21st Century. Londres: Penguin, 2009, pp. 261- -296.
13 WOHLFORTH, William C. ' "A certain idea of science: how international
relations theory avoids reviewing the Cold War". In WESTAD, Odd Arne
(ed.) ' Reviewing the Cold War: Approaches, Interpretations, Theory. Londres:
Frank Cass, 2000, pp. 126-145.
14 DAALDER, Ivo, e LINDSAY, James ' America Unbound: The Bush Revolution in
Foreign Policy. Washington DC: Brookings, 2003.
15 US PRESIDENT ' The National Security Strategy of the US. Washington DC: The
White House, 2002, é com evidente simbolismo datada mais precisamente de
Setembro de 2002; cf. também US PRESIDENT ' The National Security Strategy of
the US. Washington DC: The White House, 2006, e US PRESIDENT ' The National
Security Strategy of the US. Washington DC: The White House, 2010.
16 Este é também um tema controverso, mas seguimos sobretudo DREZNER, Daniel W.
' "Does Obama have a grand strategy?". In Foreign Affairs, Julho- -
Agosto de 2011. Disponível em: http://www.foreignaffairs.com/articles/67919/
daniel-w-drezner/does-obama-have-a-grand-strategy.
17 E.g. PAPE, Robert A. ' "Soft balancing against the United
States". In International Security. Vol. 30, N.º 1, 2005, pp. 7-45; PAUL, T. V. ' "Soft balancing in the age of U. S.
primacy". In International Security. Vol. 30, N.º 1, 2005, pp. 46-71; BROOKS, Stephen G., e WOHLFORTH, William C. ' "Hard
times for soft balancing". In International Security. Vol. 30, N.º 1,
2005, pp. 72-108, e o debate que se seguiu ART, Robert et al.
' "Correspondence: striking the balance". In International
Security. Vol. 30, N.º 3, 2005/06, pp. 177-196.
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