Multipolar ou apolar?: Um desconcertante mundo novo
Multipolar ou apolar? Um desconcertante mundo novo
OS PÓLOS NUM MUNDO SEM PÓLOS
Há pouco mais de um ano publiquei um artigo onde defendia que vivíamos num
mundo não multipolar, como a maior parte dos observadores afirmava, mas sim
apolar
1
. Devo confessar que a tese foi mal recebida, ou, para ser mais rigoroso, que o
reduzido universo dos amigos e conhecidos que me dá o gosto de criticar os meus
escritos não concordou no essencial com ela. Por esse motivo, gostaria de
regressar ao tema nesta breve reflexão sobre o mundo dez anos depois do 11 de
Setembro, pois não só me continua a parecer correcta, como os recentes
acontecimentos a confirmam.
Um ponto central é o de saber o que é um "pólo" do sistema
internacional. A tendência natural é a de identificar "pólo" e
grande poder, o que, a ser correcto, significaria que efectivamente vivemos num
mundo multipolar. O número de grandes poderes aumentou desde os tempos da
Guerra Fria e hoje existem, não dois, mas pelo menos cinco grandes poderes de
tipo muito diferente (Estados Unidos, União Europeia, Rússia, China, Índia).
Entre eles, os Estados Unidos lideram de forma evidente em termos do poder
militar, mas, por exemplo, a União Europeia (UE) é o seu equivalente em termos
do poder económico e a Índia e a China estão amplamente à frente em termos do
peso demográfico ou da rapidez de crescimento.
Simplesmente, não me parece que um pólo se possa identificar com o conceito de
"grande poder", ou, para ser mais exacto, se um pólo tem
normalmente um grande poder no centro, nem sempre um grande poder é um pólo. Os
dois pólos que chocaram entre si dando origem aos conflitos globais do século
XX (1914-1918 e 1939-1945) incluíam ambos vários "grandes poderes",
coligados num esforço de dominação global, o que, seja acrescentado, é a
situação normal ' um pólo conta, em regra, com múltiplos poderes, grandes,
médios e pequenos.
Um pólo não é meramente um centro de poder, advenha ele de um único Estado ou
de uma coligação ou aliança. Na minha perspectiva, um pólo é necessariamente um
centro estruturante de poder. O termo "estruturante" é essencial,
pois significa que um "pólo" defende valores, impõe regras e cria
ordem à sua volta, seja numa escala global ou regional. Um pólo é, em resumo,
uma origem de respostas e soluções para os problemas do seu tempo, o que faz
com que à sua volta se juntem os que as defendem. É isso que o torna um núcleo
estruturante do sistema, um seu pilar. Veja-se o exemplo típico da Guerra Fria.
Os dois pólos desse sistema tinham no seu centro grandes poderes, mas não era
esse facto que os transformava em pólos. Eles mereciam essa classificação,
porque defendiam soluções diferentes para os problemas do seu tempo aos
diversos níveis (ideológico, social, económico, militar, cultural, etc.),
tinham sistemas de valores próprios, criavam amplas alianças, procuravam impor
as suas soluções numa escala global e, através desse processo, estruturavam o
sistema internacional.
Um pólo cria-se normalmente no começo da edificação de um sistema internacional
à volta de um centro que avança com soluções para os problemas mais sentidos no
seu tempo e agrega vontades para a sua defesa, criando um sistema mais ou menos
rígido de entendimentos, que podem ou não vir a dar origem a alianças formais.
O poder que avança com as soluções que acabam por se impor pode nem sequer ser
"grande" segundo índices normais de avaliação da força
internacional, pois é no processo de criação do pólo que ele adquire força e
aumenta a sua influência, agregando a si cada vez mais recursos.
Veja-se, para não ficar somente pelo século XX, o exemplo da acção de Portugal
e da Espanha quando criaram o primeiro sistema mundial, nos séculos XV-XVI. No
começo do processo, Portugal era um pequeno poder à escala europeia, com
somente um escasso milhão de habitantes e sem uma acumulação significativa de
riqueza comercial ou financeira ou do poder militar associado. Apesar disso,
Portugal seria o centro do primeiro sistema mundial, num processo que começou
pela aquisição de uma capacidade única (a navegação nos oceanos), passou por um
entendimento global com o outro poder ibérico para divisão do mundo (o Tratado
de Tordesilhas) e se concluiu com a criação da primeira rede comercial global
alargada a todos os continentes. O primeiro sistema mundial tinha um único
pólo, partilhado num entendimento global pelos dois poderes ibéricos aliados '
Portugal e a Espanha, numa hegemonia bipartida, que defendia valores
semelhantes. Os poderes ibéricos dominaram os mares durante cerca de um século,
acumularam riqueza e partilharam a defesa de um conjunto de valores básicos,
respondendo a perguntas como a de saber quem podia navegar nos oceanos, como se
resolviam os conflitos, quem era a autoridade arbitral máxima no sistema
internacional, como se organizava o comércio, quando era aceitável a
escravatura, etc. Era um sistema unipolar bipartido, criado à volta de um
entendimento estratégico entre dois poderes, que foram o centro estruturante da
ordem internacional global durante perto de cem anos.
Isto é um pólo, um centro estruturante do poder global. Já, em contrapartida,
no século XVIII, por exemplo, a Espanha era ainda um grande poder e tinha um
império mundial, mas não era um pólo, estando estrategicamente subordinada à
França; na mesma altura, Portugal dependia do entendimento estratégico com a
Inglaterra, incorporando-se num pólo diferente da Espanha.
O primeiro sistema mundial vai entrar em decadência e cair justamente quando
contra ele se ergue um novo pólo agregador, que defende valores diferentes
(liberdade de navegação, os valores da Reforma, organização do comércio global
em grandes companhias com uma lógica de negócios, para dar só alguns exemplos),
que tem no seu centro a Inglaterra e as Províncias Unidas, os poderes navais
protestantes do Norte da Europa. A longa luta pela hegemonia que se trava entre
1580 e 1640 em todos os continentes opõe dois pólos (os poderes católicos
ibéricos e os poderes protestantes das Províncias Unidas/Inglaterra), que
incluem vários grandes poderes e organizam alianças gerais e regionais (na
Ásia, por exemplo) para defender valores e criar soluções práticas para os
problemas internacionais. É por isso, e não pelo facto de incluírem grandes
poderes, que eles são estruturantes.
Quando um pólo se forma, pode originar uma de duas situações. Ou evolui para um
domínio global, criando uma situação unipolar (foi o caso de grande parte do
século XIX, entre 1815 e 1870), ou só consegue impor as suas soluções e valores
numa zona limitada, criando-se então sistemas bipolares ou multipolares. Em
regra, os sistemas multipolares são instáveis. Veja-se, como exemplo, o sistema
internacional entre 1870 e 1914, uma situação multipolar que conduz a uma
bipolarização no começo do século XX, passo intermédio antes do choque das
guerras mundiais de 1914-1918 e 1939-1945.
Tendo em conta esta clarificação necessária do conceito de pólo, importa agora
procurar entender qual a situação actual, o que obriga a avançar um pouco mais
na compreensão dos grandes problemas no nosso tempo, aqueles que pedem
respostas novas, pois são esses que vão originar os futuros pólos.
NOVOS EQUILÍBRIOS DE PODER
O mundo actual é particularmente complexo e conflitual, de uma conflitualidade
ainda contida, mas que irá explodir a curto prazo; é uma encruzilhada a muitos
níveis, que seguem caminhos diferentes em ritmos diversos. Para o procurar
entender um pouco melhor, vou fazer uma abordagem a três dos principais níveis,
todos eles tratados de forma sintética e resumida: a alteração dos equilíbrios
de poder tradicional; a alteração da conflitualidade e lealdades; os grandes
desafios emergentes.
Um primeiro nível diz respeito aos equilíbrios tradicionais de poder, ao peso
relativo dos estados e aos seus objectivos de longo prazo. A minha preocupação
inicial é meramente a de detectar as mudanças que estão a ocorrer neste campo,
sem desenvolver teorias que as expliquem.
Duas constatações se impõem numa primeira aproximação: a diluição e a rápida
alteração do equilíbrio do poder entre estados, seja o militar, o económico ou
outro.
O poder internacional está cada vez mais disperso, com mais actores estatais
(os únicos que nos interessam neste nível) e com mais tipo de actores, alguns
deles representando uma novidade absoluta em relação ao passado. É o caso da
UE, um estado muito diferente dos outros, que está em processo de edificação. É
evidente a perda do peso relativo dos dois poderes principais do tempo da
Guerra Fria
2
e das suas alianças
3
, patentes no seguinte quadro resumo.
Agregando os valores, verificamos que os antigos pólos perderam peso relativo,
embora o oriental mais que o ocidental. Os estados da NATO em 1990 (incluindo
os Estados Unidos) passaram de 12,2 por cento para 11,5 por cento da população,
de 19,5 por cento para 16,9 por cento das Forças Armadas, de 52,8 por cento
para 48,8 por cento do Produto Nacional Bruto (PNB), de 66,1 por cento para
59,9 por cento das despesas com a defesa (tudo como percentagem do total
mundial). A queda do pólo oriental (agregando os estados do Pacto de Varsóvia,
onde se inclui a URSS/Rússia) é maior, tendo passado de 7,6 por cento para 3,3
por cento da população, de 18,7 por cento para 6,4 por cento das Forças
Armadas, de 3,3 por cento para 4,6 por cento do PNB (único índice com uma
variação positiva), de 7,1 por cento para 4,9 por cento das despesas com a
defesa. Em conjunto, o núcleo central dos antigos pólos organizado à volta do
Atlântico Norte (os estados da NATO e do Pacto de Varsóvia em 1990)
representava 20,1 por cento da população mundial e passou para 14,8 por cento,
representava 38,2 das forças armadas e passou para 23,3 por cento, representava
60 por cento do PNB e passou para 53,4 por cento, representava 73,2 por cento
das despesas com a defesa e passou para 64,8 por cento.
É de notar que os Estados Unidos, ao mesmo tempo que diminuíram a sua parte na
economia mundial (queda do peso relativo do PNB de 27,4 para 23,4 por cento),
aumentaram a percentagem nas despesas com a defesa (de 41,8 por cento para 45,5
por cento), o que se explica pelo actual envolvimento em múltiplos teatros de
operações. Bastam estes números muito simples para nos recordar a famosa tese
de Paul Kennedy, segundo a qual a queda dos grandes poderes começa normalmente
por problemas financeiros, agravados pela tendência de um envolvimento militar
em muitos teatros, conducente a um aumento anormal das despesas com a defesa. É
de salientar que as percentagens indicadas representam uma parte do total
mundial, pelo que mesmo uma pequena variação representa uma quantidade
substancial; por exemplo, a queda nas forças armadas da NATO (sem Estados
Unidos) de 2,4 por cento do total mundial, representa uma diminuição de 1 255
000 efectivos (de 3 130 000, em 1990, para 1 875 000, em 2011).
Se os antigos núcleos e os seus aliados principais têm um peso relativo menor,
isto significa obviamente que alguém está a aumentar a sua fatia. O quadro
seguinte permite verificar quem.
Em conjunto, estes cinco poderes emergentes passaram de 41,7 por cento da
população mundial para 41,4 por cento (único índice onde registam uma queda);
de 20,2 por cento das forças armadas para 22,7 por cento; de 7,1 por cento do
PNB mundial para 17 por cento; de 4,4 por cento das despesas com a defesa para
11,2 por cento. Podemos constatar, em resumo, uma estabilização do peso
relativo da população (o que se traduz num crescimento em números absolutos da
ordem dos 1600 milhões e não numa queda da população), um aumento sensível do
peso das Forças Armadas (mais nove por cento do total mundial), uma mais que
duplicação do peso económico relativo (mais 139 por cento) e um crescimento
ainda maior do peso relativo das despesas com a defesa (mais 254 por cento).
São poderes, em resumo, que viram a sua economia crescer imenso e que
aumentaram ainda mais as despesas com a defesa, o que se traduziu sobretudo num
imenso pulo qualitativo das Forças Armadas, que eram já muito numerosas em
1990. Para dar só um exemplo concreto: em 1990, vários estados da UE gastavam
mais com a defesa do que a China (era o caso da França, Alemanha, Itália,
Inglaterra e Espanha); em 2011, as despesas com a defesa da China estão em
segundo lugar em termos mundiais e são substancialmente maiores que as de
qualquer estado da UE.
Durante estes vinte anos surgiram novos poderes nucleares oficiais (Índia e
Paquistão), mais dois estão prestes a ter ou já têm armas nucleares (Coreia do
Norte e Irão) e os arsenais nucleares de outros expandiram-se sensivelmente
(Israel e, sobretudo, China), enquanto os arsenais nucleares dos poderes
fundadores do clube tendem a diminuir (Estados Unidos, Rússia, França e Reino
Unido).
A CHINA E A ÍNDIA
A China e a Índia são casos especiais e merecem algumas linhas adicionais.
A China tornou-se nos últimos vinte anos a segunda economia mundial e o segundo
poder militar.
Em 1990, por exemplo, a China tinha uma Marinha essencialmente de negação das
águas costeiras, onde avultava uma numerosa frota de lanchas, submarinos
costeiros e aviões de ataque convencionais de pequeno raio de acção. Hoje, a
Marinha chinesa tem um núcleo importante de submarinos nucleares (nove),
prepara os seus primeiros porta-aviões e navios de projecção de poder, conta
com 78 destroyers e fragatas modernos, alguns com sistemas AEGIS, para além de
meia centena de modernos submarinos não nucleares, alguns AIP e capazes de
lançar mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares ou convencionais.
O poder aéreo chinês em 1990 era numeroso mas amplamente obsoleto, tendo no seu
núcleo cerca de cinco mil aparelhos que correspondiam à geração da década de
1950 (cerca de 3300 J-6, 500 J-7, 500 A-5 e 700 H-5 e H-6) e eram cópias de
modelos soviéticos com pequena incorporação tecnológica própria. Hoje, os
modelos obsoletos praticamente desapareceram, substituídos em menor número (a
China passou para cerca de um terço dos aparelhos que tinha em 1990) por uma
geração de aparelhos de concepção própria que estão ao nível dos congéneres
europeus, como o J-8, J-10 e J-11. Recentemente (em Fevereiro de 2011) a China
apresentou ao mundo o J-20, um aparelho furtivo de defesa de área de concepção
própria, que só tem equivalente no T-50 russo (também ainda experimental) ou no
F-22 americano (este já entregue a unidades desde 2006, mas ainda não estreado
em operações). A actual frota de aviões de última geração chineses, apoiados
por um crescente número de aparelhos de guerra electrónica e reabastecimento em
voo, é o equivalente em termos numéricos e qualitativos da UE no seu conjunto,
enquanto em 1990 a China não tinha um único aparelho que se pudesse comparar
com os mais modernos da Europa.
Na parada militar comemorativa dos sessenta anos da China Popular, o mundo
ficou igualmente surpreendido ao verificar a existência de dezenas de novos
modelos de veículos blindados do Exército, todos eles de concepção própria e
cobrindo o amplo leque das capacidades militares terrestres ' passado vai o
tempo em que a China se limitava a fazer cópias dos modelos russos já
obsoletos.
O salto mais importante da China, porém, foi dado em termos do seu arsenal
nuclear e das capacidades aeroespaciais. O arsenal nuclear conta com 442
mísseis de longo ou médio alcance, dos quais 66 são ICBM, para além de 36 SLBM
em três submarinos nucleares estratégicos e de centenas de ogivas nucleares
tácticas, que podem ser lançadas por mísseis de cruzeiro, aviões ou foguetes. A
China, em resumo, alcançou já a capacidade de destruição mútua assegurada em
relação a qualquer outro poder, o que a coloca num clube muito restrito.
A Índia teve uma evolução semelhante no sentido de aquisição de capacidades
inexistentes, com uma ampla modernização a todos os níveis, embora ainda com
evidentes pontos de estrangulamento e sem a capacidade chinesa de produzir
sistemas de armas modernos de concepção própria na totalidade das vertentes. A
grande mudança nas capacidades militares da Índia nas últimas décadas foi a
criação de um arsenal nuclear com componentes nos três serviços coordenados
pelo Strategic Forces Command. O Exército conta com cerca de 130 IRBM de
concepção própria (Agni I, II e III) e outros tantos SRBM; a Força Aérea pode
usar a sua frota de Mirage 2000 e de Su-30 com armas nucleares; a Marinha
prepara a futura frota de submarinos nucleares (recebeu um russo da classe
Nerpa/Chakra para treino) bem como porta-aviões susceptíveis de lançar
aparelhos com capacidade nuclear (nomeadamente os Mig-29K, já adquiridos). Em
Março de 2011 a Índia testou com sucesso um míssil antimíssil próprio, que
interceptou a 16 quilómetros de altitude um IRBMPrithvi II.
O vizinho Paquistão, apesar de devastado pela divisão interna, conta com um
arsenal nuclear de mais de 110 ogivas e compra moderno armamento à China e aos
Estados Unidos (só em Março de 2011 encomendou 36 caças J-10, equivalentes ao
F-16 que está igualmente em serviço, aparelhos não pilotados ZDK-03 e seis
submarinos AIP de concepção chinesa capazes de lançarem mísseis nucleares de
cruzeiro).
DISPERSÃO E ALTERAÇÃO
Assistimos assim a dois movimentos em termos do poder militar. Em primeiro
lugar, a uma dispersão, com cerca de 40 novos estados formados nas últimas
décadas e com a aquisição de capacidades que antes pertenciam a poucos por
alguns mais. Em segundo lugar, uma rápida mudança, com novos poderes emergentes
que crescem muito rapidamente, dos quais só um (a China) alcançou já uma
dimensão global. Não se trata somente de uma deslocação quantitativa do peso
relativo. As capacidades de qualquer dos poderes emergentes, tanto em termos
económicos como militares, deram um pulo imenso nas duas últimas décadas. Veja-
se o caso do Brasil, por exemplo, que conta hoje com uma indústria aeronáutica
que está entre as primeiras cinco mundiais e exporta aparelhos de concepção
própria para a França ou para o Reino Unido, bem como blindados para mais de
trinta estados em todos os continentes.
Em poucos momentos da história mundial se assistiu a uma mudança tão rápida no
equilíbrio do poder ' talvez o único paralelo seja a rápida ascensão da
Alemanha depois de 1871.
O que torna este movimento tão desconcertante não é só a rapidez com que está a
ocorrer; é sobretudo o facto evidente de ele ainda estar no começo. A
esmagadora maioria dos observadores reconhece que o poder relativo da China, da
Índia ou do Brasil vai continuar a aumentar. Se nos últimos vinte anos a China
passou de 2,2 para 9,2 por cento do PNB mundial, tornando-se na segunda
economia, ou, caso se prefira, se os Estados Unidos passaram de 12 vezes a
economia chinesa para 2,5 vezes, o que irá acontecer nos próximos vinte anos?
Dito por outras palavras: quando se tornará a China a primeira economia
mundial? Já em 2020, como referem alguns, ou só em 2030? O que irá acontecer,
sobretudo tendo em conta que o crescimento da economia nos Estados Unidos ou na
Europa tem sido praticamente nulo desde 2008, enquanto a China faz o possível
para não crescer a mais de 10 por cento ao ano?
Como vai a China responder ao grande crescimento na procura de recursos, quando
eles tendem a tornar-se escassos em termos mundiais? Será que suportará
barreiras que lhe queiram impor artificialmente? A mundialização da economia
chinesa começou com a criação de uma imensa rede global de comercialização, com
base em centenas de milhares de pequenas lojas e restaurantes, apoiados num
imenso crescimento das comunidades chinesas em praticamente todos os mais de
duzentos estados do mundo. Há muitos milhares de "lojas do chinês"
em países tão diferentes como Portugal, o Uruguai, a Nigéria ou a Austrália.
Desde há dez anos a China deu o passo seguinte, e passou a adquirir fontes de
recursos (principalmente minas e terras), redes de comercialização
(transportes, caminhos-de-ferro, portos) e redes de comunicações ou centros de
informação numa escala mundial (desde o Sri Lanka, à África do Sul ou à
Grécia). Que vai acontecer no futuro, quando a China é já hoje a principal
fonte de crédito internacional e a maior detentora de títulos de dívida
soberana, nomeadamente dos americanos, para já não falar de Portugal?
Alguns observadores dirão: não há problema, o mundo hoje é muito diferente do
passado, mais globalizado e interligado, pelo que essa brutal alteração do
poder relativo não vai conduzir a uma nova guerra; acrescentarão mesmo que as
economias chinesa e americana estão intimamente interligadas, não podendo viver
uma sem a outra; os que têm uma tendência mais histórica poderão ainda recordar
que nos milénios anteriores nunca a China tentou dominar o mundo; os que se
considerem dotados para a sociologia, não deixarão de lembrar que as tensões
internas na China são imensas e difíceis de gerir, podendo levar mesmo à sua
impulsão; finalmente, os que tenham vocação para a geopolítica, não deixarão de
recordar que a China está rodeada de poderes fortes que a contêm, desde a
Índia, ao Japão e à Rússia.
Tudo isto é verdade, mas basta recordar uma outra situação histórica para
compreender que isso não quer dizer que um conflito seja impossível a médio
prazo. Quando começou a ascensão alemã (em 1871), o novo poder emergente tinha
igualmente fortes laços económicos com a Inglaterra, que era o seu aliado
tradicional na Europa e a fonte das principais tecnologias. Desde que o
crescimento relativo da Alemanha começou, foram precisos mais de vinte anos
para que ele se transformasse num choque oficial com a Inglaterra (a partir de
1898). Mesmo assim, Londres fez tudo para tentar um entendimento estratégico
com a Alemanha e evitar a guerra, mas esta acabaria por estalar em 1914. O
arranque económico chinês está esboçado desde os anos 1980, começa nos anos
1990 e adquire um estonteante ritmo a partir do novo milénio. Ainda só passaram
vinte anos de crescimento muito acima da média mundial e a China é já a segunda
economia global, algo que a Alemanha demorou trinta anos a conseguir.
DIFICULDADES DOS PODERES TRADICIONAIS
O que torna o actual mundo ainda mais desconcertante quanto ao equilíbrio dos
poderes não é tanto a rápida ascensão dos emergentes, mas sim a rápida queda
dos antigos. Os Estados Unidos continuam a ser um poder militar formidável, que
domina todos os oceanos, controla os ares em quase toda a parte, domina o nível
aeroespacial e tem um evidente avanço técnico e científico em muitas áreas.
Ao mesmo tempo, porém, são muito visíveis os sinais de que o poder relativo dos
Estados Unidos actualmente é um resultado da inércia do passado, que se pode
esgotar muito rapidamente. Os grandes poderes normalmente começam a sua rápida
queda por crises financeiras, em regra resultantes de um excesso de
compromissos externos, da vontade de estar em toda a parte e de fazer tudo, sem
ter em conta os custos, a que se junta uma tendência para uma vida de luxo da
população em geral. O poder financeiro é um componente essencial das
capacidades globais. Foram os dólares americanos, mais do que o seu poder
militar, que permitiram a criação dos alicerces básicos do pólo americano
durante a Guerra Fria, desde a NATO, ao Plano Marshall (base da UE), ao General
Agreement on Tariffs and Trade (GATT), Fundo Monetário Internacional (FMI) ou
ao Banco Mundial.
Hoje em dia a situação é justamente o oposto: o défice federal americano é um
buraco gigantesco que cresce desde a guerra do Vietname, a balança comercial é
muito negativa, os Estados Unidos vivem do crédito de todo o mundo, a começar
na China. O antigo gigante é hoje incapaz de financiar qualquer projecto
internacional de grande dimensão e a mais pequena crise obriga-o a bater à
porta do reforço do endividamento externo, com pedidos de ajuda à China ou à
Arábia. A ruína financeira dos Estados Unidos é já uma realidade, bem patente
nas recentes medidas da Administração Obama ' de repente, o défice federal, que
antes se dizia não ter qualquer importância, passou a ser a única coisa
importante na política. Do nada para o tudo, em poucas semanas ' é esta a
política actual.
Acresce a isto uma preocupante tendência dos projectos de defesa americanos
caírem no fascínio das possibilidades técnicas, o que se traduz em custos
exorbitantes. Todos os projectos de defesa importantes dos Estados Unidos nos
últimos anos derraparam para custos muito superiores ao previsto, e/ou foram
cancelados (como aconteceu com o FCS), ou obtiveram um produto final
astronomicamente caro, que só os Estados Unidos podem comprar e em poucos
exemplares. O F-22 acabou por ter um incrível custo unitário de 411 milhões de
dólares, o F-35 vai em 115 milhões (e continua a somar), o MV-22 em 122
milhões, um destroyer moderno americano chega praticamente aos dois biliões, um
submarino atómico aos mais de três. São custos imensos, que só os Estados
Unidos podem suportar, devido a gastos com a defesa que representam mais do
dobro dos europeus em termos de percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) (4,8
por cento nos Estados Unidos e uma média de dois por cento na UE). Um sistema
de armas chinês, por exemplo, pode ter menor capacidade que o seu equivalente
americano, mas custa cerca de quinze vezes menos.
Durante quanto mais tempo aguentará a economia americana o esforço que lhe é
pedido? Os Estados Unidos são de longe quem mais gasta com a defesa, tendo a
China, que vem em segundo lugar, um montante cinco vezes menor em termos
absolutos e duas vezes menor em termos de percentagem do PIB. Poderá a economia
americana sustentar este esforço nos próximos anos, numa altura em que se faz
sentir uma pressão imensa para diminuir o défice federal?
O desgaste do poder financeiro americano, da sua imagem como modelo do mundo e
da sua capacidade de liderança tem sido imenso nos últimos anos. Será ainda
possível inverter a situação? Se sim, isso passará sem dúvida por mudanças
drásticas nas políticas, coisa que a Administração Obama prometeu... mas não
concretizou.
A Europa não está melhor. A queda relativa da sua economia e do seu poder
militar foi mais forte que a americana nas duas últimas décadas e a situação
financeira está igualmente à beira do desastre, com o recurso à ajuda externa
de três estados do euro (Grécia, Irlanda e Portugal) e graves dificuldades em
muitos outros, mesmo nos grandes (como a Espanha ou a Itália).
A Europa como um todo tornou-se um refém do chamado "modelo social
europeu", que foi erguido no pós-guerra, numa altura de prosperidade e
forte crescimento económico, com uma população muito mais jovem que a actual.
Hoje em dia (2011) o crescimento económico europeu é reduzido, a população está
cada vez mais velha e as despesas com o "modelo social" não param
de crescer. O que é mais, a Europa nas últimas décadas caiu alegremente na
voragem do endividamento, contraindo cada vez mais dívida para refinanciar a
anterior e aguentar um "modelo social" não sustentável com os
recursos próprios. Todos percebem que este não é um modelo com futuro, mas a
verdade é que continua.
É cada vez mais complicado financiar o gigantesco Estado-providência europeu,
caminhando todos os países no sentido de reduzir os custos, sem colocar em
causa o modelo teórico ' fazem o que podem para conter o insaciável monstro,
mas o resultado prático é insuficiente. Os efeitos desta situação na economia e
nas mentalidades são imensos, pois nas últimas décadas criou-se nas populações
a ideia de que não é necessário o esforço individual, que o mérito não deve ser
premiado, que todos são iguais e que a entidade colectiva estará sempre ali
para assegurar as necessidades básicas. É exactamente o contrário dos valores
de individualismo que fizeram a grandeza da Europa em tempos idos.
Tal como aconteceu com o modelo comunista há vinte anos, o Estado-providência
está em crise aberta, mas as clientelas que vivem à sua sombra continuam a
garantir que ele representa o essencial dos valores europeus e que é necessário
"cerrar fileiras" para a sua defesa. Faz lembrar os tempos em que
os comunistas diziam que eram necessárias meras reformas, mas que não se podia
tocar no essencial ' o resultado foi uma autodestruição rápida.
Os valores europeus são muito antigos, têm milhares de anos e não se
identificam com os de um Estado-providência que só cresceu nos últimos
cinquenta anos. Há um abismo entre os valores europeus da democracia e dos
direitos do indivíduo, com cerca de quatro mil anos, e a realidade do
colectivismo do Estado-providência, com escasso meio século.
O Estado-providência tornou-se um imenso factor de desvitalização da Europa, um
sorvedouro de recursos gigantesco, que leva tudo e deixa cada vez menos. Os
recursos que deviam ir para a investigação, para a cultura, para o reforço do
papel da Europa no mundo, para o aumento da produtividade, passam a ser
dirigidos para a manutenção artificial do nível de vida de uma população cada
vez mais velha, mais doente e mais exigente quanto aos "direitos
adquiridos". O resultado é uma imensa falta de recursos, uma queda brutal
das despesas com a defesa (de 24 para 14 por cento do total mundial nos últimos
vinte anos), um crescente endividamento, uma tensão contida a custo, que
explode violentamente ao mais pequeno pretexto, uma incapacidade de assegurar a
melhoria qualitativa ou o crescimento (se é que ainda se pode pensar nos dois
em conjunto).
Talvez ainda mais importante, é visível que o projecto europeu perdeu o seu
ímpeto depois da criação do euro e está hoje virado para uma estratégia de
defesa do existente, sem ser capaz de se renovar e de se relançar. Mesmo as
conquistas adquiridas são postas em causa, com o euro em crise e as fronteiras
a fecharem-se ' veja-se a recente decisão da Dinamarca, que restabeleceu o
controlo das suas fronteiras. O peso relativo da Europa está em queda no mundo
em todos os aspectos, seja a população (de 7,8 para 6,9 por cento), o PNB (de
29 por cento para 25 por cento), as forças armadas (de 11,6 por cento para 9,2
por cento) ou as despesas com a defesa (de 24 por cento para 14 por cento)
4
.
Há igualmente factores positivos que devem ser realçados na Europa. Os valores
que serviram de alicerce ao edifício europeu continuam hoje mais vivos e
atractivos do que nunca numa escala mundial, principalmente a crença de que o
indivíduo é o centro da sociedade, que tudo gira à sua volta, que ele tem
direitos inalienáveis e que estes devem ser protegidos e garantidos. Essa é a
base da ideia democrática, de uma civilização de civismo e liberdade que foi a
grande invenção europeia a nível mundial. Os grandes problemas da Europa
surgiram quando estes valores milenares, que encontram a sua raiz na
Antiguidade, se misturaram com as teorias colectivistas do Estado gigantesco,
consagradas na segunda metade do século XX, criando uma sociedade de comodidade
e facilidade. Foi uma sociedade que nasceu num período de forte crescimento
económico, mas entrou em crise quando as condições que a geraram mudaram.
Um outro factor positivo da Europa é a sua aposta no soft power, na
flexibilidade da sua aproximação ao mundo, na largueza de vistas que não quer
reduzir tudo e todos a um modelo único de sociedade ou de valores, no
cosmopolitismo, que a faz acreditar nos benefícios da diversidade. É esta
aproximação peculiar e muito própria da Europa que tem sido o seu grande
trunfo. Foi ela que lhe deu a capacidade de manter um nível anormalmente
elevado de influência no mundo, numa altura de queda evidente do seu poder
relativo económico e militar.
Será o velho continente capaz de renovar os seus valores milenares, de se
libertar da ganga do pensamento colectivista, de resolver a sua crise
financeira, de recriar numa nova base a UE e, a partir desse processo, de
renascer da crise actual mais forte do que antes? É possível, mas longe de ser
certo. É sobretudo algo em que é necessário acreditar e para o qual vale a pena
procurar caminhos, pois a alternativa é o fim do sonho europeu e a continuação
da lenta queda para o abismo, o que será o resultado inevitável da tentativa de
financiar durante mais umas décadas um modelo sem futuro, sem glória, sem mito
e sem valores. Querer prolongar o que não tem sustenta- bilidade ou futuro, só
faz com que a queda seja aparatosa, traumática e difícil de recuperar.
A renovação dos valores é hoje, mais do que nunca, o caminho para o renascer da
Europa.
GIGANTES CEGOS ' MUITA FORÇA, POUCO PODER
À luz destas considerações muito breves e resumidas já é possível entender um
pouco melhor porque afirmei no começo que vivemos num mundo sem pólos. Os
poderes emergentes ainda não são pólos e os antigos estão em queda, atravessam
uma profunda crise de valores e conhecem uma imensa crise financeira, que os
impede de financiar qualquer solução global mesmo que a tivessem, coisa que não
acontece.
Os antigos poderes, em resumo, não têm a solução para os problemas actuais, e,
mesmo que a tivessem, perderam a vontade de a aplicar ou a capacidade de a
financiar. Talvez a venham a reconquistar, mas, por enquanto, é meramente um
potencial.
Hoje em dia, infelizmente, os antigos pólos enfrentam de várias formas uma
crise que é interna e se situa sobretudo no campo dos valores e modelos,
agravada por uma derrapagem financeira que se agrava com o tempo. São gigantes
cegos. Têm ainda um imenso poder militar, que herdaram de um passado glorioso,
mas são incapazes de o usar de uma forma efectiva para criar uma hegemonia
renovada, que seja a base de uma nova ordem internacional. Estão presos aos
mitos e aos valores do passado, de uma sociedade industrial e colectivista,
numa altura em que a primeira já não existe e o segundo não responde aos
problemas actuais. O mundo mudou; as políticas ainda não. O grande travão para
que isso aconteça são os valores herdados de uma sociedade industrial que
desapareceu, mas deixou o seu lastro nas mentalidades e atitudes.
O que ficou escrito já é base suficiente para sustentar a ideia que vivemos num
mundo apolar, pois os antigos pólos deixaram de ser capazes de estruturar
soluções para os problemas do nosso tempo e os novos ainda não surgiram. Até
agora, porém, só foi aflorada a rama do problema, só mencionei o primeiro, o
mais fácil nível de análise, aquele a que chamei de equilíbrio clássico dos
poderes. É altura de mencionar os outros níveis, bastante mais complexos e
imprevisíveis.
AS "GUERRAS DO CAOS" E O SEU SIGNIFICADO
É normal dizer que o mundo mudou depois do 11 de Setembro e fazer essa mudança
depender das chamadas "novas ameaças", à cabeça das quais se coloca
normalmente o terrorismo transnacional. A afirmação em si não é errada; é
simplesmente demasiado simplista.
Para entender melhor as mudanças posteriores ao 11 de Setembro convém examinar
brevemente alguns dos principais conflitos do mundo actual. Comecemos pela
convulsão no mundo árabe, que alguns chamam de "revolução
democrática" e outros de "movimento fundamentalista", estando
ambos errados. O que estes movimentos nacionais muito diversos têm em comum '
seja no Egipto, Líbia, Barém ou Síria ' é a sua extrema complexidade, com
motivações muito variadas e actores muito diversos, que recorrem a uma ampla
panóplia de meios, desde a contestação pacífica à guerra violenta. Têm
igualmente em comum a sua interligação, a forma como todos eles se
internacionalizam desde o primeiro momento, a ponto de os governos afectados
acusarem sempre uma entidade externa de os ter provocado (seja a Al-Qaida,
Israel ou o Irão). São movimentos típicos da nossa era: sem uma organização
central que os controle ou organize, sem uma ideologia clara, sem valores
assumidos, complexos, interligados, internacionalizados, com motivações
múltiplas, tão depressa pacíficos como violentos, tanto civis como militares.
Os valores que defendem são múltiplos, o que significa que os que afirmam que
se trata de movimentos democráticos estão correctos, mas os que defendem que
são movimentos fundamentalistas islâmicos estão igualmente correctos. São muito
diferentes dos movimentos da Guerra Fria, que tinham uma organização
estruturada, valores oficiais dominantes, métodos consagrados.
Vejamos outro caso: o México mergulhado na guerra civil intermitente, que
provocou entre 10 a 13 mil mortos só no ano passado
5
, em lutas violentas que envolveram mais de 100 mil combatentes (civis e
militares), ligados a dezenas de organizações. Trata-se de uma efectiva guerra
civil, mais quente nuns períodos, mais tranquila noutros, que se trava mesmo às
portas dos Estados Unidos, em cima da zona de fronteira. É uma situação muito
diferente dos movimentos do mundo árabe, mas temos pontos em comum:
movimentações civis e militares; muitos lados e não somente dois; valores
difusos; motivações muito variadas (estão envolvidos cartéis de drogas, mas
igualmente redes de emigração clandestina, movimentos regionalistas, etc.);
internacionalização desde o primeiro momento (com uma intervenção muito activa
dos Estados Unidos, tanto do Governo como de organizações criminosas
americanas); uso por alguns de uma violência extrema e sem regras, onde actos
terroristas que visam criar o pânico se misturam com combates convencionais e
acções de protesto pacífico. É um mesmo padrão: multiplicação dos actores, dos
valores, das motivações, numa acção confusa e caótica que decorre
principalmente em zona urbana, de uma extrema violência e com o uso de todo o
tipo de tácticas por civis e militares.
Examinemos ainda um terceiro caso: a situação no Sudão e no Corno de África, um
imenso caos, com estados desfeitos, milhões de mortos (só no Sudão, para cima
de três milhões na última década), genocídios e crimes de guerra em larga
escala, renascimento da pirataria marítima, multidões imensas de refugiados, um
cenário de horror como raras vezes se registou. Para ter uma ideia da dimensão
imensa desta catástrofe humanitária basta referir que só na zona do Darfur está
presente a mais numerosa missão da ONU (27 mil membros). É uma guerra muito
vasta e variada, que se prolonga há dezenas de anos (pelo menos desde 1974),
abarca toda a região do Baixo Nilo ao Corno de África, envolvendo vários
estados (Chade, Sudão, Etiópia, Somália, Eritreia entre outros). Este rosário
de conflitos já provocou o colapso de três estados e o caos numa zona que
corresponde ao território da UE.
O que caracteriza este cacho de conflitos é a sua extrema complexidade,
violência numa escala inaudita, envolvimento de dezenas de agentes locais e
internacionais (Líbia, ex-URSS na primeira fase; Estados Unidos, UE, NATO,
China, Índia, União Africana, ONU, mais recentemente), utilização de todos os
métodos e tácticas de acção, desde combates convencionais com centenas de
carros blindados, a acções terroristas e a manifestações pacíficas, tudo
misturado numa acção complexa e muito diversificada. O resultado de uma guerra
imensa (ou de várias, encadeadas umas nas outras) que se prolonga há décadas é
o caos numa imensa zona de África, uma anarquia e confusão como a Europa não
conhece desde a Guerra dos Trinta Anos.
São três exemplos de conflitos do nosso tempo, em três continentes e em
contextos muito diferentes. Outros se podiam citar, para concluir que, apesar
da sua imensa diferença, têm vários aspectos em comum. Em primeiro lugar, é a
grande desordem: não há dois lados, mas muitos, com dezenas de agentes e
motivações. Em segundo lugar, é o colapso total ou parcial dos estados das
regiões afectadas: desaparece o poder central capaz de criar a ordem, seja ela
democrática ou não, e instala-se o caos, que não tarda a afectar a população
civil, tendendo a provocar imensas catástrofes humanitárias. Em terceiro lugar,
é a internacionalização imediata, com o envolvimento tanto de estados como dos
mais diversos tipos de organizações transnacionais, desde as
intergovernamentais, às humanitárias, grupos criminosos, empresas e outras. Em
quarto lugar, é a grande diversidade dos métodos e tácticas usadas, que vão
desde o protesto pacífico aos mais violentos actos terroristas, passando por
combates entre forças militares convencionais, acções de guerrilha, massacres e
genocídios em diversa escala. Em quinto lugar, é a multiplicidade de valores,
ideologias e doutrinas em confronto, sem que seja possível distinguir sequer os
dominantes na maior parte dos casos. Em sexto lugar, decorrem essencialmente
num contexto urbano, normalmente em zonas degradadas. São estes os conflitos do
nosso tempo, muito diferentes do passado recente.
É muito difícil classificar estes conflitos, em particular os dois últimos.
Eles não são "guerras insurreccionais", ou "guerras de
guerrilhas" ou sequer "conflitos irregulares", embora tenham
aspectos de todos eles. Penso que é necessária uma nova classificação e que a
mais apropriada é a de "conflitos do caos", conflitos que tendem a
mergulhar as amplas zonas afectadas no caos, com o colapso do Estado e da
autoridade, degenerando alguns deles em catástrofes humanitárias imensas (como
no Sudão).
Em todos os casos assistimos a um colapso ou importante enfraquecimento dos
estados das regiões afectadas, com um crescimento do poder paralelo das
organizações não estatais, sejam ou não legais. Assistimos igualmente a uma
rápida transferência das lealdades das populações afectadas, que tendem a
trocar o enquadramento nacional como principal referência normativa, por outras
fidelidades, sejam elas os gangs, ideologias, religiões ou, pura e
simplesmente, a necessidade de sobreviver. O instinto de sobrevivência passa,
aliás, a ser a principal motivação da acção de uma grande parte das populações
ao fim de algum tempo. Estes conflitos tendem a produzir milhões de refugiados,
pelo simples motivo que o colapso ou enfraquecimento dos estados traz consigo a
crise dos sistemas de sustentação da vida.
Estamos muito longe dos conflitos típicos da Guerra Fria, onde havia somente
dois lados, onde os valores dominantes eram claros, onde havia organizações
fáceis de identificar, onde as tácticas eram previsíveis e as regras
conhecidas. Os conflitos actuais reflectem um outro mundo, com a diluição de
valores e fidelidades, com o enfraquecimento do enquadramento estatal, com o
caos e a anarquia a instalarem-se, com acções muito diversas que envolvem civis
e militares. Estas são as reais "novas ameaças" e o terrorismo
transnacional nem sequer é uma delas, porque não passa de uma táctica usada por
muitas entidades ' uma táctica não é uma ameaça; quem a usa é que pode ser.
A dificuldade em actuar nestes conflitos é que eles não se resolvem pelo método
normal de esmagar militarmente um dos muitos lados, embora a solução possa
passar por aí em certas alturas. A única solução duradoura para conflitos deste
tipo é a reconstrução dos estados destruídos ou muito enfraquecidos, a
reconstrução dos sistemas de sustentação da vida das populações postos em
causa. Basta dizer isto para entender que essa solução só se alcança com uma
"abordagem total, onde o nível dominante é o político. A guerra já não é
a "continuação da política por outros meios", na definição
clássica; a guerra é um componente da política, ou, para ser mais exacto, a
guerra tende a desaparecer num sentido clássico, para dar lugar a uma forma
peculiar de conflituosidade violenta, que pode alcançar graus inimagináveis no
passado recente.
OS NOVOS DESAFIOS
Tudo o que foi referido anteriormente não passa de uma primeira abordagem, uma
aproximação ao verdadeiro problema de fundo do momento presente. Vivemos hoje
os primeiros tempos de uma longa transição entre modelos de crescimento e
civilizações, um movimento de longo prazo que se prolongará por décadas,
possivelmente por todo o século XXI. Sem entrar na explicação completa da
afirmação anterior, o que me parece prematuro, gostaria de referir alguns
grandes desafios que se colocam de imediato. Sigo esta abordagem porque os
desafios são já visíveis e a maior parte das pessoas entende-os, o que ainda
não acontece com a lógica do processo de transição de longo prazo.
Um primeiro desafio tem a ver com a crescente escassez de recursos, não de
forma generalizada, mas em termos pontuais. Há recursos importantes que, devido
ao imenso crescimento da procura, tendem a aumentar de preço num movimento de
longo prazo e podem mesmo vir a escassear, independentemente do preço. Um caso
óbvio é o petróleo, com reservas identificadas que dão para cerca de cinquenta
anos do nível de consumo actual, durante os quais se deverá registar uma
tendência para o aumento do preço. O preço do crude, como acontece com tudo,
sofre oscilações, com subidas e descidas por vezes muito intensas, mas a
tendência geral de longo prazo é ascendente. Um outro caso, são os alimentos
vegetais, com os principais a aumentarem muito de preço nos últimos tempos,
devido à pressão da procura. No caso de alguns alimentos em particular, como o
peixe, estamos mesmo perante situações regionais de rotura, com a ameaça de
esgotamento de importantes bancos piscícolas, devido à exploração mal regulada
e ainda pior controlada das últimas décadas. Outro caso é a água, escassa em
amplas zonas do planeta, onde se tornou uma das principais causas de conflito.
A tendência de longo prazo para a escassez de certos recursos, vai traduzir-se
num aumento da conflitualidade e da rivalidade entre grandes e pequenos
poderes. Quando está em causa algo tão vital como o abastecimento de água, por
exemplo, as sociedades afectadas são capazes dos maiores excessos e
radicalismos para o garantirem. Mesmo hoje, quando o processo ainda está no
começo, só é possível entender as políticas de certos poderes para o Médio
Oriente ou para o Afeganistão, por exemplo, à luz de uma estratégia da energia
de longo prazo, que visa garantir o acesso às fontes não renováveis nas
próximas décadas. As rivalidades para a repartição dos recursos vão acentuar-se
nos próximos tempos, muito em particular por parte dos poderes emergentes, que
representam a principal pressão para o aumento da procura.
Outro grande desafio é ainda maior que o anterior: as crises provocadas pela
ruptura ou graves transtornos nos delicados equilíbrios ecológicos. Hoje em
dia, quando o processo ainda está no começo, fenómenos como a desertificação, a
destruição das espécies vegetais ou animais, a desflorestação e outros afectam
biliões de indivíduos e amplas regiões do planeta. Na realidade elas são a
causa oculta da maior parte dos conflitos que surgem como políticos ou
ideológicos. É o caso, para dar só um exemplo, do Sudão ou do Chade. Estes
fenómenos traduzem-se, nomeadamente, na deslocação das populações em grande
número ou na tendência para o gigantismo das cidades em África, criando
problemas insolúveis. Como as zonas mais afectadas pelas crises ecológicas são
as mais pobres e as que conhecem uma maior pressão demográfica, isso significa
que amplas zonas do planeta correm o risco de mergulhar no caos, em situações
onde a sociedade organizada e centralizada deixa de funcionar e onde a
principal preocupação passa a ser a sobrevivência.
Um terceiro grande desafio é igualmente gigantesco: a mudança climática global.
É um assunto muito polémico, mas hoje a esmagadora maioria dos cientistas e
especialistas reconhece a sua realidade. As opiniões dividem-se entre os que
pensam que até ao final do século se vai assistir a um aumento da temperatura
média da ordem dos dois graus, o que é muito grave mas suportável, e os que
falam em quatro graus ou mais, o que seria uma catástrofe global. É difícil
visualizar hoje as consequências imensas deste fenómeno nas relações
internacionais: que acontecerá quando o clima mudar em amplas zonas do planeta?
Ou quando o nível das águas subir, por pouco que seja? Ou quando o habitat das
espécies vegetais e animais se alterar?
Uma das consequências das tendências anteriores é que milhares de espécies
animais e vegetais estão ameaçadas de extinção, enquanto centenas desapareceram
nas últimas décadas. Em contrapartida, surgem novas doenças e pandemias, que
ainda não alcançaram a escala de uma catástrofe de grandes proporções, várias
vezes prevista por grupos de cientistas (basta recordar os muitos congressos
realizados à volta da gripe A), mas que permanecem como uma ameaça.
Estes são os grandes desafios do nosso tempo, sintomas do fenómeno mais geral
da tendência para o esgotamento de um modelo de desenvolvimento secular. São
todos processos que ainda estão no começo, que só deram os primeiros passos,
apesar de provocarem já abalos de tal ordem que pode parecer o contrário. Eles
vão-se acentuar nos próximos anos e serão os problemas centrais das relações
internacionais, que se traduzem nomeadamente num aumento da rivalidade entre os
poderes e num crescimento das zonas das "guerras do caos", onde a
ordem central desapareceu ou está muito fragilizada.
Será à volta da resposta a estes desafios emergentes que a ordem futura se irá
construir, que o(s) pólo(s) do futuro sistema internacional irá (irão) nascer.
A mudança será de grande envergadura num processo que ainda só deu os primeiros
passos, a ponto de a esmagadora maioria dos observadores não ter entendido que
entramos já numa nova era, muito diferente do passado.
Onde estão os futuros pólos e que forma vão revestir? É impossível dizer de
forma exacta. Como já referi o problema central de momento são os valores e as
teorias que os suportam. A sociedade actual ainda vive ligada aos valores
políticos e aos ideais da era industrial, que já passou, mas deixou o seu
pesado lastro nas mentalidades e nas ideologias. O principal motivo por que as
ideologias deixarão de despertar grandes paixões, é que no essencial continuam
ligadas aos problemas do passado e não aos do futuro, pelo que as pessoas se
afastam delas e procuram novos enquadramentos e novas lideranças.
Os futuros pólos irão começar o processo de edificação por uma profunda revisão
dos valores, que é a base para encontrar as soluções para os grandes desafios
emergentes. Como todos os desafios têm uma dimensão global, é possível que os
futuros pólos não sejam estados no sentido tradicional do termo, mas sim
entidades transnacionais, como a União Europeia, ou as uniões regionais de
África ou da América. Infelizmente, tudo indica igualmente que a transição será
um processo particularmente violento e traumático, com uma conflitualidade
padrão muito diferente do passado. Tendem a desaparecer os conflitos
"organizados", com dois lados, com sistemas de valores claros, com
regras aceites e território fixo; tendem a aumentar as "guerras do
caos", com muitos lados, sem objectivos ou sistemas de valores claros,
sem território fixo, com o recurso sistemático a métodos e tácticas de grande
violência, como o terrorismo contra as populações civis ou o uso de armas de
destruição em larga escala.
Tudo está em aberto neste desconcertante mundo novo onde damos os primeiros
passos. Estamos a escrever as primeiras páginas de um livro em branco, com
desafios muito diferentes do passado recente. Este é o grande problema; esta é
a grande oportunidade.
NOTAS
1 TELO, António ' "Que visão para a defesa?". In Nação e Defesa.
N.º 124, 2009, pp. 167-203.
2 Vamos tomar como referência da Guerra Fria o ano de 1990, que corresponde ao
seu final. Os números e índices citados são todos obtidos pelo autor a partir
da informação de base contida em The Military Balance 1990-1991 (Londres: IISS,
1990) e a mesma publicação de 2010-2011.
3 No caso da NATO são considerados os 15 estados da organização em 1990 (sem os
Estados Unidos) e os mesmos estados em 2010, de modo a ser possível uma
comparação. No caso do Pacto de Varsóvia, são considerados os estados
componentes em 1990, mas em 2010 não se contabiliza obviamente a RDA, na medida
em que foi absorvida pela Alemanha, incluída na NATO. Significa isto que embora
os blocos comparados sejam semelhantes, há que levar em conta que a RDA deixou
de ser contabilizada no ex-Pacto, na medida em que desapareceu enquanto estado.
Em contrapartida, um Estado como a Polónia, que integra a NATO em 2011, é
incluído nos países do ex-Pacto, de modo a serem possíveis comparações.
4 Em qualquer dos casos estamos a comparar o peso relativo mundial nos anos de
1990 e 2011 dos estados da NATO na sua composição de 1990, com a exclusão dos
Estados Unidos.
5 MOUSSET, Alain ' Le Mexique. Paris: puf, 2010; BRANDS, Hal
' Mexico's Narco-Insurgency and US Counterdrug Policy. Carlisle:
Strategic Studies Institute, 2009; GRAYSON, George ' La Familia Drug Cartel:
Implications for US-Mexican Security. Carlisle: Strategic Studies Institute,
2010.
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