A Primavera Árabe no Norte de África: origens e perspectivas de futuro
Só duas décadas mais tarde é que me apercebi do enorme poder de um
momento como aquele: como um acto sobranceiro pode galvanizar uma
população que era até então ambivalente, e convencê-la de que uma
disputa confinada com as forças policiais trazia implicações capazes
de os fazer sair das suas salas de estar e envolverem-se na luta.1
Uma das grandes ironias da arte da previsão política e económica é que os que
prevêem nunca são capazes de antever qual a altura em que os grandes
acontecimentos terão lugar. Podem muito bem saber, e até ter expectativas, de
que venham a verificar-se certas mudanças de paradigma2 nas relações
internacionais, mas não são capazes de identificar o momento em que elas vão
ocorrer, nem conseguem reconhecer os catalisadores dessa mudança. Os
acontecimentos do início de 2011 no Norte de África parecem encaixar nesta
categoria da imprevisibilidade. Com efeito, a maior parte dos observadores
sabia que uma mudança de algum tipo era inevitável, mas ninguém sabia quando é
que ela teria lugar, nem estavam cientes dos acontecimentos que fariam
deflagrar o processo. E o que é mais notório é que só uns poucos observadores
se aperceberam da vulnerabilidade daquelas autocracias e da fragilidade que
elas mostrariam perante a contestação.
Um dos principais motivos foi recentemente apontado por Nassim Taleb e Mark
Blyth3 quando fizeram notar que os sistemas sociopolíticos e económico-
financeiros estão «assentes em complexidade, interdependência e
imprevisibilidade»4. Quando esses sistemas sofrem uma pressão artificial em
resultado de iniciativas políticas que visam assegurar a estabilidade, tornam-
se extremamente frágeis em virtude dos riscos e desafios que se acumulam, mas a
pressão não é aliviada devido a essa procura de estabilidade ' quer pelo
interior dos regimes, quer pelos seus apoiantes externos. Em última análise,
esses sistemas tornam-se «vulneráveis a Cisnes Negros ' ou seja, tornam-se
extremamente vulneráveis a acontecimentos em larga escala que se situam longe
da norma estatística e que são maioritariamente imprevisíveis para um dado
conjunto de observadores»5. Por outras palavras, as tensões e a contestação
acumuladas que não se resolveram ' e que, em vez disso, foram artificialmente
reprimidas na tentativa de assegurar a estabilidade ' entram em erupção de
formas imprevisíveis.
Por vezes, no rescaldo de acontecimentos desse tipo, os decisores políticos
procuram atribuir culpas pela incapacidade de antever os Cisnes Negros que
acabaram por ocorrer. É inútil, uma vez que, devido à sua própria natureza,
eles são imprevisíveis, exceptuando o facto de o objectivo predominante da
política ' a estabilidade ' ter sido em si mesmo o gerador da crise que
eclodiu. Além disso, Taleb e Blyth fazem notar que com frequência a análise
subsequente identifica os agentes catalíticos como sendo as causas dos
acontecimentos6. E desse modo fica preparado o terreno para a catástrofe
seguinte. Assim, a recente crise no Norte de África tem sido explicada pela
crise global do preço dos alimentos, e pelo apoio que o Ocidente, nos seus
receios em relação à política no islão, tem prestado aos regimes que foram
agora afastados. No entanto, as evidências sugerem que o verdadeiro causador
das insurreições no Egipto, na Tunísia e na Líbia foram o desprezo e a
repressão com que os regimes de Mubarak, Ben Ali e Kadhafi trataram os povos
que governavam.
Este artigo procura demonstrar que, embora as circunstâncias económicas tenham
constituído um pano de fundo essencial para os acontecimentos ocorridos no
Norte de África durante os primeiros três meses de 2011, elas não são por si só
uma explicação cabal. Pelo contrário, o verdadeiro causador do processo tem
sido a incoerência entre as afirmações feitas pelos regimes nas suas tentativas
de autolegitimação e a realidade do desprezo e da repressão por eles
praticados. Resumindo, a recusa em tolerar a participação popular activa no
processo de governação viria a servir como impulsionador das crises que os
regimes enfrentaram a partir do momento em que foi encontrado o agente
catalítico apropriado. E, claro, a natureza do agente catalítico explica a
cronologia das crises. Essa natureza, em si mesma, é um reflexo das
consequências da repressão e, ironicamente, das concessões de abertura política
que os governantes demonstraram nos últimos anos.
Com efeito, a evolução das crises em cada Estado deu-se em função das naturezas
políticas dos próprios regimes, uma vez que apesar da sua intensa repressão
política, os regimes de Ben Ali e de Mubarak, na Tunísia e no Egipto ' à
semelhança do regime de Bouteflika na Argélia, e ao contrário do regime líbio
', tinham vindo progressivamente a abrir espaço para um certo grau de autonomia
de expressão e de acção social e económica. Esse fenómeno estava ligado a
processos de liberalização política com o propósito de assegurar que o controlo
do regime nunca seria ameaçado. Eram, em poucas palavras, «autocracias
liberalizadas»7, segundo a expressão criada por Daniel Brumberg ou «democracias
iliberais»8, como Fareed Zakaria as designou alguns anos antes9. Isto
significava, contudo, que ao contrário das conclusões a que Daniel Brumberg
tinha chegado em 2002, nos casos em que as instituições permitidas da sociedade
civil faziam parte do pacote de manutenção dos regimes autocráticos, quando
chegou o momento do confronto final com o Estado autoritário, havia
instituições autónomas para mobilizar movimentos sociais que podiam, com êxito,
desafiar os regimes em questão. Só no caso da Líbia, onde vigorava uma
autocracia total, é que a mudança radical política não tinha outra alternativa
senão desembocar numa guerra civil.
O PANO DE FUNDO ECONÓMICO
Embora as questões económicas não tenham sido a causa directa das insurreições
e das revoluções a que assistimos, não podemos negar que elas eram um dos
antecedentes das revoltas. E isso é especialmente verdadeiro no que se refere à
alta global do preço dos alimentos e da energia que se verificou na segunda
metade do ano passado, que se assemelhou à situação de 2008. O efeito imediato
foi uma impressionante escalada nos preços dos alimentos e da energia na
região, com um impacto directo nas populações que já viviam perto do limiar de
pobreza, o que acontece com frequência no Norte de África. Segundo a
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), desde
Julho de 2010 que os preços de vários cereais e de outros alimentos subiram de
forma assustadora. Os preços do milho-maís aumentaram 75 por cento, o trigo
subiu 84 por cento, o açúcar 77 por cento e os óleos e as gorduras subiram 57
por cento. A FAO também fez notar que em Janeiro de 2011 o seu índice do preço
dos alimentos tinha subido 3,4 por cento desde Dezembro de 2010, chegando aos
231, atingindo o nível mais elevado desde que a organização começou a medir os
preços dos alimentos, em 199010. Ao mesmo tempo, os custos da energia subiram
vertiginosamente: em 2010 os preços do crude saltaram de uma baixa de 75
dólares por barril, em Julho, para 91 dólares por barril em Dezembro e para 109
dólares por barril em Março de 2011. Segundo a Administração Americana da
Informação da Energia, os preços subiram perto de 29 por cento entre 2009 e
2010 e esperava-se que subissem 34 por cento entre 2010 e 201111.
Contudo, paira uma pergunta por detrás disto: porque é que as populações na
região do Médio Oriente e do Norte de África (MENA) se mostraram tão
vulneráveis às subidas dos preços? No fim de contas, o desenvolvimento
económico tem sido uma preocupação central dos decisores políticos do Fundo
Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial (BIRD12) e da União Europeia
(UE) desde há décadas ' desde os anos 1980 para as duas primeiras instituições,
e desde 1995 para a UE, em resultado da introdução do Processo de Barcelona,
embora a União tenha encorajado o crescimento da costa sul do Mediterrâneo
desde 196913. Desde que a crise da dívida emergiu no mundo em vias de
desenvolvimento, no rescaldo do choque global do preço do petróleo nos anos
1970, as três instituições tentaram preconizar políticas de desenvolvimento
económico assentes em princípios económicos neoliberais, associados ao Consenso
de Washington e criados para melhorar o nível geral de prosperidade. Embora os
indicadores macroeconómicos e os balanços financeiros externos talvez tenham
melhorado, não foi isso que aconteceu no âmbito microeconómico. Nesse aspecto,
um factor-chave foi a persistência das altas taxas de desemprego, com uma média
entre os 10 e os 20 por cento ' com taxas muito mais elevadas junto da
população mais jovem ' a par da pobreza que alastra pela região. Em resumo, o
desenvolvimento económico parece ter feito pouco para minimizar essa
vulnerabilidade. Os modelos económicos, que exigem profundas reformas e
reestruturações, têm sido impostos à região desde há décadas mas não tiveram
grande efeito no cenário microeconómico.
Em 2005, por exemplo, 3,8 por cento da população egípcia foi qualificada como
sendo de extrema pobreza ' incapaz de prover às suas necessidades básicas ',
19,6 por cento era «pobre», encontrando-se na linha de limiar de pobreza ou
imediatamente abaixo dela (dois dólares por dia), e 21 por cento estava
«próximo da pobreza», sendo apenas capazes de satisfazer as suas necessidades
essenciais. O índice de Gini do Egipto, que mede as desigualdades no âmbito da
riqueza, esteve estático entre 1992 e 2006, com um valor em torno dos 32, o que
faz do Egipto o nonagésimo Estado com maiores desigualdades do mundo, sendo que
os 10 por cento do topo da população controla cerca de 27 por cento da riqueza
nacional14. Mesmo em 2011, 20 por cento da população manteve-se abaixo do
limiar da pobreza, e o desemprego em 2010 situava-se em redor dos 12 por cento.
Poderíamos citar estatísticas semelhantes para outros países MENA. Aí, o índice
de Gini decaiu de 41,7 em 1995 para 40 em 2005, sendo que os 10 por cento mais
ricos da população controlavam 21,5 por cento da riqueza do país.
Contudo, a Tunísia tem recebido regularmente louvores em Bruxelas como um
exemplo de boa gestão económica e já foi designada como «tigre do
Mediterrâneo»! Tendo em conta que ' passados vinte anos de reformas e de
reestruturação económica na linha do neoliberal Consenso de Washington e de
acordo com as recomendações económicas da própria UE ' os níveis médios de
riqueza, de distribuição do rendimento e de pobreza não mudaram (e este último
nem sequer desceu), temos de reconhecer que, numa projecção linear, é pouco
provável que haja grandes melhorias no futuro, a menos que os efeitos
económicos sejam tão imprevisíveis quanto os políticos. Claro está que um
efeito trickle down poderia começar a funcionar de um momento para o outro, mas
parece pouco provável que esse venha a ser o caso. Para além disso, talvez os
fluxos de investimento possam melhorar até atingirem níveis em sintonia com
grandes transferências de tecnologia ' algo que nunca ocorreu, exceptuando um
curto período no final da década passada, quando os Fundos de Riqueza Soberana
da Gulf começaram repentinamente a investir na região, processo esse que se
deteve em resultado da crise financeira global desde 2008 ' mas não temos
grandes bases que nos permitam afirmá-lo (ver apêndice, pp. 113-114). E as
consequências do seu insucesso não são apenas a continuidade da pobreza e a
insatisfação económica, que se podem traduzir em rejeição política: é também
uma emigração em massa, com a Europa como destino principal (ver apêndice).
Tudo isto faz pensar que os modelos económicos necessitam de uma revisão
radical caso se pretenda que a distribuição da riqueza melhore e que os níveis
de pobreza diminuam. Contudo, falta consenso quanto ao modo de agir, apesar de
haver modelos viáveis, como as experiências do Sudeste Asiático e da China.
Portanto, é provável que a imprevisibilidade do futuro da economia se forme a
partir da cautela dos decisores políticos, fazendo que as aspirações à redução
da pobreza acabem por ser secundarizadas. Enquanto os decisores políticos
tenderem a confundir sintomas com causas, procurando razões para o fracasso no
interior das falhas políticas assumidas dos próprios estados, em vez de as
procurarem na natureza das recomendações económicas postas em prática e nas
implicações da globalização desregulada, a incerteza dos resultados económicos
tornar-se-á cada vez mais imprevisível, com as tendências económicas a caminhar
no sentido descendente.
Contudo, para além destas considerações, a estatística acima citada mostra com
clareza que o insucesso microeconómico teve efeitos sociais significativos e
que, dada a subida sem precedentes dos custos da alimentação nos finais de
2010, estimulou a agitação social no final daquele ano15. Para além dos
protestos na Tunísia, também houve manifestações na Argélia e em Marrocos. Na
Argélia o Governo reagiu com uma redução dos impostos sobre as importações e
com uma diminuição das taxas sobre os açúcares e o óleo alimentar. Estas
medidas reduziram os preços internos daquelas mercadorias em cerca de 41 por
cento. As iniciativas foram eficazes e os tumultos ' os piores no país no
espaço de muitos anos ' acabaram por diminuir de intensidade16. O Presidente
também levantou o Estado de emergência, que estava em vigor desde 1991 ' uma
reivindicação dos partidos políticos durante longos anos ' e posteriormente
anunciou também reformas constitucionais, apesar de, ao contrário da situação
na vizinha Tunísia, ter havido poucas exigências populares no sentido da
adopção dessas medidas políticas, com excepção de uma iniciativa a favor das
manifestações regulares ao sábado para apoiar essas reivindicações, a qual
desapareceu em Fevereiro, em virtude da esmagadora repressão policial.
Marrocos passou por perturbações semelhantes, com distúrbios em várias cidades
em resultado das duras condições económicas. Começaram a ter lugar a 17 de
Janeiro e incidiam sobre o desemprego e o elevado preço dos serviços ' em
Marrocos, muitos serviços são providenciados por corporações estrangeiras e os
preços que elas cobram são, desde há muito, motivo de raiva da população '
tendo atingido o auge em Tânger a 9 de Fevereiro17. No dia seguinte, por todo o
país, verificaram-se protestos de grande dimensão relacionados com as condições
políticas, organizados por um grupo de jovens conhecido como Grupo de 20 de
Fevereiro. A monarquia marroquina respondeu aos dois tipos de protesto com o
anúncio de alterações constitucionais ' embora estas não estivessem
completamente de acordo com as exigências dos manifestantes ', e, mais tarde,
em finais de Abril, com a melhoria das condições económicas através do aumento
do salário mínimo nacional e dos salários do funcionalismo público. Uma vez
mais, como no caso da Argélia, essas medidas parecem ter aliviado o
descontentamento popular, embora os activistas tenham continuado a exigir
mudanças mais radicais.
Resumindo, quer na Argélia, quer em Marrocos, a agitação social começou devido
a circunstâncias económicas, mas, embora as reivindicações políticas tenham
aparecido à mistura com os protestos económicos, não se deu uma escalada a
ponto de haver um confronto directo com os respectivos regimes. Para além
disso, os activistas também não conseguiram desenvolver movimentos sociais
significativos a partir da agitação motivada pelas condições económicas para
forçar a adopção de uma agenda política radical diferente da do Governo, que
gozava de um apoio em massa da população. Em parte isto ficou a dever-se à
rapidez com que os regimes responderam aos distúrbios sociais, mas também '
pelo menos no caso de Marrocos ' está relacionado com a legitimidade de que o
regime ainda goza aos olhos da população em geral, apesar da insatisfação
económica e social18. Da mesma forma, também na Argélia a amarga memória da
guerra civil nos anos 1990 demoveu muitos de encararem a hipótese de um desafio
radical ao Governo, para evitar que aquele conflito reemergisse.
AUTOCRACIAS LIBERALIZADAS
Levantam-se, assim, duas questões acerca das situações bem distintas que
tiveram lugar no Egipto, na Tunísia e na Líbia, e das respectivas
consequências. A primeira questão é: por que motivo houve reacções tão
diferentes nesses países, quando comparados com o caso de Marrocos e da
Argélia? A segunda questão: como conseguiram os manifestantes do Egipto e da
Tunísia criar movimentos sociais eficazes a aparentemente espontâneos de um
modo que apreendeu tão rapidamente o sentir da população e conseguiu, dessa
forma, alcançar as mudanças que os activistas pretendiam? Ligado a esta questão
está o caso da Líbia, onde as tentativas de formar movimentos sociais
semelhantes acabou por desembocar numa guerra civil, o que faz pensar que os
activistas líbios não dispunham dos recursos e da infra-estrutura sociopolítica
fundamental para desafiar o regime por meios que não envolvessem a força.
Trata-se de um assunto que, por si só, merece ser investigado e que,
claramente, tem a ver com as diferenças fundamentais entre a natureza dos
regimes da Tunísia e do Egipto quando comparados com a Líbia, em particular no
que diz respeito às atitudes oficiais perante a contestação política.
A resposta reside, pelo menos em parte, no modo como o optimismo triunfalista
do Ocidente do início dos anos 1990 foi sendo gradualmente substituído por uma
avaliação mais realista do cenário global. No final de 1997, Fareed Zakaria fez
notar que havia uma tendência para o surgimento de distúrbios naquilo que se
considerava ser a ordem fundamental do final da era do pós-Guerra Fria19. No
fim de contas, o termo da Guerra Fria tinha sido saudado com entusiasmo, visto
como um marco do final dos conflitos ideológicos e como o triunfo do ideal
democrático à escala global. Mas logo em 1989 Francis Fukuyama afirmou que
tinha chegado o fim da história da contenda entre ideologias políticas, uma vez
que a governação democrática ocupava agora o terreno político, com o apoio de
organizações económicas liberais, quer ao nível estatal, quer ao nível
global20. Em 1991, Adam Roberts, embora de forma muito mais pessimista, deu a
conhecer as premissas básicas no que dizia respeito às políticas do mundo
desenvolvido21. Até a visão sombria de Samuel Huntington acerca do conflito
civilizacional assentava na premissa da superioridade da ordem democrática
liberal22.
No entanto, Fareed Zakaria escreveu, mais de meia década depois ' quando já era
óbvio que o que fora visto como o início de uma nova ordem mundial estável,
assente na hegemonia norte-americana como única hiperpotência, era muitíssimo
menos permanente do que o que aparentava ', que a democracia, por si só, era
uma receita insuficiente. Fazendo inconscientemente ecoar o pensamento de
Hayek23, mas citando A. de Tocqueville e Madison, Zakaria afirmou que, se não
fosse mediada por outros factores, a democracia continha em si o potencial para
a tirania devido à sua reivindicação da soberania absoluta24.
Segundo aquele autor, o constitucionalismo liberal ' a crença generalizada nos
direitos inalienáveis do indivíduo e no Estado de direito que se desenvolveu na
Europa durante os séculos XVIII e XIX25 ' foi o principal factor de mediação,
uma vez que tinha de tentar limitar os poderes em vez de promover a sua
aquisição. Os sistemas políticos que não tinham esta componente eram, no
essencial, «iliberais» e acabaram por frustrar as expectativas e aspirações dos
seus povos, pois o estatuto do indivíduo não podia ser (nem seria) assegurado,
ao contrário do que devia acontecer nas democracias. Paralelamente, o alegado
processo de participação política tornou-se simplesmente um mecanismo para
reforçar o discurso hegemónico.
No início da década passada tornou-se claro que a democracia iliberal não era
apenas uma aberração do ideal democrático liberal, como Fareed Zakaria
supusera. Pelo contrário, tornou-se um meio através do qual os regimes
autocráticos protegiam o seu poder. Foi esse fenómeno que Daniel Brumberg
identificou em 2002 quando fez notar que «no mundo árabe há um conjunto de
factores interdependentes ' institucionais, económicos, ideológicos, sociais e
geoestratégicos ' que criaram uma ecologia adaptável da repressão, do controlo
e da abertura parcial»26. Brumberg prosseguia, apontando o facto de esses
sistemas também beneficiarem da aquiescência, e inclusive do apoio activo em
diferentes graus, dos grupos e dos movimentos da oposição. De facto, estes
também beneficiavam do novo espaço político autónomo que os regimes agora
toleravam, mesmo que essa autonomia fosse cuidadosamente circunscrita para
garantir a segurança do próprio regime. Acrescentou que nessas circunstâncias
as oposições iliberais podiam ser manipuladas para «afastar» alternativas
genuinamente democráticas de modo a, simultaneamente, preservar a ilusão formal
da democracia. O oposto também era verdade, na medida em que o encorajamento
estatal da expressão democrática restrita podia igualmente ser usado para
confinar e isolar movimentos de oposição iliberal.
Daniel Brumberg argumentou ainda que esta liberalização política parcial era
não só uma escolha consciente dos regimes para assegurar a sua sobrevivência,
mas também representava o modo como os regimes autocráticos procuravam
compensar a falta de recursos alternativos, que só uma autocracia plenamente
assumida poderia manter. Assim, os estados do Golfo, particularmente a Arábia
Saudita, tinham a riqueza do petróleo como recurso para «comprar» o
descontentamento político, ou o capital simbólico ou cultural, tipicamente
expresso através da mobilização formal do islão, os quais podiam ser usados
para propugnar a legitimidade dos regimes27, como foi o caso na Jordânia ou em
Marrocos. À falta desse tipo de recursos, a liberalização parcial ' não
considerada como um passo em direcção à democracia liberal, mas como um
mecanismo para tornar um regime aceitável ' era a opção preferencial no mundo
árabe. Brumberg designou esse tipo de regimes como «autocracias liberalizadas».
Salientou que se caracterizavam pela tolerância em relação à dissonância
política e por serem não hegemónicos em termos de ideologias dominantes, uma
vez que as suas elites governantes conseguem, através de malabarismos
políticos, dominar as ideias concorrentes de modo a assegurar a continuidade do
seu controlo como árbitros destes cenários políticos pluralísticos, controlo
esse que eles não querem perder através de um processo de liberalização
genuína28.
Estas liberalizações políticas parciais também são acompanhadas por um espaço
institucional parcialmente liberalizado. Dessa forma, os partidos políticos
podem ser tolerados, desde que não contestem os regimes existentes, bem como as
instituições que se dedicam a tentar atingir objectivos da sociedade civil29, e
os indivíduos podem desfrutar de liberdades individuais restritas e
contingentes ' contingentes porque permanecem na dependência do regime em
questão. Com efeito, Brumberg salienta que estas concessões tanto poderiam ser
retiradas como concedidas, tendo detectado uma tendência para a sua restrição
durante a década em causa30. Contudo, estas estratégias de «liberalização
política gerida pelo estado» usadas pelos governos árabes para evitar «os
desafios da democratização», permitiram que potências externas como os Estados
Unidos e a União Europeia ficassem convencidas de que a liberalização genuína
acabaria por ser possível31. Assim, o verdadeiro empenho para alterar as
realidades políticas do Médio Oriente e do Norte de África parecia
desnecessário ' este aspecto é particularmente importante se considerarmos a
agenda de segurança adoptada pelos estados ocidentais após 200132.
Foi sem dúvida por esses motivos que tanto os Estados Unidos como a UE ' em
teoria, os dois principais agentes para a democratização ' fizeram de facto tão
pouco no Médio Oriente e no Norte de África para atingir aqueles objectivos
após o final da Guerra Fria. De facto, a retórica tomou o lugar das acções com
significado real. Assim, depois de ter apresentado o Processo de Barcelona no
Mediterrâneo em 1995, a União nunca procurou ser mais exigente em relação ao
critério, contido em todos os acordos económicos que assinou com os estados da
costa sul do Mediterrâneo, da «boa governação e do respeito pelas liberdades
individuais». De uma forma semelhante, os Estados Unidos introduziram políticas
bilaterais com os mesmos estados depois de 2004, no âmbito da sua Iniciativa
para o Grande Médio Oriente, como parte da Iniciativa de Parceria Estados
Unidos-Médio Oriente (USMEPI), que também enfatizou o bom governo e o respeito
pelos direitos humanos. No entanto, tal como Condoleezza Rice, então secretária
de Estado, fez notar no Cairo em Junho de 2005 ' sentimentos de que o
Presidente Obama faria eco no Cairo em Junho de 2009 ', «durante sessenta anos
os Estados Unidos procuraram atingir a estabilidade à custa da democracia no
Médio Oriente ' e não conseguimos alcançar nem uma coisa nem a outra. Agora
vamos tomar um rumo diferente. Vamos apoiar as aspirações democráticas de todos
os povos»33.
No entanto, a realidade não mudou e a liberalização parcial adoptada pelos
regimes na região mostrou-se suficiente para satisfazer as sensibilidades
ocidentais, especialmente quando a segurança e a securitização se tornaram o
tema dominante das relações inter-regionais. De facto, na altura, alguns países
ocidentais reforçaram as tendências hegemónicas dos estados norte-africanos ao
encorajá-los a aniquilar movimentos sociais incipientes, que lhes pareciam
ameaçar os interesses europeus. A exemplo disso, a França, mais recentemente,
encorajou o regime de Ben Ali nas suas políticas de repressão porque os
franceses receavam que o islão político moderado pudesse dar lugar aos
extremistas. O Reino Unido colaborou com a Argélia acerca da deportação dos
alegados extremistas e teria feio o mesmo na Líbia se não tivesse sido travado
pelos tribunais britânicos. Em 2010, a Itália colaborou de forma estreita com a
Líbia no domínio da prevenção dos fluxos migratórios para a Europa, enquanto a
UE tornava públicas as suas políticas de controlo da migração e as suas
preocupações relativamente ao terrorismo34.
Na altura, devido às múltiplas restrições postas em prática no respeitante à
liberalização política parcial dos regimes que exploraram essas oportunidades
de reforço da sua estabilidade, a possibilidade de uma democratização no futuro
tornou-se cada vez mais remota, tendo em conta o sucesso da iniciativa da
autocracia liberalizada.
E esta surgiu sob várias formas, tal como nos pode mostrar uma análise dos
estados norte-africanos.
Na Argélia havia uma «democracia de fachada» e um aumento da liberdade de
expressão, mas o verdadeiro processo de tomada de decisão política permanecia
oculto e continuava a ser objecto de uma luta contínua entre uma presidência
executiva e o comando do Exército argelino35. Em Marrocos, a monarquia definiu
o espaço público e depois sacralizou-o contra os desafios dos movimentos e dos
partidos políticos islamitas moderados, ao reduzir o Governo eleito
democraticamente a um gestor tecnocrático do Estado e ao marginalizar o
Parlamento36. O regime de Mubarak no Egipto tolerava um certo grau de
pluralismo político e de liberdade dos meios de comunicação com a ameaça
constante da repressão e da fragmentação da sociedade civil no meio de um
sector privado corrupto37. Na Tunísia, a família Ben Ali defraudou a economia e
reprimiu todas as tentativas autónomas de expressão política fora dos limites
que ela própria definira, enquanto tentava manipular o movimento sindicalista
independente, os activistas dos direitos humanos e os jornalistas e advogados
dissidentes38. E não foi mais longe por causa da tradição constitucional da
vida política tunisina, que só poderia ser posta em causa correndo sérios
riscos. Estas questões não surgiram na Líbia devido à sinistra perfeição do
sistema da Jamahiriya, que não deixa qualquer espaço para a autonomia política
nem para a acção social39.
No entanto, em todos os casos onde se encontrava instalada uma autocracia
liberalizada, havia um elo comum. Consistia no facto de terem emergido
organizações autónomas, não controladas formalmente pelo Estado, e que podiam
dedicar-se essencialmente às preocupações sociais e, ocasionalmente, também às
preocupações políticas. Desse modo, embora o Estado pudesse deter o controlo
sobre este espaço social parcialmente liberalizado, também permitia que
houvesse acções autónomas, concedendo, assim, a essas organizações um certo
grau de agência paralelamente às estruturas autónomas que lhes era permitido
criar40. Claro está, o Estado podia intervir, à semelhança do que o regime de
Mubarak fez no Egipto nos anos 1990 quando alterou as leis que regulamentavam
os sindicatos profissionais com o objectivo de evitar que os islamitas se
apoderassem deles41. De facto, a Irmandade Muçulmana no Egipto conseguiu
renascer após a repressão do movimento durante o período do Estado nasserista,
mesmo que tivesse sido formalmente banida pelo regime de Mubarak. Inclusive na
Tunísia, onde os partidos alternativos ao Rassemblement Constitutionnel
Démocratique só foram permitidos depois de 1980, e dentro de limites altamente
restritivos, a confederação dos sindicatos e a Union Générale des Travailleurs
Tunisiens (UGTT) sobreviveram a inúmeras tentativas do Estado de Bourguiba e do
de Ben Ali para pôr termo à sua autonomia. O mesmo aconteceu com organizações
de defesa dos direitos humanos, com advogados e com jornalistas.
Claro que um dos motivos para a hegemonia do regime, quer se tratasse de
autocracias liberalizadas ou não, é o facto de os regimes se terem assegurado
de que eram capazes de criar coligações com as elites, que, por isso, passaram
a ter todo o interesse em que os regimes se mantivessem no poder. Por vezes,
estas elites incluíam instituições essenciais do Estado. Foi assim que na
Argélia o Comando do Exército se tornou um Estado-sombra por detrás de uma
presidência arbitrária e carismática42. Uma vez mais, no Egipto o Exército era
essencial para a segurança do regime de Mubarak, ao mesmo tempo que o sector
privado, como resultado das reformas da infitah nos anos 1970, se foi tornando
o principal parceiro económico do regime, apesar da crescente agitação dos
trabalhadores a partir de 2005. Na Tunísia o regime também se virou para o
sector privado. Mas, numa atitude pouco avisada, a família do Presidente tentou
apoderar-se dele, acabando por afastar potenciais apoiantes devido à sua
corrupção ostensiva e arrogante. Depois de romper com a UGTT nos anos 1960,
virou-se para os tradicionais aliados conservadores entre os notáveis do mundo
rural e a classe mercante urbana, que formavam o grosso dos apoiantes do
partido único do regime43. Assim, estes parceiros de coligação acabam
inevitavelmente por surgir como garantias contra potenciais dissidentes no seio
do espaço parcialmente liberalizado que os regimes criaram, enquanto os novos
ocupantes desse espaço parcialmente autónomo também podiam parecer potenciais
clientes do regime44. Apesar disso, estes ocupantes, quer fossem organizações
ou indivíduos, tornaram-se de facto os precursores do tipo de sociedade civil
que, em condições normais, faria a mediação entre o Estado e a esfera privada
no seio da política democrática. Desse modo eles acabariam por adquirir o
potencial para se transformarem em movimentos sociais preparados para contestar
o discurso do regime, caso as alianças pró-regime falhassem.
MOVIMENTOS SOCIAIS
Aquele aspecto mostrar-se-ia extremamente importante, porque significava que,
se fossem criadas as condições adequadas para que essas organizações se
tornassem veículos de contestação social, também poderiam tornar-se os pontos
de convergência para o desenvolvimento de movimentos sociais que poderiam
desafiar directamente os regimes autocráticos que tentavam reprimi-los. A
pergunta que se impõe é: como foi possível que estes movimentos sociais
incipientes se tornassem capazes de mobilizar o tipo de apoio de massas que
lhes permitiria contestar os regimes? Trata-se de uma afirmação sobre agência e
sobre estrutura, e, como tal, necessita de algum entendimento acerca do
funcionamento dos movimentos sociais. Os movimentos sociais são um resultado
das políticas de contestação45 e constituem o pilar do qual dependem as
oportunidades para as grandes mudanças políticas. Tal como Tarrow propôs:
«As políticas de ocntestação emergem como resposta a alterações nas
oportunidades e nas restrições políticas, com os participantes a
responderem a uma grande variedade de incentivos: materiais e
ideológicos, partidários e assentes num grupo, de longo prazo e
episódicos. Aproveitando estas oportunidades e utilizando repertórios
de acção conhecidos, as pessoas com recursos limitados podem agir
através da contestação ' mesmo que o façam apenas esporadicamente.
Quando as suas acções se baseiam em redes sociais densas e em
estruturas de ligação, e quando convergem em torno de contextos
culturais consensuais e orientados para a acção, conseguem suportar
essas acções em conflito com adversários poderosos. Nesses casos ' e
apenas nesses casos ' estamos na presença de um movimento social;
quando a contestação se espalha por uma sociedade, como por vezes
acontece, assistimos a um ciclo de contestação; e quando esse ciclo
se organiza em torno de soberanias múltiplas ou opostas o resultado é
a revolução.»46
Os movimentos sociais são, portanto, desafios colectivos à autoridade, que
incarnam objectivos comuns. Tendem a ser o produto de sociedades em transição e
são facilitados pelos fenómenos sociais que estas transições causam, como por
exemplo a urbanização, a industrialização e a educação em massa, no sentido em
que esta é mediada pelos novos meios de comunicação de massas e pelas
oportunidades para o envolvimento político. De um modo semelhante, a
liberalização parcial também cria circunstâncias em que esses movimentos podem
emergir, caso as estruturas geradas por essa liberalização dirigida pelo Estado
alcancem igualmente a agência independente. Por vezes necessitam de
acontecimentos catalíticos para se iniciarem, e é característico envolverem com
frequência, mas nem sempre, uma liderança carismática. Para além disso,
enquanto se mantiverem fora das estruturas estabelecidas do Estado, também
podem reflectir ' pelo menos alegadamente ' padrões criminalizados de
comportamento, que tanto são um reflexo da anomia que contribui para a sua
formação, como o reflexo da hostilidade oficial que lhes é dirigida.
Estes movimentos são, com efeito, manifestações colectivas de desequilíbrio
social. E tem-se aduzido um vasto leque de explicações para analisar o que pode
causar um desenvolvimento deste tipo. Para os psicólogos sociais
funcionalistas, estes movimentos resultam de uma pressão estrutural induzida
por uma causa exógena ao próprio movimento. Isto cria um sofrimento
generalizado e anomia em massa, de tal modo que os indivíduos se envolvem numa
acção colectiva como mecanismo de lidarem com a pressão, numa resposta
patológica para estabelecer a ordem política47. As causas exógenas podem
reflectir transições socioeconómicas, exclusão política e autoritarismo, bem
como conflitos culturais ou ideológicos. Estas circunstâncias definem, sem
dúvida, o pano de fundo sobre o qual estes movimentos podem surgir, e explicam
por que motivos a acção colectiva se pode desenvolver, embora não descrevam de
que modo isso acontece.
Por esse motivo, este tipo de explicações é visto desde há muito como demasiado
simplista para captar as complexidades dos movimentos sociais48, especialmente
no que respeita aos modos como eles operam. Uma das principais objecções
prende-se com o facto de aquelas explicações não conseguirem esclarecer de que
forma os indivíduos inseridos na atomização social que a anomia implica se
conseguem colectivizar e mobilizar as suas frustrações e aspirações e de que
modo as exprimem. Enquanto esses movimentos forem racionais e organizados,
mobilizarão quaisquer recursos que tenham à sua disposição. Dessa forma, eles
necessitam de burocracias, e criam-nas ou apoderam-se de estruturas
administrativas já existentes como parte do processo de formação. É por isso
que, por exemplo, nos movimentos activistas islâmicos a mesquita pode
desempenhar um papel fulcral49, paralelamente com instituições informais
islâmicas, como organismos de caridade, escolas, sociedades e centros
culturais. A Irmandade Muçulmana no Egipto foi adepta da mobilização desse tipo
de estruturas em proveito próprio durante os anos 1970, antes de ter começado,
nas décadas seguintes, a explorar estruturas mais formalizadas, como
organizações profissionais e até partidos políticos.
Estes padrões de mobilização de recursos podem facilmente transformar-se em
estruturas mais formais de contestação, como partidos políticos, como foi o
caso dos movimentos sociais islâmicos nos últimos anos, em países como o
Egipto, a Argélia e Marrocos. De facto, os movimentos sociais e os partidos
políticos podem coexistir como diferentes padrões de reforço mútuo da
contestação, criando, dessa forma, comunidades de movimento social, como foi o
caso em Marrocos e na Argélia. Aqui os padrões de contestação dividem-se entre
movimentos formais e informais com lideranças flexíveis e limites fluidos entre
si. Foi precisamente este o padrão que se desenvolveu na Argélia durante os
anos 1980, o qual contribuiu para o ambiente em que os distúrbios se espalharam
por todo o país em Outubro de 1988. Contestavam o sistema político vigente e
iniciaram as mudanças que acabariam por desembocar na guerra civil durante os
anos 1990. Nessa década, em Marrocos, o mesmo padrão originou a formação de um
partido político formal e de um movimento social informal que procuravam
alcançar objectivos políticos semelhantes de democratização do sistema
político, apesar da competição formal entre eles50.
As causas para essa mobilização de recursos são, claro, de natureza
sociopolítica, e um dos seus aspectos cruciais é a forma como os participantes
exploram as tendências políticas informais existentes para exprimir as suas
queixas ou como conceptualizam a sua própria participação em acção colectiva e
atraem outros para se juntarem a eles. Por outras palavras, o modo como é
enquadrado o discurso hegemónico de contestação em relação ao movimento social
é um factor-chave para a mobilização de apoios e para a acção. Estes
«enquadramentos de contestação» são, de facto, esquemas interpretativos que
fornecem um enquadramento quer para uma análise ideológica que justifica a
contestação, quer para o movimento social que lhe está associado. Fornecem
diagnósticos de desequilíbrio social, soluções para esse desequilíbrio e
fundamentos racionais para a acção a desenvolver para as atingir, e têm
significado e valor para os participantes.
No contexto do mundo muçulmano, as extrapolações políticas da doutrina islâmica
têm surgido como o enquadramento ideológico mais frequente, mas têm
recentemente sido contestadas por discursos mais seculares. Em parte, o papel
desempenhado pelo islão político tem emergido a partir do contexto cultural,
mas também é uma reacção consciente a outros insucessos ideológicos baseados no
nacionalismo e em ideologias secularistas de libertação e desenvolvimento.
Alguns aspectos específicos do corpus islâmico tornaram-se importantes, em
particular os que regulamentam organizações políticas e sociais, como o
conceito de sociedade justa e a shar'ia (jurisprudência islâmica), juntamente
com conceitos mais atávicos e simbólicos, como a recriação do Califado51.
Estas ideologias de enquadramento podem, claro está, ser contestadas, quer em
termos de conteúdo, quer em termos estratégicos e tácticos, de tal forma que se
desenvolvem mecanismos para impor um discurso hegemónico ao movimento. Era isso
que estava subjacente à luta entre os GIA (Groupes Islamiques Armés ' Jama'at
Islamiyya Musalaha) e o AIS (Armée Islamique du Salut ' Jaysh Islamiyya li'l-
Inqadh) durante a guerra civil na Argélia nos anos 1990. Claro que agora a
memória da guerra civil na mente da população tornou-se um fortíssimo
desincentivo da participação generalizada em movimentos sociais de contestação
do Estado, embora o regime que promove essa ideia tenha falta de aceitação
popular. O enquadramento também pode ser contestado desde o exterior, sobretudo
se o maior adversário do movimento, o Estado, tiver criado a sua própria
ideologia hegemónica de enquadramento. Assim, a reivindicação da monarquia
marroquina, que diz ser um califado e que por isso pode dominar a agenda
doméstica islâmica, contesta o discurso de grupos com o Adl wa'l-Ihsan e o PJD
(Parti de la Justice et du Développement ' Hizb al-Adala wa'l-Tanmiyya)52, e é
geralmente aceite pela população.
Para além disso, tal como os recentes acontecimentos no Norte de África
comprovaram, o discurso islamita, que se pensou que dominaria os movimentos
sociais, foi contestado por enquadramentos muito mais simples mas mais
profundos, concentrados em torno dos direitos básicos e das liberdades
individuais. A vários níveis, não há dúvida de que reflectem uma reivindicação
básica de justiça social típica das sociedades muçulmanas, mas foram
articulados sem o recurso aos arquétipos políticos islâmicos. A par dessas
reivindicações, que frequentemente reflectem imperativos económicos, também
houve reivindicações políticas. Há reivindicações que reflectem uma insistência
imperiosa na participação no processo político e que, desse modo, contestam a
hegemonia do regime. Mas, o que é mais importante, contestam a assunção
implícita dos regimes autocráticos segundo a qual o seu controlo do poder os
legitima, de alguma forma. Com efeito, esta foi uma das ameaças mais directas
aos regimes em vigor, e foi o motivo pelo qual, no Egipto e na Tunísia, os
regimes foram afastados sob a pressão dos movimentos sociais que tinham
surgido, por vezes, através das estruturas centrais sobre as quais os regimes
se baseavam para preservar a sua hegemonia do poder. Noutros sítios, como na
Líbia, os regimes não aceitaram sair, mas também não se podiam impor através da
força, ao passo que nestas circunstâncias, nos países em que os regimes
conseguiram que a população mantivesse uma percepção da sua legitimidade, como
em Marrocos, os regimes sobreviveram, fazendo apenas algumas cedências
tácticas.
COLAPSO DOS REGIMES E SOBREVIVÊNCIA DOS REGIMES
Se efectivamente as mudanças a que temos assistido nos últimos seis meses forem
o resultado de movimentos sociais a emergir de organizações semi-autónomas
criadas através do processo de liberalização parcial em autocracias
liberalizadas, precisamos de entender como é que essas organizações escaparam
ao controlo do Estado para emergir como movimentos sociais, capazes de
contestar com sucesso a legitimidade dos regimes e o seu controlo. Trata-se,
afinal, do momento essencial que permitiu a destruição dos regimes de Ben Ali e
de Mubarak, mas que falhou na Líbia, e foi evitado em Marrocos e na Argélia. O
facto de a Líbia ter mantido as suas características enquanto autocracia
intransigente, apesar das iniciativas empreendidas pelo segundo filho do
coronel Kadhafi, Saif al-Islam, sugere que estes acontecimentos devem estar
ligados a questões de legitimidade política e de liberalização, o que é típico
nos outros regimes da região, e não apenas a aspectos ligados à crise
económica.
Por outras palavras, ironicamente, as autocracias liberalizadas estabeleceram
as condições para a sua própria derrocada ao criarem espaço para o surgimento
de movimentos precursores autónomos ' manifestamente sob o controlo do regime '
que, dadas as circunstâncias certas, podiam transformar-se em movimentos de
contestação política. Já tinham sido encorajadas a fazê-lo por pressão
indirecta de potências externas para iniciar a liberalização como um passo
precursor para a criação de regimes democráticos, mas as autocracias
compreenderam que a liberalização parcial também poderia servir para assegurar
a sua sobrevivência. O que esses regimes não entenderam foi que ao abrirem
lugar a um espaço público, mesmo que fosse sob a sua supervisão, estavam também
a abrir mão do controlo potencial. O simples facto de tolerarem o crescimento
de movimentos sociais, e até políticos, autónomos poderia ser interpretado como
um sinal de fraqueza dos regimes, uma vez que esses movimentos começaram a
desenvolver enquadramentos de contestação que podiam estimular a sua
transformação em movimentos sociais assumidos.
Em resultado disso, estes movimentos precursores apenas necessitavam de um
agente catalítico adequado para se expandirem até formar movimentos sociais,
contestando directamente o poder do regime, que agora se deparava com um grave
dilema no respeitante à resposta a apresentar perante a contestação. As
autocracias assumidas, claro, não tinham grande problema. Não só não
enfrentavam movimentos sociais organizados de contestação ao regime, pois não
tinham permitido a criação de um espaço público autónomo, como, por outro lado,
a sua reacção envolveria sempre o uso manifesto da força, sobre a qual eles
detinham o monopólio formal. No caso das autocracias liberalizadas, contudo, o
dilema era o seguinte: a repressão manifesta podia ameaçar a credibilidade do
regime, que é fundamental para a sua sobrevivência, já que agora o controlo do
poder político podia ser alvo de contestação. Isto significava que ou se faziam
concessões para «comprar» os protestos ' e essa opção só era viável se os
manifestantes não estivessem preparados para contestar a continuidade do
regime, à semelhança do que aconteceu em Marrocos e na Argélia ', ou o próprio
regime teria de se preparar para sofrer uma mutação por forma a sobreviver, uma
fórmula que foi seguida sem sucesso na Tunísia, mas que teve consideravelmente
bons resultados no Egipto.
TUNÍSIA: UM SUCESSO?
As manifestações na Tunísia começaram por causa da questão da súbita escalada
dos preços dos alimentos no final de 2010. Contudo, a situação transformou-se
com a auto-imolação de Mohammed Bouazizi, a 17 de Dezembro em Sidi Bou Zid, uma
cidade no Centro da Tunísia, como protesto contra a forma como as autoridades
locais o trataram na sequência da apreensão da sua banca de venda de frutas e
legumes, supostamente porque ele não possuía a licença camarária apropriada. O
seu sacrifício pessoal transformou-se rapidamente num símbolo do
descontentamento popular perante o desprezo repressivo do regime de Ben Ali em
relação à sua população, em simultâneo com uma raiva generalizada pelo modo
como a família do Presidente, liderada pela sua mulher, Leila Trabulsi, tinha
afundado a economia tunisina com o seu controlo corrupto do sector privado.
As manifestações espontâneas de apreço pela acção de Mohammed Bouazizi passaram
rapidamente a ser controladas pelos órgãos locais da UGTT, juntamente com
representantes de associações de advogados e jornalistas. Organizaram um
conjunto de manifestações em cadeia por todo o país, culminando em grandes
manifestações na capital, Tunes, em protesto contra as políticas repressivas do
regime desde 1991, quando se virou pela primeira vez contra o movimento
islamita do país, a An-Nahda. Em pouco tempo as manifestações uniram-se em
torno da exigência de afastamento do regime de Ben Ali. A 14 de Janeiro o
Presidente demitiu-se e deixou o país em direcção à Arábia Saudita, pondo,
assim, termo a um regime com vinte e três anos. Na sequência desses
acontecimentos, um longo desenlace acabou por trazer o fim do partido único e
deu-se início a um complexo processo para delinear uma nova constituição
democrática.
Vale a pena frisar vários aspectos neste relato. Primeiro, o facto de haver
claramente uma tradição de expressão autónoma na Tunísia, que não fora esmagada
pelo regime de Ben Ali. O movimento sindicalista, a UGTT, é um exemplo, uma vez
que, apesar de a sua administração central ter sido sucessivamente controlada
pelo regime, tanto durante a presidência de Habib Bourgiba como durante o
regime de Ben Ali, os seus órgãos locais preservaram um grau de autonomia de
acção considerável. Ao mesmo tempo, havia as organizações de defesa dos
direitos humanos do país ' a Ligue Tunisienne des Droits de l'Homme (LTDH) e,
mais tarde, o Comité National des Libertés en Tunisie (CNLT), que, apesar de
ter sido enfraquecido nos anos 1990, continuou a desempenhar um papel
semiclandestino. Foi apoiado por advogados, jornalistas independentes e, mais
tarde, por bloguistas e jornalistas on-line53.
Em segundo lugar, há uma tradição muito forte de constitucionalismo na Tunísia.
Todos os grandes movimentos políticos do país, desde o início do século XX ' o
Destour, o Neo-Destour, o Parti Socialiste Destourien (PSD) e o Rassemblement
Constitutionnel Démocratique (RCD) ' baseiam a sua legitimidade no facto de
situarem as suas origens num movimento ' o Destour («Constituição») ' criado
para persuadir as autoridades ocupantes francesas a honrar os termos do Tratado
de Bardo, que introduziu o protectorado francês em 1881 e a Constituição
tunisina, promulgada em 1890, que foi a primeira constituição do mundo árabe.
Esta tradição sempre refreou o regime, impedindo-o de ser tão repressivo como
gostaria, e assegurava que o poder permitia um pluralismo político limitado,
desde que isso nunca ameaçasse a hegemonia do RCD. De facto, os partidos
políticos seculares que foram autorizados depois de 1980 colaboraram várias
vezes com o regime devido ao seu receio do islamismo54. Quando a presidência
quebrou este princípio ao alterar a Constituição de modo a permitir que o
Presidente em funções se candidatasse por mais de dois mandatos e ao instituir
uma assembleia parlamentar bicamaral para salvaguardar o controlo do RCD, a sua
base de apoio começou a fragmentar-se55, tal como aconteceu com o seu
antecessor por motivos semelhantes nos anos 1980.
Em terceiro lugar, embora o regime tenha procurado assegurar a sua hegemonia
através das coligações sociais que construiu e do controlo dos serviços de
segurança, também marginalizou o Exército tunisino para se certificar de que
este nunca constituiria uma ameaça. Por isso, o Exército só participou em
assuntos políticos em 1984 quando foi chamado pelo Presidente Bourguiba para
restabelecer a ordem na sequência de vários tumultos graves provocados pelo
preço dos alimentos. De um modo geral, os oficiais do Exército eram
profundamente apolíticos e nunca eram incentivados a participar em assuntos
políticos, mesmo no seio do RCD, que era, efectivamente, o único partido
político da Tunísia. Paralelamente, os deveres de segurança interna eram
levados a cabo pela Polícia e pelos serviços de segurança, a que se recorria
cada vez mais para intimidar a população e dissuadi-la de se envolver na
política. Para a classe média tunisina isto significava que a prosperidade
económica era oferecida como uma alternativa, ao passo que a classe
trabalhadora e o campesinato, ambos empobrecidos, eram reprimidos quando
necessário. Afinal de contas, havia o espectro do que tinha acontecido no
início dos anos 1990 quando o movimento islamita do país, a An-Nahda, foi
brutalmente desmantelada depois de ter tentado participar na política
pluralista que o regime de Ben Ali tinha prometido em 1989, pouco depois da sua
chegada ao poder.
Portanto, não constituiu surpresa que pouco depois do dramático auto-sacrifício
de Mohamed Bouazizi se ter tornado o agente catalítico ' transformando a raiva
contra as dificuldades económicas em protesto político ', tenham surgido
organizações preparadas e capazes de criar um poderoso movimento social a
partir do descontentamento da população com a corrupção e a repressão do
regime, com o objectivo de derrubá-lo. No entanto, é interessante vermos que o
verdadeiro alvo inicial era o Presidente e a sua família, e não a estrutura do
RCD em peso, que era o verdadeiro núcleo do regime. E o que ainda é mais digno
de nota, é o facto de o regime ter caído porque sempre afastou o Exército
tunisino de qualquer papel político. De facto, quando deram a ordem, o Exército
recusou-se a disparar sobre os manifestantes, e, em face da incapacidade da
Polícia e das forças de segurança para controlar os manifestantes, foi a
liderança do RCD que decidiu que, para preservar o seu poder, o Presidente e a
família tinham de ser sacrificados. Só nessa altura é que os manifestantes
viraram a sua fúria contra o próprio partido quando viram que ele tentava
manter-se no poder. Seguiu-se uma longa luta entre as manifestações contínuas e
o partido, enquanto este tentava reconstruir o governo sob o seu controlo. Foi
apenas a 6 de Fevereiro de 2011, três semanas após a demissão do Presidente,
que o partido foi formalmente dissolvido por um tribunal tunisino. A revolução
tunisina tinha atingido o seu objectivo fundamental: a dissolução de um regime
que tinha estado no poder desde 1956.
O CASO DO EGIPTO: UM SUCESSO PARCIAL?
A criação de uma autocracia liberalizada no Egipto recua à época do Presidente
Sadat, na altura em que ele decidiu abrir a economia egípcia ao investimento
privado no contexto do programa da infitah. Procurou, então, parceiros para
assegurar a paz interna ao mesmo tempo que o Egipto renovava os seus laços com
o Ocidente depois de 1973. O resultado foi, por um lado, uma aliança tácita
entre o regime e a Irmandade Muçulmana, de acordo com a qual esta organização
tinha permissão para voltar a afirmar-se no seio da sociedade egípcia, mas sem
um estatuto legal, e, por outro, o crescimento do sector privado aliado por
interesses económicos ao regime. Ao mesmo tempo, o regime de Sadat permitiu que
entrassem em cena partidos políticos formais, embora nunca tenham sido capazes
de representar um desafio sério para o partido do regime, o Partido Nacional
Democrático. Portanto, no plano prático, o regime de Sadat abandonou a
hegemonia total que o seu antecessor, o regime de Nasser, tinha exercido sobre
o país. Em vez disso, o regime de Sadat criou uma autocracia liberalizada, que
deveria ser continuada pelo seu sucessor, Hosni Mubarak.
O regime de Mubarak também se empenharia na privatização por atacado da
economia egípcia, um processo que envolveu 312 empresas estatais, sobretudo no
Delta, e que trouxe influxos acrescidos de investimento estrangeiro, bem como
um aumento do investimento interno, mas não levou a uma subida do nível de
qualidade de vida. O regime também era avesso a correr os riscos de uma
liberalização política significativa, preferindo, em vez disso, marginalizar ou
incapacitar as organizações autónomas que pareciam representar uma ameaça. Foi
por isso que em Junho de 2000 o Centro Ibn Khaldun, de Saas Eddin Ibrahim, no
Cairo, foi fechado e o seu pessoal, incluindo o director, detido por ter
aceitado fundos da UE sem a permissão oficial do regime. Contudo, no dealbar do
novo século, o Egipto tinha umas 30 mil organizações que disputavam o espaço
público parcialmente liberalizado do regime. A Irmandade Muçulmana permanecia
formalmente proscrita e os seus líderes eram regularmente detidos. Os
defensores dos direitos humanos eram continuamente perseguidos e as eleições
egípcias eram habitualmente fraudulentas e constituíam um pano de fundo para
cenas de violência generalizada no país.
Mas destes diversos eixos de frustração nasceu um padrão de resistência
consciente ao regime. Começou em 2004, no seio da classe média urbana, em
especial no Cairo, como consequência do desejo do Presidente Mubarak de iniciar
um inédito quinto mandato de seis anos, e da sua aparente vontade de fazer do
seu filho Gamal o seu sucessor. O agente catalítico parece ter sido a
intervenção de um jurista muitíssimo respeitado, Tariq al-Bishri, que fez um
apelo à desobediência civil como forma de protesto contra os planos do
Presidente. As ambições presidenciais de Mubarak foram contestadas nas eleições
de 2005, sem qualquer sucesso, naturalmente, por Ayman Nour, o líder do Ghad,
um novo partido político. Ayman Nour foi detido na sequência das eleições sob
falsas acusações.
O descontentamento da classe média perante este abuso do poder oficial deu
origem à formação de um novo tipo de movimento social, o Kefiya («Basta!»),
cujas forças vinham de um grupo de pequenos partidos da oposição e de
diferentes movimentos, todos eles unidos pela sua raiva provocada pelos abusos
do processo eleitoral. O movimento também fez uso das tecnologias modernas da
informação para comunicar com os seus membros, demonstrando dessa forma que,
embora não tivesse os recursos da Irmandade Muçulmana, era possível reunir uma
oposição generalizada efectiva e pacífica. Apesar de o movimento ter acabado
por desaparecer ' em parte devido às suas características ligadas à classe
média, e por causa da sua oposição à Irmandade Muçulmana, mas também em
resultado das acções que o regime empreendeu contra ele ', foi uma lição válida
acerca do potencial da oposição informal mas estruturada contra o regime56.
Depois, em Dezembro de 2006, uma greve eclodiu numa fábrica têxtil em Mahalla
al-Kubra, uma grande cidade industrial no Delta. As greves, que não são
autorizadas pela confederação de sindicatos egípcia, dirigida pelo Estado, são
ilegais mas esta foi organizada por um corpo não oficial ' a Liga Independente
dos Trabalhadores Têxteis ' e, contrariamente à prática comum, o regime não
obrigou os trabalhadores a voltarem ao trabalho, mas cedeu às reivindicações
dos grevistas. O resultado foi um crescendo de greves nos anos sucessivos, até
que, a 6 de Abril de 2008, o regime caiu em cima dos trabalhadores têxteis em
greve na mesma cidade, acabando por provocar graves tumultos. A partir deste
acontecimento surgiu o Movimento 6 de Abril, que juntou trabalhadores e jovens
e espalhou informação sobre a resistência por todo o país. O novo movimento
conseguiu resistir às tentativas repressivas do regime, em grande parte devido
à sua natureza «amorfa» e por causa da utilização dos novos meios de
comunicação, como os telemóveis e a internet. Passou a ser mais um eixo, mais
generalizado, na resistência crescente ao regime de Mubarak.
Em 2010 deram-se dois acontecimentos que completariam o quadro de oposição
crescente ao regime de Mubarak: o assassínio de Khaled Mohamed Saeed em
Alexandria, em Junho, e a entrada de Mohamed ElBaradei na cena política
egípcia, depois de a sua presidência da Agência Internacional da Energia
Atómica (AIEA) ter terminado em Novembro de 2009. A morte de Khaled Mohamed
Saeed foi particularmente flagrante, uma vez que ele fora arrastado para fora
de um cibercafé em Alexandria por dois agentes da segurança que o espancaram
até à morte. O incidente tornou-se um escândalo junto da opinião pública quando
Wael Ghonim, um executivo de marketing do Google no Dubai, criou uma página no
Facebook em sua homenagem, tendo recebido enorme apoio público. Alguns dias
depois da morte de Saeed, ElBaradei dirigiu uma enorme marcha em Alexandria em
sua memória, e os primeiros protestos tiveram lugar na Praça Tahrir, no Cairo.
Desta forma, no início de 2011 havia três eixos de protesto em acção, que
envolviam largas faixas da população egípcia, em simultâneo com o crescente
descontentamento em relação à subida dos preços dos alimentos e da energia.
Nesse contexto, os acontecimentos na Tunísia parecem ter funcionado como um
agente catalítico, em especial quando Zine El-Abdine Ben Ali foi obrigado a
abandonar o poder. Quem parece ter aproveitado a oportunidade foi um pequeno
grupo de activistas do Movimento 6 de Abril, que, recorrendo às suas ligações
ao Movimento Kefiya, ao partido político El-Ghad e ao movimento Khaled Mohamed
Saeed, planearam uma manifestação na Praça Tahrir, no Cairo, para o dia 25 de
Janeiro de 2011, data em que se assinalava o massacre de cinquenta polícias
egípcios pelas tropas britânicas de ocupação em Ismaília em 1952. O êxito na
resistência às tentativas da Polícia para pôr fim à manifestação levou a
manifestações muito maiores no dia 28 de Janeiro, depois das orações de sexta-
feira, que puseram em movimento a bola revolucionária, numa série de
manifestações contínuas concentradas em redor da Praça Tahrir, mas que
envolviam igualmente milhões de pessoas fora da capital.
Passadas apenas duas semanas, na sequência de uma série de ineficazes
concessões parciais às reivindicações públicas, Hosni Mubarak abandonou o seu
posto como presidente, reconhecendo, assim, a vitória popular. No entanto, tal
como acontecera na Tunísia, Mubarak tinha realmente sido sacrificado, não como
consequência da vitória revolucionária, mas como forma de manter um regime que
era, em última análise, apoiado pelo Exército egípcio. Com a partida do
Presidente, o Exército assumiu a responsabilidade de remodelar o Estado de uma
forma mais aceitável, mas, claramente, não tinha qualquer intenção de abandonar
o poder. Em vez disso, criou uma aliança informal com a Irmandade Muçulmana e
apresentou um conjunto de emendas minimalistas à Constituição, que acabariam
por ser aprovadas por referendo ' para raiva dos radicais que tinham organizado
as manifestações e que tinham expectativas de conseguir mudanças muito mais
profundas. Assim, embora os movimentos sociais eficazes tenham aderido ainda
antes da eclosão das manifestações, faltava-lhes a capacidade para obrigar o
Exército e as suas coligações sociais a cederem perante o seu programa. Tal
como as coisas estão neste momento, a revolução egípcia foi apenas um sucesso
parcial.
A LÍBIA E A GUERRA CIVIL
Devido ao poder e à universalidade da televisão por satélite, a população líbia
estava a par dos acontecimentos na Tunísia e no Egipto mas não é muito claro se
aqueles factos tiveram ou não um «efeito dominó» dentro da própria Líbia. E
também não é claro se havia ou não precursores incipientes de movimentos
sociais, uma vez que a Líbia nunca adoptou o padrão de autocracia liberalizada
típico dos outros estados do Norte de África. Isto era inerente à natureza do
sistema político da Jamahiriya, que fora introduzido no país em 1973, dado que
não tolerava qualquer concorrência à sua instituição de «democracia popular
directa», expressa através dos Congressos Populares de Base e dos Comités
Populares. Todos os líbios deviam participar nos Congressos, nos quais eram
tomadas decisões sobre todos os assuntos de política local, nacional e
internacional. Delegados mandatados transmitiam as decisões ao Congresso Geral
do Povo, o equivalente líbio do parlamento. Por seu turno, este órgão mandatava
o Comité Geral do Povo. Tratava-se de um órgão designado pelo Congresso, e
equivalia a um conselho de ministros. Este fazia chegar instruções aos Comités
Populares para se proceder à administração. Os próprios Comités Populares eram
designados pelos Congressos Populares de Base.
Claro que, na realidade, a população não respondeu ao desafio político proposto
pelo regime de Kadhafi. No ano 2000 menos de 10 por cento da população
participava regularmente nos encontros dos Congressos e mais de 70 por cento
dos líbios não acreditavam que pudessem influenciar as decisões políticas57, e
é pouco provável que estes dados estatísticos tenham melhorado desde então.
Como resultado, durante os anos 1980, o movimento dos Comités Revolucionários
foi usado para estimular o moribundo sistema da Jamahiriya e para garantir que
a tomada de decisões políticas estava em sintonia com as pretensões do regime.
As actividades dos Comités Revolucionários, em conjunto com as draconianas
provisões da Lei 71 de 1972, vieram garantir que seria impossível entrar em
concorrência política com este sistema.
Esta uniformização também se aplicava à dimensão social da vida líbia, uma vez
que a mão pesada do regime e os Comités Revolucionários se dedicavam igualmente
a esse domínio, pois os assuntos sociais eram vistos como uma extensão da
esfera política. Com efeito, o pano de fundo social de matiz tribal do Estado
moderno líbio desempenhava também um papel político directo. Em certo sentido,
a revolução líbia de 1969 poderia ser interpretada como uma vingança das tribos
centrais da Líbia, tradicionalmente subservientes das tribos Sa'adi da região
cirenaica, junto das quais a monarquia de base Sanussi, criada pelas Nações
Unidas em 1951, obtinha o seu apoio. Consequentemente, eram as tribos
Qadhadhfa, Maghraha e Warfalla que dominavam a estrutura política do Estado da
Jamahiriya, sobretudo o movimento do Comité Revolucionário e as forças da
segurança. Nos anos 1970, o regime de Kadhafi, consciente da potencial ameaça
da resistência tribal, tentou marginalizar as tribos, mas não foi bem-
sucedido58. Em seguida, mobilizou as tribos, com o objectivo assumido de obter
o seu apoio, através da instituição da Liderança Social Popular, que criou o
conceito de responsabilidade colectiva de uma tribo em relação às acções dos
seus membros. Para além desta, só foi permitida a existência de outra
instituição social: a atávica União dos Oficiais Livres, o órgão que
instrumentalizou o golpe militar do coronel Kadhafi em 1969.
Em resumo, não havia movimentos organizados em funcionamento que pudessem ser
interpretados como um espaço potencial (por mais restrito que ele fosse) para a
sociedade civil. Nem havia qualquer precursor formal que se pudesse transformar
num movimento social, devido à falta de um espaço social ou político para o seu
eventual desenvolvimento. O único exemplo que houve surgiu em Benghazi e Darna
no final dos anos 1990 como um movimento islamita extremista de oposição ao
regime, o Grupo de Luta Islâmica Líbio (GLIL' Jamat Islamiyyah al-
Mutaqatilah), mas a organização foi dissolvida e os seus elementos foram
detidos. Até a Irmandade Muçulmana foi obrigada a viver na clandestinidade e
foi sendo dizimada por detenções sucessivas. Havia, contudo, quatro factores
que davam uma ideia do que poderia acontecer na Líbia se o regime alguma vez
perdesse o controlo.
O primeiro foi o facto de as tribos do Leste da Líbia ainda guardarem
ressentimentos em relação ao que aconteceu em 1969 em consequência da
revolução: a sua perda de influência política. O regime de Kadhafi reagiu
marginalizando a região cirenaica e negligenciando-a, o que, em câmbio,
originou ainda mais ódio entre o Leste e Oeste do país. A Cirenaica não era a
única parte do país que tinha sentido a mão pesada da desaprovação do regime.
Também a Jabal Nafusa, região onde reside a população berbere da Líbia, estava
sujeita à discriminação, já que o regime se recusava a reconhecer qualquer
heterogeneidade cultural. O próprio Exército líbio ' exterior às forças
especiais de segurança interna ' também era hostil ao regime devido às
restrições que lhe eram impostas de modo a evitar um golpe militar e por causa
do desprezo de que era alvo por parte do regime desde a derrota líbia no Chade
em 1987. Neste contexto, o que interessa reter é que cada um destes grupos
representava uma base potencial de surgimento de movimentos contra o regime,
desde que algum deles pudesse ser convencido de que era possível derrubá-lo.
O segundo factor tinha a ver com as três grandes crises internas que o regime
tinha sofrido, duas das quais na região leste e a outra na importante tribo
Warfalla no Centro-Oeste da Líbia. Esta última crise teve lugar quando foi
descoberto um plano golpista na cidade de Bani Walid contra o líder líbio (na
verdade, o coronel Kadhafi nunca teve nenhuma posição formal no seio do Estado
líbio, embora dirigisse o movimento do Comité Revolucionário). Entre os líderes
do golpe incluía-se um grande número de membros da tribo Warfalli, que até esse
momento se considerava ser leal ao regime. Depois do golpe, o regime tentou,
sem sucesso, persuadir os chefes das tribos a denunciarem o plano e a
sancionarem a execução dos golpistas. Depois disso, os Comités Revolucionários
atacaram algumas facções tribais, o que proporcionou ao regime a sua inimizade
permanente.
Depois, em 1996, seguindo ordens do chefe de segurança, Abdullah al-Sanussi, os
guardas da prisão de Abu Sulaim, em Trípoli, onde eram detidos os prisioneiros
políticos, esmagaram um motim, causando 1300 mortes. Ao fim de muitos anos, o
regime acabou por admitir o que tinha acontecido e prometeu compensar as
famílias das vítimas, embora nenhuma tenha sido paga. O facto de os familiares
das vítimas terem ousado manifestar-se foi um indicador da fraqueza potencial
do regime devido à sua impopularidade, e o reconhecimento dos eventos na prisão
confirmava essa percepção. Mais ou menos pela mesma altura, eclodiu um
escândalo em Benghazi relacionado com a infecção de 413 crianças com o VIH/sida
no hospital geral principal de Benghazi. Embora o regime tenha tentado culpar
cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano, por fim teve de aceder a
libertá-los e repatriá-los para a Bulgária, em vez de os executar, que era o
plano inicial para acalmar a população de Benghazi, revoltada com o incidente.
Isto veio trazer mais um contributo para a impopularidade generalizada em
relação ao regime, e mostrava que, apesar do seu estilo bombástico, ele era
vulnerável às pressões externas e, portanto, estava enfraquecido.
Por fim, o segundo filho do coronel Kadhafi, Saif al-Islam, veio, sem querer,
reforçar a ideia de que a capacidade de domínio do regime estava a perder força
e que a sua hegemonia no poder podia ser posta em causa. No final do regime de
sanções de Lockerbie, que foi levantado em Abril de 1999 quando o regime
entregou dois líbios acusados do atentado para serem julgados num tribunal
especialmente designado para o efeito na Holanda, Saif al-Islam começou a fazer
pressão para se proceder a reformas internas na Líbia, apelando ao respeito
pelos direitos humanos, a uma reforma da economia para encorajar o sector
privado e a uma nova estrutura política. O seu pai parecia satisfeito por ele
se ensaiar nas águas políticas, mas refreou-o sempre que o seu entusiasmo
parecia exceder-se. Em todo o caso, as suas iniciativas fizeram nascer a
esperança entre os líbios de que se estivesse a preparar algum tipo de
liberalização, especialmente quando o líder mandou reunir um comité para
esboçar uma nova constituição para o Estado. O projecto nunca chegou a ver a
luz do dia, mas o simples facto de estas coisas poderem ser discutidas
encorajava a crença de que o domínio do regime estava a enfraquecer à medida
que uma nova geração começava a tentar disputar o poder.
Assim, quando as espantosas transformações nos cenários políticos da Tunísia e
do Egipto tiveram lugar, já havia expectativas na Líbia, e aqueles
acontecimentos foram vistos como um presságio do futuro. O regime previu
potenciais distúrbios e fez saber que não iria tolerar manifestações. Enquanto
isso, o coronel Kadhafi repudiou publicamente o afastamento de Zine El-Abdine e
de Hosni Mubarak do poder. Também concluiu a libertação dos restantes membros
islamitas do GLIL, como mostra de confiança. Estas movimentações coincidiram
com uma decisão tomada por um corajoso grupo de advogados que pretendia exigir
mais compensações para as famílias das vítimas do massacre da prisão em 1996. O
regime recebeu informações acerca desse plano e deteve o advogado principal,
Fathi Tarbel, e um escritor bastante conhecido, Idris al-Mismari, a 5 de
Fevereiro de 2011. Em contrapartida, essa jogada acabou por originar uma
manifestação pública em Benghazi dois dias depois, o que constituía um
impressionante sinal acerca das percepções de fraqueza do regime, especialmente
porque dois dos seus homens fortes ' Abdullah Sanussi e Sa'adi al-Kadhafi, o
terceiro filho do dirigente líbio ' se tinham dirigido àquela cidade para
reprimir quaisquer manifestações. As tropas de segurança dispararam sobre a
multidão e em seguida deu-se um desenlace que ainda hoje permanece envolto em
mistério: um destacamento do Exército líbio em Benghazi apoiou abertamente os
manifestantes.
Por sua vez, estes acontecimentos levaram ao colapso do moral do regime na
cidade: Abdullah Sanussi e Sa'adi al-Kadhafi fugiram. O ministro da Justiça,
Mustapha Abdeljalil, e o ministro da Administração Interna, Abdulfattah al-
Obidi, ambos oriundos da Cirenaica, montaram, juntos ' aparentemente com o
apoio tribal ' um órgão administrativo temporário: o Conselho Nacional de
Transição Interino. Desde 17 de Fevereiro este órgão, uma mistura de
intelectuais urbanos, antigos guerrilheiros islamitas, profissionais seculares
e líderes tribais, continuou a guiar o proto-Estado de ruptura que emergiu na
Cirenaica. Com a ajuda da NATO, depois da decisão do Conselho de Segurança das
Nações Unidas no sentido de proteger a população civil da Líbia, este órgão e o
exército de cidadãos por ele dirigido tem conseguido manter ao largo as forças
profissionais do coronel Kadhafi, enquanto outras revoltas têm irrompido em
Misurata e em Jabal Nafusa para disputar o poder com os políticos que restam da
Jamahiriya, agora centrada em Sirt, no coração do território da tribo
Qadhadhfa, e em Trípoli.
O que é mais notório na experiência da Líbia é o facto de o regime ter perdido
o controlo de metade do seu território tão rapidamente. Mas na realidade o
poder na Líbia é predominantemente uma questão de território. A população da
Líbia está esmagadoramente concentrada em torno de duas cidades, Trípoli e
Benghazi, separadas por centenas de quilómetros de deserto. Por isso, perder o
controlo de uma delas é perder o controlo efectivo de metade do país. É esse
aspecto, juntamente com o facto de o regime líbio ser tão fortemente
personalizado em torno da figura do seu líder, e de nunca terem sido feitas
concessões ao movimento da autocracia liberalizada, que explica uma tão rápida
perda de controlo. A isso há que acrescentar o modo como, durante a década
passada, o regime procedeu a retiradas estratégicas que revelavam as suas
fraquezas. E estas eram tão acentuadas que o regime poderia fragmentar-se
quando os verdadeiros desafios chegassem.
A grande diferença entre as experiências da Tunísia e do Egipto, por um lado, e
a da Líbia, por outro, deve-se ao facto de neste último caso não haver um
Estado-sombra para ser preservado, porque o regime era também a sua face
visível. Em contrapartida, na Tunísia o partido único abandonou o Presidente
numa tentativa mal-sucedida de preservar o seu poder, e no Egipto o Exército
abandonou o seu Presidente numa tentativa bem-sucedida de preservar os seus
interesses.
EM RESUMO
Dado o facto de, exceptuando a Argélia e Marrocos, onde foram evitadas grandes
transformações políticas, as transições nos restantes países do Norte de África
estarem longe de concluídas, parece-nos pouco adequado terminar este debate com
uma conclusão. Ainda não podemos saber quais serão os resultados finais das
experiências dos últimos seis meses, a não ser para reconhecermos que se deram
mudanças paradigmáticas. Parece-nos provável que a Tunísia venha a alcançar
algum tipo de resultado democrático, ao passo que no Egipto o melhor que se
pode esperar é uma versão mais liberal de uma autocracia liberalizada. E na
Líbia, onde muito do futuro depende das atitudes do mundo exterior, os
resultados são bastante incertos: um Estado dividido, uma democracia (e de que
tipo?) ou o retorno à autocracia, todas elas são possibilidades em aberto.
No entanto, há duas notas finais a juntar a esta análise que requerem uma
atenção especial. A primeira refere-se ao papel desempenhado e a desempenhar
pelo islão político relativamente ao que está a acontecer; e a segunda tem a
ver com a importância dos novos «media sociais» nos acontecimentos a que
assistimos. De certa forma, é mais fácil responder à segunda questão do que à
primeira, porque a facilidade de comunicação ' e consequentemente, de
organização ' proporcionada pelos telemóveis e pela internet tem sido inegável.
Mas, ao contrário do que têm sugerido alguns observadores, não foi um factor
determinante. Ou seja, nem a tecnologia dos telemóveis nem a internet ' quer se
trate do Twitter ou do Facebook ' foram essenciais para o sucesso das
manifestações na Tunísia ou no Egipto. Com efeito, em ambos os países os dois
tipos de serviço foram bloqueados pelas autoridades durante, pelo menos, parte
do período das manifestações, o que não fez abrandar de forma alguma o seu
crescimento.
Seja como for, talvez as antigas tecnologias tenham sido mais importantes,
especialmente a televisão por satélite, que é universalmente acessível e muito
mais difícil de bloquear, facto que os regimes aprenderam à sua própria custa.
O quadro n.º 6 (cf. p. 114) apresenta os níveis de penetração e utilização da
internet em 2008, mas a penetração do telemóvel é, de um modo geral,
significativamente maior ' 76 por cento na Tunísia e 40 por cento no Egipto,
por exemplo ' embora não seja claro se estes indicadores reflectem a
possibilidade de ligação à internet. Normalmente, a maioria dos utilizadores
prefere números pré-pagos e não usa telemóveis com possibilidade de ligação à
internet. Para além disso, tal como Johnny Ryan demonstrou, a internet pode ser
muito profícua porque é capaz de gerar uma muito maior ligação entre os seus
utilizadores, mas também sofre de um fenómeno conhecido como «beta perpétuo»,
ou seja, a possibilidade de os utilizadores modificarem a informação que
recebem faz com que a informação veiculada seja potencialmente pouco fiável59.
Além disso, os regimes conseguem interromper o acesso à internet e podem também
ir gradualmente contestando a informação que ela fornece se explorarem a sua
flexibilidade e a sua fecundidade.
A questão islamita é muito mais ambígua porque, até se darem os acontecimentos
recentes, assumia-se, de um modo geral, pelo menos nos estados ocidentais, que
a alternativa mais provável aos regimes em vigor era o islão político.
Acreditava-se que os movimentos islâmicos eram os mais bem organizados e que
tinham um programa definido para assumir o governo caso os regimes acabassem
por cair. Além disso, havia uma crença generalizada de que os regimes islâmicos
moderados serviriam de porta de entrada para os extremistas nos países em
causa. As autocracias regionais, claro está, tinham interesse em alimentar esse
ponto de vista, e eram muito bem-sucedidas nos seus intentos, porque assim
garantiam o apoio ocidental, especialmente após o 11 de Setembro de 200160. À
vista dos acontecimentos ocorridos, estas preocupações acabaram por se mostrar
infundadas: enquanto movimentos formais, os islamitas moderados tiveram pouca
participação nas revoluções do Norte de África. Houve seguramente indivíduos
envolvidos no planeamento dos eventos no Egipto durante o Movimento 6 de Abril,
mas a Irmandade Muçulmana propriamente dita não participou.
Também se viu que o argumento, muito apoiado na UE, segundo o qual os moderados
servem apenas para facilitar a entrada dissimulada dos extremistas, não tinha
fundamentos. De um modo geral, os extremistas consideram que os moderados
traíram o ideal islâmico, facto que a guerra civil na Argélia durante os anos
1990 veio demonstrar com toda a clareza. Para além disso, as próprias
manifestações não revelaram grandes reivindicações a favor da instauração de um
governo islamita: as principais exigências dos manifestantes estavam
relacionadas com o fim dos regimes, o fim da corrupção, a participação política
e o respeito pelas liberdades e pelos direitos individuais. É claro que o islão
formava o pano de fundo social do que aconteceu e condicionou muito do
discurso, mas a sua manifestação especificamente política não foi uma
componente explícita das reivindicações dos manifestantes.
Apesar disso, o islão político não pode ser excluído do cenário que se irá
delineando no rescaldo das manifestações. Primeiramente, os movimentos
políticos islamitas são as formações políticas mais bem organizadas nos países
em análise, e estão sintonizados com o ambiente geral cultural e social. É de
esperar que a Irmandade Muçulmana obtenha um terço dos votos em qualquer
eleição no Egipto. Na Tunísia, a An-Nahda reconstituiu-se rapidamente, e é
provável que venha a auferir de um nível de apoio semelhante ao da Irmandade
Muçulmana. Portanto, é inevitável que eles acabem por formar parte de qualquer
sistema democrático que venha a emergir destes acontecimentos. Em segundo
lugar, os movimentos islamitas em ambos os países já deixaram bem claro que não
desejam desempenhar nenhum papel político dominante em nenhum sistema político
que venha a surgir, e estão preparados para respeitar o pluralismo como
princípio político fundamental. Em terceiro lugar, no Egipto, pelo menos, a
Irmandade Muçulmana criou uma aliança informal com o Exército, que é quem agora
domina a administração interina, enquanto prepara o terreno para novas eleições
presidenciais e legislativas.
Naturalmente, os resultados eleitorais são muito difíceis de prever com
segurança, mas parece haver boas razões para confiarmos na insistência dos
manifestantes num futuro democrático e no compromisso dos actores envolvidos no
sentido de respeitarem os resultados do escrutínio. Uma das ironias dos últimos
meses residiu no facto de o sistema criado para preservar os regimes
autocráticos se ter tornado o mecanismo através do qual eles acabaram por ser
derrubados, apesar do cepticismo generalizado de que isso pudesse alguma vez
acontecer.
O que o futuro trará ao certo ainda não é claro. Em qualquer caso, enquanto o
mundo exterior aceitar o princípio democrático, terá de respeitar, juntamente
com as populações do Norte de África, os resultados eleitorais, sejam eles
quais forem, por mais agradáveis ou desagradáveis que possam parecer.
Tradução: Jorge Filuzeau Garcia
NOTAS
1 EBADI, Shirin ' Iran Awakening: One Woman's Journey to Reclaim her Life and
Country. Nova York: Random House, 2006, p. 33. Shirin Ebadi refere-se ao efeito
do incêndio no cinema Abadan em 1978, no qual 400 pessoas morreram, e que
serviu de rastilho político para fazer explodir os protestos em massa que
acabariam por levar à queda do xá no início de 1979.
2 O termo tem origem em Thomas Kuhn (KUHN, Thomas ' The Structure of Scientific
Revolution. Chicago: University of Chicago Press, 1962, 1969, p. 150), que
argumentava que, na ciência, o progresso tem lugar através de mudanças radicais
em estruturas de interpretação. Além disso, essas alterações são
incomensuráveis ' a nova estrutura de significado não pode ser interpretada à
luz da sua antecessora. Este conceito tem sido aplicado desde então às ciências
sociais e políticas, embora a exigência da incomensurabilidade não se aplique,
na medida em que diferentes estruturas de significado podem coexistir, e
coexistem de facto, e as novas estruturas podem ser interpretadas de acordo com
as antigas.
3 TALEB, Nassim Nicholas, e BLYTH, Mark ' «The Black Swan of Cairo: how
suppressing volatility makes the world less predictable and more dangerous». In
Foreign Affairs. Vol. 90, N.º 3, Maio-Junho de 2011, pp. 33-39.
4 O conceito de complexidade versus linearidade tem sido amplamente teorizado
nas relações internacionais em termos de teoria do caos e teoria da catástrofe
(BOSQUET, Antoine, e CURTIS, Simon ' «Beyond models and metaphors: complexity
theory, systems thinking and international relations». In Cambridge Review of
International Affairs. Vol. 24, N.º 1, Março de 2011, pp. 43-63) e têm sido
moldados como paisagens de aptidão (GEYER, Robert, e PICKERING, Steve '
«Applying the tools of complexity to the international realm from fitness
landscapes to complexity cascades». In Cambridge Review of International
Affairs. Vol. 24, N.º 1, Março de 2011, pp. 5-27) ou como complexos sistemas de
crises adaptativas (LEHMANN, Kai ' «Crisis foreign policy as a process of self-
organization». In Cambridge Review of International Affairs. Vol. 24, N.º 1,
Março de 2011, pp. 27-43).
5 TALEB, Nassim Nicholas, e BLYTH, Mark ' «The Black Swan of Cairo: how
suppressing volatility makes the world less predictable and more dangerous»,
p. 33.
6 Ibidem, p. 38.
7 BRUMBERG, Daniel ' «The trap of liberalized autocracy». In Journal of
Democracy. Vol. 13, N.º 4, Outubro de 2002, pp. 56-68.
8 ZAKARIA, Fareed ' «The rise of illiberal democracy». In Foreign Affairs. Vol.
76, N.º 6, Novembro-Dezembro de 1997, pp. 22-43.
9 Brumberg defende que entre a década de 1980 e os anos 2000 se deu uma
transição de afastamento e de regresso ao autoritarismo, assente em aberturas
políticas tácticas com o propósito de manter as autocracias em vez de as
transformar. Este fenómeno foi mal interpretado pelos agentes da oposição na
região e pelas potências externas como se se tratasse de um equilíbrio, por
inerência, instável que daria lugar à democracia competitiva. Em vez disso, as
autocracias liberalizadas que foram criadas, ao contrário das autocracias que
não fizeram quaisquer concessões às diferentes sensibilidades políticas,
tiveram uma muito maior longevidade do que alguma vez se imaginou.
Efectivamente, a combinação do pluralismo conduzido, com eleições controladas e
repressão selectiva não foi «apenas uma estratégia de sobrevivência dos regimes
autoritários, mas sim um tipo de sistema político cujas instituições, regras e
lógica desafiam qualquer modelo linear de democratização.» (BRUMBERG, Daniel '
«The trap of liberalized autocracy», p. 56).
10 FAO ' Global Food Price Monitor. Roma, 14 de Janeiro de 2011. [Consultado
em: 29 de Abril 29 de 2011]. Disponível em: http://www.fao.org/news/story/en/
item/50519/icode/
11 UNITED STATES ENERGY INFORMATION AGENCY (USEIA) ' Short-term Energy and
Summer Fuels Outlook. Washington DC, 12 de Abril de 2011. [Consultado em: 29 de
Abril de 2011]. Disponível em http://www.eia.doe.gov/steo/
12 N. do T. ' BIRD, sigla de Banco Internacional para a Reconstrução e o
Desenvolvimento.
13 O Processo de Barcelona ' mais correctamente conhecido como Parceria Euro-
Mediterrânica ' é uma política holística que cria laços entre os países da
costa sul do Mediterrâneo e a União Europeia, com o propósito de criar «paz,
prosperidade e estabilidade» na região mediterrânica através de uma combinação
de medidas partilhadas no âmbito económico, social, político e de segurança. No
terreno económico, encara a criação de zonas bilaterais de comércio livre de
bens industriais entre a Europa e os países envolvidos, de modo a estimular o
desenvolvimento e, a prazo, a integração de mercados através da concorrência
entre o sector privado europeu e os sectores privados dos países da costa sul
do Mediterrâneo. O Processo de Barcelona surgiu na sequência dos pacotes
bilaterais de estimulação económica que a UE foi promovendo junto desses países
desde 1969. O Processo de Barcelona deu agora lugar a duas iniciativas
políticas mais recentes (ou passou a integrá-las) ' a Política Europeia de
Vizinhança (2002) e a União para o Mediterrâneo (2009) ' mas os princípios
económicos subjacentes são comuns a todas as políticas envolvidas [cf. JOFFÉ,
George ' «The European Union and North Africa». In ADEBAJO, Adekeye, e
WHITEMAN, Kaye (eds.) ' The EU and Africa: from Eurafrique to Afro-Europa.
Londres: Hurst and Co., 2011].
14 CIA (2000-2011), The World Factbook, Egypt, Washington D.C. [Consultado em:
27 de Abril de 2011]. Disponível em: https://www.cia.gov/library/publications/
the-world-factbook
15 Um aspecto importante destes efeitos globais foi o facto de eles já terem
tido lugar no Norte de África e noutras regiões do Médio Oriente em 2008. Mas
nessa altura não provocaram ameaças à estabilidade política dos regimes
envolvidos. Em 2008 a crise do preço dos alimentos tinha sido causada pela
subida do preço do petróleo ' a agricultura é um consumidor intensivo de
energia ', a especulação sobre o preço das mercadorias, a seca na Rússia e na
Austrália, o aumento das exigências de importação da China e da Índia, e a
expansão repentina da produção de biocombustível, especialmente nos Estados
Unidos (JOFFÉ, George ' «Energy and food security in the Mediterranean». In
JOFFÉ, George, ALLAL, Samir, e ALLAL, Houda Ben Jannet ' Energy and Global
Economic Crisis: The Chances for Progress. «Ten Papers for Barcelona», n.º EU-
ISS/IeMed, Paris-Barcelona, 2009). A crise dos preços em 2010, no entanto,
parece ter sido, para além das causas mencionadas em relação a 2008, o primeiro
indicador da redução das colheitas de cereais em resultado das alterações
climáticas (Guardian, 5 de Maio de 2011).
16 Reuters (8 de Janeiro de 2011). [Consultado em: 2 de Maio de 2011].
Disponível em: http://www.reuters.com/article/2011/_01/08/us-algeria-riots-
idUSTRE7053EL20110108
17 Reuters (19 de Fevereiro de 2011). [Consultado em: 2 de Maio de 2011].
Disponível em: http://www.reuters.com/article/_2011/02/19/morocco-riots-
idUSLEDE_71108K20110219
18 JOFFÉ, George ' «Morocco's reform process: wider implications». In
Mediterranean Politics. Vol. 14, N.º 2, Julho de 2009, pp. 151-165.
19 ZAKARIA, Fareed ' «The rise of illiberal democracy», p. 24.
20 FUKUYAMA, Francis ' «The end of history?». In The National Interest. N.º 16,
Verão de 1989.
21 Segundo ele, o mundo desenvolvido era agora «grotiano, respeitando normas de
cooperação, e talvez até [com o seu] elemento kantiano: uma sociedade civil de
sociedades civis». No entanto, fora deste enfoque ideal normativo, «há partes
do mundo para além daquele que ainda são hobbesianas, onde a força se mantém
como um árbitro final muito activo no interior dos países e na sua relação com
os outros, e onde a soberania ainda é proclamada em alto e bom som» (ROBERTS,
Adam ' «A new age in International Relations?». In International Affairs. Vol.
67, N.º 3, Julho de 1991, p. 519).
22 HUNTINGTON, Samuel ' «The clash of civilisations». In Foreign Affairs. Vol.
72, N.º 3, Verão de 1993.
23 HAYEK, Friedrich ' New Studies in Philosophy, Politics, Economics and the
History of Ideas. Londres: Routledge & Keegan-Paul, 1978, p. 152.
24
ZAKARIA, Fareed ' «The rise of illiberal democracy», p. 30.
25 Ibidem, p. 26.
26 BRUMBERG, Daniel ' «The trap of liberalized autocracy», pp. 56-57.
27 Ibidem, p. 59.
28 Ibidem, p. 61.
29 Entre as quais se contam o fenómeno das ONGG ' as Organizações Não
Governamentais Governamentais ' segundo o qual as ONG têm de estar registadas
junto do Estado!
30 BRUMBERG, Daniel ' «The trap of liberalized autocracy», p. 63.
31 BRUMBERG, Daniel ' «Democratization versus liberalization in the Arab world:
dilemmas and challenges for US foreign policy». SSI Monographs, Strategic
Studies Institute, Julho de 2005, p. 1.
32 JOFFÉ, George ' «The European Union, democracy and counter-terrorism in the
Maghrib». Journal of Common Market Studies. Vol. 46, N.º 1, Janeiro de 2008,
pp. 147-171.
33 Tal como foi relatado pela BBC: news.bbc.co.uk/2/hi/4109902.htm. Acedido a
13 de Maio de 2011.
34 JOFFÉ, George ' «Morocco's reform process: wider implications».
35 ROBERTS, Hugh ' «The state and the challenge of democracy». In ROBERTS, H. '
The Battlefield: Algeria 1988'2002. Studies in a Broken Polity. Londres: Verso,
2003, p. 113.
36 SPIEGEL, Avi M. ' «Islamist pluralism: youth, activism and the state in
Morocco». Tese de doutoramento, não publicada. Oxford: Universidade de Oxford,
2009; Waterbury, J. ' The Commander of the Faithful: the Moroccan Political
Elite. Londres: Weidenfeld & Nicolson, 1970.
37 HASSAN, Hamdy A. ' «Civil society in Egypt under the Mubarak regime». In
Afro-Asian Journal of Social Sciences. Vol. 2, N.º 2.2, Quarter II, 2011.
[Consultado em: 11 de Maio de 2011]. Disponível em: http://
onlineresearchjournals.com/aajoss/art/61.pdf
38 ALEXANDER, Christopher ' Tunisia: Stability and Reform in the Modern
Maghreb. Londres: Routledge, 2010, pp. 64-66.
39 ST. JOHN, Ronald Bruce ' Libya: From Colony to Independence. Oxford:
Oneworld, 2008, pp. 258-260.
40 Cf. BOURDIEU, Pierre ' Outline of a Theory of Practice. Cambridge: Cambridge
University Press, e BOURDIEU, Pierre ' The Logic of Practice.Cambridge: Polity
Press, 1990 acerca da relação entre agência e estrutura.
41 BROWNLEE, Jason ' «The decline of pluralism in Mubarak's Egypt». In Journal
of Democracy. Vol. 13, N.º 4, Outubro de 2002, p. 7.
42 ROBERTS, Hugh ' «The struggle for constitutional rule in Algeria». In
Journal of Algerian Studies. N.º 3, 1998, pp. 22-23.
43 ALEXANDER, Christopher ' Tunisia: Stability and Reform in the Modern
Maghreb, p. 40.
44 YOM, Sean ' «Authoritarian state-building in the Middle East: from
durability to revolution». In CDDRL Working Paper. N.º 121. Califórnia:
Stanford University, Fevereiro de 2011. O único Estado norte-africano que não
criou esse tipo de espaço ' a Líbia ' excluía formalmente quaisquer
organizações políticas ou sociais autónomas, de acordo com a Lei 71 de 1972.
Como consequência, as únicas organizações que se assemelhavam mais a entidades
autónomas no Estado líbio sem Estado eram as tribos e os últimos atávicos da
revolução líbia de 1969, como o Sindicato dos Oficiais Livres, que eram
marginalizados e desprovidos de poder numa autocracia total ' que era, com
efeito, o Estado patrimonial perfeito (BILL, James, e SPRINGBORG, Robert '
Politics in the Middle East. Glenview Illinois: Little Brown, 1990).
45 N. do T. ' contentious politics, no original.
46 TARROW, Sidney ' Power in Movement: Social Movements and Contentious
Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
47 SCHMIDT, Catherine, DAVAR, Elisha, e JOFFÉ, George ' «The psychology of
political extremism». In Cambridge Review of International Affairs. Vol. 18,
N.º 1, Abril de 2005.
48 WIKTOROWICZ, Quintan (ed.) ' Islamic Activism: A Social Movement Theory
Approach. Bloomington e Indianápolis: Indiana University Press, 2004, p.
8.
49 WIKTOROWICZ, Quintan (ed.) ' Islamic Activism: A Social Movement Theory
Approach, p. 10.
50 SPIEGEL, Avi M. ' «Islamist pluralism: youth, activism and the state in
Morocco».
51 Cf. WIKTOROWICZ, Quintan (ed.) ' Islamic Activism: A Social Movement Theory
Approach, p. 16. Isto incluiria também o slogan «Islão é a solução» como
mecanismo de rejeição de ideologias alternativas, quer fossem vistas como
secularistas ou como importações culturais e políticas do estrangeiro.
52 JOFFÉ, George ' «Politics in the Muslim world: Morocco, Iran and Indonesia».
In GRAHAM, L. E. (ed.) ' The Politics of Governing: A Comparative Introduction.
Washington DC: CQ Press, 2006.
53 ALEXANDER, Christopher ' Tunisia: Stability and Reform in the Modern
Maghreb, pp. 64-65.
54 Ibidem, p. 66.
55 Ibidem, p. 98.
56 OWEIDAT, Nadia, BENARD, Cheryl, STAHL, Dale, KILDANI, Walid, O'CONNELL,
Edward, e GRANT, Aura K. ' The Kefaya Movement: A Case Study of a Grassroots
Reform Initiative. Arlington, Virgínia: Rand National Defense Research
Institute, 2008, pp. vii-ix. [Consultado em: 12 de Maio de 2011]. Disponível
em: www.rand.org/pubs/monograph/2008/RAND_MG778.pdf
57 OBEIDI, Amal ' Political Culture in Libya. Londres: Curzon Press, 2001,
pp. 159-161.
58
EL-FATHALY, Omar I., e PALMER, Monte ' Political Development and Social Change
in Libya. Lexington: Lexington Books, 1980, pp. 75-90.
59
RYAN, Johnny ' A History of the Internet and the Digital Future. Londres:
Reaktion Books, 2010, pp. 137-150.
60
JOFFÉ, George ' «Morocco's reform process: wider implications».
APÊNDICE: MIGRAÇÃO E FLUXOS DE INVESTIMENTO
Este apêndice apresenta pormenores sobre a migração e os fluxos de investimento
no Norte de África, enquanto medidas da crise económica patente na região e
como indicação das implicações que o colapso económico poderia ter para a
Europa. Os dados estatísticos são todos obtidos a partir de uma publicação do
Banco Mundial, editada em 2010 pela divisão da região MENA da organização. Os
dados mostram que em 2005 a taxa média de desemprego em toda a região era de 17
por cento.