O Atlântico esvaziado
O Atlântico esvaziado
Luís Pais Bernardo
Licenciado em História pela FCSH'UNL. Mestrando em Política Comparada no
ICS'UL.
Henrique Raposo
Um mundo sem europeus ' Barack Obama entre o fim do eurocentrismo e o novo
ocidente
Lisboa, Guerra & Paz, 2010, 376 páginas.
Em Portugal, a divulgação científica, no campo das relações internacionais, tem
conhecido, recentemente, um impulso significativo. O consenso em relação às
propriedades estruturais complexas emergentes da interacção internacional,
aliado ao crescimento maciço da quantidade de informação disponibilizada pela
internet, tem contribuído para exponenciar o crescimento de uma riquíssima área
editorial. A edição de Um Mundo sem Europeus ' Barack Obama entre o Fim do
Eurocentrismo e o Novo Ocidenteinsere-se nesse movimento. Henrique Raposo,
enquanto académico e cronista, procura, num registo pedagógico e narrativo,
alertar a elite intelectual europeia ' o público-alvo do volume em análise '
contra a tentação de um «suicídio intelectual» (cap. VIII), que não permitiria,
à eurocracia, «percepcionar» (sic) a ascensão asiática na sua dimensão «real».
Ou seja, enquanto redefinição discursiva e normativa das representações do
poder, enquanto modelo de acção política, redistribuição do poder e capacidade
coerciva aferível com base em indicadores mensuráveis. Em suma, a ascensão
normativa e estratégica da Ásia é, para o autor, o grande evento e a grande
questão estrutural e estratégica do século XXI; aqueles que não compreendem e
aceitam esta representação do sistema internacional e respectivas propriedades
estruturais pertencem à obsoleta escola pós-estatal habermasiana. A Europa
está, portanto, condenada à irrelevância.
Escavar a república e redescobrir os pilares da comunidade internacional
Um Mundo sem Europeusestá dividido em duas partes. Na primeira, o autor procura
discutir os pilares institucionais da República americana, estabelecendo uma
dicotomia simplista entre dois paradigmas, corporizados no institucionalismo
conservador de Alexander Hamilton e no idealismo revolucionário de Thomas
Jefferson e Thomas Paine. Raposo defende que a política externa americana é uma
função do primado de Hamilton; o realismo conservador permeia, a seu ver, o
processo de tomada de decisões relativo à presença americana na comunidade
internacional. A existência de uma confederação kantiana transpacífica, dada a
presença do Japão e da Índia, torna manifesta a necessidade de recentrar o
debate em torno da política externa americana, matizando a relevância do
neoconservadorismo e das questões securitárias na produção de política externa.
Conclui-se, portanto, que o autor não comunga da perspectiva estrutural-
realista. De facto, «a política externa de um qualquer Estado só é
compreensível quando estudamos a história desse mesmo Estado, sendo que esse
estudo é feito de variáveis qualitativas (e aronianas) bem precisas» (p. 72).
Assim, o desenho de investigação de Raposo propõe-se identificar variáveis
independentes, de carácter qualitativo, que expliquem as tomadas de decisão em
torno das opções de conduta externa da República americana. Em seguida, através
de uma longa dissertação na área da história das ideias, procura identificar os
caracteres matriciais da arquitectura política dos Estados Unidos que explicam
a resposta americana à ascensão da Ásia.
Na segunda parte, o autor procura desenvolver a ideia dúplice de que o
eurocentrismo, com a transferência do centro de gravidade da comunidade
internacional para o Pacífico, é uma mundivisão datada e, acima de tudo,
perigosa, porque impõe limites epistemológicos graves aos decisores europeus.
Além disso, a existência de uma confederação kantiana com membros no Pacífico e
no Índico demonstra, de igual modo, que está em curso uma reconfiguração
geográfica do conceito de «Ocidente». A Ásia, enquanto gigante renascido, exige
um lugar cimeiro nas estruturas de governo da globalização e a legitimação da
sua mundividência normativa. Vivemos num mundo pós-atlântico e transpacífico.
O tema dominante da obra é a tensão entre dois paradigmas. A «constelação pós-
nacional», constructo de Jürgen Habermas, conflitua, na opinião de Raposo, com
o pensamento estratégico da power politicsrealista. De acordo com o filósofo
alemão, as questões de segurança, transnacionais e porosas, que têm ocupado a
agenda mediática e política, devem ser desposicionadas pelas questões
estratégicas, nomeadamente as associadas à ascensão da Ásia (a qual, de acordo
com o enquadramento analítico do autor, parece limitar-se a uma parcela da
Índia, do Japão e da Oceânia). A Europa tem de voltar às considerações
estratégicas e à macropolítica estatal.
Etiquetas realistas e modelos idealistas
Um Mundo sem Europeusrecicla uma tese relativamente banal. A Ásia está em
ascensão e, enquanto os decisores europeus se atarefam a discutir questões
securitárias de curto e médio alcance, os Estados Unidos perseguem o seu
verdadeiro manifest destinyatravés da aproximação às potências asiáticas em
ascensão.
A obra denota problemas sérios na falta de precisão, esquematismo e
enviesamento bibliográfico com que apresenta e sustenta os seus argumentos.
No que respeita à imprecisão, referimo-nos à tensão artificial, criada pelo
autor, entre o mundo ideativo e o mundo empírico, duas esferas supostamente
estanques e destrinçáveis. O idealismo patente na primeira parte de Um Mundo
sem Europeusonde não se apresenta uma teoria empírica da mudança institucional
que explique, de forma convincente, os reposicionamentos constantes da política
externa americana, parece-nos demasiado tributária de Platão, Berlin ou
Collingwood. Transparece uma tendência psicologizante, contrabalançada por um
ímpeto materialista que leva o autor a enumerar estatísticas aleatórias (i.e.,
pp. 68-70), com o intuito de ilustrar «factos», por oposição a «opiniões».
Ainda que uma tal dicotomização funcione dentro de um paradigma neopositivista,
o autor afirma-se explicitamente adepto de uma perspectiva pós-positivista, que
releva a importância das representações e da construção discursiva da
legitimidade sistémica. Mas o autor persiste numa tensão artificiosa que se
torna aborrecida, dados os limites auto-impostos.
Esta deficiência analítica parece-nos mais grave devido ao tom moralizante e
sobranceiro do autor, fértil em expressões arrasadoras [«A globalização [ ]
está a desenvolver uma fase asiática, a reboque dos biliões de capitalistas
chineses e indianos» (p. 68); «E, convém dizê-lo, estas elites não-europeias
estão absolutamente certas» (p. 183); «A mente eurocêntrica trabalha sempre a
partir destas datas [1989 e 2001]» (p. 205); «Os europeus vivem numa mentira»
(p. 249)]. Assim, Um Mundo sem Europeusnão sustenta, de forma convincente ou
inovadora, a noção de que é necessária mais uma obra acerca da ascensão da Ásia
e de que a mesma representa, na verdade, uma revolução kuhniana traída pela
estupidez dos europeus decadentes; é imprecisa na formulação dos conceitos e
manifesta dificuldades na fase do desenho de pesquisa e na recolha
bibliográfica, já que, de acordo com Henrique Raposo, todos os outros autores
parecem cometer erros óbvios e gravosos. Não encontramos uma definição clara de
comunidade, sociedade ou sistema internacional, poder (ou uma discussão das
várias acepções deste conceito difuso), polaridade ou legitimidade; não é
discutida a importância da complexidade emergente que decorre da multiplicação
de agentes num sistema fechado (falha grave, dado que já existe uma literatura
significativa nesta área). O autor manifesta duas certezas inabaláveis: o mundo
é pós-atlântico e rejeitou o eurocentrismo como narrativa. Ainda que a
realidade pareça menos legível do que Henrique Raposo pretende.
O esquematismo da obra é evidenciado pela necessidade de recurso a dicotomias
simplistas. A divisão clara entre aqueles que estão certos ' adeptos da grande
estratégia, da unipolaridade transpacífica e da confederação kantiana ' e
errados ' adeptos do securitarismo habermasiano, da multipolaridade acêntrica e
da constelação pós-estatal ' é, claramente, o tema mais relevante desta obra,
ainda que o autor pretenda discutir uma putativa transição paradigmática. Além
disso, a representação dos mundos transatlântico e transpacífico como
mutuamente exclusivos denota uma percepção mecânica da distribuição e produção
de poder no contexto internacional. Essa é a única conclusão a tirar de um
título como Um Mundo sem Europeus, onde a unipolaridade lega, aos Estados
Unidos, um carácter imanente.
O problema mais sério da obra, na nossa opinião, é o enviesamento resultante da
selecção bibliográfica de suporte. Ainda que, num contexto de divulgação, o
rigor científico seja necessariamente negociável, a inexistência de qualquer
referência a escolas epistemológicas do campo disciplinar das relações
internacionais, como o construtivismo e o neo-gramscianismo, que têm abordado
questões próximas àquelas que Raposo discute, especialmente no que concerne à
construção social do poder e da legitimidade, é difícil de entender. Além,
refira-se, de autores clássicos e heterodoxos como André Gunder Frank ' o qual,
no seu último volume, desconstrói a ideia de uma ascensão asiática (dado que a
Ásia nunca teria descendido da posição cimeira no sistema-mundo); o novo
institucionalismo, em ciência política, tem contributos específicos a dar, na
área da produção de política externa. Quanto à questão do eurocentrismo, uma
plêiade infindável de estudos pós-coloniais, a nível discursivo, e esforços
multilaterais descentrados tem demonstrado, desde há mais de uma década, a
falência dessa narrativa. Em conclusão, o fantasma eurocêntrico de Henrique
Raposo existe, apenas, enquanto recurso estilístico e retórico.
Os europeus ainda estão vivos
A publicação do estudo de um autor português, em relações internacionais, que
pretende produzir macroteoria, à imagem de Braudel, McNeill, Toynbee ou
Zakaria, é louvável e merece um elogio. Contudo, a produção académica que
pretende obter resultados através da contestação acrítica a uma suposta
narrativa dominante incorre, inevitavelmente, no risco de se tornar banal e
inconsequente. Um Mundo sem Europeusnão é um policy paperou um manual; é,
apenas, mais um estudo pouco conseguido em torno da reconfiguração e
redistribuição do poder no século XXI, que necessita de várias revisões e maior
abertura epistemológica, se vier a tornar-se no tomo ambicionado pelo autor.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt