Paulo Freire e a Educação Superior
Paulo Freire e a Educação Superior
José Eustáquio Romão
Sempre entendi que a relação de Paulo Freire com a Educação Superior foi tão
importante quanto sua relação com a Educação de Adultos (EA) - pela qual
se tornou mais conhecido em todo o mundo - e com os demais graus de
educação, regular e não regular, porque, quando examinado com mais cuidado e
profundidade, o legado do autor de Pedagogia do oprimido, ou seja, os
fundamentos, princípios e propostas metodológicas freirianos aplicam-se a
qualquer tipo de reflexão ou de intervenção educacionais.
No entanto, da parte das instituições de Educação Superior (IES), especialmente
das universidades, esta relação nem sempre foi muito conectiva, na medida em
que, como tenho dito e escrito, "Paulo Freire não penetrou na
Universidade a não ser como epígrafe de teses e de publicações, bem como de
denominação de salas, bibliotecas e auditórios". Além disso, salvo as
exceções que confirmam a regra, a maioria dos intelectuais considera que o
educador pernambucano foi um "intuitivo genial", mas que suas
teorias "não são lá muito científicas e que, hoje, ele estaria
superado" sem jamais ter sido devidamente aplicado.
Inicialmente, imaginei que esta indiferença quase olímpica pelo pensamento
freiriano fosse provocada pelo fato de ele não ter sido, em vida, muito a favor
do credencialismo imperante nas IES corporativizadas, nem ser portador de
títulos acadêmicos regulares, como graduação em educação, mestrado e doutorado.
Paulo Freire cursou direito, já adulto e, mesmo assim, não se dedicou à
profissão, conforme a deliciosa história que ele mesmo contava sobre sua
desistência de advogar na primeira causa. Porém, com o passar dos anos, fui
percebendo que, talvez, as razões, eram certamente outras, uma vez que Paulo
Freire foi agraciado com dezenas de títulos de doutor honoris causa por
universidades dentre as mais prestigiadas do mundo.
Parece que as verdadeiras razões estão relacionadas com alguns dos princípios
desenvolvidos pelo educador pernambucano e que incomodaram (e incomodam
intelectuais e acadêmicos em geral. Dentre esses princípios, eu destacaria o
que se refere à vantagem epistemológica dos(as) oprimidos(as). Segundo Paulo
Freire, nas relações de opressão, emergem os atores históricos (não naturais,
portanto) opressor(a) e oprimido(a). Afirma ainda que somente os oprimidos e
oprimidas em se libertando é que libertarão, também, seus opressores(as). Estes
(as), ocupados em oprimir e apropriar-se de tudo, não libertam quem quer que
seja, nem a si próprios(as). Ora, em se concordando com esta afirmação e
estendendo-a ao universo mais amplo das relações humanas, poder-se-ia concluir
que o pensamento humano só se liberta e avança em relação ao conhecimento
instituído, quando os(as) oprimidos(as) logram avançar com seu conhecimento,
universalizando-o. Em suma, o "conhecimento oprimido" teria uma
vantagem gnosiológica e epistemológica em relação à "ciência"
hegemônica e opressora.
Com isso, não queria dizer que os(as) oprimidos(as) sempre construirão um
pensamento libertador e mais avançado, já que, na maioria das vezes, são
"hospedeiros" de seus opressores(as) - como gostava de dizer
Paulo Freire -,alienados pelas categorias da visão de mundo dos
opressores(as). Portanto, como Marx, entendia que, nas sociedades
hierarquizadas, as classes dominadas pensam, em geral, como as classes
dominantes, seja porque aspiram viver como seus algozes, seja porque são
convencidos pelos argumentos de que eles estão com a razão, dado seu sucesso.
"É natural que o mundo seja assim dividido e hierarquizado em classes
sociais superiores e subalternas", pensam os (as) oprimidos(as),
naturalizando as relações histórico-sociais e caindo no fatalismo. Porém, em
contextos sociais em crise, as contradições afloram e se explicitam para a
maioria dos atores sociais e potencializam a capacidade de os(as) oprimidos(os)
pensarem com sua "consciência possível" e, não apenas, com sua
"consciência real" carregada de conceitos, categorias e valores
espúrios, impostos pelos grupos dominantes - Paulo Freire extraiu os dois
conceitos de consciência de Lucien Goldmann, a quem ele aconselha-nos a ler em
Pedagogia do oprimido. Certamente por isso, as revoluções científicas não serem
tão frequentes, porque, em geral, a cultura dos(as) opressores(as) domina, por
largos espaços de tempo, a cultura dos(as) oprimidos(as).
A convicção de que a "ciência normal", para usar o conceito de
Thomas Kuhn na Estrutura das revoluções científicas(São Paulo: Perspectiva,
1985), só pode ser superada por uma construção gnosiológica e epistemológica
contra-hegemônica dos(as) dominados(as) parece ser suficiente para que Paulo
Freire seja, no mínimo, alvo de um desdém dos arautos da educação superior
cientificista, acadêmica e credencialista.
No entanto, examinando a história da ciência, das artes, das religiões, enfim
de todo o "processo civilizatório", há fortes indícios de que Paulo
Freire tinha razão, não por reflexões intuitivas primitivas, mas por uma
elaboração altamente sofisticada e, portanto, necessária nos currículos das
universidades.
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